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Numero do processo: 16327.720381/2012-46
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 27 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Jan 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007
PRAZO. DOMICÍLIO ELETRÔNICO. TRANSCURSO DE PRAZO. LEI N. 12.844/2013.
Até o advento da Lei n. 12.844/2013 (DOU de 19/07/2013) a contagem de prazo recursal, quando a intimação feita por via eletrônica, iniciava-se exclusivamente pelo decurso de prazo.
JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. PRECEDENTES.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007
BOLSA DE VALORES. BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS. PROCESSO DE DESMUTUALIZAÇÃO. CONVERSÃO DE TÍTULOS PATRIMONIAIS EM AÇÕES. NEGOCIAÇÃO. CURTO OU MÉDIO PRAZO. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO.
As disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente devem ser contabilizados no Ativo Circulante. Caracterizada a intenção prévia de negociar em prazo exíguo as ações recebidas em decorrência do processo de desmutualização das Bolsas e, após, a efetiva consumação do negócio, não se cogita da hipótese de exclusão da base de cálculo prevista no inciso IV do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718/98. Há incidência da Contribuição sobre o valor da receita obtida na transação.
BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL.
As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de repercussão geral, sistemática prevista no artigo 543-B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62, § 2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
Declarados inconstitucional o § 1º e constitucional o caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep todo o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007
BOLSA DE VALORES. BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS. PROCESSO DE DESMUTUALIZAÇÃO. CONVERSÃO DE TÍTULOS PATRIMONIAIS EM AÇÕES. NEGOCIAÇÃO. CURTO OU MÉDIO PRAZO. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO.
As disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente devem ser contabilizados no Ativo Circulante. Caracterizada a intenção prévia de negociar em prazo exíguo as ações recebidas em decorrência do processo de desmutualização das Bolsas e, após, a efetiva consumação do negócio, não se cogita da hipótese de exclusão da base de cálculo prevista no inciso IV do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718/98. Há incidência da Contribuição sobre o valor da receita obtida na transação.
BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL.
As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de repercussão geral, sistemática prevista no artigo 543-B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62, § 2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
Declarados inconstitucional o § 1º e constitucional o caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS todo o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica.
Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 3302-003.370
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para que a base de cálculo seja apurada pela diferença entre o preço de venda e valor arbitrado no processo 16327.720438/2011-26 - Acórdão n. 1101-000.868, de 09/04/2013 (Bovespa: 10,80 e BM&F: 9,98), vencidos os Conselheiros Domingos de Sá e Walker Araújo e as Conselheiras Sarah Araújo e Lenisa Prado, que davam integral provimento ao Recurso. Redigirá o voto vencedor o Conselheiro Ricardo Paulo Rosa. Fez sustentação oral o Dr. William Rodrigues - OAB 314.908-SP.
(assinatura digital)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente.
(assinatura digital)
Lenisa Rodrigues Prado - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Walker Araújo, Paulo Guilherme Dérouledé, Domingos de Sá, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Lenisa Prado.
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007 PRAZO. DOMICÍLIO ELETRÔNICO. TRANSCURSO DE PRAZO. LEI N. 12.844/2013. Até o advento da Lei n. 12.844/2013 (DOU de 19/07/2013) a contagem de prazo recursal, quando a intimação feita por via eletrônica, iniciavase exclusivamente pelo decurso de prazo. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. PRECEDENTES. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007 BOLSA DE VALORES. BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS. PROCESSO DE DESMUTUALIZAÇÃO. CONVERSÃO DE TÍTULOS PATRIMONIAIS EM AÇÕES. NEGOCIAÇÃO. CURTO OU MÉDIO PRAZO. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. As disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente devem ser contabilizados no Ativo Circulante. Caracterizada a intenção prévia de negociar em prazo exíguo as ações recebidas em decorrência do processo de desmutualização das Bolsas e, após, a efetiva consumação do negócio, não se cogita da hipótese de exclusão da base de cálculo prevista no inciso IV do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718/98. Há incidência da Contribuição sobre o valor da receita obtida na transação. BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 03 81 /2 01 2- 46 Fl. 569DF CARF MF 2 As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de repercussão geral, sistemática prevista no artigo 543B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62, § 2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Declarados inconstitucional o § 1º e constitucional o caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep todo o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 31/10/2007 a 30/11/2007 BOLSA DE VALORES. BOLSA DE MERCADORIAS E FUTUROS. PROCESSO DE DESMUTUALIZAÇÃO. CONVERSÃO DE TÍTULOS PATRIMONIAIS EM AÇÕES. NEGOCIAÇÃO. CURTO OU MÉDIO PRAZO. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. As disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente devem ser contabilizados no Ativo Circulante. Caracterizada a intenção prévia de negociar em prazo exíguo as ações recebidas em decorrência do processo de desmutualização das Bolsas e, após, a efetiva consumação do negócio, não se cogita da hipótese de exclusão da base de cálculo prevista no inciso IV do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718/98. Há incidência da Contribuição sobre o valor da receita obtida na transação. BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. DECISÃO STF. REPERCUSSÃO GERAL. As decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecidas como de repercussão geral, sistemática prevista no artigo 543B do Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas no julgamento do recurso apresentado pelo contribuinte. Artigo 62, § 2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Declarados inconstitucional o § 1º e constitucional o caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, integra a base de cálculo da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS todo o faturamento mensal, representado pela receita bruta advinda das atividades operacionais típicas da pessoa jurídica. Recurso Voluntário Provido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para que a base de cálculo seja apurada pela diferença entre o preço de venda e valor arbitrado no processo 16327.720438/201126 Acórdão n. 1101 000.868, de 09/04/2013 (Bovespa: 10,80 e BM&F: 9,98), vencidos os Conselheiros Domingos de Sá e Walker Araújo e as Conselheiras Sarah Araújo e Lenisa Prado, que davam integral provimento ao Recurso. Redigirá o voto vencedor o Conselheiro Ricardo Paulo Rosa. Fez sustentação oral o Dr. William Rodrigues OAB 314.908SP. (assinatura digital) Fl. 570DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 533 3 Ricardo Paulo Rosa Presidente. (assinatura digital) Lenisa Rodrigues Prado Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Walker Araújo, Paulo Guilherme Dérouledé, Domingos de Sá, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Lenisa Prado. Relatório A questão tem início em Mandado de Procedimento Fiscal1 expedido para promover a fiscalização da contribuinte, com escopo de averiguar suposta insuficiência/falta de recolhimento do PIS/COFINS no ganho decorrente da venda das ações recebidas como devolução de patrimônio pela desmutualização, no mercado secundário, no anocalendário 2007. A fiscalização, ao considerar que o resultado da venda das ações da BM&F e da Bovespa Holding S.A. pela contribuinte deveria ser contabilizada como resultado operacional da empresa2, promoveu a autuação para exigir COFINS e PIS referentes aos fatos geradores ocorridos no período de 31/10/2007 a 30/11/2007, importando na cobrança de R$ 51.117.228,60 e R$8.306.549,64, respectivamente, acrescido a esses valores multa de ofício (de 75%) e juros de mora. A contribuinte apresentou sua impugnação contra a exigência das contribuições (fls. 337/347) onde alega, em síntese: A receita oriunda da venda de parte das ações da Bovespa Holding e da BM&F S.A. não deve ser incluída na base de cálculo do PIS e da COFINS, já que por expressa disposição legal tais contribuições não incidem sobre as verbas que não se inserem ao conceito de faturamento (art. 3º, § 2º, inciso IV, da Lei n. 9.718/1998); É equivocada a premissa adotada pelo fiscal que "teria havido aquisição de ações das sociedades anônimas criadas após o processo de desmutualização" pois ocorreu o contrário, já que "com o processo de desmutualização das bolsas houve mera substituição dos títulos patrimoniais por ações, estando absolutamente correto o procedimento adotado pelo Impugnante"; "Como não houve processo no processo de desmutualização subscrição de capital para a aquisição de um novo bem, mas sim mera sucessão de um ativo por outro a forma de contabilização permanece a mesma, ou seja, no ativo permanente do Impugnante, tal como ocorreu". A instância de origem julgou improcedente a impugnação, ao considerar que por ter a contribuinte manifestado a intenção de vender parte das ações recebidas na oferta 1 MPF n. 08.1.66.00201100069. 2 Termo de Verificação Fiscal fls. 296/305. Fl. 571DF CARF MF 4 pública de ações (IPO), deveria têlas registrado no Ativo Circulante, no lugar do Permanente, conforme dispõe o art. 179, inciso I, da Lei n. 6.404/1976. O acórdão foi assim ementado: Assunto: Contribuições para o Financiamento da Seguridade Social COFINS. Data do fato gerador: 31/10/2007 a 30/11/2007 TÍTULO MOBILIÁRIOS. REGISTRO. ATIVO CIRCULANTE. Devem ser classificados no ativo circulante as disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subseqüente. Correta a classificação, no ativo circulante, das ações da BOVESPA HOLDING S.A. e da BM&F S.A. que foram recebidas pela contribuinte em decorrência de processo de desmutualização da Bolsa de Valores de São Paulo BOVESPA, e da Bolsa de Mercadorias & Futuros de São Paulo BM&F e que foram negociadas logo após o seu recebimento, no caso, dentro de poucos meses após o seu ingresso nos registros contábeis da impugnante. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS BRUTA (OPERACIONAL). OBJETO SOCIAL. VENDA DE AÇÕES. A base de cálculo da contribuição é a receita bruta, nos termos da legislação de regência. Tendo a interessada como objeto social a exploração de atividades que envolvem inclusive a negociação e intermediação com títulos e valores mobiliários e mercadorias negociáveis em bolsas de valores e bolsas de mercadorias e futuros, considerase como receita bruta (operacional) aquela proveniente da venda de ações, inclusive das ações da BOVESPA HOLDING S.A. e da BM&F S.A. que foram recebidas pela contribuinte em decorrência do processo de desmutualização da BOVESPA e da BM&F. Assunto: Contribuições para o PIS/PASEP. Data do fato gerador: 31/10/2007 a 30/11/2007 TÍTULO MOBILIÁRIOS. REGISTRO. ATIVO CIRCULANTE. Devem ser classificados no ativo circulante as disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subseqüente. Correta a classificação, no ativo circulante, das ações da BOVESPA HOLDING S.A. e da BM&F S.A. que foram recebidas pela contribuinte em decorrência de processo de desmutualização da Bolsa de Valores de São Paulo BOVESPA, e da Bolsa de Mercadorias & Futuros de São Paulo BM&F e que foram negociadas logo após o seu recebimento, no caso, dentro de poucos meses após o seu ingresso nos registros contábeis da impugnante. PIS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS BRUTA (OPERACIONAL). OBJETO SOCIAL. VENDA DE AÇÕES. A base de cálculo da contribuição é a receita bruta, nos termos da legislação de regência. Tendo a interessada como objeto social a exploração de atividades que envolvem inclusive a negociação e intermediação com títulos e valores mobiliários e Fl. 572DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 534 5 mercadorias negociáveis em bolsas de valores e bolsas de mercadorias e futuros, considerase como receita bruta (operacional) aquela proveniente da venda de ações, inclusive das ações da BOVESPA HOLDING S.A. e da BM&F S.A. que foram recebidas pela contribuinte em decorrência do processo de desmutualização da BOVESPA e da BM&F. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido. Irresignada com o julgamento realizado pela Delegacia da Receita Federal de Julgamentos em São Paulo, a contribuinte interpôs o recurso voluntário sob julgamento (fls. 411/424), motivo pelo qual os autos ascenderam a este Conselho. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Relatora Lenisa Prado 1. PRELIMINAR. TEMPESTIVIDADE DO RECURSO VOLUNTÁRIO. No que concerne a certificação da data de intimação da contribuinte sobre os termos insertos no acórdão proferido pela instância de origem, existem dois documentos: (i) o Termo de Abertura de Documento3, acostado à folha 408 dos autos eletrônicos, que informa que a ciência ocorreu em 21/06/2013, e; (ii) o Termo de Ciência por Decurso de Prazo, à folha 409, que atesta que tal se deu em 03/07/2013. Diante da duplicidade de informações, é imperativo considerar que há época dos fatos a regra vigente era aquela extraída da leitura conjunta do art. 4º, I, com o art. 6º, I da Portaria SRF n. 259, de 13/03/2006: Art. 4º. A intimação por meio eletrônico, com prova de recebimento, será efetuada pela SRF mediante: I envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou 3 É o exato teor da certidão acostada: "O Contribuinte tomou conhecimento do teor dos documentos relacionados abaixo, na data 21/06/2013 14:24h, pela abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal eCAC) através da opção Consulta Comunicados/Intimações. Intimação de Resultado de Julgamento Acórdão de Impugnação Fl. 573DF CARF MF 6 II registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. Art. 6º. Considerase feita a intimação por meio eletrônico, 15 (quinze) dias contados da data: I registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo, no caso do inciso I do art. 4º. Ainda que se discuta sobre a melhor interpretação aos artigos acima transcritos, adoto o que já decidiu este Conselho, que "antes do advento da Lei n. 12.844/2013 a ciência por via eletrônica só ocorria por decurso de prazo"4. Considerando que o decurso de prazo foi atestado como sendo no dia 03/07/2013, e que o recurso voluntário foi interposto no dia 02/08/2013, sextafeira (fl. 478), devo reconhecer a tempestividade do mesmo. 2. FUNDAMENTOS DO AUTO DE INFRAÇÃO. RAZÕES DO RECURSO VOLUNTÁRIO. O auto de infração em testilha foi lavrado sob o fundamento que as ações detidas pela contribuinte deveriam ter sido realocados da rubrica ativo permanente para o circulante em decorrência do processo de desmutualização da Bovespa Holding S.A. e da BM&F S.A. O resultado operacional da contribuinte, com a venda das ações, estaria sujeito à incidência das contribuições do PIS e da COFINS. Trago a conhecimento a conclusão a que chegou o auditor fiscal: "Não há de se falar numa mera 'troca/substituição' de ativos dos títulos patrimoniais por ações. O que houve, e que está bem definido pela Solução de Consulta n. 10/07, foi devolução de patrimônio social de atividade isenta. A desmutualização alterou a situação jurídicotributária até então existente, ensejando, inclusive, a incidência fiscal, a teor da Lei n. 9.532, de 0/12/97, art. 17" (fl. 298) A defesa do contribuinte, apresentada na impugnação e mantida até a presente data, está assentada no entendimento que a receita advinda da alienação das ações recebidas por ocasião do processo de desmutualização das bolsas não se sujeita à incidência de PIS e COFINS, já que são valores advindos da venda de bem do ativo permanente, cuja exclusão da base de cálculo das contribuições está prevista no § 2º , inciso IV, do art. 3º da Lei n. 9.718/1998. Porém tal argumento foi rejeitado pela instância de origem, que considerou: "Correto, portanto o entendimento da autoridade fiscal no sentido de que as ações da Bovespa S.A. e da BM&F S.A. recebidas em decorrência do processo de desmutualização e que foram objeto de venda deveriam ter sido classificadas no Ativo Circulante (a totalidade das ações recebidas foi alienada dentro 4 Processo n. 13864.720116/201292, julgado pela 3ª Turma da 4ª Câmara desta 3ª Seção em 16/10/2014, sob a relatoria do Cons. Antonio Carlos Atulim. Fl. 574DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 535 7 de poucos meses de seu ingresso no patrimônio da impugnante)" (fl. 402). Irresignada com a decisão de primeira instância, a contribuinte interpôs recurso voluntário (fls. 411/424) oportunidade na qual esclarece que as contribuintes "deixaram de ser associações civis sem fins lucrativos para se transformarem em empresas de capital aberto (S.A.)e, por conseqüência, seu títulos patrimoniais adquiridos transformaramse em ações (...) Esta operação se deu por meio de cisão da associação e pela incorporação da parcela cindida por uma sociedade anônima". Afirma que o processo de desmutualização ocorreu através da reorganização societária (cisão e incorporação) o que atrai a incidência dos preceitos da Lei n. 6.404/1976 (Lei das S.A) e do Código Civil (artigos 1.113 a 1.122). Afirma que em decorrência desse processo, não houve dissolução da sociedade envolvida e "nem sequer a devolução de capital, mas tão somente a transferência do patrimônio da exassociação à nova sociedade e a mera substituição dos investimentos dos exassociados (de títulos para ações)". O contribuinte alega que quando adquiriu os títulos patrimoniais da Bovespa e da BM&F sua intenção era de permanecer com os ativos, por ser condição indispensável para atuar na bolsa. Em setembro de 2007, quando aprovada a desmutualização, seus títulos foram convertidos em ações. Desse modo, o recorrente defende que "a participação societária não se iniciou com o recebimento das ações, mas sim com a aquisição originária dos títulos, cujo caráter de permanência era inconteste". Informa que o Plano Contábil das Instituições Financeiras do Sistema Financeiro Nacional (COSIF) elaborado pelo Banco Central, estabeleceu dentro da conta 2.1.4.10.002 (Títulos Patrimoniais, pertencente à subseção de Ativos Permanentes) os seguintes subtítulos: Conta: 2.1.4.10.002 TÍTULOS PATRIMONIAIS Subtítulos: 2.1.4.10.105 De bolsas de valores 2.1.4.10.208 De bolsas de mercados e futuros 2.1.4.10.301 Da Cetip E, diante da classificação adotada pela autarquia fiscalizadora, o recorrente conclui que "o Bacen já previa que os títulos patrimoniais da Bovespa e da BM&F, são investimentos pertencentes ao ativo permanente da empresa, criando uma conta COSIF específica para sua contabilização". Aduz que o art. 179, III, da Lei n. 6.404/1976 classifica como investimentos "as participações permanentes em outras sociedades e os direitos de qualquer natureza, não classificáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou da empresa". O recorrente defende que a contabilização que ensejou a autuação encontra arrimo no Parecer Normativo n. 03/1980, e que o Parecer Normativo n. 108/1978 indicado pela Fisco como suporte técnico é no mesmo sentido que defende já que expressa que "os ativos podem ser considerados como permanentes se no momento da aquisição não existe a intenção de alienálos até o exercício seguinte ao da aquisição". Fl. 575DF CARF MF 8 E conclui que "as ações recebidas na desmutualização, em razão do caráter de sucessão universal, continuaram a ser registrados no ativo permanente do Recorrente, a receita advinda da alienação dessas ações não pode sofrer a incidência do PIS e da COFINS, por se tratar de hipótese legal de exclusão da base de cálculo dessas contribuições". Colaciona precedentes desse Conselho nesse sentido5. Argumenta que as receitas advindas da venda das ações sob exame não estão compreendidas no conceito de faturamento (fato gerador das contribuições exigidas), por se tratar de venda de ativos próprios que haviam sido adquiridos com a única finalidade de cumprir o requisito necessário para operar na Bolsa de Valores e não para a negociação desses títulos. A recorrente informa que a Receita Federal do Brasil calculou a diferença entre o valor dos títulos da BM&F e da Bovespa que detinha, inclusive em relação àqueles títulos adquiridos da empresa Unibanco Corretora de Valores Mobiliários S.A., com o valor que considerou recebido em razão do processo de desmutualização. Sobre as ações adquiridas pela Unibanco Corretora de Valores Mobiliários, a Receita considerou que essa aquisição se deu por valor inferior praticado ao mercado. Por essa razão a autuação fiscal adotou o preço aumentado do custo das ações adquiridas pela recorrente da Unibanco Corretora, resultando na redução da suposta receita financeira auferida pela recorrente. Nas exatas palavras da contribuinte: "A saber, a RFB considerou que os títulos foram alienados por valores inferiores aos praticados à época no mercado e autuou a Unibanco Corretora, formalizando o Processo Administrativo n. 16327.720438/201126 e, ao fazêlo, fixou que os valores unitários de mercado na data das alienações da Unibanco Corretora para o Recorrente seriam de R$ 10,80 para Bovespa (e não de R$2,23) e R$ 9,98 para BM&F (e não de R$ 1,42). Considerando que a suposta receita obtida nas alienações das ações se dá pela diferença entre valor de custo e o de venda, é certo que o aumento do custo determinado pela Fiscalização redundou, necessariamente, na redução da receita supostamente auferida pelo Recorrente. Pontuese que já há decisão proferida pelo CARF no P.A. n. 16327.720438/201126 que não possui, ainda, caráter de definitividade". Por fim a recorrente requer o afastamento dos juros de mora sobre a multa de ofício imposta, ao expor sua interpretação sobre os artigos 164 e caput do art. 161, ambos do Código Tributário Nacional. 2.1. SOBRE A BOVESPA E BM&F. DE ASSOCIAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS PARA SOCIEDADES ANÔNIMAS. O Conselho Monetário Nacional (ente responsável pela constituição e funcionamento das corretoras de títulos e valores mobiliários, regular investimentos estrangeiros e operações de câmbio) publicou em 26 de outubro de 1989 a Resolução n. 1.656, que disciplinava a constituição, organização e funcionamento das Bolsas de Valores no Brasil. 5 Acórdão n. 3403001.757, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 16327.000209/201019 pela 3ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção em 25/09/2012; Acórdão n. 1202000.813, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 10680.723835/201063 pela 2ª Turma da 2ª Câmara da 1ª Seção em 12/06/2012. Fl. 576DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 536 9 O artigo 1º da Resolução prevê que as "Bolsas de Valores são constituídas como associações civis, sem finalidade lucrativa". Consta no texto da Resolução CVM n. 1.656/89 que o patrimônio social das Bolsas de Valores deveria ser dividido em títulos patrimoniais, que deveriam ser adquiridos pelas sociedades corretoras como requisito para sua admissão como associadas e pudessem operar perante as Bolsas de Valores: Art. 7º. O patrimônio social das Bolsas de Valores deve ser formado mediante realização em dinheiro e será dividido em títulos patrimoniais, cuja quantidade e valor inicial de emissão devem ser fixados pela Comissão de Valores Mobiliários. Art. 25. Somente pode ser admitida como membro da Bolsa de Valores a sociedade corretora que adquirir o respectivo título patrimonial. § 1º Nenhuma sociedade corretora pode adquirir mais de um título patrimonial de cada Bolsa de Valores. § 2º As sociedades corretoras têm iguais direitos e obrigações perante a Bolsa de Valores. § 3º A sociedade corretora, antes de iniciar suas operações, deve caucionar o seu título patrimonial em favor da Bolsa de Valores. § 4º Aprovada a sua admissão e cumprido o disposto no parágrafo anterior, a sociedade corretora entra em pleno gozo dos direitos de associada da Bolsa de Valores. Reiterando a exigência da aquisição do título patrimonial pela sociedade corretora, foi editado o Regulamento Anexo à Resolução CMN 1.655/1989, donde se lê: Art. 3º. A constituição e o funcionamento da sociedade corretora dependem de autorização do Banco Central. § 1º A sociedade corretora deverá ser constituída sob a forma de sociedade anônima ou por quotas de responsabilidade limitada § 2º São condições indispensáveis para a concessão da autorização prevista neste artigo, dentre outras, a admissão como membro de bolsa de valores, em razão da aquisição de título patrimonial de emissão dessa e a aprovação da Comissão de Valores Mobiliários para o exercício de atividades no mercado de valores mobiliários. Em atenção às regras até então vigentes, tanto a Bovespa quanto a BM&F foram instituídas como pessoas de direito privado, sem fins lucrativos, que tiveram os patrimônios integralmente fracionados em ações, e estava indiscutivelmente submetidas ao Código Civil. Em outra vértice, as normas dispunham que o requisito indispensável para que as corretoras pudessem atuar perante as Bolsas de Valores era deter título patrimonial dessas entidades. Fl. 577DF CARF MF 10 Em harmonia com as regras acima citadas, e ajustado com o que defende o contribuinte, o auditor fiscal consignou a seguinte lógica: "Considerando que para operar nas bolsas, quando estas eram constituídas sob a forma de associação sem fins lucrativos, os associados estavam obrigados a deter títulos patrimoniais de emissão destas, coerente é a classificação dos títulos no ativo permanente dos associados. E desta forma regula o Capítulo 1, item 11, subitem 3, parágrafo 3º do Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional COSIF, que determina que os títulos patrimoniais sejam contabilizados no Ativo Permanente Outros Investimentos." (fl. 298 grifos nossos). Porém, para o auditor fiscal, com a desmutualização da Bovespa e BM&F houve a modificação da natureza jurídica dos títulos possuídos pelas corretoras, motivo pelo qual deveria incidir as contribuições do PIS e da COFINS. Deste modo é indispensável analisar os efeitos da desmutualização das Bolsas de Valores. 2.2. SOBRE O PROCESSO DE DESMUTUALIZAÇÃO DA BOVESPA E BM&F. RESULTADOS E CONSEQÜÊNCIAS. DEFINIÇÕES JURÍDICAS E CONTÁBEIS. O início do processo de desmutualização6 teve início no ano de 1997, quando foi realizada a primeira operação de reestruturação da Bovespa, quando foram criadas as empresas Clearing S.A., posteriormente denominada Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia ("CLBC") e a Bovespa Serviços e Participações S.A. ("Bovespa Serviços"). É importante destacar que somente no ano 2000 foi permitido, através da publicação da Resolução CMN n. 2.690, que as Bolsas de Valores pudessem funcionar sob a forma de sociedades anônimas. Em 2007 a Bovespa deixou de ser uma instituição financeira sem fins lucrativos e se tornou uma sociedade por ações, a Bovespa Holding S.A., que possuía como subsidiárias integrais a Bolsa de Valores de São Paulo e a Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC). Em 2008 ocorreu a fusão entre a Bovespa Holding e BM&F, criando a nova bolsa, ou BM&FBovespa7. A desmutualização da Bovespa ocorreu em 28 de agosto de 2007 e a da BM&F em 20 de setembro do mesmo ano. O processo a que forma submetidas as Bolsas de Valores compreendeu as seguintes etapas: 1º A cisão parcial das Bolsas, com a versão das parcelas de seus patrimônios em duas sociedades (Bovespa = Bovespa Holding e Bovespa Serviços S.A.; BM&F = BM&F Holdings e BM&F Serviços S.A.); 6 A desmutualização é um processo de abandono da estrutura mutualizada, caracterizada pelo fato de os usuários diretos do produto fornecido pela organização serem, ao mesmo tempo, os detentores dos seus títulos patrimoniais. É essencial ter em mente que a desmutualização das bolsas de valores consiste no "processo da conversão de suas estruturas de propriedade e governança do qual resulta a sua transformação em uma organização cujos direitos de propriedade são possuídos por agentes externos"6. 7 Informações obtidas em 22/09/2016, às 19h25, no endereço eletrônico http://www.investpedia.com.br/artigo/Historia+da+BMFBovespa.aspx Fl. 578DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 537 11 2º A incorporação das ações das empresas de serviços às holdings. Tanto o auditor fiscal quanto o contribuinte também concordam que os detentores dos títulos patrimoniais da Bovespa e BM&F passaram a ser titulares de ações representativas da Bovespa Holding e BM&F Holding. O ponto de discórdia entre as partes do processo sob julgamento reside na definição sobre a natureza jurídica da transformação sofrida pelos títulos detidos pelo contribuinte e, por conseqüência, os efeitos tributários decorrentes. Para o auditor fiscal, essa transformação pode ser assim compreendida: "Quando da ocorrência do processo de desmutualização, ou seja, da transformação da associação sem fins lucrativos em sociedade anônima, houve devolução do patrimônio das bolsas para os associados na forma de ações, sendo inclusive tal devolução passível de tributação de IRPJ/CSLL conforme art. 17 da Lei n. 9.532/1997, conforme explicita Solução de Consulta n. 10/07 Cosit (ementa publicada no DOU de 30.10.2007). Ocorre, portanto, que com a devolução de patrimônio, os associados se tornaram detentores de ações das novas sociedades anônimas BM&F e Bovespa Holding S.A. Importante salientar que tais ações não se confundem com os antigos títulos patrimoniais, que deixaram de existir. Aquelas são equivalentes, apenas, aos valores de cada título, recebidos como devolução de patrimônio de instituição isenta na data da desmutualização." (fl. 298 grifos nossos). Já para o contribuinte: "6. Referida operação (desmutualização) se deu por meio de cisão das associações e, ato contínuo, pela incorporação das parcelas cindidas por sociedades anônimas (Bovespa Holding S.A. e BM&F S.A.), em conformidade com os ditames da Lei n. 6.404/76 e do Código Civil, em especial o art. 2.033 c/c o inciso I do art. 448. 7. Assim, em conseqüência do processo de desmutualização, os títulos foram convertidos em ações de igual quantidade, de modo a se adequar à reestruturação societária promovida. 8. Em todos os casos, não ocorreu dissolução da sociedade envolvida e tampouco a devolução de patrimônio aos associados e acionistas. 9. No caso da Bovespa e da BM&F, houve, somente, a transferência do patrimônio da exassociação à nova sociedade 8 O art. 2.033 do Código Civil determina expressamente que a incorporação, cisão ou fusão têm cabimento a todas as pessoas jurídicas previstas em seu art. 44, que inclui as associações. A dissolução e liquidação da pessoa jurídica (modo de extinção diverso ao da incorporação, fusão ou cisão) é tratada separadamente no art. 2.034 do Código Civil, o que afasta dúvidas quanto ao cabimento da cisão para as associações Fl. 579DF CARF MF 12 e a mera substituição do investimento dos exassociados (de títulos para ações). 10. Portanto, o processo de desmutualização resultou apenas na transformação do 'papel' que representa a participação de seu detentor na nova sociedade. 11. No lugar dos títulos patrimoniais foram recebidas ações de valores idênticos, de modo que a classificação contábil das novas ações não foram afetadas" (trechos extraídos do memorial entregue grifos no original). Esse processo de transformação incluiu as operações de cisão9, quando parte do patrimônio da Bovespa Associação foi vertido para a Bovespa Serviços e Participações S.A. e para a Bovespa Holding S.A., já no caso da BM&F, seu patrimônio foi dividido entre as empresas BM&F Holdings e BM&F Serviços S.A. O Código Civil expressamente prevê a possibilidade de operação de cisão para as entidades sem fins lucrativos, conforme se constata na redação dos seguintes artigos: Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado: I as associações. Art. 2.033. Salvo o disposto em lei especial, as modificações dos atos constitutivos das pessoas jurídicas referidas no art. 44, bem como a sua transformação, incorporação, cisão ou fusão, regem se desde logo por este Código. Por sua vez a Lei das Sociedades Anônimas dita que: Art. 220. A transformação é a operação pela qual a sociedade passa, independentemente de dissolução e liquidação, de um tipo para o outro. Parágrafo único A transformação obedecerá aos preceitos que regulam a constituição e o registro do tipo a ser adotado pela sociedade. As normas de regência induzem a seguinte conclusão: a transformação da sociedade não implica sua extinção, dissolução ou liquidação; há continuidade da pessoa jurídica originária, com suas obrigações e direitos. Por esse motivo, compartilho do entendimento do Cons. Antonio Carlos Atulim10 que, ao relatar processo análogo ao dos autos, afasta o artigo 61 do Código Civil porque: "Ora, o art. 61 do Código Civil é inaplicável ao caso concreto, pois a CBLC e a BM&F não foram dissolvidas e nem tiveram seus patrimônios devolvidos aos seus antigos sócios. É de conhecimento público e notório que as duas entidades desapareceram do cenário jurídico no processo denominado desmutualização das bolsas. Mas desaparecer por dissolução e 9 Aparecem como sinônimos do vernáculo cisão, as palavras corte, fragmentação, partição, desmembramento, divisão9. 10 Acórdão n. 3403003447. Fl. 580DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 538 13 desaparecer por cisão são coisas completamente diferentes sob o ponto de vista jurídico. O que houve no caso da desmutualização foi uma cisão seguida de incorporação. Na cisão o patrimônio da entidade cindida não retorna para os seus sócios, ele é transferido diretamente para a nova entidade que se originou. O que houve no caso da 'desmutualização' foi a transformação de um tipo de sociedade em outra e não a dissolução tratada no art. 61 do Código Civil. Não se olvide que o art. 1.113 do Código Civil estabelece que o ato de transformação da sociedade independe de dissolução ou liquidação e obedecerá aos preceitos reguladores da constituição e inscrição próprios do tipo em que vai se converter, enquanto o art. 2.033 do mesmo Código autoriza as associações a sofrerem cisão, fusão e incorporação. Assim, se o Código Civil não impede a transformação de uma associação em uma sociedade anônima e se o estatuto da S.A. foi regularmente registrado na Junta Comercial, não há que se cogitar de ilegalidade na operação. Não tendo ocorrido a dissolução das antigas entidades, não há como sustentar as premissas adotadas pela DRJ, no sentido de que houve devolução de patrimônio e , assim, que as ações recebidas constituem um ativo novo e diferente dos títulos patrimoniais até então existentes". Seguindo esta linha de raciocínio, o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar precedente paradigma de recursos repetitivos sobre matéria tributária11 (ainda que diversa, pertinente) arrimou suas conclusões nas lições do Prof. Sacha Calmon Navarro, as quais reproduzo: "(...) Na hipótese de sucessão empresarial (fusão, cisão, incorporação), assim como nos casos de aquisição de fundo de comércio ou estabelecimento comercial e, principalmente, nas configurações de sucessão por transformação do tipo societário (sociedade anônima transformandose em sociedade por cotas de responsabilidade limitada, v.g.) entendemos que não há cogitar do assunto. Nas hipóteses ora versadas, em verdade, inexiste sucessão real, mas apenas legal. O sujeito passivo é a pessoa jurídica que continua total ou parcialmente a existir juridicamente sob outra 'roupagem institucional". (grifos nossos). Percebese que a Colenda Corte reconhece que o entendimento que a transformação do tipo societário, através de cisão, mantém as características da pessoa jurídica, que passa a existir sob nova "roupagem institucional". É coerente deduzir, portanto, que os Ministros que julgaram o Recurso Especial n. 923.012/MG acima apontado compartilham do posicionamento defendido pelo contribuinte: que a metamorfose das Bolsas de Valores, antes sociedades sem fins lucrativos em sociedades anônimas, através das operações de cisão já descritas, é uma transformação 11 REsp 923.012/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/06/2010, DJe 24/06/2010 Fl. 581DF CARF MF 14 retilínea, sem graves rupturas e, mais importante, sem modificação na essência dos títulos que passaram a ser ações. Considero estarmos diante de mera troca dos ativos já existentes e não a aquisição de novas ações, mantendose as mesmas características do bens incluídos na conta do ativo permanente, não vislumbro a necessidade da reclassificação contábil. Invoco o Pronunciamento Técnico CPC 30, donde se lê que: "Item 7. Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários. Item 12.Quando bens ou serviços forem objeto de troca ou permuta, que sejam de natureza e valor similares, a troca não é vista como uma transação que gera receita (...) Por outro lado, quando os bens são vendidos ou os serviços são prestados em troca de bens ou serviço não similares, tais trocas são vistas como operações que geram receitas". Por serem nobres lições sobre contabilidade, trago a conhecimento o pronunciamento da Conselheira Tatiana Midori12 que esclarece que: "Continuando, o Pronunciamento Conceitual Básico (R1) descreve no item 4.29 que 'a definição de receita abrange tanto as receitas propriamente ditas quanto aos ganhos. A receita surge no curso das atividades usuais da entidade e é designada por uma variedade de nomes tais como vendas, honorários, juros, dividendos, royalties, alugueis'. Já os 'ganhos representam outros itens que se enquadram na definição de receita e que podem ou não surgir no curso das atividades usuais da entidade'. Tal Pronunciamento ainda traz em seu item 4.31 que 'ganhos, incluem, por exemplo, aqueles que resultam da venda de ativos não circulantes'. Ademais, de acordo com o Pronunciamento Técnico CPC 16, 'estoques são ativos: (a) mantidos para venda no curso normal dos negócios'. E, nos termo do CPC 31, a destinação de um ativo não circulante (ativo permanente) para venda não o classifica como ativo circulante (estoque), devendo ser classificado como ativo não circulante destinado a venda, especialmente à luz do quanto disposto em seu Apêndice A Definições de termos: 'Ativo Circulante é um ativo que satisfaz a qualquer dos seguintes critérios: a. Esperase que seja realizado, ou pretendese que seja vendido ou consumido no curso normal do ciclo operacional da entidade; 12 Acórdão n. 9303004.132, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 16327.001307/201065. Fl. 582DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 539 15 b. Mantido essencialmente com o propósito de ser negociado. Ativo não circulante é um ativo que não satisfaz à definição de ativo circulante'. Nesta senda, vêse que os ativos adquiridos destinados à comercialização nas operações usuais da empresa devem ser registrados no ativo circulante em conta de estoque e o produto da sua venda é classificado como receita propriamente dita. Enquanto, ativo que não comportem a sua classificação em estoque e sejam reconhecidos no ativo não circulante, quando de sua alienação podem gerar ganhos, mas que não se enquadram no conceito de receita, uma vez que não se trata de atividade usualmente praticada pela entidade. O que resta concluir que as ações recebidas em substituição aos títulos patrimoniais ostentam a mesma natureza, bens do ativo permanente ou seja, ativo não circulante, na nova linguagem contábil, não se sujeitando quando de sua alienação ao PIS e Cofins" (grifos no original e nossos) Deste modo discordo da conclusão do auditor fiscal, que afirma no Relatório que houve a devolução do patrimônio social de atividade isenta e, em decorrência, foi alterada "a situação jurídicotributária até então existente, ensejando, inclusive, a incidência fiscal, a teor da Lei n. 9.532, de 0/12/97, art. 17" (fl. 298). 2.3. SOBRE O ENTENDIMENTO DA RECEITA FEDERAL. A questão submetida a julgado não versa sobre distribuição de lucros, até mesmo porque a Bovespa e a BM&F eram instituições sem fins lucrativos até o processo de desmutualização; tratase de fato permutativo, que implica a troca de elementos patrimoniais (títulos por ações) sem, contudo, provocar a alteração do patrimônio líquido do contribuinte. Os títulos da Bovespa e da BM&F, como já explicado, resultam da fragmentação de seus patrimônios, que foram distribuídos entre as corretoras que nelas operavam, diante da expressa previsão normativa vigente há época. Deste modo é indiscutível o fato que no momento da aquisição desses títulos, as corretoras tinham a intenção de permanecer com os mesmos, já que esses títulos eram o requisito indispensável para que pudessem praticar as atividades típicas. A característica precípua de tais títulos há época em que foram adquiridos, é a de ser "instrumento de trabalho" para as corretoras. Nesse sentido é memorável a descrição feita pelo Cons. Antonio Carlos Atulim (no acórdão já mencionado): "Tributar a venda dessas ações por meio de PIS e da COFINS seria o mesmo que obrigar uma montadora de veículos a tributar a venda de veículos pertencentes a sua frota. Ou obrigar uma construtora a tributar eventual venda do edifício que constitui a sua sede própria". Fl. 583DF CARF MF 16 Inexistindo a previsão de que tais títulos seriam alienados em breve, é lógico presumir que esses deveriam ser contabilizados na conta do permanente. E, pelo que parece, por um vasto período de tempo esse entendimento foi partilhado com a Receita Federal, que editou, por exemplo, o Parecer Normativo CST 108/78: "7. Classificamse como investimentos, segundo a nova Lei das S.A. 'as participações permanentes em outras sociedades e os direitos de qualquer natureza, não classificáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou da empresa' (art. 179, III). Com relação ao dispositivo transcrito, dois pontos demandam interpretação: (i) o que se deve entender por 'participações permanentes' e (ii) quais seriam os 'direitos de qualquer natureza'. 7.1. Por participações permanentes em outras sociedades, se entendem as importâncias aplicadas na aquisição de ações e outros títulos de participação societária, com a intenção de mantêlas em caráter permanente, seja para obter o controle societário, seja por interesses econômicos, como, por exemplo, a constituição de fonte permanente de renda. Essa intenção será manifestada no momento em que se adquire a participação, mediante a sua inclusão no subgrupo de investimentos caso haja interesse de permanência ou registro no ativo circulante, não havendo esse interesse." (grifos nossos) O Parecer Normativo CST 3/80 contém a seguinte redação: "8. Em face do exposto, impõese a conclusão lógica de que a simples pretensão da pessoa jurídica no sentido de alienar bens destinados à utilização na exploração do objeto social ou na manutenção das atividades da empresa não autoriza, para os efeitos da legislação do imposto de renda, a exclusão dos elementos correspondentes registrados em contas do ativo permanente, devendo a cifra respectiva continuar integrando aquele agrupamento até a alienação, baixa ou liquidação do bem" (grifos nossos). E, como um exemplo histórico é bom lembrar que o Parecer Normativo CST n. 3/801, já proibia a reclassificação dos bens do ativo permanente para o ativo circulante a pretexto dos mesmos serem alienados. Apesar da própria Receita Federal ter se pronunciado várias vezes no exato sentido que defende o contribuinte, o auditor fiscal entendeu por bem exigir PIS e COFINS sobre os título transformados pela desmutualização. E o faz ao desconsiderar a legalidade e validade do processo de desmutualização. Não há controvérsia nos autos que a desmutualização a que foi submetida a Bovespa e a BM&F ocorreu dentro dos limites esperados, observando as formalidades e requisitos legais. Tanto foi assim que as novas empresas Bovespa Holding S.A. e BM&F S.A. estão devidamente registradas perante as juntas comerciais e operam desde então. Desse modo, entendo que a autuação em testilha é resultado direto da violação ao art. 110 do Código Tributário Nacional, que não compete ao sistema tributário alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado. Fl. 584DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 540 17 Ademais, ao alterar o entendimento consolidado pelos Pareceres indicados, o Fisco desconsidera o Primado da Segurança Jurídica já que os contribuintes tomaram suas decisões empresariais considerando o entendimento até então mantido pela Receita Federal, bem como o Princípio da Estrita Legalidade Tributária, insculpido no inciso I, do art. 150 da Constituição Federal, que impossibilita a exigência das contribuições sem lei que assim estabeleça. 2.4. SOBRE OS JUROS CALCULADOS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. O recorrente se insurge contra a cobrança de juros de mora calculados sobre o valor da multa de ofício imposta. Alega que a Lei n. 9.430/1996 prevê que os débitos de tributos e contribuições serão acrescidos de multa de mora (caput do art. 6113) e, sobre esse montante incidirão juros de mora (§3º). Ou seja, os débitos de tributos e contribuições é que se sujeitam aos juros de mora, e não o valor devido à título de multa de mora. No entanto, a jurisprudência é uníssona em dissentir dos argumentos do contribuinte. O Superior Tribunal de Justiça reconhece14 ser "legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário" (Recurso Especial n. 1.335.688/PR, Relator Ministro Benedito Gonçalves, julgado em 04/12/2012). Naquela Corte prepondera o raciocínio que: "Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento". E essa interpretação tem sido compartilhada por este Conselho. A saber: CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF SUPERIOR PRIMEIRA TURMA RECURSO: NÃO INFORMADO 147.759 MATÉRIA: CSL AF (ação fiscal) Instituição Financeiras (Todas) ACÓRDÃO: 9101000.539 13 Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. 14 Ver também os Recursos Especiais n. 1.129.990/PR, DJe 14/09/2009 e 834.681/MG, DJe 2/6/2010. Fl. 585DF CARF MF 18 Juros Sobre Multa de Oficio Exercício: 1996 a 1998 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso da Fazenda Nacional Provido. Recurso da Contribuinte Improvido. CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF Camara Superior de Recursos Fiscais CSRF SUPERIOR PRIMEIRA TURMA RECURSO: RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE MATÉRIA: IRPJ, CSLL ACÓRDÃO: 9101002.209 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2006 Ementa: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Diante dos fundamentos insertos nos precedentes acima colacionados, entendo que não deve prosperar a pretensão do recorrente no que concerne o afastamento dos juros de mora incidentes sobre a multa aplicada. CONCLUSÃO Diante do exposto, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário para determinar o cancelamento da exigência de PIS e COFINS lavrados no auto de infração em referência. Lenisa Prado Relatora Voto Vencedor Conselheiro Ricardo Paulo Rosa Redator Em que pese as elogiáveis considerações e os robustos argumentos esposados pela Conselheira Relatora do Processo, ouso divergir dos fundamentos e da conclusão à qual conduziram, em particular quanto à incidência das Contribuições para o PIS/Pasep e para o Financiamento da Seguridade Social Cofins sobre a receita decorrente da venda das ações obtidas no processo que ficou conhecido como processo de desmutualização da BOVESPA e da BM&F, pelas razões a seguir declinadas. A questão em apreço está intimamente ligada à interpretação que se dá à operação comercial que redundou na transformação dos títulos patrimoniais dos quais as empresas que atuavam nas Bolsas eram até então detentores, em ações de livre e fácil Fl. 586DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 541 19 negociação e, pelo menos em parte, porque não dizer, de forçada colocação no mercado acionário. A meu sentir, a decisão a respeito do assunto requer que duas matérias de fundo sejam devidamente esclarecidas. A primeira se refere à correta contabilização das ações recebidas pela empresa por ocasião do processo de desmutualização, na medida em que, se de fato chegase à conclusão de que tratamse de um ativo classificado como investimento de longo prazo e, portanto, contabilizado em conta do Ativo Permanente, resta incontroverso que a receita decorrente de sua venda está, por força de disposição literal de Lei, excluída da base de cálculo das Contribuições. A seguir, se superado esse primeiro óbice à tributação, deparamonos, aí, com a segunda interrogação, que envolve a classificação da receita de venda das ações propriamente dita. Isso porque, uma vez que o Supremo Tribunal Federal tenha reconhecido, em Regime de Repercussão Geral, a inconstitucionalidade do parágrafo 1º, do artigo 3o, da Lei n° 9.718/98, apenas as receitas que sejam passíveis de ser classificadas como faturamento da pessoa jurídica podem ser tributadas. Isso posto, creio que seja indispensável uma breve digressão em torno do processo de desmutualização das bolsas e das consequências jurídicas que lhe são próprias. Conforme noticiado nos autos, as operações societárias que envolveram o processo de desmutualização da BOVESPA tiveram início pela cisão parcial da entidade e transferência de expressiva fração de seu patrimônio para outras duas sociedades: a BOVESPA SERVIÇOS E PARTICIPAÇÕES S/A e a BOVESPA HOLDING S/A. Na mesma ocasião, a BOVESPA passou a denominarse ASSOCIAÇÃO BOVESPA. Em contrapartida à redução do patrimônio da Associação e, corolário, do valor dos títulos patrimoniais de que eram detentores os operadores da Bolsa, emitiramse ações em seu favor. Seguiuse a absorção das atividades operacionais até então desempenhadas pela então BOVESPA (agora ASSOCIAÇÃO BOVESPA), pela BOVESPA SERVIÇOS (que alterou sua denominação para BOLSA DE VALORES DE SÃO PAULO S/A BVSP), restando à primeira atribuições acessórias. Ato contínuo, a BOVESPA HOLDING adquiriu a totalidade das ações emitidas pela BOVESPA SERVIÇOS e pela CBLC (Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia), passando à condição de controladora da BOVESPA e da BOLSA DE VALORES DE SÃO PAULO S/A BVSP. No caso da BM&F, associação civil sem fins lucrativos, ocorreu a transferência de suas atividades para companhia de capital aberto BM&F S/A, com a cisão parcial da BM&F e a versão do patrimônio à segunda. A BM&F alterou sua denominação para BM&F ASSOCIAÇÃO e a BM&F S/A absorveu as atividades antes desempenhadas pela BM&F. Da mesma forma como ocorreu no caso do processo de desmutualização da BOVESPA, em contrapartida ao patrimônio recebido, a BM&F S/A emitiu ações em favor dos detentores dos títulos patrimoniais da BM&F. Sem margem de dúvidas, os efeitos jurídicostributários das operações acima descritas exigem uma análise acurada das peculiaridades das pessoas jurídicas de direito privado envolvidas em todo o processo de transformação societária que redundou na conversão de títulos patrimoniais em ações. Com a intenção de melhor esclarecer esses aspectos, não vejo melhor alternativa do que trazer à lume os valorosos ensinamentos veiculados no Acórdão 3201001.480, de 23 de outubro de 2013, de lavra do i. Conselheiro Carlos Alberto Nascimento Fl. 587DF CARF MF 20 e Silva Pinto, que passo a seguir a transcrever, adotando seus fundamentos no presente Voto, como se tivessem sido por mim formulados. Antes de adentrarmos objetivamente na lide, mostramse necessários alguns esclarecimentos. Inicialmente, afirmase que o Direito pátrio não permite que associações civis sem fins lucrativos realizem operações societárias próprias de sociedades. O artigo 44 do Código Civil dispõe que são pessoas jurídicas de direito privado as associações, as sociedades, as fundações, as organizações religiosas, os partidos políticos e as empresas individuais de responsabilidade limitada. As associações civis, como eram a Bovespa e a BM&F, caracterizamse, segundo conceito estabelecido pelo Código Civil, pela união de pessoas para fins não econômicos. As normas referentes as associações restaram definidas no Livro I, Título II deste Código, particularmente em seu capítulo2. Já as sociedades empresariais tem suas prescrições definidas no Livro II do Código Civil e na Lei nº 6.404/76. Quanto às operações societárias, estas podem ser conceituadas como mutações no tipo ou estrutura da sociedade empresária. São diferenciadas em quatro tipos, quais sejam: transformação, incorporação, fusão e cisão. Esclarecese ainda que a estrutura adotada pela sociedade é determinante para definição da legislação a ser aplicada. Quando tem por sujeito uma sociedade anônima, essa operações seguem a disciplina da Lei nº 6.404/76 (artigos 220 a 234). Quando envolvem outra espécie societária, tais transformações são regidas pelo Código Civil (artigos 1.113 a 1.122). Como exceção, temos a cisão total, que, diante da omissão do Código Civil, é regida pela Lei 6.404/76 independentemente da espécie societária envolvida. A Lei 6.404/76 trata da cisão em seu artigo 229, nos seguintes termos: Cisão Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindose a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindose o seu capital, se parcial a versão. (...) (grifo nosso) Na cisão, uma sociedade empresária transfere para outra, ou outras, constituídas para esta finalidade ou já existentes, parcelas de seu patrimônio, ou a totalidade dele. Neste ponto, merece destaque o disposto no caput deste artigo, que restringe a possibilidade de realizar a operação de cisão às pessoas jurídicas constituídas sob a forma de sociedade. Ressaltese que o legislador nem poderia ter feito diferente, sob pena de subverter a própria natureza jurídica das associações. As sociedades – simples ou empresárias – têm como elemento de origem um contrato entre os sócios. Este contrato os vincula em direitos e obrigações Fl. 588DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 542 21 recíprocos. Os direitos consistem na divisão dos lucros; as obrigações, no aporte de bens,valores ou direitos ao patrimônio social. Nas associações, diferentemente, não há este contrato plurilateral. Os associados vinculamse ao estatuto, que formaliza a atuação da associação segundo as finalidades que objetiva. E é justamente esta natureza inteiramente diversa das associações em relação as sociedades que impede a adoção das mesmas operações societárias. Por este motivo, para que uma associação modifique sua natureza e se transforme em uma sociedade é imprescindível a interrupção de sua personalidade jurídica. Tal entendimento é corroborado pela leitura da legislação civil. O Código Civil, como já explicitado, não permite as associações a adoção de operações societárias, mas estabelece em seu art. 61 as regras para o caso de dissolução destas: Art. 61. Dissolvida a associação, o remanescente do seu patrimônio líquido,depois de deduzidas, se for o caso, as quotas ou frações ideais referidas no parágrafo único do art. 56, será destinado à entidade de fins não econômicos designada no estatuto, ou, omisso este, por deliberação dos associados, à instituição municipal, estadual ou federal, de fins idênticos ou semelhantes. § 1o Por cláusula do estatuto ou, no seu silêncio, por deliberação dos associados, podem estes, antes da destinação do remanescente referida neste artigo, receber em restituição, atualizado o respectivo valor, as contribuições que tiverem prestado ao patrimônio da associação. § 2o Não existindo no Município, no Estado, no Distrito Federal ou no Território,em que a associação tiver sede, instituição nas condições indicadas neste artigo, o que remanescer do seu patrimônio se devolverá à Fazenda do Estado, do Distrito Federal ou da União.(grifo nosso) A leitura da previsão lançada no art. 1.113 do Código Civil, também reforça a conclusão da necessidade de extinção das associações civis sem finalidades de lucro (BV e BMF), na medida em que, ao permitir a transformação silencia quanto a estas modalidades de pessoas jurídicas,reportandose tão somente às sociedades. A restrição a prática das operações societárias é prevista de forma mais explícita no artigo 23 da IN nº 88/2001 do DNRC, órgão responsável por estabelecer e consolidar, com exclusividade, as normas e diretrizes gerais do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins: Art. 23. As operações de transformação, incorporação ,fusão e cisão abrangem apenas as sociedades mercantis, não se aplicando às firmas mercantis individuais.(grifo nosso) Por fim, é necessário um esclarecimento acerca do art. 2.033 do Código Civil. Este dispositivo não possibilita a utilização da operação cisão às associações; ele apenas se destina a definir qual a lei a ser aplicada em caso de conflito de normas. Assim, este artigo apenas reafirma que as modificações do atos constitutivos destas pessoas jurídicas regemse pelo Código Civil –situação que, no tocante as associações, está prevista no artigo 61. Aplicandose o entendimento acima a lide, temos que, ao final do processo de reestruturação pela qual passou a Bovespa e a BM&F,as associações civis sem fins Fl. 589DF CARF MF 22 lucrativos obrigatoriamente foram parcialmente dissolvidas, sendo constituídas em seu lugar sociedades anônimas. A luz deste entendimento ,resta agora verificarmos as consequências jurídico tributárias da conversão de títulos patrimoniais dos associados em ações ordinárias da Bovespa Holding S/A e BM&F HoldingS/A. Salientase que, do ponto de vista tributário, os fatos são tributados abstraindose de sua legitimidade formal, nos termos do artigo 118, I e II, do Código Tributário Nacional. Prosseguindo, temos que, conforme previsto no artigo 61, já transcrito, não é permitida a destinação de qualquer parcela do patrimônio de associações a entes com finalidade lucrativa, sendo permitido,contudo, a restituição aos associados das contribuições destes à associação. E é justamente desta restituição que estamos tratando neste processo. Em que pese a denominação dada pela requerente, materialmente o que ocorreu foi que, com a desmutualização, asassociações sem fins lucrativos Bovespa e BM&F foram parcialmente dissolvidas, sendo extintos seus títulos patrimoniais. Tal fato, embasado no §1º do artigo 61 do Código Civil, resultou na restituição do patrimônio aos seus respectivos associados. E os títulos patrimoniais foram devolvidos ao respectivo patrimônio dos associados na forma de ações da Bovespa Holding S/A e da BM&F Holding S/A, novas sociedades constituídas em decorrência do processo de desmutualização. Não se trata, portanto, de uma mera transformação dos títulos patrimoniais em ações das novas companhias. Nem poderia ser, dada a natureza jurídica de um ser completamente diferente da natureza jurídica do outro. (...) Em sendo esta a situação constante dos autos, claro está que a transformação de associação sem fins lucrativos para sociedade anônima ensejou na modificação da natureza jurídica dos direitos possuídos. As ações da Bovespa Holding SA. e da BM&F Holding SA. que foram recebidas pela recorrente tem natureza distinta dos títulos patrimoniais das associações Bovespa e BM&F. São novos bens que ingressaram no patrimônio da recorrente, inexistindo a alegada continuidade em relação aos títulos patrimoniais. Em consequência,tratandose de novos bens ou direitos, a escrituração das ações recebidas nãod eve,necessariamente,continuarsendofeitanoAtivoPermanente,assim como eram escriturados os títulos patrimoniais. (...) Ultrapassada a análise da desmutualização das Bovespa e da BM&F e da aquisição das ações da Bovespa Holding S/A e da BM&F HoldingS/A, passase a análise da forma correta de escrituração destes ativos. Constatase aplicável a espécie o disposto no artigo 179 da Lei nº 6.404/1976: Art.179. As contas serão classificadas do seguinte modo: Fl. 590DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 543 23 I no ativo circulante: as disponibilidades, os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente e as aplicações de recursos em despesas do exercício seguinte; II no ativo realizável a longo prazo: os direitos realizáveis após o término do exercício seguinte, assim como os derivados de vendas, adiantamentos ou empréstimos a sociedades coligadas ou controladas (artigo 243), diretores, acionistas ou participantes no lucro da companhia, que não constituírem negócios usuais na exploração do objeto da companhia; III em investimentos: as participações permanentes em outras sociedades e os direitos de qualquer natureza, não classificáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou da empresa; IV – no ativo imobilizado: os direitos que tenham por objeto bens corpóreos destinados à manutenção das atividades da companhia ou da empresa ou exercidos com essa finalidade, inclusive os decorrentes de operações que transfiram à companhia os benefícios, riscos e controle desses bens; Tal dispositivo foi analisado pelo Parecer Normativo CST nº108/1978 ,que teceu as seguintes considerações, com as quais filiamse este conselheiro: INVESTIMENTOS 7. Classificamse como investimentos, segundo a nova Lei das S.A., as participações permanentes em outras sociedades e os direitos de qualquer natureza, não classificáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou empresa (art. 179, III). Com relação ao dispositivo transcrito, dois pontos demandam interpretação: (1) o que se deve entender por 'participações permanentes' e (2) quais seriam os 'direitos de qualquer natureza'. 7.1 Por participações permanentes em outras sociedades, se entendem os importâncias aplicadas na aquisição de ações e outros títulos de participação societária, com a intenção de mantêlas em caráter permanente, seja para obter controle societário, seja por interesses econômicos, como, por exemplo, a constituição de fonte permanente de renda. Essa intenção será manifestada no momento em que se adquire a participação, mediante a sua inclusão no subgrupo de investimentos caso haja interesse de permanência ou registro no ativo circulante, não havendo esse interesse. Será, no entanto, presumida a intenção de permanência sempre que o valor registrado no ativo circulante não for alienado até a data do balanço do exercício seguinte àquele em que tiver sido adquirido; neste caso,deverá o valor da aplicação ser transferido para o subgrupo de investimentos e procedida a sua correção monetária, considerando como data de aquisição a do balanço do exercício social anterior. Assim, em decorrência deste dispositivo, mostrase correto o enquadramento dado pela recorrente em relação a seus títulos patrimoniais, dado estes serem necessários para o exercício de sua atividade de operar nas Bolsas. Em relação às ações recebidas em decorrência da desmutualização,contudo, a conclusão depende da verificação de outros fatos. A legislação dispõe de duas alternativas para a escrituração destas ações: no ativo circulante, caso se tratem de direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente, ou em investimentos, caso se tratem de participações permanentes em outras sociedades. Fl. 591DF CARF MF 24 Conforme sobejamente demonstrado nos autos, a intenção da Recorrente jamais foi de manter como investimento de longo prazo as ações cuja venda deu azo à autuação. O assunto foi amplamente examinado e descrito com clareza pela i. Julgadora de piso. A seguir transcrevo a narrativa dos fatos, extraída do voto condutor da decisão recorrida. 5.10. No caso, como a alienação da totalidade das ações da ações da Bovespa Holding e parte das ações da BM&F S/A se deu logo após ao seu recebimento, isto é, dentro de alguns meses de seu ingresso nos registros contábeis da impugnante, é certo que haveria de se classificar esse bem (ações) no Ativo Circulante. Haja vista que os protocolos e atas das assembléias das bolsas já sinalizavam tal procedimento. 5.10.1. Neste ponto, peço licença para transcrever excerto do voto do julgador Wilson Tsutomu Hachisuga em julgado sobre a mesma matéria nesta 8a Turma e que está a corroborar o entendimento de que na data do recebimento das novas ações a impugnante já tinha intenção de alienálas (ainda que em parte quanto às ações da BM&F): “8.2.3.2 No momento da desmutualização já era de conhecimento, não só das sociedades corretoras, como do público em geral, de que tanto a BOVESPA Holding S/A como a BM&F S/A pretendiam realizar a abertura de capital realizando uma oferta pública secundária das ações (IPO), para esta comprovação basta uma busca simples na internet para verificação, citase como exemplo a publicação da própria revista da BOVESPA que menciona um cronograma pré estabelecido incluindo a IPO: “Seguindo à risca um cronograma rígido, a Bolsa de Valores de São Paulo transformouse em sociedade anônima em 28 de agosto de 2007, com o nome de Bovespa Holding S.A., tornouse uma empresa de capital aberto em 23 de outubro, incluída no Novo Mercado da própria Bolsa (...) “ entretanto, independentemente do conhecimento público, mais relevante se faz neste momento aferir o conhecimento dos acionistas. Observase nas atas: da BOVESPA Holding S/A AGE de 28 de agosto de 2007, 16:30h (item 4.13): “ 4.13 – Aprovar e autorizar a solicitação pela Companhia (a) de registro perante a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como companhia aberta; e (b) da listagem das suas ações no segmento Novo Mercado da Bolsa de Valores de São Paulo”; e da BM&F S/A, AGE de 20/09/2007, no item 6e “ 6. Aprovação, em conformidade com as recomendações oriundas da Assembléia Geral Extraordinária da BM&F, realizada nesta data, das seguintes matérias: (...) (e) a proposta de abertura de capital e de realização de distribuição pública secundárias de ações de emissão (“IPO”) da BM&F S/A, autorizando a administração da Companhia a tomar todas as providências necessárias para tal(...)”. Tais atas podem ser encontradas no sitio da BM&FBOVESPA na internet, na relação histórica de atas em “relações com investidores”. Ressaltese que todo o decidido foi aprovado por unanimidade dos acionistas.” Da análise dos autos, depreendemse corretos e precisos os apontamentos acima transcritos. Por conta de tudo o que foi exposto, ainda que se admitisse a possibilidade de que uma associação civil, sem fins lucrativos, tenhase cindido e, passoapasso, iniciado um improvável processo de transformação em uma empresa de objeto social diametralmente oposto, o fato é que, a meu sentir, está mais do que caracterizado que a operação de venda das ações em comento não tratouse de uma venda de bem que devesse estar contabilizado no Ativo Permanente. Assim, afastase em definitivo a possibilidade de exclusão da receita correspondente da base de cálculo das Contribuições baseada na disposição contida no inciso IV do § 2º do artigo 3º da Lei 9.718/98 (venda de bens do Ativo Permanente). Fl. 592DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 544 25 Passo à análise da tipicidade da operação, em cotejo com a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, declarando a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98. A controvérsia sobre o assunto iniciouse com promoção do alargamento do conceito de faturamento para efeito de cálculo das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins introduzido pela Lei 9.718/98, que incluiu na base imponível toda e qualquer receita, independentemente de sua classificação contábil15. A inconformidade dos contribuintes alcançados pela medida levou o assunto ao Poder Judiciário, onde a matéria terminou sendo reconhecida como de Repercussão Geral pelo Supremo Tribunal Federal. A decisão recebeu a seguinte ementa. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, resolveu questão de ordem no sentido de reconhecer a repercussão geral da questão constitucional, reafirmar a jurisprudência do Tribunal acerca da inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei 9.718/98 e negar provimento ao recurso da Fazenda Nacional, tudo nos termos do voto do Relator. Vencido, parcialmente, o Senhor Ministro Marco Aurélio, que entendia ser necessária a inclusão do processo em pauta. Em seguida, o Tribunal, por maioria, aprovou proposta do Relator para edição de súmula vinculante sobre o tema, e cujo teor será deliberado nas próximas sessões, vencido o Senhor Ministro Marco Aurélio, que reconhecia a necessidade de encaminhamento da proposta à Comissão de Jurisprudência. Votou o Presidente, Ministro Gilmar Mendes. Ausentes, justificadamente, o Senhor Ministro Celso de Mello, a Senhora Ministra Ellen Gracie e, neste julgamento, o Senhor Ministro Joaquim Barbosa. Plenário, 10.09.2008. RE 585.235QO, Min. Cezar Peluso Ocorre, contudo, que a declaração de inconstitucionalidade do parágrafo 1º do artigo 3º da Lei 9.718/98 em nada influenciou a alteração introduzida pelo caput do artigo 3º e por todos os demais critérios de apuração especificados nos parágrafos e artigos subsequentes e na legislação superveniente. Com efeito, é de sabença que a Corte Suprema do País fez expressa menção à constitucionalidade do caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, como fica claro nos pronunciamentos do Ministro Cezar Peluso encontrados, pelo menos, nos Recursos Extraordinários nº. 346.084, 357.950, 358.273 e 390.840. O resgate histórico da exigência fiscal sob escrutínio remete, no caso da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – Cofins, à Lei Complementar nº 70/91, na qual a base de cálculo estava definida como sendo o faturamento decorrente das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza. No caso das Contribuições para o PIS e para o PASEP, as fontes de financiamento advinham de diversas origens, conforme Leis Complementares 07 e 08 de 1970; dentre elas o faturamento das empresas e demais entidades lá especificadas. 15 Art. 2° As contribuições para o PIS/PASEP e a COFINS, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado, serão calculadas com base no seu faturamento, observadas a legislação vigente e as alterações introduzidas por esta Lei. Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 1º Entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Fl. 593DF CARF MF 26 Ao instituir a nova base tributária por meio da Lei 9.718/98, o legislador ordinário, embora tenha conservado o faturamento como base de incidência, atribuilhe, repita se, novo conceito, na medida em que especificouo como sendo toda a receita bruta auferida pela pessoa jurídica, irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada. O problema é que essa medida esbarrou no inciso I do artigo 195 da Constituição Federal que, antes da Emenda Constitucional nº 20, de 20 de dezembro de 1998, previa o financiamento da seguridade social com base no valor arrecadado pelas contribuições sociais incidentes sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro16, sem nenhuma menção à receita em sentido lato. É precisamente neste ponto que se encontre a origem de toda a controvérsia em torno da constitucionalidade do conceito insculpido no parágrafo 1º do artigo 3º da Lei 9.718/98, na medida em que ele transbordou as delimitações contidas no texto constitucional na data da entrada em vigor da legislação novel. Ainda que, para efeito de definição da base de cálculo da Cofins, já houvesse uma forte tendência ao reconhecimento de uma equivalência entre o conceito de faturamento e receita (de observar que a própria LC 70/91, muito antes da EM 20/98, já especificava a base de cálculo como sendo a receita), a expansão promovida pelo parágrafo primeiro foi para muito além daquilo que estava e ainda está sedimentado como sendo o possível conceito de faturamento empresarial para fins de determinação da base de cálculo das Contribuições. De fundamental importância, neste cenário, observar e compreender com precisão o verdadeiro problema identificado pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal ao acolhimento da nova definição de faturamento introduzida pela Lei 9.718/98. Nos precitados Recursos Extraordinários, o Ministro Cesar Peluso faz criteriosa abordagem do assunto, estabelecendo os limites da definição possível para o conceito veiculado no (constitucional) caput do artigo 3º da Lei 9.718/98, conforme segue. Por todo o exposto, julgo inconstitucional o parágrafo 1º do art. 3º da Lei 9.718/98, por ampliar o conceito de receita bruta para “toda e qualquer receita”, cujo sentido afronta a noção de faturamento pressuposta no art. 195, I, da Constituição da República, e, ainda, o art. 195, parágrafo 4º, se considerado para esse efeito de nova fonte de custeio da seguridade social. Quanto ao caput do art. 3º, julgoo constitucional, para lhe dar interpretação conforme à Constituição, nos termos do julgamento proferido no RE nº 150755/PE, que tomou a locução receita bruta como sinônimo de faturamento, ou seja, no 16 O texto antes e depois da EM 20/98. Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I dos empregadores, incidente sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro; II dos trabalhadores; Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, o Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício; b) a receita ou o faturamento; c) o lucro; Fl. 594DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 545 27 significado de “receita bruta de venda de mercadoria e de prestação de serviços”, adotado pela legislação anterior, e que, a meu juízo, se traduz na soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais. (...) Sr. Presidente, gostaria de enfatizar meu ponto de vista, para que não fique nenhuma dúvida ao propósito. Quando me referi ao conceito construído sobretudo no RE 150.755, sob a expressão “receita bruta de venda de mercadorias e prestação de serviço”, quis significar que tal conceito está ligado à idéia de produto do exercício de atividades empresariais típicas, ou seja, que nessa expressão se inclui todo incremento patrimonial resultante do exercício de atividades empresariais típicas. Se determinadas instituições prestam tipo de serviço cuja remuneração entra na classe das receitas chamadas financeiras, isso não desnatura a remuneração de atividade própria do campo empresarial, de modo que tal produto entra no conceito de “receita bruta igual a faturamento.” (...) 6. (...) Faturamento nesse sentido, isto é, entendido como resultado econômico das operações empresariais típicas, constitui a base de cálculo da contribuição, enquanto representação quantitativa do fato econômico tributado. Noutras palavras, o fato gerador constitucional da COFINS são as operações econômicas que se exteriorizam no faturamento (sua base de cálculo), porque não poderia nunca corresponder ao ato de emitir faturas, coisa que, como alternativa semântica possível, seria de todo absurda, pois bastaria à empresa não emitir faturas para se furtar à tributação. (grifos meus) (...) Como é de hábito e, ainda mais, por se tratar de um tema polêmico e de grande repercussão, todos os Ministros que à época integravam a Suprema Corte manifestaram seu entendimento sobre o assunto, agregando elementos de particular interesse na delimitação precisa dos contornos da decisão tomada. Os apontamentos a seguir foram extraídos do Voto proferido nos autos do RE 346.084, pelo Ministro Ilmar Galvão. O recorrente considera que tais precedentes não seriam aplicáveis ao caso, haja vista que o STF teria estabelecido sinonímia entre faturamento e receita bruta quando tais expressões designavam receitas oriundas de vendas de bens e/ou serviços. Tal leitura não é correta. A Corte, ao admitir tal equiparação, em verdade assentou a legitimidade constitucional da atuação do legislador ordinário para densificar uma norma constitucional aberta, não estabelecendo a vinculação pretendida pelo recorrente em relação às operações de venda. Ao contrário do que pretende o recorrente, a Corte rejeitou qualquer tentativa de constitucionalizar eventuais préconcepções doutrinárias não incorporadas expressamente no texto constitucional. O STF jamais disse que havia um específico conceito constitucional de faturamento. Ao contrário, reconheceu que ao legislador caberia fixar tal conceito. E também não disse que eventuais conceitos vinculados a operações de venda seriam os únicos possíveis. Fl. 595DF CARF MF 28 Não fosse assim, teríamos que admitir que a composição legislativa de 1991 possuía um poder extraordinário. Por meio da Lei Complementar nº 71, teriam aqueles legisladores fixado uma interpretação dotada da mesma hierarquia da norma constitucional, interpretação esta que estaria infensa a qualquer alteração, sob pena de inconstitucionalidade. Na tarefa de concretizar normas constitucionais abertas, a vinculação de determinados conteúdos ao texto constitucional é legítima. Todavia, pretender eternizar um específico conteúdo em detrimento de todos os outros sentidos compatíveis com uma norma aberta constitui, isto sim, uma violação à força normativa da Constituição, haja vista as necessidades de atualização e adaptação da Carta Política à realidade. Tal perspectiva é sobretudo antidemocrática, uma vez que impõe às gerações futuras uma decisão majoritária adotada em uma circunstância específica, que pode não representar a melhor via de concretização do texto constitucional. No mesmo diapasão, a interpretação dada pelo Ministro Eros Grau em Voto Vista versando sobre o conceito jurídico e tipológico do termo faturamento. “06. No caso, faturamento terá sido tomado como termo de uma das várias noções que existem as noções de faturamento na e com uma de suas significações usuais atualmente. Sabemos de antemão que já não se a toma como atinente ao fato de ‘emitir faturas’. Nós a tomamos, hoje, em regra, como o resultado econômico das operações empresarias do agente econômico, como ‘receita bruta das vendas de mercadorias e mercadorias e serviços, de qualquer natureza’ [art.22 do decretolei n. 2.397/87]. Esse entendimento foi consagrado no RE 150.764, Relator o Ministro ILMAR GALVÃO, e na ADC n. 1, Relator o Ministro MOREIRA ALVES. 07. Daí porque tudo parece bem claro: em um primeiro momento diremos que faturamento é outro nome dado à receita bruta das vendas e serviços do agente econômico. Essa é uma das significações usuais do vocábulo [i.é., a noção da qual o vocábulo é termo é precisamente esta faturamento é receita bruta das vendas e serviços do agente econômico]. A análise dos precedentes aponta, no entanto – isso é proficientemente indicado em parecer de HUMBERTO ÁVILA no sentido de inversão dos termos: a lei tributária chamou de receita bruta, para efeitos do FINSOCIAL, o que é faturamento; o conceito de receita bruta [ = receita da venda de mercadorias e da prestação de serviços], na lei, é que coincide com a noção de faturamento, na Constituição. 08 .Ora, o artigo 3º da Lei n. 9.718/98 não diz mais do que isso. Seu § 1º é que vai além, para afirmar que ali e ali não se cogita de faturamento, mas de receita bruta se trata da totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para tais receitas. (...) 10. (...) Eis o que aí se tem, nesse § 1º do artigo 3º e da Lei nº 9.718/98, uma definição jurídica de receita bruta: a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para tais receitas. 11 .Cumpre então indagarmos se a lei poderia ter afirmado essa definição de receita bruta. A Constituição dizia, anteriormente à EC 20/98, que a seguridade social seria financiada, entre outros, mediante recursos provenientes de contribuição social "dos empregadores, incidente sobre a folha de salários, o faturamento e os lucros" art. 195, I). Fl. 596DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 546 29 A EC 20/98 alterou o preceito, para afirmar que essa mesma contribuição incidirá sobre a folha de salários e outros rendimentos do trabalho, sobre "a receita ou o faturamento" e sobre o lucro. A lei é anterior à EC 20/98, ao tempo em que o artigo 195, I da Constituição afirmava que a contribuição incidiria "sobre a folha de salários, o faturamento e os lucros". 12. A alteração no texto da Constituição aparentemente, mas não necessariamente, indica alteração do campo de incidência da contribuição. A emenda , ao referir “a receita ou o faturamento", poderia estar a tomar receita como sinônimo de faturamento e faturamento como sinônimo de receita. Anteriormente à EC 20/98 ela incidia sobre a receita da venda de mercadorias e da prestação de serviços [= receita bruta], que coincidia, qual afirmou esta Corte, com a noção de faturamento. Após a EC 20/98 ela incide sobre “a receita ou o faturamento". Ora, se receita bruta [= receita da venda de mercadorias e da prestação de serviços] coincide, qual afirmou esta Corte, com a noção de faturamento, a inserção do termo de um outro conceito "receita" no texto constitucional há de estar referindo outro conceito, que não o que coincide com a noção de faturamento. Para exemplificar, sem qualquer comprometimento com a conclusão: receita como totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante para a determinação dessa totalidade o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para tais receitas. Temos aí receita bruta, termo de um conceito, e receita bruta, termo de outro conceito. No primeiro caso, receita bruta que é enquadrada na noção de faturamento, receita bruta das vendas e serviços do agente econômico, isto é, proveniente das operações do seu objeto social. No segundo, receita bruta que envolve, além da receita bruta das vendas e serviços do agente econômico isto é, das operações do seu objeto social aquela decorrente de operações estranhas a esse objeto. (grifos meus). Impõese então distinguirmos: de um lado teremos receita bruta/faturamento; de outro, a receita bruta que excede a noção de faturamento, introduzida pela EC 20/98, para a determinação de cuja totalidade são irrelevantes o tipo de atividade que dá lugar a sua percepção e a classificação contábil adotada. 13. Dirseá que a Constituição, ao não definir faturamento, incorporou noção que dele se tinha à época. Na verdade incorporou uma das noções que dele à época se tinha. A Constituição poóleria [sic], mais do que incorporar, poderia ter contemplado uma definição jurídica, de faturamento. Não o tendo feito, prevaleceu um dos entendimentos possíveis, aquele nos termos do qual receita bruta coincide com a noção de faturamento enquanto receita da venda de mercadorias e da prestação de serviços. Poderia ter prevalecido outro. Seguiuse debate entre os integrantes da Mesa, com passagens que merecem destaque. “O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR) Presidente, na condição de relator, permitamme os Colegas escancarar a questão versada neste processo. Fl. 597DF CARF MF 30 Houve a edição da Lei n° 9.718/98 , sob a égide da Carta na redação anterior à Emenda Constitucional n° 20. O artigo 3º, cabeça, dessa lei preceituou algo que se mostrou consentâneo com o Diploma Maior: ‘Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior correspondendo à receita bruta da pessoa jurídica.’ O Tribunal estabeleceu a sinonímia “faturamento/receita bruta", conforme decisão proferida na Ação Declaratória de Constitucionalidade n° 11/DF receita bruta evidentemente apanhando a atividade precípua da empresa. O SR. MINISTRO CARLOS BRITTO Receita operacional. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR) Operacional. Com o § 1º do mesmo artigo foi dado conceito todo próprio à receita bruta: ‘Entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas.’ O que significa esse dispositivo? Que haverá incidência em qualquer receita, ainda que em decorrência de locação, de investimentos etc. Então, Presidente, o legislador percebeu que fora muito adiante do que autorizado pela Carta da República e editou a Emenda Constitucional n° 20, para, com isso, placitar o deslize já verificado. Não posso também apontar que essa Emenda tenha se mostrado inócua, porque passou e disso não cogitava o texto primitivo da Lei Fundamental a tratar da incidência, considerada a receita, não mais apenas sobre a folha de salário com explicitação, inclusive, quanto à folha de salário, e não diria apenas explicitação, mas abrangência, alargamento do conceito e sobre a receita. Houve a alteração isso está muito claro no que, na redação primitiva da Constituição de 1988 (...) O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR) Estaremos estabelecendo o real alcance do vocábulo “faturamento", tal como constante da Carta da República. O SR. MINISTRO CARLOS VELLOSO Como exatamente inscrito na Lei Complementar 70 , que instituiu a contribuição. O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR) A remeter a operação da empresa. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES Como sabemos que é assim, se sabemos que houve uma evolução em relação a isso. Como sabemos, por exemplo, que não havia o conceito de faturamento aplicado às empresas de serviço e tivemos que fazer esse tipo. O SR. MINISTRO NELSON JOBIM (PRESIDENTE) O que esta em jogo aqui são as receitas financeiras. A produção está sendo tributada com o COFINS. Estamos dizendo é que não pode ser tributada pelo COFINS as receitas dos investimentos financeiros das empresas, o setor bancário financeiro. Esse é o núcleo da discussão. O SR. MINISTRO CARLOS BRITTO Porque isto não constitui faturamento. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES Esse é um conceito que evolui. Fl. 598DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 547 31 O SR. MINISTRO CARLOS VELLOSO Evolui tanto que a Emenda Constitucional 20 veio admitir essa evolução, só que, antes dela uma lei ordinária quis fazer o mesmo.” (grifos meus) E, ainda, a manifestação do Ministro Carlos Britto, que acompanhou na íntegra o Voto do Ministro Relator. O SENHOR MINISTRO CARLOS BRITTO Senhor Presidente, tenho aqui umas rápidas anotações. A Constituição de 38, pelo seu art.195, I, redação originária, usou do substantivo " faturamento", sem a disjuntiva "ou receita". Em que sentido separou as coisas? No sentido de que faturamento é receita operacional, e não receita total, nem receita abrangente de qualquer ingresso na empresa. Receita operacional consiste naquilo que já estava definido pelo DecretoLei 2397, de 1987, art. 22, § 1º, "a", assim redigido parece que o Ministro Velloso acabou de fazer também essa remissão à lei: ‘Art .22 (...) a) a receita bruta das vendas de mercadorias e de mercadorias e serviços, de qualquer natureza, das empresas públicas ou privadas definidas como pessoa jurídica ou a elas equiparadas pela legislação do Imposto de Renda;’ Por isso, estou insistindo na sinonímia "faturamento" e "receita operacional", exclusivamente, correspondente àqueles ingressos que decorrem da razão social da empresa, da sua finalidade institucional. Logo, receita operacional é receita bruta de tais vendas, mas não incorpora outras modalidades de ingresso financeiro: royalties, aluguéis, rendimentos de aplicações financeiras, indenizações etc. Esse tratamento normativo do faturamento como receita operacional foi reproduzido pela Lei Complementar 70/91, cujo art.2° assim dispõe: ‘Art. 2º A contribuição de que trata o artigo anterior será de dois por cento e incidirá sobre o faturamento mensal, assim considerado a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza.’ Ou seja, mais claro, impossível. Tudo estaria pacificado não fosse o advento da Lei ordinária 9.718, de 1988, fruto da conversão da Medida Provisória 1.724, de 1998, que equiparou os termos "faturamento" e "receita bruta", não exclusivamente operacional não vou ler porque todos já fizeram essa leitura. Poderia fazêlo? Unir o que a Constituição não uniu? (grifos meus) Este, o cerne jurídico da questão. Minha resposta é, parodiando o Ministro Marco Aurélio, "desenganadamente não". (grifos meus) Da leitura de todas as considerações acima destacadas, pareceme que, a despeito das reticências que se extraem do debate travado entre Ministros da Suprema Corte, uma vez que reconhecida a constitucionalidade do caput do artigo 3º, insofismável distinguir que a base de cálculo das Contribuições, até então expressa como receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza, passou a ser também Fl. 599DF CARF MF 32 identificada, simplesmente, como receita bruta. De fato, ao declarar a inconstitucionalidade apenas do parágrafo primeiro do art. 3ºda Lei 9.718/98 e, ato contínuo, reconhecer a constitucionalidade do caput do artigo, o Supremo Tribunal Federal chancelou a definição ali insculpida, e não o fez porque o conceito estava de acordo com a Lei Complementar nº 70/91, mas sim com a Constituição Federal. A conclusão é que o conceito de faturamento, seja ele definido como a receita de vendas e serviços ou, simplesmente, como receita bruta, está conforme a constituição, restando precisar qual haveria de ser a diferença entre um e outro. E não passa despercebido o fato de que a alteração promovida pela Emenda Constitucional nº 02/98 teve por escopo justamente permitir que a receita da pessoa jurídica fosse alcançada pelas contribuições para o financiamento da seguridade social. De fato, ao observador desatento pode parecer inconcebível que a receita já fosse a base de cálculo das Contribuições antes mesmo da EM nº 20, quando parece ter sido justamente ela que introduziu tal possibilidade no ordenamento jurídico. No entanto, relembrese, a base sobre qual incidia a Cofins ao tempo da Lei Complementar nº 70/91 já estava definida como sendo a receita bruta, naquela especificada como sendo o faturamento decorrente das vendas de mercadorias e serviços. Ainda mais, como também já foi mencionado, a jurisprudência firmada no âmbito do Supremo Tribunal Federal propunha a sinonímia, para efeitos tributários, entre a expressão faturamento e receita bruta. A explicação para essa aparente contradição parece estar nas palavras do Exmo. Ministro Carlos Britto, quando expressa o entendimento de que a autorização introduzida pela Emenda Constitucional nº 20 alcançou, justamente, as receitas especificadas no parágrafo primeiro do artigo 3º da Lei 9.718/98, ampliação que, antes da Emenda, foi considerada inconstitucional. Fica claro, portanto, que antes ou depois da Lei 9.718/98 e até a Emenda Constitucional nº 20, apenas as receitas tidas como próprias ou típicas da pessoa jurídica e não a totalidade das receitas empresariais poderiam integrar a base de cálculo das Contribuições. É fato que não se desconhecem os diversos Acórdãos do Supremo Tribunal Federal que, depois da decisão pela inconstitucionalidade do parágrafo primeiro, fazem remissão ao conceito de faturamento que parecia pacificado antes da entrada em vigor da Lei 9.718/98, qual fosse, o da Lei Complementar 70/91. Embora isso, me arrisco a dizer que tais manifestações são apenas fruto de reflexões dedicadas e focadas especificamente na questão da inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo. Jamais pretendeuse “a constitucionalização de preconcepções doutrinárias não incorporadas expressamente no texto constitucional”, nem o reconhecimento de “um específico conceito constitucional de faturamento17”. Com efeito, de tudo o que até aqui foi dito, creio que existam fortes razões para acreditar que a remissão ao status anterior da base imponível decorre da destinação das decisões nas lides em que foram tomadas, em processos nos quais discutiase o direito do contribuinte de afastar o alargamento da base de cálculo e não a amplitude do conceito de faturamento em si. E há, ainda, outras questões que precisam ser consideradas. Resgatando mais uma vez o arcabouço normativo histórico da Cofins, vêse que foi a Lei Complementar nº 70/91 que, ao disciplinar de maneira ampla a incidência da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins, seu raio de alcance e fonte de financiamento das atividadesfins das áreas de saúde, previdência e assistência social, excluiu as instituições a que se refere o § 1° do art. 22 da Lei nº 8.212/91 do pagamento da 17 As duas remissões são à manifestação, antes reproduzida, do Exmo. Ministro Ilmar Galvão. Fl. 600DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 548 33 Contribuição, elevando, concomitantemente, a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido por elas devida. Lei Complementar 70/91 Art. 11. Fica elevada em oito pontos percentuais a alíquota referida no § 1° do art. 23 da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, relativa à contribuição social sobre o lucro das instituições a que se refere o § 1° do art. 22 da mesma lei, mantidas as demais normas da Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988, com as alterações posteriormente introduzidas. Parágrafo único. As pessoas jurídicas sujeitas ao disposto neste artigo ficam excluídas do pagamento da contribuição social sobre o faturamento, instituída pelo art. 1° desta lei complementar. Lei 8.212/91 Art. 23. As contribuições a cargo da empresa provenientes do faturamento e do lucro, destinadas à Seguridade Social, além do disposto no art. 22, são calculadas mediante a aplicação das seguintes alíquotas: I 2% (dois por cento) sobre sua receita bruta, estabelecida segundo o disposto no § 1º do art. 1º do Decretolei nº 1.940, de 25 de maio de 1982, com a redação dada pelo art. 22, do Decretolei nº 2.397, de 21 de dezembro de 1987, e alterações posteriores; 9 II 10% (dez por cento) sobre o lucro líquido do períodobase, antes da provisão para o Imposto de Renda, ajustado na forma do art. 2º da Lei nº 8.034, de 12 de abril de 1990. 10 § 1º No caso das instituições citadas no § 1º do art. 22 desta Lei, a alíquota da contribuição prevista no inciso II é de 15% (quinze por cento). § 2º O disposto neste artigo não se aplica às pessoas de que trata o art. 25. Merece especial atenção a exclusão prevista no parágrafo único do artigo 11 da Lei Complementar 70/91. Partindo da premissa de que a lei não contém expressões inúteis, falece razão à determinação de que as instituições relacionadas o § 1° do art. 22 da Lei 8.212/91, dentre elas a litigante, sejam excluídas, acaso elas não estivessem, pelo comando geral da Norma, incluídas. Isso significa dizer que, já na vigência da Lei Complementar 70/91, as atividades desenvolvidas pela litigante estavam sujeitas ao pagamento da Contribuição, pois enquadrarseiam no conceito de serviços. A despeito disso, fato é que, após, a Lei 9.718/98 e outras medidas legislativas que se seguiram, como fazem exemplo a MP 2.158/01 e, mais tarde, as Leis 10.637/03 e 10.833/03, que introduziram o Sistema NãoCumulativo das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins, foi revisto o Sistema de financiamento da Seguridade Social como um todo, e incluídas, expressamente, dentre outras, as corretoras no rol de contribuintes sujeitos ao recolhimento da exação fiscal, como se extrai do texto dos parágrafos 5º e 6º do artigo 3º da Lei 9.718/98. § 5º Na hipótese das pessoas jurídicas referidas no § 1º do art. 22 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, serão admitidas, para os efeitos da COFINS, as mesmas exclusões e deduções facultadas para fins de determinação da base de cálculo da contribuição para o PIS/PASEP. Fl. 601DF CARF MF 34 § 6o Na determinação da base de cálculo das contribuições para o PIS/PASEP e COFINS, as pessoas jurídicas referidas no § 1o do art. 22 da Lei no 8.212, de 1991, além das exclusões e deduções mencionadas no § 5o, poderão excluir ou deduzir: (Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Como dito de início, a declaração de inconstitucionalidade alcançou exclusivamente o parágrafo primeiro do artigo 3º da Lei 9.718/98. De tudo o que se coloca, fica claro que não somente o caput do artigo, mas os demais parágrafos e toda a regulamentação superveniente deixou de ser atingida e permanece até hoje em vigor. Do parágrafo 2º ao parágrafo 9º do artigo 3º, assim como na MP 2.158/01, encontramse exclusões permitidas da base de cálculo das Contribuições apuradas no Sistema Cumulativo, que não fariam nenhum sentido se a base continuasse adstrita às receita proveniente das vendas de bens e serviços, no caso do conceito de serviços ser interpretado tão restritivamente como frequentemente se pretende. E, vejase, se o que se discute é a possibilidade de que estejam extirpados do ordenamento jurídico todas as disposições normativas introduzidas pelo artigo 3º da Lei 9.718/98 e MP 2.158/01, então haveria de se estar faltando em exclusão total do pagamento da Cofins e não apenas das receitas atípicas, uma vez que a revogação tácita do parágrafo único do artigo 11 da Lei Complementar 70/91 decorre das disposições introduzidas pelo artigo 3º da Lei 9.718/98 e MP 2.158/01. De todo o exposto, e considerando que Unicard Banco Múltiplo S/A (atual denominação do Banco Bandeirantes SA), com sede em São Paulo, de acordo com o Estatuto Social às fls. 19, tem como objeto social a prática de operações ativas, passivas e acessórias inerentes às carteira comercial, de investimento, de crédito, financiamento e investimento e de crédito imobiliário em todas as regiões do país, inclusive de câmbio e a administração de carteiras de valores mobiliários, e a prática de gestão de pagamentos, de acordo com as disposições legais e regulamentares em vigor; não vejo como entender que a operação em escrutínio não seja uma atividade própria e típica da Recorrente. Resolvido isso, resta decidir a respeito da alega a redução da base de cálculo das Contribuições decorrente do arbitramento do valor das ações determinado no processo de exigência do Imposto de Renda. Revejamos as alegações da Recorrente. "A saber, a RFB considerou que os títulos foram alienados por valores inferiores aos praticados à época no mercado e autuou a Unibanco Corretora, formalizando o Processo Administrativo n. 16327.720438/201126 e, ao fazêlo, fixou que os valores unitários de mercado na data das alienações da Unibanco Corretora para o Recorrente seriam de R$ 10,80 para Bovespa (e não de R$2,23) e R$ 9,98 para BM&F (e não de R$ 1,42). Considerando que a suposta receita obtida nas alienações das ações se dá pela diferença entre valor de custo e o de venda, é certo que o aumento do custo determinado pela Fiscalização redundou, necessariamente, na redução da receita supostamente auferida pelo Recorrente. Pontuese que já há decisão proferida pelo CARF no P.A. n. 16327.720438/201126 que não possui, ainda, caráter de definitividade". Creio que a parte tenha direito a ver sua pretensão atendida. Se o próprio Fisco rejeitou a base de cálculo indicada pela empresa na apuração do IRPJ, adaptandoa aos valores de mercado que considerou compatíveis com o tipo de negócio exercido, a mesma premissa deve ser considerada no caso concreto, calculandose a Fl. 602DF CARF MF Processo nº 16327.720381/201246 Acórdão n.º 3302003.370 S3C3T2 Fl. 549 35 base em função dos valores arbitrados pela Fiscalização Federal no processo de determinação e exigência do valor do Imposto de Renda devido. VOTO por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, apenas para que a base de cálculo seja apurada pela diferença entre o preço de venda e valor arbitrado no processo 16327.720438/201126 Acórdão nº. 1101000.868, de 09/04/2013 (Bovespa: 10,80 e BM&F: 9,98). (assinatura digital) Ricardo Paulo Rosa Fl. 603DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.927102/2009-88
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 29 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/01/2002
ART. 3º, §1º DA LEI 9.718/98. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA. ALARGAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 62, §2º, do RICARF. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO. CABIMENTO.
A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é o faturamento e, em virtude de inconstitucionalidade declarada em decisão plenária definitiva do STF, devem ser excluídas da base de cálculo as receitas que não decorram da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. Aplicação do art. 62, §2º do RICARF.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-003.409
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso.
(Assinado com certificado digital)
Antonio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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Alargamento da base de cálculo. Recorrente CONSTRUTORA TOMASI LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2002 a 31/01/2002 ART. 3º, §1º DA LEI 9.718/98. BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. RECEITA. ALARGAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DO ART. 62, §2º, do RICARF. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO. CABIMENTO. A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é o faturamento e, em virtude de inconstitucionalidade declarada em decisão plenária definitiva do STF, devem ser excluídas da base de cálculo as receitas que não decorram da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. Aplicação do art. 62, §2º do RICARF. Recurso Voluntário Provido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 92 71 02 /2 00 9- 88 Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Curitiba/PR que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte, a qual pretendeu a reforma do despacho decisório, que, por sua vez, indeferiu a homologação da compensação de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep com outros tributos administrados pela Receita Federal do Brasil. A não homologação se deveu a inexistência do crédito informado, vez que o mesmo havia sido integralmente utilizado. Em sua manifestação a interessada alega que o crédito decorre da declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, do §1º do art. 3º da Lei nº9.718, de 1998, e que aproveitou o referido crédito nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Cita e transcreve jurisprudência administrativa e, ressaltando o contido no art. 165 do CTN, insiste no direito à restituição. Ao final, pede a homologação da compensação. Sobreveio então o Acórdão 06041.133, da DRJ/CTA/PR, julgando improcedente a manifestação de inconformidade da Contribuinte. Irresignada, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário a este Conselho repisando os argumentos trazidos em sede de manifestação de inconformidade. É o relatório Voto Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402003.399, de 29 de setembro de 2016, proferido no julgamento do processo 10980.911525/201010, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402003.399): "O recurso voluntário é tempestivo, com base no que dispõe o artigo 33 do Decreto 70.235, de 06 de março de 1972, bem como atende as demais condições de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. A questão de direito controversa no presente processo é amplamente conhecida. Tratase do inconstitucional alargamento da base de cálculo da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (“Cofins”), sobre o qual cumpre tecer algumas breves explanações. Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 3 A Cofins, sucessora do FINSOCIAL, foi disciplinada pela Lei n. 9.718, de 27 de novembro de 1998 (“Lei n. 9.718/98”). Nos termos do artigo 3º da citada Lei, ficou estabelecido que a Cofins incidiria sobre a receita bruta de pessoa jurídica. Por sua vez, o §1º do mesmo artigo veio definir o que abrangia o termo "receita", dispondo que: entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Contudo, à época da edição da Lei n. 9.718/98, a Constituição da República brasileira, em seu artigo 195, estabelecia que as Contribuições Sociais a serem recolhidas aos Cofres da União pelos empregadores, dentre as quais se enquadra a Cofins, somente poderiam incidir sobre o “faturamento”. Diante dessa delimitação constitucional, o Supremo Tribunal Federal (“STF”) declarou que o §1º do artigo 3º da Lei n. 9.718/98 é inconstitucional, no julgamento dos Recursos Extraordinários (“RE”) n. 357950, 390840, 358273, 346084 e 336134 em 09 de novembro de 2005. Posteriormente, o Pretório Excelso, no julgamento do RE n. 585.235, publicado em 28/11/2008, julgou pela aplicação da repercussão geral sobre matéria em exame, reconhecendo a inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98. A ementa do referido julgado foi lavrada nos seguintes termos: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nos 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Isto porque, segundo o entendimento dos Ministros do STF, esse dispositivo alargou indevidamente a base de cálculo da COFINS, uma vez que igualou o conceito de faturamento (ou receita operacional) ao conceito de receita . Explicase. Enquanto o faturamento é constituído pelas receitas advindas da venda de bens e serviços, a receita compreende "entrada de recursos financeiros remuneradores dos diferentes negócios jurídicos da atividade empresarial”, segundo a lição de José Antonio Minatel. 1 Assim, o faturamento (espécie) é menos amplo que a receita (gênero). 1 MINATEL, José Antonio. Conteúdo do Conceito de Receita e Regime Jurídico para sua Tributação. MP Editora. São Paulo, 2005, p. 132. Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 4 Ocorre que tais conceitos não podem ser livremente manejados pelo legislador, pois o artigo 110 do Código Tributário Nacional determina que: A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Destarte, se a Constituição determinava que a COFINS somente poderia incidir sobre o faturamento; e o faturamento constitui as receitas provenientes da venda de bens e serviços pela pessoa jurídica; conclui se pela inconstitucionalidade da lei que determina a incidência sobre a receita sem sentido amplo, pois essa é mais abrangente que o faturamento. 2 Buscando solucionar os vícios constitucionais de que padecia a Lei n. 9.718/98, o Poder Legislativo editou a Emenda Constitucional n. 20, de 15 de dezembro de 1998 (“EC n. 20/98”). Tal Emenda alterou o texto do artigo 195 da Constituição, o qual restou positivado nos seguintes dizeres: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício;(Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) b) a receita ou o faturamento; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998). Em síntese, a EC n. 20/98 alargou a hipótese de incidência das contribuições sociais devidas pelo empregador, uma vez que a partir de então não só o faturamento pode ser tributado, como também a receita em sentido amplo. 2 Ademais, há de se ressaltar que a Lei n. 9.718/98 tem status jurídico de lei ordinária, o que torna ainda mais patente a sua inconstitucionalidade, tendo em vista que somente por meio de lei complementar é que poderia ser criada outra fonte de custeio da seguridade social (incidente sobre outra materialidade), nos termos do artigo 195, §4 e do artigo 154, inciso I, ambos da Constituição. Disto depreendese que somente seria legítima a cobrança da COFINS sobre a receita, hipótese que na época não estava prevista no rol de incisos do artigo 195 da Constituição, caso tal situação tivesse sido instituída por meio de lei complementar. Afinal, tratarseia de nova fonte de custeio da seguridade social. Como a Lei n. 9.718/98 foi votada e publicada pelo rito legislativo próprio das leis ordinárias, mais uma vez concluise pela inconstitucionalidade da exação. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 5 Entretanto, essa mudança no texto da Constituição não teve o poder de convalidar os dizeres da Lei n. 9.718/98, pois o sistema jurídico brasileiro não admite a constitucionalidade superveniente, vale dizer, tendo sido promulgada e publicada lei que contraria a Constituição, não é possível que posterior alteração da própria Constituição, por via de emenda, traga de forma retroativa a validade da lei. Foi assim que decidiu o STF. Pois bem. Tendo sido decidida a questão em sede de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida, tornase imperioso o seu acatamento por este Conselho, nos moldes do artigo 62, §2º do Regimento Interno do CARF, o qual prescreve a necessidade de reprodução, pelos Conselheiros, das decisões definitivas de mérito proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, na sistemática da repercussão geral: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543 C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Nesse sentido, é tranquila a jurisprudência do Conselho a respeito da necessidade de reprodução das decisões proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo da Cofins – citadas alhures aos processos administrativos fiscais, nos quais os contribuintes formulam pedidos de restituição de valores indevidamente pagos a título da contribuição social em questão, exatamente como ocorre no presente caso. Destaco a seguir alguns julgados representativos do entendimento sobre a matéria: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/02/1999 a 30/06/2000 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. TRIBUTOS SUJEITOS AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRAZO DECADENCIAL. 10 ANOS. PEDIDO REALIZADO ANTES DA ENTRADA EM VIGOR DA LEI COMPLEMENTAR 118/2005. O prazo decadencial para o direito de restituição de tributos sujeitos ao lançamento por homologação é de 10 (dez) anos, a contar do fato gerador quando o pedido for realizado antes da entrada em vigor da Lei Complementar 118/2005, conforme entendimento do STF. COFINS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO APLICAÇÃO DE DECISÃO DO STF NA SISTEMÁTICA DA REPERCUSSÃO GERAL POSSIBILIDADE. Nos termos regimentais, reproduzemse as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sistemática de repercussão geral. A base de cálculo das contribuições para o PIS e a Cofins é o faturamento, assim Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 6 compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e mercadorias e serviços, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 pelo Excelso STF. COFINS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO DE TRIBUTO. POSSIBILIDADE. Caracterizado o pagamento a maior ou indevido da contribuição, o contribuinte tem direito à repetição do indébito, segundo o disposto no art. 165, I, do Código Tributário Nacional (CTN). Recurso Voluntário Provido (Processo 11618.002043/200519, MARCOS ANTONIO BORGES, Nº Acórdão 3801001.835) Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 28/02/1999 a 31/05/2000 DECADÊNCIA. INDÉBITO TRIBUTÁRIO. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. LEI COMPLEMENTAR 118/05. O prazo estabelecido na Lei Complementar 118/05 somente se aplica para os processos protocolizados a partir 9 de junho de 2005, e que anteriormente a este limite temporal aplicase a tese de que o prazo para repetição ou compensação de tributos sujeitos a lançamento por homologação é de dez anos, contado de seu fato gerador, de acordo com decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na sistemática de repercussão geral. PIS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO APLICAÇÃO DE DECISÃO DO STF NA SISTEMÁTICA DA REPERCUSSÃO GERAL POSSIBILIDADE. Nos termos regimentais, reproduzemse as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sistemática de repercussão geral. A base de cálculo das contribuições para o PIS e a Cofins é o faturamento, assim compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e mercadorias e serviços, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 pelo Excelso STF. PIS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO DE TRIBUTO. POSSIBILIDADE. Caracterizado o pagamento a maior ou indevido da contribuição, o contribuinte tem direito à repetição do indébito, segundo o disposto no art. 165, I, do Código Tributário Nacional (CTN). Recurso Voluntário Provido. (Processo 13855.001146/200586, Relator(a) FLAVIO DE CASTRO PONTES, Nº Acórdão , 3801001.722) COFINS. ART. 3º, DA LEI 9.718/98. BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. APLICAÇÃO DO Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 7 ART. 62, §1o, I, do RICARF. RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO. CABIMENTO. A base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS é o faturamento e, em virtude de inconstitucionalidade declarada em decisão plenária definitiva do STF, devem ser excluídas da base de cálculo as receitas que não decorram da venda de mercadorias ou da prestação de serviços. Aplicação do art. 62A do RICARF. COFINS. ART. 3º, §1º, DA LEI 9.718/98. BASE DE CÁLCULO. ALARGAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO. CABIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA. Em face da inconstitucionalidade da alteração da base de cálculo da contribuição a COFINS, promovida pelo art. 3º, §1º, da Lei nº 19.718/98, é cabível o deferimento da restituição do indébito, devendo a autoridade preparadora verificar a comprovação do pagamento indevido ou a maior para compor o crédito a ser deferido ao contribuinte. Sobre o crédito apurado incide correção pela incidência da SELIC desde a data do pagamento indevido ou a maior, na forma do §4º, do Art. 39, da Lei nº 9.250/95. Recurso Parcialmente Provido. (Processo 10950.000184/200626, Relator(a) JOAO CARLOS CASSULI JUNIOR, Acórdão 3402001.697) COFINS. FALTA DE RECOLHIMENTO. Mantémse o lançamento quando constatada a falta de recolhimento da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, no período compreendido pelo auto de infração. COFINS. COMPENSAÇÃO. PROCEDIMENTO PRÓPRIO. Eventual direito à compensação da COFINS, em razão de recolhimento indevido ou efetuado a maior, deve ser apreciado no procedimento administrativo próprio de restituição/compensação, e não em processo de formalização de exigência de crédito tributário. Todavia, nada impede Requerêla em procedimento próprio. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO. APRECIAÇÃO. COMPETÊNCIA. O conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF não é competente para apreciar pedidos de restituição/compensação. A competência é da unidade da Receita Federal que jurisdiciona o contribuinte. Aos órgãos julgadores do CARF compete o julgamento de recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. (art. 1º da Portaria MF nº 256/2009) MULTA DE OFÍCIO. APLICAÇÃO E PERCENTUAL. LEGALIDADE Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 8 Aplicável a multa de ofício no lançamento de crédito tributário que deixou de ser recolhido ou declarado e no percentual determinado expressamente em lei. COFINS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. APLICAÇÃO DE DECISÃO DO STF NA SISTEMÁTICA DA REPERCUSSÃO GERAL. POSSIBILIDADE. Nos termos regimentais, reproduzse as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sistemática de repercussão geral. A base de cálculo das contribuições para o PIS e a Cofins é o faturamento, assim compreendido a receita bruta da venda de mercadorias, de serviços e mercadorias e serviços, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 pelo Excelso STF. Recurso Voluntário Provido em Parte (Processo 10680.006962/200880, Relator(a) JOSE LUIZ BORDIGNON, Acórdão 3801000.984) Portanto é incontroverso o bom direito da Recorrente em relação à restituição dos recolhimentos indevidamente feitos a título de Cofins, no período de apuração em questão, haja vista que a presente lide administrativa tem como objeto principal a declaração de inconstitucionalidade do artigo 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98 pelo STF (alargamento inconstitucional da base de cálculo da Cofins). Com efeito, como já tive a oportunidade de destacar em dissertação sobre o tema: Tanto a edição de leis inconstitucionais como a cobrança de tributos com base em tais leis tributárias inconstitucionais são atos ilícitos praticados pelo Poder Público. O primeiro constitui ilícito constitucional (edição de lei contrária aos dizeres da Constituição), enquanto o segundo caracteriza ilícito tributário (cobrança pelo Estado e consequente pagamento pelo contribuinte de tributo inválido). Lembrando que as normas jurídicas em sua feição completa são impreterivelmente dotadas de uma sanção em caso de descumprimento, aos citados atos ilícitos o ordenamento jurídico atrela as respectivas sanções: a declaração de inconstitucionalidade, com o objetivo de preservar a integralidade e coerência da ordem jurídica; e a restituição de tributos inconstitucionais, cuja função é conferir segurança jurídica e isonomia aos administrados. 3 Cumpre ainda salientar que à restituição de tributos inconstitucional, cuja natureza e regime jurídico são tributários, são totalmente aplicáveis as regras relativas às demais hipóteses de repetição de indébito dispostas no CTN (artigo 165 a 169). Entretanto, com relação ao quantum devido como restituição do tributo inconstitucional, compete à autoridade administrativa preparadora, com 3 LAURENTIIS, Thais de. Restituição de Tributo Inconstitucional. São Paulo: Noeses, 2015. Fl. 64DF CARF MF Processo nº 10980.927102/200988 Acórdão n.º 3402003.409 S3C4T2 Fl. 0 9 base na documentação apresentada pelo contribuinte no decorrer do processo administrativo, efetuar os cálculos e apurar o valor do direito creditório. Por fim, saliento que apurado o crédito, os valores originais devem sofrer correção pela incidência da SELIC, desde a data do pagamento indevido, como impõe o artigo 39, §4º da Lei nº 9.250/95, até a data do efetivo aproveitamento dos créditos pelo contribuinte. Dispositivo Por tudo quanto exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário, haja vista a necessidade de liquidação do julgado, nos termos descritos acima." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dáse parcial provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o direito à restituição dos valores recolhidos com amparo no § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98 (declarado inconstitucional pelo STF), devendo o montante do direito creditório ser apurado pela unidade de origem. assinado digitalmente Antonio Carlos Atulim Fl. 65DF CARF MF
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Numero do processo: 13433.721330/2013-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 01 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Jan 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012
PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO.
A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal.
RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE.
É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital - Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil.
MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO.
É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observando-se que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo.
MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012
PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO.
A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal.
RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE.
É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital - Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil.
MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO.
É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observando-se que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo.
MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Recursos voluntário e de ofício negados.
Numero da decisão: 3402-003.514
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento aos recursos voluntário e de ofício.
(assinado digitalmente)
Antônio Carlos Atulim - Presidente.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO. A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal. RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE. É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital - Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil. MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observando-se que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO. A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal. RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE. É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital - Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil. MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observando-se que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recursos voluntário e de ofício negados.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2010, 2011, 2012 PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO. A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal. RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE. É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil. MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observandose que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 43 3. 72 13 30 /2 01 3- 17 Fl. 659DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 660 2 Anocalendário: 2010, 2011, 2012 PROVA TÉCNICA. FATO CONTROVERSO E RELEVANTE. DESCABIMENTO. A realização de perícia só deve ser deferida quando vise a apurar fato determinado, controverso e relevante para o julgamento do processo, não se admitindo perícia para apuração de situações genéricas ou para refazer a totalidade do levantamento fiscal. RECEITAS E TRIBUTOS DECLARADOS AO FISCO. SPED CONTÁBIL. DIVERGÊNCIA. LANÇAMENTO. VALIDADE. É válida a apuração de omissão ou de falta de declaração de receitas tributáveis mediante o confronto das informações prestadas diretamente ao Fisco e os dados constantes do Sistema Público de Escrituração Digital Sped, cabendo ao contribuinte o ônus de provar eventuais incorreções cometidas em sua própria escrita contábil. MULTA QUALIFICADA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação de multa qualificada, com percentual de 150%, quando não restar comprovada a conduta dolosa do sujeito passivo, observandose que a divergência entre as informações contidas nas declarações e as constantes dos livros fiscais e contábeis, por si só, não caracteriza dolo. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. EXAME NA ESFERA ADMINISTRATIVA. IMPOSSIBILIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recursos voluntário e de ofício negados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento aos recursos voluntário e de ofício. (assinado digitalmente) Antônio Carlos Atulim Presidente. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. Fl. 660DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 661 3 Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da r. decisão (fls. 592/601), vazado nos seguintes termos: Tratase de impugnação apresentada contra lançamento que, apurando divergências entre os dados constantes da escrita contábil, os dados informados ao Fisco do Estado do Rio Grande do Norte e os declarados à Receita Federal, formalizou a exigência de crédito tributário no montante de R$ 4.885.762,43, compreendendo PIS e Cofins, acrescidos de multa qualificada (150%) e juros de mora, tendo por fundamento legal o art. 1º da Lei nº 10.833/2003 e demais dispositivos indicados nos autos de infração de fls. 3 a 11 e 12 a 21. No Relatório Fiscal de fls. 24 a 37, a autoridade lançadora fez constar o seguinte registro: Autos de infrações de PIS e COFINS lavrados em decorrência de apuração incorreta que foi levantada a partir do confronto de informações constantes da CONTABILIDADE apresentada pela CONCRET através do SPED CONTÁBIL, ICMS apresentado pela CONCRET à fiscalização em CD ROM, Notas Fiscais apresentadas pela CONCRET através do sistema SPED FISCAL e Movimento Econômico Tributário MOVECO que foi apresentado pela CONCRET à Secretaria Estadual de Tributação do RN e acessado pela fiscalização da Secretaria da Receita Federal através de um convênio de cooperação técnica firmado entre os dois órgãos, SINAL 04 (informativo com pagamentos do contribuinte), DCTF (declaração de confissão de dívida), PERDCOMP (informativo de compensação e restituição), COMPROT (informativo com todos processos cadastrados na Secretaria da Receita Federal) e DACON Demonstrativo de Apuração do PIS e da COFINS. (fl. 24) Informou a fiscalização que a contribuinte, intimada, não conseguiu comprovar a efetiva existência das receitas sujeitas à alíquota zero, nem as receitas oriundas de exportação. Ademais, foram encontradas divergências quanto a bens e serviços utilizados como insumos, e quanto a devoluções e outros valores passíveis de gerar créditos fiscais. A contribuinte, não resignada, impugnou o lançamento, alegando que houve uma compreensão equivocada da autoridade lançadora acerca dos números da empresa. A análise dos registros fiscais revela que os valores havidos como receita bruta tributável total representam, na verdade, as operações realizadas no decorrer de cada período. Nesse sentido, disse a impugnante: “... apreciando os registros fiscais, revelase que os números tidos por receita bruta total, a bem da verdade, importam no total das operações realizadas pela empresa no decorrer de cada competência.” (fl. 363) Acrescentou ainda que as receitas conceituadas pelo art. 1º da Lei nº 10.833/2003: “... não comporta operações juridicamente deslocadas das conceituações predefinidas para cada grupo homogêneo de operações, determinados por seus códigos de Fl. 661DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 662 4 operações específicos e segundo obediência às regras pertinentes. (..). O mesmo ocorre por todo o período fiscalizado, restando, por óbvio, prejudicado todo o levantamento fiscal” (fl. 365) Os valores informados como receita bruta não corresponderiam ao conceito legal de faturamento, não dando ensejo ao nascimento do fato gerador, capaz de gerar obrigação tributária. Na verdade, diz a impugnante, teria ocorrido mero preenchimento indevido do Dacon, fato que, por si só, não pode ser equiparado à prestação de informações falsas. Afirmou que a Lei nº 11.488/2007, que criou o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da InfraEstrutura – Reidi, no art. 3º, inciso I, prevê a suspensão de exigência do PIS e da Cofins, quando forem vendidos aparelhos, máquinas, instrumentos e equipamentos novos, e material de construção para utilização ou incorporação em obras de infraestrutura ou destinadas ao ativo imobilizado, quando os referidos bens ou materiais forem adquiridos por pessoa jurídica beneficiária do REIDI. Assim, com esse argumento, pediu a realização de perícia para individualizar as operações realizadas sob os efeitos do referido regime especial. Por outro lado, asseverou que, dos produtos comercializados, vários deles foram postos à margem da tributação, como é o caso do produto classificado sob o código 3926.9090 (revestimento para canais de irrigação, de PVC flexível ou semelhante, com ilhoses para fixação no solo) da Nomenclatura Comum do Mercosul NCM. Análoga seria a situação dos produtos classificados nos seguintes códigos da NCM: 8716.80.00 (suspensão de PIS e Cofins nas vendas efetuadas diretamente aos beneficiários do Reporto – art. 14 da Lei 11.033/2004); 8301.20.00 e 8481.10.00 (sujeitos à alíquota zero, quando a receita bruta for auferida por comerciante atacadista ou varejista – art. 3º, §2º, inciso I, da Lei nº 10.485/2002); 8481.30.00 (suspensão de PIS e Cofins quando vendidas à pessoa jurídica beneficiária do Recap – art. 12 da Lei nº 11.196/2005). Disse que muitos dos produtos comercializados estão ao largo da tributação do PIS e da Cofins, de modo que, para uma exata apreciação dos fatos, fazse necessária a determinação de perícia contábil. No que concerne aos valores informados como receita de exportação, admitiu ter havido erro no preenchimento do Dacon; pois, na verdade, tratase de receitas obtidas de vendas no mercado interno, mas não sujeitas a PIS e Cofins. Quanto à exclusão dos créditos fiscais, afirmou ser legítima a apropriação de créditos sobre aquisição de insumos utilizados na fabricação de produtos posteriormente comercializados; o mesmo ocorrendo em relação aos custos glosados pela Fiscalização. Frisou que o princípio da não cumulatividade confere ao contribuinte o direito à dedução de tais créditos. Contestou a aplicação da multa qualificada, negando o seu fundamento, o dolo, cuja existência a autoridade lançadora não logrou comprovar. Não teria ocorrido inserção de dados falsos, mas mero equívoco na apuração das bases de cálculo, o que afasta a possibilidade de crime fiscal. Fl. 662DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 663 5 Ainda quanto a intensidade da sanção, invocou a regra prevista no art. 112 do Código Tributário Nacional – CTN. Alegou ainda a existência multa de efeito confiscatório. A r. decisão manteve o lançamento quanto ao mérito e reduziu a multa qualificada (150%) para 75%, ao fundamento de "não consta do auto de infração, nem do termo de verificação fiscal a descrição específica da conduta dolosa a atrair a aplicação de multa qualificada". Dessa exoneração, recorreu de ofício por ter ultrapassado o valor de alçada. A empresa autuada interpôs o recurso voluntário de fls. 615/640, no qual, em suma, repisa as razões expendidas na impugnação. Alegou, no entanto, que a r. decisão teria deixado "de apreciar detidamente os argumentos formulados pela defesa, como, por exemplo, a questão de erro nas edificações de bases de cálculos", pois entende que algumas operações não estariam sujeitas à incidência das indigitadas contribuições sociais, "quiçá se constituem em operações que importem conceituação de receitas, ainda que não tributadas". Por tal, insiste no pedido de perícia " a fim de assistir o direito de completude ao exercício da ampla defesa", pois entende que "somente por intermédio de uma detida apuração dos números destacados por cada CFOP é que se pode examinar quais receitas, em cada período de competência, e que restaram por ingressar na contabilidade, seja fiscal ou contábil". Repisa seu argumento fulcral de que "os valores de receitas apropriados pela escrituração fiscal da empresa se apresentam em valores inferiores aos apurados pela fiscalização, pelo simples fato de que a fiscalização considerou valores que não comportam tais incidências". Pede, alfim, que a multa, por entender ter a mesma no percentual de 75% tem natureza confiscatória, seja "revista para percentuais proporcionais e razoáveis". É relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, relator. RECURSO VOLUNTÁRIO Em síntese, a recorrente repisa a peça impugnatória, restringindose a consignar que os valores escriturados como receita bruta não podem, todos eles, ser objeto da incidência das vergastadas contribuições sociais, pois estariam em alguns casos fora do conceito legal de faturamento. Igualmente, em função do afirmado, alega que teria ocorrido erro de preenchimento da DACON, o que, por si só, continua, não poderia ser interpretado como prestação de informações falsas. Primeiramente, há de ser afastada a alegação de que a r. decisão não teria enfrentado as alegações da recorrente. O que foi assentado na decisão recorrida é que o contribuinte fez meras alegações e não as provou com documentos que são de sua obrigação mantêlos dentro do prazo decadencial. Assim, restando consignado que os documentos que provariam suas alegações estão todos em seu poder, ou deveriam estar, prescindível a prova técnica. Nada obstante esses fundamentos, novamente vem a recorrente alegar o mesmo, sem, novamente, trazer qualquer prova do que alega, vez ser todo seu o ônus, mormente que no curso da ação fiscal quedouse silente antes às intimações do Fisco acerca Fl. 663DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 664 6 das saídas de determinada mercadorias com suposta isenção das contribuições em análise. Os eventuais erros "nas edificações de bases de cálculo" deveria o contribuinte demonstrar analiticamente onde se encontram e provar documentalmente, uma vez que em suas DACON, como afirma, haveria erro de preenchimento. Assim, se determinadas mercadorias que dá saída estariam albergadas pela legislação do REIDI (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infra Estrutura) a que alude a Lei 11.488/2007, dando azo a saída com suspensão das contribuições é ônus da recorrente arrolar todas as mercadorias, nota a nota fiscal por período de apuração, demonstrando pontualmente onde estaria o equívoco na base imponível encontrada pela fiscalização. Mas em vez disso, mesmo diante do fundamento da r. decisão, insiste a recorrente que "diante da vasta possibilidade de incidência do PIS e da COFINS, a perícia seria ponto crucial para esclarecimentos dos quesitos já formulados". Ora, se as mercadorias com NCM 3926.9090, 8716.8000, 8301.2000, 84811000 e 8481.3000, que alega fabricar e que em tese dariam albergue para saídas com suspensão das contribuições com base no REIDI, é todo seu o ônus de provar que fabrica tais mercadorias e que deu saída as mesmas, apontando os documentos fiscais que embasaram as supostas vendas/saídas. Mas não, em mais uma oportunidade recursal desperdiça o momento processual para provar o que alega, procurando tergiversar ante a curial necessidade de perícia para produzir prova que está toda ela a seu alcance. Por isso, bem andou a r. decisão recorrida ao espancar a necessidade de perícia nos seguintes termos: No caso em exame, a questão envolve a existência de operações com produtos supostamente sujeitos à alíquota zero ou, por algum outro motivo, não tributados. A prova desse fato independe de perícia contábil, basta para tanto que a impugnante apresente ou, pelo menos, indique os documentos fiscais relativos a tais operações. A impugnante, ao contrário, limitouse a alegações genéricas. Não especificou sequer a existência de uma única operação concreta que pudesse servir de exemplo das alegações articuladas na peça impugnatória. É possível perceber que o pedido de perícia nada mais é do que uma tentativa vã de refazer toda a auditoria fiscal. Por isso, a prova técnica deve ser indeferida. Demais disso, com bem salientado na r. decisão, a Lei 11.488/2007 determina que nas notas fiscais de vendas de mercadorias beneficiadas pelo REIDI, conste a expressão "Venda efetuada com suspensão da exigibilidade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins", com a especificação do dispositivo legal correspondente (§ 1º do art. 3º daquele diploma legal). Portanto, mais uma vez, deveria a empresa provar documentalmente o que alega em tese. Portanto, com o mesmo fundamento da r. decisão, entendo absolutamente prescindível a perícia pugnada, pelo que a indefiro. Quanto à alegação da natureza confiscatória da multa no percentual de 75 %, conforme decisão a quo, a matéria refoge à competência dessa instância julgadora administrativa, já tendo sido, inclusive, objeto de Súmula CARF, conforme se transcreve, uma vez que se teria de adentrar no mérito da constitucionalidade de lei válida, vigente e eficaz. Fl. 664DF CARF MF Processo nº 13433.721330/201317 Acórdão n.º 3402003.514 S3C4T2 Fl. 665 7 Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Dessarte, é de ser negado o recurso voluntário. RECURSO DE OFÍCIO Também sem reparos a r. decisão nesse ponto, pois, de fato, a qualificação da multa não foi feita na melhor forma, pois cediço que para tal o libelo fiscal deve motivála exaustivamente fazendo subsumir os fatos à conduta dolosa de forma específica à norma legal apontada no art. 44 da Lei 9.430/96. Aqui valhome dos próprios termos da r. decisão para afastar a qualificadora. No caso em exame, não consta do auto de infração, nem do termo de verificação fiscal a descrição específica da conduta dolosa a atrair a aplicação de multa qualificada. Como diz o professor Paulo de Barros Carvalho, no trecho acima reproduzido, não basta ao agente do fiscal “circunscrever os caracteres fáticos, fazendo breve alusão ao cunho doloso ou culposo da conduta do administrado”. Portanto, considerando essas circunstâncias e adotando os mesmos fundamentos da decisão do CARF, concluise pela impropriedade da multa qualificada. Com efeito, é de ser negado o recurso de ofício. Ante todo o exposto, nego provimento aos recursos voluntário e de ofício. É como voto. Jorge Olmiro Lock Freire relator. Fl. 665DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10469.905876/2009-47
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 27 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 25 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/07/2005 a 31/07/2005
COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO INCONTROVERSO.
É de se reconhecer o direito creditório utilizado em compensação declarada pelo contribuinte quando ratificado pelo próprio Fisco em atendimento à diligência.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3402-003.277
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(Assinado com certificado digital)
Antônio Carlos Atulim - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS ATULIM
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DIREITO CREDITÓRIO INCONTROVERSO. É de se reconhecer o direito creditório utilizado em compensação declarada pelo contribuinte quando ratificado pelo próprio Fisco em atendimento à diligência. Recurso Voluntário Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Antônio Carlos Atulim Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antônio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório A empresa em epígrafe enviou PER/DCOM, com base em crédito oriundo de suposto "pagamento indevido ou a maior". Foi exarado despacho decisório eletrônico que não homologou a compensação sob o fundamento de que só foram encontrados pagamentos, "mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP". AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 46 9. 90 58 76 /2 00 9- 47 Fl. 2887DF CARF MF Processo nº 10469.905876/200947 Acórdão n.º 3402003.277 S3C4T2 Fl. 3 2 O contribuinte manifestou sua inconformidade contra esse despacho, alegando que havia calculado as contribuições PIS/COFINS sobre seu faturamento total, quando, na verdade, a grande maioria de suas vendas são de frutas e verduras, as quais têm sua alíquota reduzida a 0% quando destinadas ao mercado interno, conforme art. 28 da Lei 10.865/2004. Contudo, alega que recalculou os impostos mas não retificou a DCTF, pelo que a RFB não teria encontrado a existência de crédito. Informa que para corrigir a situação foi feita retificação na DCTF relativa ao período. A DRJ/Recife julgou improcedente a manifestação de inconformidade. Contra essa decisão a empresa manejou recurso voluntário, no qual repisa o disposto em sua manifestação de inconformidade, juntando notas fiscais. A 2ª Turma Especial desta 3ª Seção, por meio da Resolução 3802000.046, converteu o julgamento em diligência nos seguintes termos: Assim, diante dos elementos constantes dos autos, voto para a conversão do presente julgamento em diligência a fim de que a unidade preparadora, frente à documentação anexa ao processo e demais documentos e esclarecimentos que julgar necessários indagar à suplicante, se manifeste sobre a COFINS efetivamente devida no período de que trata o pleito. Considerando que o presente é um dos 31 processos em nome da interessada que trata de aduzido direito creditório pelo pagamento indevido da COFINS nos anosbase de 2005 e de 2006, poderão ser elaborados, para fins de atendimento à presente diligência, relatório e, sendo o caso, planilha demonstrativa única, em que sejam discriminadas as bases de cálculo mensais, a COFINS efetivamente devida e a COFINS paga em cada um dos períodos correspondentes. Em seu Relatório de Diligência Fiscal, a DRF/Natal reconheceu o direito creditório do contribuinte, em montante suficiente para homologar a compensação declarada, assim concluindo: (...)Assim sendo, esta unidade preparadora oferece ao CARF parecer pugnando pelo provimento do Recurso Voluntário apresentado nos processos em epígrafe relacionados. É o relatório. Voto Conselheiro Antonio Carlos Atulim, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402003.260, de 27 de setembro de 2016, proferido no julgamento do processo 10469.903727/200943, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402003.260): Fl. 2888DF CARF MF Processo nº 10469.905876/200947 Acórdão n.º 3402003.277 S3C4T2 Fl. 4 3 "Emerge do relatado que a própria RFB entende que o contribuinte tem direito ao crédito utilizado na compensação declarada. Assim, diante do resultado da diligência fiscal, é de ser reconhecido o crédito utilizado na compensação declarada, cujo montante é suficiente para sua homologação. Diante do exposto, dou provimento ao recurso voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dáse provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o direito creditório utilizado na compensação declarada. (Assinado com certificado digital) Antonio Carlos Atulim Fl. 2889DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.720491/2009-25
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 21 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Aug 26 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005, 2006, 2007
RECONHECIMENTO DE OFÍCIO DE VÍCIO MATERIAL. IMPOSSIBILIDADE.
Não cabe o reconhecimento de nulidade, por eventual vício material, quando a matéria não tiver sido devidamente admitida, como objeto do recurso especial.
IRPF. VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV, CLASSIFICADOS A PARTIR DE INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA FONTE PAGADORA. INCIDÊNCIA.
Incide o IRPF sobre os valores de natureza remuneratória, ainda que classificados como indenizatórios pela fonte pagadora.
Precedentes do STF e do STJ.
IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE.
Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543-B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizando-se o regime de competência.
Recurso especial provido em parte.
Numero da decisão: 9202-004.043
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em não conhecer a preliminar de nulidade por vício material suscitada de ofício pela Conselheira Ana Paula Fernandes, vencidos os conselheiros Ana Paula Fernandes, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López. Por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, pelo voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Ana Paula Fernandes, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral. Votaram pelas conclusões os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Gerson Macedo Guerra.
(Assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator
EDITADO EM: 17/08/2016
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Maria Teresa Martinez Lopez (Vice-Presidente), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 RECONHECIMENTO DE OFÍCIO DE VÍCIO MATERIAL. IMPOSSIBILIDADE. Não cabe o reconhecimento de nulidade, por eventual vício material, quando a matéria não tiver sido devidamente admitida, como objeto do recurso especial. IRPF. VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV, CLASSIFICADOS A PARTIR DE INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA FONTE PAGADORA. INCIDÊNCIA. Incide o IRPF sobre os valores de natureza remuneratória, ainda que classificados como indenizatórios pela fonte pagadora. Precedentes do STF e do STJ. IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543-B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizando-se o regime de competência. Recurso especial provido em parte.
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IMPOSSIBILIDADE. Não cabe o reconhecimento de nulidade, por eventual vício material, quando a matéria não tiver sido devidamente admitida, como objeto do recurso especial. IRPF. VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV, CLASSIFICADOS A PARTIR DE INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA FONTE PAGADORA. INCIDÊNCIA. Incide o IRPF sobre os valores de natureza remuneratória, ainda que classificados como indenizatórios pela fonte pagadora. Precedentes do STF e do STJ. IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizandose o regime de competência. Recurso especial provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 04 91 /2 00 9- 25 Fl. 341DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 23 2 Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em não conhecer a preliminar de nulidade por vício material suscitada de ofício pela Conselheira Ana Paula Fernandes, vencidos os conselheiros Ana Paula Fernandes, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López. Por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, pelo voto de qualidade, em darlhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Ana Paula Fernandes, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Gerson Macedo Guerra e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral. Votaram pelas conclusões os conselheiros Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Gerson Macedo Guerra. (Assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente e Relator EDITADO EM: 17/08/2016 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Maria Teresa Martinez Lopez (VicePresidente), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10580.720254/200964. O presente Recurso Especial trata de pedido de Análise de Divergência motivado pelo Contribuinte, em face de Acórdão proferido em julgamento de recurso voluntário. Tratase de lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Física dos exercícios 2005, 2006 e 2007, anoscalendário 2004, 2005, e 2006, em razão de a autoridade fiscal ter classificado como rendimentos tributáveis, valores declarados como isentos ou não tributáveis tal como informado pela Fonte Pagadora Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Referidos rendimentos correspondem a diferença entre a transformação de Cruzeiros Reais para Unidade Real de Valor – URV, reconhecidas e pagas em 36 meses, de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, com base na Lei Estadual nº 8.730/2003 do Estado da Bahia. As diferenças recebidas teriam natureza eminentemente salarial, pois decorreram de diferenças de remuneração ocorridas Fl. 342DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 24 3 quando da conversão de Cruzeiro Real para URV em 1994, consequentemente, estariam sujeitas à incidência do imposto de renda, sendo irrelevante a denominação dada ao rendimento. Foi interposta impugnação foi indeferida em sede de julgamento de primeira instância. O Contribuinte interpôs Recurso, ao qual foi dado parcial provimento ao recurso para tão somente excluir a multa de ofício. O Contribuinte apresentou Recurso Especial ao qual foi dado parcial seguimento, para reapreciação apenas da matéria questão da natureza indenizatória, ou não. Em reexame, o exame de admissibilidade foi confirmado pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Apresentadas contrarrazões pela Fazenda Nacional, vieram os autos conclusos. É o relatório. Voto Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.026, de 21/06/2016, proferido no julgamento do processo 10580.720254/200964, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto vencedor proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.026): Em primeiro lugar, não conheço da preliminar de nulidade do lançamento, por vício material, suscitada de ofício pela Sra. Conselheira relatora. Com efeito, esta matéria não tendo sido admitida em sede de recurso especial, não está em discussão e, portanto, dela não conheço. Além disso, apenas para fins de esclarecimento, registrese que não vejo qualquer nulidade no lançamento da forma que ele foi realizado. Com efeito, o lançamento foi realizado com base em dispositivo vigente, cuja interpretação não havia sido considerada à época inconstitucional. Portanto, não há que se falar em nulidade. Entrando, agora, no mérito propriamente dito, entendo que a verba recebida tem caráter remuneratório e, assim, deve ser tributada. Questão dessa natureza já foi trazida, em 03/03/2015, Fl. 343DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 25 4 à 2ª Turma desta Câmara Superior, no acórdão 9202003.585. Naquela ocasião, acompanhei o voto do relator Alexandre Naoki Nishioka, entendendo tratarse de verba de natureza remuneratória, e por isso peço vênia para adotar aqui os mesmos argumentos como razão de decidir, assim transcrevendoos: (...) Conforme dispõe o art. 2º da referida Lei, tais valores são relativos a “diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para Unidade Real de Valor – URV”. Da leitura do artigo, denotase que o pagamento de tais valores deveuse à necessidade de manutenção do valor real do salário, de forma a corrigir erros anteriores no cálculo da conversão da moeda nacional. A lei estadual acima citada não buscou, por meio do pagamento das diferenças, a recomposição de um prejuízo, ou dano material, sofrido pelo contribuinte, mas a compensação em razão da ausência de oportuna correção no valor nominal do salário, verificada quando da alteração da moeda. Portanto, tais valores integram a remuneração percebida pelo contribuinte, constituindo parte integrante de seus vencimentos. Estáse diante, pois, de acréscimo patrimonial tributável pelo Imposto de Renda, nos termos do art. 43 do Código Tributário Nacional, entendimento que fora inclusive salientado pelo acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA). Buscando reforçar o argumento, requereu o contribuinte a aplicação da Resolução n.º 245 do STF, assim como de consulta administrativa realizada pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, os quais disporiam acerca da remuneração dos magistrados. No entanto, mencionadas normas não se aplicam ao fim pretendido pelo contribuinte, ao contrário do que decidiu o acórdão recorrido. Inicialmente, cumpre salientar que a dita resolução dispôs acerca da forma de cálculo do abono salarial variável e provisório de que trata o art. 2º e parágrafos da Lei n.º10.474/2002, considerandoo como de natureza indenizatória. Neste sentido, o inciso I do art. 1º trouxe a forma de cálculo deste abono: “I apuração, mês a mês, de janeiro/98 a maio/2002, da diferença entre os vencimentos resultantes da Lei nº 10.474, de 2002 (Resolução STF nº 235, de 2002), acrescidos das vantagens pessoais, e a remuneração mensal efetivamente percebida pelo Magistrado, a qualquer título, o que inclui, exemplificativamente, as verbas referentes a diferenças de URV, PAE, 10,87% e recálculo da representação (194%)”. A própria redação da Resolução excluiu do valor integrante do abono as verbas referentes à diferença de URV, de onde Fl. 344DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 26 5 se interpreta que esta não tem natureza indenizatória, mas de recomposição salarial. Tal tema inclusive já foi enfrentado pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, tendo este reconhecido as diferenças entre o abono salarial tratado pela norma e a diferença da URV, conforme se verifica de voto da Ministra Eliana Calmon: “Na jurisprudência desta Casa, colho os seguintes precedentes, que sempre distinguiram as hipóteses de percepção das diferenças remuneratórias da URV do abono identificado na Resolução 245/STF: (...)” (STJ, Recurso Especial n.º 1.187.109/MA, Segunda Turma, Ministra Relatora Eliana Calmon, julgado em 17/08/2010) E tal também foi o entendimento do Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, em decisão monocrática proferida nos autos do Recurso Extraordinário n.º 471.115, do qual se colaciona o seguinte excerto: “Os valores assim recebidos pelo recorrido decorrem de compensação pela falta de oportuna correção no valor nominal do salário, quando da implantação da URV e, assim, constituem parte integrante de seus vencimentos. As parcelas representativas do montante que deixou de ser pago, no momento oportuno, são dotadas dessa mesma natureza jurídica e, assim, incide imposto de renda quando de seu recebimento. No que concerne à Resolução no. 245/02, deste Supremo Tribunal Federal, utilizada na fundamentação do acórdão recorrido, temse que suas normas a tanto não se aplicam, para o fim pretendido pelo recorrido (...)” (STF, Recurso Extraordinário n.º 471.115, Ministro Relator Dias Toffoli, julgado em 03/02/2010) Concluise, portanto, pelo caráter salarial dos valores recebidos acumuladamente pelo Recorrente, razão pela qual deverão compor a base de cálculo do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física, nos termos do art. 43 do Código Tributário Nacional. Assim, com base na argumentação exposta, sendo verbas remuneratórias as diferenças de URV recebidas, sobre elas incide imposto de renda da pessoa física. Todavia, cumpre verificar o quantum devido. Entendo que o tributo devido deva ser calculado de acordo com as tabelas vigentes à época em que seriam devidas as diferenças recebidas. Sobre o tema, cabe referir a discussão travada no processo 11040.001165/200591, com voto vencedor da lavra do conselheiro Heitor de Souza Lima Junior, cujos fundamentos, abaixo reproduzidos, acompanho. Fl. 345DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 27 6 Verifico, a propósito, que a matéria em questão foi tratada recentemente pelo STF, no âmbito do RE 614.406/RS, objeto de trânsito em julgado em 11/12/2014, feito que teve sua repercussão geral previamente reconhecida (em 20 de outubro de 2010), obedecida assim a sistemática prevista no art. 543B do Código de Processo Civil vigente. Obrigatória, assim, a observância, por parte dos Conselheiros deste CARF dos ditames do Acórdão prolatado por aquela Suprema Corte em 23/10/2014, a partir de previsão regimental contida no art. 62, §2º do Anexo II do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Reportandome ao julgado vinculante, noto que, ali, se acordou, por maioria de votos, em manter a decisão de piso do STJ acerca da inconstitucionalidade do art. 12 da Lei no. 7.713, de 1988, devendo ocorrer a "incidência mensal para o cálculo do imposto de renda correspondente à tabela progressiva vigente no período mensal em que apurado o rendimento percebido a menor regime de competência (...)", afastandose assim o regime de caixa. Todavia, inicialmente, de se ressaltar que em nenhum momento se cogita, no Acórdão, de eventual cancelamento integral de lançamentos cuja apuração do imposto devido tenha sido feita obedecendo o art. 12 da referida Lei nº 7.713, de 1988, notese, diploma plenamente vigente na época em que efetuado o lançamento sob análise, o qual, ainda, em meu entendimento, guarda, assim, plena observância ao disposto no art. 142 do Código Tributário Nacional. A propósito, de se notar que os dispositivos legais que embasaram o lançamento constantes de efl. 12, em nenhum momento foram objeto de declaração de inconstitucionalidade ou de decisão em sede de recurso repetitivo de caráter definitivo que pudesse lhes afastar a aplicação ao caso in concretu. Deflui daquela decisão da Suprema Corte, em meu entendimento, inclusive, o pleno reconhecimento do surgimento da obrigação tributária que aqui se discute, ainda que em montante diverso daquele apurado quando do lançamento, o qual, repitase, obedeceu os estritos ditames da legalidade à época da ação fiscal realizada. Da leitura do inteiro teor do decisum do STF, é notório que, ainda que se tenha rejeitado o surgimento da obrigação tributária somente no momento do recebimento financeiro pela pessoa física, o que a faria mais gravosa, entendese, ali, inequivocamente, que se mantém incólume a obrigação tributária oriunda do recebimento dos valores acumulados pelo contribuinte pessoa física, mas agora a ser calculada em momento pretérito, quando o contribuinte fez jus à percepção dos rendimentos, de forma, assim, a restarem respeitados os princípios da capacidade contributiva e isonomia. Fl. 346DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.720491/200925 Acórdão n.º 9202004.043 CSRFT2 Fl. 28 7 Assim, com a devida vênia ao posicionamento do relator, entendo que, a esta altura, ao se esposar o posicionamento de exoneração integral do lançamento, se estaria, inclusive, a contrariar as razões de decidir que embasam o decisum vinculante, no qual, reitero, em nenhum momento, notese, se cogita da inexistência da obrigação tributária/incidência do Imposto sobre a Renda decorrente da percepção de rendimentos tributáveis de forma acumulada. Se, por um lado, manterse a tributação na forma do referido art. 12 da Lei nº 7.713, de 1988, conforme decidido de forma definitiva pelo STF, violaria a isonomia no que tange aos que receberam as verbas devidas "em dia" e ali recolheram os tributos devidos, exonerar o lançamento por completo a esta altura significaria estabelecer tratamento antiisonômico (também em relação aos que também receberam em dia e recolheram devidamente seus impostos), mas em favor daqueles que foram autuados e nada recolheram ou recolheram valores muito inferiores aos devidos, ao serem agora consideradas as tabelas/alíquotas vigentes à época, o que deve, em meu entendimento, também se rechaçar. Pelo exposto, voto no sentido de conhecer do RE do contribuinte na matéria admitida, por darlhe provimento em parte, para determinar o cálculo do crédito tributário devido, considerando o regime de competência. Em face do acima exposto, voto no sentido de não conhecer da preliminar de nulidade por vício material suscitada, conheço do Recurso Especial do Contribuinte para, no mérito, darlhe provimento parcial, para determinar o cálculo do tributo de acordo com o regime de competência. (Assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Fl. 347DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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Numero do processo: 10820.002240/2003-08
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 17 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Sep 12 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2002
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE DE AUTO DE INFRAÇÃO. INEXISTÊNCIA.
Não macula o lançamento a ausência da intimação para comprovação de matéria afeta à defesa do acusado em razão do caráter inquisitório do procedimento fiscal.
IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE. ANTECIPAÇÃO DO TRIBUTO DEVIDO.
A incidência do imposto sobre a renda retido na fonte não desobriga o contribuinte do dever de apuração anual do imposto devido por meio do preenchimento declaração de ajuste anual (DAA).
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO ARTIGO 12-A DA LEI Nº 7713/88.
A percepção de rendimentos recebidos acumuladamente e submetidos à incidência do IRPF com base na tabela progressiva, quando correspondentes a anos-calendários anteriores, devem ser tributados na forma do artigo 12A da Lei nº 7.713/88.
MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO.
Havendo lançamento de ofício é dever da autoridade lançadora a aplicação da multa de ofício, independentemente da intenção do agente, sob pena de responsabilidade funcional.
Numero da decisão: 2201-003.305
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do recurso, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, dar-lhe provimento parcial para determinar o recálculo do imposto sobre a renda recebida acumuladamente, descontada as despesas necessárias para o recebimento do valores decorrente da ação judicial, nos termos do artigo 12-A da Lei nº 7.713/88. Vencidos os Conselheiros Ana Cecília Lustosa da Cruz, Carlos César Quadros Pierre, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado) e Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada) que davam provimento ao recurso
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Carlos Alberto do Amaral Azeredo, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada), Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado), Daniel Melo Mendes Bezerra, Carlos César Quadros Pierre, Ana Cecília Lustosa da Cruz.
Nome do relator: CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA
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NULIDADE DE AUTO DE INFRAÇÃO. INEXISTÊNCIA. Não macula o lançamento a ausência da intimação para comprovação de matéria afeta à defesa do acusado em razão do caráter inquisitório do procedimento fiscal. IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE. ANTECIPAÇÃO DO TRIBUTO DEVIDO. A incidência do imposto sobre a renda retido na fonte não desobriga o contribuinte do dever de apuração anual do imposto devido por meio do preenchimento declaração de ajuste anual (DAA). RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. APLICAÇÃO DO ARTIGO 12A DA LEI Nº 7713/88. A percepção de rendimentos recebidos acumuladamente e submetidos à incidência do IRPF com base na tabela progressiva, quando correspondentes a anoscalendários anteriores, devem ser tributados na forma do artigo 12A da Lei nº 7.713/88. MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. Havendo lançamento de ofício é dever da autoridade lançadora a aplicação da multa de ofício, independentemente da intenção do agente, sob pena de responsabilidade funcional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do recurso, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, darlhe provimento parcial para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 0. 00 22 40 /2 00 3- 08 Fl. 284DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 2 determinar o recálculo do imposto sobre a renda recebida acumuladamente, descontada as despesas necessárias para o recebimento do valores decorrente da ação judicial, nos termos do artigo 12A da Lei nº 7.713/88. Vencidos os Conselheiros Ana Cecília Lustosa da Cruz, Carlos César Quadros Pierre, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado) e Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada) que davam provimento ao recurso CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente. CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Carlos Alberto do Amaral Azeredo, José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), Maria Anselma Coscrato dos Santos (Suplente convocada), Denny Medeiros da Silveira (Suplente convocado), Daniel Melo Mendes Bezerra, Carlos César Quadros Pierre, Ana Cecília Lustosa da Cruz. Relatório Tratase de Recurso de Voluntário interposto contra acórdão da 1ª Turma da DRJ Fortaleza que manteve, na integralidade, o lançamento tributário relativo ao IRPF supostamente devido no ano calendário de 2001, em razão reclassificação de rendimentos decorrentes de ação judicial de servidor público contra a Fazenda que o remunerava, pelos trabalhos por ele prestados e declarados como isentos ou não tributáveis . Tal crédito foi constituído por meio do auto de infração (fls. 63 do processo digitalizado), devidamente explicitado, pelo qual foi apurado o crédito tributário de R$ 2.877.757,95, que compreende imposto (R$ 39.166,24), juros de mora (R$ 11.687,20), multa proporcional (R$ 29.374,68), valores consolidados em outubro de 2003. A ciência do auto de infração, que contém o lançamento referente ao IRPF do anocalendário 2001, ocorreu em outubro de 2003, conforme se verifica pelo despacho de folhas 77. Em 26 de novembro de 2003 (fls 13), foi apresentada impugnação ao lançamento. A decisão da 1ª Turma da DRJ Fortaleza, consubstanciada no Acórdão 0810.079 de 30/01/07, foi pela procedência do procedimento de constituição do crédito tributário. O contribuinte foi cientificado, via postal, da decisão que contrariou seus interesses em 14 de fevereiro de 2007 (AR fls. 93). Em 09 de março seguinte, tempestivamente, interpôs recurso voluntário (fls. 95), contendo, basicamente, os mesmos argumentos da sua impugnação, a saber: · Nulidade do auto de infração por inadequação do instrumento, uma vez que por se tratar de procedimento interno revisão de declaração de rendimento deverseia ter realizado uma notificação de lançamento. Fl. 285DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 285 3 · Nulidade do lançamento em razão da ausência de intimação prévia ao procedimento realizado de ofício, o que cerceou o direito de defesa do contribuinte; · Ilegitimidade passiva, uma vez que os rendimentos pagos estão sujeitos ao IRRF o que desloca a responsabilidade para a fonte pagadora. · Impossibilidade da exigência de multa e juros da recorrente, em razão da tributação se dar pelo IRRF e portanto, eventuais penalidades devem ser imputadas à fonte pagadora. · Consideração das deduções dos gastos efetuados para obtenção da renda tributada, ou seja, as despesas judiciais incorridas. · Indevida incidência de juros pela taxa SELIC. Em 24 de agosto de 2011, por meio do Acórdão nº 220101.244 esta 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara desta 2ª Seção de Julgamento, decidiu pela procedência parcial do lançamento em razão da exclusão da multa de ofício. A decisão restou assim ementada (fls 124): "Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2002 NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA – Não é nulo acórdão de primeira instância que exaure a matéria contida na impugnação. PAF – NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO Comprovado que o procedimento fiscal foi feito regularmente, não se apresentando, nos autos, as causas apontadas no art. 59 do Decreto nº 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade processual, nem em nulidade do lançamento enquanto ato administrativo. IR FONTE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção (Súmula CARF nº 12). VERBAS TRABALHISTAS. Salvo nos casos de isenção expressamente previstas em lei, são tributáveis os valores recebidos em decorrência de acordo ou sentença em ação trabalhista, inclusive multas, juros compensatórios ou moratórios por atraso de pagamento dessas verbas, e quaisquer outras vantagens. Fl. 286DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 4 IR. COMPETÊNCIA CONSTITUCIONAL. A repartição do produto da arrecadação entre os entes federados não altera a competência tributária da União para instituir, arrecadar e fiscalizar o Imposto sobre a Renda. MULTA DE OFÍCIO. ERRO ESCUSÁVEL. Se o contribuinte, induzido pelas informações prestadas pela fonte pagadora, incorreu em erro escusável quanto à tributação e classificação dos rendimentos recebidos, não deve ser penalizado pela aplicação da multa de ofício. JUROS DE MORA TAXA SELIC INCIDÊNCIA A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso para rejeitar as preliminares argüidas e no mérito dar provimento parcial para excluir a multa de ofício por ter sido caracterizado erro escusável. Vencido o conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa." Inconformado, a Contribuinte interpôs embargos de declaração em 24 de dezembro de 2011 (fls. 144), alegando omissão na decisão em razão da ausência de apreciação da questão dos valores tributados terem natureza salarial, tendo sido recebidos acumuladamente por meio de ação judicial. Por meio do Acórdão de Embargos 2201001.824, esta 1ª Turma Ordinária, em sessão do dia 19 de setembro de 2012, decidiu que: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2002 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Constatado lapso manifesto por ocasião do julgamento do recurso, acolhemse os Embargos para que seja adotada a providência processual adequada à situação dos autos. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. SOBRESTAMENTO. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, existindo posicionamento das Cortes Superiores no sentido do sobrestamento previsto no art. 543B do CPC, cabe ao Conselheiro Relator do recurso, de ofício ou por provocação das partes, adotar os procedimentos previstos na Portaria CARF n° 001/2012, que regulamenta o art. 62A, §1o do anexo II do RICARF. Embargos Acolhidos. Acórdão Anulado. Fl. 287DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 286 5 Julgamento do Recurso Sobrestado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, ACOLHER os Embargos Declaratórios para ANULAR o Acórdão 220201.244, de 24/08/2011 e SOBRESTAR o recurso, conforme a Portaria CARF nº 1, de 2012." Por meio do despacho de folhas 280, o Sr Chefe da Seção de Controle e Acompanhamento Tributário, SACAT, da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Araçatuba/SP, atestou a ciência do contribuinte e o trânsito em julgado do RE 614.406/RS que justificava o sobrestamento do presente julgamento, e determinou o retorno do processo a este Colegiado. O recurso foi distribuído por sorteio eletrônico para este Conselheiro, em razão da Conselheira Relatora original não mais integrar este Conselho Administrativo. É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira O Recurso Voluntário teve sua admissibilidade atestada quando do julgamento que culminou no Acórdão 220101.244 anulado pelo Acórdão de Embargos 2201.001.824, como relatado. Com essa recordação, passo a analisálo. Antes porém, mister reconhecer que uma vez anulada a decisão prolatada em 24 de agosto de 2011 por meio do Acórdão de Embargos, esta deixou de produzir qualquer efeito no mundo jurídico, uma vez que o ato administrativo que a consubstancia foi retirado em razão da anulação decretada pela decisão colegiada. Assim, passamos a apreciar o recurso voluntário em sua inteireza, na ordem de suas alegações. NULIDADE DO LANÇAMENTO POR INADEQUAÇÃO DO INSTRUMENTO Alega a Recorrente que o lançamento tributário por meio de um auto de infração é nulo, vez que tal procedimento fiscal só pode decorrer de atividade externa. A simples leitura do Código Tributário Nacional espanca qualquer dúvida. Segundo o artigo 142, o lançamento constitutivo do crédito tributário é ato privativo da autoridade e deve conter, ou seja, são seus requisitos: a verificação da ocorrência do fato gerador, a matéria tributável, o cálculo do montante devido, a identificação do sujeito passivo e a aplicação da penalidade devida, quando cabível. Nesse mesmo sentido, e por óbvio que não poderia ser diferente, o Decreto nº 70.235/72, em seu artigo 9º, é claro em asseverar: Fl. 288DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 6 "Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito." (destaquei) O uso da conjunção alternativa é de uma clareza solar: constituiuse o crédito tributário de uma forma ou de outra, desde que instruídos com as provas que substanciam o direito de crédito do Fisco. Simples assim. Ao se observar no lançamento em análise os requisitos do artigo 142 do CTN e as formas prescritas no Decreto nº 70.235/72, além da competência da autoridade autuante (Lei nº 10.593/02, artigo 6º, inciso I), forçoso reconhecer a legalidade do procedimento de constituição do crédito tributário e, por óbvio, a inexistência da nulidade arguída. Do exposto, rejeito a preliminar de nulidade por inadequação do instrumento. NULIDADE DO LANÇAMENTO POR FALTA DE PROVIDÊNCIAS PRÉVIAS Consta do Recurso (fls 103): "No tópico acima, a recorrente alegou em sua reclamação que deveria ter recebido, antes do lançamento, intimação para prestar esclarecimentos sobre os fatos tributados. A propósito deste terna, altamente contraditória a fundamentação do ilustre Relator, às fls. 69, na parte em que, depois de dizer que "a autoridade autuante entendendo que dispunha de todos os documentos necessários para a lavratura do Auto de Infração, assim procedeu sem a oitiva do contribuinte", e de dizer que a contribuinte, tendo alegado que incorreu em despesas com advogado na ação judicial de que resultou o recebimento da renda tributada, teria que apresentar o comprovante no prazo da impugnação. Quando o julgador afirma que a autoridade lançadora, "entendendo que dispunha de todos os elementos necessários", já demonstra a dúvida ou ressaibo de dúvida que atacou ou deveria ter atacado a autoridade lançadora, dessa forma reconhecendo a necessidade do pedido de esclarecimentos, no caso de se entender que o lançamento deveria ser feito por notificação, ou de diligencia de fiscalização, se por auto de infração. Mas o pior é que, quando o julgador adita que a reclamante tinha o prazo da impugnação para apresentar o comprovante do gasto com advogado, desvela de uma vez a iniquidade praticada contra o contribuinte." (destaques não constam do recurso) Inferese do trecho transcrito e da leitura da apelação nesse ponto, que a alegada nulidade decorre da ausência de intimação do contribuinte para que prestasse esclarecimentos sobre os pontos fundantes do lançamento, em particular quanto às despesas incorridas pelo Contribuinte na percepção das verbas objeto da decisão judicial que lhe favoreceu. Fl. 289DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 287 7 Em que pese a opinião pessoal deste julgador no sentido das vantagens de uma fiscalização que conte com maior participação do sujeito passivo, é inegável que o procedimento fiscalizatório tem caráter inquisitório, ou seja, prescinde de uma dialética processual típica. Vejamos. Como dito, o procedimento fiscalizatório é um procedimento inquisitório, se caracterizando, portanto, justamente pela ausência de contraditório entre o Fisco e o Contribuinte. Preceitua o Código Tributário Nacional: "Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária." (destacamos)FL De plano se pode afirmar que é uma obrigação tributária acessória do sujeito passivo, a prestação negativa (ou seja, suportar) a fiscalização tributária. Está, por óbvio, se dará nos termos da legislação tributária, seja em caráter geral ou específico, em função do tributo que se pretende verificar, consoante se observa no artigo 194 e seguintes do Códex Tributário: Art. 194. A legislação tributária, observado o disposto nesta Lei, regulará, em caráter geral, ou especificamente em função da natureza do tributo de que se tratar, a competência e os poderes das autoridades administrativas em matéria de fiscalização da sua aplicação. Parágrafo único. A legislação a que se refere este artigo aplica se às pessoas naturais ou jurídicas, contribuintes ou não, inclusive às que gozem de imunidade tributária ou de isenção de caráter pessoal. Art. 195. Para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar mercadorias, livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais, dos comerciantes industriais ou produtores, ou da obrigação destes de exibilos. Parágrafo único. Os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram. Fl. 290DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 8 Art. 196. A autoridade administrativa que proceder ou presidir a quaisquer diligências de fiscalização lavrará os termos necessários para que se documente o início do procedimento, na forma da legislação aplicável, que fixará prazo máximo para a conclusão daquelas. Parágrafo único. Os termos a que se refere este artigo serão lavrados, sempre que possível, em um dos livros fiscais exibidos; quando lavrados em separado deles se entregará, à pessoa sujeita à fiscalização, cópia autenticada pela autoridade a que se refere este artigo. (...) Art. 200. As autoridades administrativas federais poderão requisitar o auxílio da força pública federal, estadual ou municipal, e reciprocamente, quando vítimas de embaraço ou desacato no exercício de suas funções, ou quando necessário à efetivação dê medida prevista na legislação tributária, ainda que não se configure fato definido em lei como crime ou contravenção." Claro remanesce que a fiscalização tributária decorre, e ao mesmo tempo é instrumento, do poder/dever que a Autoridade Tributária tem de prover os cofres públicos com as receitas derivadas destinadas ao custeio do Estado. Decorre do poder de império que cabe ao Estado, no interesse de toda a nação, de financiarse para o cumprimento dos deveres constitucionais a Ele impostos. O poder de fiscalização, decorre portanto, do próprio poder de tributação. Para exercêlo em sua plenitude, é obrigação do Estado verificar o cumprimento das obrigações tributárias por todos os contribuintes, ainda mais ao se recordar o princípio da isonomia tributária que determina que todos devem ser igualmente tratados, na medida de sua condição, perante a exação. Esse mister é executado por meio de um procedimento pelo qual a Administração Tributária busca colher provas, junto ao obrigado, da correção do cumprimento das obrigações, por esse adotado. Por óbvio que se trata de um procedimento investigatório decorrente de um poder de Estado. Procedimento investigatório dotado de caráter inquisitório, uma vez que tem por função precípua a produção de provas. Julio Fabrini Mirabette (Processo Penal, 10ª ed. Ed. Atlas, p. 77), assevera que não se aplica ao procedimentos inquisitório os princípios processuais, especificando "nem mesmo o do contraditório", em face de dos poderes de autodefesa do Estado, quanto mais ao se considerar que se trata de simples procedimento administrativo que será submetido, a posteriori, aí sim, ao processo administrativo, este totalmente adstrito ao contraditório e ampla defesa. É nesse sentido, de que o processo administrativo se diferencia basicamente do procedimento fiscalizatório pela inexistência, nesse último, do contraditório, que Paulo Cesar Conrado (Processo Tributário, 3ª ed. Quartier Latin, pag. 64) assevera: "Dando um passo adicional (...) suporemos, nos casos de lançamento, a notificação do contribuinte, ato que esgota a noção de contraditório, garantindo a necessária inter subjetividade da obrigação tributária, ademais de viabilizar a idéia de ampla defesa administrativa, materializada pelo Fl. 291DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 288 9 oportunidade que se abre ao contribuinte de oferecer impugnação ao Estadofisco." (negritos não são originais) Em suma, não há no procedimento de fiscalização a garantia ao contraditório, tampouco à ampla defesa. Tais garantias individuais são amplamente asseguradas ao sujeito passivo no bojo do processo administrativo, que se instaura com a pura acepção de contraditório que surge com a notificação do lançamento e da ampla defesa, explicitada pela impugnação ofertada pelo sujeito passivo inconformado com a norma individual e concreta introduzida pelo Estadofisco. Por todo o exposto, não cabe razão ao Recorrente ao afirmar que a ausência de intimação para prestação de esclarecimentos ou de realização de diligência no domicílio do contribuinte pelo Fisco, causou a perda da oportunidade do contribuinte em produzir as provas necessárias à comprovação de suas alegações, no caso, das despesas incorridas com a ação judicial proposta para a percepção dos valores que restaram tributados. Tais provas podem, e devem ser juntadas, após a instauração do processo administrativo fiscal. Tais conclusões estão em consonância com as disposições do Decreto nº 70.235/72, em especial com o conteúdo dos artigos 10 e 14 a 18. Assim, novamente rejeito a preliminar de nulidade constante do recurso. Passemos ao mérito. ILEGITIMIDADE DA IMPUGNANTE Entende a Recorrente (fls. 106): "Na seção com o nome acima a recorrente alegou que, ainda que fosse mesmo devido o imposto lançado, a fonte pagadora dos rendimentos que tinha a obrigação de reter o imposto na fonte, dai sua ilegitimidade para o lançamento. Essa alegação foi pelo julgador recorrido refutada sob o tópico "Omissão de rendimentos. Responsabilidade do beneficiário e da fonte pagadora.", que por sua vez será objeto de redargüição no tópico seguinte desta petição." (destaques não constam do recurso) Concordando com proposta do recorrente, analisemos tal argumento em conjunto com as alegações seguintes. IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO POR SER A OBRIGAÇÃO DA FONTE PAGADORA Consta da apelação: "São irrefragáveis, desconcertantes os fundamentos apresentados na impugnação quanto à improcedência do lançamento ante a obrigação de reter o imposto que tinha a fonte pagadora. Fl. 292DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 10 Isso, claro, se na espécie fosse mesmo o caso de a fonte pagadora estar obrigada a reter, já que essa fonte era o Estado de São Paulo, ao qual pertenceria o imposto acaso retido, assim a falta de retenção implicando renúncia A fundamentação da contribuinte foi feita com base em disposições do Código Tributário Nacional, de leis e de atos infralegais, todas essas disposições perfeitamente harmônicas, falando sempre a mesma linguagem na afirmação da responsabilidade da fonte pagadora, quando esta não for Estado, Distrito Federal ou Município. No caso, insiste a recorrente, sendo a fonte pagadora o Estado de Sao Paulo, o imposto de renda que seria devido na fonte lhe pertenceria, isso por força do disposto no artigo 157, inciso I, da Constituição Federal, não tendo a União competência para exigir o que ela dispensou." Não assiste razão à Recorrente. Para corroborar tal afirmação, necessário verificar a natureza jurídica da retenção do imposto de renda. Cediço que o imposto sobre a renda incide sobre aquilo que a lei, e somente ela, define como renda. Tal afirmação peremptória, em que pese a inúmera doutrina sobre tal conceito, decorre da simples determinação constitucional que a somente a lei complementar disporá sobre os fatos geradores, base de cálculo e contribuintes dos impostos discriminados na Carta da República (artigo 146, III, "a"). Tal missão coube ao Código Tributário Nacional, que explicitou no artigo 43: "Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior." (negritamos) Inegável, portanto, exceto por aqueles que constroem teorias apartadas do direito constitucional e do direito positivo, que o imposto sobre a renda incide sobre o produto do capital, do trabalho, da combinação de ambos e sobre todos os demais acréscimos patrimoniais não compreendidos nas situações anteriores. Simples assim! Ora, da definição acima cabe a inferência direta: contribuinte do imposto é aquele que aferiu renda, por ter incidido no fato gerador. Correto, mas não só esse. O próprio CTN, ao tratar do sujeito passivo, e novamente cumprindo seu papel constitucional de determinar os sujeitos passivos dos impostos, explicitou no artigo 45, parágrafo único: Art. 45. Contribuinte do imposto é o titular da disponibilidade a que se refere o artigo 43, sem prejuízo de atribuir a lei essa condição ao possuidor, a qualquer título, dos bens produtores de renda ou dos proventos tributáveis. Parágrafo único. A lei pode atribuir à fonte pagadora da renda ou dos proventos tributáveis a condição de responsável pelo imposto cuja retenção e recolhimento lhe caibam. Fl. 293DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 289 11 Forçoso recordar, por amor à clareza e a metodologia da interpretação científica, que tal comando em tudo e por tudo se coaduna com a determinação codicista da sujeição passiva tributária, que no artigo 121, explicita que são sujeitos passivos, o contribuinte, por ter relação direita com a ocorrência do fato gerador e o responsável, aquele que sem ser o contribuinte, tem a obrigação determinada pela lei. Com esses permissivos constantes da lei quadro tributária, o legislador competente, fez constar na lei tributária a previsão da retenção do imposto sobre a renda, em especial na Lei nº 7.713/88. Em regra, o imposto sobre a renda retido na fonte é mera antecipação tributária, devendo ser o imposto sobre a renda da pessoa física apurado anualmente, por meio da declaração de ajuste anual. Tal constatação, embora conhecida de todos, é importante para fixarmos que o contribuinte e a incidência tributária não se deslocaram com a forma de tributação disposta pela Lei nº 7.713/88, revelandose, o fonte, mera técnica arrecadatória. Em síntese: Contribuinte é aquele que auferiu renda. Responsável é aquele que pagou o rendimento auferida pelo contribuinte. Ambos sujeitos passivos do imposto sobre a renda, nos termos do artigo 121 do CTN. Diante do exposto, podemos concluir que o imposto sobre a renda retido na fonte (IRRF) é, em regra, mera antecipação tributária do imposto sobre a renda (IR) devido pelo contribuinte, ou seja, por aquele que auferiu renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho, da combinação de ambos e sobre todos os demais acréscimos patrimoniais não compreendidos nas situações anteriores. Como exceção, e aí teremos o IRRF como técnica arrecadatória, há situações que a lei determina que o fonte seja submetido ao regime da tributação exclusiva, isto é, tanto a renda quanto o tributo recolhidos não serão computados no ajuste anual. Não é o que se observa no caso concreto. Tal afirmação decorre da própria ação do contribuinte que, acertadamente, levou os valores percebidos a sua declaração de ajuste anual, ou seja, reconheceu corretamente como dito a necessidade da integração das parcelas percebidas na ação judicial na composição de sua renda anual. Tal constatação fulmina de morte os argumentos do Recorrente (fls. 108), que: "Se a lei diz que a fonte pagadora tem a obrigação de reter o imposto, e que, se não o fizer terá de reajustar o rendimento, considerando o valor pago como liquido e recolhendo o imposto sobre essa valor reajustado, só se pode entender que o valor recebido pelo beneficiário já está com o imposto pago. Portanto, se o fisco pudesse mesmo tributar o beneficiário pela percepção desse rendimento, teria de considerar também a retenção que, por ficção legal, ele sofreu." A afirmação acima não tem supedâneo legal. Ao reverso, a Lei 8.383/91, textualmente prescreve: "Art. 12. As pessoas físicas deverão apresentar anualmente declaração de ajuste, na qual se determinará o saldo do imposto a pagar ou valor a ser restituído. Fl. 294DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 12 (...) Art. 8° O imposto retido na fonte ou pago pelo contribuinte, salvo disposição em contrário, será deduzido do apurado na forma do inciso I do art. 15 desta lei." (negritei) A determinação legal não deixa dúvida e corrobora toda a argumentação acima apresentada. A renda auferida pelo trabalho está sujeita a retenção na fonte do imposto sobre a renda, que será compensada quando paga ou retida do apurado na declaração de ajuste anual (DAA), prestada pelo contribuinte. Ora, no caso em apreço, o contribuinte não sofreu a retenção devida e para cumprir a obrigação da apresentação da DAA, informou tal rendimento como isento ou não tributável, o que ensejou o lançamento de ofício. Necessário recordar que tal entendimento se encontra consolidado nesta Corte Administrativa. A Súmula CARF nº 12 corrobora tal afirmação: Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. Logo, não como se alegar ilegitimidade de sujeição passiva, tampouco inexistência de incidência do imposto sobre a renda decorrente dos rendimentos oriundos do trabalho. Com isso e pelo exposto, nego provimento ao recurso nessa parte. Por questão de logicidade da decisão, passarei a apreciar o argumento seguinte fora da ordem de apresentação em que ele consta da apelação. FORÇOSA DEDUÇÃO DOS GASTOS EFETUADOS PARA OBTER A RENDA Alega a Recorrente (fls 110): "Na seção com o titulo acima a recorrente explicou as razões pelas quais não comprovou as despesas que teve com a ação judicial que lhe ensejou o recebimento da renda tributada. Pediu ao final a nulidade do lançamento, por preterição de seu direito de defesa, e, acaso não declarada a nulidade, fosse reconhecida a improcedência do lançamento por esse motivo." Ao voltarmos os olhos para sua impugnação encontraremos às folhas 30 do processo digitalizado as seguintes razões sobre o tópico: "A dicção do artigo 12 da Lei n° 7.713/88 é terminante, categórica, ao prescrever que "o imposto incidirá sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas". A determinação do total a tributar já levará em conta os rendimentos diminuídos do valor das despesas, sendo pois a dedução um direito legalmente assegurado. (...) Fl. 295DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 290 13 Determinar é "precisar, indicar (algo) a partir de análise, de uma medida, de uma avaliação, definir, propor" . E foi o que o digno Auditor Fiscal da Receita Federal que lavrou o Auto de Infração não fez. Se a contribuinte foi ao Judiciário par a reivindicar o seu direito, necessariamente terá arcado com despesas, de viagens, de preparo dos papéis, de advogado e outras, que não lhe foram ressarcidas. E se arcou, como de fato arcou, com qualquer gasto que seja, seus rendimentos líquidos não são toda a quantia que lhe foi paga por força da decisão judicial. Agora, no exíguo prazo que restou para apresentação da defesa, depois que a impugnante perdeu alguns dias desse prazo para decidir o que fazer, em seguida ajustar advogado, por sinal de localidade situada a 110 quilômetros daquela em que reside, providenciar os documentos inicialmente solicitados, depois de o advogado estudar os elementos fornecidos e notar a necessidade da comprovação das despesas, não haverá tempo para comprovar todos os gastos havidos, e que poderiam ensejar dedução do rendimento bruto, fosse mesmo cabível a tributação. Na dicção do artigo 15 do Decreto n° 70.235/72, os documentos que comprovem fatos alegados na impugnação devem ser com esta apresentados. Contudo, como já explicado, não é possível à reclamante conseguir essa documentação no exíguo prazo que lhe resta, e a comprovação haveria de ter sido solicitada antes da lavra do Auto de Infração. Como não foi, e isso está trazendo prejuízo à defendente, cumpre à autoridade julgadora anular o ato constitutivo do crédito tributário. A contribuinte não pode ser prejudicada por erro do servidor." Perfeita a compreensão da Recorrente sobre o tema, pois a Lei 7.713/88 garante a dedução das despesas necessárias para o recebimento da ação. Imperfeita sua consecução, uma vez que tal dedução como reconhecido no recurso cabe ao contribuinte, por ser matéria de defesa, não podendo ser suposta pelo Fisco, como quer crer a Recorrente. A dialética processual é clara em imputar ao autor, a Administração Tributária, a prova de seu direito de crédito, o que se dá por meio da comprovação da ocorrência do fato gerador e da identificação do sujeito passivo. Já ao sujeito passivo, réu no processo, cabe a comprovação de fatos modificativos, impeditivos ou extintivos do direito do autor. No caso, a dedução de despesas é fato modificativo do direito de crédito e portanto, deve ser provado pela Contribuinte. Importantíssimo ressaltar que tal comprovação, ao menos em sua parcela mais significativa, não demanda tanto esforço por parte de quem incidiu nas despesas. As despesas com honorários advocatícios e eventuais despesas processuais, são por conhecidos por quem arcou com tais dispêndios e poderiam ser obtidas com relativa facilidade. Não obstante, tal comprovação não ocorreu na impugnação e tampouco no recurso que aqui se analisa. Fl. 296DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 14 Logo, não se pode admitir os argumentos da Recorrente quanto à nulidade da decisão de piso nessa parte. Porém, uma questão deve ser reconhecida. A forma de incidência do tributo, que foi objeto dos embargos que anularam a decisão que julgou o recurso que aqui se reaprecia. Muito em função da decisão, com efeitos de repercussão geral da decisão do Supremo Tribunal Federal, sobre o tema dos rendimentos recebidos de maneira acumulada, houve alteração da Lei nº 7.713/88, que passou a determinar que a percepção de rendimentos recebidos acumuladamente deva se dar exclusivamente na fonte em função da aplicação da tabela progressiva multiplicada pelo número de meses a que se refiram os rendimentos. Entendo, ainda mais ao se recordar os efeitos da decisão do Pretório Excelso, que deva se aplicar ao caso concreto as disposições da novel redação do artigo 12A da Lei nº 7.713/88. Em função do necessário recálculo do lançamento, decorrente da aplicação da novel legislação ao caso concreto, e com fulcro no artigo 142 do CTN, que explicita ser dever do Fisco a quantificação do tributo devido, entendo ser cabível a comprovação e consequente abatimento da despesas incorridas pela Recorrente e necessárias ao recebimento da ação judicial, desde que comprovadas em 30 dias contados da intimação desta decisão. Assim, voto para dar provimento ao recurso nessa parte. Voltemos à apreciação dos demais argumentos do recurso na ordem de sua apresentação. IMPOSSIBILIDADE DE EXIGIR MULTA E JUROS DA IMPUGNANTE E A INDEVIDA INCIDÊNCIA DE JUROS PELA TAXA SELIC São alegações da Contribuinte (fls 109) "No tópico com o nome acima a recorrente asseverou que, segundo expôs na seção "Ilegitimidade da impugnante Obrigação da fonte pagadora", e pelo que consta claramente do artigo 103 do Decretolei n° 5.844/43 e do artigo 722 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000/1999, especialmente de seu parágrafo único, a multa e os juros de mora não poderiam ter sido exigidos dela, e que, portanto, ainda que o imposto que lhe foi lançado fosse devido, não poderia ter sido acrescido da multa proporcional e de juros moratórios." Nesse ponto, melhor sorte não cabe à Recorrente. Não lhe assiste razão. Como visto acima, a Contribuinte é sim sujeito passivo da obrigação tributária principal representada pela imposto de renda da pessoa física recebido em razão de demanda trabalhista. Nesse sentido, houve claro inadimplemento do tributo devido, ensejando, inclusive, o lançamento de ofício. O Código Tributário Nacional é patente ao afirmar: Fl. 297DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Processo nº 10820.002240/200308 Acórdão n.º 2201003.305 S2C2T1 Fl. 291 15 'Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária.' (negritos não constam do texto legal) Ora, constado o inadimplemento, surge o poder/dever da Autoridade Autuante de lançar o valor do principal, acrescido das multas e juros previstos na legislação. Outro tema pacificado no âmbito deste Colegiado. Recordemos as Súmulas CARF nº 4 e 5: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Embora não tenha sido objeto de pedido específico, importante ressaltar que a aplicação de multa de ofício decorre de específica disposição legal, não cabendo, sob nenhum pretexto sua relevação, senão vejamos. Segundo o CTN, não pode a Autoridade Fiscal relativizar a aplicação da penalidade em razão da intenção do agente ao mesmo tempo que determina que no lançamento tributário deve, aquela autoridade, junto com a constituição do crédito aplicar a penalidade cabível: "Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional." (destaquei) Por seu turno, a Lei nº 9.430/96, prescreve: "Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: Fl. 298DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA 16 I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata;" (negritos não constam do texto legal) Inegável a incidência da multa de ofício. Não cabe ao julgador administrativo atuar fora dos ditames da estrita legalidade. Importa, ainda, ressaltar uma vez mais que a nulidade atribuída a decisão que julgou o recurso voluntário em 24 de agosto de 2011, por meio do Acórdão de Embargos, retira qualquer efeito que ela, a decisão anulada, tenha produzido no mundo jurídico e devolve para apreciação desta Turma Julgadora, a matéria constante do voluntário em sua inteireza. Recurso negado nessa parte. CONCLUSÃO Diante do exposto e pelos fundamentos apresentados, voto por conhecer do recurso, rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, darlhe provimento parcial para determinar o recálculo do imposto sobre a renda recebida acumuladamente, descontada as despesas necessárias para o recebimento do valores decorrente da ação judicial, nos termos do artigo 12A da Lei nº 7.713/88. assinado digitalmente Carlos Henrique de Oliveira Relator Fl. 299DF CARF MF Impresso em 12/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA, Assinado digitalmente em 09/ 09/2016 por CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA
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Numero do processo: 44023.000046/2006-30
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/01/2002, 01/07/2002 a 31/07/2002, 01/02/2003 a 31/03/2003
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14, DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.775
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14, DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 44 02 3. 00 00 46 /2 00 6- 30 Fl. 126DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10660.722287/201173. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14, de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo ofereceu contrarrazões, pugnando pela negativa de provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.650, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10660.722287/201173, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.650): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 127DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 4 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De início, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime, pacificou o entendimento de que, na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61, da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262, de 23/06/2016, cuja ementa a seguir se transcreve: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 128DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 5 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A, da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44, da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, é necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A, da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o parágrafo anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106, do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA, somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP, não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que, na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A, da Lei n° 8.212, de 1991, correspondente aos 75% previstos no art. 44, da Lei n° 9.430, de 1996. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32, da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingido pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime, proferido no Acórdãonº9202004.499, de 29/09/2016: Fl. 129DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 6 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 130DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 7 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 131DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 8 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 132DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 9 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Nesse passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 133DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 10 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 134DF CARF MF Processo nº 44023.000046/200630 Acórdão n.º 9202004.775 CSRFT2 Fl. 11 10 Em face ao exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, doulhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 135DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.001030/2008-27
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 23 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Oct 31 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/09/1999 a 28/02/2003
DECADÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. SÚMULA VINCULANTE N. 8 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212/91, conforme a Súmula Vinculante n° 8. O prazo decadencial das contribuições sociais submete-se às regras gerais de decadência, do Código Tributário Nacional
Numero da decisão: 3201-002.256
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto da Relatora.
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo- Relatora
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), José Luiz Feistauer de Oliveira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisario.
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Nome do relator: ANA CLARISSA MASUKO DOS SANTOS ARAUJO
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CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. SÚMULA VINCULANTE N. 8 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. O Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212/91, conforme a Súmula Vinculante n° 8. O prazo decadencial das contribuições sociais submetese às regras gerais de decadência, do Código Tributário Nacional Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do voto da Relatora. Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo Relatora (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento, os Conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), José Luiz Feistauer de Oliveira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Mercia Helena Trajano Damorim, Cassio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisario. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 10 30 /2 00 8- 27 Fl. 1141DF CARF MF 2 . Relatório Referese o presente processo a auto de infração para a cobrança de Cofins. Para bem relatar os fatos, transcrevese o relatório da decisão proferida pela autoridade a quo: 1. A empresa acima identificada foi submetida a procedimento fiscal. 2. Em 28/02/2007, a contribuinte tomou ciência do Termo de Início de Fiscalização (fls. 11/12 – V1), no qual dá ciência do início da fiscalização, e intima o contribuinte a apresentar documentos então solicitados, referentes à COFINS nos períodos de apuração de setembro a dezembro de 1999; janeiro a dezembro de 2000, 2001, 2002 e 2003; e janeiro de 2004. 3. Observese que os números de folha mencionados no presente processo correspondem à numeração digital dos arquivos denominados: “Volume V1”, “Anexo – A1V1”, “Anexo – A2V1” e “Anexo – A3V1”. 4. Foram lavrados Termos de Ciência e de Continuidade de Procedimento Fiscal, a fim de dar ciência à contribuinte da continuidade do Procedimento Fiscal relativo à COFINS, conforme fls. 15/19, 22 e 24 – V1. 5. A documentação apresentada pela contribuinte encontrase juntada às fls. 13/14, 20/21, 26/36, 39/60 (todas do V1), e nos anexos A2V1 e A3V1. O anexo A1V1 contém as DIPJ referentes aos anos calendário de 1999 a 2004. 6. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal lavrado em 31/03/2008 (anexo às fls. 61/63 V1), os arquivos da Secretaria da Receita Federal do Brasil acusaram, com relação aos anos calendário de 1999 a janeiro de 2004, a existência de valores de contribuições à COFINS constantes na DIPJ, divergentes dos valores declarados em DCTF e pagos. 7. Consta ainda no referido Termo, que no decorrer da fiscalização, com base nos documentos fiscais da contribuinte, foram constatadas diferenças na COFINS, tendo sido elaborada uma planilha (anexa às fls. 64/77) contemplando mês a mês as receitas brutas, deduzidas das respectivas devoluções de vendas, mais as receitas financeiras, apurandose o valor real da COFINS devida. Do valor devido apurado nesta planilha, foram deduzidos os valores declarados em DCTF e/ou pagos, resultando ao final em diferença apurada. 8. Ao término dos trabalhos de auditoria fiscal foi lavrado, em 31/03/2008, Auto de Infração (anexo às fls. 89/94 – V1) para a constituição dos créditos tributários devidos à Contribuição Para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, relativos Fl. 1142DF CARF MF Processo nº 19515.001030/200827 Acórdão n.º 3201002.256 S3C2T1 Fl. 94 3 a valores não declarados e não recolhidos nos períodos de apuração de setembro a dezembro de 1999; janeiro a dezembro de 2000, 2001, 2002 e 2003; e janeiro de 2004. 9. O referido Auto de Infração inclui o tributo calculado, multa de ofício e juros de mora calculados até 29/02/2008, num total de R$3.466.772,86 (três milhões, quatrocentos e sessenta e seis mil, setecentos e setenta e dois reais e oitenta e seis centavos). 10. Os demonstrativos do cálculo dos juros e demais acréscimos legais, bem como o enquadramento legal, encontramse detalhados no referido Auto de Infração. 11. A interessada tomou ciência do Auto de Infração pessoalmente, em 31/03/2008 (fl. 89), e interpôs impugnação de fls. 99/107 em 29/04/2008, alegando, em síntese, que: 11.1 Apresenta impugnação parcial ao auto de infração lançado. 11.2 A impugnante estava sujeita ao pagamento da COFINS incidente sobre o faturamento, nos termos da Lei n° 9.718/98. 11.3 Referido diploma legal inovou ao determinar que a exação em tela passaria a ser exigida sobre a receita bruta da empresa e não mais sobre o seu simples faturamento. 11.4 Esta majoração da base de cálculo foi amplamente questionada, tendo em vista afronta ao ordenamento jurídico. 11.5 O Supremo Tribunal Federal pacificou entendimento quanto à inconstitucionalidade da cobrança da Contribuição ao PIS e da COFINS sobre a receita bruta, não obstante a posterior alteração promovida pela Emenda Constitucional n° 20/98. Dessa forma, ainda que incidenter tantum, a Corte Constitucional declarou inconstitucional a exigência das contribuições sociais em comento sobre as receitas não operacionais, tais como receitas financeiras e receitas cambiais e o próprio ICMS. 11.6 Ressalta que não pretende trazer aos presentes autos a discussão sobre a inconstitucionalidade e ilegalidade do mencionado diploma legal, visto que tal discussão será levada ao Poder Judiciário. 11.7 Informa, que através de sua associação de classe obteve liminar que garantiu o nãorecolhimento da COFINS nos termos da Lei nº 9.718/98, que foi posteriormente cassada e o mandado de segurança coletivo julgado extinto sem julgamento do mérito. 11.8 Autoridade Fazendária Federal permaneceu inerte no tocante ao valor não recolhido até o lançamento ora combatido, o qual tomou ciência apenas no dia 31/03/08. 11.9 A data de ciência comprova o transcurso do prazo decadencial para lançamento dos valores devidos nos anos de 1999 a fevereiro de 2003, nos termos do artigo 150 do Código Tributário Nacional. Fl. 1143DF CARF MF 4 11.10 A comprovar a sua boafé, a impugnante providenciou o pagamento dos valores que não foram alcançados pela decadência nos termos da tabela acostada (anexa à fl. 166). 11.11 No Direito Tributário, com intuito de resguardar a segurança jurídica, o artigo 173 do Código estabelece o prazo de 05 (cinco) anos para que o fisco constitua o crédito tributário, contado do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ser lançado. 11.12 No caso de tributos sujeitos ao chamado lançamento por homologação, como é o caso da COFINS, o dies a quo para contagem do prazo de cinco anos é a data de ocorrência do fato gerador, nos termos do parágrafo 4º , do artigo 150 do Código Tributário Nacional. 11.13 É evidente a decadência, in casu, dos valores lançados a título de COFINS referentes supostos créditos lançados dos períodos anteriores a março de 2003. 11.14 Com relação aos débitos posteriores, em relação aos quais a impugnante irá reclamar seu indébito em Juízo, reitera que efetuou o respectivo recolhimento. 11.15 Cita doutrina e decisões administrativa e judicial para corroborar com seus entendimentos. 11.16 Requer o cancelamento parcial do lançamento, em especial aos valores referentes aos períodos anteriores à março de 2003, tendo em vista a decadência de tais valores; e protesta por todos os meios de prova admitidos, em especial, pela juntada de novos documentos que se fizerem necessários (nomeadamente os DARF dos valores relativos ao restante do Auto de Infração), ou mesmo através de nova diligência fiscal. A Delegacia de Julgamento julgou procedente em parte a impugnação, em decisão assim ementada: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/09/1999 a 28/02/2003 LIMITES DO LITÍGIO. O exame da Turma de Julgamento deve cingirse aos limites do litígio, não cabendo a análise sobre a parcela do crédito tributário não impugnada. DILIGÊNCIA. Considerase não formulado o pedido de diligência que deixa de atender aos requisitos previstos em lei. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/09/1999 a 28/02/2003 Fl. 1144DF CARF MF Processo nº 19515.001030/200827 Acórdão n.º 3201002.256 S3C2T1 Fl. 95 5 DECADÊNCIA. A COFINS é tributo sujeito a lançamento por homologação. Sendo assim, havendo pagamento, ainda que parcial, e não ocorrendo as hipóteses de dolo, fraude ou simulação, aplicase o disposto no art. 150, § 4º do CTN. No entanto, inexistindo pagamento ou verificada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, aplicase o disposto no art. 173, I do CTN, segundo o qual, o prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Na decisão recorrida, em síntese, os créditos tributários referentes aos períodos de apuração de março de 2003 a janeiro de 2004, estão extintos pelo pagamento, conforme pesquisa efetuada no SIEF . Quanto aos demais períodos, correspondentes aos períodos de apuração de setembro de 1999 a fevereiro de 2003 em face da declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, com o reconhecimento, pelos ministros do STF, de que apenas lei complementar pode dispor sobre normas gerais em matéria tributária, como a decadência, nos termos do artigo 146, inciso III, alínea “b”, da Constituição Federal, deve ser observado pela Administração Pública, o prazo quinquenal, previsto no art. 150, §4o do CTN. É o relatório. Voto Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Relatora O presente recurso preenche as condições de admissibilidade, pelo que dele tomo conhecimento. Tratase de recurso de ofício de decisão que exonerou o crédito tributário, pela aplicação da Súmula Vinculante n. 8, decorrente de auto de infração para a cobrança de Cofins e consectários. Os créditos tributários relativos a COFINS, dos períodos de apuração de setembro de 1999 a janeiro de 2003 ficam sujeitos à observância do prazo decadencial previsto no artigo 150, § 4º do CTN, tendo em vista que o auto de infração foi cientificado à contribuinte em 31/03/2008 e houve pagamento antecipado. Fl. 1145DF CARF MF 6 Assim, considerandose os ditames do art.150,§4o do CTN, que se aplicam às contribuições sociais, por força do entendimento veiculado pela Súmula Vinculante n. 8, é de se reconhecer o argumento da Recorrida, no sentido de que o período compreendido na autuação foi atingido pela decadência. O Pleno do Supremo Tribunal Federal reconheceu a decadência das contribuições sociais, nos Recursos Extraordinários 559.9434, 559.8829, 560.6261 e 556.6641, com base nas regras do Código Tributário Nacional, declarando a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212/91, o que culminou na edição da Súmula Vinculante n° 8, in verbis: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5o do Decreto lei n° 1.569/1977 e os artigos 45 e 46 da Lei n. 8.212/1991, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Sobre os efeitos da súmula vinculante, o artigo 103A da Constituição Federal de 1988, incluído pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004, prescreve que terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. Em face do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo Fl. 1146DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.720506/2014-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 05 00:00:00 UTC 2016
Numero da decisão: 1201-000.227
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator
Nome do relator: LUIS FABIANO ALVES PENTEADO
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA - Presidente. (assinado digitalmente) LUIS FABIANO ALVES PENTEADO - Relator. EDITADO EM: 20/11/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, José Roberto Adelino da Silva (suplente convocado) e Paulo Cezar Fernandes de Aguiar. Fl. 1851DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 2 2 Relatório Fora constatada, no ano-calendário (AC) de 2009, omissão de receita da atividade caracterizada pela falta de emissão de notas fiscais de serviços prestados. Ocorrera, então, o arbitramento do lucro com fundamento no art. 530, III do RIR/1999, tendo em vista que, sendo intimado, o contribuinte, ora recorrente, não apresentou as notas fiscais e folhas de pagamento, o que impossibilitou a verificação da adequação dos lançamentos contábeis com os respectivos fatos, não permitindo a comprovação da correta apuração do lucro real. O crédito tributário exigido neste processo está composto dos seguintes montantes: IRPJ - R$ 18.263.317,35 CSLL -R$ 5.505.507,26 COFINS - R$ 5.746.435,23 PIS - R$ 1.245.061,00 Consta no processo que o contribuinte apresentou DIPJ/2010 tendo como forma de tributação o lucro real. Foi intimado e reintimado a apresentar os livros Diário e Razão, arquivos de notas fiscais de entrada e de saída de mercadorias e/ou serviços, arquivos digitais das folhas de pagamento de todos os segurados, os comprovantes de retenção de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, sofrida em 2009, e apresentou apenas a DIPJ/2010, os contratos sociais e uma planilha contendo o nº das notas fiscais, valor da nota e valor da retenção da contribuição previdenciária e nome do tomador do serviço. A fiscalização, então, enviou ofício para as Prefeituras de São Paulo e Campinas, solicitando os arquivos de notas fiscais emitidas pelo contribuinte no ano de 2009 e obteve as relações contendo informações das notas fiscais que se encontram no “Anexo 5”. Constatou o fisco que a soma dos valores das notas fiscais informados pelas prefeituras era maior do que os valores declarados pela contribuinte na DIPJ e no Dacon. O lançamento de ofício concretizou essas diferenças apuradas como receitas omitidas, sendo arbitrado o lucro com base nestas e naquelas declaradas pelo contribuinte. Foi aplicada a multa de 225% pela falta de apresentação de esclarecimentos, livros e documentos e de escrituração de parte das receitas auferidas no ano-calendário. Foi atribuída responsabilidade solidária ao sócio e administrador da contribuinte Wagner Martins, com fundamento nos arts. 124, I, e 135 do CTN. Impugnação A impugnação apresentada trata dos seguintes pontos: Fl. 1852DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 3 3 Decadência para constituição do crédito tributário referente aos fatos geradores compreendidos entre janeiro a abril de 2009. Defendeu-se que o prazo decadencial deve ser contado conforme o previsto no art. 150, § 4º do CTN, uma vez que o arbitramento foi feito com base nas receitas declaradas em DIPJ, Dacon, DCTF e na contabilidade, não podendo se falar em dolo, fraude. Argumentou que mesmo sobre a receita omitida o prazo decadencial deve ser contado da ocorrência do fato gerador, uma vez que não houve comprovação da ocorrência do dolo e houve pagamento antecipado declarado via DCTF. Expôs que o lançamento é nulo, pois o fisco utilizou para calcular o IRPJ a forma de apuração trimestral, enquanto o contribuinte fez a opção pelo regime de tributação do lucro real anual. Esse fato ofenderia o disposto na Lei nº 9.249, de 1995, art. 24 e o RIR, de 1999, art. 288, e agravaria o lançamento do crédito tributário. Também se alegou que o fisco não teria como apurar o lucro anual, haja vista que o próprio agente fiscal expressamente afirma que o arbitramento dos lucros foi feito com base no Dacon, DIPJ, Sped e contabilidade da empresa. Arguiu que é improcedente a exigência da multa de 150% sobre as receitas declaradas: embora o argumento do fisco autorize a aplicação da multa qualificada somente sobre a receita omitida, referida multa também foi aplicada equivocadamente sobre a receita declarada. Suscita a nulidade do agravamento da multa (art. 957, II, do RIR/1999) sobre as receitas omitidas: o fisco concluiu que a soma dos valores das notas fiscais informadas pelas prefeituras era maior que os valores declarados pela contribuinte e lavrou o auto de infração sem intimar a fiscalizada a explicar as diferenças constatadas. Entendeu que o autuante não quantificou a sonegação, uma vez que não apontou quais as notas fiscais específicas teriam sido não declaradas, sendo imprescindível a intimação formal para que a empresa pudesse demonstrar a incorreção dos valores apontados. Suscita também a nulidade do lançamento do PIS e Cofins: o fisco tributou novamente as receitas já declaradas e constituídas, em DCTF, pela contribuinte a título de PIS e Cofins, o que constitui bis in idem. Relata que o arbitramento é improcedente, pois não houve recusa em entregar os documentos solicitados pela fiscalização. Teria entregue parcialmente os documentos solicitados e quando não era possível atender a intimação por completo, a impugnante formulava pedido de dilação de prazo. Considerando a grande quantidade de empregados e notas emitidas mensalmente, o impugnante, ora recorrente, argui, em seu favor, que precisava de prazo razoável para que fosse possível reunir todas as informações solicitadas pelo fisco. Alega que o arbitramento somente poderia ocorrer caso o contribuinte deixasse de apresentar ao fisco os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o livro Caixa. Ocorre que esses documentos já estavam em posse do agente fiscal, segundo o contribuinte. Tanto é assim, afirma, que o autuante atesta que o arbitramento foi realizado com base no Dacon, DIPJ, Sped e contabilidade da empresa. Fl. 1853DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 4 4 Conclui o impugnante, ora recorrente, que apesar de não ter conseguido reunir todas as notas fiscais que comprovam a retenção, a autoridade tributária detinha outras maneiras de confirmar as retenções declaradas, seja por meio de consulta às Dirf das fontes pagadoras, seja através da relação das fontes pagadoras disponíveis no site da RFB, através do e-cac. Teriam ocorrido erros de digitação no Anexo 7 (que foram transportados para o Anexo 8), que majoraram as receitas omitidas em R$ 2.326.428,37. Cita-se como exemplo, a nota fiscal nº 9263 em que o valor correto seria R$ 16.576,33 (anexo 5) mas foi lançada no anexo 7 a nota com valor de R$ 1.657.633,00. Além dos erros de digitação, teria o fisco deixado de excluir uma série de notas fiscais canceladas que constaram no Anexo 5. Como exemplo, citam-se as notas fiscais 6967 e 8902, nos valores respectivos de R$ 9.601,32 e R$ 1.759,33, as quais constam como canceladas no Anexo 5 (informações das Prefeituras), mas foram indevidamente lançadas no Anexo 7. Segundo o impugnante, ora recorrente, não houve comprovação de ação dolosa para a qualificação da multa, que se deu exclusivamente em virtude de ter sido constatada omissão de receitas. Tais receitas omitidas foram obtidas por meio de relação de notas fiscais emitidas pela própria impugnante, o que comprova que não há prova de dolo. Haveria ilegalidade do agravamento da multa de 150% para 225%: alega-se que a falta de apresentação de livros e documentos foi utilizada como fundamento para o arbitramento do lucro e para o agravamento da multa de ofício, o que é ilegal. Argui que do total de R$ 1.846.057,61 que foi declarado como imposto antecipado pela impugnante em DIPJ e Dacon, a Receita Federal já possui confirmado o total de R$ 1.055.961,87, que já foi recolhido pelos tomadores de serviços. Conclui, então, que não seria lícita a conduta do fisco, que penalizou a contribuinte simplesmente porque não conseguiu confirmar as retenções que foram corretamente declaradas em Dacon e DIPJ. A exigência de confirmação de recolhimento dos valores retidos para homologação da compensação declarada pela impugnante é improcedente. Por fim, pugna pela impossibilidade de manutenção do Termo de Arrolamento. No caso de provimento da impugnação, o arrolamento deveria ser revisto. Impugnação do Responsável – Wagner Martins O responsável solidário Wagner Martins apresentou a impugnação, em suma delineando os seguintes pontos: Não tem legitimidade para figurar no termo de arrolamento, pois não restou comprovado que tenha praticado ato com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. Fl. 1854DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 5 5 Nulidade do termo de arrolamento formalizado sem a instauração de mandado de procedimento fiscal (MPF). Segundo o impugnante, trata-se de responsabilidade pessoal e não responsabilidade solidária, devendo os bens do impugnante serem exonerados. Não há provas de que o impugnante agiu com dolo, tendo em vista que emitiu notas fiscais, mas o setor contábil incorreu em erro e não repassou tais informações para a DIPJ. Impossibilidade de formalização de termo de arrolamento de bens do sócio, em face de inexistência de previsão legal. Os bens que devem ser arrolados são do sujeito passivo. A formalização do termo de arrolamento de bens do sócio fere o princípio da legalidade (art. 5º, II, e 150, I, da Constituição Federal – CF). Neste passo alega que somente poderá ser formalizado o termo de arrolamento depois da decisão final administrativa comprovando cabalmente a infração à lei e, se eventualmente o sujeito passivo não honrar com os supostos débitos imputados. Prossegue afirmando que o termo de arrolamento é medida excepcional, que não pode ser decretada com apoio exclusivo em supostos débitos da pessoa jurídica, até porque a insuficiência de bens necessários à satisfação das dívidas contraídas consiste, a rigor, em pressuposto para a decretação da falência e desconsideração da personalidade jurídica, o que não ocorreu. Há necessidade de desconsideração da personalidade jurídica para arrolamento dos bens do sócio. Por fim, esclarece que não existem os requisitos constantes do art. 50 do Código Civil, quais sejam: a) abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade; b) confusão patrimonial, aptos a ensejar o redirecionamento do pleito executivo. Acórdão nº 14-55.600 – 3ª Turma da DRJ/RPO Nulidade Fora julgada improcedente a alegação de nulidade sob a fundamentação de que, segundo o art. 60 do PAF, as irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no art.59 não importarão em nulidade do lançamento e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo. Decadência Firmou-se o entendimento de que, por estar caracterizada a ocorrência de fraude no período autuado, a contagem do prazo decadencial deslocara-se para o art. 173, I, do CTN, ou seja, seu início se deu no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Fl. 1855DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 6 6 Dessa forma, o prazo decadencial iniciou-se em 01/01/2010 findando em 31/12/2014. Tendo a ciência do auto de infração ocorrido em 28/05/2014, julgou-se que não há que se falar em decadência do direito de lançar referidos tributos. Arbitramento Delineou-se, inicialmente, que o uso do arbitramento impõe-se como dever legal e é ato vinculado da autoridade fiscal. Ademais, constatou-se que consta no processo que a DIPJ/2010 foi apresentada com a opção pela tributação pelo lucro real anual e, quando intimada e reintimada a apresentar o livro Diário e o Razão, os arquivos de notas fiscais de entrada e de saída de mercadorias e/ou serviços, arquivos digitais das folhas de pagamento de todos os segurados, e os comprovantes anuais de retenção na fonte sofrida, o contribuinte nada apresentou. Assim, entendeu-se que não há que se falar em falta de intimação para comprovação das diferenças apuradas, de modo que a contribuinte foi intimada várias vezes e teve tempo mais do que suficiente, mas não apresentou os elementos solicitados. Constatou a fiscalização que o contribuinte transmitiu a sua Escrituração Contábil Digital (ECD) via Sped, porém sem a devida autenticação na Jucesp. Sendo intimada, em 07/02/2014, a regularizar essa situação, a contribuinte não atendeu a solicitação. Entendeu-se, então, que ainda que estivesse desobrigada de escriturar o livro Razão, o Contribuinte, ora recorrente, tinha o dever de apresentar o livro Diário e os demais documentos solicitados pela fiscalização. Não tendo sido apresentados os documentos pelo contribuinte não restou alternativa à fiscalização a não ser o arbitramento do lucro, como previsto na legislação. Concluiu-se que, tendo ocorrido a hipótese para o arbitramento, ele deve ser mantido, pois não há arbitramento condicional. Erros Analisando os Anexos 7 e 8 e o demonstrativo de fls.756 a 794, verificou-se que assiste razão à contribuinte quanto à nota fiscal nº 9263, pois consta à fl. 785 que é de R$ 16.576,33 o valor da referida nota. Coube, portanto, a autoridade julgadora corrigir esse erro e alterar o valor dos tributos devidos. Quanto às demais diferenças indicadas na impugnação à fl.985, cumpriu registrar-se que não foram apontadas as notas fiscais relativas a tais diferenças, motivo pelo qual entendeu-se pela impossibilidade de análise da alegação quanto a esses valores. Compulsando o relatório de notas fiscais apresentado pelas Prefeituras, verificou-se que as notas fiscais constam como canceladas (fls. 757 e 781) e foram incluídas no Anexo 7. Parte das notas fiscais “canceladas” foram de fato excluídas da tributação, no entanto, o autuante não informou a razão por que não excluiu as de nº 6967 e 8902 da tributação. Fl. 1856DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 7 7 Prestou-se, então, o julgador a proceder a sua exclusão, atingindo as bases de cálculo discriminadas no demonstrativo abaixo: Fl. 1857DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 8 8 Fl. 1858DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 9 9 Dedução. IRRF. Quanto à alegação de que, no lançamento não houve a dedução dos valores do IRRF, entendeu-se não assistir razão à contribuinte, uma vez que somente se admite tal dedução se as receitas que deram causa às retenções tiverem sido computadas na determinação do imposto exigido no auto de infração. Ainda que constassem informações de retenções nas Dirf existentes nos sistemas internos da RFB, firmou-se ser imprescindível a comprovação de que as receitas sobre as quais incidiram tais retenções foram devidamente computadas na determinação do lucro real. Entendeu-se que a prova deveria ser feita por meio da apresentação dos “informes de rendimentos” fornecidos pelas fontes pagadoras e da contabilidade da contribuinte, documentos não apresentados durante a fiscalização, apesar das várias intimações feitas pelo fisco. O mesmo racional fora adotado para aniquilar qualquer possibilidade de nulidade de PIS e Cofins. Nulidade do lançamento do PIS e Cofins Quanto aos débitos de PIS e Cofins declarados em DCTF como tendo sido compensados por meio de Dcomp, confirmara-se a existência da confissão de valores não considerados pela fiscalização, que, desta forma, foram excluídos pela autoridade julgadora. O demonstrativo abaixo perfaz os valores restantes, devidamente exigíveis de PIS e Cofins: Multa de Ofício. Qualificada. Agravada. Notou-se que foram omitidas receitas em todos os meses do ano-calendário de 2009, o que descarta a possibilidade de erro, devendo ser mantida a exigência da multa qualificada sobre os valores de receita omitida. Entretanto, com relação às receitas declaradas, entendeu-se que não há que se falar em ação dolosa tendente a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária ou o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal. Fl. 1859DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 10 10 Portanto, quanto aos tributos relativos a essas receitas declaradas, entendeu-se pela redução da multa de ofício para 112,5%. Com relação ao agravamento da multa em 50%, da análise dos autos constatou- se que o presente caso se enquadrou perfeitamente na hipótese prevista no inciso II do §2º do art. 44 da Lei nº 9430/96, ou seja, sendo intimada o contribuinte não apresentou os arquivos digitais solicitados. Dessa forma, tendo ocorrido a hipótese descrita na lei, deve-se manter o agravamento da multa de ofício em 50%, tal como previsto no § 2º acima. O demonstrativo abaixo presta-se a representar a desoneração da multa qualificada quanto aos valores declarados: Inconstitucionalidade Fl. 1860DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 11 11 Com relação às alegações de ofensa a princípios constitucionais, esclareceu-se que a autoridade administrativa não tem competência para analisar tais questões, sendo esta competência atribuída em caráter privativo ao Poder Judiciário pela CF, no art. 102. Termo de Arrolamento de Bens Entendeu-se que, no tocante ao arrolamento de bens, tem-se a observar que, conforme disposições contidas na Instrução Normativa RFB nº 1171, de 2011, deve ser efetuado, para garantia do crédito tributário, sempre que esse ultrapassa, simultaneamente, trinta por cento do patrimônio conhecido do sujeito passivo e R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais). Todavia o arrolamento é formulado em apartado e não compõe o processo de exigência de crédito tributário, não se inserindo no âmbito de competência do colegiado, definida no art. 212 da Portaria MF nº 125, de 2009, o pronunciamento acerca da regularidade do procedimento de arrolamento efetivado pela autoridade lançadora. Termo de Sujeição Passiva Solidária Verificou-se no processo que Wagner Martins exerceu a gerência da sociedade e agiu com excesso de poderes e infração à lei ao omitir receitas durante todo o ano-calendário de 2009 e reduzir os tributos devidos. Segundo a autoridade julgadora, essa conduta reiterada de omitir receitas configurou a ocorrência de fraude, nos termos da Lei nº 4.502, de 1964, art. 71, portanto a ocorrência do dolo e a infração à lei. Assim, sendo Wagner Martins sócio com poderes de gestão à época, julgou-se correta a imputação de sujeição passiva solidária, nos temos do CTN, art. 135, III. Quanto à inclusão da pessoa acima citada no pólo passivo como responsável solidário, nos termos do art. 124, I, do CTN, esclareceu-se que se trata de solidariedade de fato, na qual uma pessoa é solidária quando realiza conjuntamente com outra, ou outras pessoas, a situação que constitui o fato gerador, ou que, em comum com outras, esteja em relação econômica com o ato, fato ou negócio que dá origem à tributação. Firmou-se o entendimento de que restara claro e evidente que no processo que o sócio administrador conheceu e participou dos atos antes relatados, os quais tiveram como objetivo a omissão de receitas tributáveis. O interesse comum encontrou-se materializado na participação societária, pois eventual ganho da sociedade empresária repercutiria direta ou indiretamente no patrimônio do sócio. Restou informar, por fim, que a fiscalização não procedeu a qualquer desconsideração da personalidade jurídica. Entendeu-se que a desconsideração da personalidade jurídica é instituto em tudo diferente da solidariedade passiva. Enquanto esta (prevista no art. 264 do Código Civil) é a coobrigação de várias pessoas em uma única e indivisível relação obrigacional, a desconsideração da personalidade jurídica acontece em razão de ter havido “abuso da personalidade jurídica”, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, o que, entendeu-se, não foi suscitado pela fiscalização. Fl. 1861DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 12 12 Conclusão A impugnação, fora, então, julgada parcialmente procedente, mantendo-se o IRPJ no valor total de R$ 4.805.117,14, a CSLL no valor total de R$ 1.448.735,18, o PIS no valor total de R$ 282.536,36 e a Cofins no valor de R$ 1.303.672,96. Recurso Voluntário O recurso apresentado pela ora recorrente delineia, em idênticos termos, as teses trazidas em sede de impugnação. Recurso Voluntário do Responsável – Wagner Martins O recurso apresentado repisa todos os argumentos trazidos em impugnação, aditando os seguintes pontos, de forma preliminar: Incompetência da fiscalização para imputação de responsabilidade solidária, uma vez que a competência da identificação seria atribuída exclusivamente à PGFN, nos termos do art. 2º, § 5º, I, da Lei nº 6830/80; Impossibilidade de manutenção do termo de arrolamento formalizado em virtude de ofensa dos princípios do devido processo legal, contraditório e da ampla defesa, repisando, no entanto, os argumentos carreados por meio do recurso voluntário do ora recorrente; É o relatório. Voto Conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado - Relator Admissibilidade O recurso interposto é tempestivo e encontra-se revestido das formalidades legais cabíveis merecendo ser apreciado. Omissão de Receitas A presunção de omissão de receitas e o conseqüente arbitramento do lucro decorrem e se embasam nominalmente da ausência de apresentação específica dos seguintes documentos: de notas fiscais de entrada e saída de mercadorias ou serviço; de folhas de pagamento; dos comprovantes anuais de rendimentos pagos ou creditados entregues ao Fl. 1862DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 13 13 contribuinte pelos tomadores de serviços; tampouco os comprovantes anuais de retenção relativos à PIS e COFINS. Apesar do contribuinte ter trazido os livros, via SPED, se omitiu na apresentação de alguns documentos da escrituração comercial e fiscal. Deve-se pressupor, antes da análise do conjunto probatório trazido aos autos, a inequívoca fundamentação legal para o arbitramento do lucro, nos termos do art. 530 do RIR/99, in verbis: Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano- calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei n° 8.981, de 1995, art. 47, e Lei n° 9.430, de 1996, art.1º) (...) III – o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527;(grifado) Nitidamente, referido dispositivo legal elenca como possibilidade fática e concreta para o arbitramento a ausência de documentos referentes a escrituração comercial e fiscal. Vai além, portanto, meramente dos livros em si, para incluir o cumprimento e apresentação de todos e quaisquer documentos que suportem os livros e mesmo que complementem outros documentos, já demonstrados via SPED. Em suma, os documentos fornecidos pelo recorrente, via SPED e também através das declarações fiscais, se mostraram insuficientes para compor um quadro abrangente sobre o qual fosse possível lançar um olhar de certeza e fidedignidade à realidade, ainda mais quando confrontados com as notas fiscais dos serviços prestados pelo contribuinte em 2009, fornecidas pelas Prefeituras de São Paulo e Campinas. Constatou o fisco que a soma dos valores das notas fiscais informados pelas prefeituras era maior do que os valores declarados pela contribuinte na DIPJ e no Dacon. Consolidou o fisco todos os valores fornecidos pelas prefeituras, que constavam, em uma planilha de fls. 756 a 794 (Anexo 5 - NFS-e – Livro Fiscal – Serviços Prestados – EMBRASE - Ano de 2009), e reproduziu-os em um demonstrativo à fls. 826 a 891 (“Anexo 7 - Planilha Mensal das Notas Fiscais das Prefeituras”), para servir como base para apuração das receitas declaradas e omitidas. O ora recorrente apresenta em seu Recurso Voluntário, às fls. 1745, uma Planilha/Demonstrativo que patenteia total incompatibilidade entre os valores constantes da planilha presente no “Anexo 7 - Planilha Mensal das Notas Fiscais das Prefeituras”, construída pela fiscalização, e os valores constantes do relatório de notas fiscais (NFS-e – Livro Fiscal – Serviços Prestados – EMBRASE - Ano de 2009), apresentado pelas Prefeituras, presente no “Anexo 5”. Em análise de todos os valores da planilha apresentada pelo ora recorrente às fls. 1745, verificaram-se, de fato, as incompatibilidades arguidas, baseadas em erros de digitação grotescos e gritantes. Veja, analisando a situação apresentada pelo recorrente, foram identificados valores menores nos demonstrativos contidos no “Anexo 5”, reputados como corretos pelo recorrente, por terem como remetente a Prefeitura de São Paulo e a Prefeitura de Campinas, do que na planilha contida no “Anexo 7”, que perfazem os mesmos valores, porém reproduzidos Fl. 1863DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 14 14 pela fiscalização equivocadamente, que compuseram, portanto, o valor total posteriormente arbitrado e alvo da omissão de receitas. Tornou-se irretorquível, no entanto, que o ora recorrente demonstrou, em benefício da própria da torpeza, apenas os valores que foram relatados a menor na planilha do “Anexo 5”, ou em raciocínio inverso, mas idêntico, a maior na planilha de “Anexo 7”. Isto reduz o valor da autuação, leia-se, do montante total a ser tributado e, por isso, o beneficia. Essencial se deixar claro que a conduta do ora recorrente não é ilegal. Este visa o atendimento de seus próprios interesses econômicos. No entanto, surge, neste contexto a hipótese de que se desenhe a situação oposta, ou seja, de que existam incompatibilidades a partir de valores a maior na planilha do “Anexo 5” e/ou a menor na planilha do “Anexo 7”. Eventual concretização desta situação hipotética aumentaria o valor das receitas a serem tributadas, o que, claramente onera o contribuinte, elevando o valor da autuação. No afã de comprovar tal hipótese, foram colhidos alguns valores por amostragem. A Nota nº 6866 fora identificada na planilha referente ao “Anexo 5” pelo valor de R$ 10.767,76 (fls. 756), enquanto a mesma nota fora discriminada na planilha contida no “Anexo 7” com o valor de R$ 10.757,76 (fls. 826). A Nota nº 6869 fora identificada na planilha referente ao “Anexo 5” pelo valor de R$ 10.884,72 (fls. 756), enquanto a mesma nota fora discriminada na planilha contida no “Anexo 7” pelo valor de R$ 10.834,72 (fls. 827). Os exemplos acima delineados confirmam a situação hipotética. Representam diferenças ínfimas perto do montante total que perfaz a presente autuação, mas há de se patentear a inequívoca insegurança que se alastra sobre os autos, tornando impossível qualquer definição palpável, tangível e absoluta dos valores que envolvam a omissão de receitas, bem como as receitas declaradas. Há, mesmo que através de confrontação perfunctória entre os valores constantes das planilhas contidas nos “Anexos 5 e 7”, completa insegurança jurídica para que o presente julgador se posicione ou defina qualquer entendimento. Neste mesmo contexto, torna-se essencial que se analisem se todas as notas que constam como canceladas na planilha referente ao “Anexo 5” de fato não constam como valores existentes e discriminados na planilha referente ao “Anexo 7”. Este Conselheiro lançou um olhar superficial sobre as planilhas, que não foi suficiente, no entanto para apurar qualquer inconsistência ou incompatibilidade entre estas quanto a exclusão das notas canceladas. Porém, no escopo de se atingir a verdade e a justiça, elementos essenciais do direito, necessária a averiguação técnica e detalhada deste ponto, para a exclusão de eventuais notas canceladas. Neste passo, a conversão em diligência se mostra necessária e, além, imprescindível para a solução da lide. A conciliação, por meio de planilha, entre o demonstrativo do “Anexo 5” e o demonstrativo do “Anexo 7”, compatibilizando os valores de modo que as informações da segunda espelhem em idênticos termos as informações da Fl. 1864DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 15 15 primeira (considerando que o contrário não é verdadeiro, em hipótese alguma), parece ser uma alternativa plausível para o cumprimento da diligência. Adotam-se, portanto, as informações fornecidas pelas Prefeituras de São Paulo e Campinas como paradigmáticas e fiéis a realidade, compondo os valores que deverão perfazer a base de cálculo para o arbitramento e para a suposta apuração de omissão de receitas O enfrentamento de todas as outras questões levantadas restam prejudicadas ante a pendência de análise aprofundada das provas trazidas aos autos ou outras que possam virem a ser produzidas. De alguma forma todas as questões de ordem formal e material levantadas tem relação direta com o mérito, com as receitas declaradas e com a suposta omissão de receitas. Neste sentido, inicialmente cumpre destacar que a definição do instituto da decadência depende diretamente da constatação de uma conduta dolosa, simulatória ou fraudulenta, o que só será apurado definitivamente quando concretizada a exata noção da omissão de receitas que embasou faticamente parte do lançamento. A contagem do início do prazo decadencial, então, irá depender destas condicionantes, ora aplicando o art. 173, I, ora o art. 150, §4º, ambos do CTN. Da mesma forma, a responsabilização solidária é diretamente reflexa à exata mensuração e reconhecimento da omissão de receitas. A aplicação do art. 135, III do CTN só encontrará aplicação concreta quando de fato detectada infração à lei. Como o firmamento de infração à lei está pendente de melhor juízo e de um conjunto probatório mais robusto, a análise desta questão resta prejudicada. O inexato valor das notas fiscais, como conseqüência, causa impacto também na análise dos valores supostamente retidos pelos tomadores de serviços: há indefinição quanto ao rendimento tributável e, por conseqüência lógica, o imposto retido também se torna incerto neste momento. Por fim, a manutenção do arrolamento de bens, sob a ótica proposta pelo ora recorrente, depende do total dos débitos lançados pelo agente fiscal, o que impede inequivocamente a definição do objeto que envolve tal sistemática. Portanto, a predefinição de qualquer posicionamento acerca das questões expostas não soa cabível e/ou acertada, pois estas últimas estão diretamente ligadas ao mérito, que deverá passar por melhor análise através de diligência. Conclusão Diante do exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário para determinar a CONVERSÃO DO JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, para que a delegacia de origem proceda e recalcule o seguinte em relação ao período autuado: i-) identificação e correção de todos os erros de digitação da planilha de fls. 826 a 891 (“Anexo 7 - Planilha Mensal das Notas Fiscais das Prefeituras”), usando como base as informações reais e verídicas contidas na planilha de fls. 756 a 794 (Anexo 5 - NFS-e – Livro Fiscal – Serviços Prestados – EMBRASE - Ano de 2009); Fl. 1865DF CARF MF Processo nº 19515.720506/2014-71 Resolução nº 1201-000.227 S1-C2T1 Fl. 16 16 ii-) exclusão, na planilha de fls. 826 a 891 (“Anexo 7 - Planilha Mensal das Notas Fiscais das Prefeituras”), de todos os valores referentes às Notas Fiscais que se encontrem na situação “Cancelada” na planilha de fls. 756 a 794 (Anexo 5 - NFS-e – Livro Fiscal – Serviços Prestados – EMBRASE - Ano de 2009). Após, intime-se os Recorrentes para que se manifestem e retornem os autos para julgamento. É como voto! (assinado digitalmente) Luis Fabiano Alves Penteado - Relator Fl. 1866DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.721874/2013-55
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 05 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Nov 04 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
Ementa:
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135, III, CTN. Deve ser excluída a responsabilidade tributária dos sócios quando ausente explicação detalhada das razões que motivaram esta atribuição. A hipótese de responsabilização tributária preceituada pelo artigo 135, inciso III, do CTN pressupõe que a pessoa indicada tenha tolerado a prática de ato abusivo ou ilegal ou praticado diretamente esta conduta.
Numero da decisão: 1301-002.160
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer dos embargos e no mérito dar-lhes provimento para sanar a omissão apontada, com efeitos infringentes, apreciando o recurso voluntário interposto pelo responsável tributário Édio Nogueira, a fim de afastar a responsabilidade solidária que lhe foi imputada.
(documento assinado digitalmente)
Waldir Veiga Rocha - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo.
Nome do relator: MARCOS PAULO LEME BRISOLA CASEIRO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2009 Ementa: RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135, III, CTN. Deve ser excluída a responsabilidade tributária dos sócios quando ausente explicação detalhada das razões que motivaram esta atribuição. A hipótese de responsabilização tributária preceituada pelo artigo 135, inciso III, do CTN pressupõe que a pessoa indicada tenha tolerado a prática de ato abusivo ou ilegal ou praticado diretamente esta conduta.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer dos embargos e no mérito dar-lhes provimento para sanar a omissão apontada, com efeitos infringentes, apreciando o recurso voluntário interposto pelo responsável tributário Édio Nogueira, a fim de afastar a responsabilidade solidária que lhe foi imputada. (documento assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha - Presidente. (documento assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo.
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ART. 135, III, CTN. Deve ser excluída a responsabilidade tributária dos sócios quando ausente explicação detalhada das razões que motivaram esta atribuição. A hipótese de responsabilização tributária preceituada pelo artigo 135, inciso III, do CTN pressupõe que a pessoa indicada tenha tolerado a prática de ato abusivo ou ilegal ou praticado diretamente esta conduta. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer dos embargos e no mérito darlhes provimento para sanar a omissão apontada, com efeitos infringentes, apreciando o recurso voluntário interposto pelo responsável tributário Édio Nogueira, a fim de afastar a responsabilidade solidária que lhe foi imputada. (documento assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha Presidente. (documento assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 18 74 /2 01 3- 55 Fl. 990DF CARF MF Processo nº 19515.721874/201355 Acórdão n.º 1301002.160 S1C3T1 Fl. 991 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Veiga Rocha, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo. Relatório Cuida o presente processo de Embargos de Declaração (fls. 983/984) opostos pela Delegacia da Receita Federal de Administração Tributária em São Paulo (Derat/SPO) contra o Acórdão n° 1301001.762 prolatado por este Colegiado em sessão de 04 de fevereiro de 2015. Tratase de Auto de Infração de IRPJ e CSLL, referente ao anocalendário de 2009. O auditor responsável identificou como sujeito passivo solidário o Sr. Édio Nogueira, sócio administrador da empresa, com fulcro nos arts. 121 e 135 do Código Tributário Nacional – CTN. Ambos os sujeitos passivos apresentaram impugnações, as quais foram julgadas parcialmente procedentes, sendo excluída, em parte, a sujeição passiva solidária do Sr. Édio Nogueira. Contra esta decisão, foram interpostos recurso de ofício e recursos voluntários pela empresa e pelo sujeito passivo solidário. Analisandose os recursos, este Colegiado decidiu, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso de ofício e negar provimento ao recurso voluntário. A referida decisão restou ementada da seguinte forma: RECURSO DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, INCISO III DO CTN. DESCABIMENTO. Inexistindo qualquer fundamento legal nas disposições do Art. 135, inciso III do CTN para delimitar a responsabilidade do agente apenas às multas qualificadas, da forma como pretendido pela r. decisão de primeira instância, inviável aqui se mostra a sua manutenção. Nos termos daquele dispositivo são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. RECURSO VOLUNTÁRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. ERRO NA INDICAÇÃO DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS DA AUTUAÇÃO. AFASTAMENTO. Tendo a contribuinte perfeitamente compreendido todas as circunstâncias fáticas que envolveram a fiscalização efetivada e, por força disso, regularmente apresentado a sua defesa, descabe qualquer consideração a respeito do acolhimento da preliminar de nulidade apontada (relativa a suposto erro na indicação dos fundamentos da autuação), estando, pois, aqui já perfeitamente superada. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO PREMISSAS. As premissas básicas para amortização de ágio, com fulcro nos art. 7o., inciso III, e 8o. da Lei 9.532 de 1997, são: i) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; ii) a realização das operações originais entre partes não ligadas; iii) seja demonstrada a Fl. 991DF CARF MF Processo nº 19515.721874/201355 Acórdão n.º 1301002.160 S1C3T1 Fl. 992 3 lisura na avaliação da empresa não há espaço para a dedutibilidade do chamado “ágio de si mesmo”, cuja amortização é vedada para fins fiscais, sendo que no caso em questão essa prática ocorreu. MULTA QUALIFICADA. ÁGIO FICTÍCIO. FRAUDE. CARACTERIZAÇÃO. O registro contábil e a subsequente amortização de ágio fictício caracteriza conduta fraudulenta dolosa, nos termos do Art. 72 da Lei 4.502/564, autorizando a aplicação de multa qualificada. DESPESA COM CONSULTORIA E ASSESSORIA. INDEDUTIBILIDADE. Os pagamentos feitos como contraprestação de serviços de consultoria e assessoria só podem ser deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL quando ficar demonstrada a vinculação da despesa com a atividade econômica exercida pelo contribuinte. No caso presente, apesar de regularmente intimada, a contribuinte sequer demonstrou quais teriam sido os serviços efetivamente prestados, não se podendo, assim, admitir a dedutibilidade pretendida. RECEITAS FINANCEIRAS. ESTORNO. A inobservância, pela contribuinte, das regras próprias contidas nas disposições do Art. 9o da Lei 9.430/96, impõe o oferecimento à tributação dos montantes baixados a título de provisão para devedores duvidosos. CSLL. DIPJ. DECLARAÇÃO DE DÍVIDA PELA CONTRIBUINTE. INEXISTÊNCIA. SÚMULA CARF N. 92. A DIPJ, desde a sua instituição, não constitui confissão de dívida, nem instrumento hábil e suficiente para a exigência de crédito tributário nela informado. Alega a Embargante que houve um lapso manifesto do órgão julgador, haja vista que o acórdão embargado afirma expressamente que não foi interposto Recurso Voluntário pelo Sr. ÉDIO NOGUEIRA, sujeito passivo solidário em relação aos créditos tributários constituídos, quando, na realidade, a referida peça encontrase nos autos às fls. 863/888. Requer a Embargante: Como o acórdão embargado revoga a limitação de responsabilidade concedida pela DRJ e não considera o recurso voluntário apresentado pelo sócio solidário com seus argumentos de defesa, pedese a admissão dos embargos para que o colegiado se manifeste quanto ao vício apontado, a fim de possibilitar a correta execução e cumprimento do julgado. Em despacho às fls. 987/988 os embargos foram admitidos com amparo nas disposições do art. 66, caput, do ANEXO II do Regimento Interno aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. É o relatório. Passo a decidir. Voto Fl. 992DF CARF MF Processo nº 19515.721874/201355 Acórdão n.º 1301002.160 S1C3T1 Fl. 993 4 Conselheiro Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Relator Primeiramente, impende destacar que os embargos de declaração são cabíveis quando for constatada obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou caso seja omitido ponto sobre o qual deveria pronunciarse a turma, nos termos do artigo 65, do Anexo II, do Regimento Interno. Entendo que foram atendidos os requisitos previstos na legislação, razão pela qual tomo conhecimento dos embargos. Feitas essas considerações iniciais, passase à análise dos argumentos aduzidos pela Embargante. A Embargante aduz haver omissão no Acórdão n° 1301001.762 prolatado por este Colegiado, visto que “o acórdão embargado afirma textualmente que o Sr. ÉDIO NOGUEIRA, apontado pela Fiscalização como sujeito passivo solidário em relação aos créditos tributários constituídos, não apresentou recurso voluntário, quando identificase nos autos a referida peça de defesa”. De fato, na decisão ora Embargada observase, claramente, que o Recurso Voluntário protocolado pelo sujeito passivo por solidariedade não foi objeto de análise. É o que se observa deste trecho da decisão: Para fins de registros necessários, relevante destacar que, em relação ao Recurso Voluntário, este somente foi interposto pela empresacontribuinte, não havendo nos autos qualquer Recurso do responsável. Ademais, conforme o relatório aqui apresentado, no recurso interposto também não se verifica qualquer consideração a respeito da (ir)regularidade da imputação da responsabilidade pessoal ao dirigente, nada havendo a ser aqui então especificamente considerado a respeito desse tema. Sem ter analisado o recurso do Sr. Édio Nogueira, este Colegiado julgou procedente a responsabilização solidária em relação a todas as infrações apontadas, independentemente da aplicação, ou não, de multa isolada. Aduz o responsável solidário, em seu Recurso Voluntário, que somente poderia ser atribuída a responsabilidade pessoal em relação à autuação cuja multa de ofício foi agravada, inexistindo a alegada responsabilidade em caso de mera insuficiência de recolhimento de tributos. Ademais, não haveria indícios de que o responsável agiu de forma indevida e ilegal em prejuízo do fisco, não sendo suficiente a mera transcrição de dois dispositivos do CTN para atribuição da responsabilização solidária. O cerne da discussão concentrase no fato de o auto de infração apontar responsáveis solidários, vinculados ao cumprimento da obrigação tributária imposta, sob o manto dos artigos 121 e 135 do CTN. Fl. 993DF CARF MF Processo nº 19515.721874/201355 Acórdão n.º 1301002.160 S1C3T1 Fl. 994 5 O art. 121 do CTN1 atribui a responsabilidade aquele cuja obrigação de pagar o tributo decorra de disposição expressa de lei. Em tese, para o agente fiscal, essa obrigatoriedade decorreria do art. 135 do mesmo diploma legal. Segundo o citado dispositivo,2 somente pode ocorrer a responsabilização pessoal dos sócios quando estes agem com excesso de poderes ou infração de lei ou ainda de contrato social. Entendo que a hipótese de responsabilização tributária preceituada pelo artigo 135, inciso III, do CTN pressupõe que a pessoa indicada tenha tolerado a prática de ato abusivo ou ilegal ou praticado diretamente esta conduta. Logo, para efeito de atribuição da responsabilidade contida no citado artigo, impõese que o sóciogerente ou diretor tenha praticado verdadeira atuação dolosa contrária à legislação tributária. Corroborando este entendimento, temse decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1101728/SP sob a sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C do antigo CPC): TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DISPENSA. RESPONSABILIDADE DO SÓCIO. TRIBUTO NÃO PAGO PELA SOCIEDADE. 1. A jurisprudência desta Corte, reafirmada pela Seção inclusive em julgamento pelo regime do art. 543C do CPC, é no sentido de que "a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco" (REsp 962.379, 1ª Seção, DJ de 28.10.08). 2. É igualmente pacífica a jurisprudência do STJ no sentido de que a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa (EREsp 374.139/RS, 1ª Seção, DJ de 28.02.2005). 3. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, 1 Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal dizse: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. 2 Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Fl. 994DF CARF MF Processo nº 19515.721874/201355 Acórdão n.º 1301002.160 S1C3T1 Fl. 995 6 parcialmente provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/08. O Termo de Sujeição Passiva constantes à fl. 698 não traz qualquer descrição do contexto que resultou na responsabilização solidária. Por sua vez, o Termo de Verificação Fiscal (fls. 659/674) atribui a responsabilidade ao sócio da seguinte forma: A responsabilidade solidária, no âmbito das normas gerais e no presente caso, é tratada nos artigos 121 e 135 do Código Tributário Nacional (CTN), Lei n° 5.172/66, nos seguintes termos: (...) Portanto, diante de todos os fatos constatados por essa fiscalização, ficou caracterizada a responsabilidade solidária do sócioadministrador qualificado no caput do presente termo, pelo crédito tributário apurado nesta ação fiscal, nos termos da legislação acima transcrita. No Relatório não há, pois, qualquer descrição das condutas supostamente dolosas praticadas pelo responsável solidário, sendo descritas somente as infrações realizadas pela pessoa jurídica e transcritos os dispositivos legais que embasaram a responsabilização. Portanto, não foram mencionados nos Termos de Verificação Fiscal os comportamentos descritos no artigo 135, III, do CTN que poderiam ensejar o redirecionamento da responsabilidade tributária. Ante todo o exposto, conheço dos embargos e, no mérito, doulhes provimento para sanar a omissão apontada, com efeitos infringentes, apreciando o recurso voluntário interposto pelo responsável Édio Nogueira, a fim de afastar a responsabilidade solidária que lhe foi imputada. É como voto. (documento assinado digitalmente) Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro Relator Fl. 995DF CARF MF
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