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Numero do processo: 10835.902695/2009-43
Turma: Terceira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 23 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano-calendário: 2002
ÔNUS DA PROVA. DIREITO CREDITÓRIO.
Cabe ao sujeito passivo a demonstração da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa.
Numero da decisão: 1103-000.576
Decisão: ACORDAM os membros do colegiado, negar por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso.
Nome do relator: Mário Sérgio Fernandes Barroso
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PRUDENTE Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 ÔNUS DA PROVA. DIREITO CREDITÓRIO. Cabe ao sujeito passivo a demonstração da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do colegiado, negar por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Aloysio José Percínio da Silva Presidente (assinado digitalmente) Mário Sérgio Fernandes Barroso Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Fernandes Barroso, Marcos Shigueo Takata, José Sérgio Gomes, Eric Moraes de Castro e Silva, Hugo Correia Sotero e Aloysio José Percínio da Silva. Relatório Fl. 180DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO 2 Trata se de recurso voluntário interposto pela contribuinte acima qualificada a respeito da decisão da DRJ do Ribeirão Preto/SP que negou a manifestação de inconformidade da contribuinte. No Despacho Decisório foi apreciada Declaração de Compensação (PER/DCOMP), por intermédio da qual a contribuinte pretendia compensar débitos de sua responsabilidade com crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de tributo (IRPJ lucro presumido, código de arrecadação 2089), concernente ao período de apuração 09/2002. O referido despacho, não foi reconheceu o direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, nãohomologou a compensação declarada no presente processo, ao fundamento de que os pagamentos informados foram integralmente utilizados para quitação de débitos da contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Cientificada, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade alegando, em síntese, de acordo com suas próprias razões: que “os dispositivos legais invocados são inadequados para a conclusão que o Fisco pretende alcançar, vez que tratam justamente da possibilidade de compensação entre pagamentos indevidos de imposto e débitos de imposto a pagar, em nenhum momento estabelecendo em quais condições uma Declaração de Compensação apresentada por determinado contribuinte pode ser considerada como irregular, e portanto, não homologável”; que a Autoridade Fiscal “ao não homologar a compensação declarada pela defendente, aplicou ainda correção monetária, juros e multa, sem, no entanto invocar nenhum dispositivo legal que legitimasse a referida pretensão, praticando desta forma procedimento absolutamente contrário ao princípio da legalidade administrativa”; que “a não homologação de compensação em epígrafe não mencionou a correta tipificação da eventual infração imputada ao contribuinte, posto que, na dicção do citado art. 142 do CTN, não se deu a ocorrência do fato gerador (situação definida em lei como necessária e suficiente à sua ocorrência – art. 114 CTN), nem tão pouco ficou determinada a matéria tributável, que são circunstâncias diversas da penalidade aplicada”; que “os fatos em que se pretende imputar a defendente, originadores da pretensa obrigação tributária, são inteiramente desconhecidos, razão pela qual não podem ser considerados hipótese de incidência de imposto, sem ferir o princípio da tipicidade e da legalidade da tributação consagrados na Carta Magna e no Código Tributário Nacional, mostrandose medida mais acertada a homologação da compensação declarada pela defendente”; que “os elementos necessários à comprovação da existência do crédito a compensar, correspondente a pagamento indevido ou a maior, já se encontravam em poder da i. Autoridade Fiscal antes mesmo de ser proferido o despacho em tela”; que os pagamentos a maior alegados decorreriam de erro na apuração do valor do IRPJ, o qual teria sido sanado pela apresentação da DCTF/2004, onde foram evidenciadas as compensações com utilização do suposto direito creditório visando quitação de débitos por si apurados; que a transmissão do PER/DCOMP se deu corretamente, com observância das datas de vencimento dos débitos; Fl. 181DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO Processo nº 10835.902695/200943 Acórdão n.º 110300.576 S1C1T3 Fl. 2 3 que restaria comprovado que a interessada dispunha de crédito suficiente, originado de pagamento a maior ou indevido, para quitação dos débitos informados em PER/DCOMP, dispondo o Fisco de todas as informações necessárias à constatação da regularidade das compensações. Ao final, requer seja provida a manifestação de inconformidade, declarada a nulidade ou insubsistência do despacho decisório, homologada a compensação, e deferido pedido de juntada posterior de documentos. A DRJ decidiu (ementa): “DCOMP. CRÉDITO. INDEFERIMENTO. Pendente, nos autos, a comprovação do crédito indicado na declaração de compensação formalizada, impõese o seu indeferimento. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170 do Código Tributário Nacional.” A contribuinte recorre (resumo): A recorrente, como prestadora de serviços hospitalares, deveria recolher IRPJ e CSLL com alíquota de 8% (oito por cento) sobre o faturamento para o primeiro e 12% (doze por cento) sobre o faturamento para a segunda, mas por equívoco efetuou o recolhimento na base de cálculo de 32% (trinta e dois por cento) sobre a receita bruta para as duas exações. Assim, no exercício de 2000, a recorrente realizou pagamento a maior, em razão de erro na fixação da base de cálculo do IRPJ apurado com base na sistemática do lucro presumido, referente ao período de apuração 30/06/2000, com vencimento em 31/07/2000, código da receita 2089 (IRPJ apurado pelo lucro presumido), na importância de R$ 1.702,12 (um mil, setecentos e dois reais e doze centavos). Por isso, pleiteou a compensação dos valores recolhidos indevidamente ou a maior com outros débitos fiscais apurados no exercício de 2005, através da transmissão eletrônica de Declaração de Compensação. Ocorre que a i. Autoridade Fiscal entendeu que a compensação não deveria ser homologada, afirmando que o crédito declarado pelo contribuinte na PER/DCOMP não existiria, impossibilitando assim a extinção da obrigação tributária pela modalidade de compensação. Fl. 182DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO 4 2. PRELIMINARMENTE 2.1. Dos documentos novos O ilustre Julgador em sua decisão carreou aos autos argumento segundo o qual a empresa não juntou aos autos registros contábeis e respectivos documentos fiscais capazes de demonstrar o quantum e a composição da base de cálculo do imposto no período em questão, a apuração do imposto devido e eventuais deduções, questionando ao final a própria existência, certeza e liquidez do crédito. Diante dessa nova consideração, que em nenhum momento foi exposta no despacho decisório inicial, tendo sido trazida exclusivamente por ocasião da decisão da • Delegacia de Julgamento, mostrase necessária a juntada de novos documentos, consoante autorizado pelo art. 16 do Decreto 70.235/72. Juntase, por conseguinte, cópia da DIPJ originária, onde a empresa equivocadamente enquadrou suas receitas na base de cálculo presumida de 32% (trinta e dois Por cento) DIPJ retificadora, referente ao mesmo período e mesmo valor, onde se observa que houve apenas a alteração do enquadramento da receita na base de cálculo presumida de 8% (oito por cento) para IRPJ e 12% (doze por cento) para CSLL, juntando também cópia do termo de abertura e encerramento do Livro Diário, bem como do razão, totalizando a receita anual, coincidente com a soma dos valores trimestrais das DIPJs (Doc. 01). Da realização de diligência Alheia ao conjunto probatório ora mencionado, a r. decisão dá ensejo à realização de diligência para o fim de se verificar a real extensão dos serviços desenvolvidos pela empresa e o seu efetivo enquadramento como serviço hospitalar. 2.3. Nulidade por vícios formais Com a devida vênia, os dispositivos legais invocados são inadequados para a conclusão que o Fisco pretende alcançar, vez que tratam justamente da possibilidade de compensação entre pagamentos indevidos de imposto e débitos de imposto a pagar, em nenhum momento estabelecendo em quais condições uma Declaração de Compensação apresentada por determinado contribuinte pode ser considerada como irregular, e, portanto, nãohomologável. A detida análise dos dispositivos utilizados no despacho decisório, os quais se frise, foram invocados pela i. Autoridade Fiscal como pretenso fundamento legal para a não homologação das Declarações de Compensação formuladas pela recorrente, demonstra claramente que tratam apenas da possibilidade de se compensar créditos de tributos com outros débitos de tributos, todos administrados pela Secretaria da Receita Federal. Os dispositivos ainda fazem menção ao fato da Declaração de Compensação constituir modalidade extintiva da obrigação tributária com condição resolutória, qual seja, a não homologação pela Autoridade Fiscal da compensação declarada pelo contribuinte ao Fisco. Entretanto, em nenhum momento estabelece em quais situações concretas uma Declaração de Compensação deve ser considerada como nãohomologada, fato este que torna totalmente carente de fundamentação legal a pretendida não homologação levada a termo pela i. Autoridade Fiscal. Fl. 183DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO Processo nº 10835.902695/200943 Acórdão n.º 110300.576 S1C1T3 Fl. 3 5 Nesse contexto, a i. Autoridade Fiscal não logrou êxito em sua capitulação legal, o que se avulta quando se considera que ao não homologar a compensação declarada pela recorrente, aplicou ainda correção monetária, juros e multa, sem, no entanto invocar nenhum dispositivo legal que legitimasse a referida pretensão, praticando desta forma procedimento absolutamente contrário ao princípio da legalidade administrativa. 3. DO MÉRITO Impende destacar que os pagamentos a maior ao Fisco se deram por virtude de erro na apuração do valor do IRPJ, erros estes que foram reparados com a retificação da Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ no exercício de 2005, onde o recorrente realizou compensação entre o crédito de IRPJ e os débitos de COFINS e de PIS/PASEP referente a este mesmo exercício. Todavia, ante o fundamento decisório, onde alega o i. Julgador que o recorrente não apresentou documentos hábeis à comprovação do direito alegado, tendo em vista que não apresentou os registros contábeis e respectivos documentos fiscais capazes de demonstrar a composição da base de cálculo do imposto no período em questão, mesmo considerando que as cópias da PER/DCOMP; DIPJ; DCTF e os comprovantes de pagamento indevidos juntados quando da interposição da manifestação de inconformidade, são suficientes para instrução probatória, possibilitando o exame da apuração do imposto e o montante recolhido, o recorrente apresenta aos autos cópias do DIPJ original, da DIPJ retificadora e cópia da respectiva página do Livro Diário devidamente registrada. Assim, verificase da cópia do DIPJ original que o Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, foram recolhidos utilizandose como base de cálculo o percentual de 32% (trinta e dois por cento), ao passo que o correto seria ter recolhido o IRPJ com alíquota de 8% (oito por cento) sobre o faturamento e a CSLL com alíquota de 12% (doze por cento) sobre o faturamento, restando desta forma as diferenças de percentagem a serem compensadas com futuros débitos, conforme se vê da DIPJ retificadora. Dessa forma, não há que se admitir que a decisão ora debatida se finque em meros indícios de ocorrência. Argumentar que o recorrente não se desincumbiu do ônus da prova é quebrantar o princípio da presunção de inocência e da presunção da boafé, na medida que não há qualquer elemento de prova direta demonstrando efetivamente que a recorrente não faz jus ao crédito, as provas indicam justamente o contrário. Voto Conselheiro Mário Sérgio Fernandes Barroso, Relator O recurso preenche o requisito de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento. PRELIMINARMENTE 2.1. Dos documentos novos Fl. 184DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO 6 No caso, os documentos acostados pelo recorrente deveriam ter sido juntados desde o pedido original. Assim, entendo diferente da contribuinte, que alega que a DRJ inovara. A DRJ apenas informou que documentos a contribuinte deveria ter trazido para fundamentar seu pedido. Por outro lado, as provas trazidas pela recorrente podem ser aceitas haja vista, que complementam as já apresentadas. Da realização de diligência A recorrente pede a realização de uma diligência para se infirmar a real extensão dos serviços desenvolvidos pela empresa. Ora, esta diligência, não tem sentido, isto porque em uma PER/COMP é necessário que a contribuinte traga créditos líquidos e certos para que a SRF possa homologálos. A diligência se presta para dirimir dúvidas que o julgador pudesse ter. No caso, estas provas fazem partes do conjunto probatório da certeza e liquidez do crédito pleiteado pela recorrente, ou seja, é ônus da recorrente. Assim, nego a diligência. 2.3. Nulidade por vícios formais Quanto a este item a DRJ decidiu: “Nesse sentido, revelase insubsistente a alegação de que os dispositivos legais indicados no campo “enquadramento legal” do despacho decisório recorrido seriam “inadequados” a amparar o indeferimento do pleito. Com efeito, observadas as normas que autorizam a restituição ou compensação de indébitos tributários e regulam aspectos processuais (art. 165 do CTN e art. 74 da Lei n.º 9.430, de 1996), a autoridade fiscal constatou não demonstradas a liquidez e certeza dos alegados créditos, exigência prevista no art. 170 do CTN, já que o pagamento indicado pela interessada foi integralmente utilizado para quitação de débitos de sua responsabilidade, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados na PER/DCOMP.” Assim, entendo da mesma forma que a DRJ. MÉRITO Quanto ao mérito a recorrente pleiteia créditos, contudo, não são nem de longe créditos líquidos e certos. A recorrente alega prestar serviços hospitalares, e, por conseguinte ter direito a diferença de percentual de 32% para 8%, no IRPJ. Como vemos é uma questão de prova, no entanto a recorrente primeiro não trouxera as notas fiscais, que seria um primeiro passo para saber se ela prestara tais serviços ou não. Na realidade, sabemos que não são só as notas fiscais que provariam este direito, pois, para fazer jus ao percentual de 8% a recorrente precisaria provar que seus serviços se enquadram nos que a legislação aceitou como serviços hospitalares. Isso, ela não fez. O acórdão da DRJ, inclusive, alertara a contribuinte da falta de um conjunto probatório para a questão. No entanto, até mesmo a DCTF retificadora apresentada pela recorrente, nem sequer foi processada, aja vista que não consta data de entrega à SRF fl.79, assim, nem na DCTF houve a retificação alegada pela recorrente, que simplesmente pleiteia créditos, incertos, sem o conjunto probatório adequado. Os documentos trazidos pela recorrente DIPJ, Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício, não induzem nem a indício de seus serviços. Fl. 185DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO Processo nº 10835.902695/200943 Acórdão n.º 110300.576 S1C1T3 Fl. 4 7 Assim, não tenho como discordar da DRJ. De todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso. Sala das Sessões, em 23 de novembro de 2011 (assinado digitalmente) Mário Sérgio Fernandes Barroso Fl. 186DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO, Assinado digitalmente em 09/12/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 05/12/2011 por MARIO SERGIO FERNANDES BARROSO
score : 1.0
Numero do processo: 10516.720006/2017-05
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Feb 20 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/05/2002 a 28/02/2017
CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. FUNDAMENTO. SISTEMA HARMONIZADO (SH). NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL (NCM).
Qualquer discussão sobre classificação de mercadorias deve ser feita à luz da Convenção do SH (com suas Regras Gerais Interpretativas, Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição), se referente aos primeiros seis dígitos, e com base no acordado no âmbito do MERCOSUL em relação à NCM (Regras Gerais Complementares e Notas Complementares), no que se refere ao sétimo e ao oitavo dígitos.
CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. ATIVIDADE JURÍDICA. ATIVIDADE TÉCNICA. DIFERENÇAS.
A classificação de mercadorias é atividade jurídica, a partir de informações técnicas. O perito, técnico em determinada área (mecânica, elétrica etc.) informa, se necessário, quais são as características e a composição da mercadoria, especificando-a, e o especialista em classificação (conhecedor das regras do SH e de outras normas complementares), então, classifica a mercadoria, seguindo tais disposições normativas.
CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. NÃO ADOÇÃO DO RESULTADO DE LAUDO TÉCNICO. NECESSIDADE DE CONTRAPOSIÇÃO TÉCNICA.
Para não adotar as conclusões de laudo técnico a respeito da natureza e das características de uma mercadoria, deve a autoridade fiscal comprovar sua improcedência, se necessário, com a demanda de nova perícia, com quesitos mais específicos em relação à matéria controversa.
CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. INTERFONES COM CÂMERA/MONITOR. NCM 8517.62.59.
Os interfones com câmera/monitor, utilizados na comunicação em imóveis, classificam-se no código NCM 8517.62.59, segundo o texto da posição 8517, aclarado por Notas Explicativas, e seus desmembramentos, utilizando-se a Regra Geral de Interpretação no 6, assim como a RGC-1, do MERCOSUL.
RECLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIA. MULTA POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO. DESCRIÇÃO COMPLETA. IRRELEVÂNCIA.
O Ato Declaratório Normativo (ADN) COSIT no 12/1997 exclui apenas da multa por falta de licença de importação as mercadorias corretamente descritas, e não da multa por erro de classificação. O Ato Declaratório Normativo (ADN) COSIT no 10/1997, que excluía a multa de ofício, sobre a diferença de tributos, que também não se confunde com a multa por erro de classificação prevista no art. 84, I da MP no 2.158-35/2001, foi expressamente revogado pelo Ato Declaratório Interpretativo SRF no 13/2002 (já revogado pelo Ato Declaratório Interpretativo RFB no 6/2018). Assim, é irrelevante, para efeito de aplicação da multa por erro de classificação, prevista no art. 84, I da MP no 2.158-35/2001, a questão referente a má-fé ou à correta descrição da mercadoria.
Numero da decisão: 3401-005.796
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, e dar parcial provimento ao recurso de ofício, para manter a exigência de tributos considerando a aplicação da alíquota de 14% em relação ao imposto de importação de interfones com câmera/monitor, com seus reflexos nos demais tributos correspondentes e consectários/penalidades.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Rodolfo Tsuboi (suplente convocado), Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente o Conselheiro Cássio Schappo.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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INDÚSTRIA DE TELECOMUNICAÇÃO ELETRÔNICA BRASILEIRA FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/05/2002 a 28/02/2017 CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. FUNDAMENTO. SISTEMA HARMONIZADO (SH). NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL (NCM). Qualquer discussão sobre classificação de mercadorias deve ser feita à luz da Convenção do SH (com suas Regras Gerais Interpretativas, Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição), se referente aos primeiros seis dígitos, e com base no acordado no âmbito do MERCOSUL em relação à NCM (Regras Gerais Complementares e Notas Complementares), no que se refere ao sétimo e ao oitavo dígitos. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. ATIVIDADE JURÍDICA. ATIVIDADE TÉCNICA. DIFERENÇAS. A classificação de mercadorias é atividade jurídica, a partir de informações técnicas. O perito, técnico em determinada área (mecânica, elétrica etc.) informa, se necessário, quais são as características e a composição da mercadoria, especificandoa, e o especialista em classificação (conhecedor das regras do SH e de outras normas complementares), então, classifica a mercadoria, seguindo tais disposições normativas. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. NÃO ADOÇÃO DO RESULTADO DE LAUDO TÉCNICO. NECESSIDADE DE CONTRAPOSIÇÃO TÉCNICA. Para não adotar as conclusões de laudo técnico a respeito da natureza e das características de uma mercadoria, deve a autoridade fiscal comprovar sua improcedência, se necessário, com a demanda de nova perícia, com quesitos mais específicos em relação à matéria controversa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 51 6. 72 00 06 /2 01 7- 05 Fl. 4702DF CARF MF 2 CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. INTERFONES COM CÂMERA/MONITOR. NCM 8517.62.59. Os interfones com câmera/monitor, utilizados na comunicação em imóveis, classificamse no código NCM 8517.62.59, segundo o texto da posição 8517, aclarado por Notas Explicativas, e seus desmembramentos, utilizandose a Regra Geral de Interpretação no 6, assim como a RGC1, do MERCOSUL. RECLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIA. MULTA POR ERRO DE CLASSIFICAÇÃO. DESCRIÇÃO COMPLETA. IRRELEVÂNCIA. O Ato Declaratório Normativo (ADN) COSIT no 12/1997 exclui apenas da multa por falta de licença de importação as mercadorias corretamente descritas, e não da multa por erro de classificação. O Ato Declaratório Normativo (ADN) COSIT no 10/1997, que excluía a multa de ofício, sobre a diferença de tributos, que também não se confunde com a multa por erro de classificação prevista no art. 84, I da MP no 2.15835/2001, foi expressamente revogado pelo Ato Declaratório Interpretativo SRF no 13/2002 (já revogado pelo Ato Declaratório Interpretativo RFB no 6/2018). Assim, é irrelevante, para efeito de aplicação da multa por erro de classificação, prevista no art. 84, I da MP no 2.15835/2001, a questão referente a máfé ou à correta descrição da mercadoria. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, e dar parcial provimento ao recurso de ofício, para manter a exigência de tributos considerando a aplicação da alíquota de 14% em relação ao imposto de importação de “interfones com câmera/monitor”, com seus reflexos nos demais tributos correspondentes e consectários/penalidades. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Rodolfo Tsuboi (suplente convocado), Renato Vieira de Ávila (suplente convocado) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente o Conselheiro Cássio Schappo. Relatório Versa o presente sobre os Autos de Infração de fls. 6310 a 43061, lavrados Fl. 4703DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.676 3 para exigência de imposto de importação, imposto sobre produtos industrializados importação, Contribuição para o PIS/PASEPimportação e COFINSimportação, todos acrescidos de multa de ofício e juros de mora, e de multa por erro de classificação fiscal, totalizando originalmente R$ 131.276.676,04. Narrase no Relatório Fiscal (fls. 4307 a 4385) que: (a) a fiscalização buscou verificar a regularidade da classificação de mercadorias importadas pela empresa entre maio de 2012 e fevereiro de 2017, declarados como aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som (cujo código NCM correto seria 8521.90.90 – lista detalhada às fls. 4307 a 4336), aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som com GPS, para monitoramento de veículos (cujo código NCM correto seria 8526.91.00 – lista detalhada à fl. 4336), e interfones com câmera ou monitor videofones (cujo código NCM correto seria 8526.91.00 – lista detalhada às fls. 4337 a 4342); (b) em relação aos os diversos modelos de aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som (DVR – digital vídeo recorder) em meio magnético, próprios para sistemas de segurança, apresentados isoladamente, a controvérsia se refere a terem os aparelhos também a função de editor de imagem (pois os manuais dos aparelhos e descrevem, como funções de edição, ajustes de matiz, brilho, resolução, saturação e contraste de cores, seleção de determinado trecho para gravação em outra mídia ou inclusão de bipes sonoros temporizados, e os laudos apresentados seguem raciocínio similar, ao concluírem que há funções de edição, ainda que limitadas), ademais, em um circuito de segurança é essencial que as imagens e sons não possam ser editados, o que afetaria a confiabilidade do resultado, e, sendo a função principal a gravação e reprodução de imagens, aplicável a posição 8521, seguida da subposição de primeiro nível residual (visto não se tratar de fitas magnéticas, mas de discos), com desmembramento regional específico (8521.90.10), como se destaca em diversas soluções de consulta relacionadas ao tema (fl. 4346); (b) os diversos modelos de aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som com GPS, para monitoramento de veículos possuem três funções principais: gravação em disco rígido (HD) de vídeos capturados por câmera de TV, autolocalização geográfica por meio de tecnologia GPS, e acesso remoto para transmissão dos dados e vídeos via tecnologia 3G ou wifi; cabendo, em função da RGI 3C, adotar a última em ordem numérica (8526), o que reforçado pela NESH da posição 8526, mais especificamente no código NCM 8526.91.00, sendo que a empresa, após consulta de classificação referente a um dos modelos, passou a adotar a referida classificação, corrigindo as anteriores, mas somente do modelo exato, não dos similares importados; (c) os diversos modelos de interfones com câmera ou monitor (videofones) prestamse a comunicação em imóveis, seja em conjunto composto por unidade interna (com monitor de vídeo) e externa (com câmera), com fio, seja separadamente, em módulos, e constituem uma unidade funcional, devendo ser classificadas, conforme nota 4 da Seção XVI, de acordo com a função desempenhada pelo conjunto, o que aponta para a posição 8517, sendo reforçado pela NESH de tal posição, que define videofone de modo a diferenciálo do interfone pela transmissão conjunta de imagem e som, cabendo a subposição de primeiro nível 6, seguida da subposição e segundo nível mais específica, 2, e pelos desmembramentos regionais específicos, culminando no código NCM 8517.62.59, sendo este entendimento similar ao encontrado na Solução de Consulta no 3/2014 (fl. 4349); e Fl. 4704DF CARF MF 4 (d) verificados os erros de classificação, foi exigida a diferença de tributos, com os consectários legais, e a multa por erro de classificação prevista no art. 84 da Medida provisória no 2.15835/2001, com as alterações efetuadas pela Lei no 10.833/2003. Ciente da autuação em 20/04/2017 (fl. 4388), a empresa apresentou impugnação em 12/05/2017 (fls. 4394 a 4477), sustentando, basicamente, que: (a) foram autuadas declarações de importação de mais de um estabelecimento da empresa (tabela à fl. 4395), e a matriz não tem legitimidade para representar processualmente as filiais nos casos em que o fato gerador do tributo operase de maneira individualizada, como tem se posicionado a jurisprudência do STF e do STJ; (b) há 4 declarações de importação autuadas em duplicidade com o processo no 10909.721938/201662, que já reconheceu a correção da classificação adotada pela empresa, na DRJ, sendo que em uma delas houve mudança de motivação (DI no 16/12061275); (c) a reunião em um mesmo processo de três análises referentes a classificações distintas dificulta ou até impossibilita a apuração em separado dos tributos, e a defesa, devendo ser desmembrada a autuação; (d) houve erro na alíquota do imposto de importação aplicável à NCM 8517.62.59 na autuação, que não era de 25%, mas de 14%, conforme “Ex 001”, aplicável a toda a NCM, com exceções que não se referem ao produto importado; (e) a autuação confronta a verdade confirmada pelos laudos técnicos anexados, sem comprovar sua improcedência; (f) os aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, em disco, por meio magnético, são importados pela empresa há mais de dez anos no código NCM 8521.90.10, e a controvérsia, segundo o autuante, reside em saber se realizam ou não “edição de imagem”, e a própria fiscalização conclui que “apesar de permitir pequenas ações de edição, são equipamentos que não permitem a edição plena de imagem e som”; os textos da nomenclatura sequer fazem ressalva a tipo de dição, gravação ou reprodução; e todos os laudos técnicos solicitados pela RFB indicaram que os produtos realizam edição de imagem e som; há laudos mais recentes que confirmam as características da mercadoria no sentido da classificação adotada pela empresa, não podendo ser desconsiderados pela fiscalização; e o simples corte de imagens, ou inclusão de áudio, já representa edição; (g) os aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som com GPS, para monitoramento de veículos foram importados como amostra para fins de estudo e análise técnica, e a empresa registrou processo de solução de consulta em relação à classificação do produto, mas, na forma como realizado o lançamento, englobando três tipos de produtos, sequer é possível separar e recolher os tributos decorrentes desta correção, e nada foi questionado no desembaraço das mercadorias; (h) em relação aos interfones com câmera ou monitor, a própria fiscalização afirma que os produtos formam um sistema para comunicação em imóveis, composto por uma unidade interna e uma externa, que reflete o conceito de interfonia, sendo que a nomenclatura não direciona a classificação dos interfones quando tiverem vídeo para outra posição, como se compreende pelo texto da NESH da posição 8517, o que se confirma pela Portaria SUFRAMA no 154, de 25/07/2001, disponível no próprio sítio da RFB, e pela Portaria SUFRAMA no 154/1999; a empresa discorda do teor da Solução de Consulta Fl. 4705DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.677 5 apresentada pela fiscalização, sendo que existe Solução de Consulta com conclusão diferente (no 219/93); e a reclassificação não está fundamentada em elementos técnicos; (i) a variação de entendimentos sobre classificação gera insegurança jurídica, e há impossibilidade de revisão por ausência de erro de fato, tendo várias declarações sido selecionadas para canal vermelho e conferência aduaneira, e, no caso de aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, similares aos importados, existia a Solução de Divergência no 11/2007, assegurando a classificação no código NCM 8521.90.10; (j) a multa por erro de classificação não pode ser aplicada, seja porque erro não houve, seja porque a mercadoria foi corretamente especificada, conforme Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980; (k) as multas decorrentes das diferenças de tributo não podem ser aplicadas, por não ter havido dolo. Em 29/08/2017 ocorre o julgamento de primeira instância (fls. 4587 a 4616), no qual se decide, por maioria de votos (vencido julgador que defendia a nulidade formal por erro na identificação do sujeito passivo), pela parcial procedência da impugnação, interpondose recurso de ofício em relação ao valor exonerado, sendo a decisão calcada nos seguintes fundamentos: (a) a Solução de Consulta Interna COSIT no 8/2013 dispõe que o lançamento efetuado em nome da matriz, quando deveria ter sido feito em nome da filial, constitui erro formal, mas que diante da correta qualificação do sujeito passivo e do exercício da totalidade do direito de defesa (como no caso, em que a impugnante não retirou de seus argumentos nenhuma declaração de importação autuada), não há necessidade de um novo lançamento, havendo a possibilidade de convalidação; (b) as alegações de duplicidade de lançamento (inclusive em DI da filial, representada pelas mesmas pessoas em autos diversos) são procedentes, devendo tais DI serem excluídas do lançamento; (c) o fato de a autuação tratar de distintos produtos não prejudica a defesa, que pode ser individualizada, por matéria (e o foi); (d) em relação aos aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, em disco, por meio magnético, a fiscalização chega a conclusão oposta à que deriva dos laudos técnicos carreados aos autos, sendo o lançamento improcedente; (e) no que se refere a aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som com GPS, para monitoramento de veículos, para os quais houve solução de consulta, não procede a alegação de impossibilidade de revisão de DI já desembaraçadas, tendo razão a fiscalização; (f) no que tange a interfones com câmera ou monitor (videofones), não há notícias sobre a existência de laudos técnicos, e o produto é incontroversamente um “videofone”, o que difere de interfone, e de “interfone com monitor”, sendo irrelevante a classificação constante em portarias da SUFRAMA, que não tem competência para a classificação de mercadorias, sendo que, apesar de assistir razão à fiscalização sobre a classificação, deve ser cancelado o lançamento, pois foi utilizada a alíquota de 14% do imposto de importação (com seus reflexos na apuração dos demais tributos), constante no “Ex” tarifário, e não a de 25%, plena, lançada, o que caracteriza erro na construção do lançamento de todos os tributos, mantendose somente a multa por erro de classificação; (g) a revisão aduaneira é possível e permitida expressamente pelo art. 54 do DecretoLei no 37/1966, e a segurança jurídica pleiteada se dá com a solução de consulta a pedido da empresa; (h) o Ato Declaratório Normativo no 29/1980 trata de penalidades diversas das aplicadas no caso, e a boafé não exclui a multa por erro de classificação, ou as diferenças de tributos lançadas; e (i) é desnecessária a realização de diligência. Fl. 4706DF CARF MF 6 Após a ciência da decisão de piso, em 04/09/20174 (fl. 4562), a empresa apresentou recurso voluntário em 11/09/2017 (fls. 4655 a 4667), dispondo que o acórdão de piso merece retoque no que tange às conclusões referentes aos produtos importados denominados “aparelho de interfone com monitor, comercialmente denominado vídeo porteiro”, pelas seguintes razões: (a) a recorrente não concorda que importa “videofones”, e agrega fotos de um dos produtos importados e de outro produto que seria um “videofone” (fls. 4659/1660), destacando que o “videofone” permite conversação e visualização simultânea, ao passo que o produto objeto da autuação permite apenas a visualização por quem está na unidade interna; (b) existe divergência entre a TEC e a NESH, a ser dirimida, sendo os produtos importados “interfones”; (c) ao remeter os produtos à subposição 8517.6, a fiscalização deixou de considerálos como aparelhos telefônicos, o que é incoerente; (d) o “videofone” é um produto único que combina aparelho telefônico, câmera de televisão e receptor de televisão, para ser utilizado em videoconferências, e não o produto objeto da autuação; e (e) quanto à multa por erro de classificação, reforçase que não pode ser aplicada por ter havido correta especificação da mercadoria, como defendido na impugnação. À fl. 4674, informase que a PGFN não requisitou os autos no prazo normativo, para apresentação contrarrazões. Em setembro de 2018 o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator Os recursos voluntário e de ofício apresentados atendem aos requisitos de admissibilidade, inclusive o limite de alçada, claramente superado (foram afastados, segundo levantamento da DRJ fl. 4616 R$ 131.215.573,77, dos R$ 131.276.676,04 lançados), e, portanto, deles se conhece. São matérias contenciosas, no presente processo, em sede de recuso de ofício: (a) o crédito tributário lançado em duplicidade em relação às declarações de importação 16/11587044, 16/12061275, 16/12473379 e 16/12567713, que já haviam sido objeto de lançamento fiscal em outro processo administrativo (no 10909.721938/201662); (b) o crédito tributário lançado a título de Imposto de Importação, IPIImportação, Contribuição para o PIS/PASEPImportação e COFINSImportação, assim como a multa por erro de classificação, para os produtos identificados como “aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, em disco, por meio magnético” (NCM 8521.90.10); e (c) o crédito tributário lançado a título de Imposto de Importação, IPIImportação, Contribuição para o PIS/PASEPImportação e COFINSImportação, para os produtos identificados como “interfones com câmera ou monitor” (NCM 8517.62.59). No que se refere ao recurso voluntário, a controvérsia foi instaurada em relação a: (d) preliminares referentes a nulidade por: (d1) ter sido autuado mais de um estabelecimento da empresa; (d2) reunião em um mesmo processo de três análises referentes a classificações distintas; (d3) erro na alíquota do imposto de importação aplicável à NCM Fl. 4707DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.678 7 8517.62.59; e (d4) afronta aos laudos técnicos apresentados; (e) possibilidade de revisão aduaneira; (f) crédito tributário lançado a título de Imposto de Importação, IPIImportação, Contribuição para o PIS/PASEPImportação e COFINSImportação, para os produtos identificados como “aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som com GPS, para monitoramento de veículos” (NCM 8526.91.00); (g) multa por erro de classificação para os produtos identificados como “interfones com câmera ou monitor”; e (h) possibilidade de afastamento da multa com fundamento no Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980, e na ausência de dolo. No entanto, o recurso voluntário tratou apenas sobre os itens descritos sob as letras “g” (multa por erro de classificação para os produtos identificados como “interfones com câmera ou monitor”); e “h” (possibilidade de afastamento da multa com fundamento no Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980, e na ausência de dolo/descrição correta das mercadorias). Resta preclusa, então, a discussão sobre os demais temas presentes na impugnação, aqui destacados sob as letras “d” (e desmembramentos), “e” e “f”. Iniciamos a análise pelas matérias sujeitas ao recurso de ofício. No entanto, efetuamos, antes, breves considerações sobre o procedimento de classificação de mercadorias, em seus aspectos técnicos e jurídicos, e sobre a utilidade e relevância internacional do tema. 1. Da classificação de mercadorias aspectos técnicos e jurídicos É notório que a classificação de mercadorias é hoje tema complexo, que demanda atenção de especialistas na matéria. No entanto, não se pode confundir especialistas em classificação de mercadorias com especialistas em informar o que são determinadas mercadorias (em geral, peritos). Essas duas categorias são frequentemente confundidas. O perito não tem a função de classificar mercadorias na nomenclatura. O perito químico, por exemplo, tem a função de, a partir de análise da composição de determinada mercadoria, informar qual é seu nome técnico e quais são suas características. Esses aspectos são eminentemente técnicos. A classificação de mercadorias é atividade jurídica, a partir de informações técnicas. O perito, técnico em determinada área (mecânica, elétrica etc.) informa, se necessário, quais são as características e a composição da mercadoria, especificandoa, e o especialista em classificação (conhecedor das regras do SH e de outras normas complementares), então, classifica a mercadoria, seguindo tais disposições normativas. Tais atividades não se confundem, como já entendeu este colegiado unanimemente, por exemplo, nos Acórdãos no 3401005.287, de 28/08/2018; 3401004.454, de 22/03/2018; 3401004.380, de 26/02/2018; e 3401003.775, de 22/05/2017. 2. Da classificação de mercadorias utilidade e relevância internacional Fl. 4708DF CARF MF 8 A classificação de mercadorias se presta primordialmente à uniformização internacional. De nada adiantaria, por exemplo, pactuar alíquotas sobre o imposto de importação (ou restrições/proibições à importação) internacionalmente, se não fosse possível designar sobre quais produtos recai o acordo. A "Babel" de idiomas sempre foi um fator de dificuldade para o controle tributário e aduaneiro, e também para a elaboração de estatísticas de comércio internacional, e é agravada pelas diversas denominações que uma mercadoria pode ter mesmo dentro de um único idioma (v.g., no Brasil, a tangerina, também denominada de mexerica, bergamota ou mimosa, entre outros). Embora tenha havido iniciativas no século XIX, na Europa, de confecção de listas alfabéticas de mercadorias, é em 29/12/1913, em Bruxelas, na segunda Conferência Internacional sobre Estatísticas Comerciais, que 29 países chegam à primeira nomenclatura de real importância, dividindo o universo de mercadorias em 186 posições, agrupadas em cinco capítulos: animais vivos, alimentos e bebidas, matériaprima ou simplesmente preparada, produtos manufaturados, e ouro e prata. Depois de diversas iniciativas, como a Nomenclatura de Genebra, da década de 30 do século passado, e a Nomenclatura Aduaneira de Bruxelas, de 1950, com o nome alterado, em 1974, para Nomenclatura do Conselho de Cooperação Aduaneira – NCCA, chegase à Convenção do “Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias" (SH), aprovada em 1983, e que entrou em vigor internacional em 1o de janeiro de 1988.2 A Convenção do SH é hoje aplicada em âmbito mundial, não só entre os mais de 150 países signatários, mas em suas relações com terceiros. No Brasil, a referida convenção foi aprovada pelo Decreto Legislativo no 71, de 11/10/1988, e promulgada pelo Decreto no 97.409, de 23/12/1988, com depósito internacional do instrumento de ratificação em 08/11/1988. Desde 1o de janeiro de 1989, a convenção é plenamente aplicável no Brasil, tendo, segundo entendimento dominante em nossa suprema corte, "status" de paridade com a lei ordinária.3 O Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (SH) é uma nomenclatura estruturada sistematicamente buscando assegurar a classificação uniforme de todas as mercadorias (existentes ou que ainda existirão) no comércio internacional, e compreende seis Regras Gerais Interpretativas (RGI), Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição, e 21 seções, totalizando 96 capítulos, com 1.244 posições, várias destas divididas em subposições de 1 travessão (primeiro nível) ou dois (segundo nível), formando aproximadamente 5.000 grupos de mercadorias, identificados por um código de 6 dígitos, conhecido como Código SH.4 Desde que não contrariem o estabelecido no SH, os países ou blocos regionais podem estabelecer complementos aos seis dígitos internacionalmente acordados, e utilizar a codificação inclusive para temas e tributos internos. A Nomenclatura Comum do MERCOSUL (NCM), que serve de base à aplicação da Tarifa Externa Comum (TEC), acrescenta aos seis dígitos formadores do código do Sistema Harmonizado mais dois, um referente ao item (sétimo dígito) e outro ao subitem (oitavo dígito). A inclusão de um par de dígitos efetuada na NCM demandou ainda a edição de Regras Gerais Complementares (RGC) às seis Regras Gerais do SH (para disciplinar a interpretação no que se refere a itens e subitens) e de Notas Complementares.5 E, no Brasil, a NCM serve de base para a Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (TIPI), desde a TIPI de 1996, veiculada pelo Decreto no 2.092, de 10/12/1996. Fl. 4709DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.679 9 Assim, se o Brasil, por exemplo, pactua internacionalmente as alíquotas máximas (no âmbito da Organização Mundial do Comércio OMC) ou a alíquota extrabloco (no âmbito do MERCOSUL) do imposto de importação para determinada classificação, tais pactos são aplicáveis ao que se entende internacionalmente abrangido por tal classificação. Sendo a TIPI um mero reflexo do SH e da NCM, qualquer discussão sobre classificação de mercadorias para efeito de incidência do IPI deve ser feita à luz da Convenção do SH (com suas Regras Gerais Interpretativas, Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição), se referente aos primeiros seis dígitos, e com base no acordado no âmbito do MERCOSUL em relação à NCM (Regras Gerais Complementares e Notas Complementares), no que se refere ao sétimo e ao oitavo dígitos. Feitos tais esclarecimentos, passase a analisar a discussão jurídica sobre classificação de mercadorias, presente nestes autos, entre outras. 3. Do Recurso de Ofício 3.1. Da duplicidade de lançamento em relação a 4 declarações Como exposto, a decisão de piso, além de rejeitar diversas preliminares de nulidade (fls. 4594 a 4598, e 4599 matérias não devolvidas à cognição este colegiado), reconheceu, compulsando o processo administrativo no 10909.721938/201662 (fls. 4598/4599), que houve duplicidade de lançamento em relação às DI no 16/11587044, no 16/12061275, no 16/12473379 e no 16/12567713, excluindo os créditos tributários correspondentes e multas do lançamento. De fato, a duplicidade pode ser evidenciada no processo administrativo no 10909.721938/201662, que já teve até julgamento, no CARF, por meio do Acórdão no 3402 004.948, de 27/02/2018. Assim, nesse aspecto, não merece aparas a decisão de piso. 3.2. Da classificação dos “aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, em disco, por meio magnético” No mérito, a análise se inicia com a discussão sobre a classificação de “aparelhos gravadores e reprodutores de imagem e som, em disco, por meio magnético” (fls. 4599 a 4606), classificados no código NCM 8521.90.10, sendo a imputação fiscal no sentido de que a classificação correta se daria no código NCM 8521.90.90. O cerne da divergência, como relatado, em relação aos diversos modelos de (DVR – digital vídeo recorder), com a descrição acima referida, próprios para sistemas de segurança, se refere a terem (ou não) os aparelhos também a função de editor de imagem/som. Essa a diferença é relevante para a classificação em subitem, desmembramento regional que corresponde ao oitavo dígito do código NCM. Havendo a função de edição, classificase o produto no código NCM 8521.90.10, com o seguinte texto: “Gravadorreprodutor e editor de imagem e som, em discos, por meio magnético, óptico ou optomagnético”, como defende o importador. Caso Fl. 4710DF CARF MF 10 contrário, aplicase o desmembramento residual (código NCM 8521.90.90 “Outros”), como sustenta o fisco. Basta saber, assim, se os equipamentos desempenham função de edição, e essa tarefa, de identifica as características e a natureza das mercadorias, como esclarecemos nas considerações inicias sobre classificação de mercadorias, não é jurídica, mas técnica. A fiscalização fundou o entendimento de que o aparelho não é também um editor de imagem e som em três premissas: a primeira e a segunda derivam da análise de manuais e laudos técnicos (fl. 4345): Passa a autoridade fiscal, assim, a discutir o que seria “edição”, mesmo diante de resposta técnica que afirmava que o aparelho fazia edição. A DRJ, colando excertos de alguns laudos técnicos que figuram no processo, deixa patente a manifestação técnica no sentido de que o aparelho permite edição (fls. 4601 a 4605). Extrapola, então, a fiscalização, sua função de classificar a mercadoria de acordo com as repostas técnicas obtidas, passando a discutir o alcance de tais respostas. Como expôs o julgador de piso (fl. 4601): Por isso, entendemos correta a conclusão do julgador de piso, no sentido de que a fiscalização não acata nem comprova a improcedência ou irregularidade dos laudos técnicos. Cabe apenas um esclarecimento quanto à parte final da conclusão do julgador de piso, expressa à fl. 4606, quando este afirma que deve ser recusada a nova classificação pretendida pela autoridade fiscal e mantida a classificação fiscal adotada pela impugnante. Isso porque não se está, aqui, a apreciar a correção da classificação adotada pela empresa, mas apenas a improcedência dos argumentos do fisco para sustentar que a classificação por ele defendida seria a correta. Esta decisão, assim, apenas resolve o litígio no caso concreto, em que a autoridade fiscal chegou a conclusão técnica distinta da que consta nos laudos, sem apontar suas incorreções ou improcedências, ou solicitar novo laudo, com quesitos mais específicos, em violação ao art. 30 do Decreto no 70.235/1972, que rege o processo de determinação e exigência de crédito tributário, com estatura legal. Fl. 4711DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.680 11 Digo isso já retomando a afirmação inicial deste tópico, no sentido de que a fiscalização fundou o entendimento de que o aparelho não é também um editor de imagem e som em três premissas, agora remetendo à terceira, que consiste em trazer aos autos diversas soluções de consulta sobre DVR, no sentido de que a classificação correta seria aquela defendida no lançamento fiscal (fl. 4346). Aliás, a conclusão de que o DVR deve ser classificado no código NCM 8521.90.90 é endossada por diversas Soluções de Consulta de distintas turmas do colegiado nacional especializado da classificação de mercadorias CECLAM (Centro de Classificação de Mercadorias), disponíveis em <http://idg.receita.fazenda.gov.br/orientacao/aduaneira/classificacaofiscal demercadorias/compendioceclamabril2018.pdf>, como a SC 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado tecnicamente de “DVR – Digital Video Recorder” (gravador de vídeo digital) e comercialmente de “IDVR – Intelligent Digital Vídeo Recorder”. (SC 220/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, comercialmente denominado "Digital Video Recorder (DVR)". (SC 197/2017 4ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado comercialmente de “equipamento de videoregistração digital para televigilância”. (SD 11/2015 Comitê) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado tecnicamente de “DVR – Digital Video Recorder” (gravador de vídeo digital) e comercialmente de “Stand Alone”. (SC 225/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado comercialmente “Standalone DVR 4 Canais”. (SC 230/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado comerciamente de “NVR – Net Video Recorder” (gravador de vídeo em rede). (SC 178/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de Fl. 4712DF CARF MF 12 segurança, denominado tecnicamente de “DVR – Digital Video Recorder”. (SC 219/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado comercialmente “DVR – Gravador de Vídeo Digital”. (SC 222/2015 5ª Turma) 8521.90.90 Aparelho gravador e reprodutor de sinais videofônicos em meio magnético, apresentado isoladamente, utilizado principalmente conectado a câmeras de vídeo de segurança, denominado comercialmente “DVR Stand Alone”. (SC 229/2015 5ª Turma) Assim, não se está aqui a afirmar que a classificação dos DVR se dá em código NCM distinto do 8521.90.90, mas somente que a fiscalização, no caso concreto, fundamentou insuficientemente seu lançamento, mesclando a tarefa do classificador com a do perito, adotando conclusão diversa da externada em laudos técnicos, sem demanda pericial adicional com quesitos mais específicos, e sem a devida tecnicidade. Nesses termos, acordase com a conclusão do julgador de piso, pela improcedência do lançamento, insuficientemente fundamentado, negandose provimento ao recurso de ofício, em relação ao tema. 3.3. Da “classificação” em relação aos “interfones com câmera ou monitor” Indiquei entre aspas, no título deste tópico, a palavra “classificação”, porque não faz parte do recurso de ofício, propriamente, a análise da classificação das referidas mercadorias, que afastou a exigência de tributos com base em argumento diverso, e não na classificação, que defendeu como correta no código NCM 8517.62.59. Sobre o mérito da classificação, trataremos no recurso voluntário, em tópico específico. Afirma a fiscalização, sobre o tema, que os diversos modelos de interfones com câmera ou monitor devem ser classificados no código NCM 8517.62.59. Em sua impugnação, além da defesa de mérito em relação à classificação, defendendo como correto o código NCM 8517.18.10, a empresa argumenta que houve erro na alíquota do imposto de importação aplicável à NCM 8517.62.59 na autuação, que não era de 25%, mas de 14%, conforme “Ex 001”, aplicável a toda a NCM, com exceções que não se referem ao produto importado. E foi esse argumento que fez com que o julgador de piso afastasse o lançamento em relação ao Imposto de Importação, se seu reflexo nos demais tributos incidentes. Como se afirma na decisão da DRJ (fl. 4609): Fl. 4713DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.681 13 E, como as mercadorias em análise não são dos tipos “switches, roteadores, conversores e bridges padrão HPNA (HPN, HomePNA) ou HCNA”, a alíquota aplicável seria a de 14%, e não a de 25%, o que leva o julgador de piso a concluir que (fl. 4610/4611): Assim, o autuante reclassificou a mercadoria para o código NCM 8517.62.59, em procedimento entendido como correto pela DRJ, mas utilizou no lançamento a alíquota correspondente a tal NCM (25%) e não aquela constante no “Ex” Tarifário amplo, “Ex001”, de 14%. Nesse tópico, não merece prosperar a decisão de piso. A afirmação de que a mercadoria seria enquadrada no “Ex001” é uma alegação ad argumentandum de defesa, visto que a empresa entende que a classificação correta seria no código NCM 8517.18.10, que sequer suscita discussão sobre “Ex”. Assim, não encaro o tema como “vício material insanável que acarreta nulidade do lançamento”, mas como tema de mérito, que ocasiona eventual improcedência (e não nulidade) do lançamento. Fl. 4714DF CARF MF 14 O fisco entendeu que o código NCM correto seria 8517.18.10, cuja alíquota era de 25%, e a empresa, em sua defesa, mesmo discordando, informou que, ainda que fosse correto o código defendido pelo fisco, ad argumentandum, as mercadorias se enquadrariam em um “Ex” (uma espécie de exceção à Tarifa Externa Comum) constante em tal código. Creio que a instância de piso fez uso extremado do art. 142 do CTN, em relação à expressão “calcular o montante do tributo devido”, em proporção que tornaria nula grande parte das autuações apreciadas neste tribunal administrativo. A matéria em discussão é de mérito, e não de forma, e as nulidades, no processo administrativo, restringemse àqueles temas relacionados no art. 59 do Decreto no 70.235, que rege o processo de determinação e exigência de crédito tributário, com estatura de lei (incompetência e preterição do direito de defesa). Nesse aspecto, e ainda sem discutir o mérito da classificação, tema que será tratado em tópico específico deste voto, na parte que se refere ao recurso voluntário, entendo que andou mal a decisão de piso ao anular todo o lançamento de tributos em relação às mercadorias, devendo ser restabelecido, a priori, o lançamento, mas reduzido ao patamar correspondente à aplicação da alíquota de 14% em relação ao imposto de importação, com os efeitos correspondentes nos demais tributos e consectários/penalidades. Digo a priori, porque aqui se está a analisar somente o recurso de ofício. E, caso esteja correta a classificação externada pelo contribuinte (tema ainda a ser analisado neste voto, no tópico a seguir), a concordância com o resultado do julgamento de piso se daria por razões distintas. De qualquer modo, deve ser dado provimento parcial ao recurso de ofício, para afastar a nulidade suscitada pela DRJ em relação à utilização da alíquota de 25% para as mercadorias agrupadas na categoria “interfones com câmera ou monitor”. 4. Do Recurso Voluntário 4.1. Da classificação em relação aos “interfones com câmera ou monitor” No presente tópico cabe a análise da classificação adotada para as mercadorias identificadas como “interfones com câmera ou monitor”, e a exigência de multa por erro de classificação, pois tanto a reclassificação proposta pelo fisco (no código NCM 8517.62.59) quanto a multa foram mantidos pela DRJ, devendose o afastamento parcial (restrito a tributos), como discutido no tópico anterior, a questões afetas a outro tema. Afirma a fiscalização que os diversos modelos de interfones com câmera ou monitor prestamse a comunicação em imóveis, seja em conjunto composto por unidade interna (com monitor de vídeo) e externa (com câmera), com fio, seja separadamente, em módulos, e constituem uma unidade funcional, devendo as mercadorias ser classificadas, conforme nota 4 da Seção XVI, de acordo com a função desempenhada pelo conjunto, o que aponta para a posição 8517, sendo reforçado pela NESH de tal posição, que define videofone de modo a diferenciálo do interfone pela transmissão conjunta de imagem e som, cabendo a subposição de primeiro nível 6, seguida da subposição e segundo nível mais específica, 2, e pelos desmembramentos regionais específicos, culminando no código NCM 8517.62.59: “8517APARELHOS TELEFÔNICOS, INCLUINDO OS TELEFONES PARA REDES CELULARES E PARA Fl. 4715DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.682 15 OUTRAS REDES SEM FIO; OUTROS APARELHOS PARA EMISSÃO, TRANSMISSÃO OU RECEPÇÃO DE VOZ, IMAGENS OU OUTROS DADOS, INCLUINDO OS APARELHOS PARA COMUNICAÇÃO EM REDES POR FIO OU REDES SEM FIO (TAL COMO UMA REDE LOCAL (LAN) OU UMA REDE DE ÁREA ESTENDIDA (WAN)), EXCETO OS APARELHOS DAS POSIÇÕES 84.43, 85.25, 85.27 OU 85.28. 8517.6 Outros aparelhos para emissão, transmissão ou recepção de voz, imagens ou outros dados, incluindo os aparelhos para comunicação em redes por fio ou redes sem fio (tal como uma rede local (LAN) ou uma rede de área estendida (alargada*) (WAN)): 8517.62 Aparelhos para recepção, conversão, emissão e transmissão ou regeneração de voz, imagens ou outros dados, incluindo os aparelhos de comutação e roteamento (encaminhamento*) 8517.62.5 Aparelhos para transmissão ou recepção de voz, imagem ou outros dados em rede com fio. 8517.62.59 Outros” (grifo nosso) Afirma ainda a fiscalização que seu entendimento é similar ao encontrado na Solução de Consulta no 3/2014 (fl. 4349). A empresa, em sua impugnação, sustentou, em relação aos “interfones com câmera ou monitor”, que a própria fiscalização afirma que os produtos formam um sistema para comunicação em imóveis, composto por uma unidade interna e uma externa, que reflete o conceito de interfonia, sendo que a nomenclatura não direciona a classificação dos interfones quando tiverem vídeo para outra posição, como se compreende pelo texto da NESH da posição 8517 (o que se confirmaria pela Portaria SUFRAMA no 154, de 25/07/2001, disponível no próprio sítio da RFB, e pela Portaria SUFRAMA no 154/1999): NESH – Posição 8517: “Esta posição abrange os aparelhos de comunicação para emissão, transmissão ou recepção de falas ou de outros sons, de imagens ou de outros dados, entre dois pontos, por modulação duma corrente elétrica ou duma onda óptica circulando num suporte formado por fios ou por ondas eletromagnéticas numa rede sem fios. O sinal pode ser analógico ou digital. Dentre tais redes, que podem ser interligadas, podemse citar a telefonia, a telegrafia, a radiotelefonia, a radiotelegrafia, as redes locais e as redes estendidas. (...) II. OUTROS APARELHOS PARA A TRANSMISSÃO OU RECEPÇÃO DE VOZ, IMAGENS OU OUTROS DADOS, INCLUINDO OS APARELHOS PARA COMUNICAÇÃO EM REDES POR FIO OU REDES SEM FIO (TAL COMO UMA Fl. 4716DF CARF MF 16 REDE LOCAL OU UMA REDE DE ÁREA ESTENDIDA (ALARGADA*)) (...) B) Os interfones. Estes aparelhos são geralmente constituídos por uma unidade auscultadormicrofone ou por um altofalante, um microfone e teclas. São principalmente instalados nas entradas dos imóveis que possuem vários apartamentos e permitem ao visitante chamar e conversar com o morador através do toque na tecla correspondente. C) Os videofones. Os videofones para imóveis, que são essencialmente uma combinação de um aparelho telefônico, uma câmera de televisão e um receptor de televisão (transmissão por fio). (...)” (grifo nosso) Texto da posição 8517 (e desmembramentos): “8517(...) 8517.1 Aparelhos telefônicos, incluídos os telefones para redes celulares e para outras redes sem fio: 8517.18 – Outros 8517.18.10 Interfones.” (grifo nosso) Sustenta ainda a empresa que a reclassificação não está fundamentada em elementos técnicos e que discorda do teor da Solução de Consulta apresentada pela fiscalização, sendo que existe Solução de Consulta com conclusão diferente (no 219/93). O julgador de piso, ao analisar os argumentos apresentados pela empresa, descartou de plano a alegação de que as Portarias SUFRAMA teriam relevância para a classificação de mercadorias, o que aqui se endossa, visto que a SUFRAMA não detém competência em relação à matéria. E também a Solução de Consulta apresentada, além de ser de data anterior à apresentada pelo fisco e com nomenclatura diversa, pouca relevância tem na análise do caso, que abrange períodos entre 2012 e 2017. O fato de a NESH incluir videofones na posição 8517 também é pouco relevante, porque ambas as partes no contencioso defendem ser esta a posição correta, divergindo apenas na subposição de primeiro nível, que, para o fisco é “6” e para a empresa é “1”. Reiterese abaixo os textos das subposições de primeiro nível, para comparação, em obediência à RGC no 6: “8517.1 Aparelhos telefônicos, incluídos os telefones para redes celulares e para outras redes sem fio: 8517.6 Outros aparelhos para emissão, transmissão ou recepção de voz, imagens ou outros dados, incluindo os Fl. 4717DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.683 17 aparelhos para comunicação em redes por fio ou redes sem fio (tal como uma rede local (LAN) ou uma rede de área estendida (alargada*) (WAN)):” E, voltando ao texto da NESH da posição 8517, nem é preciso muito esforço para perceber que os chamados “videofones” não constituem “aparelhos telefônicos...”, mas “aparelhos para emissão, transmissão ou recepção de voz, imagens...”. Isso levou a DRJ a concluir (fl. 4609): Em seu recurso voluntário, a empresa esclarece que, “ao contrário do que constou no r. Acórdão, não reconhece que importa “videofones”. No entanto, vejamos as descrições das mercadorias em Declarações de Importação, destacadas pelo julgador de piso (fl. 4608): Defendese, então, na peça recursal, que “interfones com monitor” (“vídeo porteiro”, em que só o lado interno tem acesso a imagem) são diferentes de “videofones” (que permitem que ambos os interlocutores possam ter acesso a imagem), anexando foto ilustrativa dos produtos objeto da autuação (fl. 4659). E segue a defesa afirmando que se trata o aparelho de um interfone, insistindo em comparar o texto do código NCM 8517.18.10 com o do código NCM 8517.62.59, o que constitui erro basilar de classificação, pois, como exposto, de acordo com a Regra Geral no 6, após determinar o texto da posição, devese seguir, dígito a dígito, comparando apenas desmembramentos de mesmo nível. Fl. 4718DF CARF MF 18 Ou seja, como fisco e empresa estavam, de acordo em relação à correção da posição 8517, deveria ser, primeiro, determinado qual o quinto dígito, sem seguir apressadamente aos desmembramentos de outro nível. E, como exposto, as opções existentes para desdobramentos em subposição de primeiro nível deixam claro que não cabe na subposição 1 menção a aparelhos com vídeo, sejam eles “videofones”, “porteiros com vídeo”, ou “interfones com monitor”. A discussão, aqui, não é técnica, mas jurídica, e simples, de aplicação das regras de classificação, internacionalmente estabelecidas. A empresa alega ainda em seu recurso (fl. 4663): As NESH, que, por serem redigidas internacionalmente, no âmbito da OMA, tratam apenas dos seis primeiros dígitos da classificação (Sistema Harmonizado) agruparam em duas categorias as mercadorias que constam na posição 8517, cujo texto é, como se recorda: “8517APARELHOS TELEFÔNICOS, INCLUINDO OS TELEFONES PARA REDES CELULARES E PARA OUTRAS REDES SEM FIO; OUTROS APARELHOS PARA EMISSÃO, TRANSMISSÃO OU RECEPÇÃO DE VOZ, IMAGENS OU OUTROS DADOS, INCLUINDO OS APARELHOS PARA COMUNICAÇÃO EM REDES POR FIO OU REDES SEM FIO (TAL COMO UMA REDE LOCAL (LAN) OU UMA REDE DE ÁREA ESTENDIDA (WAN)), EXCETO OS APARELHOS DAS POSIÇÕES 84.43, 85.25, 85.27 OU 85.28.” (grifo nosso) As duas categorias agrupadas correspondem, exatamente, aos dois excertos sublinhados. Esse agrupamento, por certo, não corresponde à subdivisão nas subposições de primeiro nível da posição 8517, que obviamente são mais do que duas, mas a um desmembramento didático dos produtos que figuram na posição. De qualquer modo, o texto do primeiro grupo mencionado na NESH da posição 8517 corresponde exatamente à subposição de primeiro nível “1” de tal posição. Segundo as NESH, incluemse neste grupo aparelhos telefônicos por fio (que compreendem transmissor, receptores, circuito antiefeito local, avisador, comutadorinterruptor, e dispositivo Fl. 4719DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.684 19 seletor) e os telefones para redes celulares e outras redes sem fio (telefones celulares ou móveis, e telefones por satélite). Nos segundo grupo denominado de “OUTROS APARELHOS PARA A TRANSMISSÃO OU RECEPÇÃO DE VOZ, IMAGENS OU OUTROS DADOS, INCLUINDO OS APARELHOS PARA COMUNICAÇÃO EM REDES POR FIO OU REDES SEM FIO (TAL COMO UMA REDE LOCAL OU UMA REDE DE ÁREA ESTENDIDA (ALARGADA*))”, são apresentadas definições de “estações de base”, “interfones”, “videofones”, “aparelhos de comunicação para telegrafia” (exceto fax), “comutadoresinterruptores de telefonia ou telegrafia”, “aparelhos de transmissão e de recepção para radiotelefonia e radiotelegrafia”, e “outros equipamentos de comunicação”. Reparese que nota é de posição, ou seja, não se presta à classificação dentro de subposições. A única nota no âmbito de subposições (8517.62) afirma somente que “a presente subposição compreende, quando apresentadas separadamente, as unidades auscultadormicrofone e as unidades de base sem fio”. Parece, assim, não compreender bem a empresa a operatividade da NESH, confundindo seus dois agrupamentos aos desmembramentos em subposições (em número significativamente maior). Os desmembramentos em item e subitem, por sua vez (sétimo e oitavo dígitos) são regionais, estabelecidos no âmbito do MERCOSUL, que não tem ascendência (a não ser pela participação no Comitê específico sobre o tema, na OMA) sobre os seis primeiros dígitos. Não há, assim, contradição entre o que dispõe as NESH e, ad argumentandum, ainda que existisse eventual classificação indevida de interfones na subposição de primeiro nível “1” da posição 8517, pelo MERCOSUL, ela poderia ser questionada junto à OMA, para fins de harmonização mundial, aplicável aos seis primeiros dígitos, e isso em nada afetaria a discussão presente nestes autos. Improcedentes, assim, as alegações recursais de defesa, devendo ser mantido o lançamento em relação à classificação das mercadorias analisadas neste tópico. No entanto, cabe, no caso, a aplicação da alíquota de 14% em relação ao imposto de importação, como exposto no tópico 3.3 deste voto, com seus reflexos nos demais tributos correspondentes e consectários/penalidades, em função da reversão da decisão de piso, em recurso de ofício. 4.2. Da aplicação de multa por erro de classificação, nos casos de descrição correta da mercadoria Em seu recurso voluntário, defende a empresa que não se aplica a multa por erro de classificação por estar a classificação correta e por estar a mercadoria corretamente descrita, alegando que tal entendimento foi externado no Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980 (fl. 4666): Fl. 4720DF CARF MF 20 Ocorre que, no presente caso, não foi aplicada nem a multa do art. 108, nem a do art. 169 do DecretoLei no 37/1966. Cerca de dezesseis anos após a edição de tal ato, e em função de julgamentos do então Conselho de Contribuintes, foram editados os Atos Declaratórios Normativos COSIT no 10 e no 12/1997. O Ato Declaratório Normativo COSIT no 12/1997, ainda em vigor, dispõe: “O COORDENADORGERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o disposto no inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 91.030, de 5 de março de 1985, e no art. 112, inciso IV, do Código Tributário Nacional Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.” (grifo nosso) Daí se originam os dois requisitos presentes em várias decisões administrativas e judiciais, para a não aplicação de determinadas penalidades aduaneiras, no caso, a multa por infração administrativa o controle das importações, referida no art. 526 do Regulamento Aduaneiro de 1985 (exatamente a prevista no art. 169 do DecretoLei no 37/1966, citada no Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980). Fl. 4721DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.685 21 Como exposto, no caso, não se está a analisar tal penalidade, que trata de licença de importação (que veio a substituir a antiga “guia de importação”). Na mesma assentada, em 1997, foi publicado o Ato Declaratório Normativo COSIT no 10, de teor semelhante: “Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração punível com as multas previstas no art. 4º da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, e no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho aduaneiro, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução do imposto de importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a classificação tarifária errônea ou a indicação indevida de destaque (ex), desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. 2. Nos casos acima, os tributos devidos em razão de falta ou insuficiência de pagamento, exigidos no curso do despacho ou em ato de revisão aduaneira, serão acrescidos dos encargos legais, nos termos da legislação em vigor, a partir da data do registro da Declaração de Importação, relativamente ao Imposto de Importação, e do desembaraço aduaneiro, relativamente ao Imposto sobre Produtos Industrializados vinculado à importação.” (grifo nosso) Tal Ato veio a complementar a disciplina necessária à superação do Ato Declaratório Normativo CST no 29/1980, visto que disciplinou exatamente as multas que se entendeu serem sucessoras daquela prevista no art. 108 do DecretoLei no 37/1966 (multas de ofício por falta de recolhimento). No entanto, tal ato foi revogado, em 2002, pelo Ato Declaratório Interpretativo SRF no 13, de 10/09/2002, que excluiu a classificação tarifária errônea do texto: “O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso da atribuição que lhe confere o inciso III do art. 209 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal, aprovado pela Portaria MF nº 259, de 24 de agosto de 2001, e considerando o disposto no art. 84, e seu § 2º, da Medida Provisória nº 2.158 35, de 24 de agosto de 2001, declara: Art. 1º Não constitui infração punível com a multa prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho de importação, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução do imposto de importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a indicação indevida de destaque ex, desde que o produto esteja Fl. 4722DF CARF MF 22 corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. Art. 2º Fica revogado o Ato Declaratório (Normativo) Cosit nº 10, de 16 de janeiro de 1997.” (grifo nosso) Assim, desde 2002, descabe falar em descrição correta, ou boafé, como atenuante da multa de ofício por falta de recolhimento de tributo, e, ainda mais, da multa por erro de classificação aduaneira prevista no art. 84, I da MP no 2.15835/2001, que tem por fundamento exatamente o erro de classificação (ou até de descrição, como agregado posteriormente, pela Lei no 10.833/2002, art. 69). Por fim, cabe notificar que até o Ato Declaratório Interpretativo SRF no 13/2002 foi revogado recentemente, pelo Ato Declaratório Interpretativo RFB no 6, de 24/12/2018: “SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL, o uso das atribuições que lhe conferem os incisos III e XXVI do art. 280 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF nº 203, de 14 de maio de 2012, e tendo em vista o disposto no art. 84, e seu § 2º, da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, declara: Art. 1º Não constitui infração punível com a multa prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a solicitação, feita no despacho de importação, de reconhecimento de imunidade tributária, isenção ou redução de tributos incidentes na importação e preferência percentual negociada em acordo internacional, quando incabíveis, bem assim a indicação indevida de destaque ex, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante. Art. 2º Fica revogado o Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 13, de 10 de setembro de 2002.(...).” Assim, além da defasagem de quase quatro décadas do ato alegado pela defesa, os atos que o sucederam não são aplicáveis ao caso em análise, de multa de ofício por falta de pagamento de tributo em decorrência de reclassificação de mercadoria, e da multa prevista no art. 84, I da MP no 2.15835/2001, que tem por fundamento exatamente o erro de classificação (independente de suas consequências tributárias). Improcedentes, assim, as alegações recursais sobre o tema. 5. Das Considerações finais Tendo em vista o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário, e dar parcial provimento ao recurso de ofício, para manter a exigência de tributos considerando a aplicação da alíquota de 14% em relação ao imposto de importação de “interfones com Fl. 4723DF CARF MF Processo nº 10516.720006/201705 Acórdão n.º 3401005.796 S3C4T1 Fl. 4.686 23 câmera/monitor”, com seus reflexos nos demais tributos correspondentes e consectários/penalidades. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 4724DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13855.001499/2008-29
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008
INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. MÃO-DE-OBRA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO.
Restando incontroverso que houve utilização de empresas interpostas se para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, a sua desconsideração acarreta em tratar tal estrutura como pagamento pelo fornecimento de mão-de-obra por pessoa física, que não permite direito a crédito no regime não-cumulativo do PIS e Cofins, por expressa vedação legal.
Numero da decisão: 3401-005.719
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso e, no mérito, na parte conhecida, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Lazaro Antonio Souza Soares, Tiago Guerra Machado, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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MÃODEOBRA. INEXISTÊNCIA DE DIREITO A CRÉDITO. Restando incontroverso que houve utilização de empresas interpostas se para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, a sua desconsideração acarreta em tratar tal estrutura como pagamento pelo fornecimento de mãodeobra por pessoa física, que não permite direito a crédito no regime nãocumulativo do PIS e Cofins, por expressa vedação legal. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso e, no mérito, na parte conhecida, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Lazaro Antonio Souza Soares, Tiago Guerra Machado, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente, justificadamente, a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 85 5. 00 14 99 /2 00 8- 29 Fl. 217DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Cuidase de Recurso Voluntário contra decisão da 2ª Turma da DRJ/REC, que considerou improcedentes as razões da Recorrente contra Despacho Decisório que glosou créditos por ela pleiteados. Do Despacho Decisório Naquela ocasião, a D. Fiscalização não reconheceu créditos decorrentes de aquisição de serviços das empresas referenciadas nos autos por entender que estas se constituíam em interpostas empresas utilizadas para a contratação de empregados com redução de encargos previdenciários. Concluiu assim que os empregados destas interpostas empresas eram, na verdade, empregados da própria recorrente. Os elementos de prova constam dos processos 13855.001760/200971 13855.001761/200916 e 13855.001762/200961. Assim, os créditos foram glosados em virtude de, em diligencia da delegacia previdenciária, haver sido verificado suposto esquema da Recorrente para interpor pessoas jurídicas, tendo, como sócios, empregados a fim de se mitigar a incidência das contribuições previdenciárias. A conclusão, nos lançamentos relativos àqueles processos, é de que haveria vínculo empregatício entre os sócios das empresas e, portanto, seria vedado o crédito de contribuições provenientes de pessoas físicas por expressa previsão em lei. Da Manifestação de Inconformidade A Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, em síntese, a motivação fática do indeferimento é “falha, omissa e não condiz com a verdade” e informa que os processos administrativos que motivaram o indeferimento parcial do direito creditório não haviam transitado em julgado, porém não refuta os fatos narrados no Despacho Decisório. Da Decisão de 1ª Instância Sobreveio Acórdão 11046.228, através do qual a manifestação de inconformidade foi tida como improcedente. Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário, que veio a repetir os argumentos apresentados na impugnação, bem como acrescentou suas considerações trazidas aos processos administrativos que deram azo ao Despacho Decisório de que decorre esse contencioso. É o relatório. Fl. 218DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401005.716, de 11 de dezembro de 2018, proferido no julgamento do processo 13855.000846/200987, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Acórdão 3401005.716): "O Recurso é tempestivo, e, reunindo os demais requisitos de admissibilidade, tomo seu conhecimento. Todavia, verificase que a Recorrente optou por trazer novos argumentos em sede de Recurso Voluntário com o objetivo de reapreciação de matéria discutida nos processos administrativos de nºs 13.855.001760/200971, 13855.001761/200916 e 13855.001762/200961. Não há como conhecer dessa parcela do recurso em vista de ocorrência de preclusão argumentativa nos termos do Decreto 70.235/1972. Por outro lado, a Recorrente insiste na tese de os fatos causadores dos lançamentos de ofício consignados naqueles processos acima mencionados não se relacionam com os créditos ora glosados, porém nada traz de concreto a fim de embasar essa alegação. Nesse ínterim, insubsistente sua defesa por absoluta ausência de comprovação. Por fim, quanto à alegação de sobrestamento, necessário mencionar que os referidos processos já passaram pelo crivo do CARF, em seguidos julgamentos, que passou a mencionar Do Julgamento dos PAT’s 13.855.001760/200971 e 13855.001761/200916 Tais processos tiveram Acórdãos proferidos em 03.12.2014, sendo desfavorável ao contribuinte quanto ao objeto comum do litígio: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 Fl. 219DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 5 4 CARF. SÚMULA 76. SIMULAÇÃO. FORMA DE EVADIRSE DAS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS. INTERPOSTAS PESSOAS. SIMPLES. SAT. LEGALIDADE. MULTA. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observandose os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. A utilização de interpostas pessoas enquadradas no SIMPLES para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, à fim de não recolher a quota patronal das contribuições previdenciárias, quando comprovado que o único fim desta empresa é desvincular o empregador, não merece surtir efeitos. O enquadramento da empresa no respectivo grau de risco é realizado pelo código CNAE, até a competência 05/2007, em decorrência da aplicação do anexo V do Decreto nº 3.048/99, e pelo CNAE FISCAL, a partir de 06/2007, tendo em vista a alteração do anexo mencionado pelo Decreto nº 6.042/97. No que diz respeito à multa de mora aplicada até 12/2008, com base no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, tendo em vista que o artigo 106 do CTN, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei nº 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação e prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Recurso Voluntário Provido em Parte (Acórdão 2403002.855 Rel. Marcelo Magalhaes Peixoto) Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007 SIMULAÇÃO. FORMA DE EVADIRSE DAS OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS. INTERPOSTAS PESSOAS. SIMPLES A simulação não é aceita como forma de planejamento tributário com vistas a reduzir a carga tributária da empresa. Manobra considerada ilegal. A utilização de interpostas pessoas enquadradas no SIMPLES para contratação de mão de obra e colocação à disposição de uma outra pessoa jurídica, à fim de não recolher a quota patronal das contribuições previdenciárias, Fl. 220DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 6 5 quando comprovado que o único fim desta empresa é desvincular o empregador para com uma empresa, há de ser reconhecida a nulidade do negócio por abuso de direito e simulação. MULTA. RECÁLCULO. MP 449/08. LEI 11.941/09. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Antes do advento da Lei 11.941/09, não se punia a falta de espontaneidade, mas tão somente o atraso no pagamento a mora. No que diz respeito à multa de mora aplicada até 12/2008, com base no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, tendo em vista que o artigo 106 do CTN determina a aplicação do princípio da retroatividade benigna, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei nº 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%, em comparativo com a multa aplicada com base na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91, para determinação e prevalência da multa mais benéfica, no momento do pagamento. Recurso Voluntário Provido em Parte. (Acórdão 2403002.856 Rel. Marcelo Magalhaes Peixoto) Esses processos seguiram para Agravos por parte da Fazenda e do Contribuinte contra essas decisões e consta que, em virtude de adesão a programa de parcelamento (PERT), houve desistência por parte da Recorrente em janeiro de 2018. Do Julgamento do PAT 13855.001762/200961 Esse processo foi apensado aos demais por ocasião do Recurso Especial à CSRF interposto pela Fazenda Nacional, nos termos da Resolução 9202000.166: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Secretaria de Câmara, para que este processo seja apensado ao de n° 13855.001760/200971, que trata de obrigação principal e se encontra pendente de apreciação de agravo interposto em face de exame de admissibilidade do Recurso Especial do Contribuinte, sugerindose, ainda a apreciação conjunta por esta CSRF do referido feito de n°. 13855.001760/200971 com o de n°. 13855.001761/200916, para posterior distribuição a este relator para fins de julgamento em conjunto de Recursos Especiais, por conexão, caso aplicável. Portanto, inexistem decisões pendentes diante da desistência da própria Recorrente nos aludidos processos, e, sendo certo Fl. 221DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 7 6 que não restaram argumentos de mérito a serem apreciados, não há o que se acolher do Recurso apresentado. Por todo o exposto, conheço parcialmente o Recurso, e, na parte conhecida, negolhe provimento." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por conhecer parcialmente o Recurso, e, na parte conhecida, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 222DF CARF MF Processo nº 13855.001499/200829 Acórdão n.º 3401005.719 S3C4T1 Fl. 8 7 Fl. 223DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13819.901837/2013-28
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2010
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO CERTA E LÍQUIDA DO INDÉBITO. NÃO CONFIGURAÇÃO.
A comprovação deficiente do indébito fiscal ao qual se deseja compensar ou ter restituído não pode fundamentar tais direitos. Somente o direito creditório comprovado de forma certa e líquida dará ensejo a compensação e/ou restituição do indébito fiscal.
Numero da decisão: 1003-000.381
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
(assinado digitalmente)
Bárbara Santos Guedes - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: BARBARA SANTOS GUEDES
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COMPROVAÇÃO CERTA E LÍQUIDA DO INDÉBITO. NÃO CONFIGURAÇÃO. A comprovação deficiente do indébito fiscal ao qual se deseja compensar ou ter restituído não pode fundamentar tais direitos. Somente o direito creditório comprovado de forma certa e líquida dará ensejo a compensação e/ou restituição do indébito fiscal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Presidente (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sérgio Abelson, Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 90 18 37 /2 01 3- 28 Fl. 155DF CARF MF Processo nº 13819.901837/201328 Acórdão n.º 1003000.381 S1C0T3 Fl. 3 2 Tratase de recurso voluntário contra acórdão de nº 0377.385, de 18 de outubro de 2017, da 7ª Turma da DRJ/BSB, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade da contribuinte, não conhecendo do direito creditório. Aos 12/07/2013, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório (fl. 127), rastreamento n° 052525560, emitido em 06/06/2013, que não homologou a compensação declarada em razão de inexistência de crédito PER/DCOMP nº 01432.10678.310811.1.3.040027. Em sua manifestação de inconformidade, a contribuinte defendeu que no encerramento contábil do trimestre 31/03/2010 apurou o montante de R$ 6.250,47 a título de IRPJ, contudo recolheu indevidamente a importância de R$ 69.511,38. Alega que ao apresentar a DCTF, informou o valor equivocado e, em 11/07/2013, retificou a DCTF para constar as informações corretas em relação ao.valor. Requereu nova análise da declaração de compensação. A DRJ/BSB julgou a manifestação de inconformidade improcedente e não reconheceu o direito creditório, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2010 PROVA INSUFICIENTE PARA COMPROVAR A EXISTÊNCIA DE CRÉDITO DECORRENTE DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Para se comprovar a existência de crédito decorrente de pagamento a maior, comparativamente com o valor do débito devido a menor, é imprescindível que seja demonstrado na escrituração contábilfiscal, baseada em documentos hábeis e idôneos, a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CRÉDITO. A compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) só pode ser efetuada com crédito líquido e certo do sujeito passivo, sendo que a compensação somente pode ser autorizada nas condições e sob as garantias estipuladas em lei; no caso, o crédito pleiteado é inexistente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada com a decisão, a contribuinte apresentou recurso voluntário que, em síntese, destacou: Fl. 156DF CARF MF Processo nº 13819.901837/201328 Acórdão n.º 1003000.381 S1C0T3 Fl. 4 3 (i) que a empresa no exercício fiscal de 2010 era optante pelo regime do lucro real; (ii) que o recolhimento foi calculado para quitação em quota única, porém foi efetuado 3 (três) quotas, ocorrendo, por conseguinte, o recolhimento três vezes maior do que o realmente devido; (iii) que, identificado o equívoco, apresentou PER/DCOMP; (iv) que os DARFs acostados ao processo comprovam o recolhimento a maior, o que se comprova através da juntada da escrituração fiscal; Por fim, defendeu a insubsistência e improcedência do indeferimento do PER/DCOMP e requereu o cancelamento do débito fiscal reclamado. É o Relatório . Voto Conselheira Bárbara Santos Guedes, Relatora O recurso é tempestivo e cumpre com os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciar. A Recorrente pleiteia a declaração de compensação em razão de pagamento indevido ou a maior do IPPJ, referente ao primeiro trimestre de 2010. Aduziu que no encerramento contábil do 1º trimestre 2010 apurou o montante de R$ 6.250,47 a título de IRPJ, contudo recolheu indevidamente a importância de R$ 69.511,38. Pelos Documentos de Arrecadação de Receitas Federais (DARF) acostados ao processo, fls. 124 a 126, verificase ter havido a emissão de 3 documentos diferentes em relação ao mesmo período de apuração nos valores de R$ 23.170,46, R$ 23.402,16 e R$ 23.575,94, contudo só há a comprovação de pagamento do DARF com valor de R$ 23. 402,16. Em relação aos outros dois, foram acostados apenas o DARF. No recurso voluntário a Recorrente defende ter juntado a escritura contábil, porém tal documento não foi anexado ao recurso, que está acompanho apenas de da Ficha 12A da DIPJ 2011. Em julgamento na primeira instância, o Relator destacou a necessidade de comprovação documental das alegações da Recorrente, visto que para, comprovar a liquidez e certeza do crédito informado na DCOMP seria imprescindível a demonstração da escrituração contábilfiscal da empresa, para poder ser verificada a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração, conforme previsto no art. 923 do RIR/99. A DRJ destaca em seu acórdão o seguinte: (...) Fl. 157DF CARF MF Processo nº 13819.901837/201328 Acórdão n.º 1003000.381 S1C0T3 Fl. 5 4 Isso porque as informações prestadas à Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB por meio de declarações ou demonstrativos previstos na legislação (DCTF, DIPJ, DACON ou PER/DCOMP) situamse na esfera de responsabilidade do próprio contribuinte, a quem cabe demonstrar, mediante adequada instrução probatória dos autos, os fatos eventualmente favoráveis às suas pretensões, consoante disciplina instituída pelo artigo 16, inciso III, do Processo Administrativo Fiscal PAF. Dessa forma, na hipótese de ter ocorrido erro no valor do débito confessado na DCTF, esta circunstância deveria ter sido documentalmente provada pela interessada por ocasião da apresentação da manifestação de inconformidade. Não cabe ao Fisco obter provas de que a contribuinte teria informado débito a maior em sua declaração. A respeito do tema, dispõe o Código de Processo Civil, em seu art. 373: “Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor”. (...) Em grau de recurso, a Recorrente não logrou êxito em trazer nenhum novo documento ou informação que corroborasse as suas alegações. A jurisprudência apresentada no recurso voluntário de ser o DARF documento de prova suficiente, não exime o fato de que houve alteração nas declarações prestadas à Receita Federal após Despacho Decisório, sem a comprovação, através de documentos hábeis e idôneos, quanto à escritura fiscal da empresa para demonstrar os valores declarados na DCTF retificada. Ademais, todos os argumentos de defesa e as provas devem ser colacionadas na Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão do direito, nos moldes determinados pelo Decreto nº 70.235/1972, art.16. No presente caso, nem a manifestação de inconformidade nem o recurso voluntário trazem provas suficientes que justifiquem a revisão da decisão proferida em primeira instância. Isto posto, voto em negar provimento ao recurso voluntário, mantendo a decisão da DRJ/BSB. (assinado digitalmente) Bárbara Santos Guedes Fl. 158DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720248/2016-41
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 14 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1402-000.757
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, deferir a juntada de documento apresentado pela recorrente na data do julgamento e determinar a remessa à PGFN para ciência e manifestação acerca do mesmo.
(Assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone Presidente
(Assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edeli Pereira Bessa, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Paulo Mateus Ciccone (Presidente)
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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(Assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone– Presidente (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogerio Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edeli Pereira Bessa, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Paulo Mateus Ciccone (Presidente) Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado em face do ora Recorrente, INTERCEMENT BRASIL S.A., no qual a fiscalização alega que, no ano calendário de 2011 a contribuinte, cometeu as seguintes infrações: a) Amortização indevida de ágio; b) Falta de recolhimento de IRPJ e CSLL sobre base de cálculo estimada. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 65 61 .7 20 24 8/ 20 16 -4 1 Fl. 2027DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 1.999 2 Foram considerados Responsáveis Solidários por excesso de poderes, infração de lei, Contrato Social ou Estatuto, Luiz Carlos Romero Fernandes, José Abel Pinheiro caldas de Oliveira, Alexandre Roncon Garcez de Lencastre e João Marcos Neves Contreiras e imputada a multa qualificada de 150%. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal de fls. 555 a 591 a situação fática que deu origem ao lançamento foi a seguinte: As DIPJs apresentadas pela fiscalizada referentes aos anoscalendário de 2011 e 2012 (Ficha 34) revelam que ela detinha 6 participações em sociedades domiciliadas no exterior, conforme demonstrativo a seguir : (...) DESCRIÇÃO DOS FATOS A Intercement Brasil S/A incorporou a empresa CCB – Cimpor Cimentos do Brasil Ltda. CNPJ 10.919.934/000185 durante o anocalendário de 2013. Durante os anoscalendários de 2006 a 2012 a CCB amortizou valores de ágio referentes as empresas Companhia de Cimento Atol – ATOL e Cia. Paraíba de Cimento Portland – CIMEPAR. A CCB, inclusive, já foi autuada pela amortização indevida desses valores conforme consta do processo administrativo fiscal 16561 720.072/201112. A CCB, a ATOL e a CIMEPAR faziam parte do Grupo Cimpor – Cimentos de Portugal. Reproduziremos abaixo o histórico do Grupo Cimpor inserido no Estudo de Caso do Instituto Politécnico de Leiria (POR), intitulado " CIMPOR Cimentos de Portugal Crescer no Mundo Através de Aquisições ...até Quando?"(Doc. 80) (...) Como visto acima, em 1997 a CIMPOR adquire a CISAFRA – Cimentos São Francisco, que se tornaria em 2006 a CCB. Em 1999, ocorre a aquisição das empresas ATOL e CIMEPAR junto ao Grupo Brennand. A aquisição foi feita pela empresa Corporación Noroeste S.A., sediada na Espanha. É nesta negociação, então, que surge o ágio entre partes independentes, no valor de R$ 468.903.358,32, referente a ATOL, e R$ 56.092.580,33, referente a aquisição da CIMEPAR. Conforme se infere do texto reproduzido acima, esse ágio foi levado pela a Corporación Noroeste, para a Espanha. Em 2002 foi criada a Cimpor Inversiones S.L., sediada na Espanha, com o intuito de administrar as participações societárias do grupo fora de Portugal, e com isso ela passa a ser a detentora das participações societárias na ATOL e na CIMEPAR. Fl. 2028DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.000 3 Em maio de 2004, é criada a empresa brasileira Sociedade de Cimentos Luso Brasileira Participações Ltda. LUSO. Essa empresa teve o seu capital integralizado mediante conferência de bens com as ações das empresas ATOL e CIMEPAR e, simultaneamente, recebe os valores dos ágios pagos pelas duas empresas. Em julho de 2004, a LUSO sofre cisão total e as parcelas cindidas foram vertidas para a ATOL e para a CIMEPAR. Ato contínuo, as duas empresas passaram a amortizar os valores de ágio delas próprias. Em abril de 2006, as duas empresas são incorporadas pela CCB, que passou a amortizar as mesmas quantias. Assim, em uma mesma situação analisada, encontramos várias práticas comuns aos planejamentos tributários abusivos: • A compra de empresas brasileiras, ATOL e CIMEPAR, por uma empresa estrangeira Noroeste (sediada na Espanha); • A inexistência de laudo que comprovasse a expectativa de rentabilidade futura, única hipótese para que se pudesse amortizar os valores de ágio pagos; • A criação, cinco anos depois, de uma empresa veículo: a LUSO que existiu por dois meses (será que nesse intervalo, esses ágios foram amortizados em outro país?); • A internalização do ágio pago pela empresa estrangeira, a Inversiones (sucessora da Nororeste, também sediada na Espanha) via integralização de capital na empresa veículo LUSO mediante conferência de bens com as ações das empresas brasileiras ATOL e CIMEPAR; • A “reorganização societária”, caracterizada sempre por ações adotadas que permitam a amortização do ágio pago, sem outro propósito negocial além desse, que extingue a LUSO, permitindo que a ATOL e a CIMEPAR pudessem amortizar os próprios ágios. (...) Resta incontestável, portanto, que o previsto no art. 385 do RIR/99 não é aplicável a Inversiones, porquanto esta constitui sociedade domiciliada no exterior, que como tal não se enquadra no conceito de contribuinte, na acepção técnica empregada no caput do aludido dispositivo (salientese que tal sociedade tampouco se enquadra no art. 147, inciso II,do RIR/99). A contabilização deste ágio na sociedade adquirente deve se pautar nas regras do país de seu domicílio (Espanha), cuja legislação eventualmente pode, em tese, também conceder benefícios fiscais em decorrência do pagamento acima do valor patrimonial de ações. Trata se de contabilização em sociedade estrangeira, em relação a qual a legislação brasileira não pode ser impingida. Fl. 2029DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.001 4 A dedutibilidade dos encargos de amortização, portanto, está condicionada ao estrito cumprimento das condições impostas pelos referidos dispositivos. Caso estas sejam descumpridas, é inarredável concluir pela indedutibilidade de eventuais encargos de amortização contabilizados. Cientificada do lançamento (fls. 612) a contribuinte apresentou a impugnação de fls. 631/381, na qual alegou, resumidamente, o seguinte: a) o ágio discutido nos autos decorreu de uma aquisição efetiva das sociedades Atol, Cimepar e Goiás pelo grupo Cimpor junto a onde pessoas físicas da família Brennard no anocalendário de 1999. Tratase, portanto, de ágio decorrente de aquisição entre partes não relacionadas , em condições de mercado; b) foi uma razão empresarial verdadeira, notadamente a insegurança econômica e cambial vigentes em 1999, que motivou os Vendedores a imporem, como condição para o negócio, que o pagamento da maior parte do preço fosse feito no exterior, levando à conseqüente estruturação da referida aquisição por meio da sociedade holding estrangeira Noroeste; c) essa exigência dos Vendedores acabou impedindo que o grupo Cimpor pudesse ter efetuado a aquisição dessas três empresas por meio de uma de suas sociedades brasileiras à época, uma vez que, em 1999, não havia ainda sido editada a Circular 2.997/00, que posteriormente veio a regulamentar os registros declaratórios eletrônicos de investimentos no Brasil. Assim, a regulamentação aplicável à entrada e saída de recursos no País à época inviabilizaria a alternativa de pagamento da totalidade do preço aos Vendedores a partir de uma de suas sociedades brasileiras, já que essa sociedade não iria dispor de um canal de remessa dos recursos exigidos pelos Vendedores no exterior. Portanto, a opção cambialmente viável para operacionalizar o pagamento exigido pelos Vendedores era fazêlo a partir de uma sociedade holding estrangeira do grupo, a Noroeste, que assim fez e pagou parte do preço diretamente no exterior e enviou o valor restante ao Brasil; d) em cumprimento à legislação fiscal brasileira, os Vendedores ofereceram à tributação no Brasil a totalidade do ganho auferido na venda das empresas em questão, conforme atestam os anexos DARFs; e) o ágio finalmente registrado pela LusoBrasileira em 2004, a rigor, não foi "internalizado" pelo grupo Cimpor, uma vez que não se pode cogitar no Brasil do tratamento fiscal ou contábil atribuído ao preço pago pela Noroeste desde sua jurisdição de origem. O ágio registrado pela Luso Brasileira resultou da aplicação do método da equivalência patrimonial por essa sociedade em relação aos investimentos que ela passou a deter na Atol e na Cimepar em 22.07.2004 f) mesmo que se conclua pela ocorrência de a "internalização" do ágio em questão, essa prática não pode ser considerada ilegítima no ordenamento jurídico e tributário aplicável; g) embora a legislação em vigor não exigisse forma especial para a demonstração do fundamento econômico do ágio baseado na expectativa de rentabilidade futura de sociedades, o grupo Cimpor, que já dispunha de estudos anteriores nesse sentido, por zelo e conservadorismo, optou por encomendar novos laudos de avaliação à empresa PLANCONSULT, notoriamente independente e especializada nesse tipo de avaliação; h) cumprimento de todos os requisitos legais autorizativos à amortizacão e dedução os próprios fatos discutidos neste caso, por si sós, deixam claro que o ágio ora Fl. 2030DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.002 5 discutido é válido e legítimo, pois decorreu: (1) de aquisição entre PARTES NÃO RELACIONADAS; (2) na qual houve EFETIVO PAGAMENTO de preço; (3) TRIBUTACÃO DO GANHO DE CAPITAL pelos vendedores no País; e, sobretudo, (4) com PROPÓSITOS NEGOCIAIS NÃO TRIBUTÁRIOS; i) a Luso Brasileira não poderia tampouco ser considerada como uma "sociedade veículo", na medida em que apresentava razões empresariais relacionadas ao processo para "descontaminação" do capital do grupo Cimpor no Brasil e obtenção de registro junto ao BACEN para a totalidade do investimento detido no País; j) inaplicabilidade de multas (artigo 132 do CTN), uma vez que, à época da conduta questionada pela fiscalização, a Requerente não tinha qualquer poder de administração, controle ou influência sobre a CCB; (b) não concorreu direta nem indiretamente para a ocorrência de qualquer ato possivelmente relacionado à matéria discutida nestes autos; (c) era uma sociedade pertencente a um grupo econômico completamente distinto do grupo Cimpor; e (d) a autuação em tela é posterior ao evento de incorporação da CCB pela contribuinte ; l) a multa de 150% aplicada pela fiscalização deve ser prontamente afastada, pois essa penalidade somente poderia ser imposta em casos de evidente intuito de fraude, sonegação ou conluio, quando restar provada pelo Fisco a inequívoca intenção do contribuinte de enganar, esconder ou iludir. m) a multa isolada de 50% não pode ser exigida de forma concomitante com a multa de ofício ou a qualificada, tendo em vista não apenas a posição já sumulada pela E. CSRF a esse respeito (Súmula 105, de 8.12.2014) e a necessidade de aplicação do princípio penal da consunção, como também esclarecem diversos precedentes do E. STJ e do próprio E. CARF; n) falta de fundamentação e descrição clara dos fatos que levaram a imputação dos responsáveis solidários, bem como a inaplicabilidade do artigo 135 do CTN A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belo Horizonte deu parcial provimento à impugnação em decisão cuja ementa é a seguinte (fls 1848): Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2011 MULTA DE OFÍCIO. EXIGÊNCIA DA SUCESSORA POR INFRAÇÃO COMETIDA PELA SUCEDIDA. A responsabilidade tributária da empresa sucessora abrange, além dos tributos devidos pelo sucedido, as multas moratórias ou punitivas que, por representarem dívida de valor, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor, desde que o fato gerador tenha ocorrido até a data da sucessão. Nada obstante o art. 132 do CTN apenas refirase aos tributos devidos pelo sucedido até a data do ato, a responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do o art. 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data, que é o caso dos autos. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA TRIBUTÁRIA. Fl. 2031DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.003 6 Nos termos do art. 135, III do CTN, a sujeição passiva solidária exige indicação de ato de infração à lei ou ao contrato social, acompanhada de provas que demonstrem de forma inequívoca a atuação pessoal do sujeito responsabilizado ao referido ato. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. Inexistindo nos autos elementos de convicção que possam servir de suporte para a exasperação da multa aplicada, há que se reduzir o percentual correspondente. MULTA ISOLADA. FALTA/INSUFICIÊNCIA DO RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. Constatada a falta/insuficiência do recolhimento das estimativas devidas, fica a pessoa jurídica sujeita à multa de ofício isolada sobre os valores inadimplidos. MULTA ISOLADA. INCIDÊNCIA. O artigo 44, da Lei nº 9.430, de 1996, prevê as infrações por falta de recolhimento de antecipação e de pagamento do tributo ou contribuição (definitivos). Não significa duplicidade de tipificação de uma mesma infração ou penalidade. Ao tipificar essas infrações o artigo 44 da Lei nº.9.430, de 1996, demonstra estar tratando de obrigações, infrações e penalidades tributárias distintas, que não se confundem e não se excluem. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Sendo a multa de ofício classificada como débito para com a União, decorrente de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, é regular a incidência dos juros de mora, a partir de seu vencimento. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2011 ÁGIO AMORTIZAÇÃO FISCAL. Para a regular amortização de ágio pago na aquisição de investimentos, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, quatro premissas devem ser obedecidas: (a) a realização das operações originais entre partes independentes; (b) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, patrimônio líquido mais ágio; (c) a comprovação do fundamento econômico do pagamento do ágio, como sendo a rentabilidade futura do investimento; e (d) a extinção do investimento, por confusão patrimonial mediante operações de incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida. Procedente a glosa da amortização do ágio quando não há demonstração do fundamento econômico do ágio efetivamente pago pela investidora estrangeira, na aquisição de investimentos no Brasil. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2011 CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Fl. 2032DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.004 7 O resultado do julgamento do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ espraia seus efeitos sobre a CSLL lançada em decorrência das mesmas infrações. Cientificado (fls. 1897) o contribuinte apresentou o Recurso Voluntário de fls. 1903/1950 no qual reitera as razões já suscitadas quando da Impugnação. Reque, subsidiáriamente, que na eventualidade de o processo for decidido por voto de qualidade seja aplicado o artigo 112 do CTN de modo a afastar os juros e multas. No dia 20/11/2018 o contribuinte fez juntada do laudo que, segundo ele, justificaria a expectativa de rentabilidade futura do ágio, o qual não teria sido juntado anteriormente por se tratar de operação antiga (1999) e por ter sido a empresa incorporada. É o relatório. Voto Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio Relatora Conforme descrito no relatório a fiscalização apontou a seguintes irregularidades para glosar amortização do ágio pela Recorrente; a) Compra das empresas brasileiras ATOL e CIMEPAR, por uma empresa estrangeira; b) inexistência de laudo que comprovasse a expectativa de rentabilidade futura; c) Criação, cinco anos depois, de uma empresa veículo: a LUSO que existiu por dois meses; d) Internalização do ágio pago pela empresa estrangeira,a Iversiones (sucessora da Noroeste, ambas sediadas na Espanha) via integralização de capital da empresa LUSO. f) Reorganização societária, caracterizada sempre por ações adotadas que permitam a amortização do ágio pago, sem outro propósito negocial que não o de permitir que a ATOL e a CIMEPAR pudessem amortizar os próprios ágios. A decisão recorrida, por sua vez, limitouse a negar a amortização do ágio em razão da ausência de comprovação do fundamento econômico do ágio como sendo a rentabilidade futura do investimento, conforme se verifica pelo trecho abaixo transcrito: Assim, temos que para a regular amortização de ágio pago na aquisição de investimentos, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, quatro premissas devem ser obedecidas: (a) a realização das operações originais entre partes independentes; (b) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, patrimônio líquido mais ágio; (c) a comprovação do fundamento econômico do pagamento do ágio, como sendo a rentabilidade futura do investimento; e (d) a extinção do investimento, por confusão patrimonial mediante operações de incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida. Fl. 2033DF CARF MF Processo nº 16561.720248/201641 Resolução nº 1402000.757 S1C4T2 Fl. 2.005 8 As duas primeiras premissas não foram objeto de litígio, porém a fiscalização informa sobre a inexistência de laudo que ateste a expectativa de rentabilidade futura na aquisição da ATOL e CIMEPAR pela empresa espanhola NOROESTE. A contribuinte alega que apresentou os laudos junto com a impugnação (docs. 20 e 21). Analisando os documentos mencionados pela contribuinte, fls. 1.109 a 1.322, temse que os mesmos não fazem prova a favor da impugnante vez que foram elaborados em 2.004 e a aquisição dos investimentos ocorreu em 1.999, ou seja, quase cinco anos após a operação e não fazem referência à operação original de aquisição das ações, quando o ágio foi efetivamente pago. Portanto, a terceira premissa não foi obedecida, sendo tal fato inclusive reconhecido pela própria contribuinte em sua impugnação conforme trecho transcrito abaixo: (...) Como se observa do trecho transcrito acima, a contribuinte confessa que, na época da aquisição das empresas brasileiras pelo grupo Cimpor, a adquirente possuía uma estimativa interna (ao invés de um estudo que demonstrasse sem sombras de dúvidas qual seria o fundamento econômico do investimento) que nem sequer foi apresentado. Como já informado pela autoridade fiscal, a dedutibilidade dos encargos de amortização está condicionada ao estrito cumprimento das condições impostas pela legislação de regência. Caso estas sejam descumpridas, temse que estas despesas com ágio são indedutíveis. Destarte, entendo correta a glosa da amortização do ágio devido a falta de demonstração do fundamento econômico do ágio efetivamente pago pelo grupo Cimpor na aquisição das empresas ATOL e CIMEPAR. Verificase, assim, que, ao contrário do trabalho fiscal, a decisão recorrida não questiona a razão empresarial que justificaria a aquisição de sociedades então detidas pela família Brennand, nem a reorganização societária conduzida no anocalendário de 2004. Tampouco menciona a suposta ocorrência de "internalização" do ágio apontada pelo fisco. Sendo assim, o laudo trazido aos autos constitui elemento fundamental a resolução da lide, motivo pelo qual, deve ser dada vista à Fazenda Nacional para que se manifeste sobre ele. Em face do exposto, voto por deferir a juntada de documento apresentado pela recorrente na data do julgamento e determinar a remessa à PGFN para ciência e manifestação. (Assinado digitalmente) Junia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 2034DF CARF MF
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Numero do processo: 10283.901907/2008-88
Turma: Terceira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 04 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Período de apuração: 01/06/2002 a 30/06/2002
INTIMAÇÃO AO ADVOGADO.
O Processo Administrativo Fiscal não prevê a hipótese de intimação do
sujeito passivo no endereço profissional do advogado.
ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Período de apuração: 01/06/2002 a 30/06/2002
DIREITO CREDITÓRIO.
Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da certeza e liquidez quanto ao crédito que pretende seja reconhecido junto à Fazenda Pública.
Numero da decisão: 1103-000.544
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR
provimento ao recurso.
Nome do relator: ALOYSIO JOSÉ PERCÍNIO DA SILVA
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Recorrida 1ª TURMA DE JULGAMENTO DA DRJ EM BELÉM PA ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/06/2002 a 30/06/2002 INTIMAÇÃO AO ADVOGADO. O Processo Administrativo Fiscal não prevê a hipótese de intimação do sujeito passivo no endereço profissional do advogado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/06/2002 a 30/06/2002 DIREITO CREDITÓRIO. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da certeza e liquidez quanto ao crédito que pretende seja reconhecido junto à Fazenda Pública. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso. documento assinado digitalmente ALOYSIO JOSÉ PERCÍNIO DA SILVA Presidente. documento assinado digitalmente JOSÉ SÉRGIO GOMES Relator. Fl. 90DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10283.901907/200888 Acórdão n.º 110300.544 S1C1T3 Fl. 79 2 Participaram da Sessão de julgamento os Conselheiros Aloysio José Percínio da Silva, José Sérgio Gomes, Cristiane Silva Costa, Mário Sérgio Fernandes Barroso e Marcos Shigueo Takata. Relatório Em foco recurso voluntário contra decisão da 1ª Turma de Julgamento da DRJ em BelémPA que não acolheu a solicitação de reforma do despacho decisório da Delegacia da Receita Federal do Brasil em ManausAM, o qual não reconheceu o direito creditório contra a Fazenda Nacional por conta de apontado indébito no recolhimento efetuado em 31/07/2002 a título de antecipação (estimativa) de Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) do mês de junho de 2002 e, consequentemente, deixou de homologar a compensação inserta na declaração de compensação (Dcomp) transmitida pela internet à central de dados da Receita Federal do Brasil em data de 29 de outubro de 2004 visando extinguir débito de estimativa de IRPJ apurado no mês de setembro de 2004. Analisando a declaração de compensação concluiu a Delegacia da Receita Federal do Brasil em ManausAM que seria improcedente o apontado indébito fiscal em razão do pagamento, presumidamente realizado a maior que o devido, ter sido integralmente utilizado na quitação de débitos da contribuinte, nada restando para a compensação pretendida. Inconformada, a contribuinte ingressou com manifestação de inconformidade prevista no artigo 74, § 7º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, argumentando que em sua Declaração de Informações EconômicoFiscais (DIPJ) indicou como devida a importância de R$ 1.893.057,44 e efetivamente recolheu a quantia de R$ 1.902.060,52 do que resulta o invocado indébito de R$ 9.003,08. Aduziu, também, que houve equívoco na indicação do tributo devido na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), na qual fez constar o valor recolhido ao invés da importância declarada na DIPJ, e que a Administração deve sempre buscar a verdade substancial dos atos praticados pelos administrados. Juntou aos autos, como comprovantes da existência do crédito pretendido, cópia da PER/DCOMP, da DIPJ e do Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARF). Ao final requereu o provimento de sua manifestação de inconformidade e consequente homologação do crédito compensado, bem assim, o endereçamento das intimações para o endereço de seus patronos. Aquela 1ª Turma de Julgamento admitiu o inconformismo e concluiu pelo acerto do decisório da autoridade fiscal, assim consignando: “Na DIPJ/2003 consta a informação de débito estimativa IRPJ junho/2002 de R$ 1.893.057,44. Todavia, não restou comprovado que foi esse o valor da estimativa IRPJ junho/2002 levado ao cálculo do IRPJ (Ficha 12A). Nesse sentido, verificamos que o somatório das estimativas IRPJ informadas na DIPJ (Ficha 11 — fls.50/53) perfaz R$ 32.934.556,53. Adicionandose a esse valor o IRRF (R$ 8.663.593,48) e o IRRF Órgãos Públicos (R$ 40.812,48) chegamos ao montante de R$ 41.638.962,49 a título de estimativas IRPJ efetivamente pagas, enquanto que à Ficha 12A Fl. 91DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10283.901907/200888 Acórdão n.º 110300.544 S1C1T3 Fl. 80 3 temos "IRPJ Mensal Paga Por Estimativa" de R$ 42.455.877,73 (fl.58), donde podemos concluir que os pagamentos a maior de estimativas IRPJ, embora não constantes da Ficha 11, foram adicionados para fins de informação à Ficha 12A da DIPJ/2003, razão pela qual fica patente a inexistência do direito creditório pleiteado.” Registrou, mais, que afora a ausência de comprovação da liquidez do direito creditório pleiteado vigia, à época da transmissão da PER/DCOMP, o artigo 10 da Instrução Normativa SRF nº 460, de 29 de outubro de 2004, que vedava a utilização de crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de estimativas em aproveitamento outro que não para reduzir o tributo devido no final do período anual, ou para compor o saldo negativo nesse mesmo marco temporal. Ao final, indeferiu o pedido de intimações no endereço dos patronos e não reconheceu o direito creditório postulado, declarando, ainda, a nãohomologação da compensação declarada. Ciente do decisório em 13 de outubro de 2010, fl. 63, a contribuinte apresentou em 12 do mês seguinte o recurso voluntário de fls. 64/75 pugnando pela sua boafé e efetiva existência do crédito almejado, sendo que a liquidez e certeza deste é observada do cotejo entre a PER/DCOMP com a DIPJ e DARF, bem assim, que a linha da melhor jurisprudência deste Conselho está no sentido de que na comprovação de erro material deve ser reconhecido o direito dos contribuintes. Aduz que o artigo 10 da Instrução Normativa nº 460, de 2004, não se aplica à hipótese na medida em que o crédito fora originado em 2002, pena de malferir o princípio constitucional de irretroatividade das leis. Ao final, requer o provimento do recurso e o reconhecimento da compensação, bem assim, que todas as intimações e notificações sejam encaminhadas a seus procuradores. É o relatório, em apertada síntese. Voto Conselheiro José Sérgio Gomes, Relator Observo a legitimidade processual e o aviamento do recurso no trintídio legal. Assim sendo, dele tomo conhecimento. Cediço que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática em todos os seus limites, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. Em resumo: a verificação da liquidez e certeza do crédito é operação que exige provas e contas, mesmo porque o pagamento foi efetuado na sistemática do lançamento conhecido por homologação, definido no artigo 150 do Código Tributário Nacional como sendo aquele em que o próprio contribuinte exerce a atividade de Fl. 92DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10283.901907/200888 Acórdão n.º 110300.544 S1C1T3 Fl. 81 4 apuração do montante realmente devido, de sorte tal que, até prova em contrário, goza da presunção de acerto. Nesse diapasão, a certeza e liquidez de direito creditório a favor do sujeito passivo, por conta de recolhimento a maior que o devido de IRPJ pago mensalmente a título de antecipação, ou mesmo o saldo negativo de IRPJ apurado no final do período anual, não se apura em razão do quantum do lucro, do prejuízo fiscal ou do tributo declarado no ano calendário pelo instrumento da DIPJ ou do tributo confessado em DCTF, mas sim em relação ao quantum mostrado pela contabilidade e outros documentos fiscais, conjuntamente, sendo a declaração de rendimentos e a DCTF meros elementos da composição. Noutras palavras: por si só não exprimem a figura do indébito fiscal, pois, atos unilaterais, não têm o condão de formatar crédito contra a Fazenda Nacional. A declaração encontrase provada, sem dúvida, não assim os fatos nela consignados. Daí porque é necessário que aos autos venham provas contábeis, mesmo porque se trata de contribuinte sujeita ao regime do lucro real, para o qual exige a lei contabilidade regular, a ver pelo artigo 7º e seu § 4º, e também o artigo 8º, inciso I, “b”, ambos do Decretolei nº 1.598, de 1977, dispondo que a pessoa jurídica deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais. Indispensáveis, portanto, os registros contábeis como, por exemplo, a conta no ativo do imposto a recuperar, a expressão deste direito em balanços ou balancetes, a demonstração do resultado do exercício, a contabilização das receitas que ensejaram as antecipações e/ou retenções, os lançamentos de eventuais compensações, etc, além dos registros pertinentes do livro “LALUR”. No caso dos autos a contribuinte busca reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional calcada em mera alegação de erro no dimensionamento da quantia devida em junho de 2002, nada ofertando (a não ser a DIPJ e o DARF que de rigor já eram do conhecimento do sujeito ativo) quando do inconformismo à autoridade julgadora de primeira instância, oportunidade em que se instaurou o litígio e na qual, por aplicação dos artigos 15 e 16 do Decreto nº 70.235/72 c/c artigo 74, § 11, da Lei nº 9.430/96, lhe foi aberta a apresentação do arcabouço probatório. Com o recurso voluntário endereçado a esta Corte continuou invocando seu direito alicerçado na premissa de que a simples comparação entre o valor recolhido (DARF) e aquele indicado na DIPJ seria suficiente para exteriorizar pagamento a maior que o devido. Rogando venia e levandose em conta a regra basilar extraída do artigo 333, inciso I, do estatuto processual civil pátrio, tenho que a certeza e liquidez de um crédito não se realiza num universo dessa simplicidade. Quanto à alegada obrigação que teria a Administração de reconhecer erros praticados pelos administrados há de se comungar de todo com este entendimento, porém, o erro há de ser demonstrado e o indébito deve se materializar verdadeiro. Enfim, em tema de repetição tributária o ônus da prova incumbe ao contribuinte e o princípio da verdade material que governa o processo administrativo não vai a ponto de obrigar o Fisco na produção de provas a favor do Requerente, salvo aquelas que for do conhecimento da Administração e conste de seus registros. Por fim, a discussão quanto aos entraves trazidos pelo artigo 10 da Instrução Normativa SRF nº 460, de 29 de outubro de 2004, (impossibilidade de compensação de Fl. 93DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10283.901907/200888 Acórdão n.º 110300.544 S1C1T3 Fl. 82 5 créditos oriundos de estimativas pagas indevidamente ou a maior) restou prejudicada diante da incomprovação do indébito fiscal. Indefiro o pedido de intimações no endereço profissional dos procuradores que subscreveram o recurso em vista do artigo 23 do Processo Administrativo Fiscal, aprovado pelo Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que assim se expressa: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. ........................................................................................................ § 4o Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. ......................................................................................................” Com tais razões, VOTO pelo improvimento do recurso. documento assinado digitalmente José Sérgio Gomes Fl. 94DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10283.901907/200888 Acórdão n.º 110300.544 S1C1T3 Fl. 83 6 Fl. 95DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/10/2011 por JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 24/10/2011 po r JOSE SERGIO GOMES, Assinado digitalmente em 27/10/2011 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA
score : 1.0
Numero do processo: 13888.000914/2005-05
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Feb 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1999
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO. DEFINIÇÃO DO TERMO INICIAL. DECISÃO PROFERIDA PELO STF COM REPERCUSSÃO GERAL APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 91.
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
COMPENSAÇÃO. NÃO VERIFICAÇÃO DO MÉRITO DO DIREITO CREDITÓRIO PELA DRF DE ORIGEM.
A compensação de débitos tributários só pode ser efetuada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo; in casu, superada a limitação da alegada prescrição, a questão de mérito quanto a existência de direito creditório deve ser analisada pela DRF de origem.
Numero da decisão: 1001-001.069
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à DRF de origem, pois uma vez superada a questão da decadência do pedido de restituição, que a mesma efetue a análise do mérito.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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PRAZO. DEFINIÇÃO DO TERMO INICIAL. DECISÃO PROFERIDA PELO STF COM REPERCUSSÃO GERAL APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 91. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. COMPENSAÇÃO. NÃO VERIFICAÇÃO DO MÉRITO DO DIREITO CREDITÓRIO PELA DRF DE ORIGEM. A compensação de débitos tributários só pode ser efetuada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo; in casu, superada a limitação da alegada prescrição, a questão de mérito quanto a existência de direito creditório deve ser analisada pela DRF de origem. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para determinar o retorno dos autos à DRF de origem, pois uma vez superada a questão da decadência do pedido de restituição, que a mesma efetue a análise do mérito. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 00 09 14 /2 00 5- 05 Fl. 125DF CARF MF Processo nº 13888.000914/200505 Acórdão n.º 1001001.069 S1C0T1 Fl. 96 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (efls. 82/90) interposto pela ora recorrente contra o Acórdão nº 1231.986, de 30/06/2010, proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro I RJ (efls. 73/78), objetivando a reforma do referido julgado. A interessada acima identificada apresentou a solicitação de restituição, referente ao Saldo Negativo de IRPJ em 24/03/2005 (efl. 2), relativamente ao anocalendário de 1999. Mediante Despacho Decisório DRF/PCA n° 0822/2009 (fls. 38/42), foi indeferida a solicitação com base no artigo 168 do CTN que dispõe que o direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 anos, contado da data de extinção do crédito tributário, aplicandose à compensação, por ser uma modalidade de restituição, o mesmo prazo; A interessada apresentou manifestação de inconformidade (efl. 57/63), alegando, em síntese, que é entendimento pacifico do STJ que tributos lançados por homologação tem como marco inicial da contagem decadencial a homologação tácita, sendo, portanto, de 10 anos (5 mais 5) o decurso do prazo decadencial do direito a pleitear a restituição; A DRJ considerou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, tendo em vista que os créditos tributários objeto do pedido de restituição já se encontram prescritos. Vejamos excertos da decisão da DRJ: Destaquese ainda que o Ato Declaratório 96, de 26/11/1999, veio apenas afastar quaisquer dúvidas que porventura remanescessem com relação ao prazo para ingressar com o pedido de restituição do indébito, pois os artigos 168 e 165, do CTN, que prevêem o prazo de 5 (cinco) anos, já eram aplicáveis à matéria. (...) Assim sendo, o posicionamento da Administração, emanado através do Ato Declaratório SRF n° 96/1999, deverá prevalecer no presente julgado, ou seja, o prazo para que o interessado possa pleitear a restituição de tributo ou contribuição pago indevidamente ou em valor maior que o devido, inclusive no caso de declaração de inconstitucionalidade manifestada pelo STF extinguese após o transcurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário (artigos 165, I e 168, I do CTN). E, no caso, como a apuração do saldo negativo ocorrera em 31/12/1998, findaria o prazo, se levarmos em conta a data da entrega da declaração de IRPJ, em 31/12/2004. Fl. 126DF CARF MF Processo nº 13888.000914/200505 Acórdão n.º 1001001.069 S1C0T1 Fl. 97 3 Como a interessada ingressou com o pedido em 24/03/2005, o decurso do prazo já havia sido ultrapassado. Mais ainda no tocante ao PER/DCOMP apresentado em 2007. Restaria, portanto, inviável tal pleito diante da norma expressa administrativa, o que, na realidade, tem o julgador administrativo dever de curvarse, razão pela qual não poderá ser tal pleito acatado neste julgado. Da contagem do prazo decadencial de 10 anos (cinco mais cinco) Quanto à alegação de que a extinção do crédito tributário, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, ocorre somente após cinco anos contados da data do recolhimento, na hipótese de homologação tácita (art. 150, § 40, do CTN), e que a estes cinco anos devem ser somados mais cinco, correspondentes ao prazo decadencial para pedir restituição (art. 168, I, do CTN), totalizando dez anos, cabe asseverar que tal inferência não se ajusta às disposições do Código Tributário Nacional aplicáveis à matéria. É a seguinte a redação da Lei Complementar (artigo 168) in verbis : Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipóteses dos incisos I e lido artigo 165, da data da extinção do crédito tributário. II na hipótese do inciso III do artigo 165, da data em que se tornar definitiva a decisão administrativa ou passar em julgado a decisão judicial que tenha reformado, anulado, revogado ou rescindido a decisão condenatória" (grifos da Relatora) Decorre das expressas disposições legais que o direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data da extinção do crédito tributário. Tratandose de tributo sujeito a lançamento por homologação, para que se verifique o disciplinamento a respeito da data da extinção do crédito tributário, cumpre transcrever as disposições do art. 150 também do CTN: "Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1° O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação" (grifos da Relatora) Fl. 127DF CARF MF Processo nº 13888.000914/200505 Acórdão n.º 1001001.069 S1C0T1 Fl. 98 4 Nos exatos termos da Lei Complementar, o pagamento antecipado extingue o crédito tributário, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento, operandose, portanto, a extinção no momento em que efetuado o pagamento. No direito posto, a homologação apenas vem confirmar a definitividade da extinção do crédito ocorrida com o pagamento antecipado, em observância a condição expressamente resolutiva prevista na Lei." (...) Quanto ao prazo decadencial quinquenal, a orientação contida no Ato Declaratório SRF n° 96/1999, respaldado no Parecer PGFN/CAT/N° 1.538, de 28/10/1999, em nada contraria as disposições legais aplicáveis à matéria. Para corroborar tal entendimento, reproduzse o art. 3° da Lei Complementar n° 118, de 09/02/2005, in verbis: Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1° do art. 150 da referida Lei. Nestas condições, voto pelo NÃO ACOLHIMENTO da manifestação de inconformidade, razão pela qual deve prevalecer o indeferimento do pedido de restituição/compensação, conforme definido no Despacho Decisório de fl. 29/33. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005 PRAZO PARA PLEITEAR RECONHECIMENTO DE DIREITO CREDITÓRIO. TERMO INICIAL. O prazo decadencial para reconhecimento de direito creditório, relativo a tributo ou contribuição pago indevidamente ou em valor maior que o devido, ainda que tenha sido efetuado com base em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo STF, extinguese após o transcurso de cinco anos, contados da data da extinção do crédito tributário, inclusive na hipótese de tributos lançados por homologação, nos termos dos artigos 150, § 1º, 165 e 168, todos do Código Tributário Nacional. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Ciente da decisão de primeira instância em 12/08/2010, conforme Aviso de Recebimento à efl. 81, a Recorrente apresentou recurso voluntário em 10/09/2010, conforme carimbo aposto à efl. 82, mediante o qual se manifesta contra a decisão de prescrição do pedido. É o Relatório. Fl. 128DF CARF MF Processo nº 13888.000914/200505 Acórdão n.º 1001001.069 S1C0T1 Fl. 99 5 Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o processo administrativofiscal (PAF). Dele conheço. Em seu recurso voluntário a recorrente se manifesta contrariamente à decisão proferida pela DRJ, de prescrição do direito de pleitear o indébito tributário. Neste ponto, assiste razão à recorrente. A respeito dessa matéria, houve pronunciamento do STF em sede de repercussão geral no RE n° 566.621 (j. 4/8/2011), e do STJ sob o rito de recurso repetitivo nos REsp n° 1.002.932/SP (j. 25/11/2009) e n° 1.269.570/MG (j. 23/5/2012), julgados os quais deve este Colegiado observar, tendo em vista o disposto no 62 Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria n° 343 de 09/06/2015. O entendimento exarado por esses tribunais superiores é no sentido de que o prazo para o contribuinte pleitear restituição de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, para os pedidos protocolizados antes da vigência da Lei Complementar n° 118/05, ou seja, antes de 09/06/2005, é de 5 (cinco) anos, conforme o artigo 150, § 4° do CTN, somado ao prazo de 5 (cinco) anos previsto no artigo 168, I desse Código. Em outros termos, os contribuintes têm nessas situações o prazo total de 10 (dez) anos, a partir do fato gerador, para pleitear restituição do tributo indevidamente recolhido. Nesse rumo, diversas decisões da CSRF já se pronunciaram, como por exemplo os Acórdãos nos 9900000.382 (j. 28/8/2012), 9202003176 (j. 6/5/2014) e 9202004.021 (j. 12/5/2016). O tema é pacificado no âmbito deste Conselho Administrativo, nos termos da Súmula CARF nº. 91: Súmula CARF n° 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. De sua parte, a Procuradoria, em interpretação do RE n° 566.621, aprovou o Parecer PGFN/CRJ/N° 1247/2014, no qual concluiu que: (...) os já mencionados precedentes posteriores, bem como o atual contexto, recomendam a adoção de orientação mais flexível, entendendo, sob a ótica da ratio decidendi do julgado em repercussão geral (Tema n° 04), que, em se tratando de pleito administrativo anterior à vigência da LC n° 118/2005 ou de demanda judicial que, embora posterior, seja a este (anterior) relativa (art. 169 do CTN), deve ser observada a sistemática da "tese dos cinco mais cinco". Fl. 129DF CARF MF Processo nº 13888.000914/200505 Acórdão n.º 1001001.069 S1C0T1 Fl. 100 6 Desta forma, e por força do quanto disposto na Súmula CARF n° 91 do CARF, concluise que o prazo para o pedido de restituição efetuado antes da entrada em vigor da Lei Complementar n° 118/05, tem como termo inicial a data do pagamento indevido, findando o mesmo após dez anos. Traçado esse sintético panorama do tema, temse no caso concreto que o contribuinte protocolizou pedido de restituição em 22/03/2005 (efl. 2), relativamente ao saldo negativo de IRPJ anocalendário 1999, exercício 2000. Como o pedido de restituição é anterior à Lei Complementar que alterou o Código Tributário Nacional, nos termos da Súmula CARF nº. 91, deverá ser utilizado o critério de contagem de prazo para repetição de indébito de 10 (dez) anos contados do fato gerador. Diante do exposto, voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para determinar o retorno dos autos à DRF de origem, pois uma vez superada a questão da decadência do pedido de restituição, que a mesma efetue a análise do mérito. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 130DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 14041.001308/2007-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 18 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2005
AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE
Nos termos do Decerto 70.235/1972, somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
PEDIDO DE PERÍCIA. DILIGÊNCIA. LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO.
Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar a realização de diligências e perícias apenas quando entenda necessárias ao deslinde da controvérsia.
OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA E PESSOA FÍSICA.
Se os rendimentos tributáveis auferidos pelo contribuinte não foram integralmente oferecidos à tributação na Declaração de Imposto de Renda, mantém-se o lançamento.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO.
A presunção legal de omissão de rendimentos autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular das contas bancárias ou o real beneficiário dos depósitos, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em suas contas de depósitos ou de investimentos
Numero da decisão: 2202-004.883
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcelo de Sousa Sáteles - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andréa de Moraes Chieregatto, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Marcelo de Sousa Sáteles (Relator) Martin da Silva Gesto, Ricardo Chiavegatto de Lima e Ronnie Soares Anderson (Presidente). Ausente o Conselheiro: Rorildo Barbosa Correia.
Nome do relator: MARCELO DE SOUSA SATELES
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NULIDADE Nos termos do Decerto 70.235/1972, somente ensejam a nulidade os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. PEDIDO DE PERÍCIA. DILIGÊNCIA. LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar a realização de diligências e perícias apenas quando entenda necessárias ao deslinde da controvérsia. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA E PESSOA FÍSICA. Se os rendimentos tributáveis auferidos pelo contribuinte não foram integralmente oferecidos à tributação na Declaração de Imposto de Renda, mantémse o lançamento. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO. A presunção legal de omissão de rendimentos autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular das contas bancárias ou o real beneficiário dos depósitos, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em suas contas de depósitos ou de investimentos Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 04 1. 00 13 08 /2 00 7- 85 Fl. 791DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (assinado digitalmente) Marcelo de Sousa Sáteles Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andréa de Moraes Chieregatto, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Marcelo de Sousa Sáteles (Relator) Martin da Silva Gesto, Ricardo Chiavegatto de Lima e Ronnie Soares Anderson (Presidente). Ausente o Conselheiro: Rorildo Barbosa Correia. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão nº 0327.953, proferido pela 3a Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília DF (DRJ/BSA) que julgou procedente o lançamento do crédito tributário. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: Contra a contribuinte em epígrafe foi emitido Auto de Infração do Imposto de Renda da Pessoa Física – IRPF (fls. 579/611), referente ao exercício 2003, 2004, 2005 e 2006, anocalendário 2002, 2003, 2004 e 2005, por Auditor Fiscal da Receita Federal, da DRF/BrasíliaDF. Após a revisão da Declaração foram apurados os seguintes valores (fl. 579): Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar 132.591,88 Multa de Ofício (passível de redução) 99.443,90 Juros de Mora (cálculo válido até 30/11/2007) 52.717,93 Total do Crédito Tributário 284.753,71 O lançamento acima foi decorrente da(s) seguinte(s) infração(ões): Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica. Rendimentos decorrentes de trabalho com vínculo empregatício. Relação dos valores tributáveis, por exercício, discriminados mês a mês, nas folhas 580 a 583. Enquadramento legal nos autos (fl. 583, 584, 585). Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Física. Omissão de rendimentos de aluguéis recebidos de pessoa física. Relação dos valores tributáveis, por exercício, discriminados mês a mês, nas folhas 583/584. Omissão de Rendimentos caracterizada por Depósitos Bancários com Origem não Comprovada. Valores creditados em contas de depósito ou investimento, mantidas em instituições Fl. 792DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 792 3 financeiras, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações,conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal, parte integrante do Auto de Infração. Fato Gerador Valor Tributável ou Imposto Multa (%) 31/10/2002 R$ 22.000,00 75% Omissão de Rendimentos. Omissão de rendimentos recebidos da empresa Gerencial Ltda, CNPJ 03.721.450/000161 no valor total de R$ 50.000,00 (AC 2004, detalhamento à folha 585) e R$ 30.000,00 (AC 2005, detalhamento à folha 585). A contribuinte apresenta impugnação, protocolada em 11/01/2008 (fls. 614/626), acompanhada da documentação, na qual, em síntese, expõe os motivos de fato e de direito que se seguem: Os fatos descritos pela nobre AuditoraFiscal da Receita Federal do Brasil expressam seu entendimento de fortes indícios de ser o Sr. Ronan Batista de Souza dono de fato, porém, a fiscalização ocorrida na empresa KLY Comunicações Ltda. assim não concluiu ou procedeu, indicando como proprietários os constantes no Contrato Social e Alterações posteriores, ou seja, a Sra. ítala Patrícia dos Santos Sivieri Bueno e a Sra. Maria da Soledade dos Santos Teixeira, conforme Auto de Infração. A AuditoraFiscal, sustentando o interesse de tributar, optou por vínculo funcional, contrariamente à conclusão expressada pelo AuditorFiscal em sua fiscalização na empresa. Quanto aos Rendimentos Recebidos de Pessoas Jurídicas Omissão de Rendimentos do Trabalho com Vínculo Empregatício Recebido de Pessoa Jurídica. Tendo em vista a não imputação ao Sr. Ronan Batista de Souza, como verdadeiro proprietário da KLY Comunicações Ltda., não resta outra argumentação quanto ao item 01 do Auto de Infração de que os valores recebidos da empresa eram provenientes da distribuição de lucro, uma vez que a empresa quando fiscalizada foi autuada pelo lucro arbitrado, logo, os valores recebidos foram todos provenientes desta distribuição lucros. Conforme prevê o Regulamento do Imposto de Renda, quando se tem o lucro apurado por meio do arbitramento, o saldo remanescente entre a receita menos os impostos e contribuições sociais, o restante será distribuído como lucros por presunção. Assim é o entendimento da própria Receita Federal do Brasil em seu site, no sistema de perguntas e respostas, no item 697 veremos abaixo: Fl. 793DF CARF MF 4 “697 Como se dará a distribuição do lucro arbitrado ao titular, sócio ou acionista da pessoa jurídica e sua respectiva tributação?”. Poderá ser distribuído a título de lucros, sem incidência do imposto de renda (quer na fonte quer na pessoa física), ao titular, sócio ou acionista da pessoa jurídica, o valor correspondente ao lucro arbitrado, diminuído de todos os impostos e contribuições (inclusive adicional do IR, CSLL, Cofins, PIS/Pasep ADN Cosit n 4, de 1996) a que estiver sujeita a pessoa jurídica. Igualmente, a pessoa jurídica poderá distribuir valor maior que o lucro arbitrado, também sem incidência do imposto de renda, desde que ela demonstre, via escrituração contábil feita de acordo com as leis comerciais, que o lucro contábil efetivo é maior que o lucro arbitrado. Logo, os valores creditados nas contas correntes referemse à Distribuição de Lucros, e não rendimento do trabalho assalariado, como quer a Douta Autoridade Fiscal. Transcreve também entendimento do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda. Descabe deste modo à alegação de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, decorrente de trabalho com vinculo empregatício, uma vez que ficou caracterizada a distribuição de lucros apurados com base no lucro arbitrado. Rendimentos Recebidos de Pessoas Físicas Sujeitos a Carnê Leão Omissão de Rendimentos de Alugueis e Royalties Recebidos de Pessoa Física. Neste caso, como os rendimentos estão abaixo da tabela de incidência do Imposto de Renda Pessoa Física, descabe a tributação sobre estes rendimentos. Não havendo tributação sobre a omissão de rendimentos do trabalho com vinculo empregatício, o acúmulo de rendimentos não é suficiente para a ocorrência da tributação destes aluguéis recebidos. Depósitos Bancários de Origem não Comprovada Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários com Origem não Comprovada. Mesmo a Douta Autoridade Fiscal não acatando que o valor de R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais) teve origem no recebimento de seguro pelo falecimento da mãe, e cuja documentação apresentada não a considerou hábil e idônea, o que reiteramos novamente que a tal recebimento é seguro recebido, conforme documentação já apresentada. Mesmo assim, caso não seja aceita a tese acima, o art. 42, §3°, inciso II da Lei 9.430/96, entende que para a determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observando que não serão considerados os valores que não ultrapasse a R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) dentro do anocalendário, caso em tela. Deste modo, descabe a autuação sobre este valor de R$ 22.000,00, uma vez que no anocalendário não atingiu o limite de R$ 80.000,00, conforme prevê a legislação. Fl. 794DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 793 5 Omissão de Rendimentos O presente fato faz referência à omissão de rendimentos apurados por meio de depósitos em conta corrente junto ao Banco de Brasília Ag. 212 conta 2120077759, cujos valores estão demonstrados no anexo V do Termo de Verificação Fiscal. Acerca desses valores, conforme consta do Termo de Verificação Fiscal, a Douta Autoridade Fiscal concluiu que são fortes os indícios de que esta conta pertence de fato ao Sr. Ronan Batista de Souza e que foram a ele repassados ou a sua família (esposa, filhos, irmãos e outros), cuja documentação foi amplamente apresentada à fiscalização. Logo, estes valores devem ser tributados na pessoa do Sr. Ronan Batista de Souza, caso assim não queira da Douta Autoridade Julgadora, estes valores também para efeitos de tributação, deverá ser considerado como créditos incluídos no art. 42, §3° inciso II da Lei 9.430/96. No ano de 2004, foram depositados R$ 50.000,00 nesta conta, e, em 2005, o valor de R$ 30.000,00, logo, os valores não deverão ser computados como omissão de receitas. Vasto é o entendimento do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda de que créditos recebidos até R$ 80.000,00, sem origem no ano, não devem ser computados como omissão de receitas. Deste modo, verificamos que o presente Auto de Infração, não tem sustentação para a sua efetiva realização, tendo em vista aos fatos acima apresentados. Requer, diante dos fatos apresentados, seja acata a presente impugnação em sua integralidade. O lançamento foi julgado procedente pela DRJ/BSA. A decisão teve a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2003, 2004, 2005, 2006 OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA E PESSOA FÍSICA. Se os rendimentos tributáveis auferidos pelo contribuinte não foram integralmente oferecidos à tributação na Declaração de Imposto de Renda, mantémse o lançamento. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. COMPROVAÇÃO. A presunção legal de omissão de rendimentos autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular das contas bancárias ou o real beneficiário dos depósitos, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em suas contas de depósitos ou de investimentos Fl. 795DF CARF MF 6 O contribuinte interpôs recurso voluntário em 04/02/2009 (fls. 728/736), repisando os termos da impugnação, à exceção aos seguintes argumentos, em síntese: em relação a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no valor de R$ 22.000,00, solicita diligência para verificação destas operações e nomeia o perito Cláudio Damasceno Lopes; requer por fim: · seja acatado o presente recurso em sua integralidade; · seja efetuada a diligência nas informações fornecidas, com objetivo de apurar os verdadeiros beneficiários dos valores transitados em sua conta corrente; · seja nomeado perito contador para análise e opinião sobre aos fatos levantados, assim como as destinações dos recursos transitados em sua conta corrente bancária; · seja declarado nulo em seu inteiro teor o auto de infração. É o relatório. Voto Marcelo de Sousa Sáteles Conselheiro Relator O recurso foi apresentada tempestivamente, atendendo também aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Da Preliminar Nulidade O contribuinte traz questionamento acerca da nulidade do auto de infração, de forma genérica, sem detalhar o motivo que ensejaria a nulidade. Pois bem, há de se constatar que todos os requisitos previstos no art. 10 do Decreto n" 70.235/ 1972, que regula o processo administrativo fiscal, foram observados quando da lavratura do auto de infração, a saber: Art 10. O auto de infração será lavado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; IIo local, a data e a hora da lavratura III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de 30 dias; Fl. 796DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 794 7 VI .a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matricula. No tocante aos aspectos relativos à nulidade dos atos que compõem o processo fiscal, destaquese o estabelecido pelo artigo 59, do Decreto n" 70.235, de 6 de março de 1972: Art. 59. São nulos. I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa Da leitura dos dispositivos acima transcritos, concluise que o Auto de Infração só poderá ser declarado nulo se lavrado por pessoa incompetente ou quando não constar, ou nele constar de modo errôneo, a descrição dos fatos ou o enquadramento legal de modo a consubstanciar preterição do direito de defesa. No caso em tela, observase que o auto de infração contém os elementos necessários e suficientes para o atendimento do art. 10 do Decreto n. 70.235/72, não ensejando declaração de nulidade. Desta forma, não merece prosperar a alegação de nulidade do auto de infração suscitado pelo impugnante. Do Mérito Foram identificados quatro infrações tributários, quais sejam: · Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica. Rendimentos decorrentes de trabalho com vínculo empregatício. Relação dos valores tributáveis, por exercício, discriminados mês a mês, nas folhas 580 a 583. Enquadramento legal nos autos (fl. 583, 584, 585); · Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Física. Omissão de rendimentos de aluguéis recebidos de pessoa física. Relação dos valores tributáveis, por exercício, discriminados mês a mês, nas folhas 583/584. · Omissão de Rendimentos caracterizada por Depósitos Bancários com Origem não Comprovada. Valores creditados em contas de depósito ou investimento, mantidas em instituições financeiras, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações,conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal, no valor de R$ 22.000,00; · Omissão de Rendimentos. Omissão de rendimentos recebidos da empresa Gerencial Ltda, CNPJ 03.721.450/000161 no valor total de R$ 50.000,00 (AC 2004) e R$ 30.000,00 (AC 2005). Fl. 797DF CARF MF 8 Como relatado, parte substancial da peça recursal apresentada pela contribuinte repete as mesmas argumentações e formula os mesmos pedidos constantes na peça impugnatório. O acréscimo possível de se divisar diz respeito à preliminar de nulidade, a qual já foi analisada na preliminar suscitada, e a solicitação de diligência/perícia, a qual será discutida ao final deste voto. Por anuir com todas as questões decididas pelo julgador a quo, adotoos como razões de decidir: Cabe, inicialmente, tecer considerações acerca da afirmação preliminar da impugnante, transcrita a seguir, ipsis litteris (destaques acrescidos): Os fatos acima descritos pela nobre AuditoraFiscal da Receita Federal do Brasil expressam seu entendimento de fortes indícios de ser o Sr. Ronan Batista de Souza dono de fato. Porém a fiscalização ocorrida na empresa KLY Comunicações Ltda., assim não concluiu ou procedeu, indicando como proprietários os constantes no Contrato Social e Alterações posteriores, ou seja, a Sra. ítala Patrícia dos Santos Sivieri Bueno e a Sra. Maria da Soledade dos Santos Teixeira, conforme Auto de Infração em anexo. A AuditoraFiscal, sustentando o interesse de tributar, optou por vínculo funcional, contrariamente à conclusão expressada pelo AuditorFiscal em sua fiscalização na empresa conforme parágrafo anterior. Compulsando os autos, observase que a genérica alegação acima não tem qualquer sustentação fática. Primeiramente, não foi apontado qualquer elemento ou documento que demonstrasse, de forma peremptória, que o Auto de Infração foi lavrado por mero “interesse em tributar”. Não é demais deixar em relevo que o procedimento fiscal levado a efeito decorreu de demanda do Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios, objetivando apurar a repercussão na ordem financeira e tributária da conduta dos dirigentes do Instituto Candango de Solidariedade – ICS e das pessoas físicas e jurídicas contratadas por este (fl. 553/560 e 595). A fiscalizada é sobrinha da esposa do Sr. Ronan Batista de Souza, expresidente do ICS, e figurou como sócia da empresa KLY Comunicação Ltda, CNPJ 02.922.166/000190, no período de 2000 a 2006. A receita desta empresa, em sua quase totalidade, provinha do ICS, segundo verificação da Fiscalização na empresa KLY (fl. 595). Não há dúvidas deste fato, pelos documentos encontrados e declaração da própria impugnante, que era sócia da empresa KLY Comunicação Ltda., chegando a possuir 50% do capital social (fls. 21/22; 29/37) e que também exercia atividades remuneradas nessa empresa até o dia 07/02/2006 (fls. 524/525). Dito isso, passase à análise das infrações. Fl. 798DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 795 9 Dos Rendimentos Recebidos de PJ Argumenta a impugnante que tendo em vista a não imputação ao Sr. Ronan Batista de Souza, como verdadeiro proprietário da KLY Comunicações Ltda., não resta outra alternativa: se os valores recebidos da empresa eram provenientes da distribuição de lucro, uma vez que a empresa quando fiscalizada foi autuada pelo lucro arbitrado, logo, os valores recebidos foram todos provenientes desta distribuição de lucros. Acrescenta ainda que, conforme prevê o Regulamento do Imposto de Renda, quando se tem o lucro apurado por meio do arbitramento, o saldo remanescente entre a receita menos os impostos e contribuições sociais, o restante será distribuído como lucros por presunção. A premissa e a conclusão acima – que se a empresa fiscalizada foi autuada pelo lucro arbitrado, então os valores recebidos foram todos provenientes desta distribuição de lucros – carece de lógica e, principalmente, não há qualquer amparo documental que comprove a suposta distribuição ou mesmo a efetiva transferência de valores a esse título. O arbitramento, é bom ressaltar, foi efetivado justamente pela não apresentação dos livros e escrituração da empresa (fls. 666/669). Em depoimento em Juízo e também à Receita Federal do Brasil, disse a impugnante haver recebido valores tãosomente a título de salário, por trabalhar na KLY Comunicação Ltda., nada mais (fls. 524/525 e 560). Acrescentando, por várias vezes, que não era sócia, mas somente gerente da empresa e que o proprietário, de fato, era o Sr. Ronan Batista de Souza, que lhe presenteara com documentação da KLY, e que a assinou por achar “chique” ter o nome na empresa (fl. 557). O art. 666 do RIR/1999 dispõe que: Lucro Arbitrado Subseção I Resultados Apurados a partir de 1º janeiro de 1996 Art.666.Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro arbitrado, não estão sujeitos à incidência do imposto na fonte, nem integram a base de cálculo do imposto sobre a renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliada no País ou no exterior (Lei nº 9.249, de 1995, art. 10). Por sua vez, o Ato Declaratório Normativo (ADN) nº 04/96, em seu inciso I, estatui que, no caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro arbitrado, poderá ser distribuído, a título de lucros, sem incidência de imposto, o valor correspondente à diferença entre o lucro arbitrado e os valores do imposto de renda da pessoa jurídica, da contribuição social sobre o lucro, PIS e COFINS. Fl. 799DF CARF MF 10 Pelo exame dos autos, verificase que não apresentou prova de ter efetivamente recebido o valor pretendido. Ao contrário, repisase, admite a impugnante que tãosomente recebia valores a título de salários, não recebendo lucros (fl. 557). Dessa forma, a AuditoraFiscal, corretamente, lavrou a infração de omissão rendimentos tributáveis recebidos de PJ com vínculo empregatício. A título de argumentação, essa linha de defesa é deveras surpreendente, parece querer transitar pelas alternativas à disposição para excluir a infração apurada, e não demonstrar com robustez a verdade material. Assim procedendo, operará somente em prejuízo da contribuinte, podendo inclusive demonstrar máfé da conduta, quando a retorna à condição de sócia da empresa, a fim de considerar os valores apurados como oriundos de suposta distribuição de lucros, não comprovada. Esclarecese, por fim, que indícios de que o Sr. Ronan Batista de Souza era verdadeiro dono são somente circunstâncias que possuem relação com o fato e que possibilita a construção de hipóteses com ele relacionadas sobre a autoria e seus demais aspectos. Assim, mantémse a apuração da infração. Dos Rendimentos Recebidos de Pessoas Físicas Sujeitos a CarnêLeão Omissão de Rendimentos de Alugueis e Royalties Recebidos de Pessoa Física Argumenta, neste ponto, que os rendimentos estão abaixo da tabela de incidência do Imposto de Renda Pessoa Física, por conseguinte, descabe a tributação sobre estes rendimentos. Aduz ainda que não havendo tributação sobre a omissão de rendimentos do trabalho com vinculo empregatício, o acúmulo de rendimentos não é suficiente para a ocorrência da tributação destes alugueis recebidos. Da exegese dessa contestação, depreendese que a impugnante não nega o recebimento desses valores, mas tãosomente que não os levou à tributação sob o argumento supra. Nas considerações do item anterior, concluiuse que não há qualquer reparo na infração apurada de omissão de rendimentos tributáveis recebidos de PJ. Deveria a contribuinte, nos termos da legislação tributária, na Declaração de Ajuste Anual a ser apresentada no anocalendário subseqüente, apurar o saldo do imposto a pagar ou o valor a ser restituído, relativamente a todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário – à exceção dos isentos, nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva (Lei nº 9.250/95, artigos 7º e 8º). Ademais, no caso em concreto, o fato de os rendimentos recebidos de PF, mês a mês, não gerarem obrigatoriedade do recolhimento de carnêleão, não implica a desnecessidade de leválos à tributação na Declaração de Ajuste Anual, especialmente, agora, conjugados com os rendimentos recebidos de PJ, acima mantidos. Fl. 800DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 796 11 Subsiste, portanto, integralmente, a infração apurada pela Fiscalização. Omissão de Rendimentos Argumenta que os valores, segundo a Autoridade Fiscal concluiu, são indícios de que esta conta pertence de fato ao Sr. Ronan Batista de Souza, os quais foram a ele repassados ou a sua família, cuja documentação foi amplamente apresentada. Logo, devem ser tributados na pessoa do Sr. Ronan Batista de Souza, caso assim não queira a Autoridade Julgadora, deverão ser considerados como créditos incluídos no art. 42, §3° inciso II da Lei 9.430/96. Acrescenta que, no ano de 2004, foram depositados R$ 50.000,00 nesta conta e, em 2005, R$ 30.000,00, logo, conforme legislação acima, esses valores não deverão ser computados como omissão de receitas. Vasto é o entendimento do Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda de que créditos recebidos até R$ 80.000,00, sem origem no ano, não devem ser computados como omissão de receitas. Primeiro ponto que se deve destacar, a partir da argumentação supra é que o recebimento dos valores aconteceu. Não há qualquer tentativa de se negar tal fato. A partir do Termo de Verificação fiscal, bem como dos autos, observase que a origem está perfeitamente delineada, os valores foram recebidos da empresa Gerencial Ltda., CNPJ 03.721.450/000161 (fl. 600). Inclusive, em juízo, a impugnante afirmou que ela própria foi buscar os cheques com Márcio Almeida (fls. 556/560). OMISSÃO DE RENDIMENTOS. São tributáveis os rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício, evidenciados por cheques emitidos por pessoa jurídica em favor do contribuinte. 1º Conselho de Contribuintes /2a. Câmara/Acórdão 10419.181 em 28/01/2003. Assim, diferentemente do que quer crer a contribuinte, esses valores não estão enquadrados no art. 42, § 3º, II, da Lei 9.430/1996, mas sim nos dispositivos indicados no auto de infração (fl. 585). Logo, não há amparo legal para a desconsideração de valores até R$80.000,00. Mantémse a infração, portanto. Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários com Origem não Comprovada A impugnante insurgese contra esta infração, asseverando que mesmo não havendo sido acatado que o valor de R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais) teve origem no recebimento de seguro pelo falecimento da mãe, e cuja documentação apresentada não a considerou hábil e idônea, o art. 42, §3°, inciso II da Lei 9.430/96, determina que para a determinação da receita omitida, Fl. 801DF CARF MF 12 os créditos serão analisados individualizadamente, observando que não serão considerados os valores que não ultrapasse a R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) dentro do anocalendário, caso em tela. Impende trazer à colação excerto do dispositivo legal que trata da matéria (destaques acrescidos): Art.42.Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. ... §3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (doze mil reais). (Vide Lei nº 9.481, de 1997) §4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. Não há qualquer dúvida na interpretação do dispositivo apontado pela impugnante. Não entrarão no cômputo da receita omitida os créditos que somados, dentro do anocalendário, não ultrapassem o valor de R$ 80.000,00, contudo, está explícito que somente é válida tal exclusão para aqueles valores individuais menores que R$ 12.000,00. Ora, o valor do crédito apontado no Auto de Infração importa em R$ 22.000,00. Quanto à alegação de que o depósito de 18/10/2002 (BRB ag. 212, c/c 006819) é decorrente de seguro de vida, o documento acostado não permite ateste nesse sentido, já que dá conta que o pagamento se deu em 21/03/2001. Igualmente, não há correspondência de valores. Assim, subsiste a infração apurada, pois em plena conformidade com o disposto na legislação tributária. Do Pedido de Perícia/Diligencia A realização de perícia se justificaria na hipótese de necessidade de apreciações técnicas, por especialistas com conhecimento específico em determinadas matérias, com o intuito de esclarecer aspectos controvertidos que não ficaram suficientemente demonstrados pelas provas aportadas ao processo. Entretanto, essa não é a hipótese presente Fl. 802DF CARF MF Processo nº 14041.001308/200785 Acórdão n.º 2202004.883 S2C2T2 Fl. 797 13 nos autos, visto que não se faz necessária a apreciação técnica de especialista para subsidiar o julgamento da lide. Com relação ao depósitos bancários de origem não comprovada, no valor de R$ 22.000,00, ficou muito claro na decisão de piso que o depósito ocorreu em 18/10/2002 (BRB ag. 212, c/c 006819), sendo que o pagamento de seguro de vida teria ocorrido em 21/03/2001 (no valor de R$ 31.298,63 efls. 40), logo as datas não são coincidentes e nem mesmo os valores, portanto desnecessária qualquer perícia neste ponto. Requer ainda que seja efetuada a diligência/perícia nas informações fornecidas, com objetivo de apurar os verdadeiros beneficiários dos valores transitados em sua conta corrente. Totalmente desnecessária tal diligência/perícia, uma vez não existe nenhuma dúvida de que a contacorrente era de sua titularidade, logo a beneficiária seria ela mesmo. Possíveis movimentações posteriores realizadas em sua contacorrente para terceiros em nada interfere o presente auto de infração, que detalhou de forma pormenorizada as infrações à legislação tributária cometidas pela Recorrente, com os seus devidos fundamentos legais. Ademais, não foram observadas as condições postas no inciso IV do artigo 16 do Decreto 70.235/72, em especial a não formulação de quesitos referentes aos pedidos de perícia/diligência desejados. Indefiro, portanto, a solicitação de perícia/diligência. Conclusão Ante ao exposto, voto em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marcelo de Sousa Sáteles Relator Fl. 803DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.727777/2014-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010
IPI. AUTO DE INFRAÇÃO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. PRODUTOS ISENTOS. AMAZÔNIA OCIDENTAL - ZONA FRANCA DE MANAUS. CONCENTRADO DE REFRIGERANTE. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. INCOMPETÊNCIA. CARF. SÚMULA CARF 2.
Nos termos da Súmula 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade comissiva ou omissiva da lei tributária.
ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL.
No artigo 6º do Decreto-Lei 1.435/75, entende-se por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do Decreto-Lei 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66).
IPI. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. GLOSA DE PRODUTOS INTERMEDIÁRIOS. INSUFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO LANÇAMENTO. REVERSÃO.
Deve ser revertida a glosa quando insuficiente sua motivação.
Numero da decisão: 3401-005.701
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para reverter a glosa referente a produtos intermediários.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Redator Ad Hoc.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Carlos Alberto da Silva Esteves (suplente convocado), Muller Nonato Cavalcante (suplente convocado), Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos (relator original), Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente o Conselheiro Tiago Guerra Machado. Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 IPI. AUTO DE INFRAÇÃO. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. PRODUTOS ISENTOS. AMAZÔNIA OCIDENTAL ZONA FRANCA DE MANAUS. CONCENTRADO DE REFRIGERANTE. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. INCOMPETÊNCIA. CARF. SÚMULA CARF 2. Nos termos da Súmula 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade comissiva ou omissiva da lei tributária. ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. No artigo 6º do DecretoLei 1.435/75, entendese por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do Decreto Lei 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66). IPI. APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS. GLOSA DE PRODUTOS INTERMEDIÁRIOS. INSUFICIÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO LANÇAMENTO. REVERSÃO. Deve ser revertida a glosa quando insuficiente sua motivação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para reverter a glosa referente a produtos intermediários. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 77 77 /2 01 4- 18 Fl. 2356DF CARF MF 2 Rosaldo Trevisan – Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Carlos Alberto da Silva Esteves (suplente convocado), Muller Nonato Cavalcante (suplente convocado), Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos (relator original), Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente o Conselheiro Tiago Guerra Machado. Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. Relatório (conforme disponibilizado pelo relator original, Cons. André Henrique Lemos, na pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF) Por bem retratar a realidade dos fatos, transcrevese relatório do Acórdão nº 0132.777 da 3ª Turma da DRJ/BEL: “Tratase de auto de infração lavrado contra a empresa acima identificada, no valor total de R$ 91.961.619,67 (incluídos nesse valor o principal, multa proporcional e juros de mora), em que foi lançado IPI referente aos períodos de apuração de 2010, conforme abaixo. 1.1. Da utilização indevida pela impugnante de créditos do imposto com fundamento no art. 6º do Decretolei nº 1.435, de 1975: a) Segundo a autoridade fiscal, a fornecedora Arosuco informou que no período fiscalizado os concentrados de sabores que não os de guaraná não continham em sua composição extratos vegetais de produção regional, requisito necessário para aproveitamento dos créditos; b) No caso do fornecedor PepsiCola da Amazônia, afirma a fiscalização que o concentrado fornecido tem como insumo o corante caramelo e não a matéria prima regional. Esta última é insumo em etapa anterior, no caso a fabricação do corante pela empresa DD Williamson do Brasil S/A. Além disso, o açúcar utilizado pela DD Williamson é oriundo do Mato Grosso e não da Amazônia Ocidental; c) Nas aquisições da Ravibrás Embalagens da Amazônia, não são utilizadas matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional; d) No caso da fornecedora Valfilm, na fabricação do “filme stretch” o óleo de dendê não é matéria prima extrativa vegetal, sendo, na verdade, um produto já industrializado, que passa por um processo de industrialização complexo, desde a colheita do Fl. 2357DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.357 3 fruto (dendê ou palma, como também é conhecido), até a obtenção do óleo propriamente dito. 1.2. Dos créditos relativos a material intermediário da produção: “Com relação aos créditos escriturados a título de Materiais Intermediários da Produção ART 164 INC I DEC 4544/02, pelas planilhas apresentadas pela AMBEV, verificamos que, dentre os materiais listados destacamse principalmente parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc. Estes materiais não dão direito ao crédito de IPI para a AMBEV, por não se enquadrarem no conceito de matériaprima ou produto intermediário para a fabricação de cervejas, refrigerantes e sucos.” 2. Cientificada em 19.12.2014, a interessada apresentou, tempestivamente, em 19.01.2015, impugnação (fls. 1708/1722) na qual alega: “... 2.1.1. Correta interpretação do art. 6º do DL n. 1.435/75. Aplicação do benefício em relação aos produtos adquiridos junto à PEPSI e à VALFILM. O art. 6o do DL n. 1.435/75 confere isenção do IPI aos produtos que especifica, além de crédito presumido do imposto aos respectivos adquirentes, ‘sempre que’ esses produtos sejam destinados à utilização como insumos na industrialização de outros que sejam efetivamente tributados, como se verifica: (...) A simples leitura do dispositivo revela que dois são os requisitos para que um produto seja alcançado pelo benefício: (1) ser produzido por estabelecimentos com projeto aprovado pela SUFRAMA e instalados na Amazônia Ocidental, assim definida pelo art. 1o, §4°, do DL n. 291/67; e (2) ser ‘elaborado com’ matérias primas agrícolas e/ou extrativas ‘de produção regional’. A lógica do benefício é cristalina: (a) fomentar diretamente a indústria na área ocidental da região, restringindo a isenção e o crédito presumido aos produtos fabricados por estabelecimentos localizados na Amazônia Ocidental; e (b) estimular indiretamente as atividades agrícolas e extrativas em toda a Amazônia, com o aumento da demanda para abastecimento de fábricas naquela área menor6, através da exigência de utilização de matérias primas "regionais". Vejase que o DL 14351976, ao tratar dos incentivos do DL 288/67 previu normas no sentido de incentivar a utilização de insumos ‘de produção nacional’ pelas indústrias instaladas na ZFM (art. 1o). Isso demonstra preocupação em fomentar o consumo de insumos produzidos em áreas mais extensas do que a Fl. 2358DF CARF MF 4 da Amazônia Ocidental/ZFM, o que explica a possibilidade de produção em toda a Amazônia de insumos agrícolas e extrativos vegetais para as indústrias incentivadas. .... 2.1.1.a. Possibilidade de utilização de matériaprima regional in natura ou processada. Primeiramente, o Auto de Infração equivocase ao interpretar a expressão ‘elaborados com matériasprimas’ no sentido de que o benefício fiscal em questão somente seria aplicável àquelas mercadorias em cuja produção tenham sido empregados materiais agrícolas ou extrativos in natura. De fato, o termo matériaprima designa um conceito amplo, compreensivo de ‘toda matéria aplicada na produção de uma nova espécie, pela transformação dela em outra, não importando que já se mostre em um produto não originário da natureza’. Esse conceito desdobrase em duas categorias, a saber, ‘a matéria prima bruta’ que é a provinda diretamente da natureza, e... a matériaprima representada por um produto originado de outras matériasprimas. Como o art. 6o do DL n. 1.435/75 não fala em ‘matériaprima bruta’ ou ‘provinda da natureza’, reportandose ao termo genérico ‘matériasprimas’, a única interpretação válida do dispositivo é aquela que conduz à aplicação do benefício a toda e qualquer mercadoria que contenha (‘elaborado com’) matérias primas de base vegetal, não importando se in natura ou já processadas. ..... Além disso, o do art. 6o do DL n. 1.435/75 assegura a fruição do incentivo ‘sempre que’ os produtos que contenham substâncias de origem vegetal sejam ‘empregados como matériasprimas’ de outros. Disso resulta que o benefício é de natureza objetiva, aplicandose a todo produto que possua conteúdo vegetal de origem amazônica, in natura ou previamente processado, não existindo razão lógica ou econômica que justifique limitar a aplicação do incentivo apenas às hipóteses de utilização de materiais agrícolas ou extrativos in natura (...). ...... 2.1. l.b. Matériaprima regional é aquela proveniente da Amazônia Legal. De outro lado, também se equivoca o Auto de Infração ao afirmar que a expressão ‘de produção regional’, empregada pelo art. 6o do DL n. 1.435/75, teria o sentido de que o benefício somente seria aplicável às mercadorias fabricadas com matérias primas agrícolas ou extrativas vegetais oriundas da Amazônia Ocidental. De acordo com esse dispositivo, a Amazônia Ocidental é a área onde deve estar localizado o estabelecimento industrial que pretenda se valer do benefício, devendo os insumos por ele utilizados conter matériasprimas agrícolas ou Fl. 2359DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.358 5 extrativas vegetais da região da Amazônia, que é mais ampla e compreende a referida área. ...... A interpretação sistemática dos dispositivos transcritos revela que o incentivo de que trata do DL n. 1.435/75 contempla dois critérios geográficos (espaciais) distintos: 1o) industrialização dos produtos por estabelecimentos localizados na ‘área’ da Amazônia Ocidental; 2o) elaboração de tais produtos com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais da ‘região’ da Amazônia, delimitada pelo art. 2o da Lei n. 5.173/1966 c/c art. 45 da Lei Complementar n. 31/1977, corresponde à chamada ‘Amazônia Legal’ e compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão (parte oeste do meridiano de 44°), Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. ........ 2.1.1.c. Conclusão quanto ao tópico: Em suma, ao contrário do que pretende o Auto de Infração, o produto, para ser alcançado pelo benefício, deve ser fabricado: (1) na Amazônia Ocidental por estabelecimentos industriais com projeto aprovado pela SUFRAMA; e (2) com o emprego de matérias de origem vegetal provenientes da Amazônia legal, não importando in natura ou já processadas/industrializadas. Aliás, esse é o entendimento oficial da SUFRAMA, órgão que detém competência exclusiva para aprovar ‘os projetos de empresas que objetivem usufruir dos benefícios fiscais previstos... no art. 6o do DecretoLei n° 1.435, de 16 de dezembro de 1975, bem como estabelecer normas, exigências, limitações e condições para a aprovação dos referidos projetos’ (art. 4o, I, "c", anexo ao Decreto n. 7.139/2010). Realmente, as questões ora versadas foram submetidas à Autarquia pela PEPSI, por intermédio da Correspondência n. 4745 (doc. 03), que, em resposta (Ofício n. 5637/SPR/CGA/CGAPECPIN doe. 04), assim se pronunciou: ‘a) A fabricação de concentrado, base e edulcorante para bebidas não alcoólicas a partir de matériaprima industrializada com extrato vegetal produzido a partir de matériaprima industrializada com extrato vegetal produzido localmente que não seja típico da região amazônica (por ex. açúcar de cana) é beneficiada com o incentivo previsto no art. 6o do Decretolei n. 1.435/75 (...) b) O incentivo previsto no art. 6o do Decretolei n. 1.435/75 aplicase ao concentrado, a partir de insumos (por ex. corante caramelo) fabricados com extrato vegetal produzido na região amazônica (também conhecida como 'Amazônia Legal’)’ Em outras palavras, a SUFRAMA reconheceu que o benefício de que trata o art. 6º do DL n. 1.435/1975 abrange: Fl. 2360DF CARF MF 6 A Produtos elaborados com matérias de origem vegetal, sejam elas in natura OU já processadas', e B Produtos elaborados com materiais vegetais originários da Amazônia Legal, desde que a fabricante esteja na área da Amazônia Ocidental. Esses os motivos pelos quais a SUFRAMA manifestouse no sentido de que os concentrados de ‘cola’ da PEPSI, contendo corante caramelo fornecido por DD WILLIAMSON (indústria instalada na ZFM) fabricado a partir do açúcar (produto industrializado) de cana (matéria prima bruta) originário do Mato Grosso (Amazônia Legal), dão direito ao benefício de que trata o art. 6o do DL n. 1.435/75, como é o caso dos créditos apropriados pela Impugnante. Pelos mesmos motivos, aliás, o benefício alcança o filme strecht da VALFILM, pois, como o próprio Auto de Infração afirma (fato incontroverso), esse produto contém óleo de dendê originário do Estado do Amazonas.(...) 2.1.1. d. A interpretação fiscal contraria entendimento anterior da Receita Federal, não podendo retroagir. A par de desconsiderar a orientação da SUFRAMA, a motivação do auto de infração, no sentido de que os produtos adquiridos junto à VALFILM não ensejariam a apropriação de créditos presumidos de IPI porque o óleo de dendê usado na fabricação do filme stretch ‘não é matéria prima extrativa vegetal’, mas sim ‘um produto já industrializado’, contraria o entendimento anteriormente externado pela própria Receita Federal, não podendo, dessa forma, retroagir em desfavor do contribuinte. De fato, em inúmeros lançamentos de ofício pretéritos, a Receita Federal reconheceu o direito à tomada de créditos em relação ao filme stretch produzido com o óleo de dendê oriundo da Amazônia Legal, sem jamais questionar esse direito em virtude de o óleo de dendê consistir em produto industrializado. (...) ...... Tratandose de situação de fato idêntica à verificada nos presentes autos, a contrariedade aos termos dos lançamentos de ofício prévios caracteriza verdadeira mudança de entendimento do Fisco em relação ao tratamento jurídico aplicável a essa situação. Ocorre que a nova interpretação jamais poderia ser aplicada em relação a fatos geradores já ocorridos (ato jurídico perfeito), como no presente caso, sob pena de violação ao art. 146 do Código Tributário Nacional (...) ..... Caso assim não se entenda, deve, ao menos, ser aplicado o art. 100, caput e parágrafo único, do CTN, segundo o qual ‘as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas’ caracterizam ‘normas complementares’ da legislação tributária, de modo que a sua observância, pelo sujeito passivo, ‘exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo’, para que sejam excluídos todos os acréscimos computados sobre o valor dessa glosa em específico. Fl. 2361DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.359 7 ....... 2.1.2. O art. 40 do ADCT assegura créditos presumidos do IPI aos adquirentes de todo e qualquer insumo isento oriundo da ZFM. Se tanto não bastasse, a Impugnante tem direito ao crédito do IPI sobre todos os produtos isentos adquiridos de estabelecimento localizados na ZFM, cujos créditos foram inadvertidamente glosados pela Fiscalização, por força do tratamento tributário diferenciado que lhes assegura artigo 40 do ADCT. Com efeito, embora o Supremo Tribunal Federal tenha definido que as aquisições de insumos isentos do IPI, em regra, não conferem ao destinatário do produto o direito de apropriar créditos do imposto, tal entendimento não se aplica às aquisições de insumos produzidos na ZFM, conforme ressalva constante do acórdão proferido no RE 566.819/RS, sendo certo que a questão será apreciada em sede de repercussão geral reconhecida nos autos do RE n. 592.891/SP. Ora, o tratamento diferenciado justificase em vista da determinação constitucional de que as transações envolvendo mercadorias destinadas à ZFM ou dela originadas tenham tratamento fiscal mais benéfico que o aplicável aos mesmos bens quando advindos ou remetidos a estabelecimentos em outras localidades do País, de forma a atrair empreendimentos relevantes para regiões menos desenvolvidas, com vistas a proporcionar o equilíbrio regional e social desejado pela Constituição (arts. 3o, I e III; 43, § 2o, II; 151, II, 170, VII e 174). 3. Improcedência da glosa de Créditos relativos a Produtos Intermediários. Também não procede a glosa de créditos relativos a ‘parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas’ fundada na alegação de que não se enquadram ‘no conceito de matériaprima ou produto intermediário para a fabricação de cervejas, refrigerantes e sucos’, por não entrarem em contato físico direto ou não sofrerem/exercerem diretamente ação no produto final (cf. TVF). O RIPI/10 (art. 226, I c/c art. 610, II), assim como o revogado RIPI/02 (art. 164, I), assegura créditos em relação materiais de embalagem, matériasprimas e produtos intermediários, inclusive aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, são consumidos no processo de industrialização, desde que não façam parte do ativo permanente: (...)A interpretação pretendida do termo ‘diretamente’ contudo, equivale a criar um novo requisito ao creditamento, qual seja, que o consumo desses itens decorra de contato direto com o produto final, que não consta da legislação citada (!) O sentido do termo ‘consumidos’ previsto na lei referese à perda de características inerentes aos itens necessários à industrialização decorrentes das sucessivas transformações ocorridas na industrialização, à perda de suas propriedades à qual Fl. 2362DF CARF MF 8 corresponde acréscimo no valor do produto final. Assim, o que se exige é que o bem seja de algum modo aplicado na produção e que, sem ele, a fabricação da mercadoria não seja possível, tal como se dá com os materiais envolvidos no caso. .......” 3. Ao final, requer a improcedência das glosas efetuadas e o cancelamento do auto de infração. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Belém/PA (DRJ), por meio do Acórdão nº 0132.777, de 03 de maio de 2016 (efl. 2.304 e ss.), julgou improcedente a impugnação, mantendo integralmente o lançamento pelos seguintes fundamentos sintetizados em sua ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 CRÉDITO. INSUMOS. Somente geram direito ao crédito do imposto os materiais que se enquadrem no conceito jurídico de insumo, ou seja, aqueles que se desgastem ou sejam consumidos mediante contato físico direto com o produto em fabricação. AMAZÔNIA OCIDENTAL. CRÉDITO. Por expressa disposição legal, estão isentos do IPI os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na Amazônia Ocidental com projeto aprovado pela Suframa. Referidos produtos gerarão crédito do imposto, calculado como se devido fosse, sempre que empregados como matériasprimas, produtos intermediários ou materiais de embalagem, na industrialização, em qualquer ponto do território nacional, de produtos efetivamente sujeitos ao pagamento do referido imposto. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2010 PRÁTICAS REITERADAS. EXCLUSÃO DE PENALIDADE. As práticas reiteradas das autoridades administrativas significam uma posição firmada pela administração, antiga, reiterada e pacífica, com relação à aplicação da legislação tributária, e devem ser acatadas como boa interpretação da lei. Assim, o contribuinte que agir em conformidade com a orientação da Administração não fica sujeito a penalidades. Entretanto, não se pode considerar que o posicionamento adotado por uma autoridade fiscal em procedimento de fiscalização tenha o condão de caracterizar essa prática reiterada, de modo a possibilitar a exclusão de penalidade. Fl. 2363DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.360 9 ALTERAÇÕES NO LANÇAMENTO. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. A modificação de critério jurídico mencionada no art. 146 do CTN vinculase a uma modificação, uma alteração na adoção de critérios legalmente estabelecidos, ou, principalmente, na mudança de interpretação dada à legislação tributária pela administração, sendo incabível incluir nesse rol a apuração de infração não detectada em fiscalizações anteriores. A contribuinte, tomou ciência do acórdão do DTE – Portal eCAC, em 13/05/2016 (efl. 2.324). Irresignada, interpôs Recurso Voluntário (efl. 2.326 e ss.), no qual alegou, em síntese: Ilegitimidade da glosa dos créditos relativos às mercadorias isentas oriundas da ZFM, decorrente do entendimento relacionado à Correta interpretação do art. 6º do DL n. 1.435/75 e a aplicação do benefício em relação aos produtos adquiridos pela Recorrente perante a PEPSI e a VALFILM em face: possibilidade de utilização de matériaprima regional ser in natura ou mesmo processada; que a matériaprima regional poder ser proveniente da Amazônia Legal e não tão somente da Amazônia Ocidental; que a interpretação fiscal estaria contrariando entendimento anterior da própria Receita Federal o que impediria de retroagir. ilegitimidade da glosa dos créditos relativos aos demais concentrados para a fabricação de refrigerantes e aos materiais de embalagem. Alega que os fornecedores são titulares de incentivo fiscal que lhe assegura tratamento diferenciado conforme determina o art. 40 do ADCT. Afirma ainda que o STF, apesar de ter definido, em regra, que as aquisições de insumos isentos não conferem o direito de apropriação de créditos de IPI ao destinatário daqueles, esta regra não seria aplicável às aquisições de insumos isentos oriundos da ZFM. ilegitimidade da glosa dos créditos relativos a produtos intermediários É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Redator Ad Hoc Fl. 2364DF CARF MF 10 O voto a seguir reproduzido é de lavra do Conselheiro André Henrique Lemos, relator original do processo, que, conforme Portaria CARF no 143, de 30/11/2018, teve o mandato extinto antes da formalização do resultado do presente julgamento. O texto do voto, in verbis, foi retirado da pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros. “O recurso voluntário interposto é tempestivo, logo, dele tomo conhecimento. Dos insumos isentos da ZFM Viuse que a Recorrente fora autuada por tomar créditos do IPI, oriundos de produtos isentos, os chamados "concentrados" de refrigerantes, situados na designada "Amazônia Ocidental" (Zona Franca de Manaus ZFM). Começase por este assunto que, entendese seja o principal, o qual, dependendo do seu resultado, despiciendos serão os demais. O tema é conhecido deste Tribunal e também dos Tribunais de Superposição (STJ e STF). No STJ, REsp. 1.134.903/SP, submetido aos chamados representativos de controvérsia ou mais popularmente recursos repetitivos (Tema 276), cuja ementa segue abaixo: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. DIREITO AO CREDITAMENTO DECORRENTE DO PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS OU MATÉRIASPRIMAS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO OU NÃO TRIBUTADOS. IMPOSSIBILIDADE. JURISPRUDÊNCIA FIRMADA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 1. A aquisição de matériaprima e/ou insumo não tributados ou sujeitos à alíquota zero, utilizados na industrialização de produto tributado pelo IPI, não enseja direito ao creditamento do tributo pago na saída do estabelecimento industrial, exegese que se coaduna com o princípio constitucional da não cumulatividade (Precedentes oriundos do Pleno do Supremo Tribunal Federal: (RE 370.682, Rel. Ministro Ilmar Galvão, julgado em 25.06.2007, DJe165 DIVULG 18.12.2007 PUBLIC 19.12.2007 DJ 19.12.2007; e RE 353.657, Rel. Ministro Marco Aurélio, julgado em 25.06.2007, DJe041 DIVULG 06.03.2008 PUBLIC 07.03.2008). 2. É que a compensação, à luz do princípio constitucional da nãocumulatividade (erigido pelo artigo 153, § 3º, inciso II, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988), dar seá somente com o que foi anteriormente cobrado, sendo certo que nada há a compensar se nada foi cobrado na operação anterior. Fl. 2365DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.361 11 3. Deveras, a análise da violação do artigo 49, do CTN, revela se insindicável ao Superior Tribunal de Justiça, tendo em vista sua umbilical conexão com o disposto no artigo 153, § 3º, inciso II, da Constituição (princípio da nãocumulatividade), matéria de índole eminentemente constitucional, cuja apreciação incumbe, exclusivamente, ao Supremo Tribunal Federal. 4. Entrementes, no que concerne às operações de aquisição de matériaprima ou insumo não tributado ou sujeito à alíquota zero, é mister a submissão do STJ à exegese consolidada pela Excelsa Corte, como técnica de uniformização jurisprudencial, instrumento oriundo do Sistema da Common Law e que tem como desígnio a consagração da Isonomia Fiscal. 5. Outrossim, o artigo 481, do Codex Processual, no seu parágrafo único, por influxo do princípio da economia processual, determina que "os órgãos fracionários dos tribunais não submeterão ao plenário, ou ao órgão especial, a argüição de inconstitucionalidade, quando já houver pronunciamento destes ou do plenário, do Supremo Tribunal Federal sobre a questão". 6. Ao revés, não se revela cognoscível a insurgência especial atinente às operações de aquisição de matériaprima ou insumo isento, uma vez pendente, no Supremo Tribunal Federal, a discussão acerca da aplicabilidade, à espécie, da orientação firmada nos Recursos Extraordinários 353.657 e 370.682 (que versaram sobre operações não tributadas e/ou sujeitas à alíquota zero) ou da manutenção da tese firmada no Recurso Extraordinário 212.484 (Tribunal Pleno, julgado em 05.03.1998, DJ 27.11.1998), problemática que poderá vir a ser solucionada quando do julgamento do Recurso Extraordinário 590.809, submetido ao rito do artigo 543B, do CPC (repercussão geral). 7. In casu, o acórdão regional consignou que: "Autorizase a apropriação dos créditos decorrentes de insumos, matériaprima e material de embalagem adquiridos sob o regime de isenção, tão somente quando o forem junto à Zona Franca de Manaus, certo que inviável o aproveitamento dos créditos para a hipótese de insumos que não foram tributados ou suportaram a incidência à alíquota zero, na medida em que a providência substancia, em verdade, agravo ao quanto estabelecido no art. 153, § 3°, inciso II da Lei Fundamental, já que havida opção pelo método de subtração variante imposto sobre imposto, o qual não se compadece com tais creditamentos inerentes que são à variável base sobre base, que não foi o prestigiado pelo nosso ordenamento constitucional." 8. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (Sublinhados do original). Fl. 2366DF CARF MF 12 No STF, outrora entendeu pelo direito ao crédito do IPI nas aquisições de matériasprimas isentas (RE 212.484, m.v., DJ 27/11/1998, p. 22): CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IPI. ISENÇÃO INCIDENTE SOBRE INSUMOS. DIREITO DE CRÉDITO. PRINCÍPIO DA NÃO CUMULATIVIDADE. OFENSA NÃO CARACTERIZADA. Não ocorre ofensa à CF (art. 153, § 3º, II) quando o contribuinte do IPI creditase do valor do tributo incidente sobre insumos adquiridos sob o regime de isenção. Recurso não conhecido. Também nos casos de alíquota zero (RE 350.446), e posteriormente, aos produtos isentos (RE 566.819, m.v., DJe 10/04/2011): IPI – CRÉDITO. A regra constitucional direciona ao crédito do valor cobrado na operação anterior. IPI – CRÉDITO – INSUMO ISENTO. Em decorrência do sistema tributário constitucional, o instituto da isenção não gera, por si só, direito a crédito. IPI – CRÉDITO – DIFERENÇA – INSUMO – ALÍQUOTA. A prática de alíquota menor – para alguns, passível de ser rotulada como isenção parcial – não gera o direito a diferença de crédito, considerada a do produto final. Além disso, o Excelso Tribunal reconheceu a existência de repercussão geral sobre os casos de créditos na entrada de insumos provenientes da ZFM (tema 322, RE 592.891, DJe 25/11/2010). Em 25/05/2016 houve prosseguimento do processo, ocorrendo 3 (três) votos por distintos argumentos, pela negativa de provimento da Recorrente (União), oportunidade em que pediu vista dos autos o Min. Teori Zavaski, o qual devolveu os autos para julgamento em 14/06/2016, pendendo de julgamento a partir de então. Finda a questão judicial, impende destaque para o que vem decidindo este CARF: ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. No artigo 6º do DecretoLei nº 1.435/75, entendese por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do DecretoLei n. 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66). ISENÇÃO. CRÉDITOS. IPI. ZONA FRANCA DE MANAUS. Não existe amparo legal para a tomada de créditos fictos de IPI em relação a insumos adquiridos com a isenção prevista no art. 9º do DecretoLei nº 288/67. INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA. CARF. Nos termos da Súmula 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade comissiva ou omissiva da lei tributária. IPI. "BIS IN IDEM". BEBIDAS. REGIME MONOFÁSICO. COMPROVAÇÃO. PAGAMENTO. Restando comprovado que o contribuinte debita os impostos indevidamente creditados na saída dos produtos em alienação a Fl. 2367DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.362 13 terceiros, oferecendo tudo quanto devido à tributação pelo regime monofásico, significa que não existe falta de pagamento do imposto a ensejar cobrança do IPI. (Acórdão 3402002.993, m.v.) Na oportunidade (julgamento em 24/02/2016), acordaram os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para que os 84,31%, correspondentes às saídas tributadas de produtos monofásicos (que geraram os créditos básicos glosados), seja aplicado aos valores glosados sob essa rubrica em cada período de apuração, a fim de que seja revertida a glosa nesse percentual, afastandose o bis in idem. Os saldos da escrita fiscal deverão ser reconstituídos considerandose como glosa 15,69% do valor glosado a cada período de apuração. Vencida a Conselheira Valdete Aparecida Marinheiro, que deu provimento em maior extensão para reverter também a glosa dos créditos incentivados. Em seu voto, a Relatora, Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, faz importante ressalva sobre o assunto de índole constitucional que atinge o aproveitamento de crédito no particular caso dos autos que, aliás, no precedente, figura a mesma Recorrente do presente contencioso. Comungase de seu entendimento, adotandose seu entendimento como fundamento de decidir: A Zona Franca de Manaus, nos termos da Lei n. 3.173/1957, foi criada como um porto franco. Com o advento do Decretolei n. 288/1967, tornouse “área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatôres locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos.” Vêse que se trata de regime jurídico com objetivo desenvolvimentista para o norte do país, muito anterior ao atual texto constitucional. Entretanto, o Artigo 40 Ato das Disposições Constitucionais Transitória (“ADCT”) 2 da Constituição de 1988 recepcionou claramente a legislação referente à Zona Franca de Manaus. 3 Não poderia ter sido outra a opção do constituinte, uma vez que a legislação referente à Zona Franca de Manaus dá efetividade à ideologia nacional desenvolvimentista trazida pelo texto de 1988, que elencou a redução das desigualdades regionais como objetivo fundamental da República (artigo 3º, inciso III)4 e da ordem econômica (artigo 170, inciso VI),5 tudo na linha iniciada pela Constituição de 1934 (artigo 177) 6 e seguida pela Constituição de 1946 (artigo 199). 7 É neste contexto, de patente zelo constitucional sobre a matéria, que deve ser analisada toda a legislação brasileira atinente ao desenvolvimento da região amazônica, nela incluindose, por óbvio, as leis que implementarem as isenções de IPI para produtos ali fabricados, editadas justamente para cumprir os ditames constitucionais aludidos acima. Fl. 2368DF CARF MF 14 Afinal, é consabido que o IPI é tributo com nítido caráter extrafiscal (artigo 153, §1º da Constituição), vale dizer, espécie tributária utilizada pela União como instrumento de intervenção sobre o domínio econômico.8 Isto quer dizer que o tributo (IPI) é manejado para que seja alcançado determinado fim (desenvolvimento da região amazônica), pela indução do comportamento dos particulares (instalaremse na região, que, pela sua posição geográfica, tem condições de desenvolvimento muito aquém do necessário). A finalidade do tributo, em casos como este, é preponderantemente extrafiscal, e não fiscal (arrecadatória), fato que deve guiar a interpretação da respectiva lei. Neste contexto é que a discussão sobre o direito ao crédito de IPI, decorrente de produtos oriundos da Zona Franca de Manaus, não se limita à não cumulatividade, como ocorre nos demais casos de isenção, alíquota zero e não incidência do IPI, nos quais é preciso que o tributo seja efetivamente exigido e pago na etapa antecedente da cadeia produtiva para que exista o direito ao crédito. Tal situação já é consolidada pelo STF, bem como sumulada pelo CARF (Súmula 18). Com efeito, a discussão não termina neste ponto, pois os incentivos criados pela Zona Franca de Manaus são benefícios fiscais regionais, que, para que sejam efetivos e alcancem a finalidade para a qual foram constitucionalmente criados, devem ser interpretados de forma diversa. O histórico dos julgamentos do STF a respeito do direito ao crédito de IPI oriundo de operações onde não há cobrança do imposto comprova tal necessidade de separação dos assuntos. Efetivamente, a situação dos créditos de produtos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus vem sendo entendidos como um assunto “especial” no STF, em relação ao assunto “geral” crédito de IPI de operações com alíquota zero, isentas ou não tributadas (que não dão direito ao crédito, como firmando na alteração de jurisprudência consolidada nos RE 370.682 e 566.891). A diferenciação entre as duas situações se depreende com nitidez tanto dos esclarecimento do Ministro Marco Aurélio no julgamento do RE 566.819, como do RE n. 592.891, que trata especificamente do crédito de IPI decorrente de produtos munidos de isenção da Zona Franca de Manaus, cuja repercussão geral foi reconhecida mesmo depois da consolidação do entendimento do STF sobre o “assunto geral” do crédito de IPI. Este último processo encontrase ainda pendente de julgamento. Nessa toada é que a doutrina9 vem clamando pela consolidação do entendimento em favor do contribuinte: “Devese reconhecer que no caso de um benefício direcionado ao desenvolvimento de determinada região, o não reconhecimento do crédito presumido de IPI tornaria o benefício fiscal completamente inútil, mormente quando a intenção de sua extensão às saídas para outros territórios é explícita na lei. Fl. 2369DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.363 15 Em outras palavras: só faz sentido falar em isenção como benefício fiscal para os produtos industrializados originados da ZFM e destinados a outras regiões caso se autorize o creditamento do IPI pelos adquirentes de forma a compensar, via redução de carga tributária da cadeia produtiva, as desvantagens decorrentes dos custos de importação de mercadorias adquiridas de estabelecimentos distantes. Sem o crédito, não há benefício algum, esvaziandose o conteúdo e sentido da norma jurídica exoneratória. (...) É a outorga de crédito, portanto, o que confere sentido à norma, realizando seus objetivos, bem como os objetivos constitucionais que a amparam. Não se pode dar interpretação à norma que anule seus efeitos, sob pena da violação ao postulado hermenêutico de que não se presumem palavras inúteis na lei e à regra de que, na aplicação das leis, devese atentar para seus fins sociais e às exigências do bem estar comum.” (grifei) Pois bem. Destacado meu entendimento pessoal, no sentido de que a única forma de fazer com que os mandamentos constitucionais e legais sobre o desenvolvimento da região amazônica sejam efetivos, e não fictícios, é dando direito ao crédito de IPI relativamente aos produtos de lá advindos, necessário se faz admitir que não é de competência deste Conselho resolver o caso em favor do contribuinte. Explico. A legislação do IPI traz duas situações distintas sobre o direito ao crédito de IPI relativo a produtos da região amazônica, quais sejam: i) o artigo 9º do Decretolei n. 288/67, regulado pelo artigo 69, incisos I e II do RIPI/2002, que concede a isenção porém não traz previsão expressa para o aproveitamento do crédito presumido; ii) o artigo 6º do Decreto n. 1.435/75, regulado pelo artigo 82, inciso III do RIPI/2002, o qual expressamente estabelece o direito ao aproveitamento do crédito de IPI “calculado como se devido fosse” (sob condição de cumprimento de seus requisitos, como discutido no tópico acima). Disso, conjuntamente com todo o arcabouço constitucional traçado nas linhas acima, constatase que o entendimento segundo o qual, mesmo sem previsão expressa da lei sobre o direito ao crédito de IPI relativo ao artigo 9º do Decretolei n. 288/67, ele deve ser concedido, equivale ao julgamento de que a legislação trouxe uma omissão inconstitucional, justamente ao não prever o direito ao crédito. De fato, não só atos comissivos, mas também os omissivos são passíveis de representar afronta ao texto da Constitucional,10 resultando em vício de validade que deve ser corrigido pelo Poder Judiciário via controle de constitucionalidade da lei. Tal faculdade, contudo, não alcança o CARF, que está vedado a se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da lei tributária (Súmula CARF n. 2). 11 Fl. 2370DF CARF MF 16 Assim, é a sentença judicial, capaz de constituir direito do contribuinte ao efetuar a interpretação/integração da lei tributária, bem como declarar a inconstitucionalidade da omissão legislativa, que poderá suprir tal deficiência da legislação do IPI. É tal pedido que, no fundo, requer a Recorrente em sua defesa, pautada em questões constitucionais e pragmáticas. Por tudo quanto exposto, não reconheço o direito à manutenção dos créditos de IPI pleiteado pela Recorrente. Por meio de tais considerações, ratificandose o assunto deve ser decidido pelo Poder Judiciário, devido seu status constitucional, conheço do recurso, mas lhe nego provimento. Caso este não seja o entendimento deste Colegiado, partese para os demais temas trazidos pelo recurso voluntário. Das matériasprimas utilizadas como crédito A Recorrente alega que em relação aos produtos adquiridos perante a PEPSI e VALFILM sua interpretação do artigo 6º do DL 1.435/75 foi correta, tendo em vista que tais fornecedores, para fins de gozo do benefício fiscal, utilizaram nos produtos vendidos matéria prima regional, não importando se tais matériasprimas utilizadas (agrícolas ou extrativas vegetais) fossem in natura ou processadas. Vejase a legislação concernente a matéria: Art. 6º do DL n. 1.435/75 Art 6º Ficam isentos do Imposto sobre Produtos Industrializados os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na área definida pelo § 4º do art. 1º do Decretolei nº 291, de 28 de fevereiro de 1967. Art. 95, III do RIPI/10 Art. 95. São isentos do imposto: (...) III os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, cujos projetos tenham sido aprovados pelo Conselho de Administração da SUFRAMA, excetuados o fumo do Capítulo 24 e as bebidas alcoólicas, das Posições 22.03 a 22.06, dos Códigos 2208.20.00 a 2208.70.00 e 2208.90.00 (exceto o Ex 01) da TIPI. Os dispositivos normativos acima reproduzidos determinam que, para gozo do benefício da isenção, os produtos a serem industrializados em estabelecimentos situados na Amazônia Ocidental devem ser elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais. Fl. 2371DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.364 17 As matériasprimas objeto do contencioso são concentrados adquiridos pela Recorrente da PepsiCola Industrial da Amazônia Ltda. que são fabricados a partir de corante caramelo, este, por sua vez, fabricado pela D.D. Williamson do Brasil Ltda., a partir do açúcar de cana, produzido no Estado do Mato Grosso. Por este motivo, entendeu a fiscalização, a matériaprima não seria de produção regional da Amazônia Ocidental (Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima). Já a Recorrente entende que o termo “regional” não pode ser restrito à “Amazônia Ocidental”, mas sim compreender a “Amazônia Legal”, a qual abrange o Estado do Mato Grosso. No acórdão 3403003.324, o assunto ficou discutido, decidindose que à SUFRAMA cabe administrar os incentivos relativos à ZFM e à Amazônia Ocidental, cabendo à RFB à fiscalização do IPI e que o termo “regional”, contido no artigo 6o do DL 1.435/75 abrange apenas e tão somente as matériasprimas vegetais e extrativas produzidas na Amazônia Ocidental (AM, AC, RO e RR, de acordo com o artigo 1o, §4o do DL 291/67). Neste sentido, acórdãos 3302003.741 e 3302004.629. Considerando que a produção da matériaprima é oriunda do Mato Grosso, temse como fora da Amazônia Ocidental, logo, não cumprido o requisito para a utilização do crédito. Demais disso, a sacarose (açúcar) após transformações físicoquímicas gera o novo produto denominado corante caramelo. Temse que este primeiro processo produtivo de industrialização é que se enquadra nos termos do artigo 95, III do RIPI, gozando do benefício da isenção do IPI. Por outro lado, a matériaprima corante caramelo é utilizada como parte dos componentes que, juntos, sofrerão transformações físicoquímicas dando origem a um novo produto, o concentrado, em um segundo processo produtivo de industrialização. Neste segundo processo não há a matériaprima agrícola e extrativa vegetal, não podendo, portanto, ser aplicado o benefício da isenção e, por conseguinte, a sua utilização como crédito presumido de IPI, como se devido fosse, nos termos dos artigos 175 (Decreto 4.544/2002 RIPI 2002) ou 237 (Decreto 7.212/2010 RIPI 2010). Nesta mesma linha de raciocínio, o dendê, tal qual a sacarose, passa inicialmente por um processo produtivo que dará origem a um novo produto, o óleo de dendê. Este produto, agora matériaprima do processo produtivo do FILM STRETCH, não pode ser considerado matériaprima agrícola e extrativa vegetal conforme alegado pela Recorrente, não podendo, também, ser aplicado o benefício da isenção e, por conseguinte, a sua utilização como crédito presumido de IPI, como se devido fosse, nos termos dos artigos 175 (Decreto 4.544/2002 RIPI 2002) ou 237 (Decreto 7.212/2010 RIPI 2010). Diante disso, conheço do recurso e lhe nego provimento neste particular. Dos créditos dos produtos intermediários Fl. 2372DF CARF MF 18 A Fiscalização efetuou a glosa de créditos escriturados a título de “Materiais Intermediários da Produção Art. 164, inc. I, Dec. 4544/02” conforme planilhas apresentadas pela Recorrente. Os materiais constantes da lista são, de uma forma genérica, identificados como parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc. O lançamento fiscal foi pautado segundo os artigos 164 (RIPI/2002) e 225 (RIPI/2010): “Art. 164 (RIPI/2002). Os estabelecimentos industriais, e os que lhes são equiparados, poderão creditarse (Lei nº 4.502, de 1964, art. 25): I do imposto relativo a MP, PI e ME, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente” “Art. 226 (RIPI/2010). Os estabelecimentos industriais e os que lhes são equiparados poderão creditarse (Lei n° 4.502, de 1964, art. 25): I do imposto relativo a matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente” A autoridade fiscal se baseou também no Parecer Normativo CST nº 65, de 1979, ato normativo publicado no Diário Oficial nº 212, do dia 06/11/1979, que interpretou, na época, o disposto no art. 66 do RIPI/79, de igual teor do art. 164 do RIPI/2002 e do art. 226 do RIPI/2010 acima transcritos. Destacamse itens do citado parecer que se reputam importantes na análise da presente matéria: 10.1 Como o texto fala em ‘incluindose entre as matérias primas e os produtos intermediários’, é evidente que tais bens hão de guardar semelhança com as matériasprimas e os produtos intermediários ‘stricto sensu’, semelhança esta que reside no fato de exercerem na operação de industrialização função análoga a destes, ou seja, se consumirem em decorrência de um contato físico, ou melhor dizendo, de uma ação diretamente exercida sobre o produto de fabricação, ou por este diretamente sofrida. (...) 11 Em resumo, geram o direito ao crédito, além dos que se integram ao produto final (matériasprimas e produtos intermediários, “stricto senso”, material de embalagens), Fl. 2373DF CARF MF Processo nº 10830.727777/201418 Acórdão n.º 3401005.701 S3C4T1 Fl. 2.365 19 quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função de ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação; ou viceversa, proveniente de ação exercida diretamente pelo bem em industrialização, desde que não devam, em face dos princípios contábeis geralmente aceitos, ser incluídos no ativo permanente.” No mesmo sentido, destacou o item 13 do Parecer Normativo nº 181/1974, que assim dispunha: “13 Por outro lado, ressalvados os casos de incentivos expressamente previstos em lei, não geram direito ao crédito do imposto os produtos incorporados às instalações industriais, as partes, peças e acessórios de máquinas equipamentos e ferramentas, mesmo que se desgastem ou se consumam no decorrer do processo de industrialização, bem como os produtos empregados na manutenção das instalações, das máquinas e equipamentos, inclusive lubrificantes e combustíveis necessários ao seu acionamento. Entre outros, são produtos dessa natureza: limas, rebolos, lâmina de serra, mandris, brocas, tijolos refratários usados em fornos de fusão de metais, tintas e lubrificantes empregados na manutenção de máquinas e equipamentos etc.” Sobre o assunto, decidiu o STJ em sede de recurso repetitivo, nos termos do artigo 543C do CPC/73, no REsp. 1.075.508/SC, o qual possui em sua ementa o seguinte trecho pertinente ao presente assunto: “EMENTA PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. CREDITAMENTO. AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO E AO USO E CONSUMO. IMPOSSIBILIDADE. RATIO ESSENDI DOS DECRETOS 4.544/2002 E 2.637/98. 1. A aquisição de bens que integram o ativo permanente da empresa ou de insumos que não se incorporam ao produto final ou cujo desgaste não ocorra de forma imediata e integral durante o processo de industrialização não gera direito a creditamento de IPI, consoante a ratio essendi do artigo 164, I, do Decreto 4.544/2002. (Precedentes das Turmas de Direito Público: AgRg no REsp 1.082.522/SP, Rel.Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 16.12.2008, DJe 04.02.2009; AgRg no REsp 1.063.630/RJ, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 16.09.2008, DJe 29.09.2008; REsp 886.249/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 18.09.2007, DJ 15.10.2007; REsp 608.181/SC, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 06.10.2005, DJ 27.03.2006; e REsp 497.187/SC, Rel. Ministro Franciulli Netto, Segunda Turma, julgado em 17.06.2003, DJ 08.09.2003). Fl. 2374DF CARF MF 20 Por outro lado, defendeu a Recorrente que o termo “consumidos” previsto na lei, deve ser interpretado que o bem seja de algum modo aplicado na produção e que, sem ele, a fabricação da mercadoria não seja possível, como se dá com os materiais envolvidos no caso, lastrado por Laudo Técnico de efls. 2.129/2.298 – aprovado por engenheiros , juntado em sede de impugnação e ratificado em com o voluntário. O Relatório Fiscal, entende que tais itens não se incorporam ao produto industrializado pela Recorrente; que não constituem material de embalagem, tampouco produto intermediário, pois não há ação direta exercida pelo insumo sobe o produtos em fabricação ou deste sobre aquele (efl. 1.787). Ao que se pôde ver dos autos, não há uma prova detalhada, minudente sobre este assunto, mas sim, algo genérico, o que fora rebatido pela Recorrente, desde a sua apresentação de impugnação, oportunidade em que juntou Laudo Técnico, voltandose contra as glosas, entendendo o Laudo que todos os itens lá contidos se desgastam no processo produtivo da Recorrente. Em se tratando de lançamento de ofício, entendese que a prova há de ser feita pela fiscalização, não bastando dizer apenas que os itens não se incorporam no processo produtivo. A motivação teria ser minudente, explicando, por exemplo, o processo produtivo e onde tais itens são (ou não) usados, como são usados. Entendendose que a autuação fora insuficiente quanto à motivação da glosa, conheço do recurso, e neste particular, reverto a glosa. Diante de tais considerações, conheço do recurso voluntário e lhe dou parcial provimento para reverter a glosa sobre os produtos intermediários.” (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan (Ad Hoc) Fl. 2375DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.721168/2014-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011, 2012
ATIVO CONFERIDO EM TROCA PARA AQUISIÇÃO. CRITÉRIOS PARA PRECIFICAÇÃO. VALOR EFETIVAMENTE PAGO NA TRANSAÇÃO DE COMPRA E VENDA. INEXISTÊNCIA DE ÁGIO.
Ativo, na forma de emissão de novas ações para serem utilizadas na aquisição de investimento, pode ser reavaliado, desde que demonstrados os critérios econômicos que conduziram à nova precificação. Mero contrato de compra e venda entre as partes interessadas na negociação, estipulando que ativo (novas ações) do adquirente de valor "X" é submetido a coeficiente de correção (1,82 vezes), precisamente para alcançar o valor do investimento a ser adquirido "X+1", não é suficiente para demonstrar a reavaliação das novas ações e tampouco oponível ao Fisco. O preço pago na transação é "X", valor efetivamente dado em troca na aquisição do investimento, razão pela qual não há que se falar em ágio na operação.
Numero da decisão: 9101-003.930
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Lívia De Carli Germano (suplente convocada) e Letícia Domingues Costa Braga (suplente convocada), que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo, Lívia De Carli Germano (suplente convocada), Viviane Vidal Wagner, Caio Cesar Nader Quintella (suplente convocado), Letícia Domingues Costa Braga (suplente convocada) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Luís Fabiano Alves Penteado, substituído pela conselheira Letícia Domingues Costa Braga. Ausente o conselheiro Luís Flávio neto, substituído pela conselheira Lívia De Carli Germano.
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 ATIVO CONFERIDO EM TROCA PARA AQUISIÇÃO. CRITÉRIOS PARA PRECIFICAÇÃO. VALOR EFETIVAMENTE PAGO NA TRANSAÇÃO DE COMPRA E VENDA. INEXISTÊNCIA DE ÁGIO. Ativo, na forma de emissão de novas ações para serem utilizadas na aquisição de investimento, pode ser reavaliado, desde que demonstrados os critérios econômicos que conduziram à nova precificação. Mero contrato de compra e venda entre as partes interessadas na negociação, estipulando que ativo (novas ações) do adquirente de valor "X" é submetido a coeficiente de correção (1,82 vezes), precisamente para alcançar o valor do investimento a ser adquirido "X+1", não é suficiente para demonstrar a reavaliação das novas ações e tampouco oponível ao Fisco. O preço pago na transação é "X", valor efetivamente dado em troca na aquisição do investimento, razão pela qual não há que se falar em ágio na operação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Lívia De Carli Germano (suplente convocada) e Letícia Domingues Costa Braga (suplente convocada), que lhe negaram provimento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 11 68 /2 01 4- 13 Fl. 15512DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.513 2 (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo, Lívia De Carli Germano (suplente convocada), Viviane Vidal Wagner, Caio Cesar Nader Quintella (suplente convocado), Letícia Domingues Costa Braga (suplente convocada) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro Luís Fabiano Alves Penteado, substituído pela conselheira Letícia Domingues Costa Braga. Ausente o conselheiro Luís Flávio neto, substituído pela conselheira Lívia De Carli Germano. Relatório Tratase de recurso especial (efls. 15329/15376) interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional ("PGFN") em face da decisão proferida no Acórdão nº 1401001.902 (efls. 15309/15327), pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento, na sessão de 20/06/2017, que deu provimento ao recurso voluntário do BANCO SANTANDER BRASIL S.A. ("Contribuinte"). Resumo Processual A autuação fiscal (efls. 14430/14469), relativa aos anoscalendário de 2009, 2010, 2011 e 2012, trata da aquisição do controle do Banco Sudameris Brasil S.A. ("SUDAMERIS"), a partir de 2003, pelo Banco ABN AMRO Real ("ABN REAL"), e, em seguida, da incorporação do ABN REAL pelo BANCO SANTANDER BRASIL S.A. (Contribuinte), no qual se constatou indevido aproveitamento da despesa de amortização de ágio. Relata a autoridade autuante que a mesma infração foi objeto de lançamento de IRPJ e CSLL, nos autos do processo administrativo fiscal nº 16327.721530/201294, para anos calendários anteriores. A Contribuinte apresentou impugnação (efls. 14538/14638), que foi julgada improcedente (efls. 15057/15083) pela primeira instância (DRJ). Foi interposto recurso voluntário pela Contribuinte (efls. 15090/15215), cujo provimento foi dado pela turma ordinária do CARF (efls. 15309/15327). Fl. 15513DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.514 3 Foi interposto recurso especial pela PGFN (efls. 15329/15376). Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 15378/15383 deu seguimento ao recurso. A Contribuinte apresentou contrarrazões (efls. 15397/15341). A seguir, maiores detalhes sobre a fase contenciosa. Da Fase Contenciosa. A Contribuinte apresentou impugnação, que foi julgada improcedente pela 3ª Turma da DRJ/Recife, nos termos do Acórdão nº 1150.255, com a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 INVESTIMENTO. ÁGIO. DEDUÇÃO. POSSIBILIDADE. Em regra, as contrapartidas da amortização do ágio de que trata o art. 385 do RIR, de 1999, não são dedutíveis na apuração do IRPJ e da CSLL. A fruição do benefício previsto no inciso III do art. 386 do RIR, de 1999, só é possível quando há extinção do investimento adquirido com ágio, com fundamento econômico nos termos do inciso II do § 2º desse mesmo artigo, por meio de incorporação, fusão ou cisão. INCORPORAÇÃO, FUSÃO OU CISÃO. EXTINÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ÁGIO AMORTIZADO CONTABILMENTE. INDEDUTIBILIDADE. O aproveitamento fiscal do ágio, em virtude de extinção de participação societária através de fusão, incorporação ou cisão, cingese à parcela ainda não amortizada contabilmente. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 ATOS. INFLUÊNCIA. PERÍODOS POSTERIORES. APRECIAÇÃO. POSSIBILIDADE. A impossibilidade de apreciação de atos que operam influência em exercícios posteriores ocorre apenas quando não há mais direito de constituir o crédito em relação ao qual se operou a influência. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese ao lançamento decorrente, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DISPOSITIVOS LEGAIS. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 15514DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.515 4 Não há promover interpretação extensiva da hipótese legal de amortização de ágio para fins ficais, pois que se trata de benefício fiscal e como tal, à símile da isenção, deve ser interpretado de forma literal. CSLL. IRPJ. APURAÇÃO. NORMAS. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o IRPJ, inclusive as concernentes à apuração da Base de Cálculo. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Por os juros incidentes sobre a multa de ofício não comporem a lide, dado que cabíveis apenas quando da cobrança do crédito tributário, não compete a esta instância julgadora manifestarse sobre eles. A Contribuinte interpôs recurso voluntário. A 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento, no Acórdão nº 1401001.902, deu provimento ao recurso, conforme a ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012 DECADÊNCIA DIREITO DE VERIFICAR VALORES Os prazos de caducidade, como a decadência, visam consolidar situações jurídicas em benefício de uma pessoa em face da inércia de outra. Ora, se inexiste conduta a ser exigida da Fazenda Pública para que esta conteste operações societárias enquanto não repercutirem em fatos geradores tributários, não há que perecer o direito de verificação dessas ocorrências. A decadência pune a omissão. Se o Fisco não foi omisso, não há razão para o estabelecimento de prazos extintivos dos seus direitos. Por isso só consta, no Código Tributário Nacional, exclusivamente a decadência do direito de lançar, uma vez que não é imposto à Fazenda Pública o dever de acompanhar cada um dos itens patrimoniais capazes de refletir no valor futuro da tributação. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO QUITAÇÃO DO PREÇO A quitação do preço na aquisição de participações societárias é condição para a amortização do ágio, mas não se restringe à entrega de pecúnia. A entrega de outras participações também cumpre tal requisito. SUCESSÃO DIREITO DE APROVEITAMENTO À AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO Há sucessão ao direito à amortização fiscal do ágio nas reorganizações societárias. Como regra geral, há sucessão universal de direitos e deveres nesses eventos. Evidentemente, Fl. 15515DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.516 5 essa regra não é absoluta, mas só pode ser afastada por expressa previsão legal, o que inexistente para o direito à amortização de ágio. AMORTIZAÇÃO FISCAL DE ÁGIO JÁ AMORTIZADO CONTABILMENTE NA SUCEDIDA A amortização do ágio contábil corresponde à recuperação do investimento (por equivalência patrimonial ou pelo recebimento de dividendos) e, portanto, não pode ser distribuído aos sócios a título de lucro. Amortizase o ágio contabilmente na mesma proporção do aumento do investimento por equivalência ou também pelo recebimento direto de dividendos. Tal amortização tem o propósito de neutralizar o resultado comercial para impedir a distribuição, via dividendos, de valor que não corresponde a um lucro efetivo. Só depois de integralmente amortizado é que o aumento do investimento tem como contrapartida um acréscimo no lucro e aí sim terá repercussão no resultado comercial e, dessa forma, na distribuição de resultado aos sócios. Ainda sim, esse aumento do resultado comercial, seja pela equivalência patrimonial, seja pelo recebimento de dividendos, é excluído do lucro real. Com a amortização do ágio contabilmente ou sem essa amortização, a equivalência patrimonial e a distribuição de dividendos não são tributados da mesma forma. Logo, a amortização contábil do gio (e do deságio) não produz qualquer efeito fiscal. DUPLICIDADE DE APROVEITAMENTO DA AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO Uma aquisição posterior de sociedade em cujo patrimônio há registro de ágio originado em operação de aquisição de uma terceira sociedade pode gerar um segundo ágio com valor composto pelo primeiro ágio; nada obstante, é o segundo e não o primeiro que não poderá ser amortizado na medida da duplicidade. Foi interposto recurso especial pela PGFN, pretendendo devolver para discussão as matérias (1) comprovação custo de aquisição de participação societária que teria gerado o ágio e (2) " possibilidade de amortização de ágio já amortizado contabilmente". No mérito, entende pela indedutibilidade do ágio amortizado. Discorre que o sobrepreço deve ter como origem um propósito econômico real, um efetivo substrato econômico e cumprir incondicionalmente todos os requisitos impostos pela legislação aplicável (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e 385 e 386 do RIR/99), e que a aquisição de investimento por meio de mera escrituração artificial não concretiza a hipótese de incidência que permite o aproveitamento da despesa de amortização. Contesta que o ágio registrado não corresponde ao custo de aquisição efetivamente dispendido pela parte adquirente, e que o ABN REAL não registrou como custo de aquisição o valor do pagamento que efetuou, mas sim o valor de mercado do direito que recebeu. Aduz que o ágio relativo à aquisição do SUDAMERIS foi totalmente amortizado contabilmente no ABN REAL no período de 2003 a 2008, e, assim, após a incorporação do ABN REAL pelo Banco Santander ("SANTANDER"), em abril de 2009, não poderia ser excluído da determinação do Lucro Real o ágio já amortizado contabilmente, mas apenas deduzir como despesa o saldo contábil do ágio não amortizado, que no caso concreto não mais Fl. 15516DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.517 6 existia. Requer que seja conhecido o recurso e dado provimento, para reformar o acórdão recorrido e restabelecer a autuação fiscal. A Contribuinte apresentou contrarrazões. Aduz em preliminar que a apreciação do recurso especial encontrase submetida a limites, sendo a análise restrita à matéria cuja divergência foi considerada demonstrada, vez que a decisão recorrida deu interpretação divergente no que se refere apenas à comprovação do custo da participação societária. Pugna pela impossibilidade de conhecimento quanto à primeira divergência, por envolver reexame de provas e fatos. No mérito, discorre que restou comprovado o custo de aquisição de aquisição do investimento com ágio, e que não há vedação legal no sentido de se aproveitar fiscalmente o ágio amortizado contabilmente antes do evento de incorporação. Subsidiariamente, alega que, caso seja provido o recurso especial da PGFN, que deverão ser os demais argumentos trazidos em sede de recurso voluntário serem devolvidos para apreciação da turma a quo, ou apreciados pelo presente Colegiado caso se entenda aplicável a economia e celeridade processual: (1) da inexistência de previsão legal para a adição, à Base de Cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela Fiscalização; (2) da impossibilidade de exigência da multa: a dúvida; (3) da impossibilidade da exigência do débito consubstanciado no presente processo antes do término dos processos administrativos vinculados da falta de liquidez e certeza à autuação fiscal e (4) da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa. Requer que seja inadmitido o recurso especial e, caso conhecido, que seja negado provimento, mantendose incólume o acórdão recorrido. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Tratase de recurso especial da PGFN. Encontrase em discussão o aproveitamento da despesa de amortização de ágio da Contribuinte. O sobrepreço teve origem na aquisição do controle do Banco Sudameris Brasil S.A. ("SUDAMERIS"), a partir de 2003, pelo Banco ABN AMRO Real ("ABN REAL"), no qual foi apurado pela pessoa jurídica adquirente um sobrepreço na compra da participação societária. Na sequência, a ABN REAL foi incorporada pela Contribuinte. A decisão recorrida deu provimento ao recurso voluntário. A PGFN interpôs recurso especial, no qual propõe a devolução de duas matérias para discussão: (1) discussão sobre a comprovação do custo de aquisição efetivamente pago que teria gerado o ágio, no qual apresenta como decisão paradigma, para demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária, o Acórdão nº 1402002.450; e (2) possibilidade de amortização de ágio já amortizado contabilmente, vez que o sobrepreço já havia sido amortizado contabilmente pela ABN REAL, e o ágio foi aproveitado para fins fiscais pela Contribuinte, tendo sido apresentado como paradigmas os Acórdãos nº 1102 001.104 e 1102000.873. Fl. 15517DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.518 7 Sobre a admissibilidade, a Contribuinte discorre sobre pontos a serem observados no julgamento do recurso especial, em relação à primeira divergência (discussão sobre a comprovação do custo de aquisição efetivamente pago que teria gerado o ágio)1. Primeiro, aduz que a análise a ser efetuada pelo presente Colegiado deve estar restrita aos fundamentos adotados pelo paradigma, no caso, Acórdão nº 1402002.450, para decidir. Cabe registrar que o paradigma tratou precisamente da mesma situação em análise dos autos, mesmo Contribuinte e mesmas operações, tendo apreciado fatos geradores anteriores aos do presente caso. E, na decisão paradigma, a apreciação centrouse na discussão em torno da comprovação do custo de aquisição efetivamente pago que teria dado origem ao ágio. Naqueles autos, entendeu o Colegiado, por unanimidade, que assistiu razão à Fiscalização, no sentido que restou demonstrada, na realidade, a aquisição de um direito no valor de R$1.662.910,00 com base em um pagamento no valor de R$913.740.653,60, não havendo que se falar em apuração de ágio na aquisição do investimento. Nesse contexto, aduziu o relator da decisão paradigma que não se pronunciaria sobre os demais pontos da autuação fiscal, tendo em vista que o fundamento adotado, no sentido de que o pagamento efetivo teria sido no valor de R$913.740.653,60, já seria suficiente para proferir a decisão no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. Assim, entende a Contribuinte, em contrarrazões, que: (...) a divergência de interpretação que foi objeto do apelo especial tange, exclusivamente, à prova da existência ou não do pagamento que culminou no ágio objeto de questionamento. (Grifos originais) Certamente que o Colegiado recursal submetese a limites impostos pela legislação processual para a apreciação das divergências apresentadas. Contudo, não há que se confundir a etapa de admissibilidade, no qual se efetua o conhecimento do recurso, com a etapa subsequente, relativa ao exame do mérito. E o Colegiado recursal não se encontra restrito aos fundamentos aduzidos pelas partes, mas sim à matéria trazida para discussão, desde que esteja inserida na motivação adotada pela acusação fiscal. 1 Excertos do recurso especial: Conforme se verifica do Recurso Especial ora contrarrazoado, com relação à primeira divergência que suscita, a Recorrente defende que a decisão recorrida deu interpretação divergente no que toca à comprovação do custo de aquisição de participação societária, valendose, como paradigma, do acórdão n° 1402 002.450, o qual decorre da mesma operação ora objeto de análise, entretanto, em períodos anteriores (...) .................................................................................................................. Não obstante isso, verificase que a Recorrente, ao passar a expor suas razões para reforma da decisão recorrida nesse tocante (fls. 28 a 39 do Recurso Especial) aqui, excetuados os argumentos relativos à segunda divergência apontada , traz diversos outros argumentos que sequer compõem a divergência demonstrada. Fl. 15518DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.519 8 Propõese a recorrente (PGFN) a devolver, nos presentes autos, duas matérias. Cada matéria, por si só, já é suficiente para reformar a decisão recorrida, no sentido de restabelecer a autuação fiscal. E as matérias trazidas pela PGFN foram utilizadas como fundamentos pela autoridade autuante, autônomos e independentes, para motivar a acusação fiscal. Em se tratando do primeiro paradigma, a decisão recorrida valeuse do fundamento "A" para afastar a autuação fiscal, e a decisão paradigma valeuse do fundamento "B" para manter a autuação fiscal, ou seja, restou preenchido o requisito de admissibilidade no sentido de apresentar uma decisão que apresentasse interpretação divergente da legislação tributária, em relação à matéria "discussão sobre a comprovação do custo de aquisição efetivamente pago que teria gerado o ágio". Superada a primeira etapa, passase para a próxima etapa, que consiste no exame do mérito da matéria. E, ao examinar o mérito da matéria, o Colegiado não se encontra vinculado aos fundamentos das partes, ou de decisões anteriores, para firmar a sua convicção e exercer a missão de decidir o litígio. Assim, superado o estreito filtro da admissibilidade, a cognição para a apreciação do mérito se amplia. Vale transcrever o art. 1034 do Código de Processo Civil, aplicável subsidiariamente ao PAF, que dispõe com clareza: Art. 1.034. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial, o Supremo Tribunal Federal ou o Superior Tribunal de Justiça julgará o processo, aplicando o direito. Parágrafo único. Admitido o recurso extraordinário ou o recurso especial por um fundamento, devolvese ao tribunal superior o conhecimento dos demais fundamentos para a solução do capítulo impugnado. (Grifei) Na realidade, conforme a abalizada doutrina de NELSON NERY JÚNIOR e ROSA MARIA DE ANDRADE NERY 2, o dispositivo vem consagrar a súmula do STF nº 456 (O Supremo Tribunal Federal, conhecendo do recurso extraordinário, julgará a causa, aplicando o direito à espécie) e o Regimento Interno do STJ, art. 257 (No julgamento do recurso especial, verificarseá, preliminarmente, se o recurso é cabível. Decidida a preliminar pela negativa, a Turma não conhecerá do recurso; se pela afirmativa, julgará a causa, aplicando o direito à espécie). Passandose pela primeira etapa, o exame de admissibilidade, a etapa seguinte, apreciação do mérito, demanda a aplicação do direito. Ou seja, não fica o julgador limitado estritamente aos fundamentos aduzidos pelas partes, ou por decisões proferidas anteriormente na fase contenciosa. Pelo contrário, tem liberdade para aplicar o direito ao 2 JÚNIOR, Nelson Nery. Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 2173. Fl. 15519DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.520 9 caso concreto, o que lhe permite, inclusive, interpretar a legislação tributária de maneira diversa daquela defendida pela recorrente. Os limites dizem respeito à matéria. Discorre a Contribuinte em contrarrazões sobre um segundo ponto, de que o exame da matéria apresentada pela primeira divergência não seria possível, porque envolveria um reexame de fatos e provas, operação que seria vedada em sede de instância especial. Não lhe assiste razão. Os fatos trazidos nos autos são incontroversos. Em nenhum momento se coloca em dúvida as operações societárias apresentadas nos presentes autos, ou os documentos trazidos para demonstrar, sob o aspecto formal, a concretização da aquisição do investimento. O que se discute é se tais eventos efetivamente concretizaram a aquisição de um investimento com sobrepreço, e se amoldamse á hipótese de incidência da norma tributária que autoriza a amortização de despesa de ágio. A qualificação dos fatos é elemento essencial na construção da decisão. A leitura dos eventos postos pode receber diferentes conotações, e, por consequência, desencadear operações de silogismo divergentes. A operação de interpretação passa tanto pela "qualificação" do fato, operação concretizada na premissa menor, quanto pela consequente identificação da norma jurídica decorrente do fato interpretado, procedimento no escopo da premissa maior, nos termos da construção proposta por KARL ENGISCH3. A tarefa de qualificar um fato não é um reexame de fatos e provas. Os fatos dos presentes autos não mudaram, o que se mostra passível de alteração é a qualificação jurídica dos fatos, que tem como desdobramento a aplicação da norma "A" ou "B", a depender do intérprete. Portanto, afasto as duas proposições suscitadas pela Contribuinte em contrarrazões. Sobre a apreciação dos paradigmas, entendo não haver reparos ao Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 15378/15383. 3 No modelo previsto por KARL ENGISCH (Introdução ao Pensamento Jurídico. Calouste Gulbenkian: Lisboa, 2001), a operação de subsunção compreende a apreciação da premissa menor, que consiste no fato a ser qualificado, e da premissa maior, que é a norma jurídica, sobre as quais se aplica o direito e concretizase a decisão, para discorrer sobre o processo de fundamentação. E, em se tratando da premissa menor, aponta KARL LARENZ (Metodologia da Ciência do Direito. Calouste Gulbenkian: Lisboa, 1997) que a situação ocorrida no mundo dos fatos e objeto do litígio não é acessível diretamente ao julgador, razão pela qual tem que ser conformada. Partese de uma "situação de fato em bruto", apresentada em forma de relatos informados pelas partes, que podem estar carregados de parcialidade no sentido de justificar a pretensão requerida. E, ainda que o fato possa ser imparcial, pode carregar um componente de incerteza, quando se busca a adequação a um fato jurídico predicado pela lei. LARENZ cita um exemplo, a partir de dispositivo no BGB, que dispõe que, quem por meio de elaboração ou transformação de um ou vários materiais, fabrica uma coisa móvel nova, adquire a propriedade de uma coisa nova sempre que o valor da elaboração ou transformação não seja manifestamente inferior ao valor dos materiais. A discussão reside no que se entende por coisa nova, e o autor dá dois exemplos. No primeiro, a pessoa constrói, em processo de carpintaria, uma caixa a partir de um insumo (tábua de madeira). No segundo, a pessoa parte de uma caixa construída de maneira precária, refaz o trabalho utilizandose dos mesmos insumos, e confere à caixa uma aparência e qualidade completamente diferentes da versão original. No segundo caso, poderseia qualificar a caixa como uma coisa nova, na mesma medida que no primeiro? Fl. 15520DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.521 10 A primeira divergência, trazida na matéria discussão sobre a comprovação do custo de aquisição efetivamente pago que teria gerado o ágio, resta demonstrada no paradigma nº 1402002.450, que apreciou precisamente a operação nos presentes autos, para fatos geradores anteriores ao caso concreto. E, aplicandose os fundamentos do paradigma, reforma se a decisão recorrida. Sobre a segunda divergência, os paradigmas trazidos, Acórdãos nº 1102 001.104 e 1102000.873, entendem pela impossibilidade de amortização de ágio já amortizado contabilmente. Também se trata de entendimento suficiente, por si só, para reformar a decisão recorrida. Isso porque, ainda que se admitisse que o ágio teria sido de fato constituído, o sobrepreço já havia sido amortizado contabilmente pela ABN REAL, antes de ser aproveitado para fins fiscais pela Contribuinte (que incorporou o ABN REAL). Assim, restaria mantida a autuação fiscal, com base em fundamento que consta no Termo de Verificação Fiscal, suficiente para motivar os lançamentos de ofício. Assim sendo, voto no sentido de conhecer do recurso especial da PGFN, adotando as razões do Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 15378/15383, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 19994, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal". Passo ao exame do mérito. Discutese aproveitamento da despesa de amortização de ágio da Contribuinte. Em brevíssima síntese, o sobrepreço teve origem na aquisição do controle do SUDAMERIS (investimento), junto à INTESA (alienante, com sede na Itália), pelo ABN REAL (adquirente), operacionalizada em eventos societários ocorridos nos dias 24/10/2003 e 30/01/2004 entre empresas dos grupos econômicos alienante e adquirente. No acordo celebrado pela INTESA e ABN REAL para a aquisição de 94,54% das ações do SUDAMERIS, foi pactuado que o adimplemento da obrigação seria realizado em duas partes: uma parcela por meio de pagamento em dinheiro, e outra parcela através de transferência de novas ações emitidas pela adquirente para a alienante. Posteriormente, em 30/04/2009, a Contribuinte (SANTANDER) incorporou o ABN REAL, e passou a aproveitar a despesa de amortização de ágio. As operações societárias em debate são apresentadas na sequência. Os valores financeiros foram arredondados para facilitar a leitura: Situação inicial. ABN REAL (adquirente) firma com INTESA (alienante) contrato para aquisição de 94,54% das ações do SUDAMERIS, pelo valor de R$2,189 bilhões. A transação envolveria duas operações: um pagamento em dinheiro de R$526,7 milhões, e transferência de ações emitidas pela adquirente para a alienante, no valor de R$1,663 bilhões. 4 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 15521DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.522 11 No dia 24/10/2003: Primeiro evento. INTESA subscreve e integraliza o capital social da empresa SERRA DO SELADO com as ações do SUDAMERIS no valor de R$2,189 bilhões. Houve registro de ágio na aquisição do investimento do SUDAMERIS por parte da SERRA DO SELADO, vez que o valor de R$2,189 bilhões superou o valor patrimonial das ações do investimento. O valor das ações do SUDAMERIS foi fundamentado em laudo de avaliação, de expectativa de rentabilidade futura. Segundo evento. ABN REAL subscreve e integraliza o capital social da empresa FLINDERS, com transferência de R$526,7 milhões em dinheiro. Terceiro evento. FLINDERS faz aquisição junto à INTESA de 885.173.513 ações da SERRA DO SELADO (valor equivalente a 22,75% do capital social do SUDAMERIS), mediante pagamento de R$526,7 milhões em dinheiro. O valor compreende uma parte do ágio registrado na SERRA SELADO, no valor de R$217,28 mil, parcela que não foi contestada pela autoridade autuante. Quarto evento. INTESA subscreve a integraliza o capital social da FLINDERS, mediante conferência do restante das ações de sua posse da SERRA DO SELADO (equivalentes a 71,82% do capital social do SUDAMERIS, que correspondem à parcela do ágio registrado no valor de R$685,9 mil). Quinto evento. ABN REAL incorpora a FLINDERS. A INTESA recebe em troca 221.916.668 novas ações emitidas pelo ABN REAL (equivalente a 11,58% do seu capital social). Adquirente e alienante consideram adimplida a segunda parcela da obrigação, no valor de R$1,663 bilhões. Tratase da primeira matéria do recurso. A autoridade autuante contesta o valor atribuído às novas ações emitidas pelo ABN REAL, e entende que o adimplemento da segunda parcela não teria sido realizado com ágio, vez que o valor patrimonial das ações do adquirente não seria de R$1,663 bilhões. A Contribuinte alega que a INTESA entregou ações da FLINDERS que correspondiam ao valor patrimonial de R$1,663 bilhões, e recebeu ações do ABN REAL que correspondiam ao valor patrimonial de R$914 milhões, e, aplicandose às ações do ABN REAL o coeficiente de 1,82 acordado para quantificar a relação de troca (que corresponde à diferença entre o valor de mercado das ações da SUDAMERIS e do ABN REAL), restou concretizado o adimplemento da segunda obrigação, que corresponde à diferença entre o valor de mercado das ações da SUDAMERIS e do ABN REAL. No dia 30/01/2004: Sexto evento. ABN REAL incorpora a SERRA DO SELADO (que teve a denominação alterada para SUDAMERISPAR). Posteriormente, o ABN REAL passa a amortizar contabilmente o ágio decorrente da operação. No dia 30/04/2009: Sétimo evento. A Contribuinte incorpora o ABN REAL, e passa a aproveitar a despesa de amortização de ágio, por entender restar concretizada hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997. Tratase da segunda matéria do recurso. Fl. 15522DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.523 12 Entende a PGFN que não caberia aproveitamento do ágio para fins fiscais porque já teria sido amortizado contabilmente pelo ABN REAL. Aduz a Contribuinte que não haveria óbice na legislação tributária para o aproveitamento. A representação gráfica dos eventos societários encontrase no quadro a seguir. Operação em 30/04/2009 Obs. :Representação gráfica construída com base na estrutura da operação apresentada pela autoridade fiscal, efl. 13584. Foram alterados os nomes dos eventos, e incluído o "7º Evento". Como se pode observar, as matérias devolvidas para discussão pela PGFN contestam tanto a formação do ágio, quanto o seu aproveitamento: CONTRIBU INTE incorpora BANCO ABN AM RO REAL S.A . BANCO SUDAM ERIS S.A . 7º Evento Fl. 15523DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.524 13 matéria 1) não teria sido restado demonstrado que o valor escriturado como custo de aquisição do investimento teria correspondido ao valor efetivamente pago, assim, o pagamento seria no valor patrimonial das ações do adquirente; matéria 2) ainda que se superasse a matéria 1, e que a operação, por hipótese, teria efetivamente dado origem ao ágio, o sobrepreço não poderia ter sido aproveitado. Isso porque o ágio já havia sido amortizado contabilmente pelo ABN REAL, e que impossibilitaria seu aproveitamento para fins fiscais pela Contribuinte (que incorporou o ABN REAL). Vale observar que basta o provimento de uma das matérias para reformar a decisão recorrida, vez que, tanto para matéria 1 quanto para a matéria 2, caso prevaleça o entendimento da PGFN, restaria afastado a aproveitamento da despesa de amortização do ágio em discussão. Passo ao exame da primeira matéria. I. Custo de aquisição do investimento. Nos termos dos fatos relatados, O ABN REAL e a INTESA formalizaram acordo, para a aquisição de participação societária do SUDAMERIS. A INTESA entregaria as ações do investimento, recebendo a contrapartida em duas parcelas: uma em dinheiro, e a outra em ações a serem emitidas pelo ABN REAL. A operação contestada é em relação à segunda parcela, no sentido de se verificar qual teria sido efetivamente o valor pago relativo ao investimento adquirido. Relata a autoridade autuante que, no cenário inicial, os ativos utilizados para a transação tinham valores similares, razão pela qual já poderia ter se operado o adimplemento da segunda parcela, por meio da troca de ativos entre adquirente e alienante. Entende que o contrato de compra e venda entre as partes, no qual restou acordado que, em razão da reavaliação do investimento a ser alienado (ações do SUDAMERIS, que passou a valer R$1,663 bilhões), seria aplicado um coeficiente de 1,82 sobre as ações emitidas pelo ABN REAL, não implicou em uma reavaliação automática das ações do adquirente. Na realidade, a operação de fato consistiu em uma troca de ações entre alienante e adquirente, pelos valores originais vigentes antes das reorganizações societárias: Ocorreu de fato uma substituição de participação societária, ou seja, a investidora Intesa entregou as ações de emissão do Banco Sudameris ao Banco ABN Amro, no valor patrimonial de R$ 976.988 mil, e recebeu, por força da relação de substituição da participação societária, ações novas de emissão do Banco ABN Amro, no valor patrimonial de R$ 913.741 mil, cujos valores de mercado são equivalentes, pois, tratase de uma operação em que partes independentes não almejam, de forma alguma, prejuízos, pois isso seria caso de gestão temerária.(Grifei) Vale registrar que não há nenhuma contestação sobre a operacionalização do adimplemento da segunda parcela, no sentido de ter sido efetuada por meio da uma troca de ativos. Tampouco se contestou que só poderia ter sido realizada por meio de pagamento em dinheiro. Fl. 15524DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.525 14 O que foi alvo de protesto foi a maneira como os ativos do adquirente, utilizados para o adimplemento do negócio, foram reavaliados. Transcrevo excerto do voto da decisão recorrida: A Banca Intesa aceitou receber por 2.794.400.228 ações do Banco Sudameris (2.739.987.839 ações ordinárias e 54.412.389 ações preferenciais), correspondentes a 71,82% do seu capital social, o montante de 211.916.668 ações novas de emissão do Banco Real. Aqui, reiteramos, não há que se questionar essa relação de troca, pois foi realizada entre partes independentes. De um lado, o Grupo ABN aceitou receber 71,82% da participação no Banco Sudameris e entregar 11,58% de participação no Banco Real para a Banca Intesa; de outro lado, a Banca Intesa aceitou receber 11,58% de participação no Banco Real em troca de 71,82% da participação no Banco Sudameris. Esses montantes advieram do equilíbrio de vontades opostas: a da Banca Intensa de receber mais participações do Banco Real ou de ceder menos participações no Banco Sudameris e a do Grupo ABN de entregar menos participações no Banco Real ou de receber mais participações do Banco Sudameris. Essas forças opostas indicam montantes equitativos na relação de troca. A única questão que merece ser perscrutada é o valor em moeda desses ativos, uma vez que não foram liquidados financeiramente. (...) O ativo do alienante (o investimento adquirido, as ações do SUDAMERIS), foi objeto de uma reavaliação, em laudo de avaliação, com base em expectativa de rentabilidade futura, no qual foi atribuído o valor de R$1,663 bilhões. Por sua vez, em relação ao ativo do adquirente (emissão de ações próprias), aduz a Contribuinte que, no Contrato de Compra e Venda, foi acertado entre as partes um coeficiente de 1,82, para buscar uma equalização entre os valores dos ativos transacionados, em razão da diferença de valor de mercado entre as ações do SUDAMERIS e do ABN REAL. O que se pode observar é que, ao contrário dos ativos do investimento (ações do SUDAMERIS), que foram devidamente submetidos a um laudo de avaliação, em relação ao ativo do adquirente, o único documento que consta, para lastrear sua reavaliação, é o acordo celebrado entre as partes interessadas na consecução da transação. Por isso que a autoridade fiscal afirma que, na realidade, não obstante o ativo da alienante tenha sido reavaliado (para R$1,663 bilhões), como não restaram demonstrados os critérios que levaram à reavaliação do ativo do adquirente, na realidade a transação se concretizou tomandose como referência o valor efetivamente entregue pelo adquirente, ou seja, ações no valor patrimonial de R$976,988 milhões. Ou seja, o fato de o alienante ter aceito receber, na venda de seu ativo reavaliado em R$1,663 bilhões, um ativo do adquirente cujo valor patrimonial era de R$976,988 milhões, não implicaria na reavaliação automática do ativo do adquirente. Transcrevo excerto do Termo de Verificação Fiscal: Fl. 15525DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.526 15 O procedimento do Banco ABN Amro de considerar o custo de aquisição das ações de emissão do Banco Sudameris como sendo o valor do aumento do capital social não encontra respaldo na legislação tributária. Aliese a isso o fato de que a Intesa não recebeu na mesma proporção do aumento do capital social o equivalente em ações, ou seja, subscreveu e integralizou o capital social em R$ 1.662.910 mil, que corresponde a um aumento de 22,29% do capital social de R$ 7.458.165 mil, mas, recebeu apenas 11,58% que representam uma parcela de R$ 863.655 mil do capital social ou uma parcela de R$ 913.740 mil do valor patrimonial do Banco ABN Amro. Por outro lado, a decisão recorrida, que não acompanhou a interpretação conferida pela autoridade autuante: (...) Para tal, porém, uma vez que a relação de troca foi estabelecida em condições concorrenciais, por partes com interesses opostos, basta aferir o valor de uma das participações envolvidas, pois a outra representará também este mesmo valor. Desse modo, apesar de não constar um laudo de avaliação da participação no Banco Real, há a avaliação da participação no Banco Sudameris por ocasião da celebração do negócio, avaliação esta atestada pela própria autoridade fiscal no seu termo de verificação, em que faz referência ao laudo confeccionado pela Deloitte Touche Tohmatsu Consultores Ltda, que avaliou 100% das ações do Banco Sudameris no intervalo entre R$ 2,27 a R$ 2,43 bilhões. Assim, a atribuição do valor de R$ 1.662.910.100,00 para 71,82% de participação no Banco Sudameris respeita esse intervalo (esse valor representa R$ 2,31 bilhões para a participação total de 100%). (Grifei) Com a máxima vênia ao substancioso voto do relator da decisão recorrida, não compartilho do entendimento. Não há como se operar uma presunção hominis, no sentido de que, como o ativo do alienante foi reavaliado, por consequência o ativo do adquirente, ações emitidas submetidas a regras de reavaliação próprias, em consonância com o patrimônio líquido da empresa, simplesmente por ter sido oferecido em troca na transação de compra e venda, automaticamente também teria sido reavaliado. Observase a constatação no voto da decisão recorrida: apesar de não constar um laudo de avaliação da participação no Banco Real. Entendo que sim, caberia uma avaliação justificando a emissão das ações do ABN REAL com ágio. Mero acordo celebrado entre partes interessadas na concretização da transação de compra e venda não serve como suporte para adoção do multiplicador de 1,82 aplicado sobre as ações emitidas pelo adquirente. O que se observa é que o adquirente, para concretizar o adimplemento da segunda parcela, promoveu um aumento de capital, mediante subscrição de novas ações com ágio, e valeuse dos recém criados ativos para a aquisição do investimento. Fl. 15526DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.527 16 CARVALHOSA5 esclarece que, tendo sido a emissão com ágio, tanto para ações com valor nominal, quanto para ações sem valor nominal, aplicase o art. 170, § 1º (que trata do aumento de capital mediante subscrição de ações), da Lei nº 6.404, de 1976 (Lei das S.A.)6 para justificar o sobrepreço: Ações com Valor Nominal (...) Nos aumentos de capital, o preço de emissão das ações com ágio será fixado pela assembléiageral ou pelo conselho de administração (art. 170). No entanto, a lei vigente estabelece regra para a fixação desse preço, devendose levar em conta os critérios de cotação das ações no mercado, o valor do patrimônio líquido e as perspectivas de rentabilidade da companhia (art.170). p. 159 .................................................................................................. Ações sem Valor Nominal (...) Diferentemente da hipótese de constituição, nos aumentos da capital a Lei n. 6404, de 1976, estabelece critérios para a 5 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à lei de sociedades anônimas, 1º volume : artigos 1º a 74. 5 ed. rev. a atual. São Paulo : Saraiva, 2007, p. 159 e 167. 6 Art. 170. Depois de realizados 3/4 (três quartos), no mínimo, do capital social, a companhia pode aumentálo mediante subscrição pública ou particular de ações. § 1º O preço de emissão deverá ser fixado, sem diluição injustificada da participação dos antigos acionistas, ainda que tenham direito de preferência para subscrevêlas, tendo em vista, alternativa ou conjuntamente: (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) I a perspectiva de rentabilidade da companhia; (Incluído pela Lei nº 9.457, de 1997) II o valor do patrimônio líquido da ação; (Incluído pela Lei nº 9.457, de 1997) III a cotação de suas ações em Bolsa de Valores ou no mercado de balcão organizado, admitido ágio ou deságio em função das condições do mercado. (Incluído pela Lei nº 9.457, de 1997) § 2º A assembléiageral, quando for de sua competência deliberar sobre o aumento, poderá delegar ao conselho de administração a fixação do preço de emissão de ações a serem distribuídas no mercado. § 3º A subscrição de ações para realização em bens será sempre procedida com observância do disposto no artigo 8º, e a ela se aplicará o disposto nos §§ 2º e 3º do artigo 98. § 4º As entradas e as prestações da realização das ações poderão ser recebidas pela companhia independentemente de depósito bancário. § 5º No aumento de capital observarseá, se mediante subscrição pública, o disposto no artigo 82, e se mediante subscrição particular, o que a respeito for deliberado pela assembléiageral ou pelo conselho de administração, conforme dispuser o estatuto. § 6º Ao aumento de capital aplicase, no que couber, o disposto sobre a constituição da companhia, exceto na parte final do § 2º do artigo 82. § 7º A proposta de aumento do capital deverá esclarecer qual o critério adotado, nos termos do § 1º deste artigo, justificando pormenorizadamente os aspectos econômicos que determinaram a sua escolha. (Incluído pela Lei nº 9.457, de 1997) Fl. 15527DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.528 17 fixação desse preço, que não será, pois, arbitrário, devendo atender aos requisitos estabelecidos no art. 170. (p. 167) E, sendo o critério adotado pela empresa a perspectiva de rentabilidade da companhia, ou o valor econômico, aduz ainda o doutrinador7: O valor econômico será inferior ao do patrimônio líquido quando a rentabilidade é muito baixa ou negativa e seu valor de liquidação é inferior ao contábil. Caso a rentabilidade seja alta, o valor econômico daí decorrente, posto em confronto com o patrimônio líquido, será superior a este. Não obstante aplicado correntemente em todo o mundo, a apuração do valor econômico de cada companhia pressupõe uma considerável dose de subjetividade. Daí a necessidade absoluta de formulação de um laudo circunstanciado por auditores externos e independentes, sendo, como referido, incompatível o exercício de tal mister pelos administradores. (p. 532) Em consonância com o entendimento doutrinário, o Parecer de Orientação CVM nº 1, de 27 de setembro de 1978, ao discorrer sobre a inteligência do art. 170, § 1º da Lei das S.A., de discorre em caráter conclusivo: 13. Por último, como nenhum órgão regulador do mercado de valores mobiliários deve arvorarse em avaliador de preços de mercado, não será intenção da CVM pretender entrar no mérito do preço de emissão de ações, interferindo, deste modo, no mercado. O que a CVM exigirá, no entanto, é que o preço de emissão das novas ações seja sempre justificado, de maneira clara e precisa, por ocasião da assembléia geral que deliberar sobre a autorização do aumento de capital. Se atribuída à fixação de tal preço ao conselho de administração da companhia, a justificativa do preço deverá constar, igualmente clara e precisa, do parecer que vier a ser expedido pelo Conselho. (Grifei) E mais, o § 7º do art. 170 da Lei das S.A. dispõe que a proposta de aumento do capital deverá esclarecer qual o critério adotado, nos termos do § 1º deste artigo, justificando pormenorizadamente os aspectos econômicos que determinaram a sua escolha. A emissão de novas ações, com o sobrepreço, deve estar lastreada em avaliação do patrimônio da emissora. Não há nenhuma sustentação legal lastrear o ágio das ações emitidas da empresa "A" com base em eventual negociação que envolva ativo reavaliado pertencente a empresa "B". Não se discute o procedimento do adquirente em emitir novas ações, ou em emitilas em valor superior ao valor patrimonial das ações já emitidas. Fato que não tem justificativa é o valor dessas novas ações não estar lastreado em nenhuma avaliação que diga respeito ao patrimônio líquido da empresa que emitiu os ativos. O laudo de avaliação dos 7 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à lei de sociedades anônimas, Lei n. 6404, de 15 de dezembro de 1976, com as modificações das Leis n. 9.457, de 5 de maio de 1997, 10.303, de 31 de outubro de 2001, e 11.638, de 28 de dezembro de 2007. 4 ed. rev. a atual. São Paulo : Saraiva, 2009, p. 532. Fl. 15528DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.529 18 presentes diz respeito somente ao investimento adquirido. Não há previsão legal para "transportar" a avaliação do investimento para lastrear emissão com ágio das ações do investidor que serão utilizadas na transação. Não encontra sustentação legal procedimento adotado pela Contribuinte ao adotar como único critério para a reavaliação das ações emitidas pelo adquirente apenas um contrato particular, firmado entre comprador e vendedor, ambos interessados em fechar o negócio, dizendo que, se o ativo alienado tem o valor de "X+1", ainda que o pagamento seja realizado por ativo do adquirente no valor de "X", o valor efetivamente pago na transação foi "X+1". Aqui ocorreu uma liberalidade do alienante, em aceitar receber por um ativo no valor de "X+1", um outro ativo precificado em "X". Não há como ser oposto ao Fisco e a Sociedade que o pagamento deuse no valor de "X+1", somente porque o contrato de compra e venda estabeleceu um índice de correção (1,82), que automaticamente conferiu ao ativo "X" a reavaliação para "X+1". É precisamente a situação descrita pela autoridade fiscal: Na sequência, as ações de emissão da Flinders detidas agora pela Intesa (no valor de R$ 1.662.910 mil) foram utilizadas para a subscrição e integralização do capital social do Banco ABN Amro pelo mesmo valor contábil, com a emissão de 211.916.668 novas ações ordinárias escriturais sem valor nominal. Embora o capital social integralizado pela investidora Intesa tenha sido de R$ 1.662.910 mil (22,29% do capital social), ela recebeu em ações o equivalente a 11,58%, ou seja, um valor patrimonial de R$ 913.740 mil do Banco ABN Amro. Nesse contexto, considero irretocável a constatação descrita no Termo de Verificação Fiscal: O que de fato ocorreu foi uma operação de substituição de participação societária, ou seja, a Intesa entregou ao Banco ABN Amro as ações de emissão do Banco Sudameris cujo valor patrimonial era de R$976.988 mil (71,82%) e recebeu ações novas de emissão do Banco ABN Amro cujo valor patrimonial de R$ 913.740 mil (11,58%). (...) O Banco ABN Amro contabilizou as ações recebidas de emissão do Banco Sudameris pelo valor de mercado, considerando o aumento do capital social de R$ 1.662.910 mil como custo de aquisição das referidas ações; mas, ao entregar as ações novas de sua emissão, o fez pelo valor contábil (R$ 913.740 mil), usando critérios diferentes para uma operação que na sua essência é uma mera substituição de ações, ou seja, o Banco ABN Amro não receberia as ações de emissão do Banco Sudameris se não houvesse a entrega das ações novas de sua emissão. Na mesma medida, transcrevo excerto do Acórdão nº 1402002.450, adotado pela recorrente como paradigma, que apreciou precisamente a mesma operação, para fatos geradores pretéritos aos presentes autos. Foi cirúrgico ao constatar que a ausência de sacrifício econômico no caso: Fl. 15529DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.530 19 Assim, independentemente do destino contábil que foi dado às ações adquiridas pelo BANCO ABN (capital social, ativo, etc.), o que restou demonstrado nos autos foi a aquisição de um direito no importe de R$ 1.662.910.100,00, com base em um pagamento no valor de R$ 913.740.653,60. (...) Desta forma, como as operações de aquisição de participação societária pagas por meio de transferência de ações não geraram sacrifício econômico ou fiscal, requisito essencial para a legalidade do ágio amortizado, entendo que nesta parte o Auto de Infração deve ser mantido. Assim, tendo em vista que a segunda parcela da aquisição não foi efetuada com pagamento de sobrepreço, não há que se falar em ágio na operação, tendo em vista que, quando da aquisição do investimento, a contabilização do sobrepreço, nos termos da legislação vigente à época dos fatos, art. 20 do Decretolei nº 1.598, de 19778, predicava que o ágio seria a diferença entre o custo de aquisição e o valor do patrimônio líquido do investimento. E, no caso concreto, o custo de aquisição, valor efetivamente pago, não foi superior ao valor do patrimônio líquido do investimento. Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. (...) Independentemente das operações societárias realizadas, o valor do ativo do adquirente não foi reavaliado, conforme pretendeu a adquirente. A operação de fato consistiu em troca de ações entre adquirente e alienante, com valores estabelecidos no cenário inicial da transação entre as partes, antes da reavaliação do investimento. Assim, o registro do ágio na aquisição do investimento (ações do SUDAMERIS) foi meramente formal, sem nenhum lastro, completamente alienado da substância da operação empreendida. Como registrado anteriormente, o desprovimento da presente matéria já é suficiente, por si só, para reformar a decisão recorrida, e restabelecer a autuação fiscal. Resta prescindível, portanto, a apreciação da segunda matéria. Enfim, nos termos aduzidos em contrarrazões pela Contribuinte, cabe o retorno dos presentes autos para a turma a quo, para se manifestar estritamente sobre as matérias que não foram enfrentadas pela decisão recorrida: (1) da inexistência de previsão legal para a adição, à Base de Cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela Fiscalização; (2) da impossibilidade de exigência da multa: a dúvida; (3) da impossibilidade da exigência do débito consubstanciado no presente processo antes do término 8 A redação do artigo foi alterada pela Lei nº 12.973, de 2014. Fl. 15530DF CARF MF Processo nº 16327.721168/201413 Acórdão n.º 9101003.930 CSRFT1 Fl. 15.531 20 dos processos administrativos vinculados da falta de liquidez e certeza à autuação fiscal e (4) da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer e dar provimento ao recurso especial da PGFN, e determinar o retorno dos autos para a turma a quo se manifestar sobre matérias não enfrentadas pela decisão recorrida relacionadas no presente voto. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 15531DF CARF MF
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