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Numero do processo: 10980.921392/2012-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Dec 05 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/01/2005
BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. IMPOSSIBILIDADE.
O STF fixou a tese: O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS, no RE n° 574.706 (DJ 02/10/2017), em repercussão geral. A existência de precedente firmado sob o regime de repercussão geral pelo Plenário do STF autoriza o imediato julgamento dos processos com o mesmo objeto, independentemente do trânsito em julgado do paradigma.
STJ, RESP Nº 1144469/PR. RECURSO REPETITIVO. JUÍZO DE RETRATAÇÃO.
Em 13/03/2017 transitou em julgado o REsp nº 1144469/PR, proferido pelo STJ sob a sistemática de recursos repetitivos, que firmou a seguinte tese: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendo-se à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações. Com base no RE n° 574.706, o STJ realinhou o posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e COFINS, afastando a aplicação do REsp 1.144.469/PR, julgado como recurso repetitivo. Precedentes: AgInt no REsp nº 1.355.713, AgInt no AgRg no AgRg no Ag, em RESp 430.921 - SP e EDcl nos EDcl no AgRg no Ag 1063262/SC.
Recurso Parcialmente Provido
Numero da decisão: 3301-006.757
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições devendo a Unidade de Origem apurar o valor do crédito, vencidos os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Salvador Cândido Brandão Junior e Winderley Morais Pereira, que votaram por negar provimento ao recurso. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10980.910736/2012-05, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira Presidente e Relator
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Marco Antonio Marinho Nunes, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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INCLUSÃO DO ICMS. IMPOSSIBILIDADE. O STF fixou a tese: “O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS”, no RE n° 574.706 (DJ 02/10/2017), em repercussão geral. A existência de precedente firmado sob o regime de repercussão geral pelo Plenário do STF autoriza o imediato julgamento dos processos com o mesmo objeto, independentemente do trânsito em julgado do paradigma. STJ, RESP Nº 1144469/PR. RECURSO REPETITIVO. JUÍZO DE RETRATAÇÃO. Em 13/03/2017 transitou em julgado o REsp nº 1144469/PR, proferido pelo STJ sob a sistemática de recursos repetitivos, que firmou a seguinte tese: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendo-se à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações”. Com base no RE n° 574.706, o STJ realinhou o posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e COFINS, afastando a aplicação do REsp 1.144.469/PR, julgado como recurso repetitivo. Precedentes: AgInt no REsp nº 1.355.713, AgInt no AgRg no AgRg no Ag, em RESp 430.921 - SP e EDcl nos EDcl no AgRg no Ag 1063262/SC. Recurso Parcialmente Provido Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições devendo a Unidade de Origem apurar o valor do crédito, vencidos os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Salvador Cândido Brandão Junior e Winderley Morais Pereira, que votaram por negar provimento ao recurso. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10980.910736/2012-05, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 92 13 92 /2 01 2- 51 Fl. 54DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 Winderley Morais Pereira – Presidente e Relator Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Marco Antonio Marinho Nunes, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9/6/15, com redação dada pela Portaria MF nº 153, de 17/4/18. Dessa forma, adoto os seguintes excertos do relatório constante do Acórdão nº 3301-006.729, proferido no âmbito do processo n° 10980.910736/2012-05, paradigma deste julgamento: Trata o processo de manifestação de inconformidade apresentada em face do indeferimento do pedido de restituição constante do Per/Dcomp, nos termos do despacho decisório emitido pela DRF Curitiba/PR. . No aludido Per/Dcomp, a contribuinte pleiteou a restituição, que corresponde a uma parte do pagamento de PIS, sob o código 2172. Segundo o despacho decisório, a restituição foi indeferida porque o pagamento indicado para dar suporte ao pleito encontrava-se totalmente alocado ao débito de PIS(2172) do período de apuração correspondente. Na manifestação apresentada, a contribuinte, após relatar os fatos e discorrer sobre a legislação, diz que não há autorização para incluir na base de cálculo do PIS e da Cofins “o valor pago a título de ICMS, visto que tal valor constitui ônus fiscal e não faturamento.” Afirma que o ICMS não é receita da empresa e pede o reconhecimento do direito à restituição. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento negou provimento a manifestação de inconformidade. A decisão foi assim ementada: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/10/2002 a 31/10/2002 RESTITUIÇÃO. CRÉDITO INEXISTENTE. Comprovado nos autos que o crédito pleiteado foi integralmente utilizado pela contribuinte na extinção de débitos de sua responsabilidade, indefere-se o pedido de restituição. EXCLUSÃO DO ICMS DA BASE DE CÁLCULO. Incabível a exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo do PIS ou da Cofins, pois aludido valor é parte integrante do preço das mercadorias e dos serviços prestados, exceto quando referido imposto é cobrado pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de substituto tributário, o que não consta ser o caso da interessada. Irresignada com a decisão, a Recorrente interpôs recurso voluntário, repisando as alegações apresentadas na manifestação de inconformidade. É o relatório. Fl. 55DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. Da admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele conheço. Das razões recursais Tendo que o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, ao presente recurso aplica-se o decidido no Acórdão nº 3301-006.729, paradigma ao qual está vinculado. : Ressalte-se, por pertinente, que a decisão do paradigma foi contrária ou meu entendimento pessoal quanto à matéria em litígio. Porém, ao presente processo deve ser aplicado o entendimento que prevaleceu no colegiado, nos termos do voto vencedor do acórdão paradigma, a seguir transcrito: “No Recurso Extraordinário n° 574.706-PR, discutiu-se o conceito jurídico-constitucional de faturamento ou receita, base de cálculo das contribuições, nos termos do art. 195, I, “b”, da Constituição Federal, incluído pela Emenda Constitucional n° 20/1998. O texto constitucional, em sua redação originária, estabelecia a incidência das contribuições sobre “o faturamento”. Após a EC nº 20/98, a incidência se dá sobre “a receita ou o faturamento”. Em apertada síntese, as alegações voltaram-se à existência de direito líquido e certo de excluir o ICMS da base de cálculo do PIS e da COFINS, uma vez que faturamento seria o somatório da receita obtida com a venda de mercadorias ou a prestação de serviços, não se podendo admitir a abrangência de outras parcelas que escapam a essa estrutura e, o ICMS não representaria patrimônio/riqueza da empresa (princípio da capacidade contributiva), mas sim ônus fiscal ao qual as empresas estão sujeitas. O STF reconheceu a repercussão geral da matéria em 16/05/2008. Concluído o julgamento, foi dado provimento ao recurso extraordinário, nos termos do voto da Relatora Ministra Cármen Lúcia, proferido na Sessão de 9 de março de 2017. O acórdão foi publicado no Diário de Justiça de 02/10/2017. Assim, o STF fixou a tese: “O ICMS não compõe a base de cálculo para fins de incidência do PIS e da COFINS”. Restou a ementa assim redigida: Fl. 56DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DO PIS E COFINS. DEFINIÇÃO DE FATURAMENTO. APURAÇÃO ESCRITURAL DO ICMS E REGIME DE NÃO CUMULATIVIDADE. RECURSO PROVIDO. 1. Inviável a apuração do ICMS tomando-se cada mercadoria ou serviço e a correspondente cadeia, adota-se o sistema de apuração contábil. O montante de ICMS a recolher é apurado mês a mês, considerando-se o total de créditos decorrentes de aquisições e o total de débitos gerados nas saídas de mercadorias ou serviços: análise contábil ou escritural do ICMS. 2. A análise jurídica do princípio da não cumulatividade aplicado ao ICMS há de atentar ao disposto no art. 155, § 2º, inc. I, da Constituição da República, cumprindo-se o princípio da não cumulatividade a cada operação. 3. O regime da não cumulatividade impõe concluir, conquanto se tenha a escrituração da parcela ainda a se compensar do ICMS, não se incluir todo ele na definição de faturamento aproveitado por este Supremo Tribunal Federal. O ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS. 3. Se o art. 3º, § 2º, inc. I, in fine, da Lei n. 9.718/1998 excluiu da base de cálculo daquelas contribuições sociais o ICMS transferido integralmente para os Estados, deve ser enfatizado que não há como se excluir a transferência parcial decorrente do regime de não cumulatividade em determinado momento da dinâmica das operações. 4. Recurso provido para excluir o ICMS da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS. O voto da Relatora Ministra Cármen Lúcia foi acompanhado pelos Ministros Marco Aurélio, Rosa Weber, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello. Foram vencidos os Ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, os quais votaram pela constitucionalidade da exação, mantendo o ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. O voto condutor da Ministra Cármen Lúcia adotou o entendimento do STF, expresso nos RE n° 346.084, 358.273, 357.950 e 390.840, no sentido de que faturamento é “receita bruta de vendas e de serviços.” Como precedente da tese fixada no acordão em comento, cita a Relatora também o Recurso Extraordinário n° 240.785, de relatoria do Ministro Marco Aurélio, no qual o STF fixou a exclusão do ICMS da base de cálculo da COFINS: TRIBUTO – BASE DE INCIDÊNCIA – CUMULAÇÃO – IMPROPRIEDADE. Não bastasse a ordem natural das coisas, o arcabouço jurídico constitucional inviabiliza a tomada de valor alusivo a certo tributo como base de incidência de outro. COFINS – BASE DE INCIDÊNCIA – FATURAMENTO – ICMS. O que relativo a título de Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e a Prestação de Serviços não compõe a base de incidência da Cofins, porque estranho ao conceito de faturamento. (RE 240785, Relator Ministro MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, DJe 16.12.2014) Ao interpretar o RE n° 240.785, a Ministra apontou que: a- tributos não devem integrar a base de cálculo de outros tributos e b- a base de cálculo Fl. 57DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 da Cofins, constitucionalmente prevista, não comporta a inclusão de receita de terceiros, como é o caso do ICMS, de competência dos Estados. Assim, o ICMS não constitui receita do contribuinte, ainda que contabilmente seja escriturado, pois tem como destinatário fiscal a Fazenda Pública Estadual, para a qual será transferido. Ressalte-se que na decisão não houve modulação de efeitos. O requerimento de modulação feito pela PGFN, na tribuna, foi no sentido de que a decisão somente surta efeitos a partir de janeiro de 2018. Entretanto, como consignou a Relatora Ministra Cármen Lúcia, nos autos nada constava sobre a modulação, já que a empresa obteve provimento em primeira instância, perdeu em segunda instância e, no seu recurso extraordinário, logrou-se vencedora. Todavia, entenderam os Ministros que a modulação poderia ser suscitada por embargos de declaração. Posteriormente, foram interpostos os embargos de declaração pela Fazenda Nacional, em 19/10/2017, apontando a existência de contradição, obscuridade, erro material e omissão e, pleiteando efeitos infringentes. A PGFN requereu a modulação dos efeitos da decisão embargada, para que produza efeitos ex nunc, apenas após o julgamento dos embargos. Ademais, reitera o pedido de sobrestamento de todos os processos pendentes sobre a matéria, até o trânsito em julgado. Até a data do julgamento deste processo administrativo, não houve qualquer manifestação do STF quanto à modulação. Segundo o art. 14 do Novo CPC/15, a norma processual se aplica imediatamente aos processos em curso: Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada. Dispõe também o Novo CPC/15 que os recursos não suspendem a eficácia das decisões, tampouco a propositura de Embargos de Declaração: Art. 995. Os recursos não impedem a eficácia da decisão, salvo disposição legal ou decisão judicial em sentido diverso. Parágrafo único. A eficácia da decisão recorrida poderá ser suspensa por decisão do relator, se da imediata produção de seus efeitos houver risco de dano grave, de difícil ou impossível reparação, e ficar demonstrada a probabilidade de provimento do recurso. Fl. 58DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 Art. 1.026. Os embargos de declaração não possuem efeito suspensivo e interrompem o prazo para a interposição de recurso. § 1 o A eficácia da decisão monocrática ou colegiada poderá ser suspensa pelo respectivo juiz ou relator se demonstrada a probabilidade de provimento do recurso ou, sendo relevante a fundamentação, se houver risco de dano grave ou de difícil reparação. Diante das prescrições do novo CPC, os tribunais judiciais têm aplicado imediatamente o entendimento do STF: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. JUÍZO DE RETRATAÇÃO. ART. 543-B DO CPC/1973. RE 574.796/PR. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS. APELAÇÃO PROVIDA. 1. Instado o incidente de retratação em face do v. acórdão recorrido, em observância ao entendimento consolidado pelo C. Supremo Tribunal Federal no julgamento do mérito do Recurso Extraordinário com repercussão geral reconhecida RE n° 574.796/PR. 2. O Plenário do E. Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 574.796/PR, publicado em 02.10.2017, por maioria e nos termos do voto da Relatora, Ministra Cármen Lúcia (Presidente), apreciando o tema 69 da repercussão geral, firmou entendimento no sentido de que "O ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da Cofins". 3. Efetuado o juízo de retratação, nos termos do artigo 543-B, § 3º, do CPC/1973, para dar provimento à apelação da impetrante. (TRF 3, Apel. 0020471-95.1993.4.03.6100, DJ 21/12/2017) CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. LITISPENDÊNCIA NÃO CONFIGURADA. SENTENÇA ANULADA. JULGAMENTO DO MÉRITO. ART. 1013, § 3º, DO NCPC. PIS. COFINS. BASE DE CÁLCULO. ICMS. INCLUSÃO INDEVIDA. REPERCUSSÃO GERAL. STF. (1). 1. Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada quando se reproduz ação anteriormente ajuizada, existindo entre elas identidade de partes, causa de pedir e pedido. Não identificada a tríplice identidade, porque diferentes os pedidos, a litispendência não pode ser invocada como justa causa para extinção do feito sem resolução do mérito. 2. Anulada a sentença e encontrando-se a relação processual devidamente formada, inexistindo necessidade de produção de outras provas e não vislumbrando qualquer prejuízo ou cerceamento de defesa de qualquer das partes, é possível a apreciação do mérito, nesta instância recursal, nos termos do disposto no art. 1013, § 3º, do CPC/2015. 3. O Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Recurso Extraordinário 574.706 pela sistemática da repercussão geral, firmou a tese de "o ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da COFINS". (RE 574706 RG, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA, julgado em 15/03/2017). 4. Especificamente em relação à Lei 12.973/2014 se encontra consolidado o entendimento no sentido de a ampliação do conceito do faturamento não alterou o conceito de base de cálculo sobre a qual incide o PIS e a COFINS, tanto mais diante da consolidada a jurisprudência da Suprema Corte, a quem cabe o exame definitivo da matéria constitucional, no sentido da inconstitucionalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. Precedentes. 5. Apelação provida, para anular a sentença e, prosseguindo no julgamento, nos termos do art. 1013, § 3º, do CPC/2015, julgar procedente o pedido. (TRF 1, Apel. 0011389-06.2017.4.01.3400/DF, DJ 01/12/2017). Fl. 59DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 Quanto à aplicação dessa decisão em sede de processo administrativo, dispõe o § 2º, do art. 62 do RICARF, o seguinte: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 - Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) A aplicação do RE n° 574.706 – RG nos processos administrativos, enquanto não houver o trânsito em julgado, é questão muito debatida. Isso porque dispõe o § 2º, do art. 62 do RICARF, o seguinte: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 - Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Nos termos do art. 62, caput do RICARF, é vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Tal vedação é também prescrita pela Súmula n° 2 do CARF: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. O CARF vem negando a aplicação da decisão do RE n° 574.706, socorrendo-se da aplicação do REsp n° 1.144.469/PR, o qual já está transitado em julgado. Todavia, não me parece o melhor fundamento, porquanto o STJ realinhou o posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e COFINS, afastando a aplicação do REsp 1.144.469/PR, julgado em recurso repetitivo. Confira-se: AgInt no RECURSO ESPECIAL Nº 1.355.713 – SC, DJ 24/08/2017: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO DA CONTRIBUIÇÃO. ICMS. INTEGRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. I – Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II – O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 674.706/PR, em que foi reconhecida a repercussão geral da matéria em exame, concluiu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao Fl. 60DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS. III – Esta Corte realinhou o posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e COFINS. IV – A Agravante não apresenta argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. V – Agravo Interno improvido. Consta no voto da Ministra Regina Helena Costa: Entretanto, possui razão a Agravada, acerca da não inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 574.706/PR, em que foi reconhecida a repercussão geral da matéria em exame, concluiu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo do PIS e da COFINS. Na esteira de entendimento do Supremo Tribunal Federal, esta Corte realinhou o posicionamento para reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo da contribuição para o PIS e da COFINS. O STJ, por unanimidade, negou provimento ao agravo interno, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho, AgInt no AgRg no AgRg no Ag, em RESp 430.921 – SP, DJ 07/11/2017: TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DO ICMS. RECENTE POSICIONAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL (RE 574.706/PR). AGRAVO INTERNO DA FAZENDA NACIONAL DESPROVIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça reafirmou seu posicionamento anterior, ao julgar o Recurso Especial Repetitivo 1.144.469/PR, em que este Relator ficou vencido quanto à matéria, ocasião em que a 1a. Seção entendeu pela inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS (Rel. p/acórdão o Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJe 2.12.2016, julgado nos moldes do art. 543-C do CPC). 2. Contudo, na sessão do dia 15.3.2017, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, julgando o RE 574.706/PR, em repercussão geral, Relatora Ministra CÁRMEN LÚCIA, entendeu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do Contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo dessas contribuições, que são destinadas ao financiamento da Seguridade Social. 3. Agravo Interno da Fazenda Nacional desprovido. E ainda, o AgInt nos EDcl nos EDcl no AgRg no Ag 1063262/SC, DJ 24/08/2017: TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. O ICMS INTEGRA A BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. MANUTENÇÃO DAS SÚMULAS 68 E 94 DO STJ. RESP 1.144.469/PR, REL. MIN. NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, REL. P/ ACÓRDÃO O MIN. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJE 2.12.2016, JULGADO SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC. RECENTE POSICIONAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL (RE 574.706/PR) EM SENTIDO CONTRÁRIO. AGRAVO INTERNO DA EMPRESA PROVIDO PARA DAR PARCIAL PROVIMENTO AO AGRAVO. 1. O Superior Tribunal de Justiça reafirmou seu posicionamento anterior, ao julgar o Recurso Especial Repetitivo 1.144.469/PR, em que este Relator ficou vencido quanto à matéria, ocasião em que a 1a. Seção entendeu pela inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS (Rel. p/acórdão o Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJe 2.12.2016, julgado Fl. 61DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 nos moldes do art. 543-C do CPC). 2. Contudo, na sessão do dia 15.3.2017, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, julgando o RE 574.706/PR, em repercussão geral, Relatora a Ministra CÁRMEN LÚCIA, entendeu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo dessas contribuições, que são destinadas ao financiamento da seguridade social. 3. O REsp. 1.144.469/PR tratou, ainda, da incidência do ICMS no PIS/COFINS repassados a terceiro, verifica-se que neste ponto não há divergência quanto à matéria (item 12 da ementa - REsp. 1.144.469/PR, Rel. Min. NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Rel. p/acórdão Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, 1a. Seção, DJe 2.12.2016). Assim, não assiste razão à parte agravante quanto a este ponto. 4. Agravo Interno da empresa provido para dar parcial provimento ao Agravo e reconhecer que o ICMS não integra a base de cálculo do PIS/COFINS. (AgInt nos EDcl nos EDcl no AgRg no Ag 1063262/SC, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 04/04/2017, DJe 19/04/2017). Ademais, o art. 927, III c/c art. 928, II do CPC/15 prescrevem que os juízes e os tribunais obrigatoriamente observarão o julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos. Com isso, a não aplicação da decisão judicial “repetitiva” (com teor de precedente) no processo administrativo viola o monopólio da última palavra pelo STF, em matéria de interpretação constitucional. Por conseguinte, estando o acórdão do RE n° 574.706 RG desprovido de causa suspensiva, tal situação se coaduna com a prescrição do RICARF que exige a condição de “decisão definitiva de mérito” para ser aplicada obrigatoriamente pelos Conselheiros. Inclusive, recentemente, o STJ se manifestou no sentido da obrigatoriedade da aplicação do decisum, independentemente do trânsito em julgado (AgInt no Agravo em Recurso Especial nº 282.685 – CE, DJ 27/02/2018): TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO DO ICMS. RECENTE POSICIONAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL (RE 574.706/PR). AGRAVO INTERNO DA FAZENDA NACIONAL DESPROVIDO. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RE 574.706/PR, em repercussão geral, Relatora Ministra CÁRMEN LÚCIA, entendeu que o valor arrecadado a título de ICMS não se incorpora ao patrimônio do Contribuinte e, dessa forma, não pode integrar a base de cálculo dessas contribuições, que são destinadas ao financiamento da Seguridade Social. 2. A existência de precedente firmado sob o regime de repercussão geral pelo Plenário do STF autoriza o imediato julgamento dos processos com o mesmo objeto, independentemente do trânsito em julgado do paradigma. Precedentes: RE 1.006.958 AgR-ED-ED, Rel. Min. DIAS TOFFOLI, Dje 18.9/2017; ARE 909.527/RS-AgR, Rel Min. LUIZ FUX, DJe de 30.5.2016. 3. Agravo Interno da Fazenda Nacional desprovido. Fl. 62DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 3301-006.757 - 3ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10980.921392/2012-51 Em suma, entendo que a aplicação do RE n° 574.706 é obrigatória. Ressalte-se que não fora exigido do contribuinte a comprovação na sua escrituração contábil do direito creditório alegado, restringindo- se o Despacho Decisório à matéria de direito. Por conseguinte, cabe ao contribuinte comportar à unidade de origem a liquidez e certeza do direito creditório defendido.” Conclusão Do exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário.” Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, aplicando-se a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por dar parcial provimento ao recurso voluntário, para afastar a inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições, devendo a Unidade de Origem apurar o valor do crédito. (documento assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira – Relator Fl. 63DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10920.721515/2011-80
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 11 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Dec 10 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA
Data do fato gerador: 16/08/2006
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO.
Comprovada a importação por conta e ordem de terceiros com ocultação dolosa do real interessado, e tendo sido a mercadoria não localizada ou consumida, correta aplicada a multa por conversão da pena de perdimento prescrita no Decreto-Lei no 1.455/1976, art. 23, inciso V e § 3o.
MULTA POR CESSÃO DE NOME. ACOBERTAMENTO DO REAL ADQUIRENTE. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. PROCEDÊNCIA
A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
Numero da decisão: 3001-001.005
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Marcos Roberto da Silva - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Luis Felipe de Barros Reche - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcos Roberto da Silva (Presidente), Francisco Martins Leite Cavalcante e Luis Felipe de Barros Reche.
Nome do relator: LUIS FELIPE DE BARROS RECHE
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ementa_s : ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Data do fato gerador: 16/08/2006 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. Comprovada a importação por conta e ordem de terceiros com ocultação dolosa do real interessado, e tendo sido a mercadoria não localizada ou consumida, correta aplicada a multa por conversão da pena de perdimento prescrita no Decreto-Lei no 1.455/1976, art. 23, inciso V e § 3o. MULTA POR CESSÃO DE NOME. ACOBERTAMENTO DO REAL ADQUIRENTE. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. PROCEDÊNCIA A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
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OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE NA IMPORTAÇÃO. Comprovada a importação por conta e ordem de terceiros com ocultação dolosa do real interessado, e tendo sido a mercadoria não localizada ou consumida, correta aplicada a multa por conversão da pena de perdimento prescrita no Decreto-Lei n o 1.455/1976, art. 23, inciso V e § 3 o . MULTA POR CESSÃO DE NOME. ACOBERTAMENTO DO REAL ADQUIRENTE. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. PROCEDÊNCIA A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Marcos Roberto da Silva - Presidente (documento assinado digitalmente) Luis Felipe de Barros Reche - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Marcos Roberto da Silva (Presidente), Francisco Martins Leite Cavalcante e Luis Felipe de Barros Reche. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 72 15 15 /2 01 1- 80 Fl. 183DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Trata o presente processo de lide instaurada pela contribuinte em decorrência da aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias submetidas a despacho aduaneiro de importação, com base no art. 23, § 3 o do Decreto-Lei n o 1.455/76, com a redação dada pelo art. 59 da Lei n o 10.637/02. A aplicação da penalidade decorreu da comprovação, pela fiscalização aduaneira, da utilização fraudulenta de interposta pessoa para a realização de operação de importação. Por economia processual e por relatar a realidade dos fatos de maneira clara e concisa, reproduzo o relatório da decisão de piso: “Trata o presente processo de auto de infração lavrado para exigência de crédito tributário no valor de R$ 21.253,01 referente a multa equivalente ao valor aduaneiro de mercadorias importadas. prevista no § 3º do artigo 23 do Decreto-lei nº 1.455/1976, com a redação dada pelo artigo 59 da Lei nº 10.637/2002. Depreende-se da descrição dos fatos do auto do Relatório Fiscal que integra o auto de infração que a interessada registrou a Declaração de Importação nº 06/0973159-3, em 16/08/2006, para amparar a importação de rádios e licenças de software, na qual informou ser a importadora e adquirente das mercadorias. Submetida a procedimento de fiscalização e intimada a apresentar documentos, a interessada apresentou a fatura comercial 101339 a qual é endereçada à empresa Ravew Consultoria em Telecomunicações. Verificou-se que a totalidade das mercadorias importadas foram revendidas à empresa "Ravew", conforme notas fiscais de entrada nº 00255 e de saída nº 00256. Questionada sobre o local de armazenagem das mercadorias após o desembaraço aduaneiro, a interessada informou que foram armazenadas no estabelecimento da empresa "Ravew". Intimada a demonstrar a origem dos recursos empregados na importação a interessada informou que os recursos utilizados foram oriundos de pagamentos antecipados dos clientes, e que a Polytrade não tinha recursos para bancar o desembaraço das importações e, que, portanto, os clientes encomendavam e pagavam antecipadamente. O Balancete Analítico da empresa "Ravew" apresenta um crédito relativo a adiantamento de importações em andamento efetuados à empresa Polytrade Com e Exp Ltda. Documento denominado "demonstrativo financeiro" apresenta todos os encargos financeiros envolvidos na importação, desde os valores das mercadorias e dos tributos devidos até o controle dos valores já adiantados pela empresa Ravew e dos valores ainda devidos à Polytrade. Constatou-se que a empresa Ravew, à data da importação, não possuía habilitação no Siscomex para operar no comércio exterior. Conclui-se assim, que a operação de importação ocorreu por conta e ordem da empresa Ravew, que detinha a capacidade econômica para fazer vir do exterior as mercadorias e que adiantou os recursos à empresa Polytrade para que a operação se concretizasse, burlando os controles aduaneiros da Receita Federal, pois a empresa Ravew restou oculta na operação de forma simulada. Os documentos apresentados no curso do despacho aduaneiro não expressam a verdade sobre a transação comercial efetuada. Assim, a fatura comercial e o conhecimento de transporte instrutivos do despacho de importação devem ser considerados ideologicamente falsos. Considerando que as mercadorias já haviam sido consumidas, foi lavrado auto de infração para exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas, nos termos do §3º do art. 23 do Decreto-lei nº 1.455/1976, pela caracterização do dano ao Erário pela hipótese prevista no inciso V do mesmo art. 23 do Decreto-lei nº1.455/1976, com a redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637/2002. Fl. 184DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 A empresa Ravew Consultoria e Serviços em Telecomunicações Ltda foi autuada na condição de responsável solidária, nos termos dos artigos 32, parágrafo único, inciso III, 94 e 95, do Decreto-lei nº 37/1966, regulamentados pelos artigos 602 e 603 do Decreto nº 4.543/2002 vigente à data dos fatos. Cientificadas da autuação, a empresa Polytrade Comercial e Exportadora Ltda apresentou impugnação na qual alega, em síntese, que: Que a fiscalização noticia a ocorrência de fatos que ensejaram a interposição fraudulenta na operação de importação realizada pela impugnante, sendo aplicada multa proporcional ao valor aduaneiro das mercadorias - 100% (cem por cento) - qual soma a monta de R$ 21.253,01. A acusação de que teria ocorrido interposição fraudulenta de terceiros está calcada em meras presunções, pois as conclusões foram tomadas a partir de meros indícios e suposições, não fatos reais. Os pagamentos ao exportador foram realizados pela própria impugnante, conforme contrato de câmbio. Todos os documentos que ampararam a importação, tais como comprovantes de importação, commercial invoice, packing list e protocolo de liberação de mercadoria, todos sem qualquer erro, rasura ou indício de fraude, esclarecem que a transação efetuada se deu pela impugnante. Desses documentos se constata que a negociação das mercadorias importadas foi efetivamente realizada pela impugnante. A única exceção ao ônus da prova da fiscalização na hipótese de interposição fraudulenta é a presunção tão-somente na hipótese de não ser comprovada a origem, disponibilidade e transferência de recursos empregados. A impugnante possui indiscutível capacidade financeira para realizar as operações de importação por conta própria, ao contrário do que quer fazer crer a fiscalização, inexistindo, no caso em tela, qualquer tentativa de fraude ou simulação mediante a interposição fraudulenta de terceiros. O art. 33 da Lei nº 11.488/2007 prevê a aplicação de multa de 10% do valor aduaneiro para os casos de cessão de nome da pessoa jurídica para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. Portanto, por ser mais benéfica, essa deveria ser a multa aplicada, nos termos do disposto no art. 112 do Código Tributário Nacional. A fiscalização não observou o princípio da busca da verdade real, aplicando meras presunções. Requer seja tornado nulo o auto de infração, cancelando o crédito tributário ou, alternativamente, seja convertida a multa para 10% nos termos do art. 33 da Lei nº 11.488/2007. A empresa Ravew Consultoria e Serviços em Telecomunicações Ltda foi autuada na condição de responsável solidária, foi cientificada (v. fl. 150/151), todavia não consta dos autos que tenha apresentado impugnação”. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis - SC (DRJ/Florianópolis) considerou, por meio do Acórdão n o 07-42.683 - 1ª Turma da DRJ/FNS (doc. fls. 153 a 161) 1 , improcedente a Manifestação de Inconformidade formalizada, em decisão assim ementada: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 16/08/2006 1 Todas as referências a folhas dos autos pautar-se-ão na numeração estabelecida no processo digital, em razão de este processo administrativo ter sido materializado na forma eletrônica. Fl. 185DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 INFRAÇÃO. SUBSUNÇÃO DOS FATOS À NORMA. PENALIDADE. A subsunção dos fatos à norma legal que prevê a infração determina sua caracterização com consequente aplicação da penalidade prevista. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA CONSUMIDA OU NÃO LOCALIZADA. MULTA IGUAL AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA. Considera-se dano ao Erário a ocultação do real sujeito passivo na operação de importação, mediante fraude ou simulação, infração punível com a pena de perdimento, que é substituída por multa igual ao valor aduaneiro da mercadoria importada caso tenha sido entregue a consumo ou não seja localizada. MULTA POR CESSÃO DE NOME DA PESSOA JURÍDICA. LEI Nº 11.488/2007, ART. 33. PENA DE PERDIMENTO. CONCOMITÂNCIA. A aplicação da multa prevista no art.33 da Lei nº 11.488/2007 não prejudica a aplicação da pena de perdimento da mercadoria ou a aplicação da multa substitutiva à pena de perdimento da mercadoria nos casos de seu consumo, não localização ou revenda. Portanto, não é possível a substituição da multa substitutiva à pena de perdimento pela multa prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” A recorrente apresentou seu Recurso Voluntário (doc. fls. 168 a 180) em 31/10/2018, por meio do qual, basicamente repetindo as alegações de sua Impugnação, contesta a decisão de primeira instância, alegando, em síntese, que: a) ao deduzir que as importações registradas por conta própria teriam ocorrido por conta e ordem da empresa RAVEW, que detinha a capacidade econômica para fazer vir do exterior as mercadorias, a fiscalização não observou o princípio da busca da verdade real, atribuindo à empresa a prática de interposição fraudulenta de terceiros com base em meras presunções, pois as conclusões teriam sido tomadas a partir de meros indícios e suposições e não fatos reais; b) a verificação de que os pagamentos ao exportador foram realizados pela própria recorrente, conforme contrato de câmbio anexado à Impugnação, e que todos os documentos que ampararam a importação (comprovantes de importação, commercial invoice, packing list e protocolo de liberação de mercadoria) não continham qualquer erro, rasura ou indício de fraude esclarecem que a transação efetuada se deu pela empresa; c) possui indiscutível capacidade financeira para realizar as operações de importação por conta própria, ao contrário do que quer fazer crer a fiscalização, inexistindo, no caso em tela, qualquer tentativa de fraude ou simulação mediante a interposição fraudulenta de terceiros; d) os indícios apontados não seriam satisfatórios para caracterização da infração atribuída, “uma vez que não é adequado afirmar que em toda a operação por conta própria deva ocorrer, para ser considerada lícita, vendida para diversos compradores e após um longo período de estocagem, entendimento este incompatível com a dinâmica das operações mercantis” e que “não há na legislação qualquer vedação para que as Fl. 186DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 mercadorias sejam revendidas logo após efetivada a negociação internacional, sendo entendimento isolado do próprio Fisco”; e) é certo que o ordenamento jurídico pátrio veda a imposição de constituição tributária e/ou aplicação de qualquer espécie de sanção sem que haja a regular apuração das infrações, vedando a aplicação por mera presunção, de forma que resta inconteste a nulidade do lançamento, “haja vista que a infração está consubstanciada em meras presunções, em clara e evidente afronta aos princípios constitucionais da legalidade estrita e da verdade material, na medida em que o combatido auto de infração não indica com precisão os fatos e dados que apontam a prática da ocultação de real adquirente, realizando meras deduções para consubstanciar este ilegal lançamento”; f) na DI fiscalizada, a importação foi realizada na modalidade “conta própria”, tendo sido comprovado que a recorrente foi de fato a responsável pelas negociações com o exportador e pelo pagamento de todas as despesas decorrentes da importação e em momento nenhum teria recebido adiantamentos de terceiros ocultos, sendo o contrato de câmbio devidamente fechado pela mesma, com a remessa oficial da quantia respectiva ao exportador, figurando a empresa como única obrigada no referido contrato, bem como em todos os demais documentos relativos à operação de importação; g) “para que o dano ao Erário e a sonegação possam ser caracterizados é necessário identificar a conduta infracional tributária ou financeira, como lesiva ao patrimônio público que a cometeu; o resultado infracional há de ser quantificado e, tanto quanto o imposto, expresso em pecúnia, elemento definidor da intensidade do dano causado e; tal dano ou prejuízo fiscal há de ser constituído no mundo das obrigações e nessa condição ser exigível, além de identificar o sujeito passivo que cometeu”, mas “não houve qualquer DANO AO ERÁRIO, pois conforme extraído das próprias declarações de importação os tributos foram devidamente recolhidos”; h) o recebimento de valores pela recorrente, após praticada a operação de importação por sua conta e risco, decorre do pagamento devido em razão de negócio jurídico mercantil de venda e compra das mercadorias, de forma que o valores pagos pela RAVEW à empresa foram decorrentes de operações mercantis internas; e i) ainda que se considerassem verdadeiros os fatos alegados pelo Fisco, a multa aplicada merece minoração, isto porque, “com a entrada em vigor do comando normativo veiculado no art. 33 da Lei n o 11.488/07, a multa aplicável a quem comete a infração caracterização por interposição fraudulenta no comércio exterior mediante cessão de nome, é equivalente a 10% do valor da operação”, visto que a multa decorrente da conversão da pena de perdimento de bens em operações de comércio exterior, deve afetar apenas o patrimônio do suposto importador oculto, sob pena de violação do princípio da intranscendência da pena. Utilizando-se desses argumentos, busca a recorrente o socorro deste E. Conselho, para, ao final de sua peça recursal, requer: Fl. 187DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 “a) O recebimento do presente recurso Voluntário, na forma do art. 33 do Decreto 70.235/72 pelo órgão competente, para fins de reconhecer a inexistência de amparo legal que sustente à constituição da multa de R$ 21.253,01 (vinte e um mil duzentos e cinquenta e três reais e um centavo), em razão de não ter ficado caracterizada a ocorrência da prática de interposição fraudulenta de terceiros, mediante a ocultação do real adquirente; b) Todavia, caso não seja este o entendimento da r. Autoridade Fiscal, que seja convertida a penalidade de multa de 100% (cem por cento) do valor aduaneiro para 10% (dez por cento), conforme artigo 33 da Lei nº. 11.488/2007, por ser mais benéfica, o qual soma a importância de R$ 2.125,30 (dois mil cento e vinte e cinco reais e trinta centavos) e que, por disposto em lei, passa a ser R$ 5.000,00 (cinco mil reais). c) Seja julgado INSUBSISTENTE o Auto de Infração, bem como determinada a sua ANULAÇÃO e CANCELAMENTO, com o subsequente ARQUIVAMENTO E REGISTRO, para que seja afastada qualquer penalidade ou sanção nos termos vazados nas linhas sucedidas”. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Felipe de Barros Reche, Relator. Competência para julgamento do feito O litigio materializado no presente processo observa o limite de alçada e a competência deste Colegiado para apreciar o feito, consoante o que estabelece o art. 23-B do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF n o 343, de 9 de junho de 2015 2 . Conhecimento do Recurso O Recurso Voluntário interposto é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, de sorte que dele tomo conhecimento. 2 Art. 23-B As turmas extraordinárias são competentes para apreciar recursos voluntários relativos a exigência de crédito tributário ou de reconhecimento de direito creditório, até o valor em litígio de 60 (sessenta) salários mínimos, assim considerado o valor constante do sistema de controle do crédito tributário, bem como os processos que tratem: (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) I - de exclusão e inclusão do Simples e do Simples Nacional, desvinculados de exigência de crédito tributário; (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) II - de isenção de IPI e IOF em favor de taxistas e deficientes físicos, desvinculados de exigência de crédito tributário; e (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) III - exclusivamente de isenção de IRPF por moléstia grave, qualquer que seja o valor. (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) (...) Fl. 188DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Análise da preliminar de nulidade A Recorrente levanta preliminar de nulidade do lançamento, defendendo que a infração estria consubstanciada em meras presunções, em clara e evidente afronta aos princípios constitucionais da legalidade estrita e da verdade material, na medida em que Auto de Infração não teria indicado com precisão os fatos e dados que apontam a prática da ocultação de real adquirente, realizando meras deduções para consubstanciar o ilegal lançamento. Sustenta ainda que o ordenamento jurídico pátrio veda a imposição de constituição tributária e a aplicação de qualquer espécie de sanção sem que haja a regular apuração das infrações, vedando sua aplicação por presunção ou semelhança, pois do conjunto fático e probatório apresentado não evidenciaria qualquer incompatibilidade entre o negócio declarado e o relatado dos fatos na linguagem das provas. Não vejo qualquer vício que possa ter maculado a ação fiscal. Inicialmente, cabe destacar que as nulidades no processo administrativo fiscal, como se sabe, são tratadas nos arts. 59 e 60 do Decreto n o 70.235/72, segundo os quais somente serão declarados nulos os atos na ocorrência de decisões ou despachos lavrados ou proferidos por pessoa incompetente ou dos quais resulte inequívoco cerceamento do direito de defesa à parte (verbis – grifos nossos): “Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio”. Nesses termos, cabe destacar que as nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal são declaradas com vistas a expurgar do mundo jurídico atos que tenham sido executados com vícios formais, ou seja, com ausência de condição ou requisito de forma indispensável à sua validade, ou com preterição do direito de defesa, quando se constata a ocorrência de inequívoco prejuízo à parte no exercício de seu direito de defesa. Assim, se não houver prejuízo às partes pela prática do ato no qual se tenha considerado haver suposta irregularidade ou inobservância da forma, ou ainda o cerceamento do direito de defesa, não há de se falar na sua invalidação. Temos em tela a lavratura de Auto de Infração para a aplicação de penalidade, efetuada por ocupante de cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal, autoridade administrativa que detém a competência privativa para praticar referido ato. A ação fiscal foi conduzida pela fiscalização aduaneira, em observância ao que prescreve a legislação aduaneira, e decorre do monitoramento das operações de comércio exterior ocorridas na unidade local, geralmente Fl. 189DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 mediante a utilização de mecanismos de análise e gestão de risco, a partir dos quais foi apurada a possibilidade de ocorrência da prática de interposição fraudulenta na operação em análise, o que motivou a instauração do procedimento de fiscalização. Além disso, a recorrente foi intimada por diversas vezes a apresentar os documentos e informações de que dispunha, com vistas a comprovar a regularidade das operações de importação, e exerceu com plenitude o seu direito de defesa. Diante do exposto, não vejo qualquer vício formal ou preterição do direito de defesa, de sorte que rejeito a preliminar de nulidade do lançamento. Análise do mérito O que chega neste momento para a apreciação e deliberação deste colegiado é a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro pela conversão da pena de perdimento das mercadorias submetidas a despacho aduaneiro de importação, efetuado com base na Declaração de Importação (DI) n o 06/0973159-3. A DI foi registrada em 16/08/2006, para amparar a importação de equipamentos de telecomunicação e licenças de software supostamente importados pela recorrente em importação direta, mas, de acordo com a Autoridade fiscal, promovida com a ocultação do real adquirente e em descumprimento da legislação aduaneira. Segundo a fiscalização, teria sido comprovada a ocultação, pela recorrente, da real adquirente das mercadorias, a empresa RAVEW Consultoria em Telecomunicações, subsumindo-se então à infração tipificada no inciso V do art. 23 do Decreto-Lei n o 1.455/76. A recorrente por sua vez, em apertada síntese, defende que o lançamento se deu a partir de mera presunções, visto que a importação foi realizada por conta própria, pois: foi de fato a responsável pelas negociações com o exportador e pelo pagamento de todas as despesas da importação; efetuou o pagamento das mercadorias ao exportador com a remessa oficial da quantia respectiva com a utilização de recursos próprios, aparada por contrato de câmbio devidamente fechado pela empresa; e promoveu o despacho de importação apresentando todos os documentos instrutivos sem qualquer rasura ou emenda. O cerne da questão está, como se vê, na ocorrência de ilícito aduaneiro pela ocultação do real adquirente das mercadorias mediante a interposição fraudulenta de terceiros, a qual estaria comprovada, segundo a fiscalização aduaneira, por todos os elementos e informações levantados pela autoridade fiscalizadora, constantes dos autos. Sempre bom lembrar que a legislação aduaneira aponta a interposição fraudulenta como o ato em que uma pessoa, física ou jurídica, se interpõe entre a fiscalização aduaneira e o real adquirente da mercadoria, aparentando ser o responsável por uma operação de importação, ocultando assim aquele que não pode ou não quer promover a importação em seu próprio nome. A ocultação do real adquirente é artifício empregado para burlar controles aduaneiros e obrigações tributárias principais e acessórias. A ocultação do sujeito passivo ou real adquirente é veementemente condenada pela legislação em vigor, pois é através desse subterfúgio que, além de outras práticas ilícitas, as empresas intentam: (i) não se submeter a procedimentos fiscais mais apurados de habilitação, os quais têm o fito justamente de promover o combate preventivo à dissimulação de Fl. 190DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 intervenientes nas operações de comércio exterior através da verificação de indícios de interposição fraudulenta, seja por vícios na constituição da empresa ou pelo uso de recursos de terceiros interessados em ocultar suas operações do controle aduaneiro visando quaisquer objetivos, seja pela lavagem de dinheiro, evasão de divisas ou desoneração de exigências fiscais. Destarte, o interessado pretende não ser submetido à apurada análise fiscal pela Autoridade Tributária responsável por verificar a regularidade e consistência das informações prestadas, aferir a capacidade operacional e financeira da pessoa jurídica e avaliar a capacidade empresarial e econômica dos sócios quanto ao objeto e capital societários; (ii) interferir na avaliação do risco da operação (parametrização das DI), mensurada em função do perfil e histórico cadastral dos intervenientes aduaneiros envolvidos; (iii) transgredir obrigações tributárias principais e acessórias; (iv) não figurar como contribuinte “equiparado a industrial” para evitar a incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados nas operações subseqüentes; e (v) resguardar seu patrimônio e sua reputação sem sofrer reflexos de ordem tributária, civil e penal, haja vista a constituição de empresa “laranja” para clara pretensão de fraudar”. Importante ressaltar, ainda, que é perfeitamente possível, à luz da legislação aplicável, que terceiro se utilize regularmente da figura de um importador para obter produto importado no mercado interno, registrando essa condição de forma transparente na DI e sem interferir na avaliação do risco da operação, mensurada em função do perfil e histórico cadastral dos intervenientes aduaneiros envolvidos. A legislação prevê duas formas de identificar o terceiro (real comprador no mercado interno) responsável pela importação, nas modalidades de "importação por conta e ordem de terceiros" e “importação por encomenda”. Estas duas modalidades de importação estão devidamente regulamentadas e têm os procedimentos estabelecidos pela Receita Federal para sua regular utilização. A infração “ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou do responsável pela operação” se configura quando há declaração de importação registrada no Siscomex em nome de pessoa que não é a real responsável pelo ingresso da mercadoria em território nacional, no caso de realização de importação direta. A configuração da ocultação pode se dar tanto com a identificação do real beneficiário da operação e comprovação de sua ocorrência, o que rotineiramente se chama de interposição fraudulenta comprovada, como também nas situações em que, não havendo esta identificação, o importador não comprova a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações, comumente chamada de interposição fraudulenta presumida. Visando ao combate à prática de interposição fraudulenta de terceiros, a legislação aduaneira tipificou como dano ao erário punível com a aplicação da pena de perdimento de mercadorias, por meio de alterações do art. 23 do Decreto n o 1.455/76 3 , a conduta de ocultação 3 Decreto n o 1.455/76 Art 23. Consideram-se dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: Fl. 191DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 do real sujeito passivo em operações de importação ou exportação e estabeleceu a presunção da interposição fraudulenta pela não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos. Importante ressaltar que o § 2 o do art. 23 do Decreto-Lei n o 1.455/76 não tipificou uma nova infração, diversa daquela prevista no inciso V do caput do mesmo artigo. Na verdade, estabeleceu-se presunção legal do ato ilícito. Ou seja, a conduta é a mesma, decorrente da ocultação do real adquirente, sendo diversa a maneira de comprová-la. Veja-se que a legislação também prevê que a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presume-se por conta e ordem deste (Art. 27 da Lei n o 10.637/20024). (...) V - estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) (...) § 1 o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei n o 10.637, de 30.12.2002) § 2 o Presume-se interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3 o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n o 70.235, de 6 de março de 1972. (...). 4 Lei n o 10.637/2002 Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presume-se por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória n o 2.158-35, de 24 de agosto de 2001. Medida Provisória n o 2.158-35 Art. 77. O parágrafo único do art. 32 do Decreto-Lei nº 37, de 18 de novembro de 1966, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 32. ................................................... ................................................................. Parágrafo único. É responsável solidário: I - o adquirente ou cessionário de mercadoria beneficiada com isenção ou redução do imposto; II - o representante, no País, do transportador estrangeiro; III - o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora." (NR) Art. 78. O art. 95 do Decreto-Lei nº 37, de 1966, passa a vigorar acrescido do inciso V, com a seguinte redação: "V - conjunta ou isoladamente, o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso da importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora." (NR) Art. 79. Equiparam-se a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. Art. 80. A Secretaria da Receita Federal poderá: I - estabelecer requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora ou exportadora por conta e ordem de terceiro; e (Redação dada pela Lei nº 12.995, de 2014) II - exigir prestação de garantia como condição para a entrega de mercadorias, quando o valor das importações for incompatível com o capital social ou o patrimônio líquido do importador ou do adquirente. Fl. 192DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Aplicando o disposto acima ao caso concreto e observando o que consta dos autos, verifica-se que a fiscalização aduaneira, após a regular instauração da ação fiscal e da intimação da recorrente a apresentar documentos e informações por mais de uma ocasião, concluiu pela ocorrência da interposição fraudulenta comprovada, a partir de todos os elementos de prova e informações levantados. Concluiu a Autoridade fiscal que a empresa Polytrade Comercial e Exportadora Ltda. não possuía recursos financeiros para realizar a operação de importação e a real adquirente estava impossibilitada de formalizar a importação regularmente. Se extraem do Relatório Fiscal (fls. 074 a 094) todos os elementos que levaram a fiscalização aduaneira a essas conclusões (grifos nossos): “Isto porque, analisando a fatura 101339 documento indispensável para o despacho de importação, verificamos que ela se encontra endereçada à empresa RAVEW Consultoria em Telecomunicações CNPJ 07.911.535/0001-63. Esta informação é de relevante importância, visto que comprova a existência de uma terceira empresa envolvida na transação além das já declaradas Skypilot — exportador — e Polytrade — importador/adquirente. Verificamos também que a totalidade das mercadorias nacionalizadas foram revendidas para a empresa RAVEW, cuia comprovação se faz mediante análise das notas fiscais de entrada n° 00255 e saída n° 000256 acostadas ao presente processo fiscal. (documento Nota Fiscal Entrada e Saída). Ademais, por meio do Termo de Intimação Fiscal DI, questionamos a empresa Polytrade sobre o local de armazenagem das mercadorias após o desembaraço aduaneiro, tendo o contribuinte informado que elas foram armazenadas no estabelecimento da empresa RAVEW. (documento Resposta da Intimação 1) Diante desses fatos apontados, é possível destacar a participação pró ativa da empresa Ravew na operação, conduzindo a negociação dos produtos com o exportador (uma vez que o exportador já emite a própria fatura em nome da Ravew) e por armazenar a mercadoria logo apôs a racionalização e liberação pela Receita Federal. Como em toda transação comercial internacional na qual há venda de mercadorias, é imprescindível que o comprador (importador) efetue os pagamentos ao vendedor (exportador). Nesse condão, só quem realmente possui capacidade econômica e financeira pode realmente concretizar esta operação. A este respeito, a empresa Polytrade foi intimada a demonstrar a origem dos recursos empregados na importação em comento. O pagamento das mercadorias ao fornecedor estrangeiro foi efetuado no dia 21/07/2006 através dos contratos de câmbio n° 06/011667 (no valor de USD 7.851,90 para a licença do software) e n° 06/011668 (no valor de USD 20.194, 00 para as mercadorias), firmados entre a empresa Polytrade e o Banco do Brasil (documento Contrato de Câmbio). A modalidade empregada o pagamento antecipado, na qual entende-se o pagamento que é feito antes do embargue da mercadoria no exterior com destino ao Brasil, que no caso sob análise ocorreu em 31/07/ 2006, data de emissão do conhecimento de embargue HAWB 7109-0808. (...) Entretanto, logramos êxito em contatar o Sr. Ricardo Dias, atual sócio da empresa Ravew, que nos apresentou o Balancete Analítico do mês de agosto de 2006, demonstrativo financeiro da importação e cópia da DI e documentos instrutivos. Art. 81. Aplicam-se à pessoa jurídica adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso da importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora, as normas de incidência das contribuições para o PIS/PASEP e COFINS sobre a receita bruta do importador.” (...) Fl. 193DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Do balancete analítico abaixo reproduzido, verificamos que a conta 1.1.3.05.0001 apresenta um crédito de R$ 41.072,45 relativo a adiantamento de importações em andamento efetuados à empresa Polytrade Com e Exp. (documento Balancete Ravew). (...) Já o documento denominado demonstrativo financeiro apresenta todos os encargos financeiros envolvidos na importação, desde os valores das mercadorias e dos tributos devidos até o controle dos valores já adiantados pela empresa Ravew e dos valores ainda devidos à Polytrade. (documento demonstrativo Ravew). Diante do exposto, não restam dúvidas de que a operação de importação ocorreu por conta e ordem da empresa RAVEW, que detinha a capacidade econômica para fazer vir do exterior as mercadorias e que adiantou todos os recursos empresa Polytrade para que a operação se concretizasse. É indubitável que, caso a operação de importação ocorreu por conta e ordem da empresa Ravew, que detinha a capacidade econômica para fazer vir do exterior as mercadorias e que adiantou todos os recursos Polytrade para que a operação se concretizasse, É indubitável que, caso a empresa Ravew não se envolvesse na operação fornecendo os recursos financeiros necessárias, a importação jamais ocorreria, pois segundo a própria empresa importadora Polytrade, ela "não tinha recursos para bancar o desembaraço das referidas importações". Ora, se a empresa Polytrade atuou como importadora por conta e ordem da empresa Ravew, qual o motivo para não cumprir os requisitos e obrigações acessórias previstos na legislação? A MP nº 2 .158-35/2001 estabeleceu o regramento e a competência legal para determinar a habilitação para operar no comércio exterior, senão vejamos: (...) Consulta efetuada nos cadastros da Receita Federal apontaram que a empresa Ravew só obteve habilitação no Siscomex para operar no comércio exterior em 29/09/2006. Ou seja, à época da importação, que ocorreu em 16/08/2006 ela não possuía a devida habilitação, o que impediria a realização da importação pretendida. (Documento Radar Ravew) Destarte, a forma encontrada para burlar o controle efetuado pela Receita Federal foi registrar a DI como importação própria da empresa e assim evitar que o sistema verificasse o cadastro da real empresa adquirente (Ravew) perante o Siscomex, viabilizando o prosseguimento da nacionalização das mercadorias. Em outras palavras, se o importador informasse o CNPJ da empresa Ravew no campo "adquirente" o sistema impediria o registro da DI e a carga ficaria retida na alfândega até que se providenciasse a devida habilitação. Para obter, o importador simulou um negócio jurídico e processou os dados do despacho como importação por conta própria, propiciando a ocultação do real adquirente, subtraindo o controle aduaneiro da capacidade econômica do mesmo e evitando a linha tributária do IPI..” Ora, à vista de todos esses elementos e de todas as constatações feitas a partir do minucioso trabalho de fiscalização manifestado no Auto de Infração, não poderia ser outra a conclusão. Vejamos. Na prática da interposição fraudulenta real, o ônus probatório é da fiscalização, ou seja, cabe à fiscalização reunir os elementos que indicam a ocorrência da interposição fraudulenta de terceiros entre o importador interposto e o sujeito passivo oculto. A meu sentir, esse ônus foi adequadamente exercido pela fiscalização. Fl. 194DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Como destacado linhas acima, o art. 27 da Lei n o 10.637/2002 expressamente prevê que a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presume-se por conta e ordem deste. Vemos que a recorrente asseverou à fiscalização, em resposta ao Termo de Intimação n o 2, que “a origem dos recursos para pagamentos das referidas declarações de importação, foram através de pagamentos antecipados dos clientes. A Polytade na época não tinha recursos para bancar o desembaraço das referidas importações, portanto os clientes encomendavam e pagavam antecipadamente” (fls. 028). O balancete analítico da empresa RAVEW no período (fls. 048) e apresentado à fiscalização também aponta o repasse dos valores. Por fim, se constata que a fatura comercial n o 101339, relativa aos equipamentos de telecomunicação e emitida pelo exportador, também se destina à empresa RAVEW (fls. 032): Além disso, ao chegarem ao País, as mercadorias foram armazenadas sob responsabilidade da empresa RAVEW, como também afirmou a recorrente à fiscalização (fls. 009). Merece destaque, ainda, que a real adquirente estava impossibilitada de promover a regular importação, seja na condição de importadora direta, seja como regular adquirente em importação por conta e ordem, visto que somente obteve habilitação no sistema Siscomex para operar no comércio exterior após a importação das mercadorias por meio da DI objeto do Auto de Infração. À vista de todos esses elementos, no meu entender, não há qualquer dúvida de que o importador, POLYTRADE, ocultou a real adquirente, RAVEW, e promoveu a importação direta das mercadorias objeto da DI n o 06/0973159-3 por conta e ordem desta, sem formalizar tal condição na promoção do despacho aduaneiro de importação, como prescreve a legislação aduaneira. Assim, vejo caracterizada a interposição fraudulenta, ilícito sancionado com a pena de perdimento das mercadorias, convertida em multa equivalente a seu valor aduaneiro, caso estas não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. Também não se sustenta o argumento utilizado pela recorrente de que as infrações previstas nos arts. 23 e 24 do Decreto-lei n o 1.455/1976 são apenadas com o perdimento, por serem consideradas danosas ao Erário Público. Entende a recorrente não se poderia sustentar a existência de tais infrações sem que efetivamente haja um dano aos cofres, o que não teria ocorrido no caso concreto, pois não teria havido qualquer dano ao Erário, pois, conforme Fl. 195DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 extraído das próprias declarações de importação, todos os tributos teriam sido devidamente recolhidos. Inicialmente destaco que o dano decorrente da interposição fraudulenta de terceiros não decorre tão somente do não recolhimento de tributos. Como já dito, ocorre em relação aos tributos internos que podem deixar de ser recolhidos em momentos subsequentes da cadeia, e não somente em relação àqueles tributos recolhidos no momento do registro da DI. Destaco nesse sentido o que ressalta o i. Conselheito Jorge Lima Abud, nos voto condutor do Acórdão n o 3302-006.329 - – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária): “Destarte, tomando como base o simples significado das palavras, é possível concluir que interposição fraudulenta é a situação fática em que determinado ente fica numa posição de "intermediário" (importador ostensivo) com o objetivo de esconder outro agente (adquirente ou encomendante), causando prejuízo ao erário ou dificultando os controles administrativos das Aduanas. Embora a fraude já esteja perfeitamente caracterizada, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/1964, cumpre ainda atentar que o bem jurídico protegido pela norma contida no art. 83, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, com a redação dada pelo art. 1º, alteração 2ª, do Decreto-lei nº 400, de 30 de dezembro de 1968, não é unicamente o Erário, mas a norma visa essencialmente resguardar o controle aduaneiro e proteger a economia nacional, que se vêem afetados pela importação fraudulenta e pela entrada clandestina de mercadorias no País. (...) Em tais situações, pode ocasionalmente não haver insuficiência ou falta de recolhimento de impostos, porém não se há de negar a caracterização da importação como fraudulenta, porquanto resta evidente a ação dolosa em ilidir o controle aduaneiro para fruição de vantagens ilícitas em detrimento da economia nacional, bens jurídicos que a norma visa assegurar. Então, em relação a operações aduaneiras, seria um contrassenso exigir que a fraude se caracterizasse unicamente pela falta ou insuficiência de pagamento dos impostos incidentes na importação. No ordenamento jurídico encontramos exemplos dessa acepção, em que a importação fraudulenta não necessariamente implica supressão ou redução do imposto devido. É o caso art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, com redação dada pelo art. 59 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 (DOU 31/12/2002), que pune uma espécie de importação fraudulenta, caracterizada pela ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, mesmo não havendo repercussão no recolhimento do imposto. Assim, “importação fraudulenta” significa importação com fraude ao controle aduaneiro, mitigando-se a feição estritamente tributária de “reduzir ou evitar o pagamento do imposto” ocorrendo nos casos em que a falsificação ou a adulteração de documentos acarrete dano ao citado controle, mesmo que não haja repercussão no tratamento tributário. A propósito observe-se o lúcido ensinamento de ROOSEVELT BALDOMIR SOSA: "consiste a falsidade documental, em matéria aduaneira, em elaborar documento falso, ou alterá-lo total ou parcialmente de modo a iludir o controle administrativo. Também se conhece a falsidade ideológica, que é quando o documento se mostra verdadeiro, mas não expressa a verdade” (Comentário à lei aduaneira: Regulamento Aduaneiro, São Paulo: Aduaneiras, 1993, vol. III, p. 187)” . Fl. 196DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Compartilho ainda, nesse sentido, do entendimento manifestado pelo i. Conselheiro Rosaldo Trevisan (Acórdão n o 3401-003.172 – 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária), para o qual também peço licença para incorporar aos meus os fundamentos utilizados na relatoria daquele julgado (grifos no original): “O auto de infração foi lavrado com enquadramento no artigo 23, V do Decreto-lei n° 1.455/1976. Dada a impossibilidade de apreensão da mercadoria, o perdimento foi substituído por multa com base no § 3°do mesmo artigo 23: (...) É cristalino que o texto (essencialmente no caput e no § 1°) não está a dizer que só quando ocasionarem dano ao Erário as infrações ali referidas serão punidas com o perdimento. Ele está, sim, trazendo claramente duas afirmações: (a) as infrações ali relacionadas consideram-se dano ao Erário; e (b) o dano ao Erário é punido com o perdimento. Disso, silogisticamente, pode-se afirmar que as infrações ali relacionadas são punidas com o perdimento. Não há margem para discussão se houve ou não dano ao Erário, no caso concreto. Seria improdutivo discutir, v.g., o dano ao Erário no caso de abandono de mercadorias pelos importadores (conduta tipificada no inciso II do art. 23). Aliás, as disposições do Decreto-Lei surgem exatamente para regulamentar dispositivo constitucional (art. 150, § 11 da Constituição de 1967): “Não haverá pena de morte, de prisão perpétua, de banimento, ou confisco, salvo nos casos de guerra externa psicológica adversa, ou revolucionária ou subversiva nos termos que a lei determinar. Esta disporá também, sobre o perdimento de bens por danos causados ao Erário, ou no caso de enriquecimento ilícito no exercício de cargo, função ou emprego na Administração Pública, Direta ou Indireta”, como se depreende de sua Exposição de Motivos (item 17): “17. Nos artigos 23 e 24, com fulcro no artigo 153 da Lei Magna, enumeram-se as infrações que, por constituírem dano ao Erário, são punidas com a pena de perdimento dos bens. De fato, todas as hipóteses arroladas, quase todas já existentes em legislação anterior, representam um comprometimento a dano de nossas reservas cambiais e uma inadimplência de obrigações tributárias essenciais.”(grifo nosso) Assim, é inócua a discussão sobre a existência ou a comprovação de efetivo dano ao Erário nos dispositivos citados, visto que o dano ao Erário decorre do texto da própria lei (em verdade, decreto-lei, com força de lei). E por mais que se sustentasse eventual inconstitucionalidade da norma, careceria este tribunal de competência para avaliar a matéria, em face da Súmula CARF n° 2”. Por fim, nos resta somente apreciar a alegação feita pela recorrente de que, com a entrada em vigor do comando normativo veiculado no art. 33 da Lei n o 11.488/07, a multa aplicável a quem comete a infração caracterização por interposição fraudulenta no comércio exterior mediante cessão de nome, é equivalente a 10% do valor da operação. Quanto à esse mérito, melhor sorte não assiste à recorrente. Já é pacífico neste Conselho que a pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita à multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada prevista no art. 33 da Lei n o 11.488/2007, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Sua aplicação não prejudica a aplicação da pena de perdimento da mercadoria ou a aplicação da multa substitutiva à pena de perdimento da mercadoria, em caso de seu consumo, não localização ou revenda. Em verdade, a multa do art. 33 da Lei n o 11.488/07 veio para substituir a então vigente pena de inaptidão do CNPJ da pessoa jurídica, quando houver cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no Fl. 197DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários, e não prejudica a incidência da hipótese de dano ao erário, por ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, prevista no art. 23, V, do DL nº 1.455/76, apenada com perdimento da mercadoria. Peço licença para agregar aos meus os argumentos trazidos pelo i Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, no voto condutor do Acórdão n o 9303-006.509 – da 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (grifos no original e nossos): “Finalmente, no que refere à retroatividade da penalidade instituída pela Lei nº 11.488/07, equivalente a multa de dez por cento do valor da operação, aplicável à pessoa jurídica que cede o nome, como já tive oportunidade de afirmar em outras oportunidades, entendo que, a toda evidência, essa pena não revogou nem trouxe qualquer consequência para os casos em que é cabível a cominação da multa de conversão da pena de perdimento, prevista no artigo 23 do Decreto-Lei nº 1.455/76, com a redação introduzida pela Lei 10.637/02. A intenção do legislador, como me parece claro, jamais foi a de cominar penalidade mais branda a quaisquer das partes que se associam na prática de operação de importação ou exportação com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável. Desde logo, vê-se que os bens jurídicos tutelados por uma e por outra medida coercitiva não guardam nenhuma identidade entre si. Embora as duas infrações possam decorrer de um mesmo evento, a multa pela cessão do nome destina-se a coibir o uso abusivo da pessoa jurídica, apenando conduta à qual era antes imposta a “pena” de inaptidão do CNPJ, medida que violentava os mais elementares pressupostos da ação estatal de controle da atividade privada, agindo com força desproporcional, ao impedir o particular de exercer sua atividade profissional. Por seu turno, a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria importada destina-se a coibir o ingresso de mercadoria estrangeira em situação irregular no território nacional, quando o bem, sujeito à pena de perdimento, escapa ao controle aduaneiro e é internalizado. Não se vislumbra nenhuma razão plausível para que se prestigie a inusitada interpretação de que o legislador, ao instituir a nova penalidade, tivesse a intenção de reduzir a sanção ou redefinir os limites de sua sujeição passiva ou de responsabilidade das partes envolvidas na infração por dano ao Erário. Como é de sabença, as infrações compreendidas nesse conceito são punidas com a pena de perdimento das mercadorias (artigo 23, § 1º, do Decreto-Lei 1.455/76). Completamente desarrazoado entender que, especifica e exclusivamente nos casos em que o dano ao Erário esteja associado à interposição fraudulenta de terceiros, a multa aplicável pela conversão da pena de perdimento deixe de ser equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias para converter- se em inexpressivos dez por cento do valor da operação. Fosse essa a intenção do legislador e a primeira e obrigatória medida haveria de ser a exclusão da infração do rol de situações compreendidas no conceito de dano ao Erário, já que a este conceito está associada a ideia de penalidade gravíssima, cuja sanção é o perdimento das mercadorias. No que se refere à sujeição passiva/responsabilidade pela infração, é de se perguntar: se o objetivo da legislação novel fosse, de fato, excluir a responsabilidade do importador pela infração de interposição fraudulenta, não seria suficiente que o texto da lei assim determinasse, de maneira clara e expressa? Por que supor que o legislador, nesse intento, escolheria meios tão transversais, criando uma nova multa, e sem fazer nenhuma ressalva às responsabilidades decorrentes da outra? Mas, até aqui, tratam-se, apenas, de abstrações com razoável conteúdo subjetivo. O que investe a questão posta em contornos de caráter definitivo são as disposições normativas que regulamentam a matéria. Inicio pelo art. 33 da Lei 11.488/2007. Fl. 198DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 3001-001.005 - 3ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10920.721515/2011-80 Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (grifos acrescidos) O Regulamento Aduaneiro hoje vigente assim dispõe a respeito do assunto – Decreto 6.759/09: Art. 727. Aplica-se a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei nº 11.488, de 2007, art. 33, caput). (...) § 3° A multa de que trata este artigo não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas. (...) A derradeira conclusão é a de que o ato de ceder o nome com vistas ao acobertamento do real beneficiário acarreta duas infrações, cujos bens jurídicos tutelados são distintos: o próprio erário e o controle aduaneiro como um todo, e a integridade do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica. Enquanto o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007 resguarda a higidez do CNPJ, coibindo seu uso indevido, em substituição da declaração de inaptidão, o inciso V do artigo 23 do Decreto-lei nº 1.455/1976 protege o Erário e o próprio controle aduaneiro”. Isto posto, diante de tudo que já foi mostrado, entendo que não há qualquer razão para reformar a decisão recorrida, de sorte que deve ser integralmente mantido o lançamento. Conclusões Diante disso, VOTO por rejeitar a preliminar de nulidade suscitada para, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Luis Felipe de Barros Reche Fl. 199DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10680.902298/2011-05
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 03 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Jan 03 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2004
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. DIREITO CREDITÓRIO NÃO RECONHECIDO. COMPROVAÇÃO INSUFICIENTE.
Não apresentação de prova inequívoca hábil e idônea tendente a comprovar a existência e validade de indébito tributário derivado de recolhimento indevido ou a maior de imposto retido na forma de legislação específica, acarreta a negativa de reconhecimento do direito creditório e, por consequência, a não-homologação da compensação declarada em face da impossibilidade da autoridade administrativa aferir a liquidez e certeza do pretenso crédito.
DIREITO DE CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA
Não é líquido e certo crédito decorrente de pagamento informado como indevido ou a maior, se o pagamento consta nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil como utilizado integralmente para quitar débito informado em DCTF, sendo que deve prevalecer a decisão administrativa que não homologou a compensação, amparada em informações prestadas pelo sujeito passivo e presentes nos sistemas internos da Receita Federal na data da ciência do despacho decisório.
Numero da decisão: 1002-000.935
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer integralmente do recurso, e, no mérito, em negar-lhe provimento.
Ailton Neves da Silva- Presidente.
Rafael Zedral- Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Aílton Neves da Silva (Presidente), Rafael Zedral, Marcelo José Luz de Macedo e Thiago Dayan da Luz Barros.
Nome do relator: RAFAEL ZEDRAL
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ementa_s : ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2004 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. DIREITO CREDITÓRIO NÃO RECONHECIDO. COMPROVAÇÃO INSUFICIENTE. Não apresentação de prova inequívoca hábil e idônea tendente a comprovar a existência e validade de indébito tributário derivado de recolhimento indevido ou a maior de imposto retido na forma de legislação específica, acarreta a negativa de reconhecimento do direito creditório e, por consequência, a não-homologação da compensação declarada em face da impossibilidade da autoridade administrativa aferir a liquidez e certeza do pretenso crédito. DIREITO DE CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA Não é líquido e certo crédito decorrente de pagamento informado como indevido ou a maior, se o pagamento consta nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil como utilizado integralmente para quitar débito informado em DCTF, sendo que deve prevalecer a decisão administrativa que não homologou a compensação, amparada em informações prestadas pelo sujeito passivo e presentes nos sistemas internos da Receita Federal na data da ciência do despacho decisório.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2019-12-17T18:58:43Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2019-12-17T18:58:43Z; Last-Modified: 2019-12-17T18:58:43Z; dcterms:modified: 2019-12-17T18:58:43Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2019-12-17T18:58:43Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2019-12-17T18:58:43Z; meta:save-date: 2019-12-17T18:58:43Z; pdf:encrypted: true; modified: 2019-12-17T18:58:43Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2019-12-17T18:58:43Z; created: 2019-12-17T18:58:43Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; Creation-Date: 2019-12-17T18:58:43Z; pdf:charsPerPage: 1970; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2019-12-17T18:58:43Z | Conteúdo => S1-TE02 MINISTÉRIO DA ECONOMIA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Processo nº 10680.902298/2011-05 Recurso Voluntário Acórdão nº 1002-000.935 – 1ª Seção de Julgamento / 2ª Turma Extraordinária Sessão de 03 de dezembro de 2019 Recorrente MARY DESIGN INDUSTRIA E COMERCIO LTDA - EPP Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2004 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. DIREITO CREDITÓRIO NÃO RECONHECIDO. COMPROVAÇÃO INSUFICIENTE. Não apresentação de prova inequívoca hábil e idônea tendente a comprovar a existência e validade de indébito tributário derivado de recolhimento indevido ou a maior de imposto retido na forma de legislação específica, acarreta a negativa de reconhecimento do direito creditório e, por consequência, a não- homologação da compensação declarada em face da impossibilidade da autoridade administrativa aferir a liquidez e certeza do pretenso crédito. DIREITO DE CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA Não é líquido e certo crédito decorrente de pagamento informado como indevido ou a maior, se o pagamento consta nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil como utilizado integralmente para quitar débito informado em DCTF, sendo que deve prevalecer a decisão administrativa que não homologou a compensação, amparada em informações prestadas pelo sujeito passivo e presentes nos sistemas internos da Receita Federal na data da ciência do despacho decisório. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer integralmente do recurso, e, no mérito, em negar-lhe provimento. Ailton Neves da Silva- Presidente. Rafael Zedral- Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Aílton Neves da Silva (Presidente), Rafael Zedral, Marcelo José Luz de Macedo e Thiago Dayan da Luz Barros. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 90 22 98 /2 01 1- 05 Fl. 35DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1002-000.935 - 1ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10680.902298/2011-05 Relatório Por bem sintetizar os fatos até o momento processual anterior ao do julgamento do recurso administrativo na primeira instância administrativa, transcrevo e adoto o relatório produzido pela DRJ: O presente processo trata de Manifestação de Inconformidade contra Despacho Decisório n° rastreamento 913277389 emitido eletronicamente em 01/03/11, referente ao PER/DCOMP n° 06252.73945.130406.1.7.04-1360. A Declaração de Compensação gerada pelo programa PER/DCOMP foi transmitida com o objetivo de ter reconhecido o direito creditório correspondente a CSLL -Código de Receita 2372, no valor original na data de transmissão de R$13.123,41, representado por Darf recolhido em 29/10/04 e de compensar o(s) débito(s) discriminado(s) no referido PER/DCOMP. De acordo com o Despacho Decisório, a partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, mas parcialmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, restando saldo disponível inferior ao crédito pretendido, insuficiente para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da insuficiência de crédito, a compensação foi Homologada Parcialmente. Como enquadramento legal citou-se: arts. 165 e 170, da Lei n° 5.172 de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional - CTN), art. 74 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996. DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE Cientificado do Despacho Decisório, o interessado apresenta manifestação de inconformidade alegando que o PER/DCOMP 11934.22098.190106.1.3.04-8118 não deveria ter sido entregue e solicitando o cancelamento do mesmo. Requer a reavaliação do Despacho Decisório. A Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente pela DRJ, conforme acórdão n 0244.152 (e-fl. 19 ), que recebeu a seguinte ementa: Fl. 36DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1002-000.935 - 1ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10680.902298/2011-05 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Ano-calendário: 2004 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. CANCELAMENTO APÓS DESPACHO DECISÓRIO. VEDAÇÃO. É vedado o cancelamento de declaração de compensação após já ter sido proferido o Despacho Decisório pela autoridade a quo competente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Ciente da decisão proferida pela DRJ conforme e-fls. 26, a recorrente protocola o documento de e-fls. 27, dirigido ao Delegado da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte, com o seguinte texto: “Mary Design Comércio EIRELI, com sede na rua Ivai, 25, bairro Serra, CEP 30.210-520, Belo Horizonte-MG, CNPJ 17.610.346/0001-04, por sua representante legal Mary Figueiredo Arantes, residente à rua Ajax Corrêa Rabelo, 50, bairro Mangabeiras, CEP 30210-040, Belo Horizonte-MG, CPF 402.247.406-87, não se conformando com o auto de infração acima referido, lavrado pelo Sr. Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, do qual foi notificado, vem, respeitosamente, no prazo legal, com amparo no que dispõe o art. 15 do Dec. 70.235/72, apresentar sua impugnação, pelos motivos de fato e de direito que se seguem (art. 16, inciso II do Dec.70.235/72): I - OS FATOS A empresa impugnante supracitada protocolou um pedido de cancelamento da PER/DCOMP de número 11934.22098.190106.1.3.04-8118, direcionado ao limo. Sr. Delegado da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Belo Horizonte, conforme cópia em anexo. II - O DIREITO I.MÉRITO (inciso III e IV do art. 16 do Dec.70.235/72) Requer a impugnante que seja aguardada a apreciação do limo. Sr. Delegado da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Belo Horizonte sobre o pedido de cancelamento da PER/DCOMP 11934.22098.190106.1.3.04-8118 e que seja então, cancelado o débito constante do despacho decisório referente ao rastreamento 913277389. II.- A CONCLUSÃO À vista de todo exposto, demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal, espera e requer a impugnante que seja acolhida a presente impugnação para o fim de assim ser decidido, cancelando-se o débito fiscal reclamado. Termos em que Pede deferimento.” É o relatório do necessário. Fl. 37DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1002-000.935 - 1ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10680.902298/2011-05 Voto Conselheiro Rafael Zedral, Relator. Admissibilidade Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário, na forma do art. 23-B da Portaria MF nº 343/2015 (Regimento Interno do CARF), com redação dada pela Portaria MF nº 329/2017. Demais disso, observo que o recurso é tempestivo pois: 1. A ciência do Acórdão ocorreu em 21/05/2013 conforme e-fls. 26; 2. Seu Recurso Voluntário foi protocolado no dia 17/06/2013 conforme e- fls. 27. Ademais, atende os outros requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. A recorrente não atacou os fundamentos da decisão recorrida. Aliás, não há nenhuma referência à decisão da DRJ. A recorrente não aponta qual seria o erro de julgamento do Acórdão 0244.152. Seu texto trata apenas de pedido de cancelamento de PER/DCOMP, assunto que foi objeto de análise pela DRJ, tendo sido indeferido em face da falta de competência da delegacia de julgamento para apreciação de pedidos de cancelamento de PER/DCOMP. Contra esta decisão, repita-se, a recorrente não faz nenhuma referência. Não pode este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais dar guarida à pretensão do Recorrente, uma vez que, além de não restar comprovado o direito creditório, o documento de e-fls. 27, aqui considerado como um Recurso Voluntário, não ataca a decisão recorrida, não demonstrando a recorrente qual é seu inconformismo quando a decisão da DRJ. Analisando, o acórdão recorrido, não verificamos nenhum erro de julgamento. Portanto, entendo que o Recurso Voluntário não deve ser provido, mantendo-se a decisão de primeira instância. DISPOSITIVO Diante de todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. É como voto Rafael Zedral - relator Fl. 38DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1002-000.935 - 1ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10680.902298/2011-05 Fl. 39DF CARF MF
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Numero do processo: 10783.901819/2009-26
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 05 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Nov 19 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2003
PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. INEXATIDÃO MATERIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO EM QUE SE FUNDE.
O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado.
Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido do sujeito passivo as informações declaradas a RFB no caso de verificada circunstância objetiva de inexatidão material e mediante a necessária comprovação do erro em que se funde.
APRESENTAÇÃO DE PROVA EM MOMENTO POSTERIOR AO DA INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA NO PROCEDIMENTO.
A apresentação da prova documental em momento processual posterior ao da instauração da fase litigiosa no procedimento é possível desde que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refira-se a fato ou a direito superveniente ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos.
RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO.
É possível reconhecer da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos a DRF de origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp com base no conjunto probatório e informações constantes nos autos com a finalidade de confrontar a motivação dos atos administrativos em que a compensação dos débitos não foi homologada, porque não foi comprovado o erro material.
Numero da decisão: 1003-001.117
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento em parte ao recurso voluntário, tendo em vista o início de prova produzido pela Recorrente que apresenta as cópias do Livro Razão do ano-calendário de 2003 para reconhecimento da possibilidade de formação de indébito com base no conjunto probatório e informações constantes nos autos, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos a DRF de origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início.
(documento assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama.
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. INEXATIDÃO MATERIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO EM QUE SE FUNDE. O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido do sujeito passivo as informações declaradas a RFB no caso de verificada circunstância objetiva de inexatidão material e mediante a necessária comprovação do erro em que se funde. APRESENTAÇÃO DE PROVA EM MOMENTO POSTERIOR AO DA INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA NO PROCEDIMENTO. A apresentação da prova documental em momento processual posterior ao da instauração da fase litigiosa no procedimento é possível desde que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refira-se a fato ou a direito superveniente ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. É possível reconhecer da possibilidade de formação de indébito, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos a DRF de origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp com base no conjunto probatório e informações constantes nos autos com a finalidade de confrontar a motivação dos atos administrativos em que a compensação dos débitos não foi homologada, porque não foi comprovado o erro material. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento em parte ao recurso voluntário, tendo em vista o início de prova produzido pela Recorrente que apresenta as cópias do Livro Razão do ano-calendário de 2003 para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 78 3. 90 18 19 /2 00 9- 26 Fl. 392DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 reconhecimento da possibilidade de formação de indébito com base no conjunto probatório e informações constantes nos autos, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos a DRF de origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. (documento assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva– Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama. Relatório Per/DComp e Despacho Decisório A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) nº 05241.93109.290405.1.3.04-2102, em 29.04.2005, fls. 22-24, utilizando-se do crédito relativo ao pagamento a maior de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), código 2363, determinado sobre a base de cálculo estimada do mês de novembro do ano-calendário 2003 no valor de R$2.870,74 contido no DARF de R$3.848,42 recolhido em 31.12.2003 para compensação dos débitos ali confessados. Consta no Despacho Decisório Eletrônico, fl. 09, em que as informações relativas ao reconhecimento do direito creditório foram analisadas das quais se concluiu pelo indeferimento do pedido: Limite do crédito analisado, correspondente ao valor do crédito original na data de transmissão informado no PER/DCOMP: 2.870,74 A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando credito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. [...] Diante da inexistência do crédito, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada. [...] Enquadramento legal: Arts. 165 e 170, da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Manifestação de Inconformidade e Decisão de Primeira Instância Cientificada, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade. Está registrado na ementa do Acórdão da 8ª Turma/DRJ/RJ1/RJ nº 12-43.368, de 19.01.2012, e-fls. 171-174: Fl. 393DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. Faz-se mister que os créditos empregados em compensação de tributos gozem de liquidez e certeza. Manifestação de Inconformidade Improcedente Recurso Voluntário Notificada em 22.02.2012, e-fl. 180, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 23.03.2012, e-fls. 181-390, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Relativamente aos fundamentos de fato e de direito aduz que: I. BREVE RESUMO DO CASO Trata-se de decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro II (RJ) que houve por bem não reconhecer o direito creditório do contribuinte, negando provimento à manifestação de inconformidade, sob o fundamento de que não há nos autos prova do quanto alegado na defesa. Por conseqüência, exige-se o pagamento do suposto débito indevidamente compensado, conforme segue (valores atualizados até 29/02/2012): Principal: R$ 2.545,46 (valor compensado na PER/DCOMP) Multa: R$ 509,09 Juros: R$ 2.062,33 Entretanto, a decisão proferida pela Delegacia Regional de Julgamento não merece prosperar e deve ser prontamente reformada, conforme razões a seguir aduzidas. II. DAS RAZÕES DE DIREITO a) Do Crédito da ora Recorrente Trata-se de pedido de compensação (PER/DCOMP n° 05241.93109.290405.1.3.04-2102) do débito vincendo da COMVIX TRADING S/A, referente ao período de apuração de março de 2005, no valor histórico de R$ 2.545,46, com o crédito originário de base negativa do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica — IRPJ, apurado no período de 01 de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2003. Da análise da DIPJ 2004 (ora anexada — doc. 04), verifica-se na Ficha 11 - página 04, que no mês de novembro de 2003 houve um débito de IRPJ no valor de R$ 8.540,16, sendo certo que deste valor foi descontada a quantia de Rf 4.691,74 referente ao IRRF, e a parte restante de R$ 3.848,48 foi paga através de DARF, no dia 30/12/2003 (doc. 05). Por sua vez, no mês de dezembro/2003. (ficha 11 — página 04 da DIPJ) houve um débito de IRPJ no valor de R$ 5.669.42. Entretanto, fazendo o ajuste dos valores de IRPJ do período de 01 de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2003, verifica-se a Fl. 394DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 dedução de IRPJ referente aos meses anteriores no valor de R$ 8.540,16, o que resulta em saldo negativo de IRPJ de R$ 2.870,74 (vide DIPJ 2004 anexa doc. 04). Diante disso, parte desse saldo negativo de IRPJ de R$ 2.870,74 foi utilizado para a compensação do débito vincendo de IRPJ, do mês de apuração de março de 2005 (data de vencimento: 29/04/2005), no valor de R$ 2.545,46, conforme demonstra a PER/ DCOMP n° 05241.93109.290405.1.3.04-2102 que segue anexa (doc. 06). Ocorre que, por um lapso, a COMVIX TRADING S/A informou na referida PER/DCOMP que o "tipo de crédito" utilizado para a compensação do débito vincendo de IRPJ, referente ao período de apuração de março de 2005, tratava-se de "pagamento indevido ou a maior" e não de "saldo negativo de IRPJ". Assim, faz-se necessária a retificação de ofício do campo "dados do crédito" da PER/DCOMP n° 03581.93518.290405.1.3.04/7001 para alterar o tipo de crédito de "Pagamento indevido ou a Maior" para "Saldo Negativo de IRPJ". e, em conseqüência, a página 2 da PER/DCOMP em questão passaria a ter as seguintes informações: Exercício: 2004 Forma de Apuração: Anual Data inicial do período: 01/01/2003 Data final do período: 31/12/2003 Valor do saldo negativo: R$ 2.870,74 Crédito original na Data da Transmissão: R$ 2.870,74 Selic acumulada: 18,74% Crédito atualizado: R$ 3.408,72 Total dos débitos desta DCOMP: R$ 2.545,46 Total do crédito original utilizado nesta DCOMP: R$ 2.143,73 Saldo do crédito original: R$ 727,01 Resta evidente, portanto, que a decisão que não reconheceu o direito creditório da Recorrente não merece prosperar, haja vista que a mesma faz jus ao crédito pleiteado, em razão do noticiado saldo negativo ocorrido no ano de 2003, comprovados através dos documentos acostados. Diga-se, por oportuno, que os documentos acima mencionados foram anexados à Manifestação de Inconformidade anteriormente apresentada, motivo pelo qual a Recorrente desconhece as razões que levaram o D. Colegiado a quo se manifestarem no sentido de que não haveria documentos juntados aos autos comprobatórios do direito da Recorrente. Por sua vez, independentemente das razões aventadas na decisão ora recorrida, fato é que a ora Recorrente, em respeito ao Princípio da Verdade Material, inerente à Administração Pública, faz jus ao crédito acima mencionado, no valor de R$ 2.870.74. Fl. 395DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 Com efeito, no processo administrativo, o julgador deve sempre buscar a verdade, ainda que, para isso, tenha que se valer de outros elementos além daqueles trazidos aos autos pelos interessados. A autoridade administrativa competente não fica obrigada a restringir seu exame ao que foi alegado, trazido ou provado pelas partes, podendo e devendo buscar todos os elementos que possam influir no seu convencimento. Assim, diferentemente do que ocorre no processo judicial (no tocante à pluralidade de instâncias), no processo administrativo, é possível a produção de novas provas, novas arguições e alegações, e reexame de matéria de fato. Todas estas circunstâncias são possíveis e se fundamentam no princípio da verdade material, pois o que se busca, durante todo o processo administrativo, é a verdade real dos fatos em contenda, e isto pode acontecer em qualquer fase ou instância processual. Concernente ao pedido expõe que: III. DO PEDIDO Diante do exposto, é a presente para requerer seja reformada in totum a r. decisão ora combatida, proferida pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro, culminando com a homologação da compensação efetuada, extinguindo-se a cobrança constante do despacho decisório e da decisão ora recorrida, haja vista os documentos ora anexados, que demonstram cabalmente o direito creditório da ora Recorrente. Alternativamente, na hipótese dos documentos ora acostados não serem suficientes para o convencimento de V.Sas., o que se admite apenas para fins de argumentação, requer a conversão do julgamento em diligência, visando possibilitar à Recorrente a apresentação de novos documentos (se for o caso), com o escopo de demonstrar o direito ao crédito objeto da presente lide. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora. Tempestividade O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento. Apresentação de Prova em Momento Posterior ao da Instauração da Fase Litigiosa no Procedimento. A Recorrente discorda do procedimento fiscal. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizá-lo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos Fl. 396DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo (art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170-A do Código Tributário Nacional, art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 com redação dada pelo art. 49 da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, que entrou em vigor em 01.10.2002 e foi convertida na Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002). Posteriormente, ou seja, em 31.10.2003, ficou estabelecido que a Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (§1º do art. 5º do Decreto-Lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, art. 17 da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003). Os diplomas normativos de regências da matéria, quais sejam o art. 170 do Código Tributário Nacional e o art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, deixam clara a necessidade da existência de direto creditório líquido e certo no momento da apresentação do Per/DComp, hipótese em que o débito confessado encontrar-se-ia extinto sob condição resolutória da ulterior homologação. O Per/DComp delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pela Recorrente quanto ao preenchimento dos requisitos. Instaurada a fase litigiosa do procedimento, cabe à Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde da comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado detalhando os motivos de fato e de direito em que se basear expondo de forma minuciosa os pontos de discordância e suas razões e instruindo a peça de defesa com prova documental pré-constituída imprescindível à comprovação das matérias suscitada dada a concentração dos atos em momento oportuno. A apresentação da prova documental em momento processual posterior é possível desde que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refira-se a fato ou a direito superveniente ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. O julgador orientando- se pelo princípio da verdade material na apreciação da prova, deve formar livremente sua convicção mediante a persuasão racional decidindo com base nos elementos existentes no processo e nos meios de prova em direito admitidos ainda que apresentados em sede recursal com o escopo de confrontar a motivação constante nos atos administrativos em que foi afastada a possibilidade de homologação da compensação dos débitos, porque não foi comprovado o erro material (art. 170 do Código Tributário Nacional e art. 15, art. 16, art. 18 e art. 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a seu favor dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Para que haja o reconhecimento do direito creditório é necessário um cuidadoso exame do pagamento a maior de tributo, uma vez que é absolutamente essencial verificar a precisão dos dados informados em todos os livros de registro obrigatório pela legislação fiscal específica, bem como os documentos e demais papéis que serviram de base Fl. 397DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 para escrituração comercial e fiscal (art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 e art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995). Cabe esclarecer que a Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) desde a sua instituição a partir de 01.01.1999 tem caráter meramente informativo 1 . Somente a partir do ano-calendário de 2014, todas as pessoas jurídicas, inclusive as equiparadas, devem apresentar a Escrituração Contábil Fiscal (ECF) de forma centralizada pela matriz, que ficam dispensadas, em relação aos fatos ocorridos a partir de 1º de janeiro de 2014, da escrituração do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur) em meio físico e da entrega da DIPJ. Assim, no ano-calendário objeto de análise os sistemas na RFB não eram supridos com os dados completos da escrituração contábil fiscal da Recorrente (Instrução Normativa RFB nº1.422, de 19 de dezembro de 2013). Ainda, as pessoas jurídicas, inclusive as equiparadas devem apresentar a Declaração de Débitos e Créditos Tributário Federais (DCTF) de forma centralizada pela matriz por via da internet comunicando a existência de débito tributário, constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para sua exigência 2 . Além disso, por via de regra o Per/DComp somente pode ser retificado pela Recorrente caso se encontre pendente de decisão administrativa à data do envio do documento retificador, já que alterar dados depois do tempo próprio constitui inovação 3 . Apenas nas situações mediante comprovação do erro em que se funde de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e erros de escrita ou de cálculos podem ser corrigidas de ofício ou a requerimento da Requerente. O erro de fato é aquele que se situa no conhecimento e compreensão das características da situação fática tais como inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos. A Administração Tributária tem o poder/dever de revisar de ofício o procedimento quando se comprove erro de fato quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória. A este poder/dever corresponde o direito de a Recorrente retificar e ver retificada de ofício a informação fornecida com erro de fato, desde que devidamente comprovado. Por inexatidão material entendem-se os pequenos erros involuntários, desvinculados da vontade do agente, cuja correção não inove o teor do ato formalizado, tais como a escrita errônea, o equívoco de datas, os erros ortográficos e de digitação. Diferentemente, o erro de direito, que não é escusável, diz respeito à norma jurídica disciplinadora e aos parâmetros previstos nas normas de regência da matéria. O conceito normativo de erro material no âmbito tributário abrange a inexatidão quanto a aspectos objetivos não resultantes de entendimento jurídico tais como um cálculo errado, a ausência de palavras, a digitação errônea, e hipóteses similares. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido do sujeito passivo as informações declaradas a RFB no caso 1 Fundamentação legal: Instrução Normativa SRF nº 127, de 30 de outubro de 1998, Instrução Normativa RFB nº 1.028, de 30 de abril de 2010, Instrução Normativa RFB nº 1.149, de 28 de abril de 2011, Instrução Normativa RFB nº 1.264, de 30 de março de 2012, Instrução Normativa RFB nº 1.344, de 9 de abril de 2013, Instrução Normativa RFB nº 1.463, de 24 de abril de 2014 e Súmula CARF nº 92. 2 Fundamentação legal: Instrução Normativa SRF nº 126, de 30 de outubro de 1998, Instrução Normativa SRF nº 255, de 11 de dezembro de 2002, Instrução Normativa SRF nº 583, de 20 de dezembro de 2005, Instrução Normativa SRF nº 695, de 14 de dezembro de 2006, Instrução Normativa RFB nº 786, de 19 de novembro de 2007, Instrução Normativa RFB nº 903, de 30 de dezembro de 2008, Instrução Normativa RFB nº 974, de 27 de novembro de 2009, Instrução Normativa RFB nº 1.110, de 24 de dezembro de 2010 e Instrução Normativa RFB nº 1.599, de 11 de dezembro de 2015. 3 Fundamento legal: art. 56 da Instrução Normativa SRF nº 460, de 17 de outubro de 2004, art. 57 da Instrução Normativa SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005, o art. 77 da Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008, art. 88 da Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 20 de dezembro de 2012, a art. 107 da Instrução Normativa RFB nº 1.717, de 17 de julho de 2017 e § 14 do art. 74 da Lei n º 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Fl. 398DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 de verificada circunstância objetiva de inexatidão material e mediante a necessária comprovação do erro em que se funde (incisos I e III do art. 145 e inciso IV do art. 149 do Código Tributário Nacional e art. 32 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Sobre a possibilidade de revisão e retificação de ofício de débitos confessados, o Parecer Normativo Cosit nº 8, de 03 de setembro de 2014, orienta que a revisão de ofício de despacho decisório que não homologou compensação pode ser efetuada pela autoridade administrativa da DRF de origem para crédito tributário não extinto e indevido, na hipótese de ocorrer erro de fato em dados declarados em Per/DComp, DCTF, DIPJ, entre outros, observados os demais requisitos normativos. Ademais, salvo exceções legais, verifica-se que a não retificação da DCTF não impede que o direito creditório pleiteado no Per/DComp seja comprovado por outros meios, bem como não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o Per/DComp que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação de acordo com o Parecer Normativo Cosit nº 02, de 28 de agosto de 2015. Vale ressaltar que a retificação das informações declaradas por iniciativa da própria declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde (§ 1º do art. 147 do Código Tributário Nacional). Por conseguinte, cabe a Recorrente a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao Erário para a instrução do processo a respeito dos fatos e dados contidos em documentos existentes em seus registros internos, caso em que deve prover, de ofício, a obtenção dos documentos ou das respectivas cópias (art. 36 e art. 37 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999). Infere-se que os motivos de fato e de direito apostos no recurso voluntário, por si sós, não podem ser considerados suficientemente robustos a comprovar sobre os supostos erros de fato incorridos pela Recorrente, que precisa produzir um conjunto probatório com outros elementos extraídos dos assentos contábeis, que mantidos com observância das disposições legais fazem prova a seu favor dos fatos ali registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 e Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007). O Despacho Decisório Eletrônico foi emitido com base nos dados então existentes nos registros da RFB informados pela Recorrente à época da sua emissão que, após confrontados, emergiram incongruências. Ocorre que nenhum outro critério de verificação da liquidez e certeza do direito creditório foi adotado pela Administração Tributária. A decisão de primeira instância restringe o indeferimento do Per/DComp ao argumento de que “faz-se mister que os créditos empregados em compensação de tributos gozem de liquidez e certeza”. Contudo, em face da apresentação das cópias do Livro Razão do ano- calendário de 2003, e-fls. 388-390, cabe reexaminar, em preliminar, a improcedência da manifestação de inconformidade, inclusive com base no Parecer Normativo Cosit nº 8, de 03 de setembro de 2014. Os efeitos do acatamento da preliminar da possibilidade de deferimento da Per/DComp por falta de comprovação do erro material, impõe, uma vez que se destina a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos, o retorno dos autos a DRF de origem que inaugurou o litígio sob esse fundamento para que seja analisado o início de prova relativo ao conjunto probatório produzido no recurso voluntário referente ao mérito do pedido, ou seja, a Fl. 399DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 1003-001.117 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10783.901819/2009-26 origem e a procedência do crédito pleiteado, em conformidade com a escrituração mantida com observância das disposições legais, desde que evidenciada por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais em cotejo com os registros internos da RFB. Cumpre registrar, inclusive, que, enquanto a Recorrente não for cientificada de uma nova decisão quanto ao mérito de sua compensação, os débitos compensados permanecem com a exigibilidade suspensa, por não se verificar decisão definitiva acerca de seus procedimentos. E, caso tal decisão não resulte na homologação total das compensações promovidas, deve ser possibilitada a discussão do mérito da compensação nas duas instâncias administrativas de julgamento, conforme o rito processual do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 (§ 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Dispositivo Em assim sucedendo voto em dar provimento em parte ao recurso voluntário, tendo em vista o início de prova produzido pela Recorrente que apresenta as cópias do Livro Razão do ano-calendário de 2003 para reconhecimento da possibilidade de formação de indébito com base no conjunto probatório e informações constantes nos autos, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito, com o consequente retorno dos autos a DRF de origem para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado no Per/DComp devendo o rito processual ser retomado desde o início. (documento assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Fl. 400DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10950.004209/2004-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Dec 02 00:00:00 UTC 2011
Ementa: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF
Exercício: 2002
Ementa: DECISÃO DO STJ SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC.
EFEITO REPETITIVO. APLICAÇÃO NO ÂMBITO DO CARF. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e
pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.
Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Recurso especial, julgado pelo STJ sob o rito do art. 543-C do CPC, aplicável ao CARF por força do art. 62-A do RICARF.
Recurso provido.
Numero da decisão: 2201-001.431
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, Por unanimidade dar provimento ao
recurso.
Matéria: IRPF- auto de infração eletronico (exceto multa DIRPF)
Nome do relator: Pedro Paulo Pereira Barbosa
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EFEITO REPETITIVO. APLICAÇÃO NO ÂMBITO DO CARF. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Recurso especial, julgado pelo STJ sob o rito do art. 543C do CPC, aplicável ao CARF por força do art. 62 A do RICARF. Recurso provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, Por unanimidade dar provimento ao recurso. Assinatura digital Francisco Assis de Oliveira Júnior – Presidente Assinatura digital Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator Fl. 1DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI 2 EDITADO EM: 29/07/2011 Participaram da sessão: Francisco Assis Oliveira Júnior (Presidente), Pedro Paulo Pereira Barbosa (Relator), Eduardo Tadeu Farah, Rodrigo Santos Masset Lacombe, Gustavo Lian Haddad e Rayana Alves de Oliveira França. Relatório JOSÉ PAGANI interpôs recurso voluntário contra acórdão da DRJ CURITIBA/PR (fls. 206) que julgou procedente em parte lançamento, formalizado por meio do auto de infração de fls. 195/202, para exigência de Imposto sobre Renda de Pessoa Física – IRPF suplementar, referente ao exercício de 2002 , no valor de R$ 13.083,74, acrescido de multa de ofício e de juros de mora, perfazendo um crédito tributário total lançado de R$ 28.993,56. A infração que ensejou o lançamento foi a omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica. Segundo o relatório fiscal, o Contribuinte recebeu R$ 151.625,72 e R$ 7.405,39 de rendimentos tributáveis em decorrência de ações trabalhistas que moveu contra o Banco Itaú S/A, já descontados os valores correspondentes ao honorários advocatícios, proporcionalmente aos rendimentos tributáveis (31.539,41 e R$ 1.982,66). Foi alterado o valor do IRRF em razão da apuração da omissão de rendimentos. O Contribuinte impugnou o lançamento e alegou, em síntese, que agiu de boafé ao basear a sua declaração no informe fornecido pela fonte pagadora (fls. 24) que indicaram como rendimentos isentos R$ 100.623,32, referentes a FGTS e juros compensatórios. Defende a isenção desses rendimentos; diz que tais verbas se referem a FGTS e a juros compensatórios, estes últimos, mera indenização por lucros cessantes. Insurgese contra a multa de ofício, alegando que não incorreu em infração, pois declarou de acordo com as informações recebidas da fonte pagadora. Argúi a nulidade do lançamento, que deixou de considerar o que consta dos informes de rendimentos, apenando o Contribuinte por erro que este não teria cometido. A DRJCURITIBA/PR julgou procedente em parte o lançamento para reduzir o valor do imposto suplementar para R$ 11.004,31 e, na mesma proporção, o valor dos juros e da multa de ofício, com base nas considerações a seguir resumidas. Inicialmente, a DRJ rejeitou a preliminar de nulidade, sustentando que não identificou vício no procedimento fiscal que pudesse ensejar este desfecho. Quanto ao mérito, rejeitou as alegações da defesa quanto à isenção dos rendimentos recebidos como juros; acolheu, entretanto, parcialmente, as alegações da defesa para retirar da base de cálculos alguns itens, conforme detalhadamente demonstrado no voto condutor do acórdão; Sobre a multa de ofíco, a DRJ rejeitou a alegação da defesa contra a sua incidência, observando que houve a omissão de rendimentos e que há previsão legal para a incidência da penalidade nessas circunstâncias. Fl. 2DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI Processo nº 10950.004209/200407 Acórdão n.º 220101.431 S2C2T1 Fl. 2 3 O Contribuinte tomou ciência da decisão de primeira instância em 18/09/2007 (fls. 220) e, em 15/10/2007, interpôs o recurso voluntário de fls. 223/238, que ora se examina e no qual reitera, em síntese, as alegações e argumentos da impugnação. Acrescenta, ainda, à argüição de nulidade do lançamento, a alegação de que a autuação incorreu em cerceamento do direito de defesa tendo em vista o incorreto enquadramento legal. Por fim, o Contribuinte formula pedido nos seguintes termos: EX POSITIS, requer se digne esse Conselho em receber o presente RECURSO, para após os procedimentos normais, verificando a inexistência de qualquer descumprimento à legislação fiscal, julgar totalmente improcedente o auto de infração descrito inicialmente, por ser nulo de pleno direito, ou ALTERNATIVAMENTE sejam os valores revistos, pelos seguintes motivos suso explicitados: O fato que buscou constituir o crédito tributário não pode subsistir, tendo em vista que se trata de verbas indenizatórias, tais como: reflexo em aviso prévio, reflexo em férias, FGTS e indenização compensatória; A ilegalidade da multa de ofício, que ainda que o rendimento informado como isento pela FONTE PAGADORA fosse tributável, não poderia ser o Recorrente penalizado, pois não agiu com culpa ou dolo E TAL RENDIMENTO FOI DECLARADO. As demais ilegalidades apontadas que afrontam a legislação e a jurisprudência firmada em nossos pretórios, precipuamente no Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Requer mais, seja permitida a produção de todos os meios de prova em direito admitidos, prova documental, testemunhal e pericial. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa – Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Fundamentação Como se colhe do relatório, cuidase de lançamento pelo qual se apurou omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica. Tratase de rendimentos recebidos em decorrência de ação trabalhista e a controvérsia gira em torno da natureza das verbas e da incidência ou não do imposto sobre tais verbas. Fl. 3DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI 4 Antes de apreciar o mérito dessas questões, todavia, cumpre examinar as arguições de nulidade do lançamento. O Contribuinte argúi a nulidade do lançamento, inicialmente, sob a alegação de que a autoridade fiscal deixou de considerar os informes de rendimentos fornecidos pela fonte pagadora. A alegação, todavia, não procede. A autoridade fiscal não está vinculada ao que foi informado pela fonte pagadora para definir sobre a incidência ou não do imposto. A atividade de fiscalização e de lançamento consiste precisamente na apuração, pelo agente fiscal, das bases tributáveis, podendo para tanto revisar, tanto os valores informados pelo próprio Contribuinte em sua declaração, quanto os valores informados por terceiros. Não vislumbro, portanto, neste aspecto qualquer vício que possa ensejar a nulidade do lançamento. O Contribuinte argúi a nulidade do lançamento, também, por alegado cerceamento do direito de defesa, caracterizado pelo incorreto enquadramento legal. Este fato, todavia, mais uma vez não se verifica. O que o Recorrente aponta como erro no enquadramento legal é a imputação pelo Fisco de uma conduta sem levar em conta os fatos como estes ocorreram. Ora, tal alegação se confunde com o próprio mérito da questão tratada no processo, que envolve precisamente a divergência sobre a correta tributação dos rendimentos recebidos pelo Contribuinte. Não vislumbro, portanto, também quanto a este aspecto vício que pudesse ensejar a nulidade do lançamento. Rejeito, portanto, a preliminar de nulidade. Quanto ao mérito, a questão cingese à definição a respeito das verbas tributáveis. O Contribuinte sustenta que parte das verbas recebidas é isenta, conforme foi informado pela fonte pagadora. Tais verbas teriam sido recebidas a título de FGTS e de juros compensatórios. A DRJ já excluiu da base de cálculo as parcelas referentes ao FGTS. Resta em discussão, portanto, apenas a incidência do imposto sobre as verbas recebidas como consectário dos rendimentos tributáveis recebidos, a título de juros compensatórios. Sustentam os que defendem a tese da não incidência do imposto sobre os juros compensatórios que a mesma tem natureza meramente indenizatória, não configurando acréscimo patrimonial e, portanto, não se enquadrando o rendimento nas hipóteses do art. 43 do CTN. Esta matéria foi recentemente julgada pelo STJ, sob o rito do art. 543C do Código de Processo Civil – CPC, atribuindo à decisão, portanto, efeito repetitivo. Tratase do Recurso Especial nº 1.227.133 RS (2010/02302098), julgado em 20/09/2011 cujo acórdão está assim ementado: RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. NÃO INCIDÊNCIA DE IMPOSTO DE RENDA. – Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais em decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla. Fl. 4DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI Processo nº 10950.004209/200407 Acórdão n.º 220101.431 S2C2T1 Fl. 3 5 Recurso especial, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, improvido. E, como se sabe, o Regimento Interno do CARF, instituído pela Portaria nº 256, de 22 junho de 2009, com alterações introduzidas pela Portaria nº 586, de 21 de dezembro de 2010, no seu art. 62A, determinou que as decisões definitivas do STF e STJ, em matéria infraconstitucional, proferidas na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, a saber: Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No presente caso, resta em discussão apenas a parte do lançamento correspondente à parcela dos rendimentos recebidos a título de juros compensatórios. Assim, embora ressalvando minha posição pessoal no sentido da incidência do imposto sobre os juros compensatórios, calculados sobre verbas tributáveis, por força do art. 62A do RICARF, acima reproduzido, reconheço a improcedência da autuação na parte referente aos juros. Como é esta a única matéria que permanece em discussão, encaminho meu voto, portanto, pela improcedência do lançamento. Conclusão Ante o exposto, encaminho meu voto no sentido de julgar improcedente o lançamento. Assinatura digital Pedro Paulo Pereira Barbosa MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 2ª CAMARA/2ª SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº: 10950.004209/200407 Fl. 5DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI 6 TERMO DE INTIMAÇÃO Em cumprimento ao disposto no § 3º do art. 81 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria Ministerial nº 256, de 22 de junho de 2009, intimese o (a) Senhor (a) Procurador (a) Representante da Fazenda Nacional, credenciado junto à Segunda Câmara da Segunda Seção, a tomar ciência do Acórdão nº. 220101.431. Brasília/DF, 03 de dezembro de 2011. ______________________________________ FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JÚNIOR Presidente da Segunda Câmara da Segunda Seção Ciente, com a observação abaixo: ( ) Apenas com Ciência ( ) Com Recurso Especial ( ) Com Embargos de Declaração Data da ciência: // Procurador(a) da Fazenda Nacional Fl. 6DF CARF MF Impresso em 18/05/2012 por MARILDE CURSINO DE OLIVEIRA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 28/12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 28/ 12/2011 por PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por FRANCISCO ASSIS DE OLIVEIRA JUNI
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Numero do processo: 19515.000231/2009-98
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 15 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Nov 22 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2004, 2005
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. CABIMENTO.
Os Embargos de Declaração devem ser acolhidos para saneamento de vícios de omissão no julgado.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2004, 2005
IR-FONTE. PAGAMENTO SEM CAUSA E PARA BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. GLOSA DE DESPESAS. CONCOMITÂNCIA.
É possível, desde que cumpridos os pressupostos legais, a concomitância da cobrança de IR-Fonte de 35% com a cobrança decorrente da glosa de despesas.
IR-FONTE. PAGAMENTO SEM CAUSA E BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA.
Caso o beneficiário do pagamento não seja identificado é devido o lançamento; caso o seja, necessário verificar se a operação e a causa do pagamento foram comprovadas. Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, venda, entre outros) que enseja o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa.
A alíquota máxima do imposto de renda pessoa física vigente à época da publicação da Lei nº 9.8981, de 1995, prevista em seu art. art. 8º, era 35%. O fato desta alíquota ter sido revogada posteriormente pela Lei nº 9. 250, de 1995, e permanecido no mesmo patamar para o art. 61 da mesma lei é opção legislativa.
Por mais onerosa que seja a alíquota de 35%, a análise deve ser feita à luz do Código Tributário Nacional no sentido de que tributo não constitui sanção de ato ilícito, ou seja, tributo não é penalidade, sanção. A desconsideração da operação - porquanto simulada, o que dá azo ao pagamento sem causa - atrai a incidência do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Deixar de aplicar o mandamento legal à hipótese vertente, ao argumento de caráter sancionatório, significa considerar tributo como sanção, ou, de outro modo, negar vigência ao texto legal por considera-lo inconstitucional, o que é vedado a este CARF.
Numero da decisão: 1201-003.186
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em acolher os embargos de declaração, sem efeitos infringentes. Vencidos os conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Alexandre Evaristo Pinto e Bárbara Melo Carneiro, que acolhiam os embargos de declaração, com efeitos infringentes. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Efigênio de Freitas Júnior.
(documento assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator
(documento assinado digitalmente)
Efigênio de Freitas Júnior - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Gisele Barra Bossa, Efigênio de Freitas Júnior, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente).
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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OMISSÃO. CABIMENTO. Os Embargos de Declaração devem ser acolhidos para saneamento de vícios de omissão no julgado. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2004, 2005 IR-FONTE. PAGAMENTO SEM CAUSA E PARA BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. GLOSA DE DESPESAS. CONCOMITÂNCIA. É possível, desde que cumpridos os pressupostos legais, a concomitância da cobrança de IR-Fonte de 35% com a cobrança decorrente da glosa de despesas. IR-FONTE. PAGAMENTO SEM CAUSA E BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA. Caso o beneficiário do pagamento não seja identificado é devido o lançamento; caso o seja, necessário verificar se a operação e a causa do pagamento foram comprovadas. Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, venda, entre outros) que enseja o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa. A alíquota máxima do imposto de renda pessoa física vigente à época da publicação da Lei nº 9.8981, de 1995, prevista em seu art. art. 8º, era 35%. O fato desta alíquota ter sido revogada posteriormente pela Lei nº 9. 250, de 1995, e permanecido no mesmo patamar para o art. 61 da mesma lei é opção legislativa. Por mais onerosa que seja a alíquota de 35%, a análise deve ser feita à luz do Código Tributário Nacional no sentido de que tributo não constitui sanção de ato ilícito, ou seja, tributo não é penalidade, sanção. A desconsideração da operação - porquanto simulada, o que dá azo ao pagamento sem causa - atrai a incidência do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Deixar de aplicar o mandamento AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 02 31 /2 00 9- 98 Fl. 3452DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 legal à hipótese vertente, ao argumento de caráter sancionatório, significa considerar tributo como sanção, ou, de outro modo, negar vigência ao texto legal por considera-lo inconstitucional, o que é vedado a este CARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em acolher os embargos de declaração, sem efeitos infringentes. Vencidos os conselheiros Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa, Alexandre Evaristo Pinto e Bárbara Melo Carneiro, que acolhiam os embargos de declaração, com efeitos infringentes. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Efigênio de Freitas Júnior. (documento assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente (documento assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli - Relator (documento assinado digitalmente) Efigênio de Freitas Júnior - Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Neudson Cavalcante Albuquerque, Luis Henrique Marotti Toselli, Allan Marcel Warwar Teixeira, Gisele Barra Bossa, Efigênio de Freitas Júnior, Alexandre Evaristo Pinto, Bárbara Melo Carneiro e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Relatório Trata-se de processo administrativo decorrente de Auto de Infração (fls. 1.352 e seguintes) que exigem IR-Fonte de 35%, em razão da constatação de pagamentos enquadrados como “sem causa” com fundamento no artigo 61 da Lei 8.981/95 (artigo 674 do RIR/99). De acordo com o TVF (fls. 1.545/1.563), a contribuinte incorreu em custos inexistentes por ter simulado operações de aquisição de soja em grãos que não entraram no seu estabelecimento, nem real e nem simbolicamente, tampouco foram entregues pela suposta fornecedora (empresa Santa Cruz). A estrutura simulada envolvia as seguintes etapas: a suposta soja seria beneficiada por Rubi S/A Comércio, Indústria e Agricultura, que a transformava em óleo de soja para, em seguida, ser processada pelas empresas Sperafico da Amazônia S/A e Agrícola Sperafico Ltda. O farelo de soja e o óleo resultantes seriam alienados para determinada Cooperativa (Canorp), que figurou como exportadora desses produtos. Fl. 3453DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Ainda dentro dessa operação haveria a contratação pela contribuinte da empresa Master Consultoria Tributária, que seria a gestora desse fluxo. Considerando, porém, que toda essa estrutura foi considerada simulada (isto é, inexistente), os respectivos pagamentos efetuados à Santa Cruz, Rubi, Sperafico da Amazônia, Agrícola Sperafico e Master foram considerados como pagamentos sem causa. A empresa apresentou impugnação (fls. 1.375/1.498), que foi julgada improcedente pelo Acórdão da DRJ de fls. 2.831/2.881. Houve interposição de recurso voluntário (fls. 2.889/ 2.982), julgado procedente pelo CARF, conforme Acórdão nº 2202-002.473 (fls. 3.078/3.090) que recebeu a seguinte ementa: IRF. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU OPERAÇÃO NÃO COMPROVADA. ÔNUS DA PROVA Para a exigência do Imposto de Renda na Fonte por pagamento sem causa ou operação não comprovada, com fundamento no art. 61, § 1°, da Lei n° 8.981, de 1995, o ônus de comprovar a ocorrência da situação descrita na norma abstrata é do Fisco. Tendo a fonte pagadora apresentado documentos fiscais que atestam a efetividade das operações que ensejaram os pagamentos, é do Fisco o ônus de provar a eventual inidoneidade desses documentos. A Fazenda Nacional recorreu dessa decisão (fls. 3.095/3.110). Por voto de qualidade, o recurso especial foi julgado procedente pelo Acórdão 9202-003.877 (fls. 3.261/3.276), cuja ementa transcrevo: CONHECIMENTO. Na vigência da Portaria 256/2009, cabível Recurso Especial interposto contra decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. No caso de critérios jurídicos distintos aplicados a situações fáticas semelhantes, caracterizada a existência de divergência. SIMULAÇÃO. Em se tratando de operações simuladas, devem os tributos ser exigidos em razão das operações efetivamente realizadas, desconsiderando-se os atos simulados. PAGAMENTO SEM CAUSA. Os pagamentos efetuados sem causa justificada devem ser tributados, nos moldes do artigo 61 da Lei n° 8.981/95. Essa decisão da CSRF foi objeto de Embargos de Declaração pelo contribuinte (fls. 3.344/3.351), parcialmente admitidos (cf. fls. 3.366) e, em seguida, rejeitados (fls. 3.372). Encaminhados novamente os autos ao CARF para apreciação das demais questões trazidas no Recurso Voluntário, foi proferido o Acórdão 1201-002.662 (fls. 3.390/3.412), que não acolheu nenhum dos argumentos que restaram sem pronunciamento pela Câmara Superior. Foram opostos novos Embargos de Declaração (fls. 3.423/3.437) pelo contribuinte, sob a alegação de existência de omissões e obscuridades nesse julgado. Fl. 3454DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Por meio do despacho de fls. 3.423/3.437, referidos embargos foram admitidos parcialmente para: a) submeter a apreciação da Turma as alegações de omissão tratadas nos itens 3 e 4 deste despacho; e b) rejeitar, em caráter definitivo, todas as demais alegações de omissão bem como a alegação de obscuridade, por revelarem-se manifestamente improcedentes. Mais precisamente, os itens 3 e 4 em questão dizem respeito às seguintes matérias: 3) Da Terceira Alegação de Omissão Afirma a embargante que a Turma teria deixado de se manifestar sobre o item IV.6.1 do recurso voluntário, onde a então recorrente alega que o caso é de omissão de receitas e não de pagamento sem causa, daí porque não incide o art. 61 da Lei nº 8.981/95. Pois bem, no item IV.6.1 do recurso voluntário é possível verificar que a então recorrente alega o seguinte: IV.6.1 - NÃO INCIDÊNCIA DA NORMA PREVISTA NO ARTIGO 61 DA LEI N° 8.981/95 / HIPÓTESE DE OMISSÃO DE RECEITAS E NÃO PAGAMENTO SEM CAUSA Caso esse E. Conselho entenda pela inexistência das operações, o que se alega a título argumentativo, fato é que a Recorrente deveria ter sido autuada em razão da redução indevida de seu lucro líquido, e não por suposto pagamento sem causa (artigo 61 da Lei 8.981/95), conforme reiterada jurisprudência administrativa: IRRFONTE - PAGAMENTO SEM CAUSA - ART. 61 DA LEI N°. 8981/95 - LUCRO REAL - REDUÇÃO DE LUCRO LIQUIDO - MESMA BASE DE CÁLCULO - INCOMPATIBILIDADE – A aplicação do art. 61 está reservada para aquelas situações em que o fisco prova a existência de um pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado, desde que a mesma hipótese não enseje tributação por redução do lucro liquido, tipicamente caracterizada por omissão de receita ou glosa de custos/despesas, situações próprias da tributação do IRPJ pelo lucro real. (Acórdão nº 104-21.757). Conforme se verifica da ementa acima transcrita, a Recorrente somente poderia ter sido autuada por suposto pagamento sem causa, caso não tivesse realizado dedução de seu lucro líquido em razão das operações praticadas, consideradas inexistentes. Assim, requer-se o cancelamento da autuação lavrada com base no artigo 61 da Lei no 8.981/95, por evidente erro de fundamentação legal. (...) No trecho acima a então recorrente pretendia demonstrar que teria havido erro quanto à fundamentação legal da infração. Pelo exame dos acórdãos nos 2202-002.473 e 9202-003.877 verifico que essa alegação não foi apreciada. Por sua vez, por se tratar de questão autônoma que, a meu ver, não é prejudicada pela decisão da 2ª Turma da CSRF, a qual decidiu que as operações questionadas pela fiscalização foram simuladas, entendo, ao menos neste exame preliminar de admissibilidade de embargos, que essa terceira alegação de omissão não é manifestamente improcedente. 4) Da Quarta Alegação de Omissão Afirma a embargante que a Turma teria deixado de se manifestar sobre o item IV.8 do recurso voluntário, onde a então recorrente alega que houve ofensa ao art. 3º do CTN pois no caso o tributo foi usado como sansão a ato ilícito. Fl. 3455DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Pois bem, no item IV.8 do recurso voluntário é possível verificar que a então recorrente alega, em síntese, o seguinte: IV.8 - Tributo não e sanção a Ato Ilícito - Ofensa ao Artigo 3º do Código Tributário Nacional (...) Tal tributação é tão severa que, conforme visto, é superior ao valor da operação quando aplicada juntamente com a multa de ofício agravada, pelo que, da forma como ocorreu o enquadramento da suposta infração, percebe-se que a verdadeira intenção dos fiscais sempre foi a de punir a Recorrente, a ponto de constituírem um crédito tributário praticamente impagável. Essa intenção de punir a Recorrente jamais poderia ter se convertido em exigência de imposto, já que tributos não poderão, de forma alguma, ser utilizados como sanção de ato ilícito, a teor do que dispõe o artigo 3º do CTN: (...) Por se tratar de um descumprimento de um dever legal ("quando não for comprovada a operação ou a sua causa"), conclui-se logicamente que a hipótese de incidência dessa norma prevê, evidentemente, a ocorrência de um fato ilícito, que se verificado no mundo fenomênico, dará ensejo a instauração de uma relação jurídica de índole sancionatória, na qual o sujeito infrator terá que entregar ao Fisco uma quantia pecuniária a título de sanção. Assim, não subsiste qualquer dúvida quanto à natureza sancionatória da norma prevista no artigo 61, parágrafo primeiro da Lei nº 8.981/95. Como a prática desse fato ilícito implica no pagamento apenas de uma sanção, não poderia jamais o legislador ordinário, sob o pretexto de apenar os contribuintes que se enquadram nessa hipótese, prever a incidência do imposto de renda na fonte, justamente porque o artigo 3º do CTN expressamente define que o tributo não constitui sanção de ato ilícito. (...) No trecho acima a então recorrente pretendia demonstrar que o art. 61 da Lei nº 8.981/95 é ilegal frente ao 3º do CTN. Por se tratar de argumento autônomo, que não foi apreciado nos acórdãos nos 2202- 002.473 e 9202-003.877, entendo, ao menos neste exame preliminar de exame de admissibilidade dos embargos, que o acórdão embargado deveria ter se manifestado sobre esse assunto. Como não o fez, considero que essa quarta alegação de omissão não é manifestamente improcedente. Os autos, então, foram reencaminhados ao CARF para apreciação das duas omissões apontadas e a mim distribuídos. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Relator. Conforme visto, as duas omissões no julgado que deram causa à admissão dos presentes Embargos de Declaração decorrem da não apreciação dos seguintes argumentos invocados no recurso voluntário: Fl. 3456DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 (i) erro de cobrança do IR-Fonte, afinal a Embargante somente poderia ter sido autuada por suposto pagamento sem causa, caso não tivesse realizado a dedução dos pagamentos de seu lucro líquido em razão das operações praticadas, consideradas sem causa; e (ii) inaplicabilidade e ilegalidade do art. 61 da Lei nº 8.981/95, fundamento legal do Auto de Infração em face do 3º do CTN. Antes, porém, de apreciar as alegadas omissões, mister ressaltar o entendimento que prevaleceu no voto vencedor do Acórdão da CSRF (fls. 3.273), in verbis: Adentrando o mérito, novamente com a devida vênia, também discordo do posicionamento esposado pelo relator, no sentido de necessidade de comprovação de falsidade documental das etapas de aquisição de grãos e suposto beneficiamento dos referidos, a fim de que se possa concluir pela invalidade da operação, o que poderia dar azo à aplicação do disposto no art. 61, §1o. da Lei no. 8.981, de 1995, consoante realizado pela autoridade lançadora. Apesar dos registros contábeis fazem prova da efetiva saída dos recursos da autuada, entendo, com base nos elementos indiciários constantes dos autos, não terem restado comprovadas as operações de aquisição e beneficiamento de grãos de soja, destacando- se, em especial, as seguintes evidências: (...) Assim, concluo pela existência de simulação nas operações sob análise, sendo de se afastar os efeitos jurídicos das etapas aqui caracterizadas como simuladas, devendo-se buscar os efeitos jurídico-tributários do que realmente ocorreu. Desta forma, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional, reformando-se o recorrido para declarar a invalidade do ciclo de operações de aquisição de grãos, beneficiamento e exportação de grãos objeto de tributação, visto que simuladas, com retorno dos autos ao colegiado a quo, para apreciação das demais questões trazidas no Recurso Voluntário. Como se percebe, o silogismo empregado na decisão em questão foi o seguinte: como a operação de aquisição da soja é simulada, ela não existiu de fato. E se ela não existiu de fato, os pagamentos feitos a esse título são carentes de causa e, portanto, passível a cobrança de IR-Fonte prevista no artigo da Lei nº 8.981/95. Ressalte-se, aqui, que não mais se discute nesses autos se o pagamento tem ou não causa, o que já restou decidido de forma definitiva pela CSRF em sentido oposto ao que advoga a Embargante (ou seja, as despesas com a aquisição da soja, em função da simulação apontada, foram consideradas como pagamentos sem causa). O que se discute, na verdade, são as questões da possibilidade de cumulação do IR-Fonte com a glosa das despesas, bem como se o pagamento sem causa, por si só, é suficiente para permitir a incidência do IR-Fonte aos olhos do artigo 3º do CTN, questões estas omitidas no julgado embargado e que, a depender da interpretação do Julgador, realmente podem levar ao provimento do recurso voluntário. Passaremos, então, a sanar os vícios de omissão reconhecidos no exame que admitiu os embargos, a fim de verificar a necessidade ou não de atribuir efeitos infringentes. Pois bem. Fl. 3457DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Originariamente, coube à Lei nº 4.154, de 1962 1 instituir a incidência de IR-Fonte sobre rendimentos declarados como pagos ou creditados por sociedades anônimas, quando não fosse indicada a operação ou a causa que deu origem ao rendimento e quando a fonte não indicasse o beneficiário individualmente. Essa cobrança de IR exclusiva na fonte trata de responsabilidade tributária 2 imputada à pessoa jurídica na qualidade de fonte pagadora de rendimentos que “demandava” (e que a nosso ver ainda demanda) não apenas essa estranha figura de “pagamento sem causa”, mas também a ausência de identificação do beneficiário da renda transferida. Naquela época a Coordenação do Sistema de Tributação 3 da Receita Federal se manifestou no sentido de que “esta incidência na fonte somente tem aplicação às hipóteses em que a redução do lucro líquido possa de fato ensejar transferência de valores do patrimônio da pessoa jurídica para o das pessoas físicas”, evitando, assim, “encobrir a transferência de tais recursos a outrem”. Realmente a não comprovação da natureza (ou causa) do dispêndio pela fonte pagadora (fato este que permite a glosa da despesa), somada à hipótese de não identificação do destinatário do pagamento, evita o conhecimento de quem auferiu o rendimento correspondente. Nessa situação de ocultação do beneficiário, é evidente que a pessoa jurídica que efetua os pagamentos possui relação direta com o fato gerador do imposto sobre a renda, afinal é ela quem transfere a riqueza tributável. É justamente por isso que a fonte pagadora tem o dever de identificar individualmente os beneficiários dos pagamentos por ela feitos, sob pena de sujeição passiva por responsabilidade. É importante notar, nesse ponto, que uma coisa é a não comprovação dos requisitos para a dedução do dispêndio – que é causa para a glosa da dedução da despesa no Lucro Real -; outra coisa é a não identificação do beneficiário do pagamento pela fonte pagadora, esta sim a hipótese legal para a cobrança do IR-Fonte prevista no artigo 61 da Lei nº 8.981/1995. Essas normas (de “dedutibilidade” e do “IR-Fonte de 35%”) são autônomas e convivem em harmonia no ordenamento jurídico, podendo, desde que respeitadas cada uma de suas hipóteses legais, ser aplicadas em um mesmo procedimento fiscal, na linha do que já decidiu a Câmara Superior de Recursos Fiscais 4 . 1 Art. 3º As pessoas jurídicas somente deverão pagar os rendimentos especificados no incisos 3º e 6º do artigo 96 do Regulamento a que se refere o art. 1º e na alínea "a" do art. 8º desta lei: [...] § 3º Aplicar-se-á também o disposto neste artigo aos rendimentos declarados como pagos ou creditados por sociedades anônimas, quando não forem atendidas as condições estabelecidas no § 4º do art. 37 do Regulamento referido no art. 1º desta lei. Art. 37. Constitui lucro real a diferença entre o lucro bruto e as seguintes deduções [...] § 4º Não são dedutíveis as importâncias que forem declaradas como pagas ou creditadas a título de comissão, bonificações, gratificações ou semelhantes, quando não for indicada a operação ou a causa que deu origem ao rendimento e quando o comprovante do pagamento não individualizar o beneficiário do rendimento. 2 A responsabilidade tributária tem por fundamento, dentre outros dispositivos, o artigo 128 do CTN: “Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindo-a a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação.” 3 Parecer CST nº 20/1984 (itens 13 e 15). 4 Acórdão nº 9202-003.879. Rel. Luis Eduardo de Oliveira Santos. Sessão de 12/04/2016. Fl. 3458DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Desse precedente, cumpre destacar a seguinte passagem do voto condutor: “[...]. Foi identificado o pagamento de um valor registrado como despesa, pelo fiscalizado. Nesse caso: - há dispositivo legal específico determinando que, para considerar esse montante passível de dedutibilidade na formação da base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica deve ser comprovada a operação e sua necessidade para manutenção da fonte produtora; e - também há outro dispositivo legal, determinando que o pagamento tenha beneficiário identificado e causa comprovada. Repara-se que o primeiro dispositivo referido no parágrafo anterior tem por objetivo garantir a tributação da renda da própria pessoa jurídica, ao passo que o segundo dispositivo tem por objetivo garantir a tributação da renda de terceiro, [...].” Adotando essa mesma linha de raciocínio, e ao contrário do que sustenta a Embargante, não vejo nenhum vício na aplicação da referida concomitância (glosa + IR-Fonte), desde que respeitados os pressupostos de cada uma das normas. Ou seja, não é porque a fiscalização corretamente glosou a despesa, afinal restaram não comprovadas as operações declaradas, que ela estaria hipoteticamente impedida de exigir o IR-Fonte. Voltando, então, aos pressupostos fáticos para a cobrança de IR-Fonte, vale notar que após sucessivas alterações legislativas, a redação atual dos dispositivos legais vigentes (o caput e o parágrafo primeiro do artigo 61 da Lei nº 8.981/1995 5 ) pode levar, se interpretados apenas gramaticalmente, a uma conclusão de que o sistema jurídico, a partir de então, passou a permitir a sua cobrança em duas hipóteses alternativas: pagamento para beneficiário não identificado (caput) “ou” pagamento sem causa (§ 1º 6 ), e não mais em uma única hipótese com duas condicionantes: pagamento para beneficiário identificado “e” sem causa, como era previsto expressamente na legislação de origem. Como mostra a experiência no trato de normas jurídicas, até pode dar-se o legislador ao luxo de cometer equívocos quando do exercício da técnica legislativa. Não deveriam, mas o fato é que alguns lapsos manifestos no texto devem ser esclarecidos e corrigidos no âmbito da interpretação sistemática, notadamente quando esta contraria a dita literalidade da norma. E ajeitando-se na estrutura lógica no qual inserido, cumpre observar que o artigo 61 da Lei nº 8.981/1995 continua tendo o propósito de evitar que empresas sejam utilizadas como “ponte” ou como fonte de pagamentos (independentemente da causa) que não permitam identificar os efetivos beneficiários, inibindo, com isso, o rastreamento do destino da renda e sua tributação por aquele que detém a capacidade contributiva. 5 Art. 61. Fica sujeito à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais. § 1º - A incidência prevista no caput aplica-se, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa, bem como à hipótese de que trata o § 2º, do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991. 6 Note que o legislador usou o conector “também”, podendo levar ao precipitado entendimento de que seriam hipóteses alternativas: “não somente pela falta de identificação do beneficiário, mas também pela ausência de causa”. Fl. 3459DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 É a ausência de identificação para quem pagou, e não a que título que pagou, a hipótese de incidência da responsabilidade tributária pela retenção do IR-Fonte. A “ausência” de causa, não bastasse sua imprecisão epistemológica - afinal todo pagamento tem uma causa (senão não se faria o pagamento) - jamais poderia constar no antecedente da norma legal de incidência tributária sobre a renda, por dois outros motivos, além do princípio da capacidade econômica. Primeiro porque o Imposto de Renda no Brasil está sujeito ao “princípio do non olet)”, consagrado no artigo 118 do CTN 7 e na linha do que já decidiram o STF e o STJ, conforme atestam, respectivamente, as ementas dos julgados abaixou. “A jurisprudência da Corte, à luz do art. 118 do Código Tributário Nacional, assentou entendimento de ser possível a tributação de renda obtida em razão de atividade ilícita, visto que a definição legal do fato gerador é interpretada com abstração da validade jurídica do ato efetivamente praticado, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos” 8 . 2. O art. 118 do CTN consagra o princípio do "non olet", segundo o qual o produto da atividade ilícita deve ser tributado, desde que realizado, no mundo dos fatos, a hipótese de incidência da obrigação tributária. 3. Se o ato ou negócio ilícito for acidental à norma de tributação (= estiver na periferia da regra de incidência), surgirá a obrigação tributária com todas as conseqüências que lhe são inerentes. Por outro lado, não se admite que a ilicitude recaia sobre elemento essencial da norma de tributação. 4. Assim, por exemplo, a renda obtida com o tráfico de drogas deve ser tributada, já que o que se tributa é o aumento patrimonial e não o próprio tráfico. Nesse caso, a ilicitude é circunstância acidental à norma de tributação. No caso de importação ilícita, reconhecida a ilicitude e aplicada a pena de perdimento, não poderá ser cobrado o imposto de importação, já que "importar mercadorias" é elemento essencial do tipo tributário. Assim, a ilicitude da importação afeta a própria incidência da regra tributária no caso concerto. [...]” 9 E segundo porque tributo não pode se confundir com sanção, conforme previsto expressamente no artigo 3º do Código Tributário Nacional 10 . São por essas razões, quais sejam, princípio da capacidade contributiva, “non olet” e artigo 3º do CTN, que a aplicação do artigo 61 da Lei nº 8.981/1995, segundo nosso ponto de vista, está restrita à hipótese de pagamentos, ainda que já glosados por falta de comprovação de causa, para beneficiários que não sejam ou não possam ser identificados. 7 Art. 118. A definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se: I - da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos; II - dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos. 8 STF. 1ª T. HC 94.240/PR. 9 Superior Tribunal de Justiça. 2ª Turma. Recurso Especial 984.607. Rel. Ministro Castro Meira. D.J. 05/11/2008. 10 “Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”. Fl. 3460DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 A causa, repita-se, é irrelevante para fins de tributação da renda. Ainda que ilícita ou simulada, ela não impede a cobrança por parte daquele que efetivamente dispôs de seus efeitos econômicos. O mesmo, porém, não ocorre com a não identificação do beneficiário. Se a pessoa jurídica (fonte pagadora) não informa para quem concedeu a vantagem ou para quem entregou recursos, impedindo, com isso, que o verdadeiro titular dos rendimentos seja atingido, legítima a imputação da tributação pelo IR-Fonte por responsabilidade. Isso significa dizer que não basta o fisco reunir elementos probantes de que a pessoa jurídica efetuou pagamentos cuja causa não foi comprovada (como foi o caso da aquisição de grãos) – isto é motivo para a glosa - , devendo, na verdade, cumprir com o ônus de demonstrar que a fonte pagadora se recusou a identificar os efetivos beneficiários, seja por não declarar para quem pagou, seja por se valer de estrutura que esconde o real destinatário dos recursos por ela transferidos. Trazendo essas considerações para esse caso concreto, realmente a análise da presente cobrança deve ser feita à luz do artigo 3º do Código Tributário Nacional, não sendo suficiente para a manutenção da exigência apenas a caracterização de que houve pagamentos sem causa sob o único fundamento de que houve simulação na operação de aquisição de soja. Pelo contrário, seguindo o racional ora empregado, é apenas com a reunião de indícios contundentes e convergentes que concorrem para uma conclusão segura acerca da não identificação dos beneficiários dos pagamentos das ditas aquisições é que a cobrança do IR- Fonte é cabível. E é justamente nesse ponto que a presente autuação não se sustenta. Senão, vejamos: Por ocasião do Acórdão 1402-001.343, que apreciou a mesma matéria, mas para os anos de 2002, 2003 e 2004, a Turma, por unanimidade de votos, deu provimento ao recurso voluntário para cancelar o IR-Fonte. Extrai-se do voto condutor que: Pois bem, pela análise dos autos estou convencido de que não há que se falar em incidência do IR-Fonte em face de pagamento sem causa nessas operações, pois: 1) ocorreu a incidência do IR-Fonte, no pagamento dos serviços prestados à Máster, bem como à Rubi, sendo que tais empresas, em principio, ofereceram tais valores à tributação (fato incontroverso nos autos); 2) foram juntados documentos pela Recorrente que demonstram ter havido a prestação de mencionados serviços (industrialização e consultoria tributária), bem como que demonstram a ocorrência de todas as transações financeiras das etapas da operação descritas pela Fiscalização; 3) os beneficiários dos pagamentos foram todos identificados, quanto a isso não se tem dúvida; [...] 5) nos exatos termos do art. 3 o do CTN, tributo não é sanção de ato ilícito. No primeiro acórdão desses autos (2202-002.473 – fls. 3.078/3.090), julgado também por unanimidade, o IR-Fonte novamente foi afastado, tendo o Relator assim se manifestado: Fl. 3461DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Não tenho reparos a fazer ao Acórdão da Primeira Seção que tratou da mesma matéria. Diante dos documentos fiscais relativos às operações que ensejaram os pagamentos e dos comprovantes da efetividade desses pagamentos, teria a Fiscalização que demonstrar que tais operações não existiram de fato e, portanto, de que os documentos fiscais são inidôneos e de que a contratação desses serviços, bem como os pagamentos, foram mera simulação. Todavia, não se vê nos autos nada que sustente essa conclusão. E certo que houve a autuação do Fisco Estadual que considerou essas operações como simuladas. Mas, esse fato, por si só, não é suficiente para sustentar a autuação objeto deste processo que é aquele do pagamento sem causa. Como bem ressaltado nas passagens transcritas, não há prova, e nem alegação (motivação), de que os recursos tiveram destinação incerta ou diversa daquela declarada pelo contribuinte. Vale dizer, da análise dos autos, restou comprovado que os pagamentos ocorreram para beneficiários identificados e cuja inidoneidade nunca foi questionada pelo fisco. Dessa forma, incabível a tributação pelo IR-Fonte, sob pena de transformar imposto em sanção, o que é inadmissível aos olhos do CTN. Conclusão Pelo exposto, acolho os embargos, com efeitos infringentes, para dar provimento ao recurso voluntário. É como voto. (documento assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Voto Vencedor Conselheiro Efigênio de Freitas Júnior, redator designado. 2. Conforme salientado pelo relator, “o que se discute, na verdade, são as questões da possibilidade de cumulação do IR-Fonte com a glosa das despesas, bem como se o pagamento sem causa, por si só, é suficiente para permitir a incidência do IR-Fonte aos olhos do artigo 3º do CTN, questões estas omitidas no julgado embargado e que, a depender da interpretação do Julgador, realmente podem levar ao provimento do recurso voluntário”. 3. Não obstante o substancioso voto do eminente relator, peço vênia para divergir em relação à incidência do IR-Fonte na hipótese de pagamento sem causa. 4. Nos termos do Acórdão de Recurso Especial nº 9202-003.877 as operações simuladas devem ser desconsideradas e os pagamentos sem causa devem sujeitar-se à tributação nos moldes do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995, veja-se: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Fl. 3462DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 Ano-calendário: 2004, 2005 [...] SIMULAÇÃO. Em se tratando de operações simuladas, devem os tributos ser exigidos em razão das operações efetivamente realizadas, desconsiderando-se os atos simulados. PAGAMENTO SEM CAUSA. Os pagamentos efetuados sem causa justificada devem ser tributados, nos moldes do artigo 61 da Lei n° 8.981/95. 5. O trecho abaixo transcrito do voto vencedor observa a desconsideração das operações tidas por simuladas e a tributação pelo IR-Fonte: Adentrando o mérito, novamente com a devida vênia, também discordo do posicionamento esposado pelo relator, no sentido de necessidade de comprovação de falsidade documental das etapas de aquisição de grãos e suposto beneficiamento dos referidos, a fim de que se possa concluir pela invalidade da operação, o que poderia dar azo à aplicação do disposto no art. 61, §1º. da Lei no. 8.981, de 1995, consoante realizado pela autoridade lançadora. Apesar dos registros contábeis fazem prova da efetiva saída dos recursos da autuada, entendo, com base nos elementos indiciários constantes dos autos, não terem restado comprovadas as operações de aquisição e beneficiamento de grãos de soja [...]. Assim, concluo pela existência de simulação nas operações sob análise, sendo de se afastar os efeitos jurídicos das etapas aqui caracterizadas como simuladas, devendo-se buscar os efeitos jurídico-tributários do que realmente ocorreu. Desta forma, voto por dar provimento ao recurso da Fazenda Nacional, reformando-se o recorrido para declarar a invalidade do ciclo de operações de aquisição de grãos, beneficiamento e exportação de grãos objeto de tributação, visto que simuladas, com retorno dos autos ao colegiado a quo, para apreciação das demais questões trazidas no Recurso Voluntário. (Grifo nosso) 6. A questão de fundo, portanto, cinge-se à interpretação do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995, cujo teor estabelece: Art. 61. Fica sujeito à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais. § 1º A incidência prevista no caput aplica-se, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa, bem como à hipótese de que trata o § 2º, do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991. § 2º Considera-se vencido o Imposto de Renda na fonte no dia do pagamento da referida importância. § 3º O rendimento de que trata este artigo será considerado líquido, cabendo o reajustamento do respectivo rendimento bruto sobre o qual recairá o imposto. (Grifo nosso) Fl. 3463DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 7. Extrai-se do diploma legal três hipóteses distintas sujeitas à incidência do IR- Fonte, todas cumulativas com o pagamento: i) beneficiário não identificado; ii) quando não comprovada a operação e iii) quando não comprovada a causa. 8. Caso o beneficiário do pagamento não seja identificado é devido o lançamento; caso o seja, necessário verificar se a operação e a causa do pagamento foram comprovadas. Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, venda, entre outros) que ensejou o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa. Pode-se dizer que a norma objetiva, dentre outros pontos, transparência fiscal do contribuinte. 9. Ao tratar da transparência fiscal, Ricardo Lobo Torres11 observa que o dever de transparência incumbe ao Estado e à Sociedade. Enquanto o Estado “deve revestir a sua atividade financeira da maior clareza e abertura, tanto na legislação instituidora de impostos, taxas e contribuições e empréstimos, como na feitura do orçamento e no controle de sua execução”, a Sociedade, por seu turno, “deve agir de tal forma transparente, que no seu relacionamento com o Estado desapareça a opacidade dos segredos e da conduta abusiva”. 10. Nesse sentido, para comprovar tanto a operação quanto a causa não basta uma roupagem jurídica, o registro contábil, tampouco a apresentação da nota fiscal, é indispensável que o contribuinte comprove de forma inequívoca, com documentos hábeis e idôneos, a efetividade da operação e a causa do pagamento. 11. Em relação à concomitância do IR-Fonte e IRPJ, tem-se infrações distintas. No IRPJ, a sociedade pratica o fato gerador, tal qual no caso em análise em que ocorreu glosa de despesas/custos. Ela é contribuinte 12 e responde por fato gerador próprio. No caso do IR-Fonte, essa mesma sociedade atua como fonte pagadora, ou seja, como responsável pelo recolhimento do imposto devido pelo beneficiário do pagamento. Tanto que a base de calculo deve ser reajustada considerando a alíquota de 35%, vez que o pagamento efetuado é considerado líquido. Portanto, é possível uma convivência harmônica entre ambas as infrações. 12. Quanto à suposta utilização do IR-Fonte como norma sancionatória e ofensa ao art. 3º terceiro do CTN, o argumento ganha força em face da onerosidade da alíquota de 35%, a qual se agrava com o reajustamento da base de cálculo. Concordo que se trata de uma tributação onerosa. No entanto, esta era a alíquota máxima do imposto de renda pessoa física vigente à época da publicação da Lei nº 9.8981, de 1995, prevista em seu art. art. 8º. O fato desta última alíquota ter sido revogada posteriormente pela Lei nº 9. 250, de 1995 e aquela permanecido no mesmo patamar é opção legislativa. 11 LOBO TORRES, Ricardo. Sigilos bancário e fiscal. In: SARAIVA FILHO, Oswaldo Othon de Pontes; GUIMARÃES, Vasco Branco (Coord.). Sigilos bancário e fiscal: homenagem ao jurista José Carlos Moreira Alves. Belo Horizonte: Fórum, 2011. p. 148. 12 CTN. Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se: I - contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II - responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Fl. 3464DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 1201-003.186 - 1ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 19515.000231/2009-98 13. Por mais onerosa que seja a alíquota, a análise deve ser feita à luz do Código Tributário Nacional no sentido de que tributo 13 não constitui sanção de ato ilícito, ou seja, tributo não é penalidade, sanção. A tributação ocorreu em razão de a operação ter sido desconsiderada, porquanto simulada, o que deu azo ao pagamento sem causa e atraiu a incidência do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Deixar de aplicar o mandamento legal à hipótese vertente, ao argumento de caráter sancionatório, significa considerar tributo como sanção, ou, de outro modo, negar vigência ao texto legal por considera-lo inconstitucional, o que é vedado 14 a este CARF. Nestes termos, correta a tributação do IR-Fonte. Conclusão 14. Ante o exposto, voto no sentido de conhecer dos embargos de declaração e, no mérito, acolhê-los, sem efeitos infringentes, para sanar a omissão alegada. É como voto. (documento assinado digitalmente) Efigênio de Freitas Júnior 13 CTN. Art. 3º Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. 14 Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 3465DF CARF MF
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Numero do processo: 10600.720046/2016-17
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 03 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Jan 07 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
RECURSO ESPECIAL. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. MATÉRIA SUMULADA. SÚMULA CARF Nº 108. NÃO CONHECIMENTO.
Nos termos do Regimento Interno do CARF, não se conhece de recurso especial apresentado em face de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
LUCRO DA EXPORTAÇÃO INCENTIVADA DE MINERAIS ABUNDANTES. ALÍQUOTA ESPECÍFICA. INAPLICABILIDADE.
Tendo a Lei n° 9.249/95 estabelecido alíquota indistinta de 15% para apuração do IRPJ (com adicional de 10%), revogando disposições em contrário, não é aplicável a alíquota específica para o lucro da exportação incentivada de minerais abundantes de 18% (sem adicional) prevista na Lei nº 7.988/89, não havendo falar em prevalência de norma especial anterior sobre a geral posterior.
BENEFÍCIO FISCAL. CONFIRMAÇÃO ART. 41 ADCT. INOCORRÊNCIA.
A Lei nº 7.988/89 majorou a alíquota do benefício fiscal previsto no Decreto-lei nº2.413/88, não operando sua confirmação, nos termos do art. 41 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT).
CESSÃO DE DIREITOS. EQUIPARAÇÃO À COMPRA E VENDA. PREÇO DETERMINADO OU DETERMINÁVEL. NECESSIDADE.
No direito civil a cessão de direitos possui o mesmo conteúdo jurídico do contrato de compra e venda. Neste negócio jurídico, é essencial que o preço seja determinado ou determinável.
INDEDUTIBILIDADE DE ROYALTIES PAGO A SÓCIO. PESSOA JURÍDICA.
A alínea "d" do parágrafo único do artigo 71 da Lei nº 4.506, de 1964, refere-se indistintamente a sócio pessoa física ou jurídica.
Numero da decisão: 9101-004.551
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, não conhecendo apenas quanto à matéria "ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício" e, no mérito, na parte conhecida, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Cristiane Silva Costa e Junia Roberta Gouveia Sampaio (suplente convocada), que lhe deram provimento parcial apenas quanto à classificação dos pagamentos efetuados como royalties e as conselheiras Lívia De Carli Germano e Amélia Wakako Morishita Yamamoto, que lhe deram provimento na integralidade. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Lívia De Carli Germano.
(documento assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego Presidente
(documento assinado digitalmente)
Viviane Vidal Wagner - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Edeli Pereira Bessa, Demetrius Nichele Macei, Viviane Vidal Wagner, Lívia de Carli Germano, Andrea Duek Simantob, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Junia Roberta Gouveia Sampaio (suplente convocada) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: VIVIANE VIDAL WAGNER
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 RECURSO ESPECIAL. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. MATÉRIA SUMULADA. SÚMULA CARF Nº 108. NÃO CONHECIMENTO. Nos termos do Regimento Interno do CARF, não se conhece de recurso especial apresentado em face de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 LUCRO DA EXPORTAÇÃO INCENTIVADA DE MINERAIS ABUNDANTES. ALÍQUOTA ESPECÍFICA. INAPLICABILIDADE. Tendo a Lei n° 9.249/95 estabelecido alíquota indistinta de 15% para apuração do IRPJ (com adicional de 10%), revogando disposições em contrário, não é aplicável a alíquota específica para o lucro da exportação incentivada de minerais abundantes de 18% (sem adicional) prevista na Lei nº 7.988/89, não havendo falar em prevalência de norma especial anterior sobre a geral posterior. BENEFÍCIO FISCAL. CONFIRMAÇÃO ART. 41 ADCT. INOCORRÊNCIA. A Lei nº 7.988/89 majorou a alíquota do benefício fiscal previsto no Decreto- lei nº2.413/88, não operando sua confirmação, nos termos do art. 41 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). CESSÃO DE DIREITOS. EQUIPARAÇÃO À COMPRA E VENDA. PREÇO DETERMINADO OU DETERMINÁVEL. NECESSIDADE. No direito civil a cessão de direitos possui o mesmo conteúdo jurídico do contrato de compra e venda. Neste negócio jurídico, é essencial que o preço seja determinado ou determinável. INDEDUTIBILIDADE DE ROYALTIES PAGO A SÓCIO. PESSOA JURÍDICA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 60 0. 72 00 46 /2 01 6- 17 Fl. 1567DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 A alínea "d" do parágrafo único do artigo 71 da Lei nº 4.506, de 1964, refere-se indistintamente a sócio pessoa física ou jurídica. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, não conhecendo apenas quanto à matéria "ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício" e, no mérito, na parte conhecida, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Cristiane Silva Costa e Junia Roberta Gouveia Sampaio (suplente convocada), que lhe deram provimento parcial apenas quanto à classificação dos pagamentos efetuados como royalties e as conselheiras Lívia De Carli Germano e Amélia Wakako Morishita Yamamoto, que lhe deram provimento na integralidade. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Lívia De Carli Germano. (documento assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego – Presidente (documento assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Edeli Pereira Bessa, Demetrius Nichele Macei, Viviane Vidal Wagner, Lívia de Carli Germano, Andrea Duek Simantob, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Junia Roberta Gouveia Sampaio (suplente convocada) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Relatório Trata-se de recurso especial de divergência interposto por SAMARCO MINERAÇÃO S.A. em face do Acórdão nº 1302-002.385, de 17/10/2017, que registrou a seguinte ementa e julgamento: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 BENEFÍCIO FISCAL. CONFIRMAÇÃO ARTIGO 41 ADCT. INOCORRÊNCIA. A Lei 7.988/89 majorou a alíquota do benefício fiscal previsto no Decreto-lei 2.413/88, não operando sua confirmação, nos termos do artigo 41 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). CESSÃO DE DIREITOS. EQUIPARAÇÃO À COMPRA E VENDA. No direito civil a cessão de direitos possui o mesmo conteúdo jurídico do contrato de compra e venda. COMPRA E VENDA. PREÇO. No contrato de compra e venda o preço é essencial e ele deve ser determinado ou determinável. INDEDUTIBILIDADE DE ROYALTY PAGO A SÓCIO. PESSOA JURÍDICA. Fl. 1568DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 A alínea "d" do parágrafo único do artigo 71 da Lei nº 4.506, de 1964, refere-se a sócio pessoa física ou jurídica. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 LEI QUE DEFINE PENALIDADE. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO ACUSADO. LIMITE. A interpretação mais favorável ao acusado a que se refere o artigo 112 do CTN não trata da aplicação da multa de ofício não-qualificada ou agravada, por ser penalidade de caráter vinculado, cuja imposição depende apenas da existência da infração tributária. SENTENÇA. LIMITES. A sentença tem como limitadores o pedido e seu suporte fático. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeiro grau. No mérito, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Rogério Aparecido Gil. O Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho votou pelas conclusões do voto divergente do Conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho quanto à primeira infração. E, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso quanto dedutibilidade dos royalties e, ainda, quanto à aplicação da multa de ofício e à incidência de juros sobre a multa, vencido o Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca (Relator) que dava provimento integral ao recurso. O Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado solicitou a apresentação de declaração de voto. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho. Os autos de infração que originaram o presente feito foram lavrados em razão da constatação de duas infrações: 1- Insuficiência de recolhimento de IRPJ em razão de a contribuinte ter recolhido, nos anos-calendário de 2011 a 2014, o imposto à alíquota de 18%, sem adicional, de acordo com a previsão da Lei nº 7.988/1989, a despeito de a Lei nº 9.249/1995 ter uniformizado as alíquotas do tributo. O contribuinte defende que decisão judicial transitada em julgado, proferida nos autos da ação ordinária nº 91.00.15818-6, lhe garantiria o direito à adoção da alíquota de 18%; 2- Glosa de despesas relativas a pagamentos feitos pelo contribuinte à empresa VALE S.A., sua sócia, como contraprestação a arrendamento de direito de pesquisa e exploração de lavras minerárias, que a Fiscalização classificou como royalties (na forma do art. 22, “b”, da Lei nº 4.506/1964) e considerou indedutíveis na apuração do lucro real (de acordo com o art. 353, I, do RIR/1999). Ao apreciar a impugnação apresentada pelo contribuinte, a 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) em Campo Grande (MS) considerou-a totalmente improcedente, mantendo integralmente o crédito tributário lançado. Inconformado, o contribuinte apresentou recurso voluntário, ao qual a 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento do CARF negou provimento, nos termos da ementa acima transcrita. O contribuinte opôs embargos de declaração à decisão, arguindo a existência de obscuridade e contradição no resultado do julgamento e na parte dispositiva do acórdão, mas teve seu pleito rejeitado pelo Presidente da Turma embargada. Fl. 1569DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Cientificado do despacho que lhe rejeitou os embargos, o contribuinte interpôs recurso especial contra o Acórdão nº 1302-002.385, endereçado a esta 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), em que defende a existência de divergência jurisprudencial em relação às seguintes matérias: a) Inexistência de IRPJ recolhido a menor – alíquota incentivada na exportação de minerais abundantes; b) Norma geral não revoga norma especial – validade da Lei nº 7.988/89; c) Necessidade de aplicação da decisão judicial transitada em julgado relativa ao caso concreto – ação ordinária nº 91.00.15818-6 (apelação cível nº 95.01.28658-4); d) Natureza jurídica dos pagamentos efetuados pela recorrente – dedutibilidade das despesas relativas à aquisição de direitos minerários; e) Ad argumentandum – Não aplicação da limitação do art. 71, “d”, da Lei 4.506/1964 a royalties pagos a sócios pessoas jurídicas; f) Ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício. Nas razões recursais, são apontadas as seguintes alegações a respeito das várias matérias contestadas: a) Inexistência de IRPJ recolhido a menor – alíquota incentivada na exportação de minerais abundantes O contribuinte argumenta que o acórdão recorrido, ao afirmar que o benefício relacionado à exportação de minerais abundantes teria sido revogado nos termos do art. 41 do Ato de Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), em face da inexistência de lei que o confirmasse no prazo de dois anos após a promulgação da Constituição Federal de 1988, teria entrado em divergência com o Acórdão nº CSRF/02-01.681, que tem a seguinte ementa: IPI – VIGÊNCIA DO ARTIGO 5º DA LEI Nº 7.988/89. ISENÇÃO DO DECRETO- LEI Nº 2.433/88 C/ALTERAÇÃO DO DECRETO-LEI Nº 2.451/88. O benefício de redução de alíquota instituído pela Lei nº 7.988/89 para a isenção contida no artigo 17, I, da Lei nº 2.433/88 atende ao comando do §1º do ADCT, configurando-se a confirmação tácita dos demais incentivos contemplados na norma. Segundo ele, o acórdão paradigma, proferido pela 2ª Turma da CSRF, teria reconhecido a desnecessidade de confirmação expressa em lei sobre a continuidade dos incentivos fiscais para fins de cumprimento do requisito instituído pelo § 1º do art. 41 do ADCT. De forma contrária, o acórdão recorrido teria abraçado o entendimento de que o benefício relativo à exportação de minerais abundantes não teria sido confirmado pela Lei nº 7.988/1989 em razão de o diploma legal não ter se manifestado expressamente acerca da manutenção do mencionado benefício, mas apenas lhe majorado a alíquota. b) Norma geral não revoga norma especial – validade da Lei nº 7.988/1989 O recorrente narra que o acórdão recorrido entendeu que a Lei nº 9.249/1995, ao trazer nova alíquota geral de IRPJ, independentemente da atividade econômica explorada, teria revogado expressamente a regra do art. 1º da Lei nº 7.988/1989, por esta se tratar de “disposição em contrário” à nova regra estabelecida. Fl. 1570DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 O acórdão teria, assim, decidido de forma contrária à adotada no Acórdão nº 101-96.207, por meio do qual a 1ª Câmara do extinto Primeiro Conselho de Contribuintes consagrou o entendimento de que a alíquota favorecida de 18% para o IRPJ incidente sobre a exportação de minerais abundantes, por estar prevista em lei especial (art. 1º da Lei nº 7.988/1989), não poderia ser revogada por norma geral posterior (art. 3º da Lei nº 9.249/1995). O primeiro paradigma indicado, que também tem o recorrente como sujeito passivo, tem a seguinte ementa: IRPJ – LUCRO DECORRENTE DE EXPORTAÇÕES INCENTIVADAS – MINERAIS ABUNDANTES – Não tendo sido revogada, prevalece em vigor a norma especial (Lei 7.988/89) que determinou que a alíquota incidente sobre o lucro das exportações incentivadas seria de 18%, sem adicional. CSLL – RECEITAS DE EXPORTAÇÃO – A Emenda Constitucional nº 33, de 2001, ao dispor que as contribuições sociais não incidiriam sobre a receita de exportação, alcança apenas as contribuições instituídas com base na alínea ‘b’ do inciso I do art. 195, que são as que incidem sobre a receita ou faturamento, não alcançando a CSLL, que incide sobre o lucro. JUROS DE MORA – SELIC – A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais (Súmula 1º CC nº 4). Outra decisão administrativa que, segundo a recorrente, diante de situação fática similar, teria se posicionado de forma divergente do acórdão recorrido é o Acórdão nº 3401-002.528, prolatado pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento do CARF. A ementa da decisão é a seguinte: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins Ano-calendário: 2007 NORMA ESPECIAL. NORMA GERAL. SUPERVENIÊNCIA. REVOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. A norma jurídica inserta no art. 3º, I, ‘b’ e art. 2º, §1º III a V das Lei nºs 10.637/2002 e 10.833/03 é norma especial em relação àquela insculpida no art. 17 da Lei nº 11.033/04, aplicando-se, ante à aparente antinomia, o critério da especialidade, segundo o qual a lei geral posterior não derroga a lei especial anterior (‘lex generalis non derogat legi priori specialis’). CRÉDITOS. INCIDÊNCIA MONOFÁSICA. MANUTENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O advento do art. 17 da Lei nº 11.033/2004 não garantiu a manutenção de crédito para contribuintes sujeitos à incidência monofásica do PIS/Pasep e Cofins, criando direito novo, porquanto havia vedação expressa ao pretendido creditamento, tal como previsto no art. 3º, I, ‘b’ e art. 2º, §1º III a V das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/03. O contribuinte defende que, diferentemente do posicionamento adotado pela decisão recorrida, o acórdão paradigma optou por seguir o critério da especialidade, nos termos do § 2º do art. 2º da Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro, segundo o qual a lei geral posterior não derroga a lei especial anterior. c) Necessidade de aplicação da decisão judicial transitada em julgado relativa ao caso concreto – ação ordinária nº 91.00.15818-6 (apelação cível nº 95.01.28658-4) O voto condutor do Acórdão nº 1302-002.385 consignou, segundo o recurso especial, que o objeto da demanda judicial proposta pela contribuinte (ação ordinária nº 91.00.15818-6 – apelação cível nº 95.01.28658-4) não alcançaria os efeitos da Lei Fl. 1571DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 nº 9.249/1995, na determinação da alíquota de IRPJ aplicável ao lucro da exploração incentivada de minerais abundantes. Ao entender assim, a decisão recorrida iria de encontro ao posicionamento esposado pelo CARF por meio do Acórdão nº 101-96.207, que também foi trazido como paradigma pelo recorrente na matéria anterior (“norma geral não revoga norma especial”). Segundo a recorrente, o acórdão paradigma, tratando do mesmo sujeito passivo e da mesma ação judicial, teria reconhecido que a decisão judicial transitada em julgado em seu favor possuiria eficácia vinculante nos anos-calendário de 2000 a 2003, ou seja, mesmo após a edição da Lei nº 9.249/1995, o que abarca os anos analisados nos presentes autos (2011 a 2014). d) Natureza jurídica dos pagamentos efetuados pela recorrente – dedutibilidade das despesas relativas à aquisição de direitos minerários Já tratando da segunda infração autuada pela Fiscalização, o recorrente relata que o acórdão recorrido manteve a glosa das despesas relacionadas à aquisição de direitos minerários por qualificá-las como royalties e por entender que estes seriam indedutíveis. A decisão recorrida teria considerado que o preço estabelecido na Cláusula Sexta do Contrato de Cessão de Direitos Minerários, firmado em 1989 pelo contribuinte, não decorreria da aquisição de direitos, mas do pagamento pelo “uso, fruição e exploração de direitos minerários”, de modo que a natureza dos pagamentos realizados à VALE seria de royalties e não de cessão de direitos minerários. Esse entendimento teria inaugurado dissenso jurisprudencial frente ao Acórdão nº 1402-001.440, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento do CARF, em processo em que o contribuinte também figura como sujeito passivo. A decisão paradigma foi assim ementada: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008 CONCOMITÂNCIA COM PROCESSO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE. A submissão de uma matéria à tutela autônoma e superior do Poder Judiciário, prévia ou posteriormente ao lançamento, inibe o pronunciamento da autoridade administrativa, pois que a solução dada ao litígio pela via judicial há de prevalecer. LANÇAMENTO PARA PREVENÇÃO DE DECADÊNCIA. Cabe a lavratura do Auto de Infração para a formalização do lançamento do tributo, sem multa de mora, na hipótese de reforma de decisão judicial que suspendia a exigibilidade do correspondente crédito tributário se contra a mesma forem opostos embargos declaratórios. Os juros de mora são devidos qualquer que seja a causa determinante do não recolhimento do tributo no prazo de vencimento legal, regra aplicável também aos casos de suspensão da exigibilidade por decisão judicial, exceto na hipótese de depósito do montante. NATUREZA JURÍDICA DOS PAGAMENTOS EFETUADOS A SÓCIA VALE. CUSTO DE AQUISIÇÃO DE DIREITO MINERÁRIO DE LAVRA. Não se deve confundir royalties (pagamento pela exploração do direito que continua a pertencer ao beneficiário do pagamento) com o pagamento pela aquisição do direito, que passa à propriedade da empresa pagadora. Neste último caso, temos custo de ativo imobilizado amortizável no prazo de vigência do direito. ADOÇÃO DE ALÍQUOTA INDEVIDA DO IRPJ E FALTA DE RECOLHIMENTO DO ADICIONAL. ALÍQUOTA DO IMPOSTO E ADICIONAL. LUCRO Fl. 1572DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 DECORRENTE DE EXPORTAÇÕES INCENTIVADAS. MINERAIS ABUNDANTES. Não tendo sido revogada, prevalece em vigor a norma especial (Lei 7.988/89) que determinou que a alíquota incidente sobre o lucro das exportações incentivadas seria de 18%, sem adicional. IRPJ. ESTIMATIVAS. FALTA DE RECOLHIMENTO. MULTA ISOLADA. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano-calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Precedentes. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE – IRRF PAGAMENTO A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO OU SEM CAUSA. A Lei prevê a tributação exclusiva na fonte, à alíquota de 35%, incidente sobre a base reajustada decorrente de todo pagamento efetuado pela pessoa jurídica, quando não for identificado o seu beneficiário, aplicando-se também aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionista ou titular, contabilizado ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa. Não subsiste o fundamento adotado pelo de Fisco de “pagamento sem causa, devendo ser afastada essa tributação, haja vista que o pagamentos foram feitos a beneficiário devidamente identificado, não podendo ser taxados como “sem causa”, porque decorrem de previsão contratual vigente entre as partes. O recorrente pondera que, enquanto o acórdão recorrido concluiu que os pagamentos realizados à VALE teriam natureza de royalties em razão de (i) o contrato firmado possuir conteúdo de contrato de arrendamento e (ii) o preço estipulado não ser determinado ou determinável, requisito supostamente essencial para a caracterização de um contrato de cessão de direitos minerários, o acórdão paradigma teria entendido de forma distinta, no sentido de que tais pagamentos decorrem diretamente de aquisição de direitos minerários de lavra, tendo em vista (i) a definitividade da transmissão de titularidade do direito e (ii) o fato de a fixação de um preço variável não ter o condão de afastar tal definitividade ou alterar a natureza dos valores pagos. e) Ad argumentandum – Não aplicação da limitação do art. 71, “d”, da Lei nº 4.506/1964 a royalties pagos a sócios pessoas jurídicas Mesmo que os pagamentos realizados pelo contribuinte à VALE sejam considerados royalties, o que o recorrente admite somente a título argumentativo, ainda assim o acórdão recorrido estaria em divergência jurisprudencial em relação a outros julgados administrativos, no que diz respeito ao alcance da vedação estabelecida pelo art. 71, “d”, da Lei nº 4.506/1964, uma vez que o acórdão recorrido entendeu que o aludido dispositivo veda a dedutibilidade de despesas com royalties pagos a quaisquer sócios, sejam pessoas físicas ou jurídicas. Em sentido contrário, o Acórdão nº CSRF/01-04.629 decidiu que a indedutibilidade de tais despesas não se estende aos pagamentos efetuados a sócios pessoas jurídicas, conforme a seguinte ementa: ROYALTIES PAGOS A SÓCIO PESSOA JURÍDICA – DEDUTIBILIDADE FISCAL – Na vigência do art. 71 da Lei 4.506/64, a vedação constante do art. 71, parágrafo único, letra 'd’, não se estende aos pagamentos efetuados a sócio pessoa jurídica. Fl. 1573DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 DESPESA COM PROPAGANDA AVANÇADA EM CONTRATO DE FRANQUIA – PROVA DA EFETIVIDADE – A dedução de despesa com propaganda, fixada em percentual da receita bruta do contribuinte, avençada em contrato da franquia, são comprovadas pela apresentação do próprio contrato e dos comprovantes de pagamentos. Constatada a razoabilidade da despesa e a regularidade dos comprovantes da operação, cumpre ao fisco verificar a efetividade dos gastos junto à empresa beneficiária dos recursos, encarregada da sua aplicação. Na interpretação adotada pela decisão paradigma, conflitante com a exposta no acórdão recorrido, a inclusão da expressão “pessoas físicas ou jurídicas” no art. 353 do RIR/1999 teria ofendido o princípio da legalidade ao extrapolar os limites estabelecidos em lei. f) Ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício Por fim, o recurso especial do contribuinte traz ainda a alegação de existência de divergência jurisprudencial acerca da possibilidade de incidência de juros SELIC sobre a multa de ofício lançada em processo administrativo tributário, apontando como paradigmas os Acórdãos nº 9101-00.722 (proferido pela 1ª Turma da CSRF) e nº 1202-001.118 (prolatado pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento), que reconheceriam a impossibilidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, em razão do disposto no art. 161 do CTN e nos arts. 43 e 61 da Lei nº 9.430/96. No mérito, o recorrente traz uma série de alegações que, sob seu ponto de vista, devem ser consideradas para fins de reforma da decisão recorrida. Em síntese, alega que: - o cumprimento do requisito instituído pelo §1º do art. 41 do ADCT não exige a confirmação expressa em lei da continuidade do incentivo fiscal setorial; - o fato de o legislador ordinário, ao editar a Lei nº 7.988/1989, não ter se manifestado expressamente acerca da manutenção do tratamento diferenciado para as empresas de mineração que se dedicam à elaboração e exportação de minerais abundantes no país não permite a interpretação pela revogação tácita de tal benefício; - nos anos-calendário 2011 a 2014, estava sujeito ao recolhimento de IRPJ à alíquota de 18% sobre os lucros decorrentes da exportação de minerais abundantes, tendo em vista a vigência do art. 1º, I, da Lei nº 7.988/1989, que confirmou o benefício fiscal após a promulgação da Constituição Federal de 1988, nos termos do § 1º do art. 41 do ADCT; - a alíquota incentivada prevista na Lei nº 7.988/1989 jamais poderia ser considerada revogada pela Lei nº 9.249/1995, que, por meio de seu art. 3º, estabeleceu nova alíquota geral de IRPJ (15% + adicional de 10%), em razão da impossibilidade de lei posterior geral revogar lei especial, nos termos do § 2º do art. 2º da Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro; - a decisão judicial que transitou em julgado nos autos da ação ordinária nº 91.00.15818-6 (apelação cível nº 95.01.28658-4), que declarou seu direito de continuar utilizando a alíquota favorecida de IRPJ a 18%, possui eficácia inclusive após a edição da Lei nº 9.249/1995, o que inclui o período examinado na fiscalização que originou o presente processo administrativo tributário; - os pagamentos feitos pelo contribuinte à sua sócia VALE têm clara natureza de contrapartida à aquisição de direitos minerários de lavra, tendo em vista a definitividade da transmissão da titularidade do direito e que a forma fixada do preço (variável) não possui o condão de afastar a tal definitividade ou alterar a natureza dos valores pagos. Assim, tais valores Fl. 1574DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 não podem ser considerados como pagamentos de royalties e são perfeitamente dedutíveis na apuração do IRPJ; - mesmo que os pagamentos sejam considerados royalties, o que se admite apenas a título argumentativo, o lançamento tributário não pode prosperar pelo fato de que tais pagamentos foram feitos a sócio pessoa jurídica, não sendo alcançados pela limitação do art. 71, “d”, da Lei nº 4.506/1964, que se aplica somente a sócios pessoas físicas; - o art. 353 do RIR/1999 incluiu no texto retirado do art. 71, “d”, da Lei nº 4.506/1964, sem base legal, a expressão “pessoas físicas ou jurídicas”, o que é um absurdo porque não há como se admitir a existência de paternidade ou parentesco entre pessoas jurídicas. A inclusão do texto no ato infralegal extrapolou os limites legais, em ofensa ao princípio da legalidade; - os juros de mora calculados com base na taxa SELIC não podem ser exigidos sobre a multa de ofício lançada nos autos de infração, por absoluta inexistência de previsão legal e por força dos art. 161 do CTN e arts. 43 e 61 da Lei nº 9.430/1997. Requer, ao final, o conhecimento e o provimento do recurso especial para que seja reformado o Acórdão nº 1302-002.385 e, consequentemente, cancelados integralmente os autos de infração. O Presidente da Câmara da Primeira Seção de Julgamento do CARF competente para a análise da admissibilidade recursal deu seguimento parcial ao recurso, nos termos do despacho de exame de admissibilidade, em que reconheceu a comprovação das divergências jurisprudenciais arguidas a respeito de todas as matérias, com exceção de uma: “necessidade de aplicação da decisão judicial transitada em julgado relativa ao caso concreto – ação ordinária nº 91.00.15818-6 (apelação cível nº 95.01.28658-4)”. O contribuinte apresentou agravo contra o despacho de exame de admissibilidade, defendendo novamente a configuração do dissenso jurisprudencial aventado, mas a peça foi rejeitada. A Fazenda Nacional foi cientificada do recurso especial interposto pela contribuinte e do despacho que o admitiu parcialmente e apresentou contrarrazões em que alega, em síntese: - o recurso especial da contribuinte não pode ser conhecido quanto à última matéria recorrida (“ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício”), uma vez que o tema foi objeto da Súmula CARF nº 108, recentemente editada: “Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício”; - o art. 67, § 3º, do Anexo II do RICARF/2015 é expresso ao prever que não cabe recurso especial de decisão que adote entendimento de súmula de jurisprudência, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente; - a Lei nº 9.249/1995, em seu art. 1º, fixou expressamente a alíquota aplicável ao IRPJ. Além disso, trouxe a previsão de um adicional de 10% para a parcela que exceder o valor resultante da multiplicação de R$ 20.000,00 pelo número de meses do período de apuração. Assim, como o referido diploma legal introduz nova disciplina a respeito da alíquota incidente sobre a base de cálculo do IRPJ, forçoso se concluir que deverá prevalecer para todos os fatos geradores ocorridos após o início de sua vigência; Fl. 1575DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 - não merece ser acolhido o argumento de que a Lei nº 7.988/1989, por ser lei especial, não teria sido revogada pela Lei nº 9.249/1995, uma vez que esta seria lei geral. Com efeito, o art. 3º da Lei nº 9.249/1995 tratou especificamente da matéria disciplinada na Lei nº 7.988/1989. O objetivo da norma era justamente uniformizar o tratamento quanto à alíquota incidente sobre a base de cálculo do IRPJ, estabelecendo alíquota de 15% para todas as pessoas jurídicas; - o art. 36 da Lei nº 9.249/1995 é claro quanto ao fato de que o rol de revogações expressas citadas ali não é taxativo, em razão do uso da expressão “especialmente”, que indica a clara intenção de exemplificar; - o benefício fiscal reclamado pela contribuinte foi, portanto, expressamente revogado pelo art. 36 da Lei nº 9.249/1995, a mesma lei que instituiu um novo tratamento à alíquota do IRPJ; - por outro lado, o benefício fiscal em comento (válido para o lucro decorrente da exportação de minerais abundantes), conforme previsto no Decreto-lei nº 2.413/1988, em seu art. 1º, § 1º, “j”, foi revogado pela Constituição Federal de 1988. Isso porque o § 1º do art. 41 do ADCT previu que os benefícios fiscais não expressamente revigorados seria considerados extintos depois de dois anos da promulgação da Constituição; - a Lei nº 7.988/1989, ao alterar a alíquota aplicável ao benefício em questão (majorando-a de 6% para 18%), não teve o condão de confirmar o benefício. Confirmar significa dizer expressamente que continua em vigor, para os efeitos do art. 41, § 1º, do ADCT – o que não é o caso da Lei nº 7.988/1989, que trata de “redução de incentivos fiscais”, ou seja, tem o sentido inverso de “confirmar”; - os pagamentos efetuados entre 2011 e 2014 pela contribuinte à VALE S.A. (sócia da contribuinte e incorporadora da S. A. MINERAÇÃO DA TRINDADE – SAMITRI), fundamentados na Cláusula Sexta do Contrato de Cessão de Direitos Minerários celebrado em 1989, tratam-se de royalties por se enquadrarem no conceito do art. 22, “b”, da Lei nº 4.506/1964; - considerando-se que a VALE S.A. é pessoa jurídica sócia da recorrente, a dedutibilidade das despesas associadas a estes pagamentos é vedada pelo art. 353 do RIR/1999 (art. 71 da Lei nº 4.506/1964); - segundo a referida Cláusula Sexta, a contribuinte ficou obrigada a pagar à VALE S.A. (incorporadora da SAMITRI, originalmente prevista como cedente da reserva de minério de ferro), pela aquisição dos direitos minerários, os valores de 3% (em 1992 e 1993) e 4% (a partir de 1994 e até a exaustão da mina) do valor pago a seus acionistas a título de dividendos. Como essa obrigação decorre do direito de pesquisar e extrair recursos minerais nas áreas cedidas, correto é o enquadramento como royalties, atribuído pela Fiscalização; - não procede a alegação da contribuinte de que os pagamentos em análise não teriam natureza de royalties, mas de custos de aquisição de direitos minerários, por decorrerem de cessão definitiva dos direitos (transferência de titularidade do direito minerário ou cessão do título minerário). Isso porque o contrato celebrado mais se alinha a um arrendamento, já que a obrigação de pagar perdura até a exaustão das reservas minerais objeto do contrato; - no contrato celebrado pela contribuinte não houve a transmissão da propriedade dos direitos minerários, uma vez que não restou definido preço certo, mas mera obrigação de Fl. 1576DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 pagar pela exploração até a exaustão da reserva. Não se caracterizou, portanto, uma compra e venda (cessão de direitos); - as contabilidades tanto da contribuinte quanto da VALE S.A. registram os lançamentos relacionados aos citados pagamentos com várias referências à palavra “royalties”, o que corrobora a conclusão da Fiscalização; - tampouco procede a tese defendida pela contribuinte de que a indedutibilidade de despesas com royalties, prevista no art. 71 da Lei nº 4.506/1964, alcança somente pagamentos feitos a sócios pessoas físicas; - a intenção da norma é vedar, de forma ampla, o favorecimento imoral de poucos (sócios, dirigentes ou seus parentes) em detrimento do Fisco (redução do lucro tributável da empresa que paga os royalties) ou de outros sócios ou acionistas da sociedade (redução dos lucros a serem distribuídos). Nota-se quão ampla é a vedação quando se verifica que o dispositivo sequer limita o grau de parentesco com sócios e diretores que é alcançado, ao contrário do que fazem outras normas; - a relação societária entre a contribuinte e a VALE S.A. faz com que a situação discutida nos autos, ou seja, o pagamento de royalties pela primeira à segunda, se enquadre na vedação veiculada no art. 71 da Lei nº 4.506/1964. Concluir de forma diversa seria fulminar qualquer interpretação finalística ou teleológica dos dispositivos legais citados. É o relatório. Voto Conselheira Viviane Vidal Wagner, Relatora Conhecimento Compete à Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF, nos termos do art. 67 do Anexo II do RICARF/2015. O recurso foi parcialmente admitido pelo despacho do Presidente da Câmara recorrida. Quanto às cinco matérias que obtiveram seguimento, a Fazenda Nacional questionou, em suas contrarrazões, o conhecimento de uma delas, atinente à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. A parte recorrida argumenta que a questão já teria sido objeto de súmula editada pelo CARF, o que impossibilitaria o conhecimento do recurso, de acordo com o art. 67, § 3º, do Anexo II do RICARF/2015. Com razão. A questão da possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício foi sumulada pelo Pleno do CARF, em reunião no ano de 2018, dispondo: Súmula CARF nº 108: Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Fl. 1577DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Nos termos do § 3º do art. 67 do Anexo II do RICARF/2015, é incabível recurso especial contra decisão administrativa que tenha adotado entendimento de súmula de jurisprudência do CARF, mesmo que esta tenha sido aprovada depois da interposição do recurso: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. (...) § 3º Não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso. (...) O caso sob análise enquadra-se perfeitamente na previsão regimental. O recurso especial do contribuinte foi interposto em 02/04/2018 e, em 03/09/2018, a Súmula CARF nº 108 foi aprovada pelo Pleno, tornando-se vinculante por força da Portaria MF nº 129, de 01/04/2019. O Acórdão nº 1302-002.385 adota o entendimento posteriormente positivado na Súmula CARF nº 108. Portanto, por força do § 3º do art. 67 do Anexo II do RICARF/2015, NÃO CONHEÇO do recurso especial da contribuinte quanto à matéria “ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício”. Quanto às outras quatro matérias que foram admitidas, entendo presentes os pressupostos recursais e adoto as razões do despacho de admissibilidade para conhecer do recurso especial em relação a elas. Mérito Inicialmente, cumpre identificar as matérias recursais conhecidas e demonstrar a análise em separado neste voto, a partir das infrações respectivas. Duas das matérias conhecidas (“inexistência de IRPJ recolhido a menor – alíquota incentivada na exportação de minerais abundantes” e “norma geral não revoga norma especial – validade da Lei nº 7.988/1989”) dizem respeito à primeira infração constante dos autos de infração lavrados contra o contribuinte, relacionada à insuficiência de recolhimento de IRPJ ocasionada pela adoção da alíquota de 18% no período de 2011 a 2014, que o contribuinte justifica pela aplicação da previsão contida na Lei nº 7.988/1989, que lhe teria sido assegurada judicialmente. Já as outras duas matérias recursais conhecidas (“natureza jurídica dos pagamentos efetuados pela recorrente – dedutibilidade das despesas relativas à aquisição de direitos minerários” e “Ad argumentandum – Não aplicação da limitação do art. 71, “d”, da Lei 4.506/1964 a royalties pagos a sócios pessoas jurídicas”) relacionam-se à segunda infração autuada, atinente à glosa de despesas com valores que a Fiscalização classificou como royalties pagos a sócio, que seriam, portanto, indedutíveis. Diante disso, cada infração será analisada separadamente e nelas consideradas as respectivas alegações recursais. Infração 1 – Insuficiência de recolhimento de IRPJ pela adoção da alíquota de 18% prevista na Lei nº 7.988/1989 Fl. 1578DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 A controvérsia trazida a julgamento não é novidade para esta 1ª Turma da CSRF. O Colegiado já teve mais de uma oportunidade de se debruçar sobre o tema, objeto de processos em que figurava como sujeito passivo a própria SAMARCO MINERAÇÃO S.A., que interpôs o recurso especial sob julgamento. No processo administrativo nº 10680.018092/2005-49, foi apreciada, entre outras matérias, a questão da adoção, pela contribuinte, da alíquota favorecida de 18% para o IRPJ incidente sobre a exportação de minerais abundantes nos anos-calendário 2000 a 2003. Naqueles autos, foi proferido, em 29/01/2014, o Acórdão nº 9101-001.854, por meio do qual esta 1ª Turma da CSRF negou provimento ao recurso especial do contribuinte, mantendo os lançamentos relacionados à matéria. No processo administrativo tributário nº 10680.722242/2011-61, a controvérsia voltou a ser tema de apreciação por este Colegiado, o que culminou na prolação do Acórdão nº 9101-002.356, também desfavorável às pretensões da contribuinte de adotar a alíquota favorecida, desta vez nos anos-calendário de 2007 e 2008. Por concordar integralmente com as conclusões ali expostas, adoto como minhas as razões de decidir abraçadas por esta segunda decisão administrativa, cujas passagens mais relevantes passo a transcrever: Alíquota aplicável ao lucro da exportação de minerais abundantes No que se refere ao primeiro tema trazido pela Recorrente, a discussão de mérito cinge-se à determinação da alíquota de IRPJ aplicável ao lucro da exportação incentivada de minerais abundantes auferido pela Contribuinte nos anos-calendário objeto do lançamento: se é a alíquota específica prevista no art. 1º da Lei nº 7.988, de 1989 (alíquota de 18%, sem adicional) ou aquela geral fixada no art. 1º da Lei n° 9.249, de 1995 (alíquota de 15%, com adicional), levando-se em consideração, ainda, o fato de haver decisão judicial transitada em julgado em favor da Contribuinte acerca dessa matéria. Nesse sentido, cumpre transcrever, inicialmente, os dispositivos em questão (sublinhou-se): Lei nº 7.988, de 1989 (que "dispõe sobre a redução de incentivos fiscais"): Art. 1º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período-base de 1989: I – passará a ser 18% (dezoito por cento) a alíquota aplicável ao lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º do Decreto-Lei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988; (...) § 1º Os adicionais de que trata o art. 1º do Decreto-Lei nº 2.462, de 30 de agosto de 1988, não incidirão sobre o lucro de que trata o inciso I deste artigo. Lei nº 9.249, de 1995 (que "altera a legislação do imposto de renda das pessoas jurídicas, bem como da contribuição social sobre o lucro líquido, e dá outras providências") Art. 3º A alíquota do imposto de renda das pessoas jurídicas é de quinze por cento. § 1º A parcela do lucro real, presumido ou arbitrado, que exceder o valor resultante da multiplicação de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) pelo número de meses do respectivo período de apuração, sujeita-se à incidência de adicional de imposto de renda à alíquota de dez por cento. (Redação dada pela Lei 9.430,de1996) § 2º O disposto no parágrafo anterior aplica-se, inclusive, nos casos de incorporação, fusão ou cisão e de extinção da pessoa jurídica pelo encerramento da liquidação. (Redação dada pela Lei 9.430, de 1996) Fl. 1579DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 § 3º O disposto neste artigo aplica-se, inclusive, à pessoa jurídica que explore atividade rural de que trata a Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990. § 4º O valor do adicional será recolhido integralmente, não sendo permitidas quaisquer deduções. (Vide Lei nº 12.761, de 2012) Como se extrai do Termo de Verificação Fiscal - TVF (e-fls. 501 e ss.), a Contribuinte apurava e recolhia IRPJ sobre o lucro da exportação de minerais à alíquota de 18%, sob o argumento de estar amparada em decisão proferida pelo TRF da 1ª Região, na Apelação Cível n° 95.01.28658-4/MG (que reformou sentença de primeiro grau proferida na Ação Ordinária nº 91.00.15818-6), transitada em julgado em 20/03/1998. Tal decisão declarava o seu direito de recolher o imposto nos termos da legislação anterior à Lei nº 8.034, de 1990, permanecendo-lhe aplicável a alíquota prevista na Lei nº 7.988, de 1989 (de 18%), uma vez que a alíquota de 30% prevista na Lei nº 8.034, de 1990 "não se aplica à exportação incentivada de minério de ferro, como mineral elaborado". A Fiscalização, no entanto, considerou "estar nítido que a lide examinada naquela oportunidade, em sede judicial, não está relacionada à aplicação da Lei n° 9.249, de 1995, que nem havia sido editada na época", e, assim, lançou a diferença decorrente da aplicação da alíquota de 15%, somada ao adicional de 10% sobre a parcela do lucro tributável que excede o valor resultante da multiplicação de R$ 20.000,00 pelo número de meses do período de apuração, conforme previsto na Lei nº 9.249, de 1995. A decisão ora recorrida, ao considerar indevidas "as diferenças levantadas e lançadas pela fiscalização", não o fez por considerar que estava a Contribuinte protegida pelo manto da coisa julgada material, mas por entender que "sendo a Lei nº. 9.249/95 norma geral e não tendo ela afastado expressamente o benefício previsto na Lei nº. 7.988/89, aplica-se ao caso o princípio da especialidade, nos termos do § 2º do art. 2º da Lei de Introdução ao Código Civil". Necessário, portanto, antes de enfrentar o tema da vulneração dos efeitos prospectivos da coisa julgada material em razão das alterações das circunstâncias jurídicas, verificar se há, de fato, novas circunstâncias jurídicas a envolver a determinação da alíquota de IRPJ aplicável aos lucros de exportações incentivadas de minerais abundantes. Nesse ponto, cabe referir que há pelo menos outros três julgados sobre essa matéria envolvendo a própria Contribuinte. Além do acórdão paradigma trazido pela Fazenda Nacional (acórdão nº 103-22.937, Relator Flávio Franco Corrêa, de 28 de março de 2007), tem-se a decisão desta 1ª Turma da CSRF (acórdão nº 9101-001.854, Relator Marcos Aurélio Pereira Valadão, de 29 de janeiro de 2014), que apreciou recurso especial da Contribuinte contra o paradigma em questão, mantendo a decisão recorrida, contrária à Contribuinte. Há também o acórdão nº 101-96.207 (Relatora Sandra Faroni, de 14 de junho de 2007), este favorável à Contribuinte, agasalhando a mesma tese da decisão ora recorrida, no sentido de que, no conflito normativo entre a Lei nº 7.988, de 1989, e a Lei nº 9.249, de 1995, prevalece a primeira, por ser norma especial anterior (aplicando-se a regra de solução de antinomias jurídicas expressa pelo brocado "lex specialis derogat generali"). Não posso, no entanto, subscrever tal tese, pela mesma razão já acolhida por esta 1ª Turma da CSRF no antes referido acórdão nº 9101-001.854, ou seja, pelo simples motivo de que não se estabelece a dita antinomia entre as normas, uma vez que a Lei nº 9.249, de 1995, ao trazer nova disposição acerca da alíquota do IRPJ (art. 3º), estabelecendo alíquota geral de IRPJ independentemente da atividade econômica explorada e ao revogar expressamente as disposições em contrário (art. 36), revogou a regra do art. 1º da Lei nº 7.988, de 1989, que impunha alíquota específica de 18% "ao lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º do Decreto-Lei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988". Veja-se o teor do art. 36 da Lei nº 9.249, de 1995: Art. 36. Ficam revogadas as disposições em contrário, especialmente: I – o Decreto-Lei nº 1.215, de 4 de maio de 1972, observado o disposto no art. 178 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966; Fl. 1580DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 II – os arts. 2º a 19 da Lei nº 7.799, de 10 de julho de 1989; III – os arts. 9º e 12 da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990; IV – os arts. 43 e 44 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992; V – o art. 28 e os incisos VI, XI e XII e o parágrafo único do art. 36, os arts. 46, 48 e 54, e o inciso II do art. 60, todos da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, alterada pela Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995, e o art. 10 da Lei nº 9.065, de 20 de junho de1995. Não procede o argumento da Contribuinte de que, como a Lei nº 7.988, de 1989, não consta do rol dos atos normativos revogados pelo art. 36 da Lei nº 9.249, de 1995, continua em vigor. Tal rol, introduzido com o vocábulo "especialmente", é meramente exemplificativo, não se podendo concluir que, se um dispositivo da Lei nº 7.988, de 1989, não se encontra em tal rol, não foi revogado. A revogação se dá por se tratar de disposição em contrário às novas regras, independentemente de constar no rol exemplificativo. De outra banda, não prospera a alegação de que o § 3º do art. 3º da Lei nº 9.249, de 1995, ao estabelecer que a alíquota prevista e o adicional no artigo se aplica "também" às pessoas jurídicas que exploram a atividade rural indica que tal alíquota e adicional não se aplicam uniformemente a todas as pessoas jurídicas. Pelo contrário: ao estatuir que "o disposto neste artigo aplica-se, inclusive, à pessoa jurídica que explore atividade rural de que trata a Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990", o § 3º em questão, reforça o caráter geral e unificado da alíquota trazida pela Lei nº 9.249, de 1995. Fazendo-se uma análise, ainda, do Regulamento do Imposto de Renda vigente ao tempo dos fatos geradores, qual seja, o Decreto nº 3.000, de 1999, tem-se: (...) Ou seja, se a norma que prevê alíquota de 18% sem adicional ainda estivesse vigente, certamente o Regulamento de 1999 teria que fazer tal menção, como o fez para o lucro inflacionário acumulado, por exemplo. Na seqüência, quando o regulamento trata das isenções, reduções e deduções do imposto, também nenhum alusão é feita, como se pode observar da leitura dos arts. 544 a 619. Aliás, nem mesmo no Regulamento anterior (Decreto nº 1.041, de 1994) havia tal previsão: (...) É de se constatar que apenas as pessoas referidas no art. 350 do RIR/94 estavam isentas do adicional: ou seja apenas as que tinham por objeto a exploração da atividade rural. Percebe-se também que quando o Regulamento quis tratar das alíquotas diferenciadas, ele o fez, como foi o caso das Instituições Financeiras. E mais, com a Lei nº 9.249/95, até mesmo as pessoas jurídicas que exploravam a atividade rural passaram a ser tributadas pelo adicional. É também importante destacar que, mesmo em situações de incentivo fiscal, o legislador não tem permitido a dedução sobre o adicional, como por exemplo, no caso das empresas titulares do PDTI (destaques do RIR/99): (...) Esses dispositivos dos regulamentos demonstram, de forma cristalina, que o benefício fiscal de que trata o Decreto-lei nº 2.413, de 1988, com a alteração dada pela Lei nº 7.988, de 1989, já não se encontrava no mundo jurídico ao tempo de sua publicação, o que é endossado, também, quando se interpreta o art. 41, § 1º, do ADCT da Constituição Federal, cujo inteiro teor ora transcrevo: Art. 41. Os Poderes Executivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios reavaliarão todos os incentivos fiscais de natureza setorial ora em vigor, propondo aos Poderes Legislativos respectivos as medidas cabíveis. Fl. 1581DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 § 1º Considerar-se-ão revogados após dois anos, a partir da data da promulgação da Constituição, os incentivos que não forem confirmados por lei. É que esses incentivos não foram confirmados por lei nesse prazo de dois anos. O que a lei de 1989 fez foi majorar a alíquota, mas pode-se entender que como não foram confirmados por lei, conforme demonstrado, consideram-se revogados. Dito isso, cumpre avaliar se, ainda que legislação superveniente tenha imposto nova alíquota de IRPJ, que, sendo indistinta, se aplica também ao lucro da exportação incentivada de minerais abundantes auferido pela Contribuinte, o seu direito de apurar o IRPJ à alíquota prevista na Lei nº 7.988, de 1989, garantido pelo trânsito em julgado da decisão na Apelação Cível n° 95.01.286584/MG, permanece intocado. Penso que não. Como bem assinalado no TVF, após a edição da Lei nº 8.034, de 1990, cuja aplicação foi afastada pela decisão judicial para o caso da Contribuinte, a alíquota do imposto de renda passou por diversas alterações, até que a Lei nº 9.249/1995, a fixou em 15%, mais adicional, na forma do seu já transcrito art. 3º, §1º. É dizer, leis supervenientes alteraram as regras aplicáveis na determinação da alíquota de IRPJ do lucro da exportação incentivada de minerais abundantes auferido pela Contribuinte. (...) Ou seja, é insofismável que o objeto da lide não alcançava os efeitos da Lei nº 9.249, de 1995, na determinação da alíquota de IRPJ aplicável ao lucro da exportação incentivada de minerais abundantes. Veja-se, aliás, que a lei cuja aplicação foi afastada pela decisão judicial em tela (Lei nº 8.034, de 1990) também fixava alíquota específica de IRPJ para determinada atividade econômica (no caso, exportações de produtos manufaturados nacionais e serviços). Como indica o acórdão do TRF da 1ª Região, a conclusão pela não aplicação dessa Lei se baseou no fato de que minério de ferro não é produto manufaturado. Ou seja, determinou-se no julgado qual de duas alíquotas específicas se aplicavam à Contribuinte (a de exportação de produtos manufaturados nacionais e serviços, ou a da exportação incentivada de minerais abundantes). Trata-se de situação bastante diversa da trazida com a Lei nº 9.249, de 1995, que como se viu, estabeleceu alíquota (e adicional) única, indistinta às atividades econômicas. Destaca-se, ademais, que a própria decisão judicial menciona: “Até que a lei seja modificada, para abarcar as exportações de minerais elaborados (..)”, ou seja, a lei não foi modificada para abarcar as exportações de minerais elaborais, mas o foi para todas as pessoas jurídicas, sem exceção. É de se concluir, portanto, que a decisão judicial transitada em julgado em favor da Contribuinte na Apelação Cível n° 95.01.286584/MG não possuía mais eficácia vinculante frente aos fatos geradores de IRPJ ocorridos nos anos-calendário 2007 e 2008 e alcançados pelo lançamento objeto do presente processo, razão pela qual deve o auto de infração ser mantido. (destaques no original) Embora a decisão transcrita diga respeito ao anos-calendário 2007 e 2008, considero-a integralmente aplicável ao caso concreto sob julgamento. Quanto à matéria recursal “norma geral não revoga norma especial – validade da Lei nº 7.988/1989”, compartilho do entendimento de que a discussão suscitada pela recorrente somente faria sentido se estivéssemos diante de antinomia entre leis, o que não se verifica no caso concreto. O art. 36 da Lei nº 9.249/95 revogou expressamente as disposições em contrário às determinações contidas naquele diploma legal, inclusive a regra do art. 1º da Lei nº 7.988/89, que determinava a alíquota de 18% reivindicada pela contribuinte. O uso do vocábulo “especialmente” deixa patente que o rol das disposições revogadas exposto na lei é apenas exemplificativo. Fl. 1582DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 O fato de a Lei nº 9.249/95 ter introduzido uma alíquota única de IRPJ para todas as pessoas jurídicas, válida indistintamente para todas as atividades econômicas, obviamente tornou a previsão da Lei nº 7.988/89 contrária à nova regra, o que implica na sua revogação, nos termos do art. 36 da Lei nº 9.249/95. Entendo, portanto, que o art. 1º da Lei nº 7.988/89 foi revogado pela Lei nº 9.249/95, ao contrário do que defende o recorrente. Ao tratar da matéria “inexistência de IRPJ recolhido a menor – alíquota incentivada na exportação de minerais abundantes”, o recorrente defende que a Lei nº 7.988/89 teria satisfeito à condição estabelecida pelo § 1º do art. 41 do ADCT para fins de confirmar a continuidade do incentivo fiscal relacionado à alíquota favorecida de IRPJ incidente sobre as exportações de minerais abundantes. Novamente, entendo de forma diversa. Considero, nos termos da decisão transcrita acima, que a Lei nº 7.988/89 simplesmente majorou a alíquota do benefício fiscal anteriormente previsto no Decreto-Lei nº 2.413/88, sem ter o condão de confirmá-la. A este respeito, considero importante trazer à discussão as considerações constantes do Acórdão nº 9101-001.854, também já mencionado, em que o ora recorrente também figura como sujeito passivo: Por outro lado, e adicionalmente, entendo que o benefício fiscal em comento – especificamente o previsto para o lucro decorrente da exportação de minerais abundantes –, conforme previsto no Decreto-lei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988, em seu art. 1º, § 1º, alínea “j”, foi revogado pela Constituição de 1988. É que a CF/88 estabelece no ADCT que os benefícios fiscais não expressamente revigorados serão considerados extintos a partir de dois anos de sua promulgação, a teor do seu art. 41, 1º do ADCT, no qual se lê: Art. 41. Os Poderes Executivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios reavaliarão todos os incentivos fiscais de natureza setorial ora em vigor, propondo aos Poderes Legislativos respectivos as medidas cabíveis. § 1º Considerar-se-ão revogados após dois anos, a partir da data da promulgação da Constituição, os incentivos que não forem confirmados por lei. (...) Assim, resta cristalino que após 5 de outubro de 1990 não está mais em vigor o benefício fiscal em debate, em virtude de que não foi confirmado por lei. E nem se diga que a Lei n. 7.988/1989 ao alterar a alíquota aplicável ao benefício (majorando a alíquota de 6% para 18%) teve o condão de confirmar o benefício. Confirmar significa dizer que alei que o faz deve expressamente dizer que continuam em vigor, para os efeitos do art. 41, § 1º, do ADCT da CF/88 – o que não é o caso da Lei n. 7.988/1989, que aliás, se trata de uma lei que “Dispõe sobre a redução de incentivos fiscais” – ou seja, tem o sentido inverso de “confirmar”.” Portanto, entendo que a alíquota favorecida de 18% que a contribuinte pretendeu utilizar durante os anos-calendário de 2011 e 2014, mesmo antes de ser considerada revogada pela Lei nº 9.249/95, já o havia sido pelo § 1º do art. 41 do ADCT. Ressalvo que, embora a matéria recursal relacionada aos efeitos da decisão judicial transitada em julgado na ação ordinária nº 91.00.15818-6 (apelação cível nº 95.01.28658-4) não tenha sido conhecida, transcrevi parte do voto condutor do Acórdão nº 9101-002.356 que trata do assunto apenas para deixar claro que tal decisão judicial não influencia nas conclusões aqui expostas. Fl. 1583DF CARF MF Fl. 18 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Diante do exposto, voto por manter a exigência fiscal relacionada à insuficiência de recolhimento de IRPJ nos anos-calendário de 2011 a 2014, ocasionada pelo fato de o contribuinte ter apurado o imposto incidente sobre o lucro relacionado à exportação de minerais abundantes utilizando a alíquota indevida de 18%. Infração 2 – Glosa de despesas associadas a pagamentos feitos à sócia VALE S.A., classificados pela Fiscalização como royalties No que diz respeito à segunda infração, são duas as controvérsias suscitadas pela contribuinte pela via do recurso especial. Primeiramente, a recorrente contesta o enquadramento dos pagamentos que realizou à pessoa jurídica VALE S.A. como royalties. Defende que são, na verdade, contrapartidas à aquisição definitiva de direitos minerários, formalizada por meio de contrato de cessão de direitos. Além disso, a recorrente defende que, ainda que tais pagamentos se referissem efetivamente a royalties, mesmo assim a glosa promovida pela Fiscalização seria improcedente, uma vez que o art. 71, “d”, da Lei nº 4.506/64 somente veda a dedutibilidade de pagamentos de royalties feitos a sócios pessoas físicas. Pois bem. A primeira controvérsia trazida pela recorrente (identificada no recurso especial como a matéria “natureza jurídica dos pagamentos efetuados pela recorrente – dedutibilidade das despesas relativas à aquisição de direitos minerários”) também já foi objeto de análise por esta 1ª Turma da CSRF, em outro processo que tinha como sujeito passivo a própria SAMARCO MINERAÇÃO S.A.. A questão foi apreciada no processo administrativo tributário nº 10600.720019/2013-93, prevalecendo o entendimento exposto da seguinte forma no voto vencedor do Acórdão nº 9101-002.806: “De acordo com a Turma recorrida, o contrato o sob exame (e-fl. 596 e ss.), celebrado entre a cedente (Samitri, sucedida pela Vale S.A.) e a cessionária (ora recorrente) não tem por objeto a cessão da titularidade do direitos minerários em questão, mas apenas a cessão do direito de exploração dos direitos minerários que são de titularidade da cedente, até o momento de sua exaustão, conforme trecho do acórdão a seguir reproduzido (e-fl.848): Cumpre-nos indagar, portanto, se o contrato celebrado pelas partes evidencia uma efetiva alienação (cessão definitiva, como diz a Recorrente) ou, ao revés, direitos que, por sua natureza, são passíveis de remuneração mediante royalties. O objeto do contrato foi definido na cláusula sexta, nos seguintes termos (grifamos): (...) A cláusula acima demonstra que foi fixada uma obrigação permanente (salvo eventual acerto posterior) até a exaustão das reservas minerais pactuadas, vale dizer, o pagamento deve ser feito até o limite de existência da coisa. Parece-me que o dispositivo realmente se refere à figura do arrendamento (como, aliás, expressamente está consignado) e, nesse contexto, não se confundiria com uma "compra e venda", que possui requisitos distintos. Na compra e venda há um preço determinado ou determinável, além da efetiva transferência da propriedade. Conquanto existam elementos para a estipulação dos pagamentos, não se vislumbra, no contrato, a definição efetiva do preço, até porque isso depende da vida útil das reservas minerais. Não se amolda o texto à figura da cessão definitiva, mas sim à hipótese de remuneração por direitos de exploração. Fl. 1584DF CARF MF Fl. 19 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 (...) Mas ainda que a leitura do "Contrato de Transferência de Direitos Minerários para Exploração de Jazidas de Minério de Ferro" deixasse margem para dúvida acerca de seu real objeto, o fato iniludível é que tanto a cedente quanto a cessionária registraram os pagamentos feitos por esta a aquela como sendo a título de royalties. Noutros termos, as próprias partes contratantes, que são quem melhor podem interpretar o referido contrato, reconheceram em sua contabilidade que a cessionária está pagando não o preço pela aquisição definitiva da titularidade dos direitos minerários da cedente, mas sim royalties pela exploração dos direitos minerários de titularidade da cedente, conforme apontado no termo de verificação fiscal (e-fls. 39/40): 36. No histórico dos lançamentos efetuados na conta de despesa 0040640010 - “3.01.02.02.03.01.04.10 DIREITOS MINERÁRIOS - VALE” encontramos os seguintes termos: ROYALTIES CVRD, Pagamento de royalties e Pagamento de direitos minerais. 37. Na conta do Passivo da Fiscalizada 2.01.13.03.02.07 - DIREITOS MINERÁRIOS - VALE onde são feitas as provisões dos royalties pagos à Vale encontramos, por exemplo, as seguintes referências no histórico dos lançamentos: Provisão Royalties - CVRD, Provisão Royalties - Janeiro, Royalties Abril, etc. 38. Da mesma forma, a Vale S.A também contabiliza como royalties os valores recebidos da Samarco na conta “451113002 - Receitas com Arrendamentos/Royalties”, conforme pode ser constatado pela escrituração contábil digital no SPED. 39. E realmente a natureza dos pagamentos efetuados pela Samarco à Vale S.A revestem-se das características de royalties atribuídas expressamente pela própria Lei. O art. 22, alínea “b” da Lei nº 4.506, de 30/11/1964, dispõe literalmente que os rendimentos de qualquer espécie decorrentes do uso, fruição, exploração de direitos de pesquisar e extrair recursos minerais serão classificados como “royalties”. (...) Nesse sentido, quando a recorrente, após submetida à auditoria fiscal, nega aquilo que está registrado em seus próprios assentamentos contábeis, incorre em comportamento contraditório (venire contra factum proprium), algo que não pode ser admitido por violação ao princípio da boa-fé. Ademais, e apenas por amor ao debate, ainda que se tratassem de pagamentos pela aquisição da titularidade dos direitos minerários, como quer a recorrente, tais pagamentos não poderiam, sem mais, serem deduzidos como despesa. Ao contrário, deveriam ter sido "ativados" e submeterem-se às regras de amortização ou exaustão legalmente previstas.” (destaques no original) Compartilho da conclusão exposta naquele julgado, no sentido de que a inexistência de preço determinado ou determinável no contrato celebrado entre o contribuinte e a empresa VALE S.A. é determinante para que o negócio não possa ser classificado como cessão de direitos (assemelhado à compra e venda). Sendo materialmente um negócio de arrendamento, os valores pagos pelo uso, fruição e exploração dos recursos minerais devem efetivamente ser enquadrados como royalties, estando correto o entendimento da Fiscalização. No que toca à segunda controvérsia levantada pelo recorrente (matéria “Ad argumentandum – Não aplicação da limitação do art. 71, “d”, da Lei 4.506/1964 a royalties pagos a sócios pessoas jurídicas” do recurso especial), já tive a oportunidade de expor minha opinião como relatora do Acórdão nº 9101-003.874, pelo que reproduzo os argumentos ali expendidos: Neste ponto, aduz a Recorrente seria evidente a ilegalidade do artigo 353, I do RIR/99, eis que o artigo 71, parágrafo único, alínea "d" da Lei n° 4.506/64 trata de figuras que somente fazem sentido no universo das pessoas físicas, como dirigentes de empresas, e Fl. 1585DF CARF MF Fl. 20 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 a seus parentes ou dependentes, buscando evitar práticas evasivas associadas à qualificação de outros rendimentos como royalties. Entendo que não prospera a tese de que o Regulamento do Imposto de Renda teria alargado, de forma indevida, o alcance da lei. Para demonstrar tal posição é importante compararmos os dois dispositivos: Lei nº 4.506/64 Art. 71. A dedução de despesas com aluguéis ou "royalties" para efeito de apuração de rendimento líquido ou do lucro real sujeito ao imposto de renda, será admitida: (...) Parágrafo único. Não são dedutíveis: (...) d) os "royalties" pagos a sócios ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes; Decreto nº 3.000/99: Art. 353. Não são dedutíveis (Lei nº 4.506, de 1964, art. 71, parágrafo único): I - os royalties pagos a sócios, pessoas físicas ou jurídicas, ou dirigentes de empresas, e a seus parentes ou dependentes; Acerca dessa matéria, o acórdão já mencionado analisou a questão e fez referência, inclusive, a decisão desta Câmara Superior em processo da própria Recorrente (SAP), para concluir pela absoluta compatibilidade entre os dispositivos: Não consigo vislumbrar qualquer argumento, gramatical, semântico ou jurídico capaz de invalidar o disposto em regulamento, até porque os dois comandos dizem exatamente a mesma coisa. É evidente que a lei, ao dizer "sócios", se refere a qualquer tipo de pessoa com participação na sociedade e não somente às pessoas físicas. O comando legal é claro e diz que são indedutíveis os royalties "pagos a sócios". O fato de, na sequência, existir a menção a "parentes ou dependentes" apenas demonstra a teleologia da norma, que buscou ser o mais ampla possível, até porque a partícula "e", na língua portuguesa, não serve como condicionante, mas como adição a conceitos já expressos. Em síntese, nenhum sócio ou dirigente, inclusive eventuais parentes e dependentes, quando existirem, poderão receber royalties dedutíveis para fins de IRPJ. O pagamento dos valores, por óbvio, decorre de liberalidade da empresa, desde que observadas as limitações legais para a dedutibilidade. Esse entendimento possui respaldo na jurisprudência do CARF, inclusive em recente julgado da Câmara Superior, que ao apreciar questão análoga à dos autos, decidiu a questão, quanto a este ponto, por unanimidade: Acórdão nº 9101-001.908 ROYALTIES INDEDUTIBILIDADE - Os royalties pelo uso de patentes de invenção, processos e fórmulas de fabricação, ou pelo uso de marcas de indústria, que atendam as normas gerais de necessidade, usualidade e normalidade são dedutíveis, exceto se pagos por filial no Brasil em benefício de sua matriz no exterior, ou por sociedade com sede no Brasil a pessoa com domicílio no exterior que mantenha, direta ou indiretamente, controle do seu capital com direito a voto. Quaisquer outros royalties, se pagos a sócio, pessoa física ou jurídica, são indedutíveis.” (CSRF. Acórdão nº 9101- 001.908. 1T. Rel. Cons. VALMIR SANDRI. Julgado em 13 de maio de 2014) Nota-se a perfeita identidade fática entre a decisão ao norte e a apreciada neste voto, pois os dois litígios se referem à glosa de despesas em razão de valores pagos a empresa no exterior. Fl. 1586DF CARF MF Fl. 21 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 No caso em referência, da contribuinte SAP Brasil Ltda., a fiscalização qualificou como royalties indedutíveis os pagamentos decorrentes do licenciamento do direito de comercialização de softwares, ao contrário da tese defendida pela interessada, de que os valores seriam relativos a direitos autorais. A posição do fisco foi ratificada, por unanimidade, pela Câmara Superior. E mais: a automática aplicação do comando normativo às pessoas jurídicas, sem qualquer ofensa ao princípio da legalidade ou violação das limitações regulamentares, também pode ser encontrada em abalizada doutrina. Cite-se, a título de exemplo, a posição de Noé Winkler (Imposto de Renda. Ed. Forense: Rio de Janeiro, 2001, p. 526 e 528) ao lecionar: É vedado o pagamento de “royalties” a sócios ou dirigentes de empresas e a seus parentes e dependentes. Quanto aos sócios, tanto podem ser pessoas físicas como jurídicas. Não esclarece a lei o grau de parentesco, ou tipo de dependência. (grifamos) O teor da legislação não deixa margem para dúvidas e evidencia o objetivo de impedir qualquer tipo de favorecimento mediante o pagamento de royalties a sócios, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, razão pela qual também não assiste razão à Recorrente quanto a este ponto.” (destaques no original) Portanto, entendo descabida a pretensão da recorrente de restringir somente aos sócios pessoas físicas a vedação de dedutibilidade estabelecida na alínea “d” do art. 71 da Lei nº 4.506/1964. Conclusão Em face do exposto, voto por conhecer parcialmente do recurso especial do contribuinte, com exceção da matéria “ilegalidade da incidência dos juros SELIC sobre a multa de ofício”, e, na parte conhecida, voto por negar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner Declaração de Voto Conselheira Livia De Carli Germano Apresento esta declaração de voto para manifestar as razões pelas quais, com o devido respeito, divergi do entendimento da i. Relatora quanto a ambos os temas admitidos para discussão no presente recurso especial. Passo a tratar de cada um deles. Quanto à questão da adoção da alíquota de imposto de renda da pessoa jurídica (IRPJ) incidente sobre a exportação de minerais abundantes, de fato a matéria já foi apreciada por esta Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), tendo a discussão sido decidida por maioria no acórdão 9101-001.854, de janeiro de 2014, e por voto de qualidade no acórdão 9101- 002.356, de 16 de junho de 2016. Fl. 1587DF CARF MF Fl. 22 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Em ambos os casos, concessa venia, me alinho ao entendimento dos votos vencidos. No acórdão 9101-001.854, de janeiro de 2014, a declaração de voto contém válidas observações a respeito do princípio da especialidade, afirmando-se que a Lei 9.249/1995 ao instituir a alíquota de 15% e o adicional de 10% para o IRPJ, o fez apenas para os lucros que não estivessem abrangidos por incentivos fiscais outorgados por normas especiais, como é o caso do previsto no Decreto-Lei 2.413/1988, com a modificação pela Lei 7.988/1989. De fato, a Lei 9.249/1995 veio trazer disposições gerais acerca do imposto de renda aplicável às pessoas jurídicas (é dizer, alíquota, base de cálculo, etc.), contendo, ao seu final, o artigo 36 que, primeiramente, prevê de forma geral a revogação das disposições em contrário para, em seguida, enumerar em seus incisos especificamente algumas das disposições revogadas. Em termos gerais, apenas devem ser consideradas “disposições em contrário” a uma lei aquelas que efetivamente regulem a mesma matéria mas em sentido oposto. Seguindo essa premissa, temos que, se a Lei 9.249/1995 traz disposições gerais acerca do imposto de renda aplicável às pessoas jurídicas, resta claro que ela revogou todas as demais disposições gerais acerca do imposto de renda aplicável às pessoas jurídicas. A contrario sensu, também é válido afirmar que a norma, a princípio, não revogou as disposições especiais acerca de tal tributação. Dito de outra forma: em um contexto de lei genérica que tratou da tributação do IRPJ, a previsão geral de revogação de “todas as disposições em sentido contrário” alcança tão somente as normas genéricas acerca da tributação do IRPJ até então editadas. Coerentemente, quando tal norma quis fazer referência a dispositivos específicos do IRPJ a serem revogados, ela o fez especialmente, nos incisos do artigo 36. Ademais, compreendo que se deve considerar o benefício de tributação da exportação de minerais abundantes como tendo sido confirmado pela Lei 7.988/1989, obedecendo portanto ao disposto no artigo 41 dos ADCT. Afinal, o artigo 1º, I, da Lei 7.988/1989 vem estabelecer, literalmente, que “A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período-base de 1989:” “I - passará a ser 18% (dezoito por cento) a alíquota aplicável ao lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º do Decreto-Lei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988”. Não obstante tal regra não tenha afirmado literalmente que o benefício fiscal previsto no artigo 1º do Decreto-Lei 2.413/1988 estaria “confirmado”, não vejo como concluir em sentido contrário, já que a norma nada mais faz do que reafirmar que tal setor da economia permaneceria sujeito a uma alíquota diferenciada. É dizer: não se pode negar que, por força do artigo 1º, I, da Lei 7.988/1989, a exportação de minerais abundantes permaneceu sujeita a uma alíquota específica de imposto de renda, e portanto não ao regime geral, do que se conclui, necessariamente (com a devida vênia aos entendimentos em sentido contrário), que a tributação de tal setor da economia permaneceu diferenciada dos demais setores. Por fim, de se notar que o argumento de que a alíquota de 18% não consta dos Regulamentos do Imposto de Renda de 1994 e 1999 é circunstancial e nada diz sobre sua revogação. Do contrário, teríamos que considerar como igualmente relevante o fato de que a norma ainda consta até os dias atuais no site oficial planalto.gov.br, sem qualquer menção ou anotação sobre ter sido alterada ou revogada. Fl. 1588DF CARF MF Fl. 23 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Por sua vez, a respeito da segunda matéria tratada no recurso especial -- glosa de despesas associadas a pagamentos feitos à sócia Vale S.A., classificados pela fiscalização como royalties -- também compreendo assistir razão à contribuinte quando esta contesta o enquadramento, defendendo tratar-se, na verdade, de contrapartidas pela aquisição definitiva de direitos minerários, formalizada por meio de contrato de cessão da titularidade de direitos. Conforme ressaltou o voto vencido do acórdão recorrido, todos os documentos trazidos aos autos dão conta de que, formal e materialmente, o que ocorreu foi a transferência da titularidade (compra e venda) dos direitos minerários, e não apenas a mera permissão para a sua exploração – a qual pressupõe a manutenção, pelo cedente, da titularidade dos direitos. E não há nenhum questionamento acerca da idoneidade de quaisquer documentos ou dos registros, inclusive em órgãos públicos, com base neles efetuados. Em essência, o fundamento para a contestação da natureza da operação foi exclusivamente a redação dada à cláusula de preço do contrato, a qual, de fato, não traz um valor determinado mas, com a devida vênia, compreendo tratar-se, sim, de valor passível de determinação no tempo e, portanto, determinável. O fato de o preço ser determinável não desnatura o contrato de compra e venda -- pelo contrário, tal circunstância é expressamente prevista no Código Civil. Nesse ponto, são pertinentes as considerações do voto vencido no acórdão 9101-002.806, que reproduzo: Pois bem, minha compreensão jurídica sobre a clausula 6ª do contrato é que estamos diante de uma clássica cláusula de preço determinável. Totalmente legítima em negócios jurídicos de cessão de direitos. Com efeito, embora as partes tenham convencionado um preço variável, isso não significa que os pagamentos efetuados possuam natureza de Royalties, principalmente porque o negócio que lhe deu causa é a alienação do direito de lavra. Trata-se de preço determinável, nos termos do artigo 487 do Código Civil, que prevê ser “lícito às partes fixar o preço em função de índices ou parâmetros, desde que suscetíveis de objetiva determinação.” Portanto, como no caso concreto a transferência se deu de forma definitiva (com escritura pública e averbação no DNPM), entendo tratar-se de aquisição definitiva de direitos. Por fim, observo que o fato de as partes terem contabilizado tais valores sob a rubrica “royalties” não pode ser relevante para a determinação de sua natureza jurídica. A natureza jurídica de um negócio deve ser aferida mediante análise conjunta dos direitos e obrigações previstos nos instrumentos que o regulam e da forma como as partes efetivamente se comportaram ao dar-lhe cumprimento e, no caso, tanto sob um aspecto como do outro, concluo, com a devida vênia, que tratou-se de cessão da titularidade do direito (compra e venda) e não de remuneração por seu uso (royalties). Resta inclusive prejudicada, em tal raciocínio, a análise do alcance da vedação à dedutibilidade estabelecida na alínea “d” do art. 71 da Lei nº 4.506/1964. Estas foram as razões pelas quais, com o devido respeito, orientei meu voto para dar provimento ao recurso da contribuinte. (documento assinado digitalmente) Fl. 1589DF CARF MF Fl. 24 do Acórdão n.º 9101-004.551 - CSRF/1ª Turma Processo nº 10600.720046/2016-17 Livia De Carli Germano Fl. 1590DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15983.000195/2008-12
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 12 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF
Exercício: 2004, 2005, 2006
CONCOMITÂNCIA DAS INSTÂNCIAS JUDICIAL E ADMINISTRATIVA RECONHECIDA NA DECISÃO RECORRIDA. INSURGÊNCIA RECURSAL. DISCUSSÃO SOBRE A ISENÇÃO DO ART. 9º, § ÚNICO, DA LEI Nº 10.559/2002 NAS VIAS ADMINISTRATIVA E JUDICIAL. MESMO OBJETO NAS DUAS INSTÂNCIAS. HIGIDEZ DA DECISÃO RECORRIDA. O objeto do mandado de segurança acostado aos autos versa iniludivelmente sobre a tributação de rendimentos recebidos por anistiados políticos, aposentados ou pensionistas, o qual objetiva constranger a fonte pagadora, no caso o INSS, a não fazer a retenção do imposto de renda sobre tais rendimentos, ao argumento de que eles estão albergados pela regra isentiva do art. 9º, parágrafo único, da Lei nº 10.559/2002 (Os valores pagos a título de indenização a anistiados políticos são isentos do Imposto de Renda). Em um cenário dessa natureza, não se tem como negar que o objeto discutido na via judicial é idêntico ao em debate nesta via administrativa, sendo límpido que a autoridade fiscal concretizou a autuação, não lançando a multa de ofício, na forma do art. 63 da Lei nº 9.430/96, exatamente porque havia uma medida judicial suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, deferida no writ nº 2002.61.04.009430-1-SP, que afastava da tributação os rendimentos recebidos por aposentados e pensionistas, a título de anistiados políticos. O fato de o mandamus ter sido interposto antes da lavratura do presente auto de infração não desnatura a concomitância da controvérsia discutida na via administrativa e judicial, pois a decisão que vier a transitar em julgado na via judicial necessariamente espraiará seus efeitos para este processo administrativo fiscal, levando a manutenção ou cancelamento da exação ora lançada, ou seja, somente cabe à Administração Fiscal se submeter ao decidido no processo judicial. Não pode a Administração Fiscal, por seu contencioso administrativo, imiscuir-se em matéria que deverá ser decidida pelo Poder Judiciário, pois cabe a este tutelar a Administração, e não o inverso.
Recurso negado.
Numero da decisão: 2102-001.286
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso, determinando que a autoridade executora deste acórdão acompanhe a sorte do mandado de segurança nº 2002.61.04.009430-1-SP, aplicando neste lançamento o que vier lá ser decidido.
Matéria: IRPF- ação fiscal - omis. de rendimentos - PF/PJ e Exterior
Nome do relator: Giovanni Cristian Nunes Campos
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 8; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2617; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C1T2 Fl. 1 1 S2C1T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 15983.000195/200812 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 210201.286 – 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 12 de maio de 2011 Matéria IRPF Recorrente IVALDO VAZ DOS SANTOS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2004, 2005, 2006 CONCOMITÂNCIA DAS INSTÂNCIAS JUDICIAL E ADMINISTRATIVA RECONHECIDA NA DECISÃO RECORRIDA. INSURGÊNCIA RECURSAL. DISCUSSÃO SOBRE A ISENÇÃO DO ART. 9º, § ÚNICO, DA LEI Nº 10.559/2002 NAS VIAS ADMINISTRATIVA E JUDICIAL. MESMO OBJETO NAS DUAS INSTÂNCIAS. HIGIDEZ DA DECISÃO RECORRIDA. O objeto do mandado de segurança acostado aos autos versa iniludivelmente sobre a tributação de rendimentos recebidos por anistiados políticos, aposentados ou pensionistas, o qual objetiva constranger a fonte pagadora, no caso o INSS, a não fazer a retenção do imposto de renda sobre tais rendimentos, ao argumento de que eles estão albergados pela regra isentiva do art. 9º, parágrafo único, da Lei nº 10.559/2002 (Os valores pagos a título de indenização a anistiados políticos são isentos do Imposto de Renda). Em um cenário dessa natureza, não se tem como negar que o objeto discutido na via judicial é idêntico ao em debate nesta via administrativa, sendo límpido que a autoridade fiscal concretizou a autuação, não lançando a multa de ofício, na forma do art. 63 da Lei nº 9.430/96, exatamente porque havia uma medida judicial suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, deferida no writ nº 2002.61.04.0094301SP, que afastava da tributação os rendimentos recebidos por aposentados e pensionistas, a título de anistiados políticos. O fato de o mandamus ter sido interposto antes da lavratura do presente auto de infração não desnatura a concomitância da controvérsia discutida na via administrativa e judicial, pois a decisão que vier a transitar em julgado na via judicial necessariamente espraiará seus efeitos para este processo administrativo fiscal, levando a manutenção ou cancelamento da exação ora lançada, ou seja, somente cabe à Administração Fiscal se submeter ao decidido no processo judicial. Não pode a Administração Fiscal, por seu contencioso administrativo, imiscuirse em matéria que deverá ser decidida Fl. 5DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 2 pelo Poder Judiciário, pois cabe a este tutelar a Administração, e não o inverso. Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso, determinando que a autoridade executora deste acórdão acompanhe a sorte do mandado de segurança nº 2002.61.04.0094301SP, aplicando neste lançamento o que vier lá ser decidido. Assinado digitalmente GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Relator e Presidente. EDITADO EM: 13/06/2011 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Núbia Matos Moura, Atílio Pitarelli, Rubens Maurício Carvalho, Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti, Acácia Sayuri Wakasugi e Giovanni Christian Nunes Campos. Relatório Em face do contribuinte IVALDO VAZ DOS SANTOS, CPF/MF nº 017.652.21820, já qualificado neste processo, foi lavrado, em 13/03/2008, auto de infração (fls. 02 a 10), com ciência postal em 25/03/2008 (fl. 66). Abaixo, discriminase o crédito tributário constituído pelo auto de infração, que sofre a incidência de juros de mora a partir do mês seguinte ao do vencimento do crédito: IMPOSTO R$ 102.150,56 Ao contribuinte foram imputadas duas infrações, com o mesmo fundamento jurídico, como se verá abaixo, sendo uma reclassificação de rendimentos declarados na DIRPF, e uma ausência de retenção de IRRF sobre 13º salário, ambas nos anoscalendário 2003 a 2005, sem imputação de multa de ofício, pois o crédito tributário lançado estava com exigibilidade suspensa por medida judicial, nos termos abaixo (fl. 5): CLASSIFICAÇÃO INDEVIDA DE RENDIMENTOS NA DIRPF RENDIMENTOS RECEBIDOS A TÍTULO DE APOSENTADORIA OU PENSÃO EXCEPCIONAL DE ANISTIADOS O contribuinte classificou como isentos na Declaração de Ajuste Anual os rendimentos recebidos do Instituto Nacional de Seguro Social, com base em decisão judicial favorável, ainda não transitada em julgado, que determinou a interrupção da retenção do imposto de renda na fonte, tendo em vista se tratar Fl. 6DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 15983.000195/200812 Acórdão n.º 210201.286 S2C1T2 Fl. 2 3 de valores de pensão excepcional de anistiados, conforme Termo de Verificação Fiscal em anexo. Com o objetivo específico de salvaguardar os direitos da Fazenda Nacional, em caso de decisão final desfavorável ao contribuinte, foi constituído o crédito tributário, mediante o lançamento dos referidos rendimentos como tributáveis na declaração. IMPOSTO DE RENDA NÃO RETIDO/RECOLHIDO POR FORÇA DE MEDIDA JUDICIAL IMPOSTO DE RENDA NÃO RETIDO SOBRE OS 13° SALÁRIOS Com base na mesma decisão judicial, o Instituto Nacional de Seguro Social deixou de efetuar também a retenção na fonte do imposto de renda sobre os 13° salários recebidos pelo contribuinte nos anos de 2003, 2004 e 2005. Assim, procedemos também ao lançamento do imposto de renda calculado sobre os 13° salários. Abaixo se transcreve a motivação da autoridade autuante para concretizar o lançamento (fl. 11), verbis: No exercício das funções de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil e de acordo com o disposto nos artigos 904, 911 e 927 do Decreto n° 3.000 de 26/03/1999 (RIR/99), realizamos a ação fiscal definida pelo Mandado de Procedimento Fiscal acima citado. O contribuinte acima identificado impetrou mandado de segurança (Processo Judicial n° 2002.61.04.0094301 — Processo Administrativo n° 10845.004282/200214) com o objetivo de suspender o desconto do imposto de renda na fonte incidente sobre proventos de aposentadoria excepcional de anistiado recebida do Instituto Nacional de Seguro Social — INSS. Em 24/02/2003, a liminar foi indeferida. Contudo, em 30/04/2003, o . pedido foi julgado procedente, sendo assegurado ao interessado o direito à isenção do imposto de renda sobre os valores recebidos a título de aposentadoria excepcional de anistiados, mediante a interrupção da retenção pela fonte pagadora. O contribuinte foi intimado em 25/01/2008 a apresentar os comprovantes de rendimentos recebidos do INSS nos anos de 2003, 2004 e 2005 e a se manifestar com relação às deduções sobre a base de cálculo do imposto de renda. Como o processo judicial não se encontra definitivamente julgado, lavramos o Auto de Infração para salvaguardar os direitos da Fazenda Nacional, mediante o lançamento como tributáveis dos valores declarados como isentos pelo Fl. 7DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 4 contribuinte nas Declarações de Ajuste Anual dos Exercícios' 2004, 2005 e 2006, e para cobrança do imposto de renda que deixou de ser retido sobre os 13° salários dos anos de 2003, 2004 e 2005, sendo apurado um imposto a pagar no valor total de R$ 102.150,56 (Cento e Dois Mil, Cento e Cinquenta Reais e Cinqüenta e Seis Centavos), conforme demonstrativos anexos. Os valores lançados no auto de infração estão com a exigibilidade suspensa, razão pela qual não foi aplicada a multa de ofício na constituição do crédito tributário. Ressaltamos que o fato de a exigência tributária ser objeto de litígio não impede seu lançamento, tendo em vista a obrigação da administração fiscal de assegurar a constituição do crédito tributário, caso o deslinde do litígio judicial seja favorável ao Fisco, prevenindo a decadência do crédito. Inconformado com a autuação, o contribuinte apresentou impugnação ao lançamento, dirigida à Delegacia da Receita Federal de Julgamento, com os seguintes fundamentos (fls. 94 e 95 – transcrição do relatório do Acórdão recorrido): 1 o auto de infração, objeto desta impugnação está eivado de nulidade pela inocorrência do fato gerador do tributo; 2 os dispositivos legais que deram suporte a constituição do crédito tributário na lavratura do auto de infração não se aplicam no caso; 3 o impugnante recebeu no período considerado rendimentos que não devem ser computados como rendimentos tributáveis, tendo em vista, o regime jurídico que ampara os anistiados políticos; 4 os rendimentos foram recebidos na qualidade de anistiado político, conforme resolveu o Ministério do Trabalho, considerando o art 9°, da Lei 6.683, de 1979, regulamentada pelo Decreto 84.143, de 31 de outubro de 1979; 5 a aposentadoria excepcional de anistiado, por suas características, se constitui em indenização vitalícia conferida pelo Poder Público, para reparação dos prejuízos ocasionados aos cidadãos punidos por suas convicções políticas; 6 de forma a dirimir qualquer dúvida sobre o caráter indenizatório do preceito contido no art. 8°, do ADCT, o Executivo baixou a MP 2.1513, de 24 de agosto de 2001, em que estabelece a reparação econômica de caráter indenizatório; 7 qualquer tributação nas atuais verbas indenizatórias é ilegítima e inconstitucional, caracterizando verdadeiro confisco em favor da Receita Federal do Brasil Federal do Brasil, visto que a aludida indenização é feita a título de reparação; 8 a indenização nestas condições não se erige em renda, nem aumento de patrimônio, pois corresponde a verdadeiro ressarcimento pelos prejuízos sofridos pelos anistiados; Fl. 8DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 15983.000195/200812 Acórdão n.º 210201.286 S2C1T2 Fl. 3 5 9 a questão de isenção dos valores recebidos a título de aposentadoria de anistiado político restou esclarecido com a edição da Lei 10.559/2002. A 3ª Turma da DRJ/SPOII, por unanimidade de votos, não conheceu da impugnação, em decisão consubstanciada no Acórdão n° 1730.269, de 04 março de 2009 (fls. 93 a 96) em decisão assim ementada: PROCESSOS ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. A propositura pela contribuinte , contra a Fazenda, de ação judicial, antes ou posteriormente à autuação, com o mesmo objeto, importa renúncia às instâncias administrativas. O contribuinte foi intimado da decisão a quo em 26/03/2009 (fl. 98). Irresignado, interpôs recurso voluntário em 17/04/2009 (fl. 101). No voluntário, o recorrente alega, em síntese, que os rendimentos em debate foram auferidos em decorrência de anistia política, estando isentos do imposto de renda, na forma do art. 9º, parágrafo único, da Lei nº 10.559/2002. Ademais, não houve desistência desta discussão administrativa, nos termos que seguem (fls. 105 e 106 – transcrição do recurso voluntário), verbis: 10. Ora, como se observa, não houve renúncia à esfera administrativa, visto que a medida judicial foi ajuizada antes da autuação que originou o processo administrativo. Ademais, não houve opção pela via judicial em detrimento da via administrativa, primeiro porque o MS foi, impetrado contra o INSS e o Gerente Executivo da Autarquia, autoridade responsável pela retenção do indigitado tributo, por segundo não está se discutindo na medida judicial se o rendimento é tributável, isto porque essa questão está superada consoante a Lei 10.559/02 e o Decreto n° 4897/03. No caso o recorrente impugnou o Auto de Infração porque o i. AFRFB não observou a legislação pertinente, usando expedientes para criar receita fictícia alegando que o recorrente omitiu os rendimentos de aposentadorias ou pensão excepcional efetuado pelo INSS a anistiado político. Que RENDIMENTO? Se a Lei isenta o pagamento da aposentadoria e pensão excepcional aos já anistiados políticos, que vem sendo efetuado pelo INSS anistiados político. É o relatório. Voto Conselheiro Giovanni Christian Nunes Campos, Relator Fl. 9DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. 6 Declarase a tempestividade do apelo, já que o contribuinte foi intimado da decisão recorrida em 26/03/2009 (fl. 98), quintafeira, e interpôs o recurso voluntário em 17/04/2009 (fl. 101), dentro do trintídio legal, este que teve seu termo final em 27/04/2009, segundafeira. Dessa forma, atendidos os demais requisitos legais, passase a apreciar o apelo, como discriminado no relatório. De plano, as decisões do writ nº 2002.61.04.0094301SP ainda não transitaram em julgado, como se vê no acompanhamento processual do site do Egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região, tendo atualmente lá sido julgadas as apelações dos impetrados e a remessa necessária (AMS 255511 – disponível em http://www.trf3.jus.br/trf3r/index.php?id=20&op=resultado&processo=200261040094301. Acesso em 26 de abril de 2011), com julgado assim ementado: TRIBUTÁRIO. ILEGITIMIDADE PASSIVA. PRELIMINAR REJEITADA. IMPOSTO SOBRE A RENDA. ISENÇÃO INSTITUÍDA PELA LEI N. 10.559/02. APOSENTADORIA EXCEPCIONAL. PENSÃO POR MORTE. ANISTIA POLÍTICA. DECRETO N. 4.897/03. I – Deve ser mantido o Gerente Executivo do INSS no pólo passivo da ação, uma vez que é o primeiro destinatário da ordem concedida, bem como autoridade responsável pela retenção do tributo em comento. Preliminar rejeitada. II – De acordo com o Decreto n. 4.879/03, os valores pagos a título de indenização a anistiados políticos são isentos do Imposto sobre a Renda, incluídos aqueles pagos aos declarados anistiados antes da vigência da Lei n. 10.559/02, que ainda não foram submetidos à “substituição de regime” prevista no art. 19 do referido diploma legal. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça. III O referido decreto, em seu art. 13, não restringiu tal isenção aos anistiados, uma vez que estendeu a percepção desse benefício aos seus dependentes, na hipótese de falecimento do anistiado político. IV – Preliminar argüida rejeitada. Remessa oficial e apelações dos Impetrados improvidas. O objeto do madamus acima versa iniludivelmente sobre a tributação de rendimentos recebidos por anistiados políticos, aposentados ou pensionistas, o qual objetiva constranger a fonte pagadora, no caso o INSS, a não fazer a retenção do imposto de renda sobre tais rendimentos, ao argumento de que eles estão albergados pela regra isentiva do art. 9º, parágrafo único, da Lei nº 10.559/2002 (Os valores pagos a título de indenização a anistiados políticos são isentos do Imposto de Renda). Em um cenário dessa natureza, não se tem como negar que o objeto discutido na via judicial é idêntico ao em debate nesta via administrativa, sendo límpido que a autoridade fiscal concretizou a autuação, não lançando a multa de ofício, na forma do art. 63 da Lei nº 9.430/96, exatamente porque havia uma medida judicial suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, deferida no writ nº 2002.61.04.0094301SP, que afastava da tributação os rendimentos recebidos por aposentados e pensionistas, a título de anistiados políticos. O fato de o mandamus ter sido interposto antes da lavratura do presente auto de infração não desnatura a concomitância da controvérsia discutida na via administrativa e Fl. 10DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 15983.000195/200812 Acórdão n.º 210201.286 S2C1T2 Fl. 4 7 judicial, pois a decisão que vier a transitar em julgado na via judicial necessariamente espraiará seus efeitos para este processo administrativo fiscal, levando a manutenção ou cancelamento da exação ora lançada, ou seja, somente cabe à Administração Fiscal se submeter ao decidido no processo judicial. Não pode a Administração Fiscal, por seu contencioso administrativo, imiscuirse em matéria que deverá ser decidida pelo Poder Judiciário, pois cabe a este tutelar a Administração, e não o inverso. Dessa forma, acertada a decisão recorrida que reconheceu a concomitância das instâncias judicial e administrativa, no caso vertente. Antes o exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso, determinando a autoridade executora deste acórdão acompanhe a sorte do mandado de segurança nº 2002.61.04.0094301SP, aplicando neste lançamento o que vier lá a ser decidido. Assinado digitalmente Giovanni Christian Nunes Campos Fl. 11DF CARF MF Documento de 7 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP20.1219.10304.EDXD. Consulte a página de autenticação no final deste documento. PÁGINA DE AUTENTICAÇÃO O Ministério da Fazenda garante a integridade e a autenticidade deste documento nos termos do Art. 10, § 1º, da Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001 e da Lei nº 12.682, de 09 de julho de 2012. Documento produzido eletronicamente com garantia da origem e de seu(s) signatário(s), considerado original para todos efeitos legais. Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001. Histórico de ações sobre o documento: Documento juntado por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS em 13/06/2011 14:55:10. Documento autenticado digitalmente por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS em 13/06/2011. Documento assinado digitalmente por: GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS em 13/06/2011. Esta cópia / impressão foi realizada por MARIA MADALENA SILVA em 20/12/2019. Instrução para localizar e conferir eletronicamente este documento na Internet: EP20.1219.10304.EDXD Código hash do documento, recebido pelo sistema e-Processo, obtido através do algoritmo sha1: 7AA85F745E165C00108932DE3E8053DF90C4FB9A Ministério da Fazenda 1) Acesse o endereço: https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx 2) Entre no menu "Legislação e Processo". 3) Selecione a opção "e-AssinaRFB - Validar e Assinar Documentos Digitais". 4) Digite o código abaixo: 5) O sistema apresentará a cópia do documento eletrônico armazenado nos servidores da Receita Federal do Brasil. página 1 de 1 Página inserida pelo Sistema e-Processo apenas para controle de validação e autenticação do documento do processo nº 15983.000195/2008-12. 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Numero do processo: 15983.000754/2007-03
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 06 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Dec 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF)
Ano-calendário: 2003
QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO
Não há quebra de sigilo no lançamento realizado pelo fisco no exercício de suas atribuições, visto que não houve qualquer rompimento das garantias fundamentais constituídas, ora, sendo facultado ao contribuinte a apresentação de extratos bancários e não o fazendo surge o direito vinculado do Fisco diligenciar em busca das provas necessárias á apuração da infração.
CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Não ocorre cerceamento de defesa quando consta no Auto de Infração a clara descrição dos fatos e circunstâncias que o embasaram, justificaram e quantificaram.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM.
Caracterizam-se como renda os créditos em conta bancária cuja origem não é comprovada pelo titular. Cabe ao Contribuinte a comprovação da origem dos depósitos para desconstituição do lançamento. Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada.
Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros.
Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção.
MULTA DE OFÍCIO. DEVIDA.
A multa de oficio é devida em decorrência da falta de declaração dos fatos geradores, sendo calculada à base de 75% sobre o valor do imposto suplementar apurado, nos termos do art. 44, I e § 1° da Lei n° 9.430/96. Multa lançada dentro da legalidade.
Recurso Voluntário conhecido negado provimento.
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 2301-006.628
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e negar provimento ao recurso.
(documento assinado digitalmente)
João Mauricio Vital - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Juliana Marteli Fais Feriato - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antonio Savio Nastureles, Wesley Rocha, Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Juliana Marteli Fais Feriato, Fernanda Melo Leal e João Mauricio Vital (Presidente).
Nome do relator: JULIANA MARTELI FAIS FERIATO
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ementa_s : ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2003 QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO Não há quebra de sigilo no lançamento realizado pelo fisco no exercício de suas atribuições, visto que não houve qualquer rompimento das garantias fundamentais constituídas, ora, sendo facultado ao contribuinte a apresentação de extratos bancários e não o fazendo surge o direito vinculado do Fisco diligenciar em busca das provas necessárias á apuração da infração. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não ocorre cerceamento de defesa quando consta no Auto de Infração a clara descrição dos fatos e circunstâncias que o embasaram, justificaram e quantificaram. DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM. Caracterizam-se como renda os créditos em conta bancária cuja origem não é comprovada pelo titular. Cabe ao Contribuinte a comprovação da origem dos depósitos para desconstituição do lançamento. Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros. Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. MULTA DE OFÍCIO. DEVIDA. A multa de oficio é devida em decorrência da falta de declaração dos fatos geradores, sendo calculada à base de 75% sobre o valor do imposto suplementar apurado, nos termos do art. 44, I e § 1° da Lei n° 9.430/96. Multa lançada dentro da legalidade. Recurso Voluntário conhecido negado provimento. Crédito Tributário Mantido.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2019-12-06T17:29:50Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2019-12-06T17:29:50Z; Last-Modified: 2019-12-06T17:29:50Z; dcterms:modified: 2019-12-06T17:29:50Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2019-12-06T17:29:50Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2019-12-06T17:29:50Z; meta:save-date: 2019-12-06T17:29:50Z; pdf:encrypted: true; modified: 2019-12-06T17:29:50Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2019-12-06T17:29:50Z; created: 2019-12-06T17:29:50Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 16; Creation-Date: 2019-12-06T17:29:50Z; pdf:charsPerPage: 2370; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2019-12-06T17:29:50Z | Conteúdo => S2-C 3T1 Ministério da Economia Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Processo nº 15983.000754/2007-03 Recurso Voluntário Acórdão nº 2301-006.628 – 2ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 06 de novembro de 2019 Recorrente JOSE GERALDO BRETAS JUNIOR Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2003 QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO Não há quebra de sigilo no lançamento realizado pelo fisco no exercício de suas atribuições, visto que não houve qualquer rompimento das garantias fundamentais constituídas, ora, sendo facultado ao contribuinte a apresentação de extratos bancários e não o fazendo surge o direito vinculado do Fisco diligenciar em busca das provas necessárias á apuração da infração. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não ocorre cerceamento de defesa quando consta no Auto de Infração a clara descrição dos fatos e circunstâncias que o embasaram, justificaram e quantificaram. DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM. Caracterizam-se como renda os créditos em conta bancária cuja origem não é comprovada pelo titular. Cabe ao Contribuinte a comprovação da origem dos depósitos para desconstituição do lançamento. Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros. Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. MULTA DE OFÍCIO. DEVIDA. A multa de oficio é devida em decorrência da falta de declaração dos fatos geradores, sendo calculada à base de 75% sobre o valor do imposto suplementar apurado, nos termos do art. 44, I e § 1° da Lei n° 9.430/96. Multa lançada dentro da legalidade. Recurso Voluntário conhecido negado provimento. Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 00 07 54 /2 00 7- 03 Fl. 267DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e negar provimento ao recurso. (documento assinado digitalmente) João Mauricio Vital - Presidente (documento assinado digitalmente) Juliana Marteli Fais Feriato - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antonio Savio Nastureles, Wesley Rocha, Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, Sheila Aires Cartaxo Gomes, Juliana Marteli Fais Feriato, Fernanda Melo Leal e João Mauricio Vital (Presidente). Relatório Trata-se de Recurso Voluntário interposto nas fls. 245/262 contra o Acórdão de n. 17- 35.018 (fls. 216/230) proferido pela 11ª Turma da DRJ/SP2, na sessão de 16/09/2009, cuja Ementa: ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. A variação patrimonial apurada, não justificada por rendimentos declarados ou comprovados, está sujeita a lançamento de oficio por caracterizar omissão de rendimentos. Somente a apresentação de provas inequívocas é capaz de ilidir a presunção legal de omissão de rendimentos, invocada pela autoridade lançadora. SIGILO BANCÁRIO. Havendo procedimento administrativo regularmente instaurado, não constitui quebra do sigilo bancário a obtenção, pelos Órgãos fiscais tributários do Ministério da Fazenda e dos Estados, de dados sobre a movimentação bancária dos contribuintes. NULIDADE. Não estando especificada nenhuma das hipóteses que propiciem a nulidade do lançamento, quais sejam, os atos e Fl. 268DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 os termos lavrados por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa, não há que se falar em nulidade do auto de infração. MULTA DE OFICIO DE 75%. A multa de 75% é aplicável sempre nos lançamentos de oficio realizados pela Fiscalização da Receita Federal do Brasil. Versam os autos quanto á Auto de Infração lavrado em 23/10/2007 (fls. 04/07) relativo ao Imposto sobre a Renda de Pessoas Físicas do ano-calendário de 2003, por meio do qual foi constituído o credito tributário no valor de R$ 87.664,75 sendo R$ 38.863,66 á título de imposto, R$ 19.653,35 á título de Juros de Mora, e R$ 29.147,74 á encargo de Multa Proporcional. O AI apurou a ocorrência de omissão de rendimentos caracterizada por valores observados em conta corrente em relação a qual o Contribuinte fora intimado para comprovar via documentação hábil a origem dos valores. Segunda a DRJ: Relata o TVF que o contribuinte foi regularmente intimado do termo de início de fiscalização e do mandado de procedimento fiscal de fiscalização em 01/03/2007, respondeu em carta datada de 16/03/2007, acompanhada de fatura com vencimento em 10/04/2003 do cartão de crédito n. 4513.0200.0108.0043 do Bank of Boston/Visa. Que foi reintimado em 13/04/2007 apresentou carta recebida em 20/04/2007, onde declara haver descartado as faturas de cartão de crédito, não tendo, como atender à fiscalização. Em suas deliberações de mérito a DRJ fez constar que para a tributação efetuada sobre acréscimo patrimonial á descoberto há sua previsão junto ao Art. 3º, §1º da Lei 7.713/1988, o qual tutela que havendo acréscimo patrimonial incompatível com os rendimentos declarados, presume-se a existência do fato gerador do imposto de renda e, que ante a presunção legalmente estabelecida o Fisco fica dispensado de provar a referida omissão sendo encargo do Contribuinte justifica-las. Sustenta que a Certidão do CRI de Porto Seguro, juntado ás fls. 141/142 comprova somente a transferência do direito pessoal sobre benfeitorias não sendo suficiente para comprovar que houve transferência em dinheiro para o Contribuinte. Fl. 269DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Sustenta não haver nos autos nenhum documento hábil a comprovar as alegações do Contribuinte em sentido a comprovar que a transação dos valores ocorreram em pecúnia. Sustenta também que como fato indiciário a alegada aquisição foi feita por empresa cujo o titular é o próprio vendedor, ou seja, o Contribuinte autuado. No que compete ao sigilo bancário aduz a DRJ que teria se arguido a quebra do sigilo bancário pelo Contribuinte em sua impugnação sem que houvesse a autorização pelo Poder judiciário, requerendo a declaração da nulidade do AI. Quanto á estas alegações a DRJ colaciona o art. 38 da Lei nº 4595/64, o qual faculta aos agentes fiscais tributários o exame de registros de contas de depósitos quando instaurado processo administrativo, estando todos os Contribuintes obrigados a prestar informações ao Fisco como dispõe o Art. 927 do Regulamento do Imposto de Renda. Fez menção também a DRJ á substituição do art. 38 da Lei nº 4.595/64 pelo art. 8º da Lei nº 8021/90, ressaltando a correta e necessária aplicação bem como a vinculação desta aplicação á função fiscalizadora, posto que durante a fase inicial do procedimento intimou-se o impugnante para apresentar os extratos bancário referente ao ano calendário de 2003 bem com os documentos comprovatórios dos créditos/depósitos, não sendo os mesmo apresentados com a exatidão necessária, justificando a quebra do sigilo pelo Fisco. Delibera também a DRJ quanto a impugnação no que compete á Base Legal utilizada no AI, pois o Contribuinte aduz que deveria indicar-se o artigo 846 §1º do regulamento do Imposto de Renda e não os Arts. 806 e 807 como ocorrera. Quanto pás alegações de indevida definição de Base Legal sustenta a DRJ que a desconformidade na indicação de artigo de Regulamento não justifica a anulação da autuação posto que o Contribuinte exerceu plena e amplamente seu direito de defesa indicando subsumido ao fato descrito, a capitulação em que teria incorrido sua conduta. Por fim, reafirma a aplicação da Multa de Oficio no Percentual de 75% posto que aplicada em consonância ao Art. 44, inciso I da Lei 9430 de 1996 e conclui em sentido a julgar procedente o lançamento, julgando improcedente a impugnação do Contribuinte. Inconformado, compareceu o Contribuinte junto às fls. 245/262 apresentando seu Recurso Voluntário em sentido á: Fl. 270DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Reafirmar suas alegações de que se faria necessária a nulidade do AI por ter havido a quebra do sigilo bancário do Contribuinte sem a determinação judicial, a qual ainda dependeria de uma situação excepcional para sua decretação. Requer a nulidade do AI por Ausência de Fundamentação legal do Auto de Infração posto que o mesmo sustentou a infração dos arts. 806 e 807 que cuidam do acréscimo patrimonial a descoberto injustificado por rendimentos tributados isentos ou exclusivos de fonte, contudo, as despesas de crtões de crédito não suportadas por origens deveriam ser capituladas no art. 846 do RIR, desta forma, haveria cerceamento de defesa. Aduz que não haveria acréscimo patrimonial oculto sustentando a origem dos valores na Certidão de Compra e Venda do CRI de Porto Seguro posto que a mesma comprovaria a transferência dos valores ao Contribuinte justificando os valores descobertos. Contesta a aplicação da multa no patamar de 75% Voto Conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, Relatora. ADMISSIBILIDADE Conforme comprova a fl. 240, a Contribuinte foi intimada do resultado do Acórdão da Impugnação, em 10/01/2010, por intermédio de sua procuradora, bem como recebeu sua intimação em 04/01/2010, como faz prova o AR de fls. 244, sendo que apresentou seu Recurso Voluntário em 02/02/2010 (fl. 245/262), portanto, tempestivo. Desta forma, conhece do Recurso Voluntário passando-se à análise do mérito. MÉRITO Trata-se de Recurso Voluntário interposto pela Contribuinte diante do resultado da DRJ, que manteve o lançamento referente à omissão de rendimentos provenientes de depósitos bancários sem origem. Sobre os apontamentos trazidos no Recurso Voluntário, pontua-se: Ausência De Dispositivo Legal – Cerceamento De Defesa Fl. 271DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Segundo resulta da disciplina dos arts. 59 c/c 60 do Decreto n.º 70.235/72, aplicáveis à hipótese, a notificação e demais termos do processo administrativo fiscal somente serão declarados nulos na ocorrência de uma das seguintes hipóteses: a) quando se tratar de ato/decisão lavrado ou proferido por pessoa incompetente; b) resultar em inequívoco cerceamento de defesa à parte. A propósito, confira-se a redação dos dispositivos supra citados: “Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio”. Sobre a matéria, a jurisprudência desta CSRF, de longa data, firmou orientação no sentido de que “Não existe prejuízo à defesa quando os fatos narrados e fartamente documentados nos autos amoldam-se perfeitamente às infrações imputadas à empresa fiscalizada. Não há nulidade sem prejuízo” (Recurso: 203-112290, Segunda Turma, Sessão: 25/04/2006, Relator: Henrique Pinheiro Torres, Acórdão: CSRF/02-02.301). Em momento algum o arbitramento restou maculado, mas tão somente a falta da respectiva norma. Também não foi refutado o lançamento em si, no que tange a descoberta de omissão e rendimentos. Fl. 272DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Cumpre observar que a contribuinte teve plena consciência do débito, inexistindo qualquer prejuízo à ampla defesa. Ocorre que se encontravam claros os elementos necessários à compreensão do dever descumprido. É, portanto, cristalino o equívoco perpetrado pela v. decisão recorrida. De tudo, vê-se que os termos do procedimento fiscal contêm os elementos necessários e suficientes para o atendimento do art. 10 Decreto n.º 70.235/72. O amplo e efetivo do direito de defesa foi propiciado à contribuinte, que, inclusive, apresenta longo e detalhado arrazoado. Como citado acima, a jurisprudência desta Câmara Superior tem firmado o entendimento de que, se o autuado revela conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, rebatendo-as mediante extensa e substanciosa defesa, abrangendo não somente preliminares, mas também razões de mérito, mostra-se incabível a declaração de nulidade de lançamento por cerceamento de defesa, devendo prevalecer os princípios da instrumentalidade e economia processual em lugar do rigor das formas. Como disse Hely Lopes Meirelles (Direito administrativo brasileiro, cit., p. 641): “O princípio do informalismo dispensa ritos sacramentais e formas rígidas para o processo administrativo, principalmente para os atos a cargo do particular. Bastam as formalidades estritamente necessárias à obtenção da certeza jurídica e à segurança procedimental’. O informalismo se deve ao fato de o próprio particular estar no processo administrativo, ao contrário do processo judicial, em que o interessado atua por meio de advogado, conforme dito acima. (...) Embora o Decreto n. 70.235/72 não tenha contemplado explicitamente o princípio da salvabilidade dos atos processuais, é ele admitido, no art. 59, de forma implícita. Segundo tal princípio, todo ato que puder ser aproveitado, mesmo que praticado com erro de forma, não deverá ser anulado”.” Não se vislumbra a ocorrência de prejuízo à defesa da contribuinte neste processo, pelo que a decretação da nulidade representa a desnecessária movimentação da máquina pública, com o dispêndio de recursos do erário, para a repetição de atos administrativos válidos, perfeitos e eficazes. Nesse sentido: Acórdão 106-15955 Fl. 273DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 IRRF - PAGAMENTO A BENEFICIÁRIOS NO EXTERIOR - INCORRETA FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO - A desconsideração dos negócios jurídicos pelas Autoridades Fiscais deve vir acompanhada de caracterização do real negócio praticado, bem como e principalmente, precedida do efetivo benefício fiscal pretendido. O lançamento fundado em simulação da ocorrência de operação de compra e venda de ativos, sem a respectiva caracterização do negócio praticado demanda aplicação do comando inserto no artigo 61 da Lei nº 8.981/95, por ausência de causa comprovada. AUTO DE INFRAÇÃO - ENQUADRAMENTO LEGAL - - AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DO PREJUÍZO - DECLARAÇÃO DE NULIDADE IMPOSSIBILIDADE - A imperfeição na capitulação legal do lançamento não autoriza, por si só, a sua declaração de nulidade, se a acusação fiscal estiver claramente descrita e propiciar ao contribuinte dela se defender amplamente, mormente se este não suscitar e demonstrar o prejuízo sofrido em razão do ato viciado. (Precedentes da CSRF) Recurso parcialmente provido.” Assim, como a exigência deve ser interpretada à luz do princípio que veda a decretação de nulidade sem prejuízo, não há que ser anulado o presente lançamento, por absoluta ausência de vício. Depósitos Bancários - Omissão De Rendimentos - Sigilo Bancário À Contribuinte foi oportunizada inúmeras chances para trazer a documentação referente a sua movimentação bancária, não sendo aceitável a alegação de que as tarifas bancárias a impedira de apresentar seus extratos. Ademais, cabe à SRF investigar e lançar créditos tributários quando omitidos pelos Contribuinte, sendo que o termo de embaraço em nada modificaria o resultado da ação fiscal, visto que a legislação viabiliza a investigação da autoridade fiscalizadora, conforme se verá a seguir. Sobre a legislação que permeia o lançamento, a Lei nº 9.430/96, destaca-se: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Este Conselho editou as seguintes Súmulas sobre a matéria: Fl. 274DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros. Da mesma forma é o entendimento das Jurisprudências Consolidadas deste Conselho: DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM. Caracterizam-se como renda os créditos em conta bancária cuja origem não é comprovada pelo titular. A mera indicação de que haveria débitos relativos a pagamentos de pessoa jurídica não logra comprovar a origem de depósitos bancários. (Acórdão nº 9202-003.738 - 28/01/2016) .................... Considera-se como comprovação de origem, para valores creditados em conta de depósito, o oferecimento de valor equivalente ao fisco, em Declaração anual de Ajuste de IRPF, a título de Rendimentos Isentos ou não tributáveis ou ainda, sujeitos á tributação exclusiva na fonte, não tem o efeito de comprovação de origem desses valores, aplicando-se a eles a presunção legal de omissão de rendimentos. (Acórdão nº 9202-003.902 - 3/04/2016) Portanto, a legislação e a Jurisprudência determinam que os depósitos bancários, de origem não comprovada, caracterizam omissão de receita ou de rendimentos, cabendo à Contribuinte o ônus de comprovar a origem de tais depósitos, com documentação hábil e idônea. Com relação ao lançamento, verifica-se que o fato gerador, neste caso, ocorre quando do momento em que se constata os depósitos, em que o Contribuinte não comprova, embora intimado, a origem desses recursos disponibilizados em sua Conta Corrente. Desta forma, necessário destacar que houve a comprovação da ocorrência do fato gerador, visto que os extratos das instituições financeiras identificam os valores que circularam na conta corrente da Contribuinte, incompatível com a condição da mesma em sua DAA do mesmo período, visto que se declarou isenta de recolhimento de IRPF. Desta forma, cabe à Contribuinte comprovar a origem dos depósitos, através de documentação hábil e idônea. Não há quebra de sigilo no lançamento realizado desta forma, visto que não houve qualquer rompimento das garantias fundamentais constituídas na CF/88, visto que, no Fl. 275DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 presente caso, a fiscalização apenas exerceu seu dever de fiscalizar, conforme determina e possibilita a lei. É o próprio CTN, em seu artigo 197, inciso II, que impõe a obrigação de os bancos e outras instituições financeiras prestarem informações de que disponham com relação aos bens, negócios ou atividades de terceiros: Art. 197 - Mediante intimação escrita, são obrigados a prestar à autoridade administrativa todas as informações de que disponham com relação aos bens, negócios ou atividades de terceiros: II - os bancos, casas bancárias, Caixas Econômicas e demais instituições financeiras; A matéria em foco foi tratada pela Lei Complementar n° 105, de 10 de janeiro de 2001, que teve seu artigo 6° regulamentado pelo Decreto n° 3.724, do mesmo ano. Seu artigo 1°, § 3°, inciso VI, artigo 5° e artigo 6° preceituam Art. 19 As instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados. (...) § 3º Não constitui violação do dever de sigilo: (...) VI - a prestação de informações nos termos e condições estabelecidos nos artigos 29, 39, 49, 59, 69, 79 e 9 desta Lei Complementar. Art. 59 O Poder Executivo disciplinará, inclusive quanto à periodicidade e aos limites de valor, os critérios segundo os quais as instituições financeiras informarão à administração tributária da União, as operações financeiras efetuadas pelos usuários de seus serviços. (...) § 4° Recebidas às informações de que trata este artigo, se detectados indícios de falhas, incorreções ou omissões, ou de cometimento de ilícito fiscal, a autoridade interessada poderá requisitar as informações e os documentos de que necessitar, bem como realizar fiscalização ou auditoria para a adequada apuração dos fatos. (...) Fl. 276DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Art. 69 As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. Desta forma, a teor das normas citadas, não há qualquer violação à legislação vigente quanto ao sigilo bancário do contribuinte. Por outro lado, ao mesmo tempo em que a Legislação dá ao Fisco esta prerrogativa, ela impõe, aos servidores públicos, que vierem a ter conhecimento dos dados bancários do Contribuinte, o dever de oficio de mantê-las em sigilo, prevendo, inclusive com a tipificação penal do ato de revelar fato de que tenha ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo. Para melhor compreensão, seguem abaixo os citados dispositivos: Decreto n ° 3. 724/2001 Art. 8º O servidor que utilizar ou viabilizar a utilização de qualquer informação obtida nos termos deste Decreto, em finalidade ou hipótese diversa da prevista em lei, regulamento ou ato administrativo, será responsabilizado administrativamente por descumprimento do dever funcional de observar normas legais ou regulamentares, de que trata o art. 116, inciso III, da Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990, se o fato não configurar infração mais grave, sem prejuízo de sua responsabilização em ação regressiva própria e da responsabilidade penal cabível. Art. 9º O servidor que divulgar, revelar ou facilitar a divulgação ou revelação de qualquer informação de que trata este Decreto, constante de sistemas informatizados, arquivos de documentos ou autos de processos protegidos por sigilo fiscal, com infração ao disposto no art. 198 da Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional), ou no art. 116, inciso VIII, da Lei ni' 8.112, de 1990, ficará sujeito à penalidade de demissão, prevista no art. 132, inciso IX, da citada Lei n. 8.112, sem prejuízo das sanções civis e penais cabíveis. Art. 10. O servidor que permitir ou facilitar, mediante atribuição, fornecimento ou empréstimo de senha ou qualquer outra forma, o acesso de pessoas não autorizadas a sistemas de informações, banco de dados, Fl. 277DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 arquivos ou a autos de processos que contenham informações mencionadas neste Decreto, será responsabilizado administrativamente, nos termos da legislação especifica, sem prejuízo das sanções civis e penais cabíveis. Parágrafo único. O disposto neste artigo também se aplica no caso de o servidor utilizar-se, indevidamente, do acesso restrito. Código Penal Art. 325. Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação: Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa, se o fato não constitui crime mais grave. Portanto, a legislação tributária, ao conceder a possibilidade de obtenção de informações junto às instituições financeiras, está dando instrumentos para o Fisco verificar a veracidade das informações prestadas pelos Contribuintes em suas DAA. No entanto, por outro lado, obedecendo o mandamento do artigo 5°, inciso X, da CF, da inviolabilidade da intimidade, a legislação obriga um sério comportamento ético profissional dos servidores que tenham conhecimento destas informações. Portanto, aí sim, está o sigilo bancário, e não na transferência de informações bancárias de instituições privadas para um órgão de Estado, que possui a responsabilidade de sigilo em um espectro maior que é o sigilo fiscal que ao bancário absorve. Desta forma, não se vislumbra a quebra do sigilo bancário do contribuinte no presente caso. Nos documentos apurados pela fiscalização, apresentados pelas instituições financeiras, constatou-se que a Contribuinte apresentou uma movimentação financeira durante o período apurado incompatível com sua condição na DAA. Assim, não cabe ao julgador administrativo discutir se tal presunção é equivocada ou não, pois se encontra totalmente vinculado aos ditames legais (art. 116, inc. III, da Lei n° 8.112/1990), mormente quando do exercício do controle de legalidade do lançamento tributário (art. 142 do Código Tributário Nacional - CTN). Nesse passo, não é dado apreciar questões que importem a negação de vigência e eficácia do preceito legal que, de modo inequívoco, estabelece a presunção legal de omissão de receita ou de rendimento sobre os valores creditados em conta de depósito mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações (art. 42, caput, da Lei n°9.430/1996). Fl. 278DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Repisa, ao julgador administrativo não cabe decidir se esta medida é certa ou justa. Se a lei determina o resultado, o julgador administrativo deve aplicar a lei, em cumprimento ao princípio da legalidade. Verifica-se que o entendimento consolidado da Câmara Superior deste Conselho é pela exclusão dos valores tributáveis informados na Declaração de Ajuste Anual, pelo Contribuinte, do total de depósitos em conta-corrente, para fins de apuração dos rendimentos omitidos por depósitos bancários de origem não comprovada. Isto se dá, visto que a presunção legal instituída pelo Art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996, tem por objetivo trazer à tributação os valores depositados em conta corrente do sujeito passivo, para os quais não haja comprovação de origem. Em outras palavras, aceitando-se a possibilidade, a ser comprovada pelo sujeito passivo, de que um depósito possa ter ocorrido por motivos que não impliquem tributação, na falta da comprovação, considera-se que o depósito enseja rendimentos a serem tributados. O oferecimento de valores ao Fisco, como rendimentos tributáveis, na declaração, por parte do sujeito passivo, tem exatamente o efeito buscado pela norma. Entendo que a pessoa física não tem a obrigação de manter contabilidade completa e, com isso, tem dificuldades em identificar cada operação, podendo inclusive receber valores de terceiros ao longo de cada mês, para seu oferecimento ao Fisco - em conjunto - nas datas definidas pela legislação. Portanto, não se deve trazer à tributação um valor que já tenha sido a ela oferecido, razão pela qual a própria declaração em DIRPF, com valores oferecidos ao Fisco como rendimentos tributáveis, seja documentação hábil e idônea para confirmar que os depósitos, até o montante declarado: (i) ensejam rendimentos a serem tributados e (ii) que eles foram devidamente tributados pelo contribuinte. Cumpre referir que este é o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme se depreende da leitura da ementa do acórdão 9202-002.926, da relatoria da Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo, a seguir reproduzida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA. IRPF Exercício: 2004 OMISSÃO DE RENDIMENTOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM COMPROVAÇÃO DE ORIGEM BASE DE CÁLCULO - EXCLUSÃO É cabível a exclusão, da base de cálculo do Imposto de Renda incidente sobre depósitos bancários sem identificação de origem, dos valores dos rendimentos tributados na Declaração de Ajuste Anual correspondente. Fl. 279DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Recurso especial negado. E ainda, com relação aos depósitos bancários, necessário destacar a seguinte Súmula do CARF: Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros. Se a Contribuinte não junta a prova da ocorrência deste fato com documentação idônea, o lançamento deve ser mantido. Embora faça juntada de documento que comprove a transferência de imóvel, este não serve como comprovação á transferência de valores mas tão somente concerne ao registro de propriedade Cumpre relembram também que a referida certidão registra operação entre empresa do próprio contribuinte e ele, sendo que se detivesse correlação á patrimônio descoberto, deveria por obvio o Contribuinte deter os comprovantes de origem dos valores tributados. O Imposto de Renda e sua Declaração são obrigações personalíssimas do Contribuinte, sendo sua responsabilidade única as informações prestadas quando do preenchimento de sua declaração anual de ajuste. Art. 787. As pessoas físicas deverão apresentar anualmente declaração de rendimentos, na qual se determinará o saldo do imposto a pagar ou o valor a ser restituído, relativamente aos rendimentos percebidos no ano-calendário (Lei nº 9.250, de 1995, art. 7º). Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. A responsabilidade pela exatidão/inexatidão do conteúdo consignado na Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda é do próprio beneficiário dos rendimentos, que não pode desconhecê-los e deixar de oferecê-los à tributação. Desta forma, realizado o lançamento, cabe à Contribuinte, através de documentação hábil e idônea, apresentar a origem desses depósitos. No que consiste a prova da origem, o mínimo de documentação necessária para justificar a origem seria aquela capaz de vincular os valores dos depósitos com as datas em que os mesmos foram realizados. Fl. 280DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 Verifica-se que a Contribuinte não apresentou qualquer justificativa ou documentação que comprovasse a origem dos depósitos em sua conta corrente. Desta forma, com base na legislação suscitada acima, entende-se que estes depósitos são rendimentos omitidos durante o período apurado, sendo devido o lançamento de IRPF. Desta forma, não há o que reformar no lançamento. Multa De Ofício Com relação à multa lançada, pontua-se sua legislação atual: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II - de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 2º Os percentuais de multa a que se referem o inciso I do caput e o § 1º deste artigo serão aumentados de metade, nos casos de não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para: I - prestar esclarecimentos; II - apresentar os arquivos ou sistemas de que tratam os arts. 11 a 13 da Lei no 8.218, de 29 de agosto de 1991; III - apresentar a documentação técnica de que trata o art. 38 desta Lei. Fl. 281DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 2301-006.628 - 2ª Sejul/3ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 15983.000754/2007-03 A multa de oficio é devida em decorrência da falta de declaração dos fatos geradores, sendo calculada à base de 75% sobre o valor do imposto suplementar apurado, e pode ser qualificada nos termos do art. 44, I e § 1° da Lei n° 9.430/96 — com o seu agravamento para 150% — quando identificado o dolo e o intuito de fraude definido nos termos dos arts. 71 e 73 da Lei no 4.502/64. Portanto multa de ofício é exigida sempre que houver lançamento de ofício, quando apurada infração decorrente da declaração inexata. Seu lançamento é automático e no valor de 75%. Seu valor pode ser alterado (diga-se aumentado), nos casos em que a conduta do Contribuinte se deu com dolo ou intuito de fraude, a multa pode ser qualifica, ou seja, passando de 75% para 150%; ou então ela poderá ser agravada, nos casos em que o Contribuinte, embora intimado, não apresente esclarecimento. No presente caso houve o lançamento da multa de ofício no valor de 75%, que é a multa normal todas as vezes em que há diferença de imposto nos casos de falta de pagamento ou recolhimento parcial. Desta forma, não há abusividade, visto que se aplicou a legislação vigente, considerando que restou constatada a falta de pagamento de IRPF dos depósitos bancários sem origem comprovada. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, para que na parte conhecida, negar provimento ao pedido da Contribuinte. É como voto. (documento assinado digitalmente) Juliana Marteli Fais Feriato Fl. 282DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.901967/2006-88
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Dec 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/04/2003 a 30/04/2003
COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. IMPRESCINDIBILIDADE. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE.
Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, cabendo ao contribuinte o ônus probatório em relação ao direito que alega perante a Fazenda Nacional.
Numero da decisão: 3401-006.888
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 11080.901964/2006-44, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Lázaro Antonio Souza Soares, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Fernanda Vieira Kotzias, João Paulo Mendes Neto e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2003 a 30/04/2003 COMPENSAÇÃO. CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. IMPRESCINDIBILIDADE. ÔNUS PROBATÓRIO DO CONTRIBUINTE. Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, cabendo ao contribuinte o ônus probatório em relação ao direito que alega perante a Fazenda Nacional. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 11080.901964/2006-44, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Lázaro Antonio Souza Soares, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Fernanda Vieira Kotzias, João Paulo Mendes Neto e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 90 19 67 /2 00 6- 88 Fl. 396DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 3401-006.888 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11080.901967/2006-88 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2019, e, dessa forma, adoto neste relatório excertos do relatado no Acórdão nº 3401-006.885, 25 de setembro de 2019, que lhe serve de paradigma. Versa o presente processo sobre pedido de compensação de créditos advindos de recolhimentos indevidos/ a maior de PIS com outros tributos, realizado pela empresa. Após análise do pedido, sobreveio despacho decisório que decidiu pela não homologação da compensação sob o fundamento da inexistência de créditos disponíveis para a compensação, uma vez que os mesmos já teriam sido integralmente utilizados em momento anterior. Cientificada do despacho, a empresa apresentou manifestação de inconformidade de folhas alegando, em síntese, que, apesar da não retificação da DIPJ e da DCTF, o direito creditório deriva do efetivo pagamento a maior realizado pela empresa e que o mesmo deve ser creditado, uma vez que sua comprovação pode ser verificada por meio das guias DARF’s. O processo foi então encaminhado à DRJ/POA que decidiu pela manutenção do despacho decisório, indeferindo o pedido da empresa e não homologando a compensação em razão da ausência de provas que demonstrassem de forma inequívoca o direito ao crédito da empresa, conforme se verifica da ementa do acórdão: Ementa: RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO Direitos creditórios pleiteados via Declaração de Compensação - Nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, essencial a comprovação da liquidez e certeza dos créditos para a efetivação do encontro de contas, comprovação esta que é ônus do contribuinte, sendo incabível a transferência da responsabilidade ao Fisco. Compensação não Homologada Irresignada, a empresa apresentou recurso voluntário argumentando que o direito creditório não se origina dos valores declarados em DCTF/DIPJ, mas da efetivação do pagamento, de forma que a discussão deve girar em torno do valor informado e efetivamente recolhido no DARF. Repisa ainda que seu direito creditório está fundado no art. 3°, inc. VI, da Lei n° 10.637/ 02, derivando da depreciação de bens que compõem seu ativo imobilizado. Por fim, juntou planilha discriminado os cálculos relativos à depreciação como forma de demonstrar o montante do crédito. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF. Ressalvo que a decisão consagrada no paradigma foi contrária ao meu entendimento pessoal, pelo que adoto o Fl. 397DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 3401-006.888 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11080.901967/2006-88 entendimento que prevaleceu no colegiado, consignado no Acórdão nº 3401-006.885, 25 de setembro de 2019, paradigma desta decisão, que passo a reproduzir. O Recurso é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade constantes na legislação, de modo que admito seu conhecimento. No que concerne ao mérito, como destacado no relatório, ainda que a Recorrente traga à baila argumentos referentes ao direito creditório resultante de pagamentos indevidos ou a maior e que discorra sobre os prazos para restituição, a decisão recorrida proferida pelo julgador de primeiro piso é clara no sentido de que a razão para a não homologação reside na constatação de que o DARF indicado no PER/DCOMP já havia sido utilizado para quitar débito anterior e que inexistem provas nos autos que demonstrem o contrário, conforme se verifica no voto abaixo transcrito: “Assim, a liquidez do direito há de ser comprovada pela demonstração do quantum recolhido indevidamente, através das guias de pagamento, da comprovação das bases de cálculo sobre as quais ocorreram os fatos geradores e, se. for o caso, do provimento judicial autorizativo da compensação pleiteada. Também é ,assente .na doutrina que direito líquido e certo é aquele cujos aspectos de fato possam comprovar-se documentalmente. No presente, no entanto, a interessada não trouxe qualquer elemento contábil para comprovar a base de cálculo de qualquer dos períodos, sequer indicou processo judicial com trânsito em julgado que embasasse seu pedido.” (grifo nosso) A análise dos autos releva que a decisão de piso mostra-se correta e adequada ao caso vertente. Isto porque, ainda que assista razão à Recorrente quanto a possibilidade de documentos como a DCTF e a DIPJ serem relativizados em virtude do princípio da verdade material, não existem elementos suficientes nos autos para a constatação de que existe crédito líquido e certo a ser compensado. Conforme se verifica pela jurisprudência do CARF, a certeza e liquidez do crédito pleiteado devem ser provadas por meio da apresentação de documentos fiscais e contábeis: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 28/03/2003 DÉBITO. DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E TRIBUTOS FEDERAIS (DCTF). PAGAMENTO INDEVIDO E/ OU MAIOR. COMPROVAÇÃO. A comprovação de que o débito declarado na respectiva DCTF foi indevido e/ ou a maior deve ser feita mediante a transmissão de DCTF retificadora acompanhada dos respectivos documentos fiscais e contábeis comprovando o equívoco. INDÉBITO TRIBUTÁRIO. REPETIÇÃO/COMPENSAÇÃO. CERTEZA/LIQUIDEZ. PROVAS. A certeza e liquidez de crédito financeiro decorrente de pagamentos indevidos e/ ou a maior, objeto de pedido de restituição/compensação, devem ser provadas pelo requerente, mediante a apresentação de documentos fiscais e contábeis que deram origem ao indébito pleiteado/compensado. (...) Ora, no caso em tela houve a mera juntada das DARFs e de planilha simples com o cálculo da depreciação de bens do ativo imobilizado, o que não é suficiente para demonstrar, de forma líquida e certa, a existência de crédito a ser compensado, motivo pelo qual deve-se Fl. 398DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 3401-006.888 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 11080.901967/2006-88 concordar com a conclusão da fiscalização de que a recorrente não cumpriu sua obrigação no que se refere ao ônus probatório. Sem documentos contábeis propriamente ditos, os quais não foram apresentados, entendo que não existem elementos suficientes para formar convencimento sobre o pleito da requerente. Sobre o ônus probatório nos casos de pedido de compensação, o CARF possui entendimento pacificado de que o mesmo recai integralmente sobre o requerente, a exemplo do acórdão abaixo citado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 14/11/2006 PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO DO POSTULANTE. Nos processos que versam a respeito de compensação ou de ressarcimento, a comprovação do direito creditório recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato, que deve apresentar elementos probatórios aptos a comprovar as suas alegações. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. PAGAMENTO A MAIOR. COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVA. A carência probatória inviabiliza o reconhecimento do direito creditório pleiteado. (CARF. Acórdão n. 401005.540 no Processo n. 10675.903580/201171. Relator Cons. Rosaldo Trevisan. Dj 26/11/2018) Desta feita, verificada a insuficiência de provas que respaldem o pedido de compensação formulado pela recorrente, voto pelo conhecimento do recurso voluntário para, no mérito, negar seu provimento. É como voto. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 399DF CARF MF
score : 1.0
