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Numero do processo: 10715.730786/2012-32
Data da sessão: Thu May 27 00:00:00 UTC 2021
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano-calendário: 2008
PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO FISCAL.
Não ocorre a prescrição intercorrente no procedimento administrativo fiscal aduaneiro, isto é, na fase pré-contenciosa, da mesma forma que não incide durante a fase litigiosa, inaugurada com a apresentação de impugnação ao Auto de Infração.
RETROATIVIDADE BENIGNA.
A IN RFB 1.096/2010 ao alargar o prazo para apresentação de informações sobre embarque de carga transportada de dois para sete dias, restringiu o campo de incidência da infração e, por tal motivo, deve ser aplicada retroativamente, conforme artigo 5º inciso XL da Lex Maxima.
Numero da decisão: 3401-009.130
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto (relator), Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Votaram pelas conclusões os conselheiros Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: OSWALDO GONCALVES DE CASTRO NETO
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PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO FISCAL. Não ocorre a prescrição intercorrente no procedimento administrativo fiscal aduaneiro, isto é, na fase pré-contenciosa, da mesma forma que não incide durante a fase litigiosa, inaugurada com a apresentação de impugnação ao Auto de Infração. RETROATIVIDADE BENIGNA. A IN RFB 1.096/2010 ao alargar o prazo para apresentação de informações sobre embarque de carga transportada de dois para sete dias, restringiu o campo de incidência da infração e, por tal motivo, deve ser aplicada retroativamente, conforme artigo 5º inciso XL da Lex Maxima. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto (relator), Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Votaram pelas conclusões os conselheiros Fernanda Vieira Kotzias e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. (documento assinado digitalmente) Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente e Redator Designado (documento assinado digitalmente) Oswaldo Gonçalves de Castro Neto - Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 71 5. 73 07 86 /2 01 2- 32 Fl. 195DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 2 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luís Felipe de Barros Reche, Oswaldo Goncalves de Castro Neto, Ronaldo Souza Dias, Fernanda Vieira Kotzias, Gustavo Garcia Dias dos Santos, Muller Nonato Cavalcanti Silva (suplente convocado(a)), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). Relatório 1.1. Trata-se de auto de infração por registro extemporâneo de embarque de carga aérea exportada. Isto porque, a Recorrente deixou de informar a chegada das cargas ao Aeroporto Internacional do Galeão no prazo legal (duas horas após a chegada da embarcação). 1.2. Intimada a Recorrente apresentou Impugnação em que alega: 1.2.1. Ausência de proporcionalidade e razoabilidade uma vez que os procedimentos para aplicação da sanção em questão tiveram início quatro anos após o cometimento da infração; 1.2.2. Afastamento da responsabilidade pela denúncia espontânea da infração. 1.3. A DRJ de Florianópolis deu parcial provimento ao Recurso uma vez que: 1.3.1. A Autoridade Administrativo não tem poderes para afastar a exigibilidade de crédito público por razões de razoabilidade ou proporcionalidade; 1.3.2. A Recorrente perdeu a espontaneidade com a chegada da aeronave; 1.3.3. A multa deve ser aplicada por aeronave que toca o solo e não por conhecimento de transporte. 1.4. Irresignada, a Recorrente busca guarida neste Conselho reiterando, in totum, o quanto descrito em sede de impugnação. Voto Vencido Conselheiro Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Relator. 2.1. De plano, afasto a tese sobre o afastamento da responsabilidade pela DENÚNCIA ESPONTÂNEA (com ressalva de consciência), forte na Súmula 126 desta Casa: A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento dos deveres instrumentais decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do Decreto-Lei nº 37, de 1966, dada pelo art. 40 da Lei nº 12.350, de 2010. Fl. 196DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 3 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 2.2. A Recorrente descreve em seu arrazoado transcurso de prazo superior a quatro anos entre a data da infração e da autuação o que nos leva a meditações sobre a PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE nos termos do artigo 1° caput e § 1° da Lei 9.873/99: Art. 1 o Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1 o Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. 2.2.1. A norma merece alguns recortes. Em primeiro lugar, sem sombra de dúvida, o prazo descrito no § 1° acima aplica-se à matéria aduaneira. Isto porque, é por meio do processo e do procedimento em matéria aduaneira que a fiscalização exerce o controle aduaneiro que, nada mais é do que “o controle estatal exercido pela Alfândega relativamente ao fluxo de veículos transportadores, trânsito de pessoas e ingressos ou saídas de mercadorias objeto do comércio internacional” (BALDOMIR SOSA). Com efeito, o controle aduaneiro é o poder de polícia em Comércio Exterior, o conjunto de atribuições concedidas à Administração Aduaneira para disciplinar em favor do controle do Comércio Exterior direitos e liberdades individuais – parafraseando CAIO TACITO. 2.2.2. No entanto, o § 1° do artigo 1º da Lei 9.873/99 fala em procedimento administrativo – o que nos leva à segunda parada. 2.2.2.1. Alguns doutrinadores em processo tributário equivalem os conceitos de processo e procedimento, porém, quando o fazem equiparam a face formal do procedimento (como conjunto de atos) com a face material do processo (como conjunto de interações entre partes voltada à pacificação dos conflitos. Justamente por este motivo afirmam em sequência que todo processo é um procedimento (...) enquanto nem todo procedimento é um processo (MACHADO SEGUNDO, Processo Tributário... p. 28). 2.2.2.2. Outros autores (JUSTEN FILHO, Curso de Direito Administrativo... p. 227; MELLO, Curso de Direito Administrativo... p. 416; CONRADO, Processo Tributário... p.97), embora afastem do âmbito administrativo o Instituto do processo (uma vez que só há processo quando há duplicação das relações jurídicas e, em uma delas figura o Estado-Juiz), reconhecem a diferença entre dois procedimentos administrativos: um marcado pela conflituosidade e outro em que não há conflito de posições. 2.2.2.3. Do antedito temos que os conceitos de processo e procedimento não se confundem – ainda para aqueles que defendem a equivalência dos conceitos. O que há no procedimento é o exercício da autotutela do Estado para, ante motivo e oportunidade (no caso, legais), editar um ato administrativo (o lançamento). Já no processo administrativo, a arrecadação depara-se com princípio constitucional de igual força, o da propriedade. Com isto temos que, já em abstrato há um conflito de interesse, que, se convertido em conflito concreto pela oposição do titular do direito disponível (de propriedade) torna-se concreto, nascendo então o processo. Fl. 197DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 4 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 2.2.2.3.1. O próprio legislador Constituinte referenda a diferença acima no art. 5° inciso LV da Magna Charta (o que torna duvidosa a necessidade do Estado Juiz para formação do processo) ao descrever que “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Do mesmo modo, o legislador ordinário emparelhou no artigo 5° da Lei 9.873/99 (mesma que trata da prescrição intercorrente) processo e procedimento ao tratar da impossibilidade de prescrição intercorrente em matéria tributária: Art. 5° O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária. 2.2.2.3.2. Ora, se processo e procedimento são uma e a mesma coisa (como gênero e espécie, ou como pontos de foco da mesma realidade, ou como conteúdo e continente) o legislador contentar-se-ia com a indicação de uma dela, apenas. 2.2.2.4. Em verdade, procedimento e processo não coexistem em sede fiscal, (em regra) um sucede ao outro, “isto é, transmuda-se a atividade administrativa de procedimento para processo no momento em que o contribuinte registra seu inconformismo com o ato praticado pela administração” (MARTINS, Direito Processual Tributário... p. 142) – e o rito de fiscalização aduaneira é um excelente exemplo do antedito. 2.2.3. O artigo 7° inciso III do Decreto 70.235/72 é claro ao dispor que o procedimento administrativo fiscal (também) tem início com o despacho aduaneiro de mercadorias. Como sabido, o despacho aduaneiro de mercadorias é o procedimento de processamento da declaração do importador, como descreve o artigo 542 do Regulamento Aduaneiro: Art. 542. Despacho de importação é o procedimento mediante o qual é verificada a exatidão dos dados declarados pelo importador em relação à mercadoria importada, aos documentos apresentados e à legislação específica. 2.2.3.1. No curso do despacho aduaneiro de mercadorias pode a fiscalização formular exigências, inclusive que impliquem em recolhimento a maior de tributos, ex vi art. 47 do Decreto-Lei 37/66: Art.47 - Quando exigível depósito ou pagamento de quaisquer ônus financeiros ou cambiais, a tramitação do despacho aduaneiro ficará sujeita à prévia satisfação da mencionada exigência. 2.2.3.2. Caso o contribuinte concorde com a exigência da fiscalização e pague o tributo - ou caso a fiscalização concorde com o quanto lançado pelo contribuinte – o despacho segue e a mercadoria é desembaraçada, pois assim diz o artigo 51 do Decreto-Lei 37/66: Art.51 - Concluída a conferência aduaneira, sem exigência fiscal relativamente a valor aduaneiro, classificação ou outros elementos do despacho, a mercadoria será desembaraçada e posta à disposição do importador. 2.2.3.3. Agora bem, caso o contribuinte discorde da exigência da fiscalização deverá apresentar Manifestação e, em sequência, a autoridade competente lançará de ofício a exigência, seguindo, a partir daí, o quanto descrito no Decreto 70.235/72: Regulamento Aduaneiro: Fl. 198DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 5 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Art. 570. Constatada, durante a conferência aduaneira, ocorrência que impeça o prosseguimento do despacho, este terá seu curso interrompido após o registro da exigência correspondente, pelo Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil responsável. § 3° Havendo manifestação de inconformidade, por parte do importador, em relação à exigência de que trata o § 2o, o Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil deverá efetuar o respectivo lançamento, na forma prevista no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. 2.2.3.4. Em assim sendo, ou o procedimento administrativo despacho aduaneiro se encerra com o desembaraço aduaneiro, ou se encerra com a lavratura de auto de infração. Após a decisão desembaraço aduaneiro ou lançamento de ofício/auto de infração não há mais que se falar em procedimento aduaneiro pendente de decisão, tornando-se inaplicável o quanto disposto no artigo 1° § 1° da Lei 9.873/99. Mais do que o antedito, caso o contribuinte discorde do quanto descrito no lançamento fiscal apresentando suas razões nasce a controvérsia e o procedimento administrativo fiscal despacho aduaneiro (se é que ainda existia neste momento) converte-se em processo administrativo fiscal aduaneiro. 2.2.4. Assim, encerrando a análise em abstrato, a prescrição intercorrente descrita no artigo 1° § 1° da Lei 9.873/99 aplica-se exclusivamente ao PROCEDIMENTO administrativo fiscal-aduaneiro, isto é, à fase pré contenciosa - e daí temos a absoluta distinção da Súmula 11 desta Casa que dispõe que “não se aplica a prescrição intercorrente no PROCESSO administrativo fiscal”. 2.2.4.1. O encaixe do comando legislativo e sumular, e destes dois com o instituto da prescrição, é perfeito. 2.2.4.2. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição – na feliz expressão do artigo 189 do Código Civil. A pretensão é o modo concedido ao titular para corrigir a antinomia, é o nome que o legislador dá para a possibilidade de exigir que outrem se adeque a situação jurídico-subjetiva iluminada pela norma. Abdicando, por inércia, da pretensão, esta (e não o direito) se extingue pela prescrição. Sendo o objetivo da prescrição extinguir a pretensão, a primeira só se torna possível caso a segunda assim seja; só há prescrição quando possível exigir de outrem o cumprimento de uma norma. 2.2.4.3. O ordenamento jurídico descreve formas de exercício da pretensão (ou o devido processo legal) meios pelo quais alguém pode exigir que outrem cumpra o que a norma determina. No direito civil, via de regra, é concedido ao titular da pretensão o direito de servir-se do Estado-Juiz para que este último adjudique o direito – e aqui fica clara a diferença entre o direito (o bem da vida que deve ser concedido), e a pretensão (a faculdade de exigir este bem). O Estado-Juiz não é afastado das relações jurídicas entre o Estado-Arrecadador e Particulares; para preencher os cofres públicos o Ente Federativo deve socorrer-se do Poder Judiciário para lhe adjudicar este direito. 2.2.4.4. Todavia, antes de servir-se do Poder Judiciário, deve o Ente Federativo inscrever o que entende exigível do contribuinte (doravante, débito, apenas para facilitar a argumentação) em dívida-ativa (art. 2° Lei 6.830/80). Para inscrever o débito em dívida ativa deve o Estado-Arrecadador aguardar o esgotamento do prazo fixado pela lei para pagamento ou “decisão final proferida em processo regular” (art. 201 do CTN). Fl. 199DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 6 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 2.2.4.5. O “processo regular” é o processo administrativo fiscal, que, dentre outras coisas, permite ao contribuinte contrapor-se à pretensão, sujeitando-a (a pretensão) a uma decisão final. De outro modo, até a oposição do contribuinte, a pretensão do Estado-Arrecadador é livre, depende apenas e tão somente de sua vontade (exercida pelo lançamento). A partir da manifestação de contrariedade à pretensão, deve o Estado-Arrecadador, antes de prosseguir com seu intento (com a pretensão), proferir decisão final; e só aí inscrever em dívida ativa, e só ai socorrer-se do judiciário para fazer valer (ou não) a pretensão. Resta claro, portanto que o processo administrativo fiscal impede, por vontade externa (leia-se do contribuinte), o exercício da pretensão pelo Estado-Arrecadador. 2.2.4.6. Ora, se pretensão e prescrição interpenetram-se, impedida momentaneamente por vontade externa o exercício da pretensão (suspensa a exigibilidade) de igual modo suspende-se a prescrição. 2.2.4.7. Surge o encaixe: no processo administrativo fiscal a pretensão encontra-se suspensa por vontade externa, logo, igualmente a prescrição. No procedimento administrativo fiscal a vontade do Ente Federativo no exercício da pretensão (por meio do lançamento) é livre, não está suspensa, logo, a prescrição continua a fluir. 2.2.4.8. Prescrição reclama pretensão; pretensão reclama exercício; exercício reclama vontade. Suspensa a vontade, suspenso o exercício. Suspenso o exercício, suspensa a pretensão. Suspensão a pretensão, suspensa a prescrição – e isto desde Justiniano (in CÂMARA LEAL, in omnibus contractibus, in quibus sub aliqua conditione vel sub die... Pacta ponuntur, post conditionis exitum, vel... diei... lapsum, prescriptiones... initium accipiunt). 2.2.4.9. A outra hipótese de prescrição intercorrente prevista no ordenamento nacional parece confirmar as conclusões até aqui descritas. A Lei de Execuções Fiscais fixa a possibilidade de prescrição intercorrente a) encerradas as diligências a cargo do exequente para encontrar bens do executado, b) a suspensão do processo pelo prazo de um ano e c) transcurso do prazo prescricional. 2.2.4.9.1. Não há assim prescrição intercorrente se a citação demorar 20 (vinte) anos para acontecer, ou se os embargos à execução levarem 50 (cinquenta) anos para completar seu ciclo processual (com o trânsito em julgado) por capacidade criativa e recursal do contribuinte. No entanto há prescrição intercorrente se o titular do direito de receber o débito (Fazenda Nacional) deixa de encontrar bens do executado, deixa de exercer sua pretensão (de transferir patrimônio privado aos cofres públicos). O juízo e o ex adverso podem levar quantos anos forem necessários para exercer a sua vontade. Contudo, o titular da pretensão não pode levar mais do que 06 (seis) anos para satisfazer sua pretensão. Destarte, não é o mero transcurso do tempo que leva à prescrição, este deve ser acompanhado do não exercício livre (sem a parte contrária, sem o juízo) da pretensão por aquele que é seu titular. Em verdade o lapso temporal somente revela a inação, a inércia do titular da pretensão que leva ao reconhecimento da prescrição - como corpus e animus, nos termos de IHERING. 2.2.4.10. Mas não seria a própria administração pública a culpada pela demora do processo administrativo (tendo em vista o impulso oficial)? Sim. Tanto quanto o Poder Judiciário o é por levar anos para proferir decisões, até mesmo em sede de cognição sumária; apesar disto não há doutrinador, Juiz, Ministro ou qualquer outro intérprete a dizer que a mora do Judiciário leva à prescrição intercorrente. Certamente a falta da tese não se deve a diferenças subjetivas; Fl. 200DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 7 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Judiciário e Executivo são poderes de uma Pessoa Jurídica (no caso da União), e não cada um deles uma pessoa jurídica. Com elevadíssimo grau de certeza a diferença de opinião se deve a diferença de função: ora, o interesse da Administração Pública Fiscal é arrecadar e o interesse do Poder Judiciário é aplicar a Lei ao caso concreto de modo realizar (ou tentar) a Justiça. 2.2.4.11. Escancara-se assim o erro do fundamento último da prescrição intercorrente. A atividade exercida pelas Delegacia de Julgamento e por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é arrecadatória. Os Conselheiros desta Casa (não obstante, metade deles provenham dos quadros da Receita Federal) não são Auditores Fiscais. O CARF não é a Receita Federal. A finalidade do processo administrativo é a verdade real, e não passagem para o Judiciário, e não financiamento e não arrecadar. Não se trata de um simples mis-en-scène e sim de uma garantia tanto ao contribuinte quanto ao Estado de (com o perdão do pleonasmo) um julgamento justo já na esfera administrativa, que siga os ditames Legais. 2.2.4.12. Nossa função é judicante (não arrecadadora); não com a mesma força, mas com a mesma técnica e isenção do Poder Judiciário. Assim, tal qual não se pode reconhecer a prescrição intercorrente quando o Poder Judiciário falha (por inúmeros fatores internos e externos) em dar uma solução célere ao caso concreto, não há como reconhecer a prescrição intercorrente quando falhamos (independentemente da vontade do órgão arrecadador), na mesma missão, em função semelhante e pelos mesmos motivos. 2.2.5. Retornando. O caso em tela guarda algumas excentricidades. Se bem que procedimento fiscal aduaneiro, o procedimento Manifesto de Carga é anterior ao registro da Declaração de Importação. Tendo em mente a seleção de risco necessária ao fluxo contínuo de cargas pelos terminais de entrada, a fiscalização (forte no artigo 41 do Regulamento Aduaneiro) obriga transportadores a apresentarem um Manifesto indicando os bens transportados. 2.2.5.1. Em caso de apresentação extemporânea do Manifesto (ou caso o documento apresente divergências com as mercadorias efetivamente transportadas) há o bloqueio da carga, com impedimento do registro da Declaração de Importação. Para superar o bloqueio deve o contribuinte apresentar carta de correção, quer via sistema, quer em papel (art. 46 do Regulamento Aduaneiro). Apresentada a carta a mercadoria é liberada para despacho, sem prejuízo de análise posterior pelo órgão de fiscalização e, tampouco, de aplicação de multa por informação incorreta ou extemporânea – tudo conforme Instrução Normativa SRF 102/94: Art. 4º A carga procedente do exterior será informada, no MANTRA, pelo transportador ou desconsolidador de carga, previamente à chegada do veículo transportador, mediante registro: (...) § 2º As informações prestadas posteriormente à chegada efetiva de veículo transportador dependerão de validação pelo AFTN, exceto nos casos de que tratam o parágrafo seguinte e o art. 8º. Art. 6º Para todos os efeitos legais, a carga será considerada manifestada junto à unidade local da SRF quando ocorrer, no MANTRA: (...) II - a validação pelo AFTN de informações sobre carga procedente do exterior prestadas após a chegada do veículo transportador e sobre carga procedente de trânsito aduaneiro incluída após o prazo para encerramento de seu registro, bem como de descaracterização de remessa expressa. (...) Fl. 201DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 8 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Art. 21. A conferência final de manifesto informatizado será realizada com base no processamento automático pelo Sistema dos dados relativos à carga, após visto de armazenamento pelo AFTN. § 1º Na ocorrência de falta ou acréscimo de volume ou mercadoria, o responsável pela ocorrência estará sujeito ao competente procedimento fiscal. Art. 22. A baixa no manifesto informatizado processar-se-á mediante registro de: I - desembaraço, no caso de carga cujo tratamento indicado tenha sido pátio-conexão imediata; II - destinação final de carga mantida no Sistema de Mercadorias Apreendidas; III - desembaraço de carga armazenada em prê-depósito de loja franca; IV - desembaraço de carga em estabelecimento de importador; e V - entrega de carga, nos demais casos. Art. 23. A baixa do manifesto informatizado ocorrerá após verificação da correção das baixas nele processadas, cabendo ao AFTN adotar as providências decorrentes da apuração das divergências encontradas. 2.2.5.2. Com isto se quer dizer que, paralelamente ao procedimento de despacho, o procedimento Manifesto de Carga tem início com a chegada da embarcação e termina ou com a) a liberação das mercadorias para registro da DI (caso fisco e contribuinte concordem), conforme artigo 22 acima, ou b) com a impugnação de auto de infração para aplicação de multa por informação de carga extemporânea (caso discordem), nos termos dos artigos 21 e 23, também acima. 2.2.6. Transportando o raciocínio para o caso em tela, o procedimento Manifesto de Carga teve início entre 24 de abril de 2008 e 31 de maio de 2008 e fim em 11 de abril de 2013 (com a impugnação tempestiva da autuação), logo, mais de três anos após o início do procedimento, sendo de rigor o reconhecimento da prescrição intercorrente do PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. 3. Pelo exposto, admito, porquanto tempestivo, e conheço do recurso voluntário, dando-lhe ex officio provimento para declarar a prescrição intercorrente do procedimento administrativo. (documento assinado digitalmente) Oswaldo Gonçalves de Castro Neto Voto Vencedor Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, Redator Designado. Com as vênias de estilo, em que pese o como de costume muito bem fundamentado voto do Conselheiro Relator Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, ouso dele Fl. 202DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 9 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 discordar quanto à possibilidade de “aplicação da prescrição intercorrente no procedimento administrativo fiscal-aduaneiro”. Vejamos, em síntese, o entendimento do Relator: 2.2. A Recorrente descreve em seu arrazoado transcurso de prazo superior a quatro anos entre a data da infração e da autuação o que nos leva a meditações sobre a PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE nos termos do artigo 1° caput e § 1° da Lei 9.873/99: Art. 1 o Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1 o Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. 2.2.1. A norma merece alguns recortes. Em primeiro lugar, sem sombra de dúvida, o prazo descrito no § 1° acima aplica-se à matéria aduaneira. Isto porque, é por meio do processo e do procedimento em matéria aduaneira que a fiscalização exerce o controle aduaneiro que, nada mais é do que “o controle estatal exercido pela Alfândega relativamente ao fluxo de veículos transportadores, trânsito de pessoas e ingressos ou saídas de mercadorias objeto do comércio internacional” (BALDOMIR SOSA). Com efeito, o controle aduaneiro é o poder de polícia em Comércio Exterior, o conjunto de atribuições concedidas à Administração Aduaneira para disciplinar em favor do controle do Comércio Exterior direitos e liberdades individuais – parafraseando CAIO TACITO. 2.2.2. No entanto, o § 1° do artigo 1º da Lei 9.873/99 fala em procedimento administrativo – o que nos leva à segunda parada. (...) 2.2.2.4. Em verdade, procedimento e processo não coexistem em sede fiscal, (em regra) um sucede ao outro, “isto é, transmuda-se a atividade administrativa de procedimento para processo no momento em que o contribuinte registra seu inconformismo com o ato praticado pela administração” (MARTINS, Direito Processual Tributário... p. 142) – e o rito de fiscalização aduaneira é um excelente exemplo do antedito. 2.2.3. O artigo 7° inciso III do Decreto 70.235/72 é claro ao dispor que o procedimento administrativo fiscal (também) tem início com o despacho aduaneiro de mercadorias. Como sabido, o despacho aduaneiro de mercadorias é o procedimento de processamento da declaração do importador, como descreve o artigo 542 do Regulamento Aduaneiro: Art. 542. Despacho de importação é o procedimento mediante o qual é verificada a exatidão dos dados declarados pelo importador em relação à mercadoria importada, aos documentos apresentados e à legislação específica. (...) 2.2.3.4. Em assim sendo, ou o procedimento administrativo despacho aduaneiro se encerra com o desembaraço aduaneiro, ou se encerra com a lavratura de auto de infração. Após a decisão desembaraço aduaneiro ou lançamento de ofício/auto de infração não há mais que se falar em procedimento aduaneiro pendente de decisão, tornando-se inaplicável o quanto disposto no artigo 1° § 1° da Lei 9.873/99. Mais do que o antedito, caso o contribuinte discorde do quanto descrito no lançamento fiscal apresentando suas razões nasce a controvérsia e o procedimento administrativo fiscal despacho aduaneiro (se é que ainda existia neste momento) converte-se em processo administrativo fiscal aduaneiro. Fl. 203DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 10 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 2.2.4. Assim, encerrando a análise em abstrato, a prescrição intercorrente descrita no artigo 1° § 1° da Lei 9.873/99 aplica-se exclusivamente ao PROCEDIMENTO administrativo fiscal-aduaneiro, isto é, à fase pré contenciosa - e daí temos a absoluta distinção da Súmula 11 desta Casa que dispõe que “não se aplica a prescrição intercorrente no PROCESSO administrativo fiscal”. (...) 2.2.6. Transportando o raciocínio para o caso em tela, os procedimentos Manifesto de Carga tiveram início em 8 de janeiro de 2008, 15 de janeiro de 2008, 28 de janeiro de 2008 e 13 de fevereiro de 2008 e fim em 11 de janeiro de 2011 (com a impugnação tempestiva da autuação), logo, entre a infração constatada em 8 de janeiro de 2008 e a impugnação passaram-se mais de três anos, sendo de rigor o reconhecimento da prescrição intercorrente do PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. Inicialmente, faz-se necessário destacar que a “prescrição” de que trata o art. 1°, caput, da Lei 9.873/99, se refere, em verdade, a decadência, e não a prescrição, termo utilizado pelo legislador de forma atécnica, conforme já decidido pelo STJ no Recurso Especial nº 1.115.078–RS, Relator Ministro Castro Meira, sob a sistemática dos Recursos Repetitivos (art. 543-C do antigo CPC), com julgamento em 24/03/2010 e publicação no DJe em 06/04/2010: EMENTA ADMINISTRATIVO. EXECUÇÃO FISCAL. MULTA ADMINISTRATIVA. INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO DO MEIO AMBIENTE. PRESCRIÇÃO. SUCESSÃO LEGISLATIVA. LEI 9.873/99. PRAZO DECADENCIAL. OBSERVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL SUBMETIDO AO RITO DO ART. 543-C DO CPC E À RESOLUÇÃO STJ N.º 08/2008. 1. O Ibama lavrou auto de infração contra o recorrido, aplicando-lhe multa no valor de R$ 3.628,80 (três mil e seiscentos e vinte e oito reais e oitenta centavos), por contrariedade às regras de defesa do meio ambiente. O ato infracional foi cometido no ano de 2000 e, nesse mesmo ano, precisamente em 18.10.00, foi o crédito inscrito em Dívida Ativa, tendo sido a execução proposta em 21.5.07. (...) 5. A Lei 9.873/99, no art. 1º, estabeleceu prazo de cinco anos para que a Administração Pública Federal, direta ou indireta, no exercício do Poder de Polícia, apure o cometimento de infração à legislação em vigor, prazo que deve ser contado da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado a infração. 6. Esse dispositivo estabeleceu, em verdade, prazo para a constituição do crédito, e não para a cobrança judicial do crédito inadimplido. Com efeito, a Lei 11.941, de 27 de maio de 2009, acrescentou o art. 1º-A à Lei 9.873/99, prevendo, expressamente, prazo de cinco anos para a cobrança do crédito decorrente de infração à legislação em vigor, a par do prazo também quinquenal previsto no art. 1º desta Lei para a apuração da infração e constituição do respectivo crédito. 7. Antes da Medida Provisória 1.708, de 30 de junho de 1998, posteriormente convertida na Lei 9.873/99, não existia prazo decadencial para o exercício do poder de polícia por parte da Administração Pública Federal. Assim, a penalidade acaso aplicada sujeitava-se apenas ao prazo prescricional de cinco anos, segundo a jurisprudência desta Corte, em face da aplicação analógica do art. 1º do Decreto 20.910/32. Fl. 204DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 11 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 8. A infração em exame foi cometida no ano de 2000, quando já em vigor a Lei 9.873/99, devendo ser aplicado o art. 1º, o qual fixa prazo à Administração Pública Federal para, no exercício do poder de polícia, apurar a infração à legislação em vigor e constituir o crédito decorrente da multa aplicada, o que foi feito, já que o crédito foi inscrito em Dívida Ativa em 18 de outubro de 2000. 9. A partir da constituição definitiva do crédito, ocorrida no próprio ano de 2000, computam-se mais cinco anos para sua cobrança judicial. Esse prazo, portanto, venceu no ano de 2005, mas a execução foi proposta apenas em 21 de maio de 2007, quando já operada a prescrição. Deve, pois, ser mantido o acórdão impugnado, ainda que por fundamentos diversos. 10. Recurso especial não provido. Acórdão sujeito ao art. 543-C do CPC e à Resolução STJ n.º 08/2008. A tese jurídica fixada neste julgamento foi a seguinte: É de cinco anos o prazo decadencial para se constituir o crédito decorrente de infração à legislação administrativa. O prazo decadencial para constituição do crédito decorrente de infração à legislação administrativa 'conta-se da data da infração', 'caso se trate de ilícito instantâneo'. O prazo decadencial para constituição do crédito decorrente de infração à legislação administrativa, 'no caso de infração permanente ou continuada, conta-se do dia em que tiver cessado' o ilícito. Interrompe-se o prazo decadencial para a constituição do crédito decorrente de infração à legislação administrativa: a) pela notificação ou citação do indiciado ou executado, inclusive por meio de edital; b) por qualquer ato inequívoco, que importe apuração do fato; pela decisão condenatória recorrível; por qualquer ato inequívoco que importe em manifestação expressa de tentativa de solução conciliatória no âmbito interno da administração pública federal. É de três anos o prazo para a conclusão do processo administrativo instaurado para se apurar a infração administrativa ('prescrição intercorrente'). Prescreve em cinco anos, contados do término do processo administrativo, a pretensão da Administração Pública de promover a execução da multa por infração ambiental. O termo inicial do prazo prescricional para o ajuizamento da ação executória 'é a constituição definitiva do crédito, que se dá com o término do processo administrativo de apuração da infração e constituição da dívida'. São causas de interrupção do prazo prescricional: a) o despacho do juiz que ordenar a citação em executivo fiscal; b) o protesto judicial; c) qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; d) qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento do débito pelo devedor; e) qualquer ato inequívoco que importe em manifestação expressa de tentativa de solução conciliatória no âmbito interno da administração pública federal. No presente caso, o procedimento administrativo para apurar infração à legislação em vigor é aquele previsto no art. 142 da Lei nº 5.172/66 – CTN: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a Fl. 205DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 12 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. O próprio Regulamento Aduaneiro assim determina expressamente, tanto no art. 659 do Decreto nº 4.543, de 2002, quanto no art. 744 do Decreto nº 6.759, de 2009 (que revogou o Decreto nº 4.543/2002), litteris: LIVRO VII DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO, DO PROCESSO FISCAL E DO CONTROLE ADMINISTRATIVO ESPECÍFICO TÍTULO I DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO CAPÍTULO I DO LANÇAMENTO DE OFÍCIO Art. 659. Sempre que for apurada infração às disposições deste Decreto, sujeita a exigência de tributo ou de penalidade pecuniária, a autoridade aduaneira competente deverá efetuar o correspondente lançamento para fins de constituição do crédito tributário (Lei nº 5.172, de 1966, art. 142). ----------------------------------------------------------- Art. 744. Sempre que for apurada infração às disposições deste Decreto, que implique exigência de tributo ou aplicação de penalidade pecuniária, o Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil deverá efetuar o correspondente lançamento para fins de constituição do crédito tributário (Lei nº 5.172, de 1966, art. 142, caput; e Lei nº 10.593, de 2002, art. 6º, inciso I, alínea “a”, com a redação dada pela Lei nº 11.457, de 2007, art. 9º). (Redação dada pelo Decreto nº 7.213, de 2010). Para este procedimento, já existe previsão específica de prazo decadencial, conforme art. 139 do Decreto-lei nº 37, de 1966: TÍTULO VI - Decadência e Prescrição (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.472, de 01/09/1988) CAPÍTULO ÚNICO - Disposições Gerais Art. 137. (Revogado pela Lei nº 10.833, de 29.12.2003) Art. 138 - O direito de exigir o tributo extingue-se em 5 (cinco) anos, a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido lançado. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.472, de 01/09/1988) Fl. 206DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 13 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Parágrafo único. Tratando-se de exigência de diferença de tributo, contar-se-á o prazo a partir do pagamento efetuado. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 2.472, de 01/09/1988) Art. 139 - No mesmo prazo do artigo anterior se extingue o direito de impor penalidade, a contar da data da infração. Logo, pelo Princípio da Especialidade, o prazo de que dispõem as Autoridades Tributárias entre a prática da infração e o lançamento da penalidade é de 05 anos, e não de 03 anos, como entendeu o ilustre Relator. No caso sob análise, segundo consta do voto vencido, uma vez que as infrações ocorreram em 24/04/2008 e 31/05/2008, com apresentação da Impugnação em 11/04/2013, entre as infrações e a autuação não se passaram mais de 05 anos, razão pela qual não há que se falar em decadência, muito menos em prescrição. Além disso, ressalto que a própria Lei nº 9.873/99 traz norma expressa, em seu art. 5º, afastando a possibilidade de sua aplicação a processos e procedimentos de natureza tributária: Art. 5º O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária. Ao excepcionar “processos e procedimentos de natureza tributária”, a Lei nº 9.873/99 está se referindo diretamente ao Decreto nº 70.235/72, que é a única norma jurídica que se refere a “processos de natureza tributária” em âmbito federal. E ao tratar de “procedimentos tributários”, se refere claramente àqueles originados da competência privativa das autoridades administrativas especificadas no art. 142 do CTN. Assim, a Lei nº 9.873/99 já cuida de deixar de fora de sua incidência os procedimentos tributários originados deste art. 142, ou seja, aqueles créditos constituídos através de lançamento efetuado pelos Auditores-Fiscais da Receita Federal. Imaginar que para estes créditos ditos provenientes de “multas aduaneiras” o procedimento aplicável não seria este equivaleria a dizer que todos os lançamentos foram realizados por autoridade incompetente. Em síntese, se o procedimento de constituição do crédito se originou do art. 142 do CTN, ou se está submetido ao rito processual do Decreto nº 70.235/72, não há que se falar na aplicação da Lei nº 9.873/99, por expressa disposição do seu art. 5º. Por fim, mesmo que a Lei nº 9.873/99 fosse aplicável aos fatos, a regra a ser aplicável a este caso seria a do art. 1º, caput, que trata de prazo decadencial, e não a do seu parágrafo 1º, que trata de prazo de prescrição intercorrente, conforme já decidido pelo STJ, sob o rito dos Recursos Repetitivos (acima transcrito). Vejamos o texto legal: Art. 1º Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1º Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. Não se nega que a interpretação dada pelo Relator foi muito inteligente e perspicaz, ao identificar que a localização topográfica do parágrafo 1º levaria à interpretação de Fl. 207DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 14 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 que o prazo de 3 anos seria aplicável ao procedimento administrativo em momento pré- contencioso pois. segundo conhecida regra hermenêutica, os parágrafos, regra geral, devem ser interpretados dentro do contexto do caput do artigo. Contudo, apesar do texto se referir a “procedimento administrativo paralisado por mais de três anos” fazendo um cotejo entre as possíveis interpretações para esse parágrafo 1º, considerando que não parece fazer muito sentido estabelecer dois prazos decadenciais para uma mesma fase processual, o STJ decidiu, por meio de julgamento vinculante, que a interpretação correta é aquela que entende tratar-se de prescrição intercorrente, ou seja, aquela que incide após o início da fase litigiosa (com a apresentação de Impugnação à autuação) e perdura até a constituição definitiva do crédito (quando o crédito passa a ser exigível) ou seu cancelamento. Quanto à preliminar de ilegitimidade passiva, acompanho integralmente o Relator. Tendo sido essas duas preliminares as únicas razões para o inconformismo do sujeito passivo, conforme consta do seu Recurso Voluntário, decidiu a Turma julgadora, por maioria de votos, vencido o Relator, negar provimento ao recurso. (documento assinado digitalmente) Lázaro Antônio Souza Soares – Redator Designado Declaração de Voto Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Em que pese o como de costume bem fundado voto do relator, ouso dele discordar, o que faço nos seguintes termos. Em sede preliminar, ao se perscrutar o caso concreto, observa-se o transcurso de mais de três anos entre a prática de ato postulatório por parte da contribuinte e a decisão ou julgamento administrativos, o que implica deva ser reconhecida a prescrição intercorrente prevista no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.873/1999, cujo preceptivo normativo deve, por seu turno, ser interpretado com observância à Súmula CARF nº 11, segundo a qual “não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal”. Antes de fazê-lo, é necessário que se recorde que a súmula, como enunciado que consolida a orientação dominante em um tribunal, é vertida por meio de um texto. No capítulo das obviedades, ululantes quando ditas a um colegiado cuja missão institucional é justamente realizar o direito por meio de mecanismos interpretativos, o entendimento das palavras rumo à decidibilidade de conflitos é a tarefa da dogmática hermenêutica por excelência. Como recordaria Tércio Sampaio Ferraz Jr., a súmula, como texto que é, confere ao jurista o propósito básico não apenas de compreendê-la, mas sobretudo de “(...) determinar-lhe a força e o alcance, Fl. 208DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 15 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 pondo o texto normativo em presença dos dados atuais de um problema”, e isto porque "(...) o texto normativo constitui, obviamente, uma língua, que deve ser interpretada". 1 Não surpreende, ou ao menos não deveria surpreender, o fato tão conhecido hoje de que “(...) a interpretação é a atividade que se presta a transformar disposições (textos, enunciados) em normas” 2 e, ao fazê-lo, recordaria Eros Grau, o intérprete autêntico produz a norma decisão. Assim, “(...) o direito reclama interpretação”, 3 uma prudência ou saber prático, pois “(...) interpretar um texto normativo significa escolher uma entre várias interpretações possíveis, de modo que a escolha seja apresentada como adequada [Larenz 1983/86]”, 4 e por isso a alternativa verdadeiro/falso é estranha ao direito, que se volta ao justificável. Nega-se, por isso mesmo, a existência de uma única resposta correta “(...) ainda que o intérprete autêntico esteja (...) vinculado pelo sistema jurídico”, pois “(...) nem mesmo o juiz Hércules (Dworkin 1987/105) estará em condições de encontrar, para cada caso, a única resposta correta”. 5 “A concepção dworkniana de one right answer, ademais de tudo, perece no momento em que sustentada sobre a busca da ‘melhor teoria possível’ como ideal absoluto: na recusa da pretensão a valores absolutos, porque inserida no quadro de uma teoria dos valores inaceitável, essa ‘melhor teoria possível’ resulta um postulado filosófico inaceitável (Aarnio 1992/204). Nem os princípios, nem a argumentação segundo um sistema de regras que funcione como um código da razão prática (...) permitirão o discernimento da única resposta correta. Essa resposta verdadeira (única correta) não existe”. 6 As súmulas são, neste passo, uma epítome ou síntese de precedentes, ou, dito de outra forma, o resumo de um conjunto de decisões que precedem o porvir da aplicação (= realização) do direito. Assim, a habilidade preditiva do futuro advém justamente da escavação arqueológica das decisões do passado. Por isso mesmo, a súmula é antes um campo a ser escavado do que canteiro de obras, pois nada constrói ou gesta de novo, apenas ressoa o que antes foi feito. O trabalho do intérprete é visitar as camadas estratigráficas da memória que elas preservam para resgatar seus vestígios materiais e, com eles, proferir sua decisão. Antes de tudo, súmulas são textos a serem observados e essa revisitação acresce à cadeia de sentidos, movendo o próprio fazer jurídico. Não sejamos inocentes sobre as dificuldades e as incompreensões desse percurso argumentativo. Ao tratar da função indexadora das ementas e, em particular, sobre o seu uso mecanizado, Arruda Alvim e Leonard Schmitz iluminaram a angústia do textualismo que pretendeu, em algum momento, o monopólio da produção jurídica pelo legislador com as seguintes palavras: “(...) se até mesmo parte da doutrina que admite que a lei precisa ser interpretada diz que a fixação de determinada tese jurídica por um tribunal superior supre essa 1 FERRAZ JR., Tercio Sampaio, Introdução ao Estudo do Direito - Técnica, Decisão, Dominação Capa comum, 11 a . São Paulo: Atlas, 2019., p. 449. 2 GRAU, Eros Roberto, Direito posto e o direito pressuposto, 7 a . São Paulo: Malheiros Editores, 2008., p. 39. 3 Ibid. “(...) a interpretação é uma prudência – o saber prático, a phrónesis, a que se refere Aristóteles, na Ética a Nicômaco (...). O intérprete autêntico, ao produzir normas jurídicas, pratica a juris prudentia”. 4 Ibid., pp. 40-41. 5 Ibid., pp. 41-42. 6 Ibid. Fl. 209DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 16 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 necessidade interpretativa, há ainda um longo caminho a trilhar para o correto uso do direito jurisprudencial”. 7 A inquietação é pertinente quando instrumentos sumulares ou ementários são alçados ao espaço asséptico da reprodutibilidade técnica, sem preservar qualquer “(...) espaço argumentativo para novas possibilidades hermenêuticas” 8 . É necessário que se estabeleça a premissa de que “(...) a força normativa dos ‘precedentes’ está no comportamento reiterado de determinado tribunal, e não no corpo da ementa (ou no enunciado de súmula) que representa um julgamento”. 9 Por isso mesmo, negar aplicação de uma súmula a um caso concreto que não reste capturado pelo horizonte de eventos das decisões que lhe deram lastro não é negar sua potencialidade normativa, mas, antes, afirmar justamente a prática costumeira de uma corte que levou à edição do enunciado. O aplicador, por meio deste expediente, preserva a integridade e a própria autoridade da súmula, legitimada pela certeza da permanência e não da ruptura. Para reportar ao escólio de François Ost, 10 a súmula remete a uma específica manifestação da segurança: na perspectiva ex post, a confiabilidade da tradição e da memória do direito que contrapõe ao esquecimento a tradição e, na dimensão ex ante, a calculabilidade da adaptação e da promessa do direito que contrapõe à incerteza a promissão. Ao se negar ao aplicador a possibilidade de formar sua convicção a partir das normas do sistema jurídico, ou recusar a própria porosidade dos textos sumulares de modo a neles vislumbrar uma pretensa univocidade semântica de maquínico pendor essencialista, ignora- se a importante advertência de que quem enxerga na súmula ou ementa “(...) a resolução pronta para seu problema prático passa por cima do momento hermenêutico, e admite desligar-se do mundo concreto”. 11 Assim, a crença cega ou de veneração do conteúdo destes enunciados consiste em uma profissão insustentável de fé segundo a qual se busca “(...) suprir a vagueza da linguagem da lei recaindo no mesmo equívoco que se quer superar: acreditando na suposta precisão linguística das decisões judiciais”, 12 de modo a conferir uma convicção superlativa na habilidade dos juristas. É igualmente desnecessário temer que a segurança jurídica resulte chagada ou maculada ao se permitir ao julgador interpretar o espaço da moldura normativa de esforços sintetizadores como súmulas ou ementas, pois é em Frederick Schauer que se lê: “apelar a um precedente é uma forma de argumentação, e uma forma de justificação (...). A anatomia básica da argumentação por precedente é facilmente definida: o tratamento prévio de uma ocorrência X na forma Y constitui, unicamente por seu caráter histórico, uma razão para tratar X de forma Y se e quando ocorrer X novamente”. 13 E se acaso um julgador entender que X não ocorreu, ruirá o edifício jurídico do precedentalismo, ou a exceção confirmará a autoridade da regra? As leis são igualmente vinculantes, tais quais algumas súmulas, e ainda assim são ora aplicadas e ora 7 ALVIM, Arruda e SCHMITZ, Leonard. “Ementa. Função indexadora. (Ab)uso mecanizado. Problema hermenêutico”. In: NUNES, Dierle et al (Orgs.), A nova aplicação da jurisprudência e precedentes no CPC/2015: estudos em homenagem à professora Teresa Arruda Alvim, São Paulo, SP, Brasil: Thomson Reuters Revista dos Tribunais, 2017. pp. 654-676. 8 Ibid., p. 655. 9 Ibid., p. 655-656. 10 OST, François, O tempo do direito, São Paulo, SP, Brasil: Instituto Piaget, 2001. 11 NUNES et al (Orgs.), A nova aplicação da jurisprudência e precedentes no CPC/2015., p. 655. 12 Ibid. 13 SCHAUER, Frederick. “Precedente”. In: DIDIER JR et al, Precedentes, Salvador: JusPodivm : Coletâneas ANNEP : Coletânea Internacional, 2015., pp. 49-86. Fl. 210DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 17 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 não, pois reputa o julgador que o fato decidendo ou problema da vida não reclama que aquele texto específico seja conjurado naquele momento. Afirmar que uma lei não se aplica a um determinado caso não deve causar qualquer espanto ou perplexidade; aplicar o texto alheio ao fato, sim. Os precedentes têm um papel importante ao adotarem “critérios de densificação” 14 que poderão ser úteis, por seu turno, na solução de casos ulteriores. A jurisprudência se afigura, portanto, como uma das principais fontes de estabilização de costumes não-espontâneos ou oficiais da sociedade e dessa forma se apreende o emprego de uma expressão mediante a prática de interações institucionais que dão lugar a novas regularidades comportamentais: “(...) essa transformação contínua não desintegra as palavras e expressões; pelo contrário, segue um curso particular na sua história de interações e mudanças que desencadeia, de maneira a compor o mosaico da riqueza jurídica de uma sociedade”. 15 Por isso, não há de se estranhar a complexidade ou mesmo as diferentes interpretações acerca dos vocábulos que compõem as fórmulas e enunciados, pois se constituem vestígios imateriais de interações igualmente complexas de indivíduos sociais que delas fizeram uso. Na lição lapidar de José Maria Arruda de Andrade, “(...) conclui-se que não se deve acusar uma teoria de gerar insegurança quando ela se propõe, apenas, a descrever uma realidade”. 16 Se é possível se interpretar o texto sumulado, facultando-se ao aplicador entender pela sua convocação a um caso concreto e a outro não, exsurge a questão sobre como promover o seu enforcement. A leitura dos regimentos internos dos tribunais pátrios revela meios para que os precedentes prevaleçam, entre os quais se encontra a própria via recursal, ou expedientes processuais diversos como incidentes e reclamações, evidentemente de provocação e iniciativa das partes e não dos julgadores, tendo optado este tribunal administrativo pela punição do julgador que “(...) deixar de observar súmula”. Sobre este particular, desloca-se a decisão e, logo, parte ou fração da própria capacidade postulatória para a presidência do colegiado que passa a deter a prerrogativa de disparar o impulso sancionatório contra seu par que apresentar posicionamento diverso do seu, cabendo-lhe a decisão sobre se houve ou não o pressuposto de fato caracterizador da pena máxima de excomunhão. Assim, referiu-se em sessão pública de julgamento à aplicação do inciso VI do art. 45 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, 17 que determina a perda de mandato ao conselheiro que “deixar de observar enunciado de súmula ou de resolução do Pleno da CSRF”. A referência à punição como método de convencimento e o bálsamo da intimidação não podem de modo algum estar presentes em um julgamento, ato que reclama apoio institucional, lealdade e placidez, predicados que não podem jamais ser conjugados com constrangimento, temor ou mal-estar daqueles envolvidos no ato de concreção normativa. O dispositivo, ademais, foi objeto de severas críticas por parte da doutrina, como 14 HESPANHA, António Manuel, O caleidoscópio do direito: o direito e a justiça nos dias e no mundo de hoje, Coimbra: Almedina, 2009., p. 561. 15 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo, Argumentação tributária de lógica substancial, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil, 2015., p. 122. 16 ANDRADE, José Maria Arruda de, Interpretação da norma tributária, 1. ed. São Paulo: MP Editora/APET, 2006., p. 187. 17 Sessão de março de 2021 da 1 a Turma da 4 a Câmara da 3 a Seção de Julgamento (CARF/ME 3401), São Paulo, SP, Brasil: CARF/ME, 2021., disponível em <https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499>. Fl. 211DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499 Fl. 18 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Lenio Streck, 18 por todos, que nele enxergou a repristinação daquilo que Rui Barbosa apodou como “crime de hermenêutica”: “(...) fiquei sabendo que o CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) tem um dispositivo em seu Regimento que estabelece algo similar ao ‘crime de hermenêutica’ denunciado pelo grande Rui, na especificidade do artigo 45, aprovado pela Portaria MF 343/2015 (já se pode ver que uma Portaria no Brasil pode valer mais do que a Constituição) (...). Ou seja, na visão de parte do Carf, ou você cumpre a súmula de forma textualista (pensemos no positivismo do século 19) ou você tenta dela desviar, distinguindo. Mas, pergunto, sempre com lhaneza: não haveria outras vias para enfrentar imbróglios hermenêuticos? E mais: como se dá o distinguishing de uma súmula? Como diferenciar um caso de vários casos que ensejaram a criação da súmula — quando se defende, do outro lado, que a aplicação da súmula seja à moda textualista? Difícil de entender. (...) Uma coisa singela: não deve ser proibido divergir de súmula ou até deixar de a aplicar, porque, numa súmula, o que é dotado de autoridade não é a súmula ‘em si mesma’ (e essa é uma questão filosófica), mas as leis, as diretrizes, os princípios legais que embasam a súmula e aos quais ela responde. Esse é o ponto. Há sempre uma história institucional a ser revolvida e reconstruída. Porque súmula é texto. Como qualquer lei. E textos são eventos. Há um chão linguístico em que isso tudo está assetando”. 19 A questão é de extrema relevância, como se pôde perceber por meio das inúmeras manifestações da comunidade jurídica registradas por Laércio Cruz Uliana Junior ao tratar do tema em seminal artigo, em especial ao questionar: “(...) o caminho para se discutir a correção de uma decisão fundamentada, concordemos ou não com ela, deve ser a punição do julgador? Não será a discordância justamente o motor que move e dá sentido ao Direito?”. 20 A preleção é sucedida pela insuplantável afirmação: “(...) as discordâncias devem constar dos autos e jamais transbordarem, na forma de punição, sobre as vidas dos julgadores (...). Como afirmou o Ministro Gilmar Mendes ao tratar do tema, a situação é preocupante, devendo, de um lado, o dispositivo que trata da perda de mandato ser revisto e, de outro, os aplicadores terem conhecimento da teoria dos precedentes”. Observamos, naquela oportunidade, e reiteramos neste momento, o desejo de que cada manifestação colabore para a construção de um CARF cada dia melhor, pois este é o desejo de todos os seus integrantes, não importa a origem de sua representação, e o conselheiro, ao aplicar uma distinção, está plenamente ciente de sua 18 STRECK, Lenio, O “crime de hermenêutica” ainda vigorante no CARF: chamemos Rui!, Consultor Jurídico - Conjur, 2021. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2021-abr-15/senso-incomum-crime-hermeneutica- ainda-vigorante-carf-chamemos-rui>, último acesso em 24/01/2021. 19 Ibid. 20 ULIANA JUNIOR, Laércio Cruz, Para julgar, é preciso ter coragem, mas também liberdade, 2021. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/para-julgar-e-preciso-ter-coragem-mas-tambem- liberdade/>, último acesso em 24/01/2021. Fl. 212DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://www.conjur.com.br/2021-abr-15/senso-incomum-crime-hermeneutica-ainda-vigorante-carf-chamemos-rui https://www.conjur.com.br/2021-abr-15/senso-incomum-crime-hermeneutica-ainda-vigorante-carf-chamemos-rui https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/para-julgar-e-preciso-ter-coragem-mas-tambem-liberdade/ https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/para-julgar-e-preciso-ter-coragem-mas-tambem-liberdade/ Fl. 19 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 responsabilidade institucional, pois as decisões têm, na acepção de Neil MacCormick, 21 a faculdade de contribuir para o desenvolvimento do direito e das instituições. Em verdade, assente-se ao fato de haver modalidades mais adequadas de se promover e fazer valer o self restraint que não aquelas voltadas a punir e coarctar o julgador, que pode se ver pressionado ou constrangido a alterar o seu convencimento motivado para evitar a inflição da pena máxima. Em outras palavras, incorpora um aspecto de sua vida profissional à decisão: um evento, ainda que importante para a pessoa do intérprete, extra autos, infenso ao processo e indiferente ao caso. Evidentemente, trata-se de um vero “excludente de ilicitude” (sic) o distinguishing fundamentado, como estrito cumprimento de dever legal ou exercício regular de direito, como se preferir, pois não há como se defender a aplicação de norma, qualquer que seja, onde ela não se aplica. Caso contrário, seria possível se questionar o motivo de este colegiado não aplicar ao presente caso as Súmulas CARF nº 10 ou 12, sob o pálio da álea, sob pena de representação, e a resposta seria: por que elas nada têm a ver com o presente caso. E nenhuma punição advirá de tal comportamento, ainda que desmotivado, assim como se entende que nenhuma pena deva ser originada da afirmação, motivada, de que tampouco a Súmula CARF nº 11 se aplica, assim como a 30 ou 40. Em suma, as súmulas são de cumprimento obrigatório desde que caibam no contexto fático-concreto em que convocadas, e o papel do julgador administrativo é justamente decidir se uma norma é ou não aplicável a um determinado caso, e a isto se chama aplicação. Ainda assim, apenas se cogitará da perda de mandato se o julgador “deixar de observar enunciado de súmula”, o que ecoa justamente o caput do art. 927 do Código de Processo Civil: “(...) os juízes e os tribunais observarão (...) II. Os enunciados de súmula vinculante”. Aqui "(...) temos de fazer referência a um pressuposto importante da hermenêutica (...): o legislador racional", 22 que atende a um dos princípios básicos da hermenêutica dogmática, o da inegabilidade dos pontos de partida, devendo haver um sentido básico nas palavras. E é neste momento que se percebe a possibilidade de se prover ao jurisdicionado segurança jurídica mesmo diante da admissão (singela, porém poderosa em efeitos práticos) de que os textos podem ser interpretados: a certeza está na referibilidade ao texto da norma, na convicção inarredável de que, no fim do dia, o realizador/aplicador deverá apresentar o direito posto, o lastro positivo de sua asserção. 23 Deve, portanto, o conselheiro no âmbito do CARF, ao proferir um voto, observar a súmula. A súmula, em outras palavras, não poderá jamais ser ignorada, não há permissão para se passar ao largo dela, há aqui um sentido de ônus de argumentação, de inexorabilidade. 21 MACCORMICK, Neil; SUMMERS, Robert S. (Orgs.), Interpreting precedents: a comparative study, Aldershot ; Brookfield, Vt: Ashgate/Dartmouth, 1997., p. 15: “Judges are well aware that their decisions contribute to the development of the law, and they do therefore have regard to issues of policy and of principle in working towards their decisions”. 22 FERRAZ JR., Tercio Sampaio, Introdução ao Estudo do Direito - Técnica, Decisão, Dominação, 11 a . São Paulo: Atlas, 2019., p. 451. 23 BRANCO, Argumentação tributária de lógica substancial., p. 145: E neste ponto reside justamente a segurança jurídica que se teme perder quando o aplicador deixa de ser seduzido pela subsunção euclidiana e se abre à postura terapêutica da tópica: a referibilidade ao texto do direito positivo espanca a postura relativista ao mesmo tempo que não renega o espaço fluido e maleável da vontade. A segurança e a estabilidade do direito “(...) não estão na certeza de um conteúdo decisório específico, mas de que, em algum momento, haverá uma decisão comprometida com o ordenamento, o que nos leva ao desenvolvimento da tese da imprescindibilidade do apoio positivo”, conjugando, assim, razão e volição. Fl. 213DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 20 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 De um lado, “(...) o âmbito de liberdade de interpretação tem o texto da norma como limite. Afinal, o significado do texto tem de apontar para um universo material verificável em comum ou para um uso comum". 24 De outro, é possível que ela não caiba naquele caso, mas deverá ser ao menos visitada: “(...) fala-se em uma referibilidade da norma-decisão ao texto normativo do qual ela se originou”. 25 Se é dever do conselheiro agir com vistas à obtenção do respeito e da confiança da sociedade, como se insculpe no art. 41 do RICARF, se existe a necessidade de se observar o devido processo legal, se é imperativo "(...) cumprir e fazer cumprir, com imparcialidade e exatidão, as disposições legais" a que está submetido, entre elas as leis processuais, entende-se que seria desleal de nossa parte com as regras a que nos submetemos deixar de votar conforme nossa convicção fundada; caso o fizéssemos, o vão mandato já estaria desde a posse perdido. Seria trair a confiança e o respeito a toda a comunidade jurídica que integramos decidir de maneira claudicante. No CARF, a mais alta corte administrativa federal tributária deste país, não se claudica, vota-se. Em prestígio ao textualismo (sic), necessário que se obedeça estritamente ao dispositivo em apreço, o que se passa a fazer mediante a mais detalhada observância do texto da Súmula CARF nº 11. DA OBSERVÂNCIA À SÚMULA CARF Nº 11 1. Prescrição intercorrente em matéria administrativa e edição da Súmula CARF nº 11 A prescrição intercorrente é a regra geral para a persecução do administrado diante da omissão da Administração que, ao se quedar inerte deixa de decidir ou julgar a pretensão resistida do jurisdicionado, fulminando o direito material em disputa, exceto no caso de “infrações de natureza funcional” e “processos e procedimentos de natureza tributária”. Assim, necessário se verificar o texto da norma: Lei nº 9.873/1999 - Art. 1º Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1º Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. (...) Art. 5º O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária. 24 FERRAZ JR., Introdução ao Estudo do Direito - Técnica, Decisão, Dominação., p. 468. 25 ANDRADE, Interpretação da norma tributária., p. 294. Fl. 214DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 21 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Diante o entendimento pacificado do egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região de que incide a prescrição intercorrente em caso de sanções não-tributárias, ou seja, aquelas não excepcionadas pela coleção textual acima transcrita, é necessário que se reflita a respeito da extensão da Súmula CARF nº 11 a partir da lei, em especial o inciso V do § 1º do art. 489 do Código de Processo Civil de 2015, regra que não pode ser ignorada pelo aplicador no momento da concreção normativa. A este respeito, a análise de todos os acórdãos que levaram à redação do enunciado sumulado 26 conduz à conclusão de que dispuseram exclusivamente sobre a exceção prevista pelo legislador, sobre a qual não se aplica, por evidente, o instituto prescricional, o que revela a motivação fundante ou determinante de sua edição. Assim, multas aduaneiras estariam fora da área de incidência da norma administrativa, restando possível ao julgador deliberar a matéria sem a amarra sumular. Observa-se, ainda, que nenhum dos acórdãos deste Conselho houve por bem analisar, como se passa a fazer, a ratio decidendi dos acórdãos, em desprestígio à norma processual, sequer para verificar que de fato não se cogitou em nenhum dos precedentes de sanções não-tributárias, o que por si só já seria suficiente para se aplicar a distinção. Assim, indica-se, como se verá a seguir, uma aplicação indiscriminada da Súmula CARF nº 11, cuja realização deve ser temperada cum grano salis. Se todos a análise de todos os acórdãos revela unanimidade e linearidade na sua aplicação, em quantos deles foram analisados os precedentes que formaram a súmula? A resposta é igualmente linear e uniforme: em nenhum. O presente voto passa a investigar a hipótese de que a prescrição intercorrente se aplica a processos sancionatórios de natureza material não-tributária, o que exige um percurso racional ou protocolo argumentativo regrado, em prestígio à correta observância da súmula. 2. Como se aplicam as súmulas? No dia 31/03/2021, foi publicada a Nota Técnica SEI nº 15.067/2021/ME com “Esclarecimentos acerca da aplicação das Súmulas dos Primeiro, Segundo e Terceiro Conselhos de Contribuintes ao CARF” que, apesar de não inovar, esclareceu que as súmulas, quando aplicáveis ao caso concreto, são de cumprimento obrigatório mesmo quando originárias de Seções diversas àquela da competência material da matéria em julgamento, nos termos do art. 72 do Anexo II do RICARF, conteúdo que sempre reputamos irreprochável. De fato, de modo a ressoar seu correto conteúdo, a Medida Provisória nº 449, de 04/12/2008 unificou os antigos Primeiro, Segundo e Terceiro Conselhos de Contribuintes e a Câmara Superior de Recursos Fiscais em um único órgão, colegiado e paritário, denominado Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), subordinado à estrutura do Ministério da Fazenda e instalado mediante a Portaria MF nº 41, de 16/02/2009, tendo sido seu regimento interno vestibular aprovado pela Portaria MF nº 256, de 25/06/2009, com expressa previsão de adoção das súmulas dos extintos Conselhos, o que passou, ainda, pelo crivo do Pleno e das turmas da CSRF em dezembro de 2009 para fins de consolidação e renumeração de súmulas. O exímio, hercúleo e elogioso trabalho resultou na Portaria CARF nº 106, tudo em conformidade com o rito 26 Acórdão nº 103-21113, de 05/12/2002 Acórdão nº 104-19410, de 12/06/2003 Acórdão nº 104-19980, de 13/05/2004 Acórdão nº 105-15025, de 13/04/2005 Acórdão nº 107-07733, de 11/08/2004 Acórdão nº 202-07929, de 22/08/1995 Acórdão nº 203-02815, de 23/10/1996 Acórdão nº 203-04404, de 11/10/1997 Acórdão nº 201-73615, de 24/02/2000 Acórdão nº 201-76985, de 11/06/2000. Fl. 215DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 22 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 regimental de 2009 reiterado pela Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, consolidando os textos como Súmulas do CARF – e, recorde-se, as consolidações não acrescem eficácia normativa. A nota, de acuidade histórica irretorquível, vem repisar: quando cabíveis, as súmulas serão aplicadas de maneira mandatória, e não deve haver qualquer dúvida quanto à existência, vigência, validade e eficácia da Súmula CARF nº 11, objeto do presente voto, e, esclareça-se, jamais se cogitou obstar a aplicabilidade de qualquer enunciado devido ao fato de os precedentes serem originários de uma única Seção de Julgamento do CARF. Repise-se: tal argumento, isolado, parece-nos insuficiente e jamais foi, e continua a não ser, motor de nossas convicções para se concluir a respeito do caso decidendo, pois o texto sob análise, em nosso entendimento, é aplicável a todas as Seções deste tribunal administrativo, indistintamente. 27 Acresce-se, a tal labor histórico, que a Súmula exsurge na experiência brasileira não como síntese de precedentes, mas como forma limitativa de acesso aos tribunais discutida na comissão de reforma constitucional de 1957, tendo sido sugerida pelo célebre ministro do Supremo Tribunal Federal Victor Nunes Leal para que se “(...) consolidasse num só documento e por meio de enunciados as orientações dominantes do tribunal, a fim de facilitar o conhecimento da jurisprudência da Corte”. 28 Em 1963, por meio de emenda ao regimento interno da Corte, foram criadas as chamadas “súmulas de jurisprudência” e, desde então, outros tribunais passaram a fixar seu entendimento predominante em textos sumulares. Como observa Daniel Mitidiero, os instrumentos sumulares foram “(...) inicialmente pensados como métodos de trabalho (...) objetivavam colaborar na tarefa de identificação” 29 constituindo, assim, um “(...) ‘horizonte de interpretação do Supremo Tribunal Federal para a orientação dos seus próprios ministros”. 30 A conceição das súmulas está ligada, portanto, à ideia de se tornarem “(...) mecanismos voltados a facilitar a resolução de casos fáceis que se repetem” 31 e, neste passo, cabe o estudo da preleção irretorquível de Luiz Guilherme Marinoni: “Como as súmulas foram concebidas de modo a apenas facilitar a resolução dos recursos, foram pensadas como normas com pretensões universalizantes, ou melhor, como enunciados abstratos e gerais voltados à solução de casos. Note-se, entretanto, que as súmulas são calcadas em precedentes e, portanto, não podem fugir do contexto fático dos casos que lhe deram origem, assim como as proposições sociais que fundamentaram os precedentes que os solucionaram. Sem a busca da história, ou, ainda melhor, do DNA – por assim dizer – das súmulas, jamais será possível tê-las como auxiliares do desenvolvimento do direito, já que não existirão critérios racionais capazes de permitir a conclusão de que determinada súmula pode, racionalmente, ter o seu alcance estendido ou restrito (distinguishing) para permitir a solução do caso sob julgamento. 27 Sessão de março de 2021 da 1 a Turma da 4 a Câmara da 3 a Seção de Julgamento (CARF/ME 3401)., disponível em <https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499>. 28 LIMA, Tiago Asfor Rocha, Precedentes judiciais civis no Brasil, São Paulo, SP: Editora Saraiva, 2013., PP. 185-186. 29 MITIDIERO, Daniel, Precedentes - da persuasão à vinculação, 2 a . São Paulo, SP, Brasil: Editora Revista dos Tribunais, 2017., p. 72. 30 Ibid. 31 MARINONI, Luiz Guilherme, Precedentes obrigatórios, 5 a . São Paulo, SP, Brasil: Editora Revista dos Tribunais, 2016. Fl. 216DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499 Fl. 23 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Portanto, fora o grave e principal problema de o instituto da súmula não ter sido atrelado à afirmação da coerência da ordem jurídica e à garantia da segurança jurídica e da igualdade, as súmulas foram vistas como normas gerais e abstratas, tentando-se compreendê-las como se fossem autônomas em relação aos fatos e aos valores relacionados com os precedentes que as inspiraram. Esqueceu-se, com está claro, que as súmulas só têm sentido quando configuram o retrato da realidade do direito de determinado momento histórico e que, assim, não pode deixar de lado não apenas os precedentes que as fizeram nascer, mas também os fundamentos e os valores que os explicam num certo ambiente político e social. Na verdade, como as súmulas não foram visualizadas, na prática do direito brasileiro, no amplo contexto dos precedentes, os tribunais não tiveram sequer oportunidade de realmente confrontá-las com os casos que lhes eram submetidos. Se a súmula é compreendida como enunciado geral e abstrato, a sua leitura pode aproximá-la ou afastá-la, sem qualquer critério racionalmente adequado, do caso sob julgamento. Nessas condições, torna-se também difícil constatar se os precedentes que a elegeram estão superados, já que, para tanto, deveria o intérprete mergulhar no ambiente que lhes era próprio. Como já dito, ao considerar os fundamentos e valores que basearam os precedentes, seria possível ao juiz realizar o distinguishing, tomando em conta situação não prevista quando da promulgação dos precedentes e da edição da súmula. Bastaria que entre esta nova situação e a súmula houvesse congruência social, ou seja, que os valores sociais que estão na base da súmula justificassem a sua aplicação diante da nova situação concreta” - (g.n.). 32 Os precedentes são, neste esteio, “(...) razões necessárias e suficientes para solução de uma questão devidamente precisada do ponto de vista fático-jurídico obtidas por força de generalizações empreendidas a partir do julgamento de casos” (g.n.) 33 e, neste sentido, necessário se resgatar de Marinoni a afirmativa de que também as questões preliminares podem dar origem a decisões que têm plenas condições de formar ratio decidendi, 34 ou “motivos determinantes”, i.e., aquele imprescindível à disposição, o que implica a necessidade de um olhar detido à fundamentação das decisões que levaram ao seu insulamento dos demais argumentos. E claramente que o precedente apenas é garantido quando existe a cogência ou vinculação de sua aplicação, pois “(...) a eficácia vinculante tem o mesmo objetivo da eficácia obrigatória dos precedentes e, nesta dimensão, do stare decisis”. 35 E assim é porque “(...) a parte dispositiva não é capaz de atribuir significado ao precedente – esse depende, para adquirir conteúdo da sua fundamentação, ou, mais precisamente, da ratio decidendi ou dos fundamentos determinantes da decisão” 36 (g.n.). E prossegue, de modo a expungir do debate qualquer dúvida: “(...) na verdade, a eficácia obrigatória dos precedentes é, em termos mais exatos, a eficácia obrigatória da ratio decidendi”, motivo pelo qual defendemos que o conteúdo eficacial da 32 Ibid. 33 MITIDIERO, Precedentes - da persuasão à vinculação., p. 90. 34 MARINONI, Precedentes obrigatórios., p. 188. 35 Ibid., p. 226. 36 Ibid. Fl. 217DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 24 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 súmula do CARF ou de qualquer órgão judicante inserto na lógica processual ocidental e, mais especificamente, no Brasil, pretende dar estabilidade e força obrigatória ao motivo determinante, à assim chamada ratio decidendi, pois “(...) é a sua aplicação uniforme – e não o respeito exclusivo à parte dispositiva – que garante a previsibilidade e a igualdade de tratamento perante a jurisdição”. 37 Afirmar que a vinculação se refere ao dispositivo é “(...) não ter consciência de que a eficácia vinculante tem o objetivo de preservar a coerência da ordem jurídica, assim como a previsibilidade e a igualdade”. 38 Por este motivo Tércio Sampaio Ferraz Jr. aponta para o conceito de norma que transparece, hoje, como uma noção marcadamente integradora, e este é precisamente “(...) o caso das chamadas súmulas (...) que, a rigor, obrigam não porque estão previstas expressamente pelo sistema normativo, mas porque representam o modo pelo qual certos casos são, via de regra, julgados (...) assinalando, assim, certa uniformidade na atividade dos órgãos aplicadores do direito” 39 . E ainda que uma determinada súmula seja enunciada a partir de vocábulos mais do que polissêmicos, pois todos assim o são, mas também marcadamente genéricos, a remeter, e.g., a um “processo fiscal” sem extremar matérias específicas, persiste o ônus do aplicador que refazer o curso que levou à sua aprovação, justamente em respeito ao tribunal que integra, de modo a causar espécie e desconforto se cogitar de sua uma “aplicação literal” dos textos. 40 Uma prática de tal jaez teria seu tempo e lugar, talvez na École de L’Exégèse na França pós-revolucionária, 41 em que a lei e a literalidade irromperam como garantias contra o abuso do Estado no contexto das revoluções liberais e de um jusnaturalismo racionalista, gerando poder às assembleias e desconfiança com relação aos juízes e a ideia de que as codificações trariam menor risco de deturpação das leis. Se legalismo e separação dos poderes emergiram neste tempo como garantidores da liberdade negativa (contra o Estado) e da propriedade, tomando a interpretação como um ato matemático e neutro (mens legis como mens legislatoris), afirmá-lo nos dias de hoje seria até mesmo possível, 42 mas soaria não apenas falso, como envelhecido e soterrado pela densa, pesada poeira do anacronismo. O radical legalismo, na expressão de Castanheira Neves em seu insuperável “O instituto dos ‘assentos’”, em sua feição textualista, que reduzia a função jurídica a “(...) uma 37 Ibid., p. 227. 38 Ibid. 39 FERRAZ JR., Tercio Sampaio, A ciência do direito, 2 a . São Paulo: Atlas, 2010., p. 59. 40 SARMANHO, Fabricio, Súmula 11 do CARF e sua aplicabilidade às infrações aduaneiras - começou-se a debater a possibilidade de realização de distinguish para determinar a não aplicação da súmula nessas situações, JOTA, p. 1, 2021. “Até março de 2021, a Súmula 11 do CARF era reiteradamente aplicada aos processos de multa aduaneira, por votações unânimes, talvez até pela clareza do seu texto: ‘Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal’”. 41 ANDRADE, Interpretação da norma tributária., pp. 33-58 e 93-98. Para uma análise de quatro correntes de interpretação teórico-jurídicas da perspectiva das tensões entre o positivismo e o formalismo: “A supremacia do texto escrito (...) confirma a desconfiança daquela escola para com os juízes, que, na expressão consagrada de Montesquieu, deveriam se limitar a ser ‘la bouche qui prononce les paroles de la loi’, ou, nos dizeres de Robespièrre, ao justificar a função do Tribunal de Cassation, ‘menos juiz dos cidadãos e do que protetor das leis, com o objetivo de censurar a contravention expresse au texte de la loi”. 42 KAUFMANN, Arthur; HASSEMER, Winfried; HESPANHA, António Manuel, Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporâneas, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009., p. 295: “(...) que se observe que as indicações dadas por cada um dos cânones de interpretação não vincula o juiz a um certo resultado, pois não há qualquer meta-regra para as regras de interpretação”. Fl. 218DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 25 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 tarefa de aplicação mecânica, lógico-silogística do texto legal” no qual a “questão de direito” 43 se definia “(...) pelo conhecimento literal desse mesmo texto, prevenindo unicamente as suas contradições flagrantes e formais”, 44 tem por base “(...) uma ingênua confiança, na onipotência da lei, (...) de todo alheios à realidade, e só explicáveis por uma intenção exclusivamente política”. 45 Há de se ter em mente a noção de que “(...) los elementos puramente formales y lógicos que se ofrecen a los jurisconsultos en el aparato exterior y plástico del derecho positivo son insuficientes para satisfacer las aspiraciones de la vida jurídica”, 46 lição que nos lega François Gény. Como bem se apercebeu Pedro Adamy, o juiz não é e nem deve ser “(...) um mero repetidor de palavras (...) a aplicação de Súmulas não é uma atividade automática, que decorre da mera leitura das palavras consolidadas no texto da súmula”. 47 De fato, “(...) fosse desnecessária a interpretação, fossem as normas tributárias mecanismos de simples e autômata aplicação, desnecessário seria o Estado-Juiz, desnecessário seria o CARF”, 48 e, de fato, aqui está o papel do julgador em uma sociedade. 49 A busca da quimera de se destilar a partir de métodos hermenêuticos a “descoberta” de um sentido preexistente fracassa diante da constatação da carga subjetiva do intérprete e da vagueza potencial dos textos – na clareza, inicia-se a interpretação, 50 e a segurança e a certeza, 51 repise-se, estarão no compromisso com as normas postas (direito positivo), não cabendo ao aplicador dispor da súmula a seu talante e alvedrio à revelia dos dispositivos normativos de seu país. 43 NEVES, A. Castanheira, O instituto dos “assentos” e a função jurídica dos supremos tribunais, 1 a . Coimbra: Coimbra Editora, 2014., pp. 81-82. “Tudo o que só era compreensível com fundamento naquele radical legalismo que concebia a lei tão absoluta e auto-suficiente que lhe era possível proibir a interpretação, pensar em prescindir da jurisprudência e ver nos juízes ‘la bouche qui prononce les paroles de la loi’”. 44 Ibid. 45 Ibid. 46 GENY, François; SALEILLES, Raimundo; MONEREO PÉREZ, José Luis, Método de interpretación y fuentes en derecho privado positivo, Granada: Editorial Comares, 2000., pp. 533-534. 47 ADAMY, Pedro, A boca que pronuncia as palavras da Súmula - Os conselheiros do Carf não são apenas a boca que pronuncia as palavras da Súmula, JOTA, p. 2, 2021. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e- analise/colunas/coluna-do-carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021>. 48 ULIANA JUNIOR, Para julgar, é preciso ter coragem, mas também liberdade. 49 STRECK, O “crime de hermenêutica” ainda vigorante no CARF: chamemos Rui!: “Textos de leis, de súmulas, de precedentes, só têm sentido quando interpretados à luz da tradição em que inseridos. Em todo seu conjunto. É aí que o papel do intérprete é o de fit, um ajuste institucional entre caso concreto, lei aplicável, precedentes, à toda a ordem legal que antecede tudo isso e que tem como condição de possibilidade a moral compartilhada e filtrada pelo fenômeno jurídico. (...) no Carf parece que vigora a máxima ‘o direito é o que as súmulas do Carf dizem que é’. Não me parece que seja a melhor forma. (...) Imaginemos uma súmula que diga ‘são proibidos cães em rodoviárias’. Um textualista proibiria o cão guia do cego e permitiria ursos e jacarés. E proibiria o meu cãozinho Yorkshire. Aplicaria bem a súmula, não? (...) para quem é textualista, lembro que o artigo 926 do CPC é um texto. Logo, quem é textualista...”. 50 ANDRADE, Interpretação da norma tributária., pp. 290-291: “(...) a constatação da vagueza das normas jurídicas (textos jurídicos) não representa (...) a proclamação de um ideal verificacionista a atribuir ao intérprete a tarefa de precisar o sentido dos textos jurídicos, o que seria, ao final, estabelecer tão-somente outra pauta hermenêutica nos moldes da tradicional. Algo como ‘o aplicador deve percorrer todos os métodos hermenêuticos e, após, precisar os termos vagos’, o que não é o caso”. 51 STRECK, Lenio, A “literalidade” e a falsa disputa entre “letra” e “além da letra”, Consultor Jurídico - Conjur, p. 4, 2020.: “A todo momento aparecem as (falsas) dicotomias como "literalidade" — "não literalidade" (muitas vezes travestida de voluntarismo). Não é proibido aplicar a "letra da lei". Mas, por que ponho as aspas? Porque até o texto literal é interpretável. Despiciendo dizer que, ao menos depois do linguistic turn, já não se pode falar no "in claris...". Adágio preso no século 19, como aqueles que parecem incapazes de compreender que o mais simples dos textos é, afinal, interpretado. Não existe uma cisão entre aplicar e interpretar uma lei. Só se aplica... interpretando. Como dizia Gadamer, no pietismo é que se fazia cisão entre subtilitas (intelligendi, explicando e applicandi). E ele dizia: está errado. O que há é applicatio.” Fl. 219DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021 https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021 Fl. 26 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 “(...) a aplicação de Súmulas não é uma atividade automática, que decorre da mera leitura das palavras consolidadas no texto da Súmula. Ainda, a aplicação não é ato que se realiza sem qualquer tipo de intervenção do intérprete ou sem qualquer fenômeno interpretativo, em maior ou menor grau. Pelo contrário. A aplicação das Súmulas pressupõe um juízo bastante criterioso entre a situação fática posta ao exame do CARF, da legislação aplicável ao caso concreto, bem como, da posição sumulada do Conselho. Para que isso fique claro, basta analisar as disposições atinentes às Súmulas presentes no Código de Processo Civil. Os conselheiros do CARF não são apenas a boca que pronuncia as palavras da Súmula, seres inanimados, que não podem moderar nem sua força, nem seu rigor. Se é verdade que os dispositivos legais não podem ser objeto de mera repetição pelo juiz, transformando os julgadores em meras “bocas da lei”, também as Súmulas não são passíveis de serem objeto de mera repetição acrítica pelos conselheiros do CARF, transformando-os em meras “bocas da Súmula”. A força de uma Súmula e o seu rigor na aplicação ao caso concreto são elementos que competem aos julgadores. Presumir que haverá aplicação acrítica e automática de texto de Súmula a todos os casos que, em maior ou menor grau, se assemelham ao texto da Súmula é negar a própria natureza da atividade julgadora que é, de maneira inegável, atividade interpretativa. Ainda, a Súmula e o seu texto não têm natureza autônoma, desprendida dos casos que ensejaram a sua edição. Como acima mencionado, o confronto entre os casos que fundamentaram e consolidaram a posição do Conselho, cristalizado em uma Súmula, é elemento indispensável na atividade julgadora que pretenda decidir com base em posição sumulada”. 52 Assim, é a partir de regras especialíssimas que se constrói o sentido sumulado apto a empreender a comparação entre os casos a fim de que se possa aferir se são ou não suficientemente similares, o que remete a textos que não podem ser deixados ao abandono, em especial o art. 489, §1º, V, o § 2º do art. 926, o inciso VI do § 1º do art. 927 e o art. 1.037, § 9º da codificação processual de 2015. Acresça-se o Enunciado nº 306, do Fórum Permanente dos Processualistas Civis (FPPC), sob a coordenação, entre outros, de Fredie Didier Jr, que conta com a seguinte redação “O precedente vinculante não será seguido quando o juiz ou tribunal distinguir o caso sob julgamento, demonstrando, fundamentadamente, tratar-se de situação particularizada por hipótese fática distinta, a impor solução jurídica diversa”. Necessário se ressaltar, portanto, que a súmula não expressa fundamentos, mas realiza um esforço sintetizador ou indexador, sem apontar justamente para o que há de mais relevante para a sua aplicação, ou 52 ADAMY, A boca que pronuncia as palavras da Súmula - Os conselheiros do Carf não são apenas a boca que pronuncia as palavras da Súmula. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do- carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021>. Fl. 220DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021 https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-carf/a-boca-que-pronuncia-as-palavras-da-sumula-13042021 Fl. 27 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 seja, a motivação determinante, seja a ratio decidendi ou, como prefere a tradição norte- americana, holding, extremada das obter dicta, ou considerações periféricas: “A súmula não se preocupa com fundamentos, mas apenas em expressar um enunciado, que é um simples resultado interpretativo. Um mero enunciado ou resultado interpretativo jamais será capaz de fornecer aos juízes dos casos futuros as razões da decisão (...). As razões pelas quais a maioria de um colegiado se posicionou em um determinado sentido só são compreendidas com a leitura da íntegra do julgamento, uma vez que a ementa deixa explícito apenas o que corresponderia, em uma sentença, ao dispositivo. Ementa 'sintetiza a tese jurídica adotada no julgamento', por meio das razões de decidir explicitadas pelo relator. E, no que diz respeito à correta compreensão da força normativa (= da eficácia de precedente) do direito jurisprudencial, importam muito mais os motivos, até mesmo para o exercício de universalização pelo intérprete futuro, do que o decisum em si. A esse propósito, lembre-se de que as súmulas sofrem das mesmas patologias descritas neste artigo: são textos genéricos e desprendidos, pretendem-se autossuficientes sem de fato ostentar essa natureza e têm sido utilizadas de maneira descontextualizada pela jurisprudência de modo geral. Se as ementas, e bem assim as súmulas, são indexadas (isto é, redigidas) tendo em vista o que foi pedido e julgado, e não com foco na causa de pedir e no fundamento da decisão, a busca por uma ratio decidendi jamais será possível pela mera pesquisa da jurisprudência catalogada. Assim como pelo título do presente artigo, o leitor consegue ter apenas uma vaga ideia a respeito do que será abordado (e somente a leitura integral pode fornecer elementos sobre seu conteúdo), os enunciados apresentam tão somente a casca daquilo que é a jurisprudência; para conhecê-la, não basta contentar-se com a aparência. Direito jurisprudencial, assim, é tema que exige uma caminhada (hermenêutica) firme, mas sem pressa e sem superficialidade. A redação da ementa/súmula dá-se após a votação (...) se presta unicamente a facilitar a identificação dos fundamentos determinantes de um julgado; não representa os fundamentos em si. Em obra clássica, o italiano Ugo Rocco reconhece, inclusive, que a redação da ementa/súmula de uma sentença colegiada é um ato meramente interno que tende a fixar os dermos da deliberação adotada pelo relator. Daí a ementa assumir a natureza de índice, e não de conteúdo. (...) Como a ementa/súmula é uma posterior síntese daquilo que foi julgado, é inevitável que ela não represente o julgado em si, mas apenas sirva como uma primeira mostra de seu conteúdo” 53 (g.n.). 53 ALVIM, Arruda e SCHMITZ, Leonard. “Ementa. Função indexadora. (Ab)uso mecanizado. Problema hermenêutico”. In: NUNES et al (Orgs.), A nova aplicação da jurisprudência e precedentes no CPC/2015., pp. 673-674. Fl. 221DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 28 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Aplicar “literalmente” a Súmula CARF nº 11, e.g., por remeter a um “processo administrativo fiscal”, ainda que se grife o vocábulo “fiscal”, é julgar com a casca daquilo que foi decidido para nos valermos da expressão dos autores, é buscar a ratio decidendi onde ela não habita. Afirma-se, em coro com Luís Eduardo Schoueri, 54 que não apenas os veios ou entroncamentos aduaneiro ou tributário, mas a própria jusante do fluxo do Direito é movida pela consciência de que “(...) as normas não se constroem abstratamente, mas à luz de cada caso concreto. Precedentes jurisprudenciais influem o entendimento do aplicador da lei, do mesmo modo como as circunstâncias de cada caso podem, qual facho de luz, apontar para um aspecto da norma antes desconhecido, ou cuja construção antes não era possível”. 55 É difícil o caminho hermenêutico proposto (rectius: determinado) pela lei brasileira, e a prática da vida é difícil. Não deve, ademais, causar absolutamente qualquer incômodo a afirmação no sentido de que não é possível ao aplicador se esconder atrás do escudo metodológico do formalismo e da interpretação literal pautada pela contradição do “tipo cerrado e dado” para decidir, pois este tem sido o vero leitmotiv de inúmeros recursos fazendários contra planejamentos tributários reputados indesejados. Especialmente por desafiar os limites de aplicabilidade da súmula do caso decidendo é que não deve se constranger o aplicador conjurar o seu enunciado ladeado pelos seus fundamentos determinantes, de modo a demonstrar por qual motivo, em seu entendimento, o caso sob julgamento se ajusta ou não à ratio depurada. Tal afirmação é de extrema importância porque o realizador da norma, sobremaneira o julgador administrativo, não pode flertar com o legislador positivo, o que decorre da separação das funções do Poder: se leges imperfectae, interpositivo legislatoris, não sendo aceitável que se avoque como apto a declarar o texto faltante, sob pena de se irrogar competência legislativa que não possui em postura declaradamente contramajoritária e, diga-se, autoritária, devendo sim aquiescer ao fato de que deve submeter a formação da convicção à metodologia apropriada ao modelo do stare decisis. É árdua a tarefa de se identificar a motivação determinante e, como constatam Nina Pencak e Raquel Alves com precisão merecedora de encômios, tal indústria“(...) resulta de um processo complexo de assimilação baseado no ‘Mootness Principle’ (‘Princípio da Vinculação ao Debate’), que estabelece que os tribunais não podem discursar abstratamente sobre regras jurídicas hipotéticas, mas apenas esclarecer as regras que derivam especificamente da análise de cada caso concreto”. 56 De toda sorte “(...) a decisão de aplicar cada precedente a um novo caso concreto implica um debate prévio acerca de sua ratio decidendi, por parte dos órgãos de aplicação, não ocorrendo, assim, de forma automática. Com isso, a técnica do precedente não esvazia o processo argumentativo, mas, ao contrário, pode vir a reforçá-lo” 57 (g.n.). E, no reforço do entendimento segundo o qual as operações de distinção e de questionamento reforçam a autoridade da súmula, ao invés de derruí-la, as autoras prelecionam que “(...) a estabilidade do sistema inglês é fruto também desse processo argumentativo que faz parte da ‘descoberta’ da ratio decidendi, o que resulta na sua própria legitimação”. 58 O que se faz ao afirmar que uma determinada súmula, de acordo com a atenta leitura dos precedentes que lhe deram forma, açambarca determinadas matérias (eg. créditos 54 SCHOUERI, Luís Eduardo, Direito tributário, 10 a edição. São Paulo, SP: Editora Saraiva, 2020. 55 Ibid. Capítulo XVII, 3. 56 PENCAK, Nina; ALVES, Raquel de Andrade Vieira, A ratio decidendi e a fixação de teses em matéria tributária - duas faces da mesma moeda?, JOTA, p. 3, 2021. 57 Ibid. 58 Ibid. Fl. 222DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 29 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 tributários) e outras não (eg. sanções aduaneiras), o que se promove, da melhor maneira possível, é a busca justamente “(...) de meios de ‘correção’ de teses fixadas de forma equivocada, em outras palavras, teses que não refletem adequadamente a ratio decidendi dos julgamentos”: 59 “(...) parece-nos que o trabalho dos Tribunais (...) é igualmente relevante para a estabilidade do sistema de precedentes, uma vez que cabe a eles verificar se a tese firmada efetivamente reflete a ratio decidendi do caso julgado, para que se evite a perpetuação dos equívocos cometidos (...). Assim, tanto quanto possível, as teses jurídicas não devem ficar nem além e nem aquém dos debates que conduziram à conclusão dos julgamentos, sendo fixadas com o máximo de aderência possível ao caso concreto, o que requer, para além da máxima atenção dos julgadores, um trabalho importante das partes e de seus advogados na instrução e colaboração com a sua construção” 60 (g.n.). Uma vez identificada a ratio decidendi, é necessário que se proceda ao teste de distinção, que buscará identificar se há ou não diferença entre os casos. Descumpre a Súmula o Conselheiro deste CARF que deixar de aplica-la nestes casos? Ao traçar o perfil dogmático- reconstrutivo do precedente, Daniel Mitidiero é claro: “nessas hipóteses, não há que se falar em exceção ao valor vinculante do precedente. O que há é a pura e simples ausência de incidência do precedente. O precedente não se aplica, porque ausentes os seus pressupostos de incidência – o caso sob julgamento simplesmente recai fora do âmbito do precedente” 61 (g.n.): “Nessas hipóteses existe a necessidade de distinção entre os casos (art. 927, § 1º, CPC). Para tanto, o juiz tem o dever de indicar na fundamentação da decisão a razão pela qual os casos são diferentes, não bastando a simples invocação de caso diverso (art. 485, § 1º, VI, do CPC) ou a simples desconsideração do caso invocado como precedente (art. 485, § 1º, VI do CPC).” 62 (g.n.). Este tribunal administrativo federal optou pelo sistema de súmulas, o que implica reivindicar a si parte do jargão sedimentado ao longo dos anos pela tradição do direito comum, incorporando, assim, o overruling como alteração integral e o overturning como alteração parcial do precedente, que poderá, neste último caso, ser reescrito (overriding) ou transformado (transformation). 63 Por evidente, a superação total da primeira hipótese indica ora o desgaste de sua congruência institucional, a alteração de posicionamento da corte (o que o direito continental usou chamar revirement de jurisprudence) ou o simples equívoco: “(...) quando o precedente carece de congruência e consistência ou é evidentemente equivocado, os princípios básicos que sustentam a regra do stare decisis – segurança jurídica, liberdade e igualdade – deixam de autorizar a sua replicabilidade (replicability), com o que deve ser superado”. 64 Por sua vez, o distinguishing tem o desígnio de extremar os casos para aferir se aquele em análise deve ou não se subordinar ao precedente ou súmula, devendo a distinção ser relevante, de modo a “(...) 59 Ibid. 60 Ibid. 61 MITIDIERO, Precedentes - da persuasão à vinculação. 62 PENCAK; ALVES, A ratio decidendi e a fixação de teses em matéria tributária - duas faces da mesma moeda? 63 MITIDIERO, Precedentes - da persuasão à vinculação., p. 102. 64 Ibid., pp. 102-103. Fl. 223DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 30 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 revelar uma justificativa convincente, capaz de permitir o isolamento do caso sob julgamento em face do precedente”. 65 E que se observe que a aplicação desta técnica “(...) não quer dizer que o precedente está equivocado ou que deve ser revogado. Não significa que o precedente constitui bad law, mas somente inapplicable law”, 66 o que apenas ressoa a lição de Neil Duxbury. 67 O argumento do distinguishing pode ser venturoso, mas jamais aventureiro. É uma construção fundada, um verdadeiro non-defiance. Está-se diante da distinção entre um caso e outro, de modo a se isolar a ratio decidendi e separar os fatos material e substancialmente relevantes para a decisão. 68 A constatação de Duxbury é que os tribunais que adotam súmulas e precedentes se utilizam do instituto da distinção rotineiramente e, em regra, sem maiores dificuldades ou controvérsias, o que não significa um “(...) sinal aberto para o juiz desobedecer precedentes que não lhe convêm”, 69 reconhecendo-se na cultura do common law que o juiz é facilmente desmascarado ao tentar fazê-lo, por exemplo, por meio de fatos irrelevantes. Pode-se discordar de uma decisão, mas é possível, ainda assim, reconhecer o seu esforço argumentativo, a fundamentação que confere autoridade ao texto (decisum) e a seu autor (aplicador/realizador): “‘Distinguishing’ is what judges do when they make a distinction between one case and another. The point may seem obvious, but it deserves to be spelt out because we distinguish within as well as between cases. Distinguishing within a case is primarily a matter of differentiating the ratio decidendi from obiter dicta – separating the facts which are materially relevant from those which are irrelevant to a decision. (…) Most courts will distinguish cases fairly routinely and without controversy. The task will not always be straightforward because (…) the discursiveness of common-law judgments can make the identification of rationes difficult. Nor would it be correct to think that a court distinguishes cases merely by drawing attention to factual differences between them: courts are not only drawing a distinction but also arguing that the distinction is material, that it provides a justification for not following the precedent. Not just any old difference provides such a justification: the distinction must be such that it provides a sufficiently convincing reason for declining to follow a previous decision. Since it is for judges themselves to identify significant differences – to determine, as it were, their own criteria of relevance – is it not easy for them to distinguish away the authority of any precedent? Sometimes it will be easy, no doubt, but not usually so; for distinguishing appropriately is as much a judicial norm as is the doctrine of stare decisis itself. The judge who tries to distinguish cases on the basis of materially irrelevant facts is likely to be easily found out. 65 MARINONI, Precedentes obrigatórios., p. 232. 66 Ibid. 67 DUXBURY, Neil, The nature and authority of precedent, Cambridge: Cambridge University Press, 2008., p. 55: “In the most routine instances, the activity of distinguishing leaves the authority of precedent undisturbed, for a court is declaring an earlier decision not to be bad law, but to be good but inapplicable law”. 68 Ibid., PP. 130-132. Percuciente em especial a análise realizada pelo autor a respeito do caso House of Lords Practice Statement de 1966, em que a Corte declarou que, daquele momento em diante, seria possível a superação do precedente judicial mesmo por meio da técnica do overruling. 69 MARINONI, Precedentes obrigatórios., pp. 231-232. Fl. 224DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 31 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 (…) Lawyers and other judges who have reason to scrutinize his effort will probably have no trouble showing it to be the initiative of someone who is careless or dishonest, and so his reputation might be damaged and his decision appealed. That judges have the power to distinguish does not mean they can flout precedent whenever it suits them” 70 (g.n.). Já defendemos, ademais, em inúmeras oportunidades, o sistema de Súmulas desta Corte Administrativa, como quando da sessão plenária de 19/11/2019, em que se julgou o recurso voluntário interposto pelo Município de Olinda/PE, proferindo-se a decisão consubstanciada no Acórdão CARF nº 3401-007.099: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2014 ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. SEPARAÇÃO DE PODERES. SÚMULA CARF Nº 2. ART. 45, II E ART. 72, RICARF. ART. 26-A, DECRETO Nº 70.235/1972. No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assim, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Participaram do julgamento, na ocasião, os Conselheiros Mara Cristina Sifuentes (presidente em exercício na ausência do Conselheiro Rosaldo Trevisan), Lázaro Antônio Souza Soares, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Luis Felipe de Barros Reche (suplente convocado), Fernanda Vieira Kotzias, e João Paulo Mendes Neto (relator). Naquela oportunidade, defendemos que o Relator não poderia declarar a inconstitucionalidade de texto de lei com base no primado da proporcionalidade, vez que fazê-lo colocaria o decisum em rota de colisão com o comando textual da Súmula CARF nº 1 e do art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972: “A contribuinte sedia as suas razões recursais em matéria de índole exclusivamente constitucional, voltando-se ao caráter confiscatório e desproporcional da pena cominada com fundamento no art. 44, inciso I e § 2º da Lei n.º 9.430, de 1996, em desprestígio ao quanto preceituado pelo inciso IV do art. 150 da Constituição de 1988. Não se vislumbra a hipótese de o Poder Executivo, no exercício de função jurisdicional atípica, acatar tal racional, uma vez que fazê-lo implicaria violação objetiva (i) à separação das funções do Poder, (ii) a comando textual da lei, (iii) a Súmula de aplicação obrigatória deste CARF, (iv) a normas complementares e, diga-se, de maneira pontual, (v) à alínea ‘a’, inciso I do art. 102 e ao § 2º do art. 103 da Constituição: sob o pretexto de corrigir uma pretensa inconstitucionalidade, o aplicador incorreria em outra. 70 DUXBURY, The nature and authority of precedent., 131-132. Fl. 225DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 32 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Podem a doutrina ou o julgador competente afirmar que o limitador da norma sancionatória deva ser o valor da obrigação principal. O que não é admissível é que aquele sem competência para fazê-lo decida, a seu talante, o critério que reputar mais adequado conforme a sua consciência, em censurável flerte jusnaturalista, de maneira a assumir o “(...) risco metodológico de se defender boas intenções por meio de flexibilizações de fundamentação legal”. Assim, “(...) não é capaz o intérprete autêntico, no campo do direito, de colocar a sua vontade sobre o ordenamento, sob o risco de malferir a legalidade e, consequentemente, a validade da decisão”. Assim, a vedação ao exame da constitucionalidade dos textos legais e infralegais como lastro ou ancoramento dispositivo último da decisão no âmbito administrativo busca justamente dar concretude aos próprios valores constitucionais. A partir de um ponto de vista dogmático-objetivo, o Parecer Normativo CST nº 329/1970, dispõe que a arguição de inconstitucionalidade não pode ser oponível na esfera administrativa por transbordar os limites de sua competência o julgamento da matéria, mesmo sentido da súmula obstativa nº 02 deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, segundo a qual “o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. Pode o julgador administrativo ressalvar a sua posição e externá-la em seu voto, e mesmo realizar a crítica fundada à posição do tribunal que integra, mas deverá, necessariamente, curvar-se ao entendimento sumulado nos termos do inciso VI do art. 45 e ao art. 72, caput, da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 e alterações, o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF) que ecoa comando legal preceituado no art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assim, inexiste competência a este colegiado para apreciar a matéria, e fazê-lo implicaria evidente nulidade nos termos do art. 59 do Decreto nº 70.235/1972, motivo pelo qual voto por não conhecer do presente recurso”. Como ao presente caso se compreende necessário recorrer ao instituto da distinção entre o caso sob exame e aqueles que originaram a orientação sumular, o chamado por Schauer de “método de confronto” 71 , como se busca demonstrar, as peculiaridades do caso concreto impedem a aplicação da tese jurídica vertida em texto pela Súmula CARF nº 11, sendo possível, por evidente, a discordância de outros aplicadores a respeito do tema, tendo em vista que, como 71 DIDIER JR et al, Precedentes., p. 78. Fl. 226DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 33 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 ensina Michele Taruffo, 72 são especificamente as peculiaridades dos casos que podem levar a interpretações diferentes da mesma regra. 3. Da distinção do caso concreto ao presente caso 3. i. Construção da regra de prescrição intercorrente no processo administrativo e o início da análise da ratio decidendi dos precedentes O art. 1º Lei nº 9.873/1999 determina, no § 1º do seu art. 1º, a prescrição da ação punitiva da Administração Pública federal, direita e indireta, no exercício do poder de polícia que tenha por objetivo apurar infração à legislação em vigor, no “procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho”, com a exceção prevista no art. 5º, no sentido de que a previsão “não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária”, dispositivo que motivou o seriado de acórdãos dos Conselhos de Contribuintes utilizados, a posteriori, para a confecção da Súmula CARF nº 11, segundo a qual “não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal”: Art. 1º Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1º Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. (...) Art. 5º O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária. O estudo da motivação determinante dos acórdãos utilizados como precedentes para a sua formação nos levaram à conclusão de que a matéria aduaneira não se encontra no horizonte da regra, motivo pelo qual passamos a perscrutar a regra trazida pela lei federal a partir da seguinte coleção textual, pois a “(...) vinculatividade de um precedente não é prévia e nem é 72 TARUFFO, Michele, Le funzioni deite Coni Supreme tra uniformità e giustizia, in: DIDIER JR, Fredie et al (Orgs.), PRECEDENTES, 1. ed. Bahia: Editora JusPodivm, 2015, p. 258: “ln sostanza, è il fatto che determina l'interpretazione delta regala di diritto che ad esso dev'essere applicata. Non a caso è proprio il rapporto della norma con il fatto a costituire uno dei problemi fondamentali della teoria dei diritto e dei diritto processuale. Di conseguenza, sono te peculiarità dei fatti dei vari casi che possono portare a diverse interpretazioni della stessa regola, e di conseguenza a non applicarla in casi apparentemente simili o ad applicarla in casi apparentemente diversi”. Fl. 227DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 34 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 sintetizada em termos gerais e abstratos, mas é convocada em concreto”, 73 como aponta o ex- conselheiro Diego Diniz Ribeiro. Neste passo, os Acórdãos CARF nº 104-19.980 104-19.410, nº 201-76.985, nº 202-03.600, nº 105-15.025, e nº 203-02.815 constataram ser pacífico o entendimento contrário à prescrição intercorrente, devido ao argumento da suspensão da exigibilidade do crédito tributário em virtude do art. 151 do Código Tributário Nacional, enquanto que o Acórdão CARF nº 103-21.113 reportou ao julgado nos embargos de declaração do RE nº 94.462/SP, para sustentar a prescrição teria seu termo a quo iniciado somente a partir do momento em que o crédito tributário adquirisse contornos de definitividade. O Acórdão CARF nº 203-04.404, por seu turno, invocou a Súmula nº 153 do TFR, editada em 17/4/1984. O Acórdão CARF nº 201-73.615 entendeu não haver legislação que trouxesse previsão normativa para sustentar a existência de prescrição intercorrente para o Direito Tributário, e o Acórdão CARF nº 107-07.733 rejeitou a prescrição intercorrente com supedâneo na exceção inserta no artigo 5º da Lei nº 9.783/1999 especificamente para matéria tributária. O caso deste aresto em especial, que julgou caso de IRPJ e de CSL, é digno de exemplo da motivação da Súmula em debate, pois a própria ementa utilizada pelo relator, o Conselheiro Octávio Campos Fischer, utiliza o vocábulo “fiscal” como sinônimo de “tributário”: “PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE – LEI N.º 9873/99 – INAPLICABILIDADE. A jurisprudência do e. Conselho de Contribuintes entende que não se tem como admitir a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. Ademais, a Lei nº 9.873/99, utilizada como argumento pela Recorrente, explicitamente, dispõe, em seu art. 5º, que o prazo de prescrição intercorrente nela consignado não se aplica aos processos administrativos fiscais”. Note-se que a remissão ao artigo expresso da lei é textual, e esta específica escolha de palavras acaba por ser perpetuada. Qual a motivação determinante deste precedente específico? Que todos os casos submetidos ao rito do Processo Administrativo Fiscal serão excepcionados, ou que somente os tributários? A remissão, feita a punho pelo próprio relator, não permite espeço para dúvidas. Não é porque se valeu a súmula desta exata formulação que devemos cegar à leitura dos precedentes que ela visa sintetizar. Diante do entendimento pacificado do egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região de que incide a prescrição intercorrente em caso de sanções não-tributárias, ou seja, aquelas não excepcionadas pelos preceptivos normativos acima transcritos, é necessário que se reflita a respeito da extensão da Súmula CARF nº 11 a partir da lei, em especial o inciso V do § 1º do art. 489 do Código de Processo Civil de 2015, regra que não pode ser ignorada pelo aplicador no momento da concreção normativa. A este respeito, a análise de todos os acórdãos que levaram à redação do enunciado sumulado 74 conduz à conclusão de que dispuseram exclusivamente sobre a exceção prevista pelo legislador, sobre a qual não se aplica, por evidente, o instituto prescricional, revelador da motivação fundante ou determinante de sua edição. Assim, multas aduaneiras estariam fora da área de incidência da norma administrativa, restando possível ao julgador deliberar a matéria sem a amarra sumular. Observa-se, ainda, que nenhum dos acórdãos deste Conselho houve por bem analisar, como se passa a fazer, a ratio 73 RIBEIRO, Diego Diniz, Precedentes em matéria tributária e o novo CPC, in: CONRADO, Paulo Cesar (Org.), Processo tributário analítico, São Paulo, SP, Brasil: Editora Noeses, 2016, v. III, p. 111–140. 74 Acórdão nº 103-21113, de 05/12/2002 Acórdão nº 104-19410, de 12/06/2003 Acórdão nº 104-19980, de 13/05/2004 Acórdão nº 105-15025, de 13/04/2005 Acórdão nº 107-07733, de 11/08/2004 Acórdão nº 202-07929, de 22/08/1995 Acórdão nº 203-02815, de 23/10/1996 Acórdão nº 203-04404, de 11/10/1997 Acórdão nº 201-73615, de 24/02/2000 Acórdão nº 201-76985, de 11/06/2000. Fl. 228DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 35 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 decidendi dos acórdãos, em desprestígio à norma processual, sequer para verificar que de fato não se cogitou em nenhum dos precedentes de sanções não-tributárias, o que por si só já seria suficiente para se aplicar a distinção. O presente voto passa a investigar a hipótese de que a prescrição intercorrente se aplica a processos sancionatórios de natureza material não-tributária, o que exige um percurso racional codificado, como se percebe, em prestígio à correta observância da súmula. Para tal tarefa, cabe se iniciar pelo estudo da sentença concessiva de segurança julgada em 11/12/2020, no Mandado de Segurança nº 5038789-82.2020.4.04.7000/PR pela Juíza Federal Vera Lúcia Feil Ponciano, titular da 6ª Vara Federal de Curitiba da Seção Judiciária do Paraná, a primeira vara especializada em direito aduaneiro do país, cujas razões de decidir são merecedoras de encômios pela clareza e correção: “A controvérsia consiste em analisar se a parte impetrada tem direito ou não à declaração de nulidade de multas administrativas originadas nos processos administrativos de nº 10907.720607/2013-82 e 10907.722234/2013-84, em razão da prescrição intercorrente. Verifica-se que foi aplicada penalidade prevista pelo artigo 107, inciso IV, alínea “e”, do Decreto-Lei nº 37/66, com a redação data pelo artigo 77 da Lei nº 10.833/03, apurando, na época, o crédito de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para cada autuação, cujo valor perfaz a quantia de R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais), relativos aos Processos Administrativos Fiscais (PAF) n.º 10907.720607/2013-82 e 10907.722234/2013-84. Após a intimação referente ao Processo Administrativo Fiscal nº 10907.720607/2013-82, a empresa impetrante apresentou a sua regular impugnação em 29 de abril de 2013; em relação ao Processo Administrativo Fiscal n.º 10907.722234/2013-84, a impetrante apresentou a sua regular impugnação em 13 de março de 2014; a impugnação apresentada foi improvida pela autoridade impetrada, em sessão de julgamento realizado em 07 de julho de 2020, ou seja, transcorridos mais de 7 (sete) anos após a apresentação das impugnações, tendo ela determinado a intimação da impetrante para recolhimento da multa ou apresentação de novo recurso para o CARF; apenas em julho de 2020, mais de 7 (sete) anos após a instauração dos processos, a impetrante realizou o julgamento da impugnação, rejeitando referida defesa e, consequentemente, aplicando as multas aduaneiras. Desse modo, a impetrante afirma que se operou a "prescrição intercorrente incidente no processo administrativo", conforme artigo 1º, § 1º, da Lei Federal nº 9.873/99 (prescrição trienal). Acaso seja outro o entendimento, a impetrante afirma que deve ser aplicada a prescrição intercorrente quinquenal com fundamento no Decreto n.º 20.910/32. Assiste razão à impetrante. A multa em apreço não tem natureza tributária. Ela foi aplicada pela fiscalização aduaneira em decorrência do exercício do poder de polícia estatal consistente no controle sobre o comércio exterior, e não por conta do inadimplemento de uma obrigação tributária. Embora também seja inscrita em dívida ativa, na forma do art. 39, § 2º, da Lei nº 4.320/64 (multa de qualquer origem ou natureza) e do art. 2º, da Lei 6.830/80), e o recurso final seja julgado pelo CARF - Conselho Fl. 229DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 36 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Administrativo de Recursos Fiscais, mantém sua natureza de multa administrativa ao controle aduaneiro. Nesse contexto, aplica-se ao caso o art. 1º da Lei nº 9.873/1999, que não trata de matéria tributária, mas sim da prescrição da pretensão punitiva e da pretensão executória relativas ao poder de polícia sancionador da Administração Pública Federal (...). Assim, a cobrança da multa em referência não se sujeita ao prazo prescricional previsto no Código Tributário Nacional, mas aos prazos prescricionais estabelecidos pela Lei nº 9.873/99. Portanto, a pretensão punitiva da Administração Pública prescreve em cinco anos, contados da data do fato punível. Instaurado o procedimento administrativo, incide a prescrição intercorrente de que trata o §1º do artigo 1º, que é de três anos, devendo-se observar as causas interruptivas da prescrição estabelecidas no artigo 2º da Lei nº 9.873/99. No caso, após a intimação referente ao Processo Administrativo Fiscal nº 10907.720607/2013-82, a impetrante apresentou impugnação em 29 de abril de 2013; quanto ao PAF nº 10907.722234/2013-84, apresentou impugnação em 13 de março de 2014; a impugnação foi improvida pela autoridade impetrada, em sessão de julgamento realizado em 07 de julho de 2020, ou seja, transcorridos mais de 7 (sete) anos após a apresentação das impugnações, tendo sido determinado a intimação da impetrante para recolhimento da multa ou apresentação de novo recurso para o CARF; apenas em julho de 2020, mais de 7 (sete) anos após a instauração dos processos, a impetrante realizou o julgamento da impugnação, rejeitando referida defesa e, consequentemente, aplicando as multas aduaneiras. Dessa forma, já se encontrava extrapolado em muito o prazo de 3 (três) anos do § 1º do artigo 1º da Lei nº 9.873/99, sendo evidente a ocorrência da prescrição intercorrente. (...) Diante do exposto, nos termos do art. 487, inciso I, do CPC, julgo procedente o pedido e concedo a segurança, para declarar a nulidade e a inexigibilidade das multas administrativas aplicadas nos processos administrativos (...)” (g.n.). Necessário se afirmar que a Súmula CARF nª 11 permanece hígida, válida e intocada quando o aplicador desvelar a natureza tributária da matéria em julgamento, tendo por base os precedentes que a informam, acórdãos paradigmas estes, por sua vez, que extraem seu fundamento de validade diretamente do art. 5º da Lei nº 9.783/1999. Desta feita, entendemos que, para casos tributários, não cabe se cogitar de prescrição intercorrente, pois o feito estará impactado pela atração gravitacional da norma. É lapidar o escólio da magistrada ao discriminar dois antecedentes, cada qual com seu próprio consequente normativo. A regra geral é determinada pelo caput, havendo prazo de 5 anos para o exercício da pretensão punitiva (prescrição quinquenal). Uma vez instaurado o procedimento administrativo, desloca-se a aplicação para o § 1º (prescrição trienal): "(...) a pretensão punitiva da Administração Pública prescreve em cinco anos, contados da data do fato punível. Instaurado o procedimento administrativo, incide a prescrição intercorrente de que trata o §1º do artigo 1º, que é de três anos" (g.n.). Fl. 230DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 37 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Assim, é possível se extraírem ao menos três regras de estrutura lógico- implicacional ou sancionatória, cada qual com um antecedente específico, mas todas com um mesmo consequente, i.e., a prescrição a atingir o direito material: (i) regra geral de prescrição do caput do art. 1º que tem como antecedente: 5 anos contados data do fato punível sem exercício da pretensão punitiva (e.g. auto de infração); (ii) regra especial de prescrição intercorrente do § 1º do art. 1º que tem como antecedente: 3 anos sem despacho ou julgamento uma vez instaurado o procedimento administrativo (daí se falar em intercorrência de um procedimento); e (iii) desdobramento da regra geral de prescrição da pretensão punitiva (caput) quando o fato constituir crime: prazo da lei penal. Quanto a este tertium genus, é importante que não se confunda: o diferencial específico do § 2º é “fato que constitua crime”, enquanto que o do § 1º é “procedimento instaurado” (mais amplo). Assim, a discussão respeitante à multa de perdimento que tenha como pressuposto de fato o descaminho ou a falsidade ideológica conhecerá o prazo prescricional para exercício da “ação punitiva” (expressão utilizada tanto no caput como no § 2º) previsto na lei penal. Uma vez instaurado o procedimento, o prazo passa a ser outro, pois agora na intercorrência de um iter procedimentalizado, revelando o legislador a preocupação em tutelar a efetividade e razoável duração do processo, garantindo ao jurisdicionado meios que estimulem a celeridade de sua tramitação, de modo a estimular a Administração a não quedar-se inerte. Perceba-se que o legislador, no § 1º, ao estabelecer a regra de que o procedimento parado por três anos sem “despacho” (o que poderia remeter a um procedimento aduaneiro anterior a qualquer manifestação da contribuinte, contado a partir do termo de início da fiscalização) ou “julgamento” (o que implica necessariamente um tipo específico de procedimento, i.e., um processo com pretensão resistida), abre uma senda interpretativa mais ampla. Deseja que a interação, com ou sem contencioso instaurado, caminhe sem inércia superior ao interregno trienal. Assim, é possível se contemplar a seguinte hipótese: (a) a autoridade aduaneira formula exigência com supedâneo no art. 47 do Decreto-Lei nº37/1966, permanecendo a tramitação do despacho aduaneiro sujeito à sua satisfação, e o importador apresenta manifestação discordando de algum dos elementos que levaram à demanda objurgada (classificação fiscal, peso da mercadoria, valor aduaneiro ou qualquer outro relevante para o desembaraço). Caso o lançamento previsto no § 3º do art. 570 do Regulamento Aduaneiro leve mais de três anos para ser concluído, opera-se a prescrição (na intercorrência do procedimento). A correção do raciocínio deve ser reconhecida, sobretudo a se ter em vista que o procedimento tem início com o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto, pela a apreensão de mercadorias, documentos ou livros, ou pelo começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada, nos termos do art. 7º do Decreto nº 70.235/1972. Contudo, será igualmente possível se cogitar da segunda hipótese: (b) uma vez instaurada a fase litigiosa do procedimento (art. 14 da norma processual: “A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento”), o processo stricto sensu, é possível se falar em pretensão resistida apta a gerar o “julgamento” a que se refere o legislador – observe-se que o radical “julgar” sequer é mencionado entre os arts. 7º e 14. Assim, uma vez instaurado o processo (espécie de um discurso racional procedimentalizado específico), deverá ser reconhecida a prescrição (em sua intercorrência) caso não se profira despacho (conteúdo decisório) ou julgamento (de pretensão resistida, necessariamente) no prazo de três anos. Profilático se extremar, neste momento, processo e procedimento, questão já envelhecida e engastada entre processualistas e administrativistas. Na lição de Cândido Rangel Fl. 231DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 38 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Dinamarco, o processo é “(...) o efeito direto e imediato da demanda”, 75 que implica “(...) uma série de atos interligados e coordenados ao objetivo de produzir a tutela jurisdicional justa, a serem realizados no exercício de poderes ou faculdades ou em cumprimento a deveres ou ônus (...) é uma entidade complexa integrada por esses dois elementos associados – procedimento e relação jurídica processual” (g.n.). Por outro lado, o procedimento “(...) é o elemento visível do processo” 76 e, assim, o contraditório, como participação e garantia, é instrumentalizado pelo processo e, logo, o ato de julgar é uma específica decisão fundada que resolve o conflito de interesses. Para Cássio Scarpinella Bueno, está-se diante da “(...) função do Estado destinada à solução imperativa, substitutiva e com vocação de definitividade de conflitos intersubjetivos. O exercício dessa atuação do Estado, contudo, não se limita à declaração de direitos, mas também à sua realização prática, isto é, à sua concretização” 77 . Não deve causar qualquer dificuldade se constatar que “procedimento” foi utilizado pelo legislador na Lei nº 9.783/1999 como gênero de discurso racional do qual o processo é espécie, que, por seu turno, é conceito que organiza a sucessão de atos por meio de um iter codificado por textos (Decreto nº 70.235/1972, Lei nº 9.784/1999, Código de Processo Civil). E essa forma genérica de redação é ressoada em diversos momentos da legislação. Ninguém terá dúvida sobre ser “processo” o momento a partir do qual há pretensão resistida. E o teor do art. 14 do decreto de 1972 remete a procedimento: “(...) a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento”. Se a fase litigiosa é procedimento, como realizar a separação dos institutos? Parte-se de um procedimento de fiscalização para um processo contencioso, e aqui reside, como se sói saber, toda uma discussão respeitante à jurisdição (voluntária ou contenciosa), mas o que importa para o deslinde do nó górdio interpretativo da regra da prescrição intercorrente é que ambos são procedimentalizados. Assim sendo, o § 1º do art. 1º é genérico, mas se torna claro ao dispor: “julgamento” ou “despacho” (típico ato distinto de julgamento). Seja na fase procedimental por excelência, ou na sua manifestação como processo, aplica-se o instituto. De fato, a disciplina do processo civil se espraia hoje a refletir justamente sobre a centralidade do procedimento, como demonstra Maria Carolina Silveira Beraldo: 78 “A nenhum estudioso do direito processual civil é dado desconhecer que essa disciplina da ciência jurídica passou, em sua linha evolutiva, por três fases metodológicas fundamentais: sincretista, autonomista e instrumentalista. Iniciando pela praxis, e tendo passado pelo chamado período do procedimentalismo, o direito processual civil ganhou densidade científica com a teoria da relação processual, o que se deve aos processualistas alemães, seguidos pelos italianos, estes a partir dos estudos de Chiovenda. É imperioso reconhecer, hoje, que é a evolução dessa mesma ciência que permite aferir que é o procedimento - e não o processo - que avulta de 75 DINAMARCO, Cândido R., Instituições de direito processual civil, 3a. ed., rev.atualizada e com remissões ao Código civil de 2002. São Paulo: Malheiros Editores, 2003., p. 28. 76 Ibid. pp. 23-28. 77 BUENO, Cassio Scarpinella, Curso Sistematizado de Direito Processual Civil, 9 a . São Paulo, SP, Brasil: Editora Saraiva, 2018. 78 BERALDO, Maria Carolina Silveira, Processo e procedimento à luz da Constituição Federal de 1988 - normas processuais e procedimentais civis, Tese de doutorado, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil, 2015., pp. 13-14. Fl. 232DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 39 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 importância no desenho das técnicas procedimentais que garantam de forma efetiva um processo civil tanto de celeridade como de resultados. Analisando-se o histórico do direito processual civil, pretende-se demonstrar que a evolução científico-conceitual deve mirar, uma vez mais e agora, o procedimento, já que é dele que depende, em larga medida a efetiva concretização do direito material” 79 (g.n.). A forma genérica vem a se espargir por diversas outras normas, como, v.g., o próprio Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Não haverá quem duvide que um julgamento de recurso voluntário ou de um recurso de ofício por parte de turma ordinária de uma das Seções de Julgamento do CARF configure processo. Contudo, a leitura do Título II do RICARF, que inicia com o art. 46, se vale do vocábulo “procedimento”. A este respeito ainda, aponta-se para a leitura dos arts. 23 e 69-A da Lei n. 9.784/1999, 80 que, apesar de regular o processo administrativo fiscal, remetendo, inclusive, no caput do art. 23 aos “atos do processo”, não se constrange em remeter a “procedimento”. E, para que não reste qualquer dubiedade, a exposição de motivos da Lei nº 9.783/1999, que trata justamente da prescrição intercorrente, esclarece que ela se aplica a “(...) inquéritos e processos administrativos iniciados muitos anos após a prática de atos reputados ilícitos” que a ação punitiva do Estado objetiva apurar, “pendentes de julgamento ou despacho”, como se refere o § 1º do art. 1º: 79 Ibid. 80 Art. 23. Os atos do processo devem realizar-se em dias úteis, no horário normal de funcionamento da repartição na qual tramitar o processo. Parágrafo único. Serão concluídos depois do horário normal os atos já iniciados, cujo adiamento prejudique o curso regular do procedimento ou cause dano ao interessado ou à Administração (...). Art. 69-A. Terão prioridade na tramitação, em qualquer órgão ou instância, os procedimentos administrativos em que figure como parte ou interessado: I - pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos; II - pessoa portadora de deficiência, física ou mental (...) Fl. 233DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 40 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Chega a ser curioso que tal questão sequer exista diante de tais argumentos, salvo se o intérprete com eles se banhar nas frias águas do rio Léthê. Contra a acrimônia do esquecimento, serve-se o fresco gole da rememoração ao se evocar a posição defendida pela própria Administração, como se denota da leitura do Parecer AGU nº 991/2009. No documento, para que se atire a pá de cal sobre a consumição, a Advocacia Geral da União, ao analisar especificamente o caso do instituto prescricional previsto na Lei nº 9.873/1999, identifica, em seu parágrafo 42, que “(...) o início do procedimento é elemento necessário, diante da própria natureza da prescrição intercorrente, uma vez que esta se dá dentro do próprio processo” (g.n.). E continua: “(...) a prescrição referida no dispositivo mencionado tem como termo inicial o estado de paralisia do processo punitivo (...) a prescrição intercorrente apenas incide se o processo ficar paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, de modo que, caso seja praticado qualquer ato que corte o estado de paralisia do processo, será iniciado novo prazo”. Não é mais possível, diante de tais argumentos, e diante de tal parecer, persistir-se no erro de se compreender que a regra prevista na Lei nº 9.873/1999 se restrinja unicamente ao momento do procedimento, anterior à instauração do contencioso: “46. É importante destacar que, para compreender o significado da expressão "processo paralisado", bem como descobrir quais atos afastariam esse tipo de situação (cortariam o estado de paralisia do processo, impulsionando-o), deve-se conferir atenção à forma empregada pelo legislador quando elaborou a redação do dispositivo. 47. Consta da lei que "incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho". Dessa forma, ao perceber que a expressão "pendente de julgamento ou despacho" foi utilizada entre vírgulas, conclui-se que o objetivo dessa expressão foi o de explicar o que a Lei n° 9.873/99 entende por "processo paralisado". 48. Vale dizer: processo paralisado não é aquele que passou mais de um dia sem que qualquer ato fosse praticado, mas sim o processo cujo momento processual subsequente é a realização de julgamento ou de despacho, sem empecilho algum à realização destes atos (situação de pendência). 49. Essa explicação é coerente com os pressupostos da prescrição, haja vista que, no âmbito dos processos administrativos sancionatórios, os atos de despacho e de julgamento são proferidos pela própria Administração Pública, que corresponde ao sujeito de direito que arcará com o prejuízo da omissão na prática desses atos ou de sua realização tardia” (g.n.). Por fim, além de tudo quanto fora dito, necessário se apontar que o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a prescrição intercorrente em caso em que se apure o cometimento de infração à legislação, tendo entendido o instituto prescricional do caput como decadência, uma vez que a prescrição apenas poderia ter lugar diante da dívida definitivamente constituída, tendo-se esgotado o processo administrativo, e jamais no curso de sua apuração. No Recurso Especial nº 1.115.078/RS, de 24/03/2010, que obedeceu à sistemática dos recursos repetitivos nos termos dos arts. 543-B e 543-C do Código de Processo Civil, de modo a desvelar, em resumo, a existência de três prazos na Lei nº 9.873/1999, cabendo-se destacar que Fl. 234DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 41 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 aquele que importa ao caso sob análise foi entendido como de três anos para conclusão do processo administrativo: “(...) a Lei 9.873/99, modificada pela Lei 11.941/09, determinou a observância de três prazos: (a) cinco anos para a constituição do crédito por meio do exercício regular do Poder de Polícia - prazo decadencial, pois relativo ao exercício de um direito potestativo; (b) três anos para a conclusão do processo administrativo instaurado para se apurar a infração administrativa - prazo de "prescrição intercorrente"; e (c) cinco anos para a cobrança da multa aplicada em virtude da infração cometida - prazo prescricional” (g.n.). Fala-se, pois, a respeito de um rito, mas, como a modalidade extintiva reporta diretamente ao direito material, é de todo importante a distinção empreendida pelo Superior Tribunal de Justiça, em sintonia com o esclarecedor escólio de Edmir Netto de Araújo a respeito da sutil premissa de que a extinção é da pretensão punitiva, vez que ainda não definitiva a pena, “(...) motivo pelo qual muitos cultores do Direito menos avisados empreguem uma noção pela outra”, 81 sendo de todo inegável a relação com o direito substantivo em disputa, havendo previsão dos institutos, v.g., no Código Civil (arts. 189 a 211), no Código Tributário Nacional (arts. 156, 173 e 174) ou no Código Penal (arts. 107 a 119). Seja uma ou outra a denominação, o fato é que o Decreto nº 70.235/1972 se trata de um "processo que versa sobre direito tributário" ou "processo que versa sobre direito aduaneiro”, não importando a alcunha que se confira ao processo. A prescrição atinge a ação ou intento punitivos daquilo que está em disputa (o direito) e, logo, não é possível se cogitar de “processo fiscal” ou “processo aduaneiro”, e não haveria de ser diferente, pois não é o procedimento que define a substância jurídica – o procedimento ou processo administrativo, seja qual for, que não fizer concessão ao seu impulso por três anos, tem por consequência a extinção da pretensão sobre o direito material substantivo quando tratar a respeito de sanção não-tributária. Há, portanto, processos ou procedimentos, “(...) uma sucessão itinerária e encadeada de atos administrativos que tendem, todos, a um resultado final e conclusivo” 82 que, caso versem sobre matéria de sanção aduaneira, estarão potencialmente suscetíveis à prescrição intercorrente. O reconhecimento institucional pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais da existência de matérias tipicamente tributárias e tipicamente aduaneiras, ademais, adveio com a edição da Portaria ME nº 260/2020 que disciplinou que o voto de qualidade continua aplicável 81 ARAUJO, Edmir Netto de, A Prescrição em Abstrato no Processo Administrativo Disciplinar, Revista de Direito Administrativo, v. 244, p. 103–110, 2007. “No Direito Penal (...) a doutrina (...) afirma que prescrição é a perda do direito de punir. Pelo decurso de certo tempo, a inação do Estado em apurar e punir infrações penais lhe obsta o exercício do jus puniendi (...). Já na esfera do Direito Civil, a noção de prescrição se dirige mais à ação necessária para fazer valer o direito subjetivo em questão: a prescrição atinge a ação e, como diziam os civilistas clássicos (...), por via oblíqua, faz desaparecer o direito tutelado (...). Neste caso, quando o direito deve ser exercido dentro de certo prazo e isso não ocorre, o direito é que se extingue, extinguindo obliquamente a ação. Prescrição também se distingue de noções similares, como a preclusão (perda, extinção ou consumação de faculdade processual - no curso do processo, portanto (...), como a perempção (extinção do processo por abandono de sua movimentação pelo autor), ou ainda a deserção (perecimento de recurso por falta de preparo pelo recorrente) (...) o que se impede é que a parte (Estado ou particular) use dos meios legais – processuais que o ordenamento jurídico prevê para que esse direito (...) seja operacionalizado, sendo essa sutil diferença motivo pelo qual muitos cultores do Direito menos avisados empreguem uma noção pela outra” (g.n.). 82 MELLO, Celso Antônio Bandeira de, Curso de direito administrativo, São Paulo, SP, Brasil: Malheiros, 2010., p. 487. Fl. 235DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. 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Quando a turma decide pela aplicação do voto de qualidade a um caso após a questão ser submetida à votação pela presidência, tendo em vista que a ata deve refletir o posicionamento da turma e que a proclamação do resultado não se trata de ato autônomo, mas parte integrante do ato administrativo complexo do julgamento que tem como efeito não apenas prover de transparência e publicidade o ato, que se aperfeiçoará posteriormente com a publicação, mas também de estabelecer o marco temporal preclusivo a partir do qual não é mais possível aos julgadores a alteração do posicionamento individual (§ 3º, art. 58 RICARF e art. 941, CPC), pois, a partir da execução de tal ato solene, a decisão vigente é aquela do colegiado (órgão julgador) e não mais do conselheiro que o integra. Neste sentido, não se conclui o julgamento até que todas as questões de ordem, colocadas ou supervenientes, materiais ou processuais, levantadas sejam devidamente enfrentadas com a respectiva deliberação, cuja inobservância seria motivo de não aprovação da ata da sessão (art. 61, RICARF), motivo pelo qual é da competência jurisdicional do órgão colegiado a definição do resultado que o presidente (locutos, voz do corpus coletivo) proclama na forma de ato meramente declaratório de exteriorização. Tal consideração, que exsurge da leitura da lei e demais normas aplicáveis à espécie, dá-se não obstante a necessidade de fundamentação das decisões, sobretudo quanto à prenotação do resultado, cuja ausência implicará vício por omissão e, no limite, a sua nulidade em virtude de vera preterição do direito das partes de se defenderem (inciso II do art. 59 do Decreto nº 70.235/1972), pois o desconhecimento sobre os fundamentos últimos que levaram a turma a aplicar o chamado “voto de qualidade” é impeditivo do exercício da ampla defesa. Assim, não se cogita a prenotação de resultado de julgamento que não reflita o ocorrido em sessão: os votos proferidos pelos conselheiros, inclusive aqueles sobre conhecimento e preliminares, bem como sustentação oral dos patronos e demais eventos juridicamente relevantes, independentemente da conclusão do recurso devem estar consignados em ata (§ 4º do art. 58, RICARF), sob pena de ofensa ao devido processo legal e clara situação de nulidade, o que é facilmente aferível pela visitação aos registros audiovisuais das sessões, conquista que acresceu a toda comunidade jurídica no sentido da transparência dos atos administrativos. O art. 19-E da Lei nº 10.522, de 19/07/2002, inserido pelo art. 28 da Lei nº 13.988, de 14/04/2020, determina que, em caso de empate no julgamento do processo administrativo de determinação e exigência do crédito tributário, não se aplica o voto de qualidade a que se refere o § 9º do art. 25 do Decreto nº 70.235, de 06/03/1972, resolvendo-se favoravelmente ao contribuinte. A previsão, inserta por meio heterodoxo no curso do processo legislativo de aprovação da Medida Provisória nº 899/2019, em descompasso com a disciplina da transação tributária (modalidade extintiva do crédito tributário prevista nos arts. 156 e 171 do Código Tributário Nacional, no contexto da inserção de modelos não adjudicativos de resolução de conflitos), foi aprovada em contrariedade à Lei Complementar nº 95/1998, em posição firmada pelo Supremo Tribunal Federal firmada na ADI 5127, em que se decidiu que o Poder Legislativo não pode incluir em lei de conversão matéria estranha à Medida Provisória, sobretudo por meio de emenda aglutinativa ou de mero expediente que não guarda qualquer identidade com as emendas que buscava aglutinar, perdendo-se, assim, o pacto silencioso no sentido de que o empate operava em favor do fisco, mas que a decisão favorável ao contribuinte Fl. 236DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 43 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 ungia a palavra final da Administração de intangibilidade, tendo sido a questão submetida ao controle concentrado de constitucionalidade do Supremo Tribunal Federal. Em paralelo ao debate sobre a validade da alteração, e diante das discussões a respeito da aplicação efetiva da norma, que prossegue hígida e válida no ordenamento até ulterior e eventual declaração em contrário pela Suprema Corte, a Procuradoria da Fazenda Nacional produziu resposta a consulta formulada pela Presidente deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais em que concluiu que o novel dispositivo alcançaria as decisões com conteúdo de mérito proferidas no julgamento do processo de determinação e exigência de crédito tributário, situações em que o empate em julgamento deverá ser resolvido em favor do contribuinte, destinatário do “tratamento especial” (sic) definido pela norma em análise, que não contemplou os seguintes casos: (i) decisões proferidas em processos que não envolvem o julgamento do processo de determinação e exigência do crédito tributário (eg. restituição, ressarcimento, reembolso e compensação, processos de exigência de multas aduaneiras, direitos antidumping e medidas compensatórias, de suspensão de imunidade ou isenção, de exclusão do Simples, de representação de nulidade); (ii) julgamento dos recursos de responsáveis tributários (exclusivos ou solidários); (iii) deliberações de índole processual (análise dos requisitos de admissibilidade dos recursos de ofício, voluntário, especial e dos embargos de declaração, como a tempestividade ("perempção") e os requisitos específicos das modalidades recursais, análise de concomitância entre o processo administrativo e processo judicial, decisão interlocutória na forma de resolução); e (iv) julgamento de embargos de declaração sem efeitos infringentes, bem como de embargos inominados. Em atendimento ao item 5 da Nota SEI nº 6/2020/ASTEJ/CARF-ME, no sentido de que o art. 19-E seja disciplinado através de portaria específica, foi editada a Portaria ME nº 260, de 01º/07/2020, abaixo transcrita: Portaria ME nº 260, de 01º/07/2020 - Art. 1º Esta portaria disciplina a proclamação de resultado do julgamento, nas hipóteses de empate na votação no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF. Art. 2º O resultado do julgamento, constatado empate na votação, após colhidos os votos nos termos do art. 58 da Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, será proclamado com o voto de qualidade do presidente de turma, na forma do § 9º do art. 25 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. § 1º O resultado do julgamento será proclamado em favor do contribuinte, na forma do art. 19-E da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, quando ocorrer empate no julgamento do processo administrativo de determinação e exigência do crédito tributário, assim compreendido aquele em que há exigência de crédito tributário por meio de auto de infração ou de notificação de lançamento. § 2º O disposto no § 1º se aplica, também, no julgamento do auto de infração ou da notificação de lançamento formalizados nos termos do § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972. Art. 3º A proclamação de resultado do julgamento favorável ao contribuinte nos termos do § 1º do art. 2º: I - aplicar-se-á exclusivamente: Fl. 237DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 44 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 a) aos julgamentos ocorridos nas sessões realizadas a partir de 14 de abril de 2020, considerando tratar-se de norma processual; b) em favor do contribuinte, não aproveitando ao responsável tributário; e II - não se aplica ao julgamento: a) de matérias de natureza processual, bem como de conversão do julgamento em diligência; b) de embargos de declaração; e c) das demais espécies de processos de competência do CARF, ressalvada aquela prevista no § 1º do art. 2º. § 1º O disposto na alínea "b" do inciso I do caput não impede a proclamação de resultado do julgamento a favor do responsável solidário, por relação de prejudicialidade, quando exonerado o crédito tributário. § 2º Observar-se-á o disposto no § 1º do art. 2º no julgamento de: I - preliminares ou questões prejudiciais que tenham conteúdo de mérito, tais como: a) decadência; ou b) ilegitimidade passiva do contribuinte; II - embargos de declaração aos quais atribuídos efeitos infringentes. Art. 4º Esta portaria entra em vigor da data de sua publicação.´ Observa-se que a portaria em evidência ultrapassa a regulamentação do processo administrativo e acaba por usurpar competência dos órgãos julgadores no ato de concreção normativa, uma vez que a enunciação de ementa, resultado e efeitos da decisão pertencem à turma julgadora, autoridade competente para decidir, e tampouco a nenhum de seus componentes individualmente considerados, sejam eles o relator, o presidente ou o vice- presidente. Ademais, o 19-E da Lei nº 10.522/2002 não se trata de norma de exceção, pois matérias como exclusão do contribuinte do Simples Nacional, aplicação de direitos antidumping ou de direitos compensatórios, ou processos decorrentes da não homologação de pedido de compensação, perdimento, glosa de prejuízo fiscal, entre outros, não estão e nunca estiveram no Decreto nº 70.235/1972, que se refere à especialíssima determinação do crédito tributário e processos de consulta sobre aplicação da legislação tributária federal. Correta, portanto, a diagnose de Diogo Olm Arantes Ferreira: “(...) a técnica legislativa adotada na elaboração do Fl. 238DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 45 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 artigo 19-E, de fato, é imperfeita e propícia a dúvidas. No anseio de esclarecê-las, a Portaria ME 260 contraria o artigo 19-E e, por consequência, é ilegal”. 83 Na verdade, toma-se de empréstimo o rito estabelecido pelo processo administrativo fiscal por questão não apenas de costume e de praticabilidade, mas por expressa determinação legal – o que não implica qualquer posicionamento a respeito da necessidade da existência de um processo específico para a solução de questões aduaneiras, iniciativa, ademais, que deve ser estimulada tendo em vista a adesão do Brasil a acordos multilaterais e à sua participação em organismos internacionais como OMC ou OMA. Assim, quando reportamos especificamente à regulamentação expansiva do voto de qualidade pela texto de julho de 2020 do Ministério da Economia, vislumbra-se flagrante insubmissão à legislação brasileira, em desacordo com o Congresso Nacional, mas, por questão de rigor técnico, não se está diante de ilegalidade da portaria ora combalida diante do Decreto nº 70.235/1972 ou da Lei nº 10.522/2002, mas com relação às normas expressas de remissão (como as leis nº 9.430/1996, à 9.317/1995, à 9.019/1995, entre outras). Neste sentido, ademais, de que o processo administrativo fiscal abrange créditos não tributários, necessário o escólio de Carlos Augusto Daniel Neto: “Com a devida vênia, o PAF, original e diretamente, abrange “processos de determinação e exigência de crédito tributário”, conforme o art. 1º do Decreto nº 70.235/724 , vindo a ter seu rito aplicado a diversos outros âmbitos (de caráter tributário ou não), por meio de remissões legais estabelecidas em leis específicas, que adotam aquele procedimento para outros âmbitos (e.g. multas decorrentes infrações administrativas ao controle de importações - art. 3º, II da Lei nº 6.562/78). Vale observar, que o art. 785 do Decreto nº 6.759/09, mencionado em seu artigo, relativo aos direitos antidumping, não diz respeito ao processo administrativo de julgamento dos autos de infração (regido pelo Dec. 70.235/72, por força do art. 7º, §5º, da lei nº 9.019/95), mas sim o processo de determinação da margem de dumping, regulado nos arts. 1º a 5º da Lei nº 9.019/95”. Especificamente nos casos aduaneiros, como o presente, para além das regras que remetem à aplicação do processo administrativo fiscal (§3º do art. 23, Decreto-lei nº 1.455/1976, §1º do art. 60, Decreto-lei nº 37/1966), há, ainda, uma segunda dificuldade, neste caso insuperável do ponto de vista da aplicação unitária do Direito: o próprio Decreto nº 70.235/1972 determina, no inciso III do art. 7º, que o procedimento fiscal tem início com o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. Aponta-se, por fim, para ainda outra inconstitucionalidade e ilegalidade da norma editada pelo Ministério da Economia, uma vez que a Portaria ME nº 260/2020 interpreta a regra como "processual", e não "material", distinção marcadamente problemática, cuja admissão implicaria usurpação de competência privativa da União para legislar sobre matérias processuais, conforme inciso I do art. 22 da Constituição, havendo, portanto, reserva (qualificada) de lei neste caso. 83 FERREIRA, Diogo Olm Arantes, A extensão do ‘fim’ do voto de qualidade, JOTA, p. 4, 2020., disponível em <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-extensao-do-fim-do-voto-de-qualidade-10072020>. Fl. 239DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-extensao-do-fim-do-voto-de-qualidade-10072020 Fl. 46 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Em que pese tal posicionamento pessoal, também a Portaria sob análise se encontra em vigor no ordenamento e este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em que pese não estar vinculado aos entendimentos externados pela Receita Federal do Brasil ou pela Procuradoria da Fazenda Nacional, e apesar de ter como desígnio o controle de legalidade do crédito tributário, encontra-se sob a estrutura do Ministério da Economia, caracterizando-se venire contra factum proprium a decisão que contrarie as normas a que se encontra hierarquicamente submetido (quando aplicáveis), nos precisos termos do parágrafo único do art. 30 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, que determina que instrumentos de tal jaez terão caráter vinculante em relação ao órgão ou entidade a que se destinam até ulterior revisão, único motivo pelo qual venho votando com a reserva de entendimento, no sentido da aplicação do voto de qualidade em desfavor do contribuinte nestes casos. Assim, uma vez extremados, seja do ponto de vista dos diferentes corpus textuais normativos, das diferentes tradições didático-pedagógicas, do diferente tratamento doutrinal e jurisprudencial, dos diferentes objetos e, por fim, do reconhecimento de toda esta diferença a partir de um ponto de vista institucional entre o direito tributário e o direito aduaneiro, passa-se a constatar que todos os casos citados no debate desfavoráveis à aplicação da prescrição intercorrente no Superior Tribunal de Justiça se referem a matérias tributárias e, neste sentido, corretas. A jurisprudência, ao nos voltarmos especificamente para o direito substantivo referente a sanções aduaneiras, por outro lado, vem reconhecendo, de maneira remansosa no Egrégio Tribunal Regional Federal da 3ª Região a aplicação do instituto quando observados os requisitos do antecedente. No Processo nº 50027630420174000000, da 6ª Turma, sob a relatoria do Desembargador Federal Luis Antonio Johonsom Di Salvo, proferido em 05/03/2021,que tratou de ação ordinária ajuizada objetivando a anulação das multas objeto dos autos de infração indicados na inicial, que lhe foram impostas com esteio no art. 107, IV, alínea "e", do Decreto-Lei nº 37/1966, decidiu-se nos seguintes termos: “O recurso da União Federal também não merece prosperar, pois, diante da natureza administrativa da infração em questão, é evidente a incidência da prescrição intercorrente prevista no § 1º do art. 1º da Lei nº 9.873/99 quanto ao débito objeto do processo administrativo nº 10814008859/2007-21. Ressalta-se que a União, em momento algum, argumenta no sentido da não paralisação do processo administrativo por mais de três anos, limitando-se a questionar a aplicação da norma ao caso concreto” (g.n.). É com idêntica precisão que a Corte Federal da 3ª Região vem afastando a aplicação da norma para créditos de natureza tributária, como no Processo nº 000518- 71.2018.4.03.6104, da 3ª Turma, sob a relatoria do Desembargador Federal Nery da Costa Junior, proferido em 11/12/2020: “(...) a prestação tempestiva de informações relativas às cargas está inserta nos deveres instrumentais tributários, que decorrem de legislação própria e têm por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos, nos termos do § 2º, do artigo 113, do Código Tributário Nacional, sendo que a responsabilidade pelo cometimento de infrações à legislação tributária independe da intenção do agente ou responsável e da efetividade e extensão dos efeitos do ato infracionário (art. 136 do CTN). Não obstante o crédito tributário esteja constituído, apresentada impugnação na via administrativa o crédito não pode ser cobrado (art. 151, inc. Fl. 240DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 47 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 III, do CTN), razão pela qual também não se pode cogitar na ocorrência da prescrição intercorrente” (g.n.). Neste sentido, impende destacar que decisões de mero expediente não são reconhecidas para interromper o prazo da prescrição intercorrente, como se extrai do posicionamento do Egrégio Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no Processo nº 5002013- 95.2016.4.04.7203, da 1ª Turma, sob a relatoria do Desembargador Federal Francisco Donizete Gomes, proferido em 28/08/2019, entendeu que, como tratava, naquela oportunidade, da multa prevista no artigo 631 do Regulamento Aduaneiro, sua natureza seria não tributária e, neste sentido: “A Lei nº 9.873/99 cuida da sistemática da prescrição da pretensão punitiva e da pretensão executória referidas ao poder de polícia sancionador da Administração Pública Federal. 2. Incide a prescrição prevista no artigo 1º, § 1º da lei no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho que deliberem a respeito de providências voltadas à apuração dos fatos. Meros despachos ordinatórios de encaminhamento ou impulso do processo administrativo não configuram causa interruptiva do prazo prescricional” (g.n.). Assim, é necessário se explicitar que a remissão à jurisprudência “pacífica” do Superior Tribunal de Justiça tem sido realizada de maneira incorreta à luz da aplicação da Súmula Carf nº 11, pois a citação por ementa não reflete necessariamente, como se demonstrou, a fundamentação, a ratio decidendi. Ao se compararem as motivações determinantes dos acórdãos proferidos pela Corte da Cidadania, o que se constata é que os arestos tiveram por supedâneo matéria tributária. Assim, até mesmo o chamado “precedente persuasivo” tem sido apontado sem a devida atenção às motivações determinantes. Repita-se: não é precedente do caso em apreço, que se volta a sanção aduaneira, matéria de natureza jurídica diversa à qual se aplica um regime que lhe é próprio, com princípios específicos, amadurecimento institucional específico, tradições específicas e um corpus textual específico, nos exatos termos apontados pelo insigne voto do Desembargador Federal Nery da Costa Junior no caso acima. A constatação da discrepância das matérias, aliás, vem sendo feita com precisão, e.g., pelo Egrégio Tribunal Regional Federal da 4ª Região, no Processo nº 0010648-12.2013.4.04.9999, da 1ª Turma, sob a relatoria do Desembargador Federal Maury Chaves de Athayde: “(...) tratando-se da cobrança de multa decorrente de infração de natureza administrativo-aduaneira, é inaplicável o Código Tributário Nacional, por não ter natureza tributária”. 3. ii. Instauração do processo administrativo, suspensão da exigibilidade e actio nata, suspensão da exigibilidade das multas aduaneiras e diferença substantiva entre “prescrição” (CTN) e “prescrição intercorrente” (Lei nº 9.783/1999) A discussão a respeito da aplicabilidade da Súmula CARF nº 11 a casos de sanções aduaneiras foi provocada pelo ex-conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto em um dos artigos mais comentados pela comunidade jurídica no corrente ano de 2021, 84 publicado em fevereiro e que levou este colegiado a revisitar o dispositivo, tendo culminado com a discussão a respeito de ainda outro tema, i.e., a possibilidade de realização de distinção na reunião mensal de 84 DANIEL NETO, Carlos Augusto, É hora de refletir sobre a Súmula n o 11 do Carf, Consultor Jurídico - Conjur, p. 4, 2021., disponível em <https://www.conjur.com.br/2021-fev-17/direto-carf-hora-refletir-sumula-11-carf>. Fl. 241DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://www.conjur.com.br/2021-fev-17/direto-carf-hora-refletir-sumula-11-carf Fl. 48 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 março desta turma 85 e, enfim, à presente assentada, neste mês de abril. De fato, o olhar atento do autor aos precedentes, como aquele que neste momento se empreende, desfraldou o fato de que as decisões que levaram à consolidação sumular ora se limitaram a afirmar um posicionamento pacífico contrário à prescrição intercorrente, ora remeteram a um específico julgado de 1982 sobre o qual nos debruçaremos a seguir, ora afirmaram não haver previsão legal para o reconhecimento do instituto, ora o fizeram em virtude do art. 5º da Lei nº 9.783/1999 (este último argumento limitado a um único caso, consubstanciado no Acórdão CARF nº 107-07.733, proferido em 11/08/2004), todos, sem exceção, diga-se, respeitantes a matéria tributária. Passa-se a revolver as camadas estratigráficas das decisões, como deve ser feito em um caso de distinção, e descobre-se que o intento postulatório dos contribuintes na maioria dos casos utilizados como paradigmas foi no sentido de aplicação analógica do art. 174 do Código Tributário Nacional a fim de se criar uma prescrição no curso do processo administrativo, que tem como pressuposto a constituição definitiva do crédito tributário para o início de sua contagem e, por evidente, foram rechaçados pelos Conselhos de Contribuintes. É de redobrado interesse o raciocínio acima, pois alguns dos acórdãos reportam ao Recurso Extraordinário nº 94.462, de relatoria do insigne Ministro Moreira Alves, que constata que a decadência apenas é admissível no período anterior ao lançamento, pois, depois deste momento, até a constituição definitiva do crédito tributário, momento a partir do qual é possível se cogitar do prazo prescricional, nada há que aluda à extinção do crédito por inércia da Administração, que poderia procrastinar sua decisão ao longo do processo administrativo. Alude que, caso “(...) quisesse criar prazo extintivo para coibir essa procrastinação, mister seria que a lei se socorresse de outra modalidade de prazo que não o de decadência ou de prescrição, pois a natureza de ambos não se amolda a esse fim”. Esta arqueologia das decisões que funcionaram como supedâneo do texto sumular, de forma a explorar um argumento comum e central a muitos acórdãos, é importante se o desígnio é construir a ratio decidendi apta a ser utilizada como proxy de comparação com o caso concreto. E qual a relevância deste texto? Prescrição é perda de pretensão executória enquanto decadência a perda do direito-dever de constituição do crédito. Não obstante, ao se vasculhar o campo normativo da tributação, ali não se encontra, como constatou Moreira Alves, um símile extintivo a estes institutos que atinja o crédito durante o iter do processo administrativo. Diga-se, ademais, que, no Parecer AGU nº 991/2009, a Advocacia Geral da União se manifestou sobre o dispositivo em análise admitindo, a um lado, que a prescrição intercorrente da norma se trata de uma extinção do "direito de punir" e, além disso, toma o cuidado de extremar diferentes tipos de prescrição. Assim, não há de se confundir “pretensão punitiva”, que é exercida com o ato administrativo que impõe a multa, com a “pretensão executória”, de exercer o direito de ação do Estado perante o Judiciário: a prescrição intercorrente ocorrerá na pendência de julgamento, pois, como se perceber, não havendo processo administrativo, instauração de contencioso, a pretensão punitiva não exercida cede espaço para a pretensão executória. Não se confunda: a prescrição do caput do art. 1º da Lei nº 9.873/1999 é semelhante à prescrição do Código Tributário Nacional na medida em que não fulmina o direito de ação, mas a própria pretensão punitiva substancial. Diga-se, ademais, que todas as sanções administrativas federais, decorrentes dos exercício do poder de policia, ficam suspensas durante o processo administrativo em decorrência do art. 1-A da Lei nº 9.873/1999 85 Sessão de março de 2021 da 1 a Turma da 4 a Câmara da 3 a Seção de Julgamento (CARF/ME 3401)., disponível em <https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499>. Fl. 242DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499 Fl. 49 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 (ANP, ANATEL, DNIT e outros) e isso não impacta a prescrição intercorrente, mas sim o inicio da contagem da prescrição da pretensão executória da sanção. Para que se solape qualquer dúvida, remata-se com o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça em recurso que obedeceu à sistemática dos repetitivos, o Recurso Especial nº 1.115.078/ RS, de 24/03/2010, em que se concluiu pela natureza de processo para fins específicos de aplicação da lei em referência. Como a decadência ou a prescrição são regimes de direito material, natureza infensa ao rito por meio do qual são processados e, como demonstrado neste voto, o Decreto nº 70.235/1972 é o rito de eleição por decorrência de ritos remissivos, há um “processo administrativo fiscal”, mas inúmeros direitos materiais e, para cada natureza jurídica, um regime que lhe é próprio e particular. Por este mesmo motivo é que a Portaria ME nº 260/2020 extremará os casos de compensação ou de exclusão de Simples Nacional: em que pese serem tipicamente tributários, não são tipicamente “fiscais”. Aquilo que se rotula de “prescrição intercorrente”, como referi em meu voto vogal proferido na última sessão, 86 após a sustentação oral da representante da contribuinte, da leitura do voto do relator e do voto da conselheira Fernanda Vieira Kotzias, tendo sido acompanhado na divergência, ainda, pela conselheira Mariel Orsi Gameiro, pode até ter o mesmo nome, mas não se trata do mesmo instituto, como demonstrou a não mais poder o Ministro Moreira Alves. Que se diga de maneira clara: o pressuposto para a assim chamada prescrição intercorrente é a existência de um procedimento ou processo. Este instituto se distancia da decadência e da prescrição previstos no Código Tributário Nacional. E de qual matéria se trata quando se fala em sanções aduaneiras? Não se trata de tributos; merecem um tratamento próprio. E, quando nos voltamos à Lei nº 9.873/1999, fala-se em prescrição (e poderia haver aqui outra palavra para descrever este instituto) da ação punitiva do Estado no caso de infração (este é o direito material atingido pela norma). Por isso mesmo, desfeito o nó-górdio da confusão, a tese da actio nata levantada pelo Ministro Aldir Passarinho se volta para a prescrição (regida pelo Código Tributário Nacional), e não para a prescrição intercorrente (regida pela Lei nº 9.873/1999), que fulmina a inércia do Estado, como bem pontuou Carlos Augusto Daniel Neto em texto recente, no qual conjura o didático ensinamento de Arruda Alvim: 87 “A existência de processo administrativo não é impeditiva à ocorrência da prescrição intercorrente, pelo contrário é condição necessária para tanto (...) prescrição intercorrente pressupõe a existência de um processo, como a lição de Arruda Alvim esclarece: “A prescrição intercorrente é aquela relacionada com o desaparecimento da proteção ativa, no curso do processo, ao possível direito material postulado, expressado na pretensão deduzida: quer dizer, é aquela que se verifica pela inércia continuada e ininterrupta no curso do processo por segmento temporal superior àquele em que ocorre a prescrição em dada hipótese”. Nesse sentido, não há dúvida de que se trata de institutos absolutamente distintos, com condições particulares de verificação em concreto, e definições próprias consolidadas na doutrina e na jurisprudência. Os 86 Ibid., disponível em <https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499>. 87 DANIEL NETO, Carlos Augusto, Súmula 11 do Carf: entre o argumento de autoridade e a autoridade do argumento, Consultor Jurídico - Conjur, p. 4, 2021., disponível em: <https://www.conjur.com.br/2021-abr- 08/direto-carf-eficacia-sumula-11-carf-entre-argumento-autoridade-autoridade-argumento>. Fl. 243DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. https://youtu.be/DYKuUOE2R3I?t=5499 https://www.conjur.com.br/2021-abr-08/direto-carf-eficacia-sumula-11-carf-entre-argumento-autoridade-autoridade-argumento https://www.conjur.com.br/2021-abr-08/direto-carf-eficacia-sumula-11-carf-entre-argumento-autoridade-autoridade-argumento Fl. 50 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 acórdãos precedentes vão todos, de forma mais ou menos clara, na linha do precedente do STF no ED no RE nº 94.462/SP, julgado em 1982, com base no voto do Ministro Moreira Alves, que consignou que a prescrição tributária correria apenas após a constituição definitiva do crédito tributário, nos termos do art. 1747 , que estabelece o seu dies a quo com o encerramento do processo administrativo (entendimento este refletido também na Súmula nº 153 do TFR). Não obstante, vale observar que o Ministro consigna a inexistência de regra que estabeleça um prazo extintivo para a Administração proferir sua decisão final após a impugnação, no âmbito do CTN, mas que tal prazo poderia ser criado pelo legislador. O argumento em questão é absolutamente válido para o âmbito dos créditos tributários, onde efetivamente inexiste regra que preveja a prescrição intercorrente durante os processos administrativos, mas perde completamente o sentido para análise de créditos não tributários, sancionatórios, que possuem regime próprio, regulado pela Lei nº 9.873/99, e com a previsão específica de prescrição intercorrente. São regimes de direito material distintos, que trazem ao argumento regras próprias não apenas de prescrição, mas também de prescrição intercorrente, e já evidenciam a absoluta inadequação da ratio decidendi dos precedentes que analisaram créditos tributários. É justamente por este motivo, ademais, que o argumento invocado pelo Ministro Aldir Passarinho referente à actio nata, não prospera em um caso aduaneiro, pois remete à prescrição para “(...) o exercício do direito de ação perante o Judiciário, que pressupõe o término do processo administrativo” 88 (g.n.). Observe-se que sequer há sentido em se falar em prescrição nestes termos durante o curso do processo. Assim, a “(...) prescrição intercorrente, ao contrário, pressupõe a existência de um processo, e a inércia do Estado julgá-lo durante um prazo determinado na lei” (g.n.): 89 “De simples leitura, verifica-se três prazos distintos: i) o prazo prescricional do art. 1º, de cinco anos, para o exercício da pretensão punitiva do Estado, contado da data da infração (ou do dia da sua cessação em caso de infração permanente ou continuada), por meio de auto ou notificação de infração; ii) o prazo §1º, que estabelece a prescrição intercorrente no curso de procedimento administrativo parado por três anos, pendente de julgamento ou despacho; e iii) o prazo prescricional do art. 1ª-A, que conta da constituição definitiva do crédito não tributário, após o término do processo administrativo, que diz respeito ao exercício do direito de ação perante o Judiciário, no prazo de cinco anos. A tese da actio nata diz respeito ao prazo para exercício do direito de ação executória (item “iii”), e não ao prazo da prescrição intercorrente (item “ii”), que, por sua própria natureza, corre durante o curso do processo ou procedimento administrativo, e tem como finalidade expressa, em sua exposição de motivos, de “dar fim aos 88 Ibid. 89 Ibid. Fl. 244DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 51 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 embaraços a que são submetidos os administrados quando, em razão da ausência de norma legal que preveja a extinção do direito de punir do Estado, são indiciados em inquéritos e processos administrativos iniciados muitos anos após a prática de atos reputados ilícitos”. Ou seja, pugnar pela aplicação da tese da actio nata ao presente caso é confundir duas figuras absolutamente distintas (prescrição e prescrição intercorrente) não apenas na doutrina, mas também nos dispositivos legais próprios. A confluência terminológica parcial (“prescrição”) não define os institutos” 90 (g.n.). Nos mesmos termos, quando se remete acriticamente ao Recurso Especial nº 840.111/RJ do Superior Tribunal de Justiça, afirmando-se que não haveria que se falar em prescrição intercorrente em virtude da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, alguns pontos precisam ser levantados para que se desfaça o engano deste percurso racional, e, ab initio, necessário se repetir que o julgado em referência tratou de matéria tributária e não de sanção aduaneira. Para estes casos, tributários, inexiste previsão legal de prescrição intercorrente e, diante desta afirmação, não há dissenção doutrinal: o coro de vozes, ao qual nos reunimos, é uniconcorde. E tampouco haveria de se esperar absolutamente qualquer previsão do Decreto nº 70.235/1972 a respeito de matérias como prescrição, decadência ou base de cálculo, ou conceito de propriedade ou domínio útil, pois são todos estes institutos de direito material. Como recorda o ex-conselheiro desta Corte Administrativa, seria o mesmo que buscar o regime prescricional do Código de Processo Civil, e não no Código Civil, 91 o que remete à “(...) absoluta inaplicabilidade do REsp nº 840.111/RJ (...): não considerou o regime de direito material dos créditos não tributários (que inclui a prescrição intercorrente), mas sim de créditos tributários”. A definição do direito substantivo altera o regime a ele aplicável e, se tal aresto não encontra previsão legal para prescrição intercorrente em matéria tributária é porque não há; tarefa inglória será a daquele que buscar fazê-lo. Por este motivo, se a questão é diversa, então há instrumentos próprios para abordá-lo: a matéria prisma o olhar do intérprete para um plexo normativo diverso sempre específico, o que nos leva à questão a respeito da suspensão da exigibilidade das multas aduaneiras, que decorre não do art. 151 do Código Tributário Nacional por se tratar de regra específica, mas devido à defecção, à lacuna normativa colmatada pelo instrumento analógico- integrativo, sobretudo a se ter em vista que se está a tratar de ação punitiva do Estado, devendo estar concluído o processo para que se proceda à inflição da pena, em virtude de comando constitucional, proveniente do altiplano do Direito, e, em segundo lugar, porque há comando 90 Ibid. 91 Ibid.: “(...) a decadência e a prescrição (seja ela intercorrente ou não), são questões de direito material, pois se conectam com o direito material em discussão, tanto que processualmente, elas enquadradas como questões preliminares de mérito (v. art. 487, II do CPC/201512). Daí a relevância brutal de se considerar, para fins de análise do cabimento ou não da prescrição intercorrente, o regime jurídico a que se submete o crédito em discussão! Ora, alguém poderia indicar um dispositivo do Decreto nº 70.235/72 que trate sobre os prazos de decadência ou prescrição? Óbvio que essa missão é impossível, por se tratar de questões de direito material, abordadas no CTN, e não processuais. Seria o mesmo que procurar o regime prescricional de determinado direito subjetivo no âmbito do CPC/2015, e não no Código Civil, onde está disposto. Essa lógica é a mesma com os créditos de caráter não tributário: o seu regime jurídico prescricional, incluindo a prescrição intercorrente, foi integralmente estabelecido na Lei nº 9.873/99, já analisada, apesar de eles adotarem o rito do Decreto nº 70.235/72”. Fl. 245DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 52 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 específico. Não pode se olvidar que as sanções aduaneiras, como se referiu, em virtude de regra de remissão, serão processadas pelo rito do decreto de 1972. E, nele, recorde-se, o § 3º do art. 21 (“esgotado o prazo de cobrança amigável sem que tenha sido pago o crédito tributário, o órgão preparador declarará o sujeito passivo devedor remisso e encaminhará o processo à autoridade competente para promover a cobrança executiva”), e o art. 33 (“da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão”) estabelecem o efeito suspensivo das impugnações e recursos administrativos: “(...) a conclusão (...) de que a suspensão da exigibilidade das multas aduaneiras decorreria do “Decreto-Lei n. 70.235/1972 c/c 151, III, do CTN”, que seria regra específica em relação à Lei nº 9.873/99, não subsiste. A suspensão da exigibilidade das sanções administrativas (crédito não tributário) no curso dos processos administrativos não decorre do art. 151, III, do CTN, como é afirmado. Pelo contrário, o STJ esclareceu no REsp nº 1.381.254, de maneira categórica, “não subsistir previsão legal de suspensão de exigibilidade de crédito não tributário no arcabouço jurídico brasileiro.”, entretanto, entendeu que dia diante dessa lacuna normativa, caberia a aplicação, por analogia, das hipóteses de suspensão de exigibilidade do CTN aos casos concretos. Ora, como poderia existir uma antinomia entre um dispositivo e uma lacuna normativa? Parece-nos que a suspensão da exigibilidade dos créditos não tributários, de caráter sancionatório, decorreria também de outra circunstância evidenciada no precedente acima, e usada como fundamento da analogia aplicada, qual seja, “a natureza jurídica sancionadora da multa administrativa deve direcionar o Julgador de modo a induzi-lo a utilizar técnicas interpretativas e integrativas vocacionadas à proteção do indivíduo contra o ímpeto simplesmente punitivo do poder estatal (ideologia garantista)”. Não há que se punir o administrado enquanto a própria ocorrência da infração ou outros aspectos relacionados estão sendo discutidos perante a União . Além disso, há que se relembrar que o rito do Decreto nº 70.235/72 é adotado, por remissão, para as multas administrativas aduaneiras, e que os arts. 21, §3º e 33 desse diploma legal estabelecem o efeito suspensivo das impugnações e recursos administrativos, apresentados tempestivamente, o que é fundamento suficiente para sustentar a inexigibilidade das multas aduaneiras durante o curso do procedimento administrativo. E indo além, a suspensão da exigibilidade judicial da multa decorre também do art. 1º-A, da Lei nº 9.873/99 (citado acima), que estabelece que o prazo prescricional para a ação de execução da administração pública federal relativa a crédito decorrente da aplicação de multa por infração à legislação em vigor só se inicia a partir da constituição definitiva do crédito não tributário, após o término regular do processo administrativo. Aqui sim, cabe perfeitamente o argumento do “princípio da actio nata” (...). Se o prazo da prescrição (e não da prescrição intercorrente) se encontra essencialmente atrelado ao nascimento do direito do ente público de executar (...), o contrário será igualmente válido: a Fl. 246DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 53 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 possibilidade do exercício da pretensão executória se inicia junto à prescrição correspondente. Anote-se que o raciocínio encontra respaldo na própria Constituição Federal, que estabelece a imprescritibilidade apenas em específicas situações, como exceção (e.g. prática de racismo). Desse modo, cogitar a possibilidade do exercício da pretensão executória de crédito não tributário desvinculada do início do prazo prescricional, seria o mesmo que a incluir no rol das imprescritibilidades constitucionais” 92 (g.n.). 3. iii. O conselheiro do CARF pode fazer distinguishing? É evidente, por tudo que se expôs, que as súmulas, no âmbito desta Corte, são de cumprimento obrigatório aos conselheiros que a integram ao fundamentarem as suas decisões, mas restou igualmente claro que o microcosmos processual do tribunal tampouco se encontra insulado com relação ao restante da comunidade jurídica e do próprio sistema jurídico brasileiro. Em reconhecimento a este fato, a Portaria CARF nº 120/2016 introduziu norma de caráter orientativo (art. 1º, § 1º), o Manual do Conselheiro, cujo Capítulo V explicita textualmente a possibilidade de não aplicação de súmula com a condição de que se expresse o entendimento no voto de maneira justificada. Em primeiro lugar, trata-se de texto meramente pedagógico, que vem a explicitar a construção em torno da correta aplicação dos precedentes. Em segundo lugar, trata-se de disposição voltada a orientar, e não poderia ser diferente. Observe-se que também há um manual voltado a orientar a presidência do colegiado das turmas, iniciativa em tudo elogiosa no intento de conferir a maior impessoalidade possível às decisões. Nele, lê-se: "Por fim, os conselheiros devem observar os enunciados de súmula do CARF (...). Usualmente, é durante os debates que surge a necessidade de observação das regras acima. Caso o relator deixe de aplicar alguma delas à matéria sob julgamento, deve ficar consignado em seu voto o motivo pelo qual entende ser inaplicável ao caso concreto” (g.n). O Manual, de maneira escorreita, além de recordar que se trata de algo usual e de maneira alguma extraordinário, aponta à necessidade de se “observar” a súmula e, mais, reitera que a discordância, havendo, deverá ser fundamentada, não cabendo se desafiar a súmula mas demonstrar os motivos pelos quais ela não se aplica àquele caso: 92 Ibid. Fl. 247DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 54 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 O conflito entre a obrigação de seguir precedentes e a independência da decisão fundada conduz à conclusão de que “(...) o empréstimo de efeito vinculante ao precedente judicial não altera substancialmente a tarefa do juiz de interpretar a regra, para que se alcance seu melhor significado, inclusive interessando aferir sobre sua efetiva adequação ao caso concreto” 93 , havendo autores, com os quais não comungamos, que vislumbram a 93 MARINHO, Hugo Chacra Carvalho e, A independência funcional dos juízes e os precedentes vinculantes, in: DIDIER JR, Fredie et al (Orgs.), , 1. ed. São Paulo, SP, Brasil: JusPodivm : Coletaneâs ANNEP : Coletaneâ Internacional, 2015, p. 87–98. Fl. 248DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 55 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 possibilidade de uma liberdade quase incontida do aplicador, 94 arredado de contornos no processamento dos feitos e nos julgamentos sob sua batuta. O fato é que "(...) não é incomum, seja no CARF ou no Poder Judiciário, afastar-se a aplicabilidade de uma súmula, justamente porque sua confecção é pautada por casos concretos”. 95 De fato, “(...) afastar a aplicabilidade de súmulas, de leis, de decretos, de portarias e de outras normas complementares é o quotidiano, é o corpo e a alma do exercício jurisdicional". 96 Já na Reclamação Constitucional nº 2.126, de 19/08/2002, discernia o Ministro Gilmar Mendes que “(...) o efeito vinculante (...) das decisões não pode estar limitado à sua parte dispositiva, devendo, também, considerar os chamados ‘fundamentos determinantes’”, o que é rotineiro mesmo na Câmara Superior de Recursos Fiscais desta corte administrativa, como se pode perceber da leitura do Acórdão CSRF nº 9303-01542, que afastou a aplicação da Súmula CARF nº 01 em virtude do fato de que a ação judicial teria experimentado o advento da extinção sem o julgamento do mérito por conta de desistência, tendo entendido a relatora que a disposição apenas seria aplicável nos casos “(...) em que existe realmente (sic) concomitância”. No Acórdão CARF nº 3402-003.012, a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz apresentou declaração de voto, vera preleção encomiosa, na qual explicou os motivos pelos quais realizaria o distinguishing da Súmula CARF nº 20, segundo a qual “Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT”: as razões determinantes que conduziram à aprovação do enunciado eram dissonantes do fato concreto, que tratava de derivados de petróleo alcançados pela imunidade conferida pelo art. 155, § 3°, da Constituição Federal de 1988. Segundo a relatora, a “(...) imunidade, como é consabido, é categoria jurídica que não se confunde com a figura jurídica da ‘não incidência’”. Não se afere deste momento a correção da asserção, mas a afirmação é prenhe em constatações: em primeiro lugar, não há nenhuma novidade no recurso ao instituto da distinção, pois é justamente esta a tarefa daquele que se investe do mandato de Conselheiro, em segundo lugar, não se infirma a validade do predicado sumulado, apenas a sua condição de fundamento para o dado concreto, e o aplicador pode (= deve) fazê-lo de modo a apresentar as suas razões. E cabe questionar como seria objeto de punição ou desforra o regular exercício da função lecionada da seguinte forma: “Primeiramente, ao contrário do teor do voto do Ilustre Relator, entendo não ser aplicável a Súmula 20 do CARF ao caso. Isto porque, a presente discussão não se restringe ao fato de os produtos da Recorrente estarem classificados na TIPI como NT, mas sim ao entendimento, expresso na acusação fiscal, de que os produtos da Recorrente não são derivados de petróleo (imunes) e que por isso adota-se a notação NT. Tendo isso tem vista, é preciso lembrar que a vinculação da súmula aos precedentes que a motivaram é obrigatória, ou seja, são os fundamentos dos precedentes que suportam a aplicação da súmula. O artigo 489, §1º, do Novo CPC, já em vigor, impõe nulidade a decisão que aplicar ou deixar de aplicar súmula sem que demonstre a pertinência ou impertinência dos seus precedentes ao caso concreto (...). 94 Ibid. 95 ULIANA JUNIOR, Para julgar, é preciso ter coragem, mas também liberdade. 96 Ibid. Fl. 249DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 56 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Vê-se que o inciso V acima transcrito afirma que não corresponde a fundamentação a decisão que simplesmente invoca um precedente ou súmula sem demonstrar a sua pertinência com o caso concreto. Ou seja, não basta ao julgador citar o precedente ou enunciado sumular. É imprescindível a análise da correspondência da sua tese com o caso debatido em juízo. O inciso VI prevê que, para a refutação de um precedente alegado em uma demanda, é preciso a demonstração de que os pressupostos de fato e de direito não são os mesmos do caso concreto. Os dois incisos trabalham o fenômeno da “distinção” ou “distinguishing”. A “distinção” pode ser analisada com base em dois focos. O primeiro é o método de verificar os pressupostos de fato e de direito de um precedente ou súmula e a sua eventual correspondência com os do caso concreto. Já o segundo é o resultado ou conclusão pela aplicação ou pela distinção (daí o termo “distinguishing”). No presente processo, parece-me que há consenso dessa Turma de que são derivados de petróleo, ou seja, os lubrificantes industrializados pela interessada, objeto da presente autuação, enquadram-se no conceito de derivados de petróleo, e são alcançados pela imunidade conferida pelo art. 155, § 3°, da Constituição Federal de 1988. A imunidade, como é consabido, é categoria jurídica que não se confunde com a figura jurídica da ‘não incidência’” (g.n.). A Câmara Superior de Recursos Fiscais, como se referiu, aplica distinguishing. No Acórdão CSRF nº 9202-006.580 os conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo, no exercício da presidência, deixaram de aplicar, à unanimidade e sem absolutamente qualquer ressalva, a Súmula CARF nº 66, segundo a qual “Os órgãos da Administração Pública não respondem solidariamente por créditos previdenciários das empresas contratadas para prestação de serviços de construção civil, reforma e acréscimo, desde que a empresa construtora tenha assumido a responsabilidade direta e total pela obra ou repasse o contrato integralmente”, por entenderem que a uma fundação estadual pertenceria à administração indireta. Qual o fundamento para extrair a administração indireta quando o comando textual expresso do enunciado da súmula não o faz? A análise das razões determinantes dos paradigmas que levaram à sua edição: “(...) tendo em vista que, ao editar os enunciado de súmula, os tribunais devem ater-se às circunstâncias fáticas dos precedentes que motivaram sua criação, nos termos do art. 926, § 2º, do CPC, para melhor avaliar a subsunção do presente caso ao disposto na Súmula CARF nº 66, foi realizado o distinguishing entre o caso concreto analisado e os paradigmas que orientaram a formação da Súmula mencionada. Um dos paradigmas relevantes é o Acórdão n.º 20600.611, da Fundação Clóvis Salgado e Outros, que nega provimento a Recurso de Ofício em razão da inexistência de responsabilidade solidária na construção civil” (g.n.). De igual sorte a Súmula CARF nº 105, segundo a qual “A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei Fl. 250DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. 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Fl. 57 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício”, desafiada no caso de infrações posteriores à superveniência da Lei nº 11.488/2007, como, e.g., no Acórdão CSRF nº 9101-005.080, em que a Conselheira Andréa Duek realiza percuciente análise da ratio decidendi dos precedentes que originaram a norma e, após a leitura de todos os sete casos que lhe deram origem, apercebe-se que se voltaram a casos anteriores à edição da lei em referência, restringindo-se à aplicação da multa isolada sobre estimativas relativas aos anos de 1998 e 2003, o que implicaria, sob este raciocínio, a não incidência da súmula após a novação legislativa: “Ressalto que o dispositivo legal citado na súmula foi expressamente revogado pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, a qual conferiu nova redação ao art. 44 da Lei nº 9.430/1996. A Lei nº 11.488/2007 não apenas reduziu o percentual da multa (de 75% para 50%) como também alterou a sua hipótese de incidência: a multa deixou de ser exigida sobre “a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição” — expressão que constava no caput do art. 44 na redação anterior, e que em grande medida foi relevante (ao menos até antes da Lei nº 11.488/2007) para assentar a jurisprudência do CARF favorável à tese da concomitância, uma vez que vinculava a interpretação do parágrafo 1º àquela redação do caput — para passar a ser exigida sobre “o valor do pagamento mensal devido”. (sem mais nenhuma vinculação ao valor do imposto ou contribuição devidos). Ao analisarmos ainda os precedentes que deram origem à referida súmula, editada em dezembro de 2014, vemos que todos eles (sete, ao total) são acórdãos que analisaram a aplicação da multa isolada em anos anteriores à edição da Lei nº 11.488/2007 (mais precisamente, são casos em que se analisou a aplicação da multa isolada sobre estimativas relativas a anos entre 1998 e 2003). Este fato, aliado à expressa menção, na súmula, ao dispositivo legal que então amparava, nos autos de infração lavrados, a exigência da multa isolada, e ao fato de que tal dispositivo encontra-se hoje revogado, me conduzem à conclusão de que a Súmula CARF 105 não se presta a amparar a exoneração da exigência das multas isoladas lançadas após a citada alteração legislativa. É possível se discordar da relatora, a Conselheira Andréa Duek, mas o racional do voto é hialino e busca revolver, de maneira em nosso sentir irreprochável, as entranhas dos precedentes para neles encontrar o sentido da súmula, a sua gramática ou anatomia profunda, em prestígio às técnicas de decisão determinadas pela legislação processual brasileira, ainda que não se valha expressamente do jargão originário do direito comum. A eventual discordância quanto ao mérito não macula a decisão, pois parte indissociável da própria dinâmica e razão de ser da colegialidade, como se extrai do voto vencedor do Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella que, ademais, continua a aplicar a ratio decidendi dos precedentes informadores a todos os casos, indistintamente, assim identificada como a censura à saturação punitiva consistente na coexistência de duas penalidades sobre idêntica exação, comportamento revelador de que o Fl. 251DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 58 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 caminho para a expressão do dissenso é invariavelmente o voto e jamais o opróbrio ignominioso e proditório da vergasta: “(...) há muito, este Conselheiro firmou seu entendimento no sentido de que a alteração procedida por meio da Lei nº 11.488/2007 não modificou o teor jurídico das prescrições punitivas do art. 44 da Lei nº 9.430/96, apenas vindo para cambiar a geografia das previsões incutidas em tal dispositivo e alterar algumas de suas características Assim, independentemente da evolução legislativa que revogou os incisos do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96 e deslocou o item que carrega a previsão da aplicação multa isolada, o apenamento cumulado do contribuinte, por meio de duas sanções diversas, pelo simples inadimplemento do IRPJ e da CSL (que somadas, montam em 125% sobre o mesmo tributo devido), não foi afastado pelo Legislador de 2007, subsistindo incólume no sistema jurídico tributário federal. E foi precisamente essa dinâmica de saturação punitiva, resultante da coexistência de ambas penalidades sobre a mesma exação tributária – uma supostamente justificada pela inocorrência de sua própria antecipação e a outra imposta após a verificação do efetivo inadimplemento, desse mesmo tributo devido –, que restou sistematicamente rechaçada e afastada nos julgamentos registrados nos v. Acórdãos que erigiram a Súmula CARF nº 105”. A prática é corriqueira e não deveria causar qualquer espécie, tendo em vista que mesmo antes da própria codificação de 2015 era praticada de maneira expressa, como no Acórdão CARF nº 2802-003.123, proferido em sessão de 10/11/2014, sob a relatoria do Conselheiro Ronnie Soares Anderson: SÚMULA CARF Nº 29. AFASTAMENTO DIANTE DA PECULARIEDADE DO CASO CONCRETO. CO-TITULAR DE CONTA CONJUNTA NÃO RESIDENTE. Não obstante os termos da Súmula CARF nº 29, os precedentes que ampararam seu enunciado não se aplicam diante da peculiaridade do caso concreto, no qual um dos cotitulares é não residente no país. (...) Importa ressaltar, aliás, ser inaplicável no particular os termos da Súmula CARF nº 29, segundo o quais todos os cotitulares de conta bancária devem ser intimados para comprovar a origem dos depósitos nela efetuados, na fase que precede à lavratura do auto de infração com base na presunção legal de omissão de receitas ou rendimentos, sob pena de nulidade do lançamento. Em nenhuma das decisões que ampararam tal Súmula, a saber, os acórdãos de nos 106-17009, 102-48460, 102-48163, 104-22117, e 104-22049, foi analisada situação similar à enfrentada nos presentes autos, qual seja, a presença de não residente no Brasil como cotitular de conta conjunta. Fl. 252DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 59 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Impende, desse modo, ser realizada a devida distinção (o “distinguishing” da common law) entre o caso concreto sob julgamento e aqueles que ampararam a aprovação do referido enunciado, pois, não obstante a aproximação existente entre eles, há no presente a importante peculiaridade de que um dos co-titulares da conta nº 2.152.541 não reside no Brasil. A legislação do imposto de renda, em harmonia com o disposto no caput do art. 5º da Constituição Federal, não diferencia os nacionais dos estrangeiros, mas sim os residentes dos não residentes, independentemente da nacionalidade. (...) Portanto, deve ser afastado no caso em foco a aplicação da multicitada Súmula, por estarem presentes peculiaridades que tornam inaplicável a tese jurídica ali firmada (‘restrictive distinguishing’)” (g.n.). É correto afirmar que, ao se prestigiar a distinção da previsão de uma súmula do caso concreto com relação aos precedentes que lhe deram forma, afastando a sua aplicação dos casos dissonantes, afirma-se, alternativamente, que ela se aplica aos casos semelhantes. Este fenômeno da dupla componencialidade do direito que ao mesmo tempo que exclui determinados fatos da hipótese da norma (negativo), e inclui outros (positivo), confere-lhe autoridade. Retira- lhe a autoridade a obrigação de fazê-la cumprir sob vara, ainda que diante da discordância fundada daquele que detinha competência para fazê-lo e, por este motivo, as dissenções devem estar restritas aos autos. Por outro lado, o ato de declarar o espaço positivo, ou a base de incidência da súmula, provê uma aura de validade no respeitante a seus limites, dentro dos quais, em termos marcadamente kelsenianos, a vontade não é oponível à razão, pois nesta área normada, sobre a qual se projeta a sombra da coleção de precedentes densificados no texto sumular, a decisão já está posta e vincula. Porém, ultrapassada esta fronteira hermenêutica, o aplicador é livre para desbravar o direito conforme suas convicções fundadas, liberto desta especialíssima amarra. Assim, é possível se afirmar que, na verdade, a distinção visa, mais do que a observância, a proteção da integridade da Súmula. À questão sobre se o Conselheiro do CARF pode ou não fazer distinguishing, responde-se com firmeza: o Conselheiro do CARF, aplicador/realizador de normas, faz distinguishing desde o primeiro processo que pauta até o último dia de seu mandato. Conclusão Desta feita, uma vez realizada a observância estrita e detalhada da Súmula CARF nº 11, entendo que não deva ser aplicada ao presente caso. Reitero, para que reste claro, que a súmula continua hígida e válida no ordenamento, porém, após longo arrazoado a respeito de como se interpretam as Súmulas, em estrito respeito e prestígio ao Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) que integro, após a leitura atenta do manual de julgamento do Conselheiro e do manual do Presidente de Turma e dos dispositivos do Código de Processo Civil, e depois de estudo tão exauriente quanto possível a respeito do tema, valendo-me do melhor de minhas faculdades e de minhas capacidades, com a mais respeitosa vênia àqueles que entenderem de maneira contrária, entendi, após observá-la à exaustão, que seu texto não se coaduna ao caso concreto em disputa, não se tratando O presente voto de um “overruling”, mas de um “distinguishing” que, segundo creio, existe não para derruir, mas para robustecer e reafirmar a autoridade da Súmula CARF nº 11. Sendo esta a minha convicção, voto Fl. 253DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 60 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 com a certeza de estar a aplicar o bom direito não apenas com isenção e honestidade intelectual, mas, sobretudo, com a coragem e a liberdade que, sei, terão o amparo institucional desta Corte Administrativa. Assim, conheço do recurso voluntário interposto para acolher a preliminar de mérito de prescrição intercorrente, para lhe dar provimento, restando prejudicados os demais argumentos. (documento assinado digitalmente) Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Declaração de Voto Conselheira Fernanda Vieira Kotzias. Com as vênias de estilo, em que pese o como de costume bem fundamentado voto do Conselheiro Relator Ronaldo Souza Dias, ouso dele discordar. Nos termos da declaração de voto ora apresentada, indico as razões processuais e materiais que me levam a concluir pela necessidade de tratamento específico aos casos de prescrição intercorrente em casos de multa aduaneira, tal qual é o caso em apreço, os quais ensejam, a meu ver, na não aplicação da Súmula CARF n.11. 1) Da Prescrição Intercorrente 1.1) Do direito a não aplicação de súmula em razão de distinguishing Antes de adentrar na análise do caso concreto, sobre a possibilidade ou não de aplicação da prescrição intercorrente ao processo administrativo em matéria aduaneira, em razão dos eventos ocorridos em março/2021 por ocasião do início deste julgamento, me vejo forçada a tecer alguns esclarecimentos para amparar o direito dos julgadores deste Conselho de apresentar distinguishing enquanto parte das prerrogativas de seu exercício funcional. Primeiramente, cabe lembrar que o conceito de súmula, conforme ensina Fredie Didier Jr., nada mais é do que “o enunciado normativo (texto) de ‘ratio decidendi’ (norma geral) de uma jurisprudência dominante, que é a reiteração de um precedente”, havendo assim “uma evolução: precedente → jurisprudência → súmula”. Trata-se, portanto, de mecanismo para trazer celeridade e previsibilidade ao julgamento, garantindo uma forma de tratamento uniforme a questões análogas. Todavia, por ser a súmula apenas a “positivação” de precedentes pelo próprio órgão julgador, esta não pode criar nada novo (para além do que os precedentes decidiram), tampouco ser equiparada a lei. Fl. 254DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 61 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Essas características estão explicitamente dispostas no CPC/2015, senão vejamos: Art. 489. São elementos essenciais da sentença: (...). § 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...) V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos. Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente. (...). § 2º Ao editar enunciados de súmula, os tribunais devem ater-se às circunstâncias fáticas dos precedentes que motivaram sua criação. Assim, resta claro que a súmula existe para trazer segurança jurídica na medida que confere tratamento igual aos iguais, mas precisa ser analisada à luz do caso concreto para que não implique em tratamento igual aos desiguais. Caso sua aplicação fosse mecânica e desprovida de análise particular, casos sujeitos a enunciados de súmula poderiam ser dispensados de julgamento por conselheiros, sendo tratados sob modalidade eletrônica, o que se sabe não ser o caso. Conforme muito bem constatado pela Ministra Rosa Weber por ocasião do julgamento do RE n. 592.891 pelo plenário do STF, em que se afastou a aplicação de súmula no caso de créditos de IPI decorrentes de insumos adquiridos da Zona Franca de Manaus, a existência de súmula não implica em decisão pré-formulada e aplicável de forma generalizada, cabendo, ainda assim, supera-la em razão de peculiariedades e excepcionalidades por meio de distinguishing: “E, exatamente por se tratar, consoante já asseverado, de caso líder, cujo elemento de distinção é a região denominada Zona Franca de Manaus – a qual se qualifica pelo constitucional comando de incentivo ao desenvolvimento -, submetida a regime jurídico especialíssimo e não permanente, modelo exclusivo na federação brasileira, de inestimável relevância para a República, é imperioso, a meu juízo, emprestar à espécie solução consentânea com as particularidades de que se reveste. A máxima de Aristóteles de que “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade”, bem como o magistral discurso Oração aos Moços de Rui Barbosa, no sentido de que a “regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam”, conduzem em percurso retilíneo à inferência de que não comportam dois fenômenos essencialmente díspares idêntica e geral solução, sem que se incorra em contradição lógica. Ensina Robert Alexy que, dentre as variantes da ideia de igualdade, a fórmula que melhor a expressa é a de que “o substancialmente igual não pode ser tratado desigualmente”, enquanto Ingo Wolfgang Sarlet observa “que o princípio da igualdade encerra tanto um dever jurídico de tratamento igual do que é igual quanto um dever jurídico de tratamento desigual do que é desigual.” Assim, com apoio no sempre lembrado magistério de Celso Antônio Bandeira de Melo, de que vedadas as “desequiparações fortuitas ou injustificadas” , porquanto reputo presente fator de discrímen justificador racional da desigualação, eventual afastamento à espécie da regra gênero da vedação do creditamento de tributo não cumulativo quando não houver cobrança na etapa anterior não tem o condão de afrontar o princípio da igualdade, desde que o distinguishing – incentivo ao Fl. 255DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 62 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 desenvolvimento da Zona Franca de Manaus – seja igualmente justificável à luz do arcabouço jurídico-constitucional. [...] Nessa esteira, reconhecida a desigualação, não é suficiente a justificação racional ao tratamento diverso, incumbindo ao Estado Juiz apresentar razão orientada pelo ordenamento jurídico, a afastar a arbitrariedade. É dizer, cabe verificar se há vetor constitucional que informe solução própria ao caso em apreço, viabilizando, a um só tempo, uma resposta adequada – justa – e harmônica ao ordenamento jurídico, sem que se cometa, com relação ao tratamento dispensado aos demais casos, arbitrariedade – injusto à luz do ordenamento jurídico. [...] Lembro que toda regra é feita para situações gerais normais, de modo que, adotada essa perspectiva, consideradas as excepcionalidades e peculiaridades, à luz do postulado da razoabilidade, esta regra pode ser superada se em conflito com a igualdade. Com efeito, a generalização da norma, diante de especificidades de um caso concreto, pode levar à quebra do princípio da igualdade. É o caso dos autos [...]”. De maneira bastante semelhante, ainda que trazendo critérios mais claros à utilização do distinguishing, o Ministro Gilmar Mendes igualmente conclui pela necessidade de afastamento de súmula diante de alguma peculiaridade do caso em julgamento. Conforme se depreende de sua decisão no AR 2702 AgR/PB, também levado ao plenário do STF, a análise para aplicação ou não da regra geral do precedente ao caso concreto se baseia na verificação de quatro questões: (i) fato relevante do caso; (ii) pretensão das partes; (iii) fundamentos justificadores; e (iv) normas e valores incidentes. Tais critérios restam apresentados no trecho do voto abaixo transcrito: “A distinção, ou distinguishing (ou distinguish), consiste na confrontação entre os fatos materiais de dois casos, de modo a afastar a aplicação da ratio decidendi do precedente ao caso em julgamento em virtude da diversidade fática. Segundo as lições de Fredie Didier Jr, Paula S. Braga e Rafael A. de Oliveira: ‘Fala-se em distinguishing (ou distinguish) quando houver distinção entre o caso concreto (em julgamento) e o paradigma, seja porque não há coincidência entre os fatos concretos fundamentais discutidos e aqueles que serviram de base à ratio decidendi (tese jurídica) constante do precedente, seja porque, a despeito de existir uma aproximação entre eles, alguma peculiaridade do caso em julgamento afasta a aplicação do precedente. (...) Muito dificilmente haverá identidade absoluta entre as circunstâncias de fato envolvidas no caso em julgamento e no caso que deu origem ao precedente. Sendo assim, se o caso concreto revela alguma peculiaridade que o diferencia do paradigma, ainda assim é possível que a ratio decidendi (tese jurídica) extraída do precedente lhe seja aplicada.’ Assim, é necessário que as partes apresentem os motivos pelos quais o precedente não se aplicaria ao caso delas. É necessário que os autores demonstrem, fundamentadamente, tratar-se de situação particularizada por hipótese fática distinta ou de questão jurídica não examinada, a impor outra solução ao caso. [...] A partir dos elementos de ambos os julgados, podemos concluir que: a) os fatos relevantes dos acórdãos são os mesmos: candidatos que foram aprovados fora do número de vagas previsto no edital do certame; b) a pretensão das partes é a mesma, qual seja: a nomeação em concurso público; c) os fundamentos justificadores também são os mesmos, porquanto se discute em quais hipóteses haveria direito subjetivo à nomeação, obrigando a nomeação dos candidatos pela Administração Pública; e d) as normas e os valores incidentes também são os mesmos, relativos ao princípio do concurso insculpido no art. 37, inciso II, da Constituição Federal. Considerando essas Fl. 256DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 63 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 premissas, verifica-se que havia elementos, no RE 1.041.292, justificadores da aplicação do precedente firmado no RE 837.311-RG, Rel. Min. Luiz Fux, tema 784, sendo que a mera previsão no edital de que o concurso se destinaria ao provimento de vagas que viessem a surgir durante o seu prazo de validade não é suficiente para afastar o paradigma do tema 784 da repercussão geral.” Desta feita, resta claro que, tanto do ponto de vista legal, quanto pelo entendimento do próprio STF, é legítima a apresentação de dinstinguishing e, consequentemente, afastamento de súmula, quando verificada situação fática distinta (elemento de desigualação). Trazendo à questão para o CARF, o art. 45, VI do Regimento Interno (RICARF) merece especial atenção: Art. 45. Perderá o mandato o conselheiro que: [...] VI - deixar de observar enunciado de súmula ou de resolução do Pleno da CSRF, bem como o disposto no art. 62. Pelo texto acima, verifica-se que o termo utilizado para indicar atuação punível com a perda de mandato é “não observar”. Consultando o dicionário, tem-se como significado no termo observar as seguintes definições: (i) fixar os olhos em; (ii) considerar com atenção, estudar; (iii) fazer observação científica de algo. A partir de tal esclarecimento, resta claro que o RICARF está em linha com o disposto no art. 489, § 1º, V do CPC, visto que não pode o julgador simplesmente ignorar a súmula, sendo a sua observação, enquanto estudo e análise científica, sempre obrigatória. Todavia, deve-se verificar que o termo escolhido (observar) implica na conclusão de que não há obrigação do julgador em aplicar a súmula ao concreto quando verificado que não se trata de situação fática idêntica a dos precedentes que amparam a regra generalizadora. Corrobora para este entendimento a instrução contida no Capítulo V do Manual do Conselheiro (Portaria CARF n. 120/2016, p.51), que determina que “quando a matéria tangenciar súmula do CARF e o julgador não a aplicar por entender que os fatos ou direito não se subsumem a ela, é preciso deixar expresso no voto tal entendimento”. Em adição, o RICARF traz ainda, em seu art. 71, VI, o reconhecimento expresso da possibilidade de não aplicação de enunciado de súmula diante de análise do caso concreto: Art. 71. Cabe agravo do despacho que negar seguimento, total ou parcial, ao recurso especial. [...] § 2º O agravo não é cabível nos casos em que a negativa de seguimento tenha decorrido de: [...] VI - observância, pelo acórdão recorrido, de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais ou do CARF, bem como das decisões de que tratam os incisos I a IV do § 12 do art. 67, salvo nos casos em que o Fl. 257DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 64 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 recurso especial verse sobre a não aplicação, ao caso concreto, dos enunciados ou dessas decisões. Avaliando a jurisprudência recente do CARF, verifica-se que o entendimento que prevalece está em perfeita sintonia com o que é aqui defendido. A verificar pelos casos recentes em que Conselheiros puderam sustentar seu convencimento pela não aplicação de súmula ao caso concreto – sendo, inclusive, vencidos em alguns deles –, sem que isto implicasse em qualquer procedimento disciplinar ou cerceamento ao efetivo exercício do cargo. São exemplos disso os casos registrados nos julgamentos dos Acórdãos 9101-005.080, 9202.006.580, 9303- 01.542, 1201-004.762, 2802-003.123, 3402-004.689 e 3402-004.614. Na mesma esteira, deve-se lembrar que a presente Turma também utiliza do distinguishing para afastar súmulas em determinados casos concretos, a exemplo do que frequentemente vem ocorrendo nos casos de ação judicial coletiva não transitada em julgado em que se afasta a aplicação da Súmula CARF n.1, conforme se verifica no Acórdão n. 3401-007.831, cujo relator foi o atual presidente, Cons. Lázaro Soares. Inclusive, visitando a doutrina especializada, é patente a preocupação de que a aplicação das súmulas sejam amparadas pela atividade racional do julgador, que deve se comprometer com a situação real do caso sob análise, por ser esta o verdadeiro elemento de produção do Direito. Conforme pontuam Georges Abboud, Guilherme Lunelli e Leonard Schmitz em reflexão sobre os desafios da aplicação de súmulas no Brasil, a utilização de súmulas como um super- argumento de autoridade, confere uma falsa legitimidade e racionalidade às decisões, situação perigosa, que compromete a legitimidade da decisão e desafia o propósito do próprio instituto: “Sem dúvida, a súmula na maioria das vezes terá um objetivo bem delineado e específico. Isso contudo não quer dizer que ela prescinda de interpretação (e, ainda menos, que não seja recomendada a sua interpretação!), pois o mero aplicar subsuntivo, mecânico, quase algorítmico de um texto é uma porta aberta ao que chamaremos de uso estratégico da jurisdição. O uso estratégico decorre de alguns problemas apontados neste estudo: a ideia de que a súmula é já a norma extraída do texto; a confiança na legitimidade de uma decisão que se limita e mencionar uma súmula, desapegada do contexto fático do caso; a aposta na desnecessidade de interpretação de súmulas. [...] É daí que decorrem os problemas da aplicação mecanizada – e não discursiva – de um enunciado de súmula: pelo fato de o texto não conseguir aprisionar sentidos unívocos, a simples transcrição de uma ementa pode dar margens a interpretações mais ou menos elásticas do que de fato quer significar uma súmula. E, como consequência, um texto desconexo pode ser invocado para cobrir com um véu de pretensa legitimidade um argumento que na realidade é falho, ou até falacioso. Estaremos diante de ativismos disfarçados. O equívoco, repitamos, é de paradigma, de base teórica. A comunidade jurídica admite que o silogismo não é método decisório, mas não se dá conta do que verdadeiramente implica essa afirmação. [...] Trata-se de problema grave. Isso porque enquanto não houver plena convicção, entre a comunidade jurídica, de que é necessário inserir as ementas e súmulas como parte integrante do discurso jurídico fundamentado, haverá a possibilidade de julgamentos Fl. 258DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 65 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 exclusivamente políticos, ideológicos, pessoais, travestidos de jurídicos. Tratam-se de julgamentos a-históricos, descomprometidos com os fatos e com a realidade.” 97 Ainda que tais razões sejam mais do que suficientes para amparar o direito do julgador em apresentar dintinsguisihng diante das peculiaridades do caso concreto, deve-se ainda mencionar a existência de inúmeras contribuições acadêmicas relevantes sobre a questão, a exemplo do recente artigo publicado pelo Prof. Lenio Streck sobre o perigo de penalização da análise concreta da súmula por suposto “crime de hermenêutica” e da aula concedida pelo Min. Gilmar Mendes ao IDP em que destacou a necessidade de não generalização das “fórmulas acabadas” sob pena de que o direito deixe de ser pensado e sobre a importância de consideração dos precedentes que sustentam a súmula por serem o lastro de sua aplicação. Nestes termos, reafirmado o direito de apresentação do distinguing pelo conselheiro como prerrogativa funcional nos termos do que determina o art. 41 do RICARF, passo à análise do caso concreto, apresentando as razões que levam, a meu ver, a não aplicação da Súmula CARF n. 11 ao presente processo. 1.2) Da prescrição intercorrente em matéria aduaneira A título preliminar, a recorrente alega ter ocorrido prescrição intercorrente no processo, visto que o período transcorrido entre a apresentação do Recurso Voluntário e a distribuição dos processos para o relator no CARF foi de 6 (seis) anos, tempo em que não restou realizado nenhum ato processual. A prescrição intercorrente caracteriza-se como uma forma de sancionar a própria Administração que, em face de sua inércia, deixa de promover os atos necessários ao impulso dos autos administrativos por período igual ou maior que três anos. As únicas exceções a esta regra são taxativamente trazidas pelo art. 5º da Lei nº 9.873/99, quais sejam: (i) infrações de natureza funcional e (ii) processos e procedimentos de natureza tributária: Art. 1º Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. § 1º Incide a prescrição no procedimento administrativo paralisado por mais de três anos, pendente de julgamento ou despacho, cujos autos serão arquivados de ofício ou mediante requerimento da parte interessada, sem prejuízo da apuração da responsabilidade funcional decorrente da paralisação, se for o caso. [...] Art. 5º O disposto nesta Lei não se aplica às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária. 97 ABBOUD, Georges; LUNELLI, Guilherme; SCHMITZ, Leonard Ziesemer. Como trabalhar – e como não trabalhar – com súmulas no Brasil: um acerto de paradigmas. In: MENDES, Aluisio; MARINONI, Luiz Guilherme, ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa (orgs.). Direito jurisprudencial II. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. vol. 2, p. 645-688. Fl. 259DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 66 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 A este respeito, cabe iniciar a análise do § 1º, art. 1º da lei n. 9.873/99 pelo esclarecimento que processo e procedimento devem ser aqui encarados sem distinção. Isto porque se deve conceber o procedimento como um gênero, de que o processo seria uma espécie, tal qual o tratamento conferido pela Lei n. 9.784/99, que regula o processo administrativo fiscal, a exemplo do disposto em seus arts. 23 e 69-A: Art. 23. Os atos do processo devem realizar-se em dias úteis, no horário normal de funcionamento da repartição na qual tramitar o processo. Parágrafo único. Serão concluídos depois do horário normal os atos já iniciados, cujo adiamento prejudique o curso regular do procedimento ou cause dano ao interessado ou à Administração. Art. 69-A. Terão prioridade na tramitação, em qualquer órgão ou instância, os procedimentos administrativos em que figure como parte ou interessado: I - pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos; II - pessoa portadora de deficiência, física ou mental; [...] De acordo com a provocação trazida, e que repercute na discussão em voga nos círculos jurídicos e meios de comunicação especializados, desafia-se a aplicação da Súmula CARF n.11 nos casos cuja matéria de fundo seria eminentemente aduaneira, sob os seguintes fundamentos: (i) que a análise pautada no art. 489, §1º, V, do CPC/2015 – que indica como requisito fundamental para aplicação da súmula deve ser a verificação de seus fundamentos determinantes – permite verificar que todos os acórdãos que suportam a referida Sumula CARF são de natureza tributária, referindo-se a créditos tributários, reforçando que existe diferença material que impediria a extensão do entendimento para casos aduaneiros; e (ii) que a recém publicada Portaria ME nº 260/2020, de forma vinculante, diferencia as espécies de processos julgados pelo CARF, aplicando tratamento diferenciado ao processo aduaneiro em relação ao tributário. Em que pese tais argumentos, entendo que o segundo argumento não é correto. Isso porque a Portaria ME n. 260/2020, que restringe o afastamento do voto de qualidade como critério de desempate em votação do CARF, não deve ser vista como uma fixação de critério jurídico para diferenciação das espécies de processos submetidos a julgamento. Isto porque tal Portaria é bastante contestável do ponto de vista conceitual e apenas assevera a inadequação das regras atuais quanto ao universo do direito aduaneiro. Além de inovar ao impor tratamento diferenciado para casos de empate em razão da matéria sob votação sem que haja autorização legal para isto, a mesma não possui sequer envergadura hierárquica adequada para esse tipo de decisão. Lembrando os ensinamentos do Prof. Celso Antônio Bandeira de Mello 98 , as portarias são instrumentos administrativos próprios para produzir efeitos apenas no interior da administração, os chamados atos internos, de forma que não deveriam se confundir com atos externos, estes sim capazes de produzir efeitos sobre terceiros. Portanto, minhas razões de decidir não serão pautadas neste argumento. Quanto ao primeiro ponto, sobre o conteúdo da Súmula CARF n. 11, deve-se lembrar que seu entendimento não foi fixado pelo CARF, mas pelo antigo Conselho de Contribuintes, de 98 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2013. p. 431. Fl. 260DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 67 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 forma que foi apenas recepcionada aqui. Em termos de conteúdo, verifica-se que os problemas de aplicação derivam da sua redação, visto que a expressão utilizada quanto a caracterização do processo administrativo foi “fiscal” e não “tributário” – que, considerando a redação do art. 5º da Lei nº 9.873/99, seria a adequada – senão vejamos: Súmula CARF nº 11 Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. Ora, ao tratar “tributário” e “fiscal” como expressões sinônimas, a Súmula distorce as palavras do legislador e aumenta, sem fundamento legal, as exceções à prescrição intercorrente, o que jamais poderia ocorrer. Ademais, analisando a base legal dos precedentes que dão ensejo à Sumula CARF n. 11, bem como as matérias sob julgamento 99 , verifica-se que todos, sem exceção, tratam exclusivamente de questões tributárias, inexistindo qualquer menção ou análise sobre processos de natureza aduaneira. Portanto, da análise dos fundamentos determinantes (ratio decidendi), conforme preceitua o art. 489, §1º, V, do CPC/2015, não é justificado o afastamento da prescrição intercorrente para casos aduaneiros (e não tributários). Neste sentido, cabe destacar que, seja pela sustentação oral da PGFN, seja no voto do douto relator, os argumentos favoráveis a aplicação da Súmula CARF n. 11 pautam-se tão somente nas ementas dos precedentes, não sendo explorado o contexto fático dos mesmos. Do contrário, restaria clara a sua completa incompatibilidade com o caso concreto. Não é demais lembrar que, enquanto o processo administrativo tributário trata exclusivamente da cobrança e recolhimento de tributos e cumprimento de suas normas diretas, o processo administrativo fiscal possui abrangência muito maior, englobando questões não tributárias relativas a outros tipos de regras e obrigações impostas pelo Fisco, como é o caso do controle aduaneiro – cujo objetivo, já pacificado neste Conselho, vai muito além da defesa dos cofres públicos. Portanto, ainda que todo processo tributário seja fiscal, nem todo processo fiscal será tributário. Deve-se reconhecer que tal confusão ocorre, entre outros motivos, pela inexistência de um procedimento administrativo aduaneiro aplicável às autuações objeto de análise pelo CARF. Tal lacuna é objeto de fortes e contundentes críticas por parte dos especialistas na área e, de fato, deveria ser sanada. Contudo, o que prevalece até então é a regra disposta pelo Decreto-Lei n. 37/66, que - apesar de defasado e problemático -, é o principal diploma legal sobre a sistemática aduaneira. Conforme se verifica pelo disposto em seu Título V, cuja denominação já é “procedimento fiscal”, penalidades e infrações de natureza aduaneira são subordinadas ao rito procedimental tributário, senão vejamos: 99 Acórdãos Precedentes: 103-21113, 104-19410, 104-19980, 105-15025, 107-07733, de 11/08/2004, 202-07929, 203-02815, 203-04404, 201-73615, 201-76985. Fl. 261DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 68 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 TÍTULO V - Processo Fiscal CAPÍTULO I - Disposições Gerais Art.118 - A infração será apurada mediante processo fiscal, que terá por base a representação ou auto lavrado pelo Agente Fiscal do Imposto Aduaneiro ou Guarda Aduaneiro, observadas, quanto a este, as restrições do regulamento. Parágrafo único. O regulamento definirá os casos em que o processo fiscal terá por base a representação. Ato reflexo, o Regulamento Aduaneiro, Decreto n. 6.759/2009 vai na mesma linha, reiterando que o processo fiscal aplica-se, inclusive, para penalidades puramente aduaneiras, sem qualquer reflexo tributário, como é o caso da pena de perdimento, em que a infração pode se dar exclusivamente ao controle aduaneiro, sem qualquer prejuízo ao recolhimento de tributos: Art. 707. As infrações de que trata o art. 706 (Lei no 6.562, de 1978, art. 3º): I - não excluem aquelas definidas como dano ao Erário, sujeitas à pena de perdimento; e II - serão apuradas mediante processo administrativo fiscal, em conformidade com o disposto no art. 768. [...] TÍTULO II - DO PROCESSO FISCAL CAPÍTULO I - DO PROCESSO DE DETERMINAÇÃO E EXIGÊNCIA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO Art. 768. A determinação e a exigência dos créditos tributários decorrentes de infração às normas deste Decreto serão apuradas mediante processo administrativo fiscal, na forma do Decreto nº 70.235, de 1972 (Decreto-Lei no 822, de 5 de setembro de 1969, art. 2o; e Lei nº 10.336, de 2001, art. 13, parágrafo único). § 1º O disposto no caput aplica-se inclusive à multa referida no § 1o do art. 689. § 2º O procedimento referido no § 2o do art. 570 poderá ser aplicado ainda a outros casos, na forma estabelecida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. A ausência de um processo verdadeiramente aduaneiro faz com que todos os processos que cheguem ao CARF, independente da natureza da matéria que serviu de base para seu lançamento, sejam processos fiscais, o que, ainda que não seja o ideal, não pode se confundir como se processos tributários fossem. Ainda sobre este ponto, vale esclarecer que, apesar do processo fiscal – seja ele aduaneiro ou tributário – ser regido pelo Decreto n. 70.235/72, esta não é justificativa para que o CARF deixe de aplicação a prescrição para temas não autorizados pelo legislador. Ainda que o título da referida norma e o art. 1º possam parecer contraditórios – já que o primeiro trata de processo fiscal e o segundo de processo tributário – resta claro que fiscal e tributário não são sinônimos e que, as normas aduaneiras determinam o seguimento do rito do processo fiscal em razão de conveniência e oportunidade, diferente da matéria tributária, cuja submissão ao Decreto n. 70.235/72 é explícita. Fl. 262DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1970-1979/L6562.htm#art3 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/del0822.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/del0822.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LEIS_2001/L10336.htm#art13p Fl. 69 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 Mais do que isso, não se pode olvidar que prescrição é instituto de direito material, de maneira que a mera utilização, “emprestada” por assim dizer, de procedimento que se diz tributário (segundo o art. 1º do Decreto n. 70.235/72), não pode alterar a natureza da matéria sob julgamento. O legislador, corretamente, por meio do art. 5º da Lei nº 9.873/99, excepcionou duas matérias à possibilidade de ocorrência de prescrição intercorrente, as de origem disciplinar e tributária, não incluindo neste rol questões aduaneiras. Portanto, indiferente é o rito processual pelo qual a questão será julgada, devendo prevalecer interpretação literal e restritiva sobre tal exceção. Considerando as regras da teoria moderna de precedentes, bem como o art. 489, § 1.º, VI, do CPC/2015, entendo que o presente caso deve ser objeto de distinguishing, haja vista as distinções devidamente apontadas (caso puramente aduaneiro), visto não ser situação análoga a dos precedentes que sustentam que dão ensejo à Súmula (todos exclusivamente tributários). Portanto, necessária a sustentação de distinção para não aplicação da Súmula CARF n. 11. Voltando à metodologia fixada pelo Ministro Gilmar Mendes para verificar a aplicação ou não da regra geral do precedente ao caso concreto, se realizarmos tal exercício à situação dos autos, tem-se que, ainda que a pretensão das partes seja relativamente a mesma – ver encerrado o contencioso fiscal em razão da inércia da Administração por período superior a três anos –, os demais critérios demonstram diferenças essenciais entre os fundamentos determinantes que amparam a Súmula e o caso sob julgamento. São eles: (i) o fato relevante é lançamento de multa aduaneira, ao passo que os fatos dos acórdãos paradigma são todos tributários; (ii) os fundamentos justificadores consistem na equivocada aplicação de súmula em desacordo com o estabelecido no CPC, bem como, na conclusão de que o direito tributário e o direito aduaneiro possuem a mesma natureza, quando é explícita a separação entre tais matérias, a começar pelo fato de que o DL 37/66 é a fonte primordial de interpretação do direito aduaneiro e não o CTN; e (iii) as normas e valores incidentes giram em torno de a redação da Súmula CARF n. 11 não ser fiel ao art. 5º da Lei nº 9.873/99, apesar de utiliza-la como fundamento, já que o legislador não incluiu matéria aduaneira nas exceções à prescrição intercorrente, ao passo que nos acórdãos paradigma, por serem integralmente tributários, a regra do art. 5º da Lei nº 9.873/99 é diretamente aplicável. Portanto, demonstrada a existência de situação particular e que, como tal, precisa de tratamento adequado/individualizado. Caso, apesar de tudo o que foi dito, ainda subsista dúvida quanto a existência de dissenso sobre o tema, o que, no mínimo, justifica o presente voto, ofereço a título de último argumento a visão do Poder Judiciário (TRFs 2, 3 e 4) que já decidiu em mais de uma oportunidade pela ocorrência de prescrição intercorrente a matéria aduaneira: TRIBUTÁRIO. ADUANEIRO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. MULTA SUBSTITUTIVA DA PENA DE PERDIMENTO. NATUREZA ADMINISTRATIVA. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. LEI 9.873/99. OCORRÊNCIA. DESPROVIMENTO. HONORÁRIOS RECURSAIS. 1. O débito tem origem em multa administrativa substitutiva da pena de perdimento de Fl. 263DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Fl. 70 do Acórdão n.º 3401-009.130 - 3ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10715.730786/2012-32 mercadoria, aplicada no exercício do poder de polícia pela Administração Aduaneira por infração à legislação aduaneira. Não tem natureza tributária, portanto, aplicando- se as normas da Lei 9.873/99 que estabelece prazo de prescrição para o exercício de ação punitiva por parte da Administração Pública Federal. 2. A prescrição em relação ao poder sancionador da Administração Púbica Federal está disciplinada na Lei 9.873/1999, que estabelece três prazos que devem ser observados: (a) cinco anos para o início da apuração da infração administrativa e constituição da penalidade; (b) três anos para a conclusão do processo administrativo; e (c) cinco anos contados da constituição definitiva da multa, para a cobrança judicial. 3. A prescrição intercorrente pressupõe a inércia da autoridade administrativa em promover atos que impulsionem de maneira eficiente o procedimento administrativo de apuração do ato infracional e constituição da respectiva multa, em período superior a três anos. O § 1º do art. 1º da Lei 9.873/1999 reputa paralisado o processo administrativo desprovido de julgamento ou despacho. 4. Verificado que o processo administrativo em questão ficou paralisado por prazo superior a três anos, reputa-se consumada a prescrição intercorrente no caso concreto. 5. Recurso de apelação desprovido. Honorários advocatícios majorados na forma do art. 85, § 11 do CPC. (TRF4. AC n. 5006066-10.2020.4.04.7000/PR. Rel. Roger Raupp Rios. Dj 14/04/2021) Por fim, independentemente do resultado da presente votação, entendo que esta discussão é altamente construtiva no sentido de apontar as lacunas e falhas do sistema atual e de provocar autoridades e operadores do direito a buscarem soluções e modernizações às regras materiais e processuais aduaneiras, o que é uma necessidade antiga no Brasil. Sobretudo, trata-se do momento adequado para tanto, visto as recentes obrigações internacionais a que o Brasil se submeteu no âmbito do Acordo sobre Facilitação do Comércio (AFC) da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Convenção de Quioto Revisada da (CQR) da Organização Mundial das Aduanas (OMA), ambas contendo claros dispositivos que obrigam os signatários a adequarem seus procedimentos administrativos aduaneiros para serem acessíveis, transparentes e trazerem a segurança jurídica necessária às atividades do comércio internacional. Nestes termos, restando caraterizado que infrações e penalidades aduaneiras não possuem natureza tributária e, portanto, estão foram do alcance da exceção contida no art. 5º da Lei nº 9.873/98, por escolha do próprio legislador, bem como por todos os esclarecimentos e elementos de desigualação aqui apresentados, entendo que a Súmula CARF n.11 não pode ser aplicada os caso concreto, o que implica no reconhecimento de que se operou a prescrição intercorrente no caso concreto. É como voto. (documento assinado digitalmente) Fernanda Vieira Kotzias Fl. 264DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 70 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP23.0322.15029.O16Y. Consulte a página de autenticação no final deste documento. http://www.trf4.jus.br/trf4/processos/acompanhamento/resultado_pesquisa.php?selForma=NU&txtValor=50060661020204047000&chkMostrarBaixados=S&selOrigem=TRF&hdnRefId=2485ce8644a4f6788fa86783adfcb1f8&txtPalavraGerada=VwJO PÁGINA DE AUTENTICAÇÃO O Ministério da Fazenda garante a integridade e a autenticidade deste documento nos termos do Art. 10, § 1º, da Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001 e da Lei nº 12.682, de 09 de julho de 2012. Documento produzido eletronicamente com garantia da origem e de seu(s) signatário(s), considerado original para todos efeitos legais. Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001. Histórico de ações sobre o documento: Documento juntado por LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES em 14/07/2021 15:04:00. Documento autenticado digitalmente por LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES em 14/07/2021. Documento assinado digitalmente por: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES em 02/08/2021, OSWALDO GONCALVES DE CASTRO NETO em 26/07/2021, LEONARDO OGASSAWARA DE ARAUJO BRANCO em 26/07/2021 e FERNANDA VIEIRA KOTZIAS em 22/07/2021. Esta cópia / impressão foi realizada por MARIA MADALENA SILVA em 23/03/2022. Instrução para localizar e conferir eletronicamente este documento na Internet: EP23.0322.15029.O16Y Código hash do documento, recebido pelo sistema e-Processo, obtido através do algoritmo sha2: 71612E3F434A436A7BFB566044194CE7FB233AD0559853A41809B0F42A10ABE5 Ministério da Fazenda 1) Acesse o endereço: https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx 2) Entre no menu "Legislação e Processo". 3) Selecione a opção "e-AssinaRFB - Validar e Assinar Documentos Digitais". 4) Digite o código abaixo: 5) O sistema apresentará a cópia do documento eletrônico armazenado nos servidores da Receita Federal do Brasil. página 1 de 1 Página inserida pelo Sistema e-Processo apenas para controle de validação e autenticação do documento do processo nº 10715.730786/2012-32. Por ser página de controle, possui uma numeração independente da numeração constante no processo.
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Numero do processo: 13631.000084/2007-81
Data da sessão: Thu Sep 12 00:00:00 UTC 2013
Numero da decisão: 1801-000.269
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento na realização de diligência. Vencida a Conselheira Relatora Carmen Ferreira Saraiva que negava provimento ao recurso voluntário. Designada a Conselheira Ana de Barros Fernandes para redigir o voto vencedor.
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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Resolvem os membros do Colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento na realização de diligência. Vencida a Conselheira Relatora Carmen Ferreira Saraiva que negava provimento ao recurso voluntário. Designada a Conselheira Ana de Barros Fernandes para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes – Presidente e Redatora Designada (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Roberto Massao Chinen, Marcos Vinícius Barros Ottoni, Carmen Ferreira Saraiva, Leonardo Mendonça Marques, Luiz Guilherme de Medeiros Ferreira e Ana de Barros Fernandes. RELATÓRIO Contra a Recorrente acima identificada foram lavradas as seguintes Notificações de Lançamento a título de multa de ofício isolada por atraso na entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), em conformidade com a Tabela 1. Tabela 1 Notificações de lançamento por atraso na entrega de DCTF RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 36 31 .0 00 08 4/ 20 07 -8 1 Fl. 69DF CARF MF Impresso em 22/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 22/09/2 013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 20/09/2013 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Processo nº 13631.000084/200781 Resolução nº 1801000.269 S1TE01 Fl. 70 2 Período (A) Prazo Final de Entrega (B) Data da Entrega (C) Número de Meses em Atraso (D) Valor R$ (E) Fl. (F) 1º Trimestre de 2004 14.05.2004 19.07.2005 15 1.066,63 05 2º Trimestre de 2004 13.08.2004 19.07.2005 12 1.499,01 05 3º Trimestre de 2004 12.11.2004 19.07.2005 09 1.329,21 05 4º Trimestre de 2004 18.02.2005 19.07.2005 06 650,59 05 Para tanto, foi indicado o seguinte enquadramento legal: art. 113 e art. 160 do Código Tributário Nacional, art. 11 do DecretoLei º 1.968, de 23 de novembro de 1982, art. 10 do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, art. 30 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1996, art. 7º da Lei nº 10.426, de 24 de abril de 2002 e art. 19 da Lei nº n° 11.051, de 29 de dezembro de 2004. Cientificada, a Recorrente apresentou a impugnação, fl. 04, com as alegações a seguir transcritas suscitando que [...] tendo recebido em 03/01/2007 o Auto de Infração [...] n° do rastreamento 655653493,cobrando multa por atraso de entrega da DCTF dos 4 trimestres de 2004, vem em tempo hábil, expor o seguinte: Que pelo Ato Declaratório Executivo DERAT/RJO n° 536.188 de 02/08/2004, Evento 311 a contribuinte ficou excluída do Simples (anexo 1). Que diante da exclusão apresentou declaração pela tributação pelo "Lucro presumido" no ano base de 2004 (anexo 2); Que como Vv. Ss. pode constatar a data da entrega das DCTF'S (19.07.2005) é idênticas a data de entrega da Declaração de Imposto de Renda (19.07.2005) (Anexo 3); Que para elucidação da defesa anexa expediente junto a Receita federal atinente ao fato (anexo 4). "Ipso Factum" a contribuinte não tinha como apresentar as DCTF'S. Visto que comportava como optante pelo Simples no tempo e espaço. Destarte, vem requerer a Vv. Ss. a luz do vosso entendimento o cancelamento total do referido débito Está registrado como resultado do Acórdão da 1ª TURMA/DRJ/JFA/MG nº 0925.710, de 20.08.2009, fls. 5253: Impugnação Improcedente: Restou ementado ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2004 DCTF. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA. Estando o contribuinte obrigado à entrega da DCTF, em face de exclusão do Simples, cabível a aplicação da multa por atraso quando a apresentação da declaração se deu após o prazo regulamentar. Notificada em 01.10.2009, fl. 57, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 13.10.2009, fls. 58596, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Reitera os argumentos Fl. 70DF CARF MF Impresso em 22/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 22/09/2 013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 20/09/2013 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Processo nº 13631.000084/200781 Resolução nº 1801000.269 S1TE01 Fl. 71 3 apresentados na impugnação, acrescentando que cumpriu as obrigações acessórias dentro do prazo legal e diz que o lançamento deve ser anulado. Toda numeração de folhas indicada nessa decisão se refere à paginação eletrônica dos autos em sua forma digital ou digitalizada. É o Relatório. VOTO VENCEDOR Conselheira Ana de Barros Fernandes, Redatora designada Conheço do recurso interposto, por tempestivo. Ao analisar os autos impõemse decidir sobre matéria prejudicial. O Decreto nº 70.235/72, que disciplina o processo administrativo fiscal (PAF), não tratou da conexão ou da continência processual, pelo que o Código de Processo Civil deve ser invocado de forma subsidiária. Assim dispõem os artigos que disciplinam a matéria: Código de Processo Civil – CPC Art.102. A competência, em razão do valor e do território, poderá modificarse pela conexão ou continência, observado o disposto nos artigos seguintes. Art.103. Reputamse conexas duas ou mais ações, quando Ihes for comum o objeto ou a causa de pedir. Art.104. Dáse a continência entre duas ou mais ações sempre que há identidade quanto às partes e à causa de pedir, mas o objeto de uma, por ser mais amplo, abrange o das outras. Art.105. Havendo conexão ou continência, o juiz, de ofício ou a requerimento de qualquer das partes, pode ordenar a reunião de ações propostas em separado, a fim de que sejam decididas simultaneamente [...] Art.108. A ação acessória será proposta perante o juiz competente para a ação principal. Os presentes autos versam sobre a exigência de penalidade pelo atraso/falta de entrega de DCTF. No caso, o fato jurídico que ensejou a exigência da penalidade foi a exclusão sua do Simples Federal. É flagrante a decorrência existente deste processo àquele. A multa ora exigida somente existe em razão da exclusão da recorrente do regime do Simples, matéria ainda sob discussão no âmbito administrativo, como salientado pela Conselheira – Relatora no voto vencido. Tratase, pois, de continência (art. 104 do CPC). A continência se estabelece quando é necessária a reunião de processos para não haver decisões isoladas e conflitantes. Este processo deve ser julgado em concomitância àquele, ou pelo menos pela mesma turma julgadora administrativa, visto que as discussões secundárias devem seguir à principal (mutatis mutante – art. 108 do CPC). Fl. 71DF CARF MF Impresso em 22/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 22/09/2 013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 20/09/2013 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Processo nº 13631.000084/200781 Resolução nº 1801000.269 S1TE01 Fl. 72 4 Oportuno deixar claro à recorrente que as autuações para exigência das referidas penalidades não são dependentes do resultado final do processo de exclusão do Simples, por conta dos atributos, peculiares, do ato administrativo, no caso ADE de exclusão, que permitem a sua imediata vigência e efeitos: presunção de legitimidade, autoexecutoriedade e imperatividade. Se assim não fosse, em muitos casos, a ação do Estadofiscalização seria alcançada pela decadência. Embora as autuações para serem realizadas não estejam vinculadas à decisão transitada em julgado, ainda que administrativamente, o deslinde deste litígio depende necessariamente da decisão final sobre a recorrente ser ou não excluída do Simples. A própria Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) editou a Portaria nº 666/08 orientando no sentido da reunião dos processos: Art. 1º Serão objeto de um único processo administrativo: I as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova, referentes: [...] f) ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (Simples); (Incluída pela Portaria RFB nº 2.324, de 3 de dezembro de 2010) (Vide art. 2º da P RFB nº 2.324/2010) [...] III as exigências de crédito tributário relativo a infrações apuradas no Simples que tiverem dado origem à exclusão do sujeito passivo dessa forma de pagamento simplificada, a exclusão do Simples e o lançamento de ofício de crédito tributário dela decorrente; [...] (grifos não pertencem ao original) Indiscutível o cabimento da Portaria e a juntada dos processos no caso de exclusão do Simples e demais processos que vinculem créditos tributários – ainda que oriundos de exigência de penalidade. Em consulta ao sistema eprocesso, a Conselheira Relatora verificou que: “[...] Houve exclusão de ofício do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (Simples) pelo Ato Declaratório Normativo Derat/RJO nº 536.188, de 02.08.2004 a partir de 01.01.2002 ao fundamento de que o sócio participa com mais 10% do capital de outra empresa e a receita bruta global ultrapassa o limite legal no anocalendário de 2000 (inciso IX do art. 9º da Lei 9.317, de 05 de dezembro de 1996). O procedimento está formalizado no processo nº 15374.001899/200449, que se encontra em fase litigiosa1, nos termos do Decreto nº 70.235, de 06 de 1972, fls. 43, 5051 e 60. Ademais, os 1 Disponível em: <http://comprot.fazenda.gov.br/e gov/PvC_Mov_Consulta_Movimentos.asp?processoQ=15374001899200449&DDMovimentoQ=11012010&SQO rdemQ=0> . Acesso 02 set.2013. Fl. 72DF CARF MF Impresso em 22/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 22/09/2 013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 20/09/2013 por CARMEN FERREIRA SARAIVA Processo nº 13631.000084/200781 Resolução nº 1801000.269 S1TE01 Fl. 73 5 referidos autos se encontram na atividade “distribuisortear” na equipe Secoj/Secex/CARF/MF (...)” (trecho retirado do voto vencido) Dispõe o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – Ricarf (Portaria MF nº 256/09): Art. 49. Os processos recebidos pelas Câmaras serão sorteados aos conselheiros. [...] § 7° Os processos que retornarem de diligência, os com embargos de declaração opostos e os conexos, decorrentes ou reflexos serão distribuídos ao mesmo relator, independentemente de sorteio, ressalvados os embargos de declaração opostos, em que o relator não mais pertença ao colegiado, que serão apreciados pela turma de origem, com designação de relator ad hoc. (grifos não pertencem ao original) Destarte, pelo exposto, voto na conversão do julgamento na realização de diligência para que os autos retornem à autoridade preparadora da unidade de jurisdição da recorrente para que seja anexado ao processo acima referenciado pertinente à exclusão da recorrente do Simples. Após a anexação solicitada, os autos deverão retornar para o julgamento para esta Conselheira Redatora designada. (assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes Fl. 73DF CARF MF Impresso em 22/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/09/2013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 22/09/2 013 por ANA DE BARROS FERNANDES, Assinado digitalmente em 20/09/2013 por CARMEN FERREIRA SARAIVA
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Numero do processo: 10580.005575/2007-73
Turma: Terceira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 08 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/08/2006 a 31/08/2006
PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEGISLAÇÃO ORDINÁRIA NÃO APRECIAÇÃO NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO.
A legislação ordinária de custeio previdenciário não pode ser afastada em âmbito administrativo por alegações de inconstitucionalidade, já que tais questões são reservadas à competência, constitucional e legal, do Poder Judiciário.
Neste sentido, o art. 26-A, caput do Decreto 70.235/1972 e a Súmula nº 2 do CARF, publicada no D.O.U. em 22/12/2009, que expressamente veda ao
CARF se pronunciar acerca da inconstitucionalidade de lei tributária.
PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO INOBSERVÂNCIA DE PRECEITO FUNDAMENTAL À VALIDADE DO LANÇAMENTO INOCORRÊNCIA.
Tendo o fiscal autuante demonstrado de forma clara e precisa os fatos que suportaram o lançamento, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, bem como em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente artigo 142 do CTN, não há que se falar em nulidade do lançamento.
PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO SALÁRIO FAMÍLIA INOBSERVÂNCIA DA LEGISLAÇÃO INCIDÊNCIA.
O salário família pago incondicionalmente pela empresa aos empregados em
desacordo com a legislação previdenciária é salário e assim incide
contribuição previdenciária.
PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO COMPENSAÇÃO GLOSA.
Serão glosados pelo Fisco os valores compensados indevidamente pelo
sujeito passivo.
PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO CONTRIBUIÇÃO PARA O SAT/RAT INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO.
O art. 22, II, Lei n° 8.212/1991,define todos os elementos capazes de fazer nascer obrigação tributária válida.
Os conceitos de atividade preponderante e grau risco de acidente de trabalho não precisam estar definidos em lei, pois o Regulamento é ato normativo suficiente para definição de tais conceitos, uma vez que são complementares e não essenciais na definição da exação.
Considera-se preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior
número de segurados empregados e trabalhadores avulsos.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 2403-000.599
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade votos, em negar provimento ao recurso.
Matéria: Outros imposto e contrib federais adm p/ SRF - ação fiscal
Nome do relator: PAULO MAURÍCIO PINHEIRO MONTEIRO
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A legislação ordinária de custeio previdenciário não pode ser afastada em âmbito administrativo por alegações de inconstitucionalidade, já que tais questões são reservadas à competência, constitucional e legal, do Poder Judiciário. Neste sentido, o art. 26A, caput do Decreto 70.235/1972 e a Súmula nº 2 do CARF, publicada no D.O.U. em 22/12/2009, que expressamente veda ao CARF se pronunciar acerca da inconstitucionalidade de lei tributária. PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO INOBSERVÂNCIA DE PRECEITO FUNDAMENTAL À VALIDADE DO LANÇAMENTO INOCORRÊNCIA. Tendo o fiscal autuante demonstrado de forma clara e precisa os fatos que suportaram o lançamento, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, bem como em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente artigo 142 do CTN, não há que se falar em nulidade do lançamento. PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO SALÁRIO FAMÍLIA INOBSERVÂNCIA DA LEGISLAÇÃO INCIDÊNCIA. O saláriofamília pago incondicionalmente pela empresa aos empregados em desacordo com a legislação previdenciária é salário e assim incide contribuição previdenciária. Fl. 1DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 2 PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO COMPENSAÇÃO GLOSA. Serão glosados pelo Fisco os valores compensados indevidamente pelo sujeito passivo. PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO NOTIFICAÇÃO FISCAL DE LANÇAMENTO DE DÉBITO CONTRIBUIÇÃO PARA O SAT/RAT INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO. O art. 22, II, Lei n° 8.212/1991,define todos os elementos capazes de fazer nascer obrigação tributária válida. Os conceitos de atividade preponderante e grau risco de acidente de trabalho não precisam estar definidos em lei, pois o Regulamento é ato normativo suficiente para definição de tais conceitos, uma vez que são complementares e não essenciais na definição da exação. Considerase preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior número de segurados empregados e trabalhadores avulsos. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade votos, em negar provimento ao recurso. Carlos Alberto Mees Stringari Presidente Paulo Maurício Pinheiro Monteiro Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Carlos Alberto Mees Stringari, Ivacir Júlio de Souza, Paulo Maurício Pinheiro Monteiro, Marcelo Magalhães Peixoto, Marthius Sávio Cavalcante Lobato e Jhonatas Ribeiro da Silva (suplente). Ausente o Conselheiro Cid Marconi Gurgel de Souza. Fl. 2DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 672 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário, fls. 638 a 668, apresentado contra Acórdão nº 1516.212 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento Salvador BA, fls. 619 a 622, que julgou procedente em parte o lançamento, oriundo de descumprimento de obrigação tributária legal principal, fl. 01, Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD nº 37.018.2715, no montante de R$ 1.674.057,76 (um milhão, seiscentos e setenta e quatro mil, cinqüenta e sete reais e setenta e seis centavos centavos). Segundo a AuditoriaFiscal, de acordo com o Relatório Fiscal, fls. 20 a 27, o lançamento referese a as contribuições devidas pela empresa destinadas à Seguridade Social, quota patronal e financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa, para a competência 08/2006. O Relatório Fiscal, fls. 20 a 27, informa que o não recolhimento das contribuições previdenciárias foi motivado por restituição da retenção do Fundo de Participação dos Municípios — FPM, mediante decisão judicial, como compensação efetuada em GFIP pela Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista/BA com direitos creditórios adquiridos da empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA CNPJ 42.361.972/000151, posto que este crédito foi adquirido por meio de escritura pública de Cessão e Transferência de Direitos Creditórios e compensado na competência 08/2006. Ainda segundo o Relatório Fiscal, às fls. 20 a 27, o auditor autuante esclarece que as contribuições em apreço foram compensadas indevidamente pela empresa, sendo, desta forma, glosadas pela fiscalização. Ainda assim, o Relatório Fiscal, às fls. 20 a 27, mostra que ainda que o crédito negociado não tivesse sido todo compensado nos próprios débitos da Servport perante a Previdência Social, a Recorrente não obedeceu o limite legal permitido para compensação deste tipo, que é de trinta por cento (30%) do valor das contribuições devidas a Previdência Social, tendo assim se compensado somente no mês de outubro de 2006 o equivalente a R$ 1.208.545,68 (um milhão, duzentos e oito mil, quinhentos e quarenta e cinco reais e sessenta e oito centavos). A sociedade SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA obteve decisão favorável nos autos da Ação Ordinária 94.00493690, junto à 24a. Vara Federal da Seção Judiciária do Estado do Rio de janeiro, que declarou o direito de a mesma livremente negociar seus créditos previdenciários. A partir da decisão judicial, a empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA fez contrato de cessão desses créditos à Recorrente. Fl. 3DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 4 Em cumprimento a Mandado de Procedimento Fiscal MPF, emitido em 07/05/2004, teve início a auditoria fiscal n.° 09151936 na empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA, sob o comando da Delegacia da Receita Previdenciária RJ Norte, com o objetivo de verificar a real situação das compensações efetuadas pela empresa e apurar o saldo existente considerando as cessões de créditos já efetuadas há época. Nesta referida ação fiscal, concluiuse que a empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA, em 01/03/2000, já não possuía mais crédito junto ao INSS e desta forma não poderia ter efetuado cessão para outras empresas. Mesmo assim, a empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA, por meio das escrituras públicas de cessão e transferência de direitos creditórios cedeu à Recorrente notificada seus direitos creditórios, junto ao INSS, utilizando como motivação a sentença transitada em julgado, lavrada na 24ª Vara Federal do Rio de Janeiro, nos autos do processo 94.00493690, provenientes de recolhimentos de contribuições previdenciárias indevidos. O período de apuração, de acordo com o Mandado de Procedimento Fiscal – MPF nº 09347568F00, foi de 01/2005 a 10/2006, às fls. 13. O período do débito, conforme o Relatório Discriminativo Sintético do Débito DSD, às fls. 12, é de 08/2006. A Recorrente teve ciência da NFLD no dia 21.12.2006, conforme Aviso de Recebimento – AR 005836104BR, às fls. 01. A Recorrente apresentou Impugnação, às fls. 117 a 158, com Anexos às fls. 159 a 576. Houve requisição de diligência fiscal para o Serviço de Fiscalização, às fls. 582 a 583, para que se atendesse os seguintes pontos: a) Analisar a documentação anexada aos autos (fls. 264/576) com o fito de atestar se o contribuinte atendeu todos os requisitos, do art. 67, da Lei n.° 8.213/91 c/c o art. 84, do Decreto n.° 3.048/99, necessários à concessão do salário família, haja vista que este julgador não poderá fazêlo, pois o Relatório Fiscal do presente crédito não consta relação detalhada dos segurados para os quais as glosas foram feitas; e b) Na hipótese de retificação do valor do crédito ora apurado, elaborar planilha de cálculo discriminando os valores excluídos. Em resposta, houve a Informação Fiscal da autoridade fiscal responsável pela AuditoriaFiscal, às fls. 585 a 586: (...) 2. Sobre a documentação anexada, é importante que se repita a informação contida na parte final do item 3. "FATOS GERADORES E PERÍODO DO LANÇAMENTO" do Relatório Fiscal da NFLD nº 37.018.2723, de que a Prefeitura, durante todo o trabalho da fiscalização (que perdurou desde a ciência do MPF e do TIAD, em 25/10/2006 até a conclusão da fiscalização, com lavratura desta NFLD, em 12/12/2006), não apresentou Fl. 4DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 673 5 "nenhum comprovante de vacinação, nem termo de responsabilidade e comprovação de freqüência escolar dos filhos de segurados que recebem saláriofamília", Ademais, a cobrança pela documentação relativa a concessão do salário família não se restringiu ao TIAD. Freqüentemente a fiscalização interrogava verbalmente o Pessoal, citado no Relatório Fiscal, que atendeu à fiscalização, pela dita documentação, até que os Servidores do Departamento Pessoal confessasse que a Prefeitura não vinha tendo este controle. Prova disso é que no dia 14 de dezembro de 2006, após a conclusão da ação fiscal, a Prefeitura expediu a CI Circular n° 57/GS (cópia juntada pela defesa à fl. 304), exigindo dos servidores que recebem saláriofamília,"cartão de vacina ou comprovante de matrícula escolar dos dependentes". Assim, explicase o motivo pelo qual todas as remunerações pagas a título de "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo foram somadas, de forma a constituir a base de cálculo das contribuições previdenciárias lançadas na NFLD 37.018.2723 e não desta NFLD que contém apenas uma glosa de saláriofamília, relativa à competência 08/2006. 3. Entretanto, a documentação providenciada às pressas, dentro do prazo de defesa, e carreada ao processo, não satisfaz os requisitos necessários para a concessão do saláriofamília, senão vejamos: 3.1. O artigo 89 do Decreto 3.048/99 assim dispõe: "Para efeito de concessão e manutenção do saláriofamília, o segurado deve firmar termo de responsabilidade, no qual se comprometa a comunicar à empresa ou ao Instituto Nacional do Seguro Social qualquer fato ou circunstância que determine a perda do direito ao benefício, ficando sujeito, em caso do não cumprimento, às sanções penais e trabalhistas". Percebese, pela documentação apresentada, que a Prefeitura não providenciou de seus servidores o referido termo; 3.2 .0 artigo 84 deste mesmo Decreto condiciona o pagamento do saláriofamília, e não do "abono familiar, sal, família retroativo e abono familiar retroativo” à apresentação anual de atestado de vacinação obrigatória, até seis anos de idade, e de comprovação semestral de freqüência à escola do filho ou equiparado, a partir dos sete anos de idade". Com relação à comprovação semestral de freqüência escolar, a Prefeitura juntou ao processo declaração de matrícula escolar datada já em 2007, ou no final de 2006 (fl. 102, 103, etc). Ora, o lançamento referese às contribuições devidas no período de janeiro de 2005 a outubro de 2006. Portanto, declaração de matrícula do final do ano de 2006 ou já de 2007 não comprova freqüência escolar do período fiscalizado; 3.3 Na tentativa desvairada em apenas fulminar o lançamento, a defesa juntou ao processo (fls. 166/169) fichas financeiras dos anos de 2005 a 2006, pertencente ao funcionário Gilmar dos Anjos Silva, com informação de valor de "abono familiar" Fl. 5DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 6 variando entre R$ 42,27 a R$ R$ 89,32 e, no entanto, juntou somente uma Certidão de Nascimento e uma Carteira de vacinação, relativa a este funcionário, comprovando nascimento da criança em 09/11/2006 (fls. 170/171). Desta forma, o salário família, relativo a este dependente só seria devido a partir da competência novembro de 2006. A competência final do lançamento é outubro de 2006. 3.4 A precariedade segue, à medida que, juntou, por exemplo, ficha financeira e carteira de vacinação do funcionário Ivan Silva Lima, sem a respectiva Certidão de Nascimento; 3.5 Pelo exposto, a documentação anexada é precária, uma vez que não cumpre os requisitos da Legislação apontada, sem eficácia, portanto, para alterar qualquer valor deste lançamento. 4. Quanto à inclusão de R$ 53.369,50 (cinqüenta e três mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos) na base de cálculo, referente à competência 08/2006, este valor foi extraído da folha de pagamento e não da GFIP. Embora a Prefeitura tenha informado na GFIP R$ 52.369,50 (cinqüenta e dois mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos), mesma quantia que foi glosada, o valor lançado é o da folha de pagamento e engloba, como acima mencionado, "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo. Ressaltase, ainda, que os valores das bases de cálculos lançadas nesta NFLD não seguem, à risca, os mesmos valores informados na GFIP a titulo de dedução de saláriofamília, e que foram glosados pela fiscalização. Para melhor esclarecimento, segue cópia do resumo da folha, em anexo. Às fls. 588 a 590, há a manifestação da Recorrente, acerca da Informação Fiscal, em apertada síntese: Na sua peça defensiva, tempestivamente protocolada, o Impugnante requereu a prorrogação do prazo para a entrega da documentação relativa à comprovação do cumprimento das exigências documentais para a concessão do salário família, na competência de 08/2006. Entretanto, o Impugnante traz à colação os documentos que comprovam que o pagamento pelo Município do salário família, na competência de 08/2006, atendeu aos pressupostos estabelecidos em lei, motivo pelo qual não tem como subsistir a anulação da dedução efetuada. Às fls. 618, há o recolhimento de GPS, código de pagamento 2402, para a competência 08/2006, no valor de R$ 507.870,36. Às fls. 632, há o recolhimento de GPS, código de pagamento 2402, para a competência 08/2008, no valor de R$ 1.971.130,95. Fl. 6DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 674 7 A Recorrida analisou a autuação e a impugnação, julgando procedente em parte a autuação, conforme o Acórdão nº 1516.212 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento Salvador BA, fls. 619 a 622, com a Ementa e a Decisão a seguir: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/08/2006 a 31/08/2006 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. COTA PATRONAL. SEGURADOS EMPREGADOS. SAT. GLOSA DE SALÁRIO FAMÍLIA. É devida a contribuição dos segurados empregados consoante preceitua o inciso I, do art. 22, da Lei n.° 8.212/91. É devido o SAT, consoante preceitua o inciso II, do art. 22, da Lei n.° 8.212/91. Os valores pagos indevidamente a título de saláriofamília, deduzidos no recolhimento de contribuições sociais previdenciárias incidentes sobre folha de pagamento, devem ser glosados pela fiscalização quando pago em desacordo com a Lei n.° 8.213/91 e o Decreto n.° 3.048/99. Lançamento Procedente em Parte Vistos, relatados e discutidos os autos da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito (NFLD), cadastrada sob Número 37.018.2715, acordam os membros da 5ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, considerar procedente em parte o lançamento, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado e consoante Demonstrativo Analítico ,"o Débito Retificado”) DADR em anexo. O crédito da GPS no valor de R$ 507.870,36 (fl. 618), que foi recolhido em 28/12/2006 ou seja, em data posterior à consolidação da referida NFLD consolidada em 12/12/2006 .conforme fl. 01, deverá ser apropriada pelo setor competente. Nos termos do art. 366, §3°, do Decreto n.° 3.048/99 e art. 1°, inciso I, da Portaria MF n.° 3, de 07/01/2008, não cabe interposição do recurso de oficio da decisão que declarar indevida contribuição ou outra importância apurada pela fiscalização, em valor total (principal, multa e juros) inferior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais). Intimese o sujeito passivo do inteiro teor do presente Acórdão, fornecendolhe cópia do mesmo, mediante entrega ou remessa da segunda via, para recolher o débito, no prazo de 30 (trinta) dias, ressalvado o direito de interpor recurso ao Segundo Conselho de Contribuintes, no mesmo prazo, facultado pelos arts. 25, inciso II, e 33, do Decreto n.° 70.235, de 06 de março de 1972. Fl. 7DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 8 Ademais, a decisão de 1ª instância decidiu que o crédito da GPS no valor de R$ 507.870,36 (fl. 618), que foi recolhido em 28/12/2006 ou seja, em data posterior à consolidação da referida NFLD consolidada em 12/12/2006 .conforme fl. 01), deverá ser apropriada pelo setor competente. Ainda assim, anotese que a decisão 1ª instância em relação à glosa de saláriofamília, assim se manifestou: Com relação às rubricas 1146 — Abono Familiar, 1147 — Salário Família, 1148 — Salário Família retroativo e 3040 — Salário Família, restou demonstrado que o Município de Vitória da Conquista — Prefeitura Municipal não cumpriu com os requisitos legais e regulamentares exigidos para o pagamento do saláriofamília, uma vez que a fiscalização se manifestou (fls. 585/586) no sentido de que as deduções são irregulares e não devem ser consideradas ante a ausência dos requisitos legais e regulamentares necessários para a sua concessão e dedução no cômputo das contribuições previdenciárias, consoante art. 67, da Lei n.° 8.213/91 e arts. 84 e 89, do Decreto n.° 3.048/99, haja vista que o termo de responsabilidade, ato que embasa a concessão e firma o compromisso de comunicar ao sujeito passivo ou ao INSS sobre a ocorrência de qualquer fato que implique a perda do direito ao beneficio, não consta dos autos. Inconformada com a decisão da Recorrida, a Recorrente apresentou Recurso Voluntário, fls. 638 a 668, onde alega, em apertada síntese: Em sede preliminar. (i) DA NULIDADE DA AUTUAÇÃO. FALTA DE MENÇÃO DO DISPOSITIVO TIDO POR INFRIGIDO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Como se anunciou, o Recorrente foi autuado pela hipotética inobservância dos requisitos legais e regulamentares para a concessão do benefício do saláriofamília. Ocorre, entretanto, que no Fundamento Legais do Débito – FLD não se mencionou quais seriam os dispositivos infringidos pelo contribuinte para que o fiscal desconsiderasse os pagamentos feitos sobre a rubrica de saláriofamília. O mais interessante é que, posteriormente, foram os dispositivos citados pelos nobres julgadores como fundamento para afastar a impugnação levada a cabo pelo Recorrente, como se percebe no trecho da decisão guerreada. (ii). DA NULIDADE DO LANÇAMENTO: ALTERAÇÃO DO FUNDAMENTO DA AUTUAÇÃO EM RELAÇÃO AO SALÁRIO FAMÍLIA. Fl. 8DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 675 9 Para sua surpresa, entretanto, o julgamento de primeiro grau, em completa desconformidade com o Relatório da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD, confirmou a autuação sob um novo fundamento o de não teriam sido coligidos aos autos os termos de responsabilidade que embasam a concessão do saláriofamília. (iii) DA NULIDADE DO JULGAMENTO EM PRIMEIRO GRAU. É de se observar também um erro no procedimento que contaminou a decisão da primeira instância administrativa, na medida em que o contribuinte não foi sequer intimado da data do julgamento. Não se alegue que não existe irregularidade em tal fato, pois tal afirmativa se contraporia a garantia estampada na Carta vigente, a qual impôs a observância do devido processo legal nos processos administrativos, tendo como corolário o princípio da ampla defesa. No Mérito: (iv) COMPROVAÇÃO DOS REQUISITOS DA CONCESSÃO DO SALÁRIOFAMÍLIA. IMPOSSIBILIDADE DE INCIDIR SOBRE TAL VERBA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. Ainda que se ultrapasse as questões postas, não se pode manter a decisão de piso, na medida em que o Recorrente cumpriu todas as diligências necessárias para a concessão do saláriofamília aos seus servidores. Como se disse alhures, entendeu o autuante que o pagamento de saláriofamília pelo Município não estava respaldado na documentação necessária para a concessão do benefício, qual seja, comprovação da vacinação obrigatória e freqüência escolar. Deste modo, como a verba paga aos funcionários, segundo a ótica do auditor, não poderia ser caracterizada como benefício previdenciário, tratavase, em realidade, de parcela salarial sobre a qual deveriam recair as contribuições previdenciárias. Entretanto, o Recorrente trouxe à colação os documentos que comprovam que o pagamento pelo Município do saláriofamília, nas competências de 01/2005 a 10/2006, atendeu aos pressupostos estabelecidos em lei, motivo pelo qual não tem como subsistir a atuação levada a cabo pela presente NFLD. (v). DAS QUESTÕES QUE GRAVITAM EM DERREDOR DA COMPENSAÇÃO DO CRÉDITO ADQUIRIDO DA SERVPORT. Fl. 9DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 10 (v.1) DA LEGITIMIDADE DA COMPENSAÇÃO EFETUADA PELO MUNICÍPIO. CONDUTA RESPALDADA EM DECISÃO TRANSITADA EM JULGADO. (v.2) DA INEXISTÊNCIA DE LIMITAÇÃO PERCENTUAL À UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO CEDIDO AO MUNICÍPIO (vi) DA ULULANTE NATUREZA PÚBLICA DO AUTUADO. EXTENSÃO DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA PREVISTA NO ART. 150, VI, "A", DA CF/88. (vi.1) FEDERALISMO COOPERATIVO. EXTENSÃO DA IMUNIDADE A QUALQUER ESPÉCIE TRIBUTÁRIA (vii) DAS IRREGULARIDADES QUE PERMEIAM A INSTITUIÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO PARA OS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO. IMPOSSIBILIDADE DE SUA COBRANÇA. (vii.1) DA OFENSA AOS ARTS. 150, I E 68, 4 1. 0 , DA CF/88 C/C ART. 25, INCISO 1, DO ADCT. (vii.2) DO PRINCÍPIO DA ESTRITA LEGALIDADE OFENSA AO ART. 154, I, DA CF/88. (vii.3) DA OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA SEGURANÇA JURÍDICA E DA TIPICIDADE C.F., ARTS. 5.°, II E 150, 1 CTN, ARTS. 3.° , 9.° , 7•° , 97 E 99, DO CTN. Posteriormente, os autos foram enviados ao Conselho, para análise e decisão, fls. 670. É o Relatório. Fl. 10DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 676 11 Voto Conselheiro Paulo Maurício Pinheiro Monteiro , Relator PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE O recurso foi interposto tempestivamente, conforme informação à fl. 670. Avaliados os pressupostos, passo para as questões preliminares. DAS QUESTÕES PRELIMINARES. (i) DA NULIDADE DA AUTUAÇÃO. FALTA DE MENÇÃO DO DISPOSITIVO TIDO POR INFRIGIDO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. A Recorrente argumenta: Como se anunciou, o Recorrente foi autuado pela hipotética inobservância dos requisitos legais e regulamentares para a concessão do benefício do saláriofamília. Ocorre, entretanto, que no Fundamento Legais do Débito – FLD não se mencionou quais seriam os dispositivos infringidos pelo contribuinte para que o fiscal desconsiderasse os pagamentos feitos sobre a rubrica de saláriofamília. O mais interessante é que, posteriormente, foram os dispositivos citados pelos nobres julgadores como fundamento para afastar a Fl. 11DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 12 impugnação levada a cabo pelo Recorrente, como se percebe no trecho da decisão guerreada. Analisemos. Foi realizada AuditoriaFiscal, de acordo com o Relatório Fiscal, fls. 20 a 27, que resultou no lançamento da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito — NFLD, de contribuições destinadas à Seguridade Social: (i) devidas ou creditadas aos seus trabalhadores (agentes públicos empregados) para retribuir o trabalho (contribuição prevista no art. 22, inciso I, da Lei n° 8.212, de 24/07/1991). (ii) devidas pelos segurados agentes públicos e empregados (a Prefeitura não possui regime próprio de Previdência, conforme Lei Municipal apresentada) e empregados que prestaram serviços à Prefeitura aqui notificada, contribuições estas que foram arrecadadas mediante desconto na remuneração, e não foram recolhidas (contribuição prevista no artigo 20 e obrigação de arrecadar e recolher constante do art. 30, inciso I, alíneas "a" e "b", da Lei n°8.212, de 24/07/1991). (iii)Contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social para os benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (contribuição prevista no art. 22, inciso II, da Lei n°8.212, de 24/07/1991). Ademais, o Relatório Fiscal, fls. 20 a 27, informa que os fatos geradores do crédito previdenciário lançado nesta NFLD decorrem das contribuições sociais descritas no item 2 deste REFISC, pertencente ao levantamento SF — SALÁRIOFAMÍLIA EM DES COM LEI. Contribuições estas que a Prefeitura deixou de recolher. O não recolhimento foi motivado pelo fato de que a Prefeitura considerou as rubricas 1146 — Abono familiar, 1147 — SalárioFamília, 1148 — Sal. Família Retroativo e 1149 — Abono familiar retroativo como parcelas salariais sobre as quais não incidem contribuição previdenciária. Desta forma, conforme o artigo 37 da Lei n° 8.212/91, foi lavrada Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD nº 37.018.2715 que, conforme definido no inciso IV do artigo 633 da IN MPS/SRP n° 03/2005, é o documento constitutivo de crédito relativo às contribuições devidas à Previdência Social e a outras importâncias arrecadadas pela SRP, apuradas mediante procedimento fiscal: (redação à época da lavratura da NFLD nº 37.018.2715) Lei n° 8.212/91 Art. 37. Constatado o atraso total ou parcial no recolhimento de contribuições tratadas nesta Lei, ou em caso de falta de pagamento de beneficio reembolsado, a fiscalização lavrará notificação de débito, com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme dispuser o regulamento. Fl. 12DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 677 13 IN MPS/SRP n° 03/2005 Art. 633. São documentos de constituição do crédito tributário, no âmbito da SRP: IV Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD, que é o documento constitutivo de crédito relativo às contribuições devidas à Previdência Social e a outras importâncias arrecadadas pela SRP, apuradas mediante procedimento fiscal; O Recorrente teve ciência da NFLD no dia 21.12.2006, conforme o Aviso de Recebimento AR 005836104BR, às fls. 01. Desta forma, a ciência do sujeito passivo por Aviso de Recebimento – AR ocorreu nestes termos do art. 662, II da IN MPS/SRP n° 03/2005: IN MPS/SRP n° 03/2005 Art. 662. O sujeito passivo será cientificado da NFLD e do AI da seguinte forma: I pessoalmente, após a lavratura da NFLD ou do AI, comprovandose o recebimento mediante a assinatura do representante legal ou do mandatário; II por via postal ou por qualquer outro meio, com prova de recebimento tomada no domicílio tributário do sujeito passivo; ou III por edital, quando os meios previstos nos incisos I e II resultarem infrutíferos. § 1º Na hipótese do inciso I do caput, ocorrendo recusa de recebimento dos documentos, o AFPS deixará a via destinada ao sujeito passivo no local da ocorrência e registrará, em todas as vias, a expressão "recusouse a assinar" seguida da identificação do responsável pela recusa, considerandose, dessa forma, cientificado o sujeito passivo. § 2º Quando da ciência pessoal a mandatário do sujeito passivo será juntada cópia autenticada da procuração, que deverá, em se tratando de instrumento particular, conter firma reconhecida do representante legal. § 3º Na hipótese do inciso II do caput, o encaminhamento dos documentos deverá ser efetuado, preferencialmente, em até três dias após a lavratura da NFLD ou do AI, considerandose cientificado o sujeito passivo na data do efetivo recebimento ou, se omitida a mencionada data do recebimento, quinze dias após a data da expedição da intimação. Fl. 13DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 14 § 4º Os meios de intimação previstos nos incisos I e II do caput não estão sujeitos a ordem de preferência. § 5º Na hipótese do inciso III do caput, o edital será publicado uma única vez, em órgão de imprensa oficial local, ou afixado em dependência do órgão encarregado da intimação, franqueada ao público, considerandose cientificado o sujeito passivo quinze dias após a publicação ou afixação do edital. § 6º A ciência ao órgão do poder público farseá mediante ofício encaminhado ao seu dirigente, subscrito pelo Delegado da Receita Previdenciária circunscricionante do órgão. § 7º No procedimento fiscal em empresa sob regime especial de falência, se o síndico ou administrador judicial renunciou ou foi destituído do cargo, não tendo sido nomeado o substituto, a remessa da NFLD farseá mediante ofício ao juízo da falência. § 8º O sujeito passivo é obrigado a manter atualizado o endereço perante o respectivo órgão previdenciário, sob pena de serem tidas como eficazes as notificações encaminhadas ao endereço anterior. Não obstante a argumentação do Recorrente, não confiro razão ao Recorrente pois, de plano, notase que o procedimento fiscal atendeu a todas as determinações legais, com a clara discriminação de cada débito apurado e dos acréscimos legais incidentes, não havendo, pois, nulidade por vício insanável e tampouco cerceamento de defesa. Podese elencar as etapas necessárias à realização do procedimento: • A autorização por meio da emissão do Mandado de Procedimento Fiscal – MPF F, com a competente designação do AuditorFiscal responsável pelo cumprimento do procedimento; • A intimação para a apresentação dos documentos conforme Termo de Intimação para Apresentação de Documentos – TIAD, intimando o contribuinte para que apresentasse todos os documentos capazes de comprovar o cumprimento da legislação previdenciária; • A autuação dentro do prazo autorizado pelo referido Mandado, com a apresentação ao contribuinte dos fatos geradores e fundamentação legal que constituíram a lavratura do auto de infração ora contestado, com as informações necessárias para que o autuado pudesse efetuar as impugnações que considerasse pertinentes: a. IPC Instruções para o Contribuinte (que tem a finalidade de comunicar ao contribuinte como regularizar seu débito, como apresentar defesa e outras informações); Fl. 14DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 678 15 b. DAD Discriminativo Analítico do Débito (que discrimina os valores originários das contribuições devidas pelo contribuinte, abatidos os valores já recolhidos e as deduções legais); c. DSD Discriminativo Sintético do Débito (que apresenta os valores devidos em cada competência, referentes aos levantamentos indicados agrupados por estabelecimento); d. RL Relatório de Lançamentos (que relaciona os lançamentos efetuados nos sistemas específicos para apuração dos valores devidos pelo sujeito passivo); e. RDA – Relatório de Documentos Apresentados (Este relatório relaciona, por estabelecimento e por competência, as parcelas que foram deduzidas das contribuições apuradas, constituídas por recolhimentos, valores espontaneamente confessados pelo sujeito passivo e, quando for o caso, por valores que tenham sido objeto de notificação anteriores.) f. FLD Fundamentos Legais do Débito (que indica os dispositivos legais que autorizam o lançamento e a cobrança das contribuições exigidas, de acordo com a legislação vigente à época do respectivo fato gerador); g. CORESP – Relação de CoResponsáveis (Este relatório lista todas as pessoas físicas e jurídicas representantes legais do sujeito passivo, indicando sua qualificação e período de atuação) h. VÍNCULOS – Relação de Vínculos (Este relatório lista todas as pessoas físicas ou jurídicas de interesse da administração previdenciária em razão de seu vínculo com o sujeito passivo, representantes legais ou não, indicando o tipo de vínculo existente e o período correspondente) i. MPF – Mandado de Procedimento Fiscal; j. TIAD – Termo de Intimação para Apresentação de Documentos; k. TEAF Termo de Encerramento da Ação Fiscal; l. REFISC – Relatório Fiscal; Cumprenos esclarecer ainda, que o lançamento fiscal foi elaborado nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional, especialmente a verificação da efetiva ocorrência do fato gerador tributário, a matéria sujeita ao tributo, bem como o montante individualizado do tributo devido. De plano, o art. 142, CTN, estabelece que: “Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a Fl. 15DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 16 matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional.” Analisandose a NFLD nº 37.018.2715, temse que foi cumprido integralmente os limites legais dispostos no art. 142, CTN. Ademais, não compete ao AuditorFiscal agir de forma discricionária no exercício de suas atribuições. Desta forma, em constatando a falta de recolhimento, face a ocorrência do fato gerador, cumprilhe lavrar de imediato a notificação fiscal de lançamento de débito de forma vinculada, constituindo o crédito previdenciário. O art. 243 do Decreto 3.048/99, assim dispõe neste sentido: Art.243. Constatada a falta de recolhimento de qualquer contribuição ou outra importância devida nos termos deste Regulamento, a fiscalização lavrará, de imediato, notificação fiscal de lançamento com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, de acordo com as normas estabelecidas pelos órgãos competentes. Desta forma, o procedimento fiscal atendeu todas as determinações legais, não havendo, pois, nulidade por cerceamento por preterição aos direitos de defesa, pela não menção do dispositivo tido por infrigido. (ii). DA NULIDADE DO LANÇAMENTO: ALTERAÇÃO DO FUNDAMENTO DA AUTUAÇÃO EM RELAÇÃO AO SALÁRIO FAMÍLIA. A Recorrente argumenta: Para sua surpresa, entretanto, o julgamento de primeiro grau, em completa desconformidade com o Relatório da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD, confirmou a autuação sob um novo fundamento o de não teriam sido coligidos aos autos os termos de responsabilidade que embasam a concessão do saláriofamília. Analisemos. Fl. 16DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 679 17 De plano, não se confere razão à Recorrente porque o julgamento de primeiro grau não inovou em nova fundamentação (“o de não teriam sido coligidos aos autos os termos de responsabilidade que embasam a concessão do saláriofamília”), pois a AuditoriaFiscal, no corpo do Relatório da Informação Fiscal às fls. 585 a 586, já fazia expressa menção aos termos de responsabilidade, conforme se observa: “(...)(...) 2. Sobre a documentação anexada, é importante que se repita a informação contida na parte final do item 3. "FATOS GERADORES E PERÍODO DO LANÇAMENTO" do Relatório Fiscal da NFLD nº 37.018.2723, de que a Prefeitura, durante todo o trabalho da fiscalização (que perdurou desde a ciência do MPF e do TIAD, em 25/10/2006 até a conclusão da fiscalização, com lavratura desta NFLD, em 12/12/2006), não apresentou "nenhum comprovante de vacinação, nem termo de responsabilidade e comprovação de freqüência escolar dos filhos de segurados que recebem saláriofamília", Ademais, a cobrança pela documentação relativa a concessão do salário família não se restringiu ao TIAD. Freqüentemente a fiscalização interrogava verbalmente o Pessoal, citado no Relatório Fiscal, que atendeu à fiscalização, pela dita documentação, até que os Servidores do Departamento Pessoal confessasse que a Prefeitura não vinha tendo este controle. Prova disso é que no dia 14 de dezembro de 2006, após a conclusão da ação fiscal, a Prefeitura expediu a CI Circular n° 57/GS (cópia juntada pela defesa à fl. 304), exigindo dos servidores que recebem saláriofamília,"cartão de vacina ou comprovante de matrícula escolar dos dependentes". Assim, explicase o motivo pelo qual todas as remunerações pagas a título de "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo foram somadas, de forma a constituir a base de cálculo das contribuições previdenciárias lançadas na NFLD 37.018.2723 e não desta NFLD que contém apenas uma glosa de saláriofamília, relativa à competência 08/2006. 3. Entretanto, a documentação providenciada às pressas, dentro do prazo de defesa, e carreada ao processo, não satisfaz os requisitos necessários para a concessão do saláriofamília, senão vejamos: 3.1. O artigo 89 do Decreto 3.048/99 assim dispõe: "Para efeito de concessão e manutenção do saláriofamília, o segurado deve firmar termo de responsabilidade, no qual se comprometa a comunicar à empresa ou ao Instituto Nacional do Seguro Social qualquer fato ou circunstância que determine a perda do direito ao benefício, ficando sujeito, em caso do não cumprimento, às sanções penais e trabalhistas". Percebese, pela documentação apresentada, que a Prefeitura não providenciou de seus servidores o referido termo; 3.2 .0 artigo 84 deste mesmo Decreto condiciona o pagamento do saláriofamília, e não do "abono familiar, sal, família retroativo e abono familiar retroativo” à apresentação anual de atestado de vacinação obrigatória, até seis anos de idade, e de comprovação semestral de freqüência à escola do filho ou Fl. 17DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 18 equiparado, a partir dos sete anos de idade". Com relação à comprovação semestral de freqüência escolar, a Prefeitura juntou ao processo declaração de matrícula escolar datada já em 2007, ou no final de 2006 (fl. 102, 103, etc). Ora, o lançamento referese às contribuições devidas no período de janeiro de 2005 a outubro de 2006. Portanto, declaração de matrícula do final do ano de 2006 ou já de 2007 não comprova freqüência escolar do período fiscalizado; 3.3 Na tentativa desvairada em apenas fulminar o lançamento, a defesa juntou ao processo (fls. 166/169) fichas financeiras dos anos de 2005 a 2006, pertencente ao funcionário Gilmar dos Anjos Silva, com informação de valor de "abono familiar" variando entre R$ 42,27 a R$ R$ 89,32 e, no entanto, juntou somente uma Certidão de Nascimento e uma Carteira de vacinação, relativa a este funcionário, comprovando nascimento da criança em 09/11/2006 (fls. 170/171). Desta forma, o salário família, relativo a este dependente só seria devido a partir da competência novembro de 2006. A competência final do lançamento é outubro de 2006. 3.4 A precariedade segue, à medida que, juntou, por exemplo, ficha financeira e carteira de vacinação do funcionário Ivan Silva Lima, sem a respectiva Certidão de Nascimento; 3.5 Pelo exposto, a documentação anexada é precária, uma vez que não cumpre os requisitos da Legislação apontada, sem eficácia, portanto, para alterar qualquer valor deste lançamento. 4. Quanto à inclusão de R$ 53.369,50 (cinqüenta e três mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos) na base de cálculo, referente à competência 08/2006, este valor foi extraído da folha de pagamento e não da GFIP. Embora a Prefeitura tenha informado na GFIP R$ 52.369,50 (cinqüenta e dois mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos), mesma quantia que foi glosada, o valor lançado é o da folha de pagamento e engloba, como acima mencionado, "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo. Ressaltase, ainda, que os valores das bases de cálculos lançadas nesta NFLD não seguem, à risca, os mesmos valores informados na GFIP a titulo de dedução de saláriofamília, e que foram glosados pela fiscalização. Para melhor esclarecimento, segue cópia do resumo da folha, em anexo.(gn) Desta forma, o procedimento fiscal atendeu todas as determinações legais, não havendo, pois, nulidade do lançamento por alteração do fundamento da autuação. (iii) DA NULIDADE DO JULGAMENTO EM PRIMEIRO GRAU. A Recorrente argumenta: Fl. 18DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 680 19 É de se observar também um erro no procedimento que contaminou a decisão da primeira instância administrativa, na medida em que o contribuinte não foi sequer intimado da data do julgamento. Não se alegue que não existe irregularidade em tal fato, pois tal afirmativa se contraporia a garantia estampada na Carta vigente, a qual impôs a observância do devido processo legal nos processos administrativos, tendo como corolário o princípio da ampla defesa. Analisemos. A argumentação da Recorrente de que não foi sequer intimado da data do julgamento de primeira instância não tem o condão de prosperar porque o art. 25, I, Decreto 70.235/1972 dispõe que o julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete, em primeira instância, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento, órgãos de deliberação interna e natureza colegiada da Secretaria da Receita Federal do Brasil. Decreto 70.235/1972: Art.25.O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) (Vide Decreto nº 2.562, de 1998) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) Iem primeira instância, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento, órgãos de deliberação interna e natureza colegiada da Secretaria da Receita Federal; (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) aos Delegados da Receita Federal, titulares de Delegacias especializadas nas atividades concernentes a julgamento de processos, quanto aos tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (Vide Lei nº 11.119, de 2005) b) às autoridades mencionadas na legislação de cada um dos demais tributos ou, na falta dessa indicação, aos chefes da projeção regional ou local da entidade que administra o tributo, conforme for por ela estabelecido. (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) Desta forma, sendo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento um órgão de deliberação interna e natureza colegiada da Secretaria da Receita Federal do Brasil, nos termos do art. 25, I, Decreto 70.235/1972, não se configura a ofensa ao devido Fl. 19DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 20 processo legal no processo administrativo pela não intimação da Recorrente em relação à data do julgamento de primeira instância. Ademais, o previsto no ordenamento legal não pode ser anulado na instância administrativa por alegações de inconstitucionalidade, já que tais questões são reservadas à competência, constitucional e legal, do Poder Judiciário. Neste sentido, o art. 26A, caput do Decreto 70.235/1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, e dá outras providências: “Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 1o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 2o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 4o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 5o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009)”(gn). Ainda assim, há a Súmula nº 2 do CARF, publicada no D.O.U. em 22/12/2009, que expressamente veda ao CARF se pronunciar acerca da inconstitucionalidade de lei tributária. Súmula CARFnº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. NO MÉRITO. Fl. 20DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 681 21 (iv) COMPROVAÇÃO DOS REQUISITOS DA CONCESSÃO DO SALÁRIOFAMÍLIA. IMPOSSIBILIDADE DE INCIDIR SOBRE TAL VERBA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. A Recorrente argumenta: Ainda que se ultrapasse as questões postas, não se pode manter a decisão de piso, na medida em que o Recorrente cumpriu todas as diligências necessárias para a concessão do saláriofamília aos seus servidores. Como se disse alhures, entendeu o autuante que o pagamento de saláriofamília pelo Município não estava respaldado na documentação necessária para a concessão do benefício, qual seja, comprovação da vacinação obrigatória e freqüência escolar. Deste modo, como a verba paga aos funcionários, segundo a ótica do auditor, não poderia ser caracterizada como benefício previdenciário, tratavase, em realidade, de parcela salarial sobre a qual deveriam recair as contribuições previdenciárias. Entretanto, o Recorrente trouxe à colação os documentos que comprovam que o pagamento pelo Município do saláriofamília, nas competências de 01/2005 a 10/2006, atendeu aos pressupostos estabelecidos em lei, motivo pelo qual não tem como subsistir a atuação levada a cabo pela presente NFLD. Analisemos. A argumentação da Recorrente está centrada, neste ponto, na questão do saláriofamília. Os fatos geradores do crédito previdenciário lançado, conforme o Relatório Fiscal, às fls. 20 a 27, decorrem de glosa de compensação de créditos adquiridos da empresa SEVPORT e também de glosa de dedução das contribuições sociais incidentes sobre a remuneração paga aos segurados empregados na forma de saláriofamília em desacordo com os requisitos estabelecidos no art. 84, Decreto 3.048/1999. O art. 84, Decreto 3.048/1999: Art.84.O pagamento do saláriofamília será devido a partir da data da apresentação da certidão de nascimento do filho ou da documentação relativa ao equiparado, estando condicionado à apresentação anual de atestado de vacinação obrigatória, até seis anos de idade, e de comprovação semestral de freqüência à escola do filho ou equiparado, a partir dos sete anos de idade. (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) Fl. 21DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 22 §1ºA empresa deverá conservar, durante dez anos, os comprovantes dos pagamentos e as cópias das certidões correspondentes, para exame pela fiscalização do Instituto Nacional do Seguro Social, conforme o disposto no §7º do art. 225. (Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999) §2ºSe o segurado não apresentar o atestado de vacinação obrigatória e a comprovação de freqüência escolar do filho ou equiparado, nas datas definidas pelo Instituto Nacional do Seguro Social, o benefício do saláriofamília será suspenso, até que a documentação seja apresentada.(Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999) §3ºNão é devido saláriofamília no período entre a suspensão do benefício motivada pela falta de comprovação da freqüência escolar e o seu reativamento, salvo se provada a freqüência escolar regular no período.(Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999) §4ºA comprovação de freqüência escolar será feita mediante apresentação de documento emitido pela escola, na forma de legislação própria, em nome do aluno, onde consta o registro de freqüência regular ou de atestado do estabelecimento de ensino, comprovando a regularidade da matrícula e freqüência escolar do aluno.(Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999) Por outro lado, a Recorrente aduz que trouxe à colação os documentos que comprovam que o pagamento pelo Município do saláriofamília, nas competências de 01/2005 a 10/2006, atendeu aos pressupostos estabelecidos em lei. Em relação aos documentos acostados aos autos pela Recorrente, houve requisição de diligência fiscal para o Serviço de Fiscalização, às fls. 367 a 368, a fim de que fossem atendidos os seguintes pontos: a) Analisar a documentação anexada aos autos (fls. 98/362) com o fito de atestar se o contribuinte atendeu todos os requisitos, do art. 67, da Lei n.° 8.213/91 c/c o art. 84, do Decreto n.° 3.048/99, necessários à concessão do saláriofamília, haja vista que este julgador não poderá fazêlo, pois o Relatório Fiscal do presente crédito não consta relação detalhada dos segurados para os quais as glosas foram feitas; b) Na hipótese de retificação do valor do crédito ora apurado, elaborar planilha de cálculo discriminando os valores excluídos; c) Como a glosa da dedução do saláriofamília foi no valor de RS 52.369,50, conforme consta do Relatório de Lançamentos da NFLD n.° 37.018.2715 (fls. 06, do referido documento) e em GFIP da competência 08/2006, conforme extrato anexado, justificar a inclusão do valor de R$ 53.369,50 (fls. 08), e não o valor da glosa já referido (R$ 52.369,50), como salário de contribuição na presente NFLD. Em outras palavras, explicar a diferença de R$ 1.000,00 da base de cálculo lançada para a competência 08/2006. Fl. 22DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 682 23 Em resposta, houve a Informação Fiscal da autoridade fiscal responsável pela AuditoriaFiscal, às fls. 585 a 586: (...) 2. Sobre a documentação anexada, é importante que se repita a informação contida na parte final do item 3. "FATOS GERADORES E PERÍODO DO LANÇAMENTO" do Relatório Fiscal da NFLD (fl.29), de que a Prefeitura, durante todo o trabalho da fiscalização (que perdurou desde a ciência do MPF e do TIAD, em 25/10/2006 até a conclusão da fiscalização, com lavratura desta NFLD, em 12/12/2006), não apresentou "nenhum comprovante de vacinação, nem termo de responsabilidade e comprovação de freqüência escolar dos filhos de segurados que recebem saláriofamília", Ademais, a cobrança pela documentação relativa a concessão do saláriofamília não se restringiu ao TIAD. Freqüentemente a fiscalização interrogava verbalmente o Pessoal, citado no Relatório Fiscal, que atendeu à fiscalização, pela dita documentação, até que os Servidores do Departamento Pessoal confessasse que a Prefeitura não vinha tendo este controle. Prova disso é que no dia 14 de dezembro de 2006, após a conclusão da ação fiscal, a Prefeitura expediu a CI Circular n° 57/GS (cópia juntada pela defesa à fl. 304), exigindo dos servidores que recebem saláriofamília,"cartão de vacina ou comprovante de matrícula escolar dos dependentes". Assim, explicase o motivo pelo qual todas as remunerações pagas a título de "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo foram somadas, de forma a constituir a base de cálculo das contribuições previdenciárias lançadas nesta NFLD. 3. Entretanto, a documentação providenciada às pressas, dentro do prazo de defesa, e carreada ao processo, não satisfaz os requisitos necessários para a concessão do saláriofamília, senão vejamos: 3.1. O artigo 89 do Decreto 3.048/99 assim dispõe: "Para efeito de concessão e manutenção do saláriofamília, o segurado deve firmar termo de responsabilidade, no qual se comprometa a comunicar à empresa ou ao Instituto Nacional do Seguro Social qualquer fato ou circunstância que determine a perda do direito ao benefício, ficando sujeito, em caso do não cumprimento, às sanções penais e trabalhistas". Percebese, pela documentação apresentada, que a Prefeitura não providenciou de seus servidores o referido termo; 3.2 .0 artigo 84 deste mesmo Decreto condiciona o pagamento do saláriofamília, e não do "abono familiar, sal, família retroativo e abono familiar retroativo” à apresentação anual de atestado de vacinação obrigatória, até seis anos de idade, e de comprovação semestral de freqüência à escola do filho ou equiparado, a partir dos sete anos de idade". Com relação à comprovação semestral de freqüência escolar, a Prefeitura juntou ao processo declaração de matrícula escolar datada já em 2007, ou no final de 2006 (fl. 102, 103, etc). Ora, o lançamento referese às contribuições devidas no período de Fl. 23DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 24 janeiro de 2005 a outubro de 2006. Portanto, declaração de matrícula do final do ano de 2006 ou já de 2007 não comprova freqüência escolar do período fiscalizado; 3.3 Na tentativa desvairada em apenas fulminar o lançamento, a defesa juntou ao processo (fls. 166/169) fichas financeiras dos anos de 2005 a 2006, pertencente ao funcionário Gilmar dos Anjos Silva, com informação de valor de "abono familiar" variando entre R$ 42,27 a R$ R$ 89,32 e, no entanto, juntou somente uma Certidão de Nascimento e uma Carteira de vacinação, relativa a este funcionário, comprovando nascimento da criança em 09/11/2006 (fls. 170/171). Desta forma, o salário família, relativo a este dependente só seria devido a partir da competência novembro de 2006. A competência final do lançamento é outubro de 2006. 3.4 A precariedade segue, à medida que, juntou, por exemplo, ficha financeira e carteira de vacinação do funcionário Ivan Silva Lima, sem a respectiva Certidão de Nascimento; 3.5 Pelo exposto, a documentação anexada é precária, uma vez que não cumpre os requisitos da Legislação apontada, sem eficácia, portanto, para alterar qualquer valor deste lançamento. 4. Quanto à inclusão de R$ 53.369,50 (cinqüenta e três mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos) na base de cálculo, referente à competência 08/2006, este valor foi extraído da folha de pagamento e não da GFIP. Embora a Prefeitura tenha informado na GFIP R$ 52.369,50 (cinqüenta e dois mil, trezentos e sessenta e nove reais e cinqüenta centavos), mesma quantia que foi glosada, o valor lançado é o da folha de pagamento e engloba, como acima mencionado, "abono familiar, saláriofamília, sal. Família retroativo e abono familiar retroativo. Ressaltase, ainda, que os valores das bases de cálculos lançadas nesta NFLD não seguem, à risca, os mesmos valores informados na GFIP a titulo de dedução de saláriofamília, e que foram glosados pela fiscalização. Para melhor esclarecimento, segue cópia do resumo da folha, em anexo. Ainda assim, a Recorrente, às fls. 588 a 590, se manifestou acerca da Informação Fiscal, em apertada síntese: “(...)Na sua peça defensiva, tempestivamente protocolada, o Impugnante requereu a prorrogação do prazo para a entrega da documentação relativa à comprovação do cumprimento das exigências documentais para a concessão do salário família, na competência de 08/2006. (...) Entretanto, o Impugnante traz à colação os documentos que comprovam que o pagamento pelo Município do salário família, na competência de 08/2006, atendeu aos pressupostos estabelecidos em lei, motivo pelo qual não tem como subsistir a anulação da dedução efetuada.” Fl. 24DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 683 25 Diante do exposto, restou evidenciado pela AuditoriaFiscal, tanto no Relatório Fiscal, às fls. 20 a 27, quanto na Informação Fiscal, às fls. 585 a 586, que a Recorrente descumpriu o previsto no art. 84, Decreto 3.048/1999, o que fez surgir a incidência de contribuição previdenciária nas parcelas pagas aos segurados a título de saláriofamília em desacordo com a legislação. Desta forma, não prospera a alegação da Recorrente de que cumpriu os requisitos legais para a não incidência de contribuição previdenciária nas parcelas pagas a título de saláriofamília. (vi) DA ULULANTE NATUREZA PÚBLICA DO AUTUADO. EXTENSÃO DA IMUNIDADE TRIBUTÁRIA PREVISTA NO ART. 150, VI, "A", DA CF/88. (vi.1) FEDERALISMO COOPERATIVO. EXTENSÃO DA IMUNIDADE A QUALQUER ESPÉCIE TRIBUTÁRIA Analisemos. A Recorrente alega que está alcançada pela imunidade tributária prevista no art. 150, VI, CRFB/1988: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) VI instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. Desta forma, considerandose que a imunidade prevista no art. 150, VI, a, CRFB/1988a CRFB se refere a impostos, não cabe a sua extensão às contribuições sociais previdenciárias que se revestem de espécie tributária diferente daquela dos impostos. Fl. 25DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 26 Outrossim, dado que a imunidade deve ser expressa na Constituição, poder seia pensar na hipótese de isenção. No entanto, ainda assim, o art. 111, II, CTN dispõe que em relação à outorga de isenção, a legislação tributária deve ser interpretada literalmente: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Então, conforme ainda assentado na jurisprudência do STJ em relação ao alcance do art. 11, II, CTN, a imposição da interpretação literal da legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção impede tanto a adoção de interpretação ampliativa ou analógica, como também a restrição além do espírito da lei ou ainda a exigência de requisito ou condição não prevista na norma de isenção. Diante do exposto, não prospera a argumentação da Recorrente. (vii) DAS IRREGULARIDADES QUE PERMEIAM A INSTITUIÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO PARA OS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO. IMPOSSIBILIDADE DE SUA COBRANÇA. (vii.1) DA OFENSA AOS ARTS. 150, I E 68, 4 1. 0 , DA CF/88 C/C ART. 25, INCISO 1, DO ADCT. (vii.2) DO PRINCÍPIO DA ESTRITA LEGALIDADE OFENSA AO ART. 154, I, DA CF/88. (vii.3) DA OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA SEGURANÇA JURÍDICA E DA TIPICIDADE C.F., ARTS. 5.°, II E 150, 1 CTN, ARTS. 3.° , 9.° , 7•° , 97 E 99, DO CTN. Analisemos. Não confiro razão à recorrente quanto ao argumento da ilegalidade da cobrança da contribuição devida ao SAT – Seguro de Acidente de Trabalho, em razão da reserva à lei para estabelecer os conceitos de atividade preponderante e grau de risco de acidente de trabalho A exigência da contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente de riscos ambientais do Fl. 26DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 684 27 trabalho é prevista no art. 22, II da Lei n ° 8.212/1991, alterada pela Lei n ° 9.732/1998, que fixou as alíquotas distintas, 1%, 2% e 3%, para a incidência da contribuição ao SAT: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: (...) II para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei no 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos: (Redação dada pela Lei nº 9.732, de 1998). a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja considerado leve; b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio; c) 3% (três por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave. O Regulamento da Previdência Social, no art. 202, define a atividade preponderante, para o enquadramento legal nos correspondentes graus de riscos das atividades desenvolvidas pelas empresas: (Decreto n°3.048/1999) Art.202. A contribuição da empresa, destinada ao financiamento da aposentadoria especial, nos termos dos arts. 64 a 70, e dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho corresponde à aplicação dos seguintes percentuais, incidentes sobre o total da remuneração paga, devida ou creditada a qualquer título, no decorrer do mês, ao segurado empregado e trabalhador avulso: I um por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado leve; II dois por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado médio; ou III três por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado grave. § 1º As alíquotas constantes do caput serão acrescidas de doze, nove ou seis pontos percentuais, respectivamente, se a atividade exercida pelo segurado a serviço da empresa ensejar a concessão de aposentadoria especial após quinze, vinte ou vinte e cinco anos de contribuição. Fl. 27DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 28 § 2º O acréscimo de que trata o parágrafo anterior incide exclusivamente sobre a remuneração do segurado sujeito às condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física. § 3º Considerase preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior número de segurados empregados e trabalhadores avulsos. § 4º A atividade econômica preponderante da empresa e os respectivos riscos de acidentes do trabalho compõem a Relação de Atividades Preponderantes e correspondentes Graus de Risco, prevista no Anexo V. § 5º O enquadramento no correspondente grau de risco é de responsabilidade da empresa, observada a sua atividade econômica preponderante e será feito mensalmente, cabendo ao Instituto Nacional do Seguro Social rever o autoenquadramento em qualquer tempo. ... § 10. Será devida contribuição adicional de doze, nove ou seis pontos percentuais, a cargo da cooperativa de produção, incidente sobre a remuneração paga, devida ou creditada ao cooperado filiado, na hipótese de exercício de atividade que autorize a concessão de aposentadoria especial após quinze, vinte ou vinte e cinco anos de contribuição, respectivamente. (Redação dada pelo Decreto nº 4.729/2003) § 11. Será devida contribuição adicional de nove, sete ou cinco pontos percentuais, a cargo da empresa tomadora de serviços de cooperado filiado a cooperativa de trabalho, incidente sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, conforme a atividade exercida pelo cooperado permita a concessão de aposentadoria especial após quinze, vinte ou vinte e cinco anos de contribuição, respectivamente. (Redação dada pelo Decreto nº 4.729/2003) § 12. Para os fins do § 11, será emitida nota fiscal ou fatura de prestação de serviços específica para a atividade exercida pelo cooperado que permita a concessão de aposentadoria especial. (Redação dada pelo Decreto nº 4.729/2003). Quanto ao Decreto 612/92 e posteriores alterações (Decretos 2.173/97 e 3.048/99) que, regulamentando a contribuição em causa, estabeleceram os conceitos de “atividade preponderante” e “grau de risco leve, médio ou grave”, repelese a argüição de contrariedade ao princípio da legalidade, uma vez que a lei fixou padrões e parâmetros, deixando para o regulamento a delimitação dos conceitos necessários à aplicação concreta da norma. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, no RE n ° 343.446SC, cujo relator foi o Min. Carlos Velloso, em 20.3.2003, assentou a constitucionalidade da contribuição para o SAT incidente sobre o total das remunerações pagas aos empregados e trabalhadores avulsos: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO: SEGURO DE ACIDENTE DO TRABALHO SAT. Lei 7.787/89, arts. 3° e 4°; Lei 8.212/91, art. 22, II, redação da Lei 9.732/98. Fl. 28DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 685 29 Decretos 612/92, 2.173/97 e 3.048/99. C.F., artigo 195, § 4°; art. 154, II; art. 5°, II; art. 150,I. I. Contribuição para o custeio do Seguro de Acidente do Trabalho SAT. Lei 7.787/89, art. 3°, II; Lei 8.212/91, art. 22, II: alegação no sentido de que são ofensivos ao art. 195, § 4°, c/c art. 154, I, da Constituição Federal: improcedência. Desnecessidade de observância da técnica da competência residual da União, C.F., art. 154, 1 Desnecessidade de lei complementar para a instituição da contribuição para o SAT. II. O art. 3°, II, da Lei 7.787/89, não é ofensivo ao principio da igualdade, por isso que o art. 4° da mencionada Lei 7.787/89 cuidou de tratar desigualmente aos desiguais. III. As Leis 7.787/89, art. 3°, II, e 8.212/91, art. 22, II, definem, satisfatoriamente, todos os elementos capazes de fazer nascer a obrigação tributária válida. O fato de a lei deixar para o regulamento a complementação dos conceitos de "atividade preponderante" e "grau de risco leve, médio e grave", não implica ofensa ao principio da legalidade genérica, C.F., art. 5°, II, e da legalidade tributária, C.F., art. 150, I(STF — RE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. Processo 343446 – SC Decisão 20/03/2003. Tribunal Pleno. Relator MM. Carlos Venoso. DJ 04/04/2003). Assim, os conceitos de atividade preponderante e grau risco de acidente de trabalho não precisariam estar definidos em lei, o Regulamento é ato normativo suficiente para definição de tais conceitos, uma vez que são complementares e não essenciais na definição da exação. Em relação às violações a preceitos constitucionais, temos que o previsto no ordenamento legal não pode ser anulado na instância administrativa por alegações de inconstitucionalidade, já que tais questões são reservadas à competência, constitucional e legal, do Poder Judiciário. Neste sentido, o art. 26A, caput do Decreto 70.235/1972, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal, e dá outras providências: “Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 1o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 2o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 4o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 5o (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Fl. 29DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 30 § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) II – que fundamente crédito tributário objeto de: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do ProcuradorGeral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei no 10.522, de 19 de julho de 2002; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) b) súmula da AdvocaciaGeral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) c) pareceres do AdvogadoGeral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009)”(gn). Ainda assim, há a Súmula nº 2 do CARF, publicada no D.O.U. em 22/12/2009, que expressamente veda ao CARF se pronunciar acerca da inconstitucionalidade de lei tributária. Súmula CARFnº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Diante do exposto, não prospera a argumentação da recorrente acerca da impossibilidade de cobrança da contribuição previdenciária atinente ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho — SAT/RAT. (v). DAS QUESTÕES QUE GRAVITAM EM DERREDOR DA COMPENSAÇÃO DO CRÉDITO ADQUIRIDO DA SERVPORT. (v.1) DA LEGITIMIDADE DA COMPENSAÇÃO EFETUADA PELO MUNICÍPIO. CONDUTA RESPALDADA EM DECISÃO TRANSITADA EM JULGADO. (v.2) DA INEXISTÊNCIA DE LIMITAÇÃO PERCENTUAL À UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO CEDIDO AO MUNICÍPIO Analisemos. A compensação como modalidade de extinção do crédito tributário está prevista no art. 156, II, do Código Tributário Nacional. O mesmo diploma legal, artigos 170 e Fl. 30DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 686 31 170A, prevê regras gerais sobre a matéria; as regras específicas são objeto de lei ordinária. Transcrevemos abaixo os artigos do CTN que tratam da compensação: “Art. 156. Extinguem o crédito tributário: (...) II a compensação;” “Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Parágrafo único. Sendo vincendo o crédito do sujeito passivo, a lei determinará, para os efeitos deste artigo, a apuração do seu montante, não podendo, porém, cominar redução maior que a correspondente ao juro de 1% (um por cento) ao mês pelo tempo a decorrer entre a data da compensação e a do vencimento.” “Art. 170A. É vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial.” (Artigo incluído pela Lcp nº 104, de 10.1.2001) O Plano de Custeio da Seguridade Social, Lei n. 8.212/91, art. 89, que ora transcrevemos, traz comando no sentido de que somente serão compensados os valores pagos ou recolhidos indevidamente a título de contribuição para a Seguridade Social. “Art.89. Somente poderá ser restituída ou compensada contribuição para a Seguridade Social arrecadada pelo Instituto Nacional do Seguro SocialINSS na hipótese de pagamento ou recolhimento indevido”. (Redação dada pela Lei nº 9.129, de 20.11.1995) O direito à compensação surgirá após o pagamento indevido de contribuição destinada à Seguridade Social, de atualização monetária, de multa ou de juros de mora, observadas as seguintes condições, conforme art. 193 da Instrução Normativa MPS/SRP nº 03/2005: • a compensação deverá ser realizada com contribuições sociais destinadas à Seguridade Social, excluídas as Fl. 31DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 32 destinadas para Outras Entidades ou Fundos (Terceiros); • o sujeito passivo deverá estar em situação regular, considerando todos os seus estabelecimentos e obras de construção civil, em relação à NFLD, LDC, AI, LDCG – Lançamento de Débito Confessado em GFIP e DCG Débito Confessado em GFIP, cuja exigibilidade não esteja suspensa; • o sujeito passivo deverá estar em dia com as parcelas relativas a acordos de parcelamento, considerados todos os seus estabelecimentos e obras de construção civil; • somente é permitida a compensação de valores que não tenham sido alcançados pela prescrição; • a compensação somente poderá ser realizada em recolhimento de períodos subseqüentes àqueles a que se refiram os valores pagos indevidamente. Os valores indevidamente compensados devem ser recolhidos pelo contribuinte, sobre os quais incidirão juros e multa de mora. Caso o contribuinte não recolha espontaneamente os valores compensados de forma indevida, cabe ao Fisco a glosa da compensação efetuada. Também cabe referida glosa na hipótese de compensação efetuada sem que houvesse recolhimento ou pagamento indevido; ou atualizada em desconformidade com os índices de correção previstos na legislação previdenciária; ou sem decisão judicial que tenha autorizado a compensação. Por fim, não houve qualquer ato perfeito e acabado, posto que uma compensação indevida não pode ser considerada como um ato jurídico perfeito, já que se sujeita à verificação de sua regularidade pela fiscalização. Como se vê, a compensação entre crédito e débito tributário efetivase por iniciativa do contribuinte, mas com risco para ele. A compensação feita, no âmbito de tributo sujeito ao lançamento por homologação, como no caso, fica a depender da homologação da autoridade fiscal, que pode e deve fiscalizar o contribuinte, examinar seus livros e documentos, verificar os cálculos e efetuar o lançamento de valor de compensação indevida, no todo ou em parte. Conforme o Relatório Fiscal, às fls. 23 a 25, por meio dos sistemas informatizados da Secretaria da receita Previdenciária, foram realizadas consultas aos resultados da ação fiscal procedida na empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA pela Delegacia da Receita Previdenciária Rio de JaneiroNorte. Os relatórios da fiscalização revelam que em 08/2006 a empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA já não possuía saldo credor que lhe autorizasse qualquer compensação. A época, a Empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA já havia, inclusive, sofrido o processo de execução administrativa de nº 37367.000855/200423, que visou cobrar os valores oriundos da ação fiscal que apurou a insuficiência de créditos para compensação. Fl. 32DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI Processo nº 10580.005575/200773 Acórdão n.º 240300.599 S2C4T3 Fl. 687 33 Conforme ainda se corrobora com a conclusão do Relatório Fiscal, às fls. 23 a 25, verificase que não havia saldo a compensar na data da celebração do contrato de cessão de crédito, que autorizasse a empresa SERVPORT SERVIÇOS PORTUÁRIOS E MARÍTIMOS LTDA efetuar tal cessão. Por conseqüência a empresa cessionária não dispunha de saldo a compensar que lhe autorizasse a efetuar compensações na competência 08/2006, afrontando o artigo 253, I, do Decreto 3.048/99 e o art.168, I, do CTN. Art. 253. O direito de pleitear restituição ou de realizar compensação de contribuições ou de outras importâncias extinguese em cinco anos, contados da data: I do pagamento ou recolhimento indevido; ou Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipótese dos incisos I e II do artigo 165, da data da extinção do crédito tributário; (Vide art 3 da LCp nº 118, de 2005) Dessa forma, considerando a inobservância das condições de compensação previstas na legislação acima, a glosa realizada pela fiscalização encontrase correta. Fl. 33DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI 34 CONCLUSÃO. Voto no sentido de CONHECER do recurso, não acolher as PRELIMINARES suscitadas e, NO MÉRITO, NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO. É como voto. Paulo Maurício Pinheiro Monteiro Fl. 34DF CARF MF Emitido em 21/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO Assinado digitalmente em 07/07/2011 por PAULO MAURICIO PINHEIRO MONTEIRO, 19/07/2011 por CARLOS ALBE RTO MEES STRINGARI
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Numero do processo: 15889.000296/2007-72
Turma: Terceira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 08 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Wed Jun 08 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/08/1997 a 31/12/2006
DECADÊNCIA.
O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, devendo, portanto, ser aplicada a regra qüinqüenal da decadência do Código Tributário Nacional.
PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO DO TRABALHADOR
Integra o salário de contribuição a parcela "in natura" recebida em desacordo com os programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social, nos termos da Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976.
MULTA DE MORA. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENÉFICA.
ATO NÃO DEFINITIVAMENTE JULGADO.
Conforme determinação do Código Tributário Nacional (CTN) a lei aplica-se a ato ou fato pretérito, tratando-se de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática.
Numero da decisão: 2403-000.601
Decisão: ACORDAM os membros do colegiado, nas preliminares, por unanimidade de votos em reconhecer a decadência das competências até 06/2002 com base no art. 150 § 4º do CTN. No mérito: Por maioria de votos em dar provimento parcial ao recurso, determinando o recálculo da multa de mora, com base na redação dada pela lei 11.941/2009 ao artigo 35 da Lei 8.212/91 e prevalência da mais benéfica ao contribuinte. Vencidos os conselheiro Paulo Mauricio Pinheiro Monteiro na questão da multa e Marcelo Magalhães Peixoto na questão da tributação do PAT
Nome do relator: CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI
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O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, devendo, portanto, ser aplicada a regra qüinqüenal da decadência do Código Tributário Nacional. PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO DO TRABALHADOR Integra o saláriodecontribuição a parcela "in natura" recebida em desacordo com os programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social, nos termos da Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976. MULTA DE MORA. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENÉFICA. ATO NÃO DEFINITIVAMENTE JULGADO. Conforme determinação do Código Tributário Nacional (CTN) a lei aplicase a ato ou fato pretérito, tratandose de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do colegiado, nas preliminares, por unanimidade de votos em reconhecer a decadência das competências até 06/2002 com base no art. 150 § 4º do CTN. No mérito: Por maioria de votos em dar provimento parcial ao recurso, determinando o recálculo da multa de mora, com base na redação dada pela lei 11.941/2009 ao artigo 35 da Lei 8.212/91 e prevalência da mais benéfica ao contribuinte. Vencidos os conselheiro Paulo Mauricio Pinheiro Monteiro na questão da multa e Marcelo Magalhães Peixoto na questão da tributação do PAT Fl. 338DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 2 CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Presidente/Relator Participaram do presente julgamento, os Conselheiros Ivacir Julio de Souza, Paulo Mauricio Pinheiro Monteiro, Jhonatas Ribeiro da Silva, Marthius Sávio Cavalcante Lobato e Marcelo Magalhães Peixoto Fl. 339DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Processo nº 15889.000296/200772 Acórdão n.º 2403000.601 S2C4T3 Fl. 330 3 Relatório Tratase de recurso voluntário apresentado contra Decisão da Delegacia da Secretaria da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto, Acórdão 1420.100 7ª Turma, que julgou o lançamento procedente em parte, com exclusão das competências até 11/2001, retificandose o crédito tributário de R$ 15.901,83 para o R$ 9.575,47. A autuação referese à salário utilidade – PAT (contribuição da empresa, GILRAT, terceiros e dos segurados (não retida)), referente ao período de 08/97 a 12/2006 e foi assim apresentada no Relatório da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito: I. Este relatório é integrante da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD de contribuições devidas à Seguridade Social, correspondentes à parte da empresa, dos segurados (não retidas), financiamento dos beneficios concedidos em rail() do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho, e as destinadas aos terceiros. 1.1 As contribuições lançadas incidem sobre os valores referentes à Cesta Básica fornecida aos empregados pela empresa não inscrita no Programa de Alimentação ao Trabalhador— PAT (Lei n°6.321, de 14/04/1976) e que integram a remuneração para os efeitos da legislação previdenciária, conforme inciso I, e letra "c" do parágrafo 9° do art. 28 da Lei n° 8.212/9 I . 2. PERÍODO DO LANÇAMENTO DO CRÉDITO: 08/97, 09/97, 11/97 a 05/98, 07/98 a 02/99, 04/99 a 12/99, 04/00 a 06/00, 09/00 a 03/01, 05/01 a 12/01,02/02 a 01/03, e 08/03 a 12/06. 3. Os fatos geradores das contribuições lançadas tiveram origem nos valores mensais da cesta básica fornecida aos empregados e contabilizados na conta 53129, Cesta Básica, lançados nos Livros Diários e Livros de Entradas de Mercadorias, e não declarados em GFIP, cujos valores encontramse no ANEXO I, que faz parte integrante deste Relatório. Inconformada com a decisão, a recorrente apresentou recurso voluntário, questionando exclusivamente a tributação da cesta básica, onde alega, em síntese, a decadência, com base no artigo 150, §4.°, do Código Tributário Nacional e a não incidência da contribuição sobre a cesta básica. É o Relatório. Fl. 340DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 4 Voto Conselheiro Carlos Alberto Mees Stringari, Relator O recurso é tempestivo e por não haver óbice ao seu conhecimento, passo à análise das questões levantadas pela recorrente. DECADÊNCIA O lançamento fundamentouse no artigo 45 da Lei 8.212/91. O Supremo Tribunal Federal, conforme entendimento sumulado, Súmula Vinculante de n º 8, no julgamento proferido em 12 de junho de 2008, reconheceu a inconstitucionalidade desse artigo, nestas palavras: Súmula Vinculante nº 8“São inconstitucionais os parágrafo único do artigo 5º do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário”. Conforme previsto no art. 103A da Constituição Federal, a Súmula de n º 8 vincula toda a Administração Pública, devendo este Colegiado aplicála. Art. 103A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. Uma vez não sendo mais possível a aplicação do art. 45 da Lei n º 8.212, há que serem observadas as regras previstas no Código Tributário Nacional (CTN), o art. 173 ou o art. 150 (este último diz respeito ao lançamento por homologação). Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Art.150 O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de Fl. 341DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Processo nº 15889.000296/200772 Acórdão n.º 2403000.601 S2C4T3 Fl. 331 5 antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento. § 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito. § 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. (grifo nosso) Em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, quando ocorre pagamento antecipado inferior ao efetivamente devido, sem que o contribuinte tenha incorrido em fraude, dolo ou simulação, aplicase o disposto no § 4º, do artigo 150, do CTN, segundo o qual, se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador. Portanto, para que possamos identificar o dispositivo legal a ser aplicado seja o I, art. 173 ou o § 4°, art. 150, ambos do CTN devemos identificar a ocorrência, ou não, de pagamentos parciais, pois só assim poderemos declarar os efeitos da decadência no lançamento. O Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados – RADA, apresenta guias de recolhimento apropriadas ao lançamento. Por entender que o objeto da análise é o lançamento, entendo presente o requisito da antecipação parcial dos recolhimentos. Entendo que neste caso se aplica a regra do artigo 150 do CTN. O período do lançamento é de 08/97 a 12/2006. A ciência do lançamento ocorreu em 25/07/2007 Entendo decadentes as competências até 06/2002. MÉRITO PAT Fl. 342DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 6 Inicialmente farei registro que o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), aprovado pela PORTARIA Nº 256/209 do Ministério da Fazenda, estabelece que o CARF tem por finalidade julgar recursos de decisão de primeira instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre a aplicação da legislação referente a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. CAPÍTULO I DA NATUREZA E FINALIDADE Art. 1° O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, tem por finalidade julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de primeira instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre a aplicação da legislação referente a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. (grifei) Quanto ao auxílioalimentação oferecido aos segurados, a inscrição no Programa de Alimentação do Trabalhador é requisito essencial para que o benefício não integre a base de cálculo das contribuições previdenciárias. O inciso I do artigo 28 da Lei nº 8.212/1991, assim dispõe sobre o saláriodecontribuição: Art. 28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). E o art. 458 da CLT assevera a natureza salarial do benefício. Logo, uma vez que se subsume ao conceito de saláriodecontribuição, somente outro dispositivo legal seria idôneo para o excluir da base de cálculo da contribuição: Art. 458. Além do pagamento em dinheiro, compreendese no salário, para todos os efeitos legais, a alimentação, habitação, vestuário ou outras prestações “in natura” que a empresa, por força do contrato ou do costume, fornecer habitualmente ao empregado. (...)Grifamos Assim o fez a Lei nº 8.212/91 em sua alínea “c”, do §9º do artigo 28; no entanto, somente para as empresas inscritas no Programa de Alimentação do Trabalhador: § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). c) a parcela "in natura" recebida de acordo com os programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho e da Previdência Social, nos termos da Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976; Fl. 343DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Processo nº 15889.000296/200772 Acórdão n.º 2403000.601 S2C4T3 Fl. 332 7 No caso sob exame, está demonstrado nos autos que durante o período a que se refere o lançamento a recorrente não estava inscrita no programa e, portanto, o lançamento está correto. MULTA DE MORA A multa de mora aplicada teve por base o artigo 35 da Lei 8.212/91, que determinava aplicação de multa que progredia conforme a fase e o decorrer do tempo e que poderia atingir 50% na fase administrativa e 100% na fase de execução fiscal. Ocorre que esse artigo foi alterado pela Lei 11.941/2009, que estabeleceu que os débitos referentes a contribuições não pagas nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora nos termos do art. 61 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 61 da Lei 9.430/96, que estabelece multa de 0,33% ao dia, limitada a 20%. Visto que o artigo 106 do CTN determina a aplicação retroativa da lei quando, tratandose de ato não definitivamente julgado, lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática, princípio da retroatividade benigna, impõese o cálculo da multa com base no artigo 61 da Lei 9.430/96 para comparála com a multa aplicada com base na redação anterior do artigo 35 da Lei 8.212/91 (presente no crédito lançado neste processo) para determinação e prevalência da multa mais benéfica. Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. CONCLUSÃO À vista do exposto, voto pelo provimento parcial do recurso, nas preliminares, reconhecendo a decadência do crédito tributário até a competência 06/2002 e no mérito, determinando o recálculo da multa de mora, com base na redação dada pela lei 11.941/2009 ao artigo 35 da Lei 8.212/91 e prevalência da mais benéfica ao contribuinte. Carlos Alberto Mees Stringari Fl. 344DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI 8 Fl. 345DF CARF MF Emitido em 20/07/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI Assinado digitalmente em 19/07/2011 por CARLOS ALBERTO MEES STRINGARI
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Numero do processo: 16024.000865/2008-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2012
Numero da decisão: 1402-000.135
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Declarou-se impedido o Conselheiro Leonardo Henrique Magalhães de
Oliveira.
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Declarouse impedido o Conselheiro Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira. Leonardo de Andrade Couto – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio José Praga de Souza, Marcelo de Assis Guerra, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira e Leonardo de Andrade Couto Fl. 2483DF CARF MF Impresso em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 23/08 /2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16024.000865/200801 Resolução n.º 1402000.135 S1C4T2 Fl. 2 2 Relatório Por bem resumir a controvérsia, adoto o Relatório da decisão recorrida que abaixo transcrevo: No âmbito do procedimento de fiscalização instituído pelo Mandado de Procedimento Fiscal n. 08.1.10.002008004224, contra a empresa acima identificada foram lavrados autos de infração que lhe exigiram Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) no valor e R$ 4.218.007,41, Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS) de R$ 279.972,45, Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) de R$ 1.527.122,65 e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) de R$ 1.289.570,20 (fls.433/464), no regime de apuração pela sistemática de Lucro Real, acrescidos de juros de mora e multa de oficio, cuja capitulação legal achase descrita nos termos de apuração respectivos. Segundo consta do Relatório Fiscal (fls. 384/385), o procedimento decorreu da incompatibilidade entre a movimentação financeira e a receita declarada da contribuinte, relativa ao anocalendário de 2005, com a intimação para apresentar cópias dos extratos de contascorrentes bancárias e dos livros e documentos que embasaram os lançamentos contábeis. Em face do atraso na entrega dos extratos bancários emitiramse Requisições de Movimentação Financeira (RMF) para os bancos nos quais figurava como correntista. Após cotejar as informações prestadas pela contribuinte e pelos bancos, com a dedução de importâncias relativas a estornos, transferências, financiamentos, elaborou a autoridade fiscal, relação dos créditos cuja origem não fora justificada, ao mesmo tempo em que, novamente, intimou a contribuinte a apresentar sua contabilidade. Em vista de que os documentos apresentados não se prestaram a justificar a origem dos recursos lançados a crédito nas contas de depósitos, a autoridade fiscal considerou o total dos valores lançados na planilha que relacionaram os depósitos e créditos como não justificados, que serviram de base de cálculo para a imposição tributária por omissão de receita. Relatório que detalha os créditos antes referidos acha se acostado sob fls.386/432. Intimada da imposição tributária, ingressou a contribuinte com a impugnação de fls. 468/491 com alegação preliminar de que: é improcedente o relato da autoridade fiscal, segundo o qual a impugnante não teria atendido as intimações; a base de cálculo do lançamento tributário baseouse em presunção que não considerou créditos justificados, ao mesmo tempo em que consignou crédito relativo a cobertura de sinistro com aeronave, no valor de R$ 733.779,00, que no relatório consta como não justificado; nas presunções o ônus de comprovar o fatobase compete a quem as alega; Fl. 2484DF CARF MF Impresso em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 23/08 /2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16024.000865/200801 Resolução n.º 1402000.135 S1C4T2 Fl. 3 3 o lançamento é nulo por não ter sido endereçado à contribuinte termo de constatação antes da lavratura da peça impositiva, circunstância que impediu pleno exercício do direito de defesa; o termo de intimação que lhe fora endereçado, instandoa a apresentar imediatamente relação de bens não esclareceu a finalidade da exigência, tampouco marcou prazo para cumprimento, em conformidade com a legislação. No mérito, arguiu que: a imposição tributária, que é 24 vezes superior ao seu patrimônio liquido, extrapola sua capacidade contributiva; é improcedente o lançamento tributário com base em arbitramento, que somente pode ocorrer em situações excepcionais, legalmente previstas; descabe constituição de crédito tributário com base em depósitos bancários, em consonância com a jurisprudência dos Tribunais Superiores, que suscitou a edição do enunciado da Súmula n. 182, do Tribunal Federal de Recursos. Propugnou pela realização de perícia, em conformidade corn as regras do Decreto n° 70.235, de 1972, que instituiu o Processo Administrativo Fiscal (PAF), com justificação dos motivos, formulação de quesitos e indicação de perito. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão PretoSP, prolatou o Acórdão 1422.675 considerando o lançamento parcialmente procedente. Excluiu da base de cálculo tributada o valor de R$ 733.779,00; correspondente à indenização por seguro creditada no Banco Itaú e manteve a exigência sobre o restante. Devidamente cientificada, a interessada recorreu a este Colegiado ratificando em essência as razões expedidas na peça impugnatória. Posteriormente, trouxe razões aditivas à peça recursal afirmando que a apuração do tributo deveria ter sido formalizada por arbitramento ou que, ao menos, fossem computadas as despesas. Acrescenta que foram computados indevidamente como omissão valores que não representariam receitas, e apresenta o que seria um demonstrativo dessas inconsistências. É o Relatório. Fl. 2485DF CARF MF Impresso em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 23/08 /2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16024.000865/200801 Resolução n.º 1402000.135 S1C4T2 Fl. 4 4 Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto. A autuação referese a valores depositados em contas correntes de titularidade do sujeito passivo sem a devida comprovação da origem, nos termos do art. 42, da Lei nº 9.430/96. No Relatório Fiscal, a autoridade lançadora registra que excluiu os históricos “CHEQUES DEVOLVIDOS” como créditos, bem como os históricos: DOC DEVOLVIDOS", "FINANCIAMENTOS", "EMPRÉSTIMOS", "ESTORNO DE CRÉDITOS", "REDUÇÃO DE SALDO DEVEDOR", "TRANSFERÊNCIAS, DOCs E TEDs DE MESMA TITULARIDADE", "ESTORNO DE LANÇAMENTO"e "ESTORNO DE OPERAÇÕES DE DESCONTO". Nas razões aditivas, a interessada apresenta uma tabela contendo o indicativo de vários lançamentos que representariam transferência entre contas de mesma titularidade e resgate de fundo de investimento. Trouxe também aos autos vários documentos que demonstrariam as alegações. Ainda que as razões aditivas tenham sido apresentadas após o prazo recursal, a jurisprudência predominante neste Colegiado flexibiliza a preclusão probatória em prol da verdade material, principalmente quando o juízo de valoração probante representar o maior peso na análise dos autos. Sob esse prisma, voto por converter o julgamento do recurso em diligência a fim de que a autoridade fiscal analise os registros constantes da tabela apresentada nas razões aditivas, juntamente com os documentos que lhe dariam suporte, e emita relatório manifestandose quanto à procedência das alegações. O conteúdo do relatório deverá ser cientificado à interessada com prazo para manifestação, e posterior retorno a este Colegiado para julgamento. Leonardo de Andrade Couto Relator Fl. 2486DF CARF MF Impresso em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 23/08 /2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16024.000865/200801 Resolução n.º 1402000.135 S1C4T2 Fl. 5 5 Fl. 2487DF CARF MF Impresso em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/08/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO, Assinado digitalmente em 23/08 /2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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Numero do processo: 16327.720416/2012-47
Data da sessão: Wed Jan 20 00:00:00 UTC 2016
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
Data do fato gerador: 31/12/2008, 31/12/2009, 31/12/2010 APARTAMENTO DO PROCESSO. DESCABIMENTO.
Serão objeto de um único processo administrativo as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova.
COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL.
À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete interpretar e aplicar a legislação tributária.
AUTONOMIA ENTRE EMPRESAS DO GRUPO. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Os elementos constantes dos autos demonstram a subordinação jurídica e econômica entre as empresas do grupo. VALOR DE MERCADO. PROVA.
As provas coligidas aos autos não são suficientes para demonstrar que o preço praticado na operação seria o mesmo acordado entre partes não relacionadas, envolvidas nas mesmas transações ou em transações similares, nas mesmas condições ou em condições semelhantes, no mercado aberto. SEQUÊNCIA DE OPERAÇÕES. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL.
O conjunto dos elementos de prova dos autos indicam que as operações societárias não possuem propósito negocial e foram estruturadas com o objetivo de obter vantagens tributárias.
MULTA QUALIFICADA. DÚVIDA SOBRE A GRADUAÇÃO. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO ACUSADO.
Havendo dúvida a respeito da ocorrência de fraude (art. 72 da Lei nº 4.502/64) necessária à qualificação da multa de ofício, e, em se tratando de penalidade, incide o disposto no art. 112, inciso IV, do CTN, ou seja, em caso de dúvida quanto à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação, interpreta-se da maneira mais favorável ao acusado a lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades.
LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE.
Não comprovada a duplicidade de lançamento deve ser mantida a exigência.
SUPERVENIÊNCIA DE DEPRECIAÇÃO. BASE DE CÁLCULO DA CSLL.
A lei tributária prescreve o regramento contábil além do tratamento tributário, impondo a ativação do bem a ser arrendado no imobilizado da arrendadora e a consequente depreciação com sua despesa nela. Ao assim estatuir, a lei não se limita ao lucro real quanto ao tratamento tributário "decorrente" da
contabilização imposta, além do que a lei nem referencia lucro real ao versar sobre a disciplina da arrendadora. Os ajustes de superveniencias e de insuficiências de depreciação das normas do Bacen se prestam para obtenção de resultado de um financiamento conforme os fluxos das taxas de juros contratuais o que não se dá pela contabilização imposta pela lei. Para tanto, a lei teria de prever a ativação do bem no imobilizado da arrendatária, e não
no da arrendadora o que dispensaria os ajustes das normas do Bacen. Os ajustes de superveniências de depreciação afetam o resultado da arrendadora como receita, mas não geram efeitos tributários: não interferem na base de cálculo da CSLL. Diante da amplitude da lei tributária cabe a inteligência do Ato Declaratório (Normativo) CST 34/87 para a CSLL.
JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO.
Os juros de mora são devidos sobre os tributos e a multa de ofício desde o seu lançamento.
Numero da decisão: 1402-002.072
Decisão: Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário nos seguintes termos: i) por unanimidade de votos, para rejeitar as preliminares suscitadas e cancelar a exigência da CSLL referente à superveniência de depreciação; e ii) por maioria de votos para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%, vencidos os Conselheiros Frederico Augusto Gomes de Alencar e Leonardo de Andrade Couto que votaram pela manutenção integral dessa penalidade. Designado o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto para redigir o voto vencedor.
Nome do relator: FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR
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DESCABIMENTO. Serão objeto de um único processo administrativo as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova. COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete interpretar e aplicar a legislação tributária. AUTONOMIA ENTRE EMPRESAS DO GRUPO. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Os elementos constantes dos autos demonstram a subordinação jurídica e econômica entre as empresas do grupo. VALOR DE MERCADO. PROVA. As provas coligidas aos autos não são suficientes para demonstrar que o preço praticado na operação seria o mesmo acordado entre partes não relacionadas, envolvidas nas mesmas transações ou em transações similares, nas mesmas condições ou em condições semelhantes, no mercado aberto. SEQUÊNCIA DE OPERAÇÕES. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. O conjunto dos elementos de prova dos autos indicam que as operações societárias não possuem propósito negocial e foram estruturadas com o objetivo de obter vantagens tributárias. MULTA QUALIFICADA. DÚVIDA SOBRE A GRADUAÇÃO. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO ACUSADO. Havendo dúvida a respeito da ocorrência de fraude (art. 72 da Lei nº 4.502/64) necessária à qualificação da multa de ofício, e, em se tratando de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 04 16 /2 01 2- 47 Fl. 2594DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.595 2 penalidade, incide o disposto no art. 112, inciso IV, do CTN, ou seja, em caso de dúvida quanto à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação, interpretase da maneira mais favorável ao acusado a lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades. LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. Não comprovada a duplicidade de lançamento deve ser mantida a exigência. SUPERVENIÊNCIA DE DEPRECIAÇÃO. BASE DE CÁLCULO DA CSLL. A lei tributária prescreve o regramento contábil além do tratamento tributário, impondo a ativação do bem a ser arrendado no imobilizado da arrendadora e a consequente depreciação com sua despesa nela. Ao assim estatuir, a lei não se limita ao lucro real quanto ao tratamento tributário "decorrente" da contabilização imposta, além do que a lei nem referencia lucro real ao versar sobre a disciplina da arrendadora. Os ajustes de superveniencias e de insuficiências de depreciação das normas do Bacen se prestam para obtenção de resultado de um financiamento conforme os fluxos das taxas de juros contratuais o que não se dá pela contabilização imposta pela lei. Para tanto, a lei teria de prever a ativação do bem no imobilizado da arrendatária, e não no da arrendadora o que dispensaria os ajustes das normas do Bacen. Os ajustes de superveniências de depreciação afetam o resultado da arrendadora como receita, mas não geram efeitos tributários: não interferem na base de cálculo da CSLL. Diante da amplitude da lei tributária cabe a inteligência do Ato Declaratório (Normativo) CST 34/87 para a CSLL. JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO. Os juros de mora são devidos sobre os tributos e a multa de ofício desde o seu lançamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário nos seguintes termos: i) por unanimidade de votos, para rejeitar as preliminares suscitadas e cancelar a exigência da CSLL referente à superveniência de depreciação; e ii) por maioria de votos para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%, vencidos os Conselheiros Frederico Augusto Gomes de Alencar e Leonardo de Andrade Couto que votaram pela manutenção integral dessa penalidade. Designado o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente. (assinado digitalmente) FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR Relator. Fl. 2595DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.596 3 (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: LEONARDO DE ANDRADE COUTO, FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR, LEONARDO LUIS PAGANO GONÇALVES e DEMETRIUS NICHELE MACEI. Fl. 2596DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.597 4 Relatório BANCO VOLKSWAGEN S/A recorre a este Conselho contra decisão de primeira instância proferida pela 1ª Turma da DRJ Juiz de Fora/MG, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235 de 1972 (PAF). Por pertinente, transcrevo o relatório da decisão recorrida (verbis): “Apesar do Termo de Verificação Fiscal mencionar infração à legislação do IOF, apenas são objeto do presente processo três autos de infração, um de IRPJ e dois de CSLL. No relatório serão mencionados apenas os fatos e enquadramento legal relativos às duas infrações controladas no processo. Infração 1 – Indedutibilidade de ágio interno Das operações societárias realizadas pelo Grupo Volkswagen e os seus efeitos sobre o quadro societário e capital da Volkswagen Leasing S/A No período de 13/12/2005 a 29/2/2008 ocorreram os eventos societários relacionados na tabela abaixo: Data Descrição 13/12/2005 Transferência (a título de venda) de ações da VWB, emitidas pelo BVW, para a VWAG – 48.796.057 ações do BVW 21/12/2005 Transferência das ações da VWB, emitidas pelo BVW, para a VWAG – 64.561.719 ações do BVW 29/3/2006 Emissão de 3.913.182 ações, subscritas e integralizadas pela VWS Aumento de capital do BVW no valor de R$ 15.000.000,00 28/8/2006 Emissão de 6.282.687 ações, subscritas e integralizadas pela VWS Aumento de capital do BVW no valor de R$ 25.000.000,00 2/1/2007 Transferência (a título de venda) de participação da VWB na VWL à VWFSAG – 11.035.632 ações da VWL 30/1/2007 A participação da VWS no BVW, foi transferida à VWP – 48.242.186 ações do BVW, pelo valor contábil de R$ 203.203.986,96 (BP de 31/12/2006) 17/4/2007 Emissão de 727.680.000 ações , subscritas e integralizadas pela VWFSAG 2/5/2007 Transferência (a título de venda) de participação da VWAG no BVW à VWL – 113.357.776 do BVW 17/09/2007 Criação de carteira de arrendamento mercantil no BVW. 18/10/2007 Emissão de 100.000.000 de ações, subscritas e integralizadas pela VWFSAG. 23/10/2007 Transferência de participação da VWFSAG na VWL à VWP – 838.715.632 ações 31/1/2008 Encerramento das agências do Banco VW Fl. 2597DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.598 5 29/2/2008 Incorporação da VWL pelo BVW Legenda: BVW – Banco Volkswagen S/A VWL – Volkswagen Leasing S/A – Arrendamento Mercantil (Brasil) VWS – Volkswagen Serviços Ltda. (Brasil) VWB – Volkswagen do Brasil Ltda. – Indústria de Veículos Automotores (Brasil) VWP Volkswagen Participações Ltda. (Brasil) VWAG – Volkswagen Aktiengesellschaft (Alemanha) VWFSAG Volkswagen Financial Services Aktiengesellschaft (Alemanha) Após as operações o controle societário da VWL passou da VWB para a VWFSAG em 2/01/2007, e desta para a VWP em 23/10/2007, sendo que em 17/4/2007 e 18/10/2007 se verificaram eventos de aumento de capital, o primeiro mediante subscrição integralizada em dinheiro e o segundo mediante incorporação de reservas de lucros acumulados. Do aumento de capital da VWL Em 17/4/2007, a VWFSAG, controladora integral da VWL, subscreveu o montante de 727.680.000 de ações nominativas com valor unitário de R 1,00, perfazendo o total de R$ 727.680.000,00. A operação foi registrada no sistema de controle do Banco Central do Brasil como Investimento Estrangeiro Direto. Em 2/5/2007, os recursos financeiros foram remetidos ao exterior pela aquisição de participação acionária no BVW. Os recursos financeiros externos oriundos da Alemanha aportados pela VWFSAG na VWL foram no curto espaço de 14 dias repatriados à Alemanha, desta vez em favor da VWAG. Da apuração de ágio pela VWL Os recursos provenientes do aumento de capital foram utilizados para a aquisição de 113.357.776 de ações do BVW que pertenciam à VWAG. Foi apresentado laudo de avaliação de emissão da KPMG Corporate Finance Ltda., datado de 26/3/2007, onde constava 28/2/2007 como data base e a avaliação a valor presente do BVW em R$ 941.629 mil. Tendo verificado inconsistência em relação ao cálculo do valor do ágio, foi efetuada nova intimação – item 5 do Termo de Intimação n° 3. Foram apresentados dois laudos (segundo a fiscalização, de forma sumária e não completa), inicialmente um datado de 26/3/2007 em que o valor do BVW era da ordem de R$ 941 milhões e um segundo, datado de 23/3/2007. Nas palavras da fiscalização o laudo com data anterior afirma “atualizar o laudo anteriormente apresentado, no qual o valor do BVW, em três diferentes cenários de crescimento Fl. 2598DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.599 6 equivalem a R$ 886 milhões, R$ 936 milhões ou R$ 986 milhões. Todos os valores contemplam dedução a título de potenciais ajustes, no montante de R$ 117 milhões.” Ágio no valor de R$ 228.336.098,32, com fundamento econômico na apuração de rentabilidade futura, conforme previsto no § 2º, inciso II, do art. 385 do RIR e foi contabilizado conforme determina o inciso III, do art. 386 do RIR. Da incorporação da VWL pelo BVW e início da amortização do ágio Em 29/2/2008 a controlada BVW incorpora sua controladora VWL, a valores contábeis com data base de avaliação em 31/1/2008. O acervo líquido da VWL foi avaliado em R$ 174.127.835,93, conforme laudo de avaliação elaborado por ocasião da incorporação, e assim demonstrado: O valor de R$ 194.085.683,56 indicado como “Provisão para garantia de dividendos” nada mais é que o saldo contábil líquido indicado pelo BVW na conta 2.4.1.10.00.001 “Ágios Incorp BVW – R$ 228.336.098,32 referentes ao ágio inicialmente apurado menos R$ 34.250.414,76 referentes à amortização acumulada na VWL. O total dos valores expurgados do patrimônio líquido da VWL quando de sua incorporação em 29/2/2008 – R$ 729.775.123,98 relativos ao somatório do ágio a amortizar mais o saldo contábil do investimento da VWL no BVW – equivalem ao valor do aumento de capital da própria VWL, R$ 727.680.000,00 realizado em 17/4/2007. No LALUR constatase que no ano calendário 2008 o BVW amortizou a título de ágio o valor de R$ 41.861.618,04 – página 71 do LALUR, conta Provisão para Perdas Ágio BVW, excluído na parte A, R$ 194.085.683,56, e incluído na parte A, R$ 152.224.065,52. Enquadramento legal O cerne da questão é a descaracterização, por falta de fundamento econômico, de toda a série de operações financeiras e societárias realizadas pelas empresas do Grupo Volkswagen no país e no exterior vinculadas entre si, consideradas como atos de simulação com o intuito de obtenção de vantagens tributárias indevidas. Na reorganização societária foram realizadas operações estruturadas em sequência para que aparentemente fosse entendido que existiu uma aquisição com ágio. Porém, quando analisado o conjunto dos atos, identificamos que o controle acionário do BVW nunca mudou. A simulação é incontestável. A posição acionária Fl. 2599DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.600 7 do BVW em 13/12/2005 já conferia à VWAG a totalidade do seu controle, conforme quadro abaixo: Situação em 13/12/2005 inicial Situação em 17/4/2007 – data do aumento de capital Situação em 2/5/2007 – data da aquisição do controle do BVW A empresa veículo na apuração do ágio foi a própria VWL, que independentemente de participações acionárias, já estava operacionalmente unificada com o BVW, ao partilhar do mesmo endereço, do mesmo corpo diretivo, dos serviços de pessoal prestados pela Volkswagen Serviços – ambas sociedades declararam “zero” empregados no ano calendário 2007 nas respectivas DIPJ e até mesmo dos respectivos patrimônios para o estabelecimento de limites operacionais. A VWFSAG, detentora de 99,9998% do capital social da VWP, que no evento de 29/2/2008 se tornou a controladora do BVW detendo 99,999999 % de seu capital social, se caracteriza apenas como uma empresa que atende à estratégia mundial do grupo Volkswagen, uma vez integralmente subordinada à VWAG, esta sim a controladora de fato do BVW desde sempre. A inclusão da sociedade nacional VWP na linha de controle acionário do BVW é decorrente de disposições legais do Banco Central do Brasil, caso contrário também seria completamente desnecessária do ponto de vista econômico. Fl. 2600DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.601 8 A demonstrada unicidade operacional da VWL e do BVW já existente previamente aos fatos, bem como a inclusão no processo de sociedades aparentemente distintas demonstram uma estratégia de simulação com o objetivos de conferir uma aura de propósito negocial aos eventos societários realizados. Considerando o antes e o depois da reorganização societária fica claro a completa ausência de fundamentação econômica e propósito negocial na aquisição de participação societária no BVW pela VWL, ainda mais com apuração de ágio tendo em vista a situação de ambas empresas pertencerem a um mesmo grupo econômico e já estarem operacionalmente integradas. Para o atendimento do objetivo de concentração do controle acionário das empresas no acionista do exterior, como mencionado nas notas explicativas às Demonstrações Financeiras da VWL relativas ao ano calendário 2007 bastaria a transferência do controle acionário e/ou até mesmo a incorporação de qualquer uma das sociedades pela outra, a valores contábeis. Não há propósito negocial no aumento de capital vinculado à aquisição da participação acionária. No curto espaço de tempo compreendido entre abril de 2007 e fevereiro de 2008, apenas 10 meses, o aumento de capital se mostrou sem fundamentação econômica, ao contrário da situação de incorporações realizadas entre partes independentes, onde se esperaria que os patrimônios das duas entidades envolvidas seriam somados, sem quaisquer expurgos. O aumento do patrimônio líquido da do BVW se limitou à incorporação do valor do patrimônio líquido da VWL após os expurgos mais os lucros verificados nos anos calendário 2007 e 2008, conforme tabela abaixo: Caso se objetivasse efetivamente o aumento dos limites operacionais do BVW, como postulado pela fiscalizada, o lógico seria que o aumento de capital da ordem de R$ 700 milhões fosse diretamente nele realizado, com a paralela criação da carteira de arrendamento mercantil, como feito, com a posterior incorporação a valores patrimoniais da VWL para atender ao objetivo de racionalização administrativa. Para o contribuinte poder usufruir do benefício fiscal previsto nos arts. 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997 deve existir uma negociação, um custo de aquisição, com um comprador que efetivamente pague por uma participação societária com ágio. Para isso o ágio deve ter efetividade e legitimidade, o que não é o caso do ágio de si mesmo amortizado pelo BVW. Fl. 2601DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.602 9 Ao invés da VWL incorporar as ações do BVW pelo valor patrimonial, ela as recebeu por valor baseado em rentabilidade futura, originário de relatório encomendado pelo Grupo Volkswagen, registrando assim um ágio, este simuladamente pago, um ágio de papel. O relatório da KPMG, que fundamentou o ágio, informa que o trabalho foi baseado em informações e premissas disponibilizadas pela Administração do Grupo Volkswagen, além de enfatizar que o dito trabalho não representou uma auditoria nem deveria ser interpretado como tal. O valor pago pela VWL pelas ações do BVW partiu da avaliação da KPMG de R$ 1.003 milhões. O Grupo Volkswagen do Brasil não levou em consideração os valores indicados pela consultoria a título de “Potenciais Ajustes”, no montante de R$ 177 milhões, que reduziria o valor base para R$ 886 milhões. Não existiram terceiros envolvidos para discordar ou negociar os valores definidos. A VWL aceitou assumir “Potenciais Ajustes” da ordem de R$ 177 milhões a ainda pagou a mais por isso, situação inimaginável em uma transação entre partes independentes. Ao contrário do afirmado de que a avaliação do BVW levou em consideração apenas a projeção de seus próprios resultados futuros, o laudo menciona que para suportar esta projeção são considerados em conjunto os patrimônios do BVW e da VWL, uma vez que o BVW sozinho não possuía patrimônio suficiente para atender os requisitos do Acordo de Basiléia I. Não existe razão extratributária para tal reorganização societária, que teve como único objetivo a criação do ágio a ser deduzido indevidamente. O ágio artificialmente criado foi utilizado irregularmente como benefício fiscal pelo BVW, que reduziu e deixou de pagar imposto de renda e contribuição social nos anos calendário de 2008 a 2010. O ágio aceito pela contabilidade deve decorrer da alienação de controle realizada entre partes independentes e em igualdade de condições negociais. Para a CVM o ágio gerado de si mesmo é incabível na estrutura conceitual da contabilidade, pois não decorre de um processo de compra e venda entre partes independentes e não relacionadas, sem dispêndio na obtenção de algo de terceiros não há custo de aquisição – ressaltase o caráter simulado do aumento de capital e aquisição de participação societária, onde se comprovou que os recursos financeiros retornaram à sua origem. Do evidente intuito de fraude Em decorrência da desqualificação da operação de compra e venda de ações com apuração de ágio pelos motivos acima expostos e dos atos a este evento ligados, ficou caracterizada também a ação dolosa da operação recebimento e transferência de recursos com o exterior, pois sem propósito negocial, sem motivação extra tributária, também esta etapa em conjunto com as demais leva a uma única finalidade: diminuição ou não pagamento de tributos, no caso do IRPJ, CSLL e IOF devidos pela VWL e pelo BVW. Restou caracterizado o evidente intuito de fraude, uma vez que, simulada a aquisição de participação societária com ágio e daí para trás simulados também os demais atos encadeados. Fl. 2602DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.603 10 Cabe a interpretação dos fatos não apenas pelo formalismo, mas pelo conteúdo, pela motivação, analisando o conjunto dos atos e não cada etapa separadamente. Esse tipo de ação também envolve a questão da isonomia e capacidade contributiva do contribuinte, pois os demais cidadãos não devem ser prejudicados com atos artificiosos de terceiros. Infração nº 3 Não se questiona a forma de apuração de superveniência/insuficiência de depreciação nas operações de arrendamento mercantil, mas apenas o tratamento tributário atribuído a estes valores. O item II do Ato Declaratório Normativo CST 34/87 esclarece que os ajustes procedidos na contabilidade para atender às normas editadas pelas autoridades monetárias não podem resultar em, por exemplo, tornar dedutível determinado valor que a legislação determina ser irrelevante para fins de apuração do resultado, alterar conceitos da legislação tributária, o alcance destes dispositivos. A orientação normativa do Ato Declaratório Normativo CST 34/87 trata especificamente de apuração do lucro real, base de cálculo do IRPJ e, uma vez que distintas as bases de cálculo, a orientação normativa do referido ato não pode ser estendida à CSLL criada pela Lei n° 7.689/88. O ajuste previsto na Circular BACEN n° 1.429/1989, registrado com complemento ou estorno nas contas de Despesas de Arrendamento em contrapartida com Insuficiência de Depreciação ou Superveniência de Depreciações visa melhor refletir o resultado auferido pela sociedade nas suas demonstrações financeiras. As regras aplicáveis à apuração da capacidade contributiva da pessoa jurídica na determinação de seu lucro para fins de incidência do imposto sobre a renda também devem ser aplicáveis à CSLL, conforme disposto no PN COSIT 78/78, que trata de Investimentos em Sociedades Coligadas o Controladas Avaliados pela Valor do Patrimônio Líquido (Normas Gerais), não se aplica ao caso em questão. Nas adições e exclusões previstas na Lei n° 7.689/88, com a redação do art. 2° da Lei n° 8.034/90, aplicáveis à apuração da base de cálculo da CSLL, estão previstos os ajustes decorrentes do resultado positivo ou negativo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido, mas não de superveniências ou insuficiências de depreciação. Não há previsão legal expressa de exclusão do item Superveniência de depreciação na base de cálculo da CSSL. A empresa apresentou impugnação, protocolizada em 15/5/2012 (fls. 1137/1210), alegando em síntese o seguinte: Requerimento preliminar Requer que a parcela atinente a uma das acusações fiscais listadas acima seja desmembrada do presente processo e dê origem a um novo feito. Incompetência da Secretaria da Receita Federal A classificação dos ingressos de recursos externos no País, em especial em instituições financeiras, é matéria reservada às autoridades monetárias (Conselho Fl. 2603DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.604 11 Monetário Nacional e BACEN). Em função de VWL e BVW serem instituições financeiras regularmente fiscalizadas pelo BACEN) o aumento de capital da primeira, a aquisição por ela da segunda e a incorporação havida foram previamente submetidos à apreciação de referida autarquia, que aprovou as transações mencionadas. Por essas razões, era vedado ao Fisco afastar unilateralmente o tratamento dado pelas autoridades monetárias. Mérito No mérito, os negócios de aumento de capital de VWL, aquisição por esta de BWV e incorporação de VWL por BVW estão de acordo com a legislação, foram realizadas coordenadamente em conjunto com operações perpetradas em outros países em que o grupo Volkswagen atua com o mesmo propósito de reestruturação do braço financeiro, o que revela terem se pautado em razoes extra tributárias, não havendo elementos que revelem que a redução da carga tributária tenha sido o motivo preponderante para a realização das transações da forma como executadas. Aumento de capital feito por VWFSA em VWL Os recursos ingressados no País decorreram de disponibilidades próprias da VWFSAG; não têm por origem a VWAG; foram destinados ao aumento do capital de VWL na forma como fixada pelas regras que disciplinam o investimento externo direto e posteriormente aplicados de acordo com o seu objeto social. Tanto que produziram efeitos na quantificação do limite operacional da VWL dentro do próprio período auditado. Mesmo que de empréstimo se tratasse, premissa assumida para fins de argumentação, ainda assim seria descabida a desconsideração das ulteriores aquisição de BVW junto à VWAG e incorporação de VWL por sua nova controlada, já que os recursos que teriam sido mutuados teriam sido disponibilizados por VWFSAG, com disponibilidades próprias. Quanto à aquisição das ações de BVW Deuse a valor de mercado porque os objetivos sociais, as conduções dos negócios, diretorias, Conselho Consultivo, Conselho de Administração, ambiente regulatório e concorrencial, patrimônios e apurações de resultados de VWAG e VWFSAG são independentes. Aliás, justamente em função dessa independência, os negócios que sejam realizados entre ambas devem ser praticados em condições de mercado, da mesma forma como realizados com terceiros, conforme preceitua o Princípio Arm's Lenght. O fato de a VWAG controlar a VWFSAG não faz com que esta não tenha autonomia em suas decisões. A própria CVM já reconheceu a legitimidade do ágio formado em operações entre sociedades ligadas, quando demonstrado que as conduções dos seus negócios são feitas de forma autônoma. Os conceitos da legislação brasileira de sociedades não se equivalem, neste caso, aos previstos na legislação alemã e, por isso, não podem ser adotados para impugnar a legitimidade da aquisição de BVW por VWL, do preço ajustado na operação e do respectivo ágio apurado. O ágio apurado à época da transação foi regularmente quantificado e espelhado em laudo emitido por sociedade especializada e desvinculada da adquirente e alienante. Os denominados "ajustes potenciais" integram o preço de aquisição, ao contrário do que afirmou a Fiscalização, o que só atesta a livre negociação e regularidade do ágio existente. Tanto que o valor apurado à época acabou se mostrando acertado considerando o relevante crescimento dos negócios, lucratividade e rentabilidade do BVW nos anos posteriores a 2007. Fl. 2604DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.605 12 Quanto à incorporação de VWL por BVW Teve por objetivo integrar as atividades financeiras do grupo Volkswagen em uma só pessoa jurídica operacional, coerentemente com os objetivos declinados na exposição da reestruturação feita ao BACEN antes de se dar início às operações; Possibilitou, juntamente com outras operações, que o desenho final do braço financeiro grupo Volkswagen no País atendesse ao disposto na Resolução CMN 3.040/01, mediante a existência de uma sociedade holding no País, controlada diretamente por VWFSAG, com o propósito específico de deter participação na sociedade operacional (BVW); A provisão para a garantia de dividendos foi formada a fim de atender o disposto na Circular BACEN 3.017/00. Outros argumentos Outros negócios de compra e venda de participação societária entre empresas do grupo Volkswagen, quando realizadas, deramse a valor de mercado e as próprias operações impugnadas fizeram com que se abrisse mão de créditos tributários. Estes elementos revelam que as transações não se pautaram no único propósito de formação e amortização ao ágio. Não há qualquer justificativa para, de um lado, o imaginado mútuo ter sido o verdadeiro negócio, bem como, se assim fosse, explanação, pela Fiscalização, de outro, da forma como as ações de BVW teriam sido transmitidas a VWL. O trabalho fiscal incide em incongruência entre a justificativa imaginada para a desconsideração e a respectiva requalificação efetuada. Tais aspectos demonstram a impropriedade da desconsideração e requalificação feita pela Fiscalização, reforçando o descabimento das autuações. No mínimo, é descabida a multa de 150%, uma vez que todos os atos foram praticados à luz do dia, não havendo ocultação de nenhum deles que revele o intuito de fraude, até porque foram previamente levados ao conhecimento das Autoridades Monetárias, conforme exige a legislação. Infração 3 Lançamento em duplicidade de parte da CSLL relativa ao ano calendário de 2008 Em 02.05.2011, o Defendente foi autuado com o intuito de lançar a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido referente aos anos calendário de 2008 e 2009, que foi depositada judicialmente, em razão da divergência encontrada entre os valores depositados e os valores declarados em DCTF. Esse auto de infração gerou o processo administrativo n° 16327.720484/2011 25, que se encontra atualmente no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aguardando julgamento do Recurso Voluntário. Desta forma, resta claro que parte da CSLL, ora exigida, já foi lançada, encontrase depositada judicialmente e é objeto do citado processo administrativo, devendo ser cancelados os valores cobrados em duplicidade. Descabimento da adição da superveniência de depreciação na base de cálculo da CSLL Fl. 2605DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.606 13 Seguindo as normas estabelecidas pelo BACEN, em especial a Circular n° 1.429/89, a Volkswagen Leasing registrava de forma especial, no seu ativo imobilizado, os valores dos bens destinados ao arrendamento mercantil, valores que, em decorrência do próprio uso pelos arrendatários, sofrem influência do fenômeno da depreciação, desgaste ou obsolescência natural. Esse fenômeno da depreciação, sem sombra de dúvidas, afeta de forma significativa o resultado tributável das pessoas jurídicas dedicadas ao arrendamento de bens ou à atividade de "leasing", das quais o BACEN exige que tenham uma escrituração mais minuciosa, explícita e clara, que demonstre o resultado, levando em consideração o efetivo valor dos ativos, que estão sendo objeto de desgaste a cada dia. O motivo pelo qual a autoridade monetária determina que a escrituração seja procedida de forma diferenciada está relacionado com a demonstração da liquidez, dos resultados efetivamente auferidos por essas entidades, dados os reflexos, que podem advir para toda a economia nacional, decorrentes de uma crise institucional no campo do crédito, juros e a própria credibilidade das instituições financeiras. Dentro da competência do BACEN para disciplinar a atividade das entidades financeiras, foi expedida a Circular 1.429, de 20/01/1989, introduzindo diversas modificações no Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional COSIF, especialmente para alterar a disciplina contida no item 1.11.8 "Imobilizado em Arrendamento". As alterações pretendidas pelo BACEN visavam (como de fato o fazem efetivamente desde então) que fossem melhor registrados e demonstrados os resultados auferidos pelas empresas dedicadas ao arrendamento mercantil. Isto porque, dada a sazonalidade e características específicas do mercado de bens duráveis ou do próprio mercado de juros, essas pessoas jurídicas exibiam sempre um enorme descompasso entre as contas de registro da depreciação e as contrapartidas pelo arrendamento, o que produzia resultados irreais e fictícios. Em tendo a CSLL, como base de cálculo, o lucro líquido ajustado, logo, a mesma base do IRPJ, evidenciase que o intuito do legislador ordinário, ao editar a Lei 7.689/88, foi o de instituir uma contribuição social calcada na capacidade contributiva da pessoa jurídica. O próprio Supremo Tribunal Federal reconhece a identidade entre a base de cálculo do imposto e da contribuição social em comento, que é o lucro líquido ajustado. Tanto é assim que no julgamento do RE 146.7339/SP leading case, acerca da inconstitucionalidade da referida cobrança, um dos fundamentos analisados pela Corte Suprema foi de que a base de cálculo destes dois tributos era idêntica, o que implicaria em bitributação, arguida como inconstitucional pelos contribuintes. O Parecer Normativo editado pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação da Secretaria da Receita Federal PN/SRF/COSIT 78, de 15/09/1978 há muito já confirma o procedimento adotado em relação à determinação da base de cálculo da CSLL, ora em análise. O item "II" do Ato Declaratório Normativo CST 34/1987 esclarece que os ajustes, procedidos na contabilidade para atender às normas editadas pelas autoridades monetárias, não podem resultar, por exemplo, na dedutibilidade de determinado valor que a legislação determina ser irrelevante para fins de apuração Fl. 2606DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.607 14 do resultado, alterar conceitos da legislação tributária, o alcance desses dispositivos, etc. A persistir o entendimento adotado no lançamento tributário, acerca da impossibilidade de exclusão dos valores apurados a título de "Superveniência de Depreciações", estarseá perseguindo a cobrança de tributo sobre base de cálculo distorcida, uma "nãorenda" o que importa em tributação do próprio patrimônio da pessoa jurídica, ao total arrepio da sua capacidade contributiva. Inaplicabilidade da multa de ofício sobre a parcela depositada judicialmente Mesmo que por absurdo fosse considerada procedente a exigência fiscal, o que se aceita apenas a título de argumentação, deve, no mínimo, ser cancelada a parcela de "superveniência de depreciação" depositada judicialmente pelo Defendente, nos termos do artigo 63 da Lei 9.439/96. O montante depositado é integrado, dentre outras importâncias, por valores decorrentes da "superveniência de depreciação" de que ora se trata, conforme se verifica do demonstrativo anexo (doc. 37). Sendo assim, inobstante todo o exposto anteriormente, é inaplicável a multa de ofício sobre a parcela em questão, em vista do quanto dispõe o artigo 63 da Lei 9.430/96, devendo, ao menos, ser cancelada parcialmente a multa de ofício. Impossibilidade de cobrança de juros sobre a multa Por fim, mesmo que as exigências fiscais fossem cabíveis, o que se aceita a título de argumentação, não se pode admitir a incidência de juros moratórios sobre o valor da multa de ofício, pois, a penalidade não tem natureza de "capital" passível de gerar rendimentos, tais como juros, bem como, em razão tal incidência ter sido prevista em norma secundária e não primária. Não há previsão legal para a incidência de juros sobre multa, ora denunciada, pois, o § 3º do artigo 61 da Lei 9.430/96 determina que: "Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento ". É o relatório.” A decisão de primeira instância, representada no Acórdão da DRJ nº 16 46.155 (fls. xxxxxx) de 29/04/2013, por unanimidade de votos, considerou procedente o lançamento. A decisão foi assim ementada. “Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2008, 31/12/2009, 31/12/2010 APARTAMENTO DO PROCESSO. DESCABIMENTO. Serão objeto de um único processo administrativo as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova. COMPETÊNCIA DA RECEITA FEDERAL. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete interpretar e aplicar a legislação tributária. Fl. 2607DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.608 15 AUTONOMIA ENTRE EMPRESAS DO GRUPO. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Os elementos constantes dos autos demonstram a subordinação jurídica e econômica entre as empresas do grupo. VALOR DE MERCADO. PROVA. As provas coligidas aos autos não são suficientes para demonstrar que o preço praticado na operação seria o mesmo acordado entre partes não relacionadas, envolvidas nas mesmas transações ou em transações similares, nas mesmas condições ou em condições semelhantes, no mercado aberto. SEQUÊNCIA DE OPERAÇÕES. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. O conjunto dos elementos de prova dos autos indicam que as operações societárias não possuem propósito negocial e foram estruturadas com o objetivo de obter vantagens tributárias. MULTA QUALIFICADA. CABIMENTO. Comprovada a intenção de violação da norma fiscal com a finalidade de escapar do pagamento do imposto devido é cabível a imposição da multa qualificada. LANÇAMENTO EM DUPLICIDADE. Não comprovada a duplicidade de lançamento deve ser mantida a exigência. SUPERVENIÊNCIA DE DEPRECIAÇÃO. BASE DE CÁLCULO DA CSLL. É indevida a exclusão das superveniências de depreciação por falta de previsão legal. JUROS DE MORA. MULTA DE OFÍCIO. Os juros de mora são devidos sobre os tributos e a multa de ofício desde o seu lançamento.” Contra a aludida decisão, da qual foi cientificada em 09/05/2013 (A.R. de fl. 2.453) a interessada interpôs recurso voluntário em 10/06/2013 (fls. 2.4562.529) onde repisa os argumentos apresentados em sua impugnação. É o relatório. Fl. 2608DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.609 16 Voto Vencido Conselheiro Frederico Augusto Gomes de Alencar O recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. Dele, portanto, tomo conhecimento. Do pedido de apartamento do processo Aduz a recorrente que, em razão de os temas objeto da autuação serem independentes, o processo deveria ser desmembrado. Com a devida vênia, considero que não houve descumprimento das normas que tratam da matéria, a saber: o art. 9°, § 1º , do Decreto 70.235/72 e a Portaria RFB 666/08. Tais dispositivos têm a seguinte redação: Decreto 70.235/72 “Art. 9º A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 1º Os autos de infração e as notificações de lançamento de que trata o caput deste artigo, formalizados em relação ao mesmo sujeito passivo, podem ser objeto de um único processo, quando a comprovação dos ilícitos depender dos mesmos elementos de prova. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005)” Portaria RFB 666/08 “Art. 1 º Serão objeto de um único processo administrativo: I as exigências de crédito tributário do mesmo sujeito passivo, formalizadas com base nos mesmos elementos de prova, referentes: a) ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e aos lançamentos dele decorrentes relativos à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), ao Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), à Contribuição para o PIS/Pasep ou à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); b) à Contribuição para o PIS/Pasep e à Cofins, que não sejam decorrentes do IRPJ; Fl. 2609DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.610 17 c) à Contribuição para o PIS/Pasep e à Cofins devidas na importação de bens ou serviços; d) ao IRPJ e à CSLL; ou e) às Contribuições Previdenciárias da empresa, dos segurados e para outras entidades e fundos; ou ( Redação dada pela Portaria RFB nº 2.324, de 3 de dezembro de 2010 ) (Vide art. 2º da P RFB nº 2.324/2010 ) f) ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (Simples); (Incluída pela Portaria RFB nº 2.324, de 3 de dezembro de 2010 ) (Vide art. 2º da P RFB nº 2.324/2010 )” Na realidade, no presente feito são utilizados, como elementos de prova para ambas as infrações, as declarações de rendimentos e a escrituração contábil e fiscal relativas a um mesmo ano calendário, no caso o ano de 2008. A existência de outros elementos de prova específicos para cada infração não impede a formalização dos autos em um único processo. Dessa forma, o pedido preliminar de apartamento do processo deve ser rejeitado. Da competência da Secretaria da Receita Federal para analisar os efeitos tributários dos ingressos e saídas de recursos do país Alega a recorrente que a Secretaria da Receita Federal seria incompetente para definir a classificação e o modo de declaração dos ingressos e saídas de recursos do país, bem como para afastar os efeitos da incorporação de instituições financeiras. Tais atribuições, no entender da recorrente, seriam da alçada do Conselho Monetário Nacional e do BACEN. Com efeito, discordo da posição da recorrente também quanto a esse ponto. A competência da Secretaria da Receita Federal está definida no art. 15 do Decreto nº 7.482/2011, in verbis: Art. 15. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete: (...) III interpretar e aplicar a legislação tributária, aduaneira, de custeio previdenciário e correlata, editando os atos normativos e as instruções necessárias à sua execução; (...) VIII planejar, dirigir, supervisionar, orientar, coordenar e executar os serviços de fiscalização, lançamento, cobrança, arrecadação e controle dos tributos e demais receitas da União sob sua administração;” Analisando os elementos contidos no processo, em especial o Termo de Verificação Fiscal, constatase que a fiscalização seguiu os seguintes passos: i) contextualizou o procedimento fiscal (item 1 – introdução); ii) descreveu os fatos (item 2 – descrição dos fatos); iii) interpretou a legislação (item 3 – do direito aplicado); iv) aplicou a legislação e Fl. 2610DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.611 18 descreveu minuciosamente as infrações identificadas (itens 4, 5, 6 e 7); v) quantificou a base de cálculo e deu esclarecimentos sobre o lançamento (item 8). De fato, o trabalho fiscal se resumiu à interpretação dos fatos à luz da legislação tributária, conforme demonstra trecho a seguir reproduzido com as conclusões específicas sobre o ágio (fls. 1082/1083): “Fica claro que para o contribuinte poder usufruir desse benefício fiscal deve existir uma negociação, um custo de aquisição, com um comprador que efetivamente pague por uma participação societária com ágio. Para isso o ágio deve ter efetividade e legitimidade, o que não é o caso do ágio de si mesmo amortizado pelo BVW. (...) Não existe razão extratributária para tal reorganização societária, que teve como único objetivo a criação do ágio a ser deduzido indevidamente. O ágio artificialmente criado foi utilizado irregularmente como benefício fiscal pelo BVW, que reduziu e deixou de pagar imposto de renda e contribuição social nos anoscalendário de 2008 a 2010. A economia obtida em tributos foi usufruída pelo BVW e conseqüentemente pela sua acionista controladora de fato, a VWAG. O ágio aceito pela contabilidade deve decorrer da alienação de controle realizada entre partes independentes e em igualdade de condições negociais. E este não é o caso do ágio em questão, pois nenhuma das partes envolvidas eram independentes – ambas pertenciam ao mesmo grupo econômico , nem houve alienação”. Como se percebe, a fiscalização não apreciou questões relativas à aplicação da legislação sobre controle de capitais estrangeiros ou sobre operações de câmbio. Tampouco o fisco questionou a autorização dada pelo BACEN para a realização das operações societárias. A desconsideração das operações foram efetuadas apenas para fins fiscais. Nesse ponto, bem andou a decisão recorrida. Vejase a transcrição do voto daquele aresto, no que interessa: É equivocado falarse em “competência para qualificar negócios praticados”. A competência não é para qualificar atos, mas para praticar atos com base em um sistema normativo determinado. No Direito Administrativo, competência é a aptidão de uma autoridade pública para a efetivação de certos atos. As esferas de competência do Conselho Monetário Nacional, Banco Central do Brasil e da Secretaria da Receita Federal são distintas e bem delimitadas, podendo um mesmo fato ser infração tributária mas não configurar ilícito cambial ou à legislação que regula a entrada e saída de recursos do país, a título de investimento externo. Fl. 2611DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.612 19 O escopo das autoridades monetárias ao analisar as operações societárias das instituições financeiras é, grosso modo, zelar pela saúde do sistema financeiro. A regularidade da operação perante as normas que estão na esfera de sua competência não implica a inexistência de ilícito na esfera fiscal. A Secretaria da Receita Federal aprecia os fatos e as normas relativas à legislação dos tributos e demais receitas sob sua administração, exercendo a fiscalização e aplicando as penalidades nelas previstas. Concluise, pois, que a autoridade fiscal exerceu a competência que lhe é atribuída pela legislação, não se identificando em sua atuação qualquer incoerência com atos de outros órgãos da Administração Federal, uma vez que as normas aplicadas ao mesmo fato são de naturezas distintas. Quanto a esse ponto, não vislumbro máculas no lançamento. Do mérito Da indedutibilidade do ágio Divergem a fiscalização e a recorrente quanto à relação existente entre as pessoas jurídicas que compõem o Grupo Volkswagen. Afirma o fisco que as sociedades são vinculadas entre si, sendo todas subordinadas, em última instância, à VWAG, com sede na Alemanha. A recorrente, por sua vez, sustenta que a VWAG e VWFSAG são sociedades autônomas, que desenvolvem atividades econômicas em setores distintos, havendo independência de fato entre elas. A defendente anexou os seguintes elementos de prova para demonstrar que os negócios efetuados entre a VWAG e a VWFSAG são autônomos: · Regulamentação das instituições financeiras na Alemanha (doc. 22) – comprovação da condição de holding financeira da VWFSAG. · Licença para a VWFSAG conferida pelo BAFIN (doc. 23). · Demonstração da exigência de que os administradores das instituições financeiras tenham conhecimentos técnicos específicos e de patrimônio próprio dos grupos financeiros (doc. 22). Sob a ótica da recorrente, a independência é demonstrada pelos seguintes fatores: i) os membros do órgão de VWAG não são os mesmos que têm assento no órgão equivalente de VWFSAG; ii) tanto o relatório financeiro de VWAG quanto o de VWFSAG, indicam de forma isolada as demonstrações das divisões automotivas e financeiras; iii) como instituição financeira sujeita às regras do BAFIN, a VWFSAG se sujeita a regras distintas em relação à, dentre outros, estrutura de capital, índices de liquidez, em comparação à VWAG, atuante em ramo absolutamente distinto; Fl. 2612DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.613 20 iv) fluxos de caixa e disponibilidades de capital independentes; v) os ganhos e as perdas nas operações são apresentados tanto de forma consolidada, quanto de maneira isolada entre operações automotivas e financeiras nos relatórios financeiros de VWAG e VWFSAG, a fim de se conhecer como foi o retorno de cada segmento no exercício examinado; vi) taxas de custo dos capitais aplicados e retorno dos investimentos independentes; vii) Riscos de mercado independentes. De outro lado, conforme relatado na decisão recorrida, a fiscalização investigou as relações de coligação e controle existentes entre as diferentes pessoas jurídicas do grupo, comprovando a existência de controle jurídico da VWFSA pela VWAG, por ocasião da resposta ao item 4 do Termo de Intimação Fiscal nº 3 (fls. 1.051). De fato, do relatório de fls. 1.292/1.597 fica claro que existe uma única direção econômica, que é responsável pela estratégia global do grupo.Vejase o trecho a seguir reproduzido: “The Supervisory Board was consulted directly with regard to all decisions of fundamental significance to Volkswagen. Current strategic considerations were discussed with the Board of Management at regular intervals. The Board of Management provided the Supervisory Board with regular, complete and prompt verbal and written reports on all key issues for the Volkswagen Group relating to planning, the development of business, the position of the Group including the risk situation and risk management, and current matters“ Tradução: O bureau de supervisão (Supervisory Board) foi consultado diretamente com relação a todas as decisões de importância fundamental pata a Volkswagen. As considerações estratégicas correntes foram discutidas com o bureau de gerência em intervalos regulares. O bureau de gerência forneceu prontamente ao bureau de supervisão relatórios verbais e por escrito, de forma regular e completa, sobre todos os principais assuntos do grupo Volkswagen, relações para planejamento, desenvolvimento de negócios, a posição do grupo, incluindo situação e gerenciamento de risco e assuntos correntes. Como se constata, a existência do “Supervisory Board” revela claramente a direção econômica única, inclusive quanto à avaliação dos riscos de mercado. As decisões estratégicas de cada divisão ou marca do grupo subordinamse à visão estratégica global do “Supervisory Board". Ademais, a conclusão de que o controle do BVW nunca mudou foi baseada no fato de que, independentemente da estratégia de segregação administrativa e Fl. 2613DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.614 21 patrimonial entre o setor automotivo e o financeiro do grupo, as operações que deram origem ao ágio contestado foram realizadas entre sociedades subordinadas, direta ou indiretamente, ao controle jurídico e econômico da VWAG, com sede na Alemanha. Nessa esteira, sirvome, com a devida vênia, dos diagramas esclarecedores elaborados pela d.PFN nas contrarazões apresentadas às fls. 2.537/2.578: A fiscalização constatou, fl. 6 do TVF, que os recursos financeiros externos oriundos da Alemanha aportados pela VWFSAG na VWL em 18 de abril de 2007 foram, no curto espaço de 14 (quatorze) dias, repatriados à mesma Alemanha, desta vez em favor da VWAG. Acrescentese que a VWAG é controladora da VWFSAG. Fl. 2614DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.615 22 Fl. 2615DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.616 23 A partir de então, ou seja, após a incorporação às avessas da VWL pelo BVW, o BVW passa a amortizar o ágio de si mesmo, apurado com fundamento em sua própria rentabilidade futura na operação de 17/04/2007, quando a VWL adquiriu da VWAG (Alemanha) 70,15% do BVW e apurou ágio de 228.336.098,32. A recorrente, por seu turno, afirma que a aquisição da participação societária do BVW pela VWL foi praticada a preço de mercado com base em dois elementos: i) a obrigatoriedade de aplicação das normas contábeis internacionais (IASB 3 e IAS 24), que determinam que os negócios entre controladora e controlada devem ser praticados em condições de mercado; ii) a existência de laudo regularmente elaborado para a quantificação do ágio e do valor apurado. Quanto ao item (i), tenho que a fiscalização demonstrou a vinculação jurídica e econômica entre as empresas, não havendo qualquer indício de que a transação tenha sido realizada entre partes não relacionadas ou de que haveria razões extratributárias para a reorganização societária. A conclusão da fiscalização foi baseada na seguinte argumentação: · As sociedades são vinculadas entre si, todas subordinadas em última instância à VWAG, com sede na Alemanha. · Os recursos financeiros utilizados no aumento de capital apenas transitaram pelo Brasil (14 dias), sendo aportados pela VWSAG e destinados à VWAG, todas interligadas entre si e componentes do Grupo Volkswagen sob a liderança da própria VWAG. · Efetuouse pagamento simulado pelas ações do BVW: ao invés de incorporálas pelo valor patrimonial, a VWL recebeu as ações de emissão do BVW por um valor baseado em rentabilidade futura, originário de relatório encomendado pelo Grupo Volkswagen, registrando assim um ágio, ágio este simuladamente pago, um ágio de papel. · Ao contrário do afirmado de que a avaliação do BVW levou em consideração apenas a projeção de seus próprios resultados futuros, o laudo menciona que para suportar esta projeção são considerados em conjunto os patrimônios do BVW e da VWL, uma vez que o BVW sozinho não possuía patrimônio suficiente para atender os requisitos do Acordo de Basiléia I. · No presente caso, não houve negociação, nem compra, nem venda. Não houve investidor com interesse de realizar uma análise mais ampla, muito pelo contrário o interesse sobre o relatório encomendado pelo Grupo Volkswagen era do próprio Grupo. Não houve custo de aquisição, portanto o ágio de si mesmo amortizado pelo BVW é um ágio artificial, sem efeito fiscal. · O investimento representado pelo aumento de capital se extinguiu em prazo inferior a um ano, sendo que o fundamento econômico pretendido – aumento patrimonial de empresa situada no Brasil demonstrouse insubsistente. · Quando analisado o conjunto dos atos, identificamos que o controle acionário do BVW nunca mudou. A posição acionária do BVW em 13 de dezembro de 2005 já conferia à VWAG a totalidade do seu controle. O controle societário da quase totalidade do BVW nunca deixou de pertencer, direta ou indiretamente à VWAG. Fl. 2616DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. 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Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.617 24 · A VWL já estava operacionalmente unificada com o BVW, partilhando do mesmo endereço, do mesmo corpo diretivo senhores Marcel Emile Fickers (Diretor) e Décio Carbonari de Almeida (Diretor Presidente), conforme fichas cadastrais da JUCESP, dos serviços de pessoal prestados pela Volkswagen Serviços ambas sociedades declararam "zero" empregados no ano calendário 2007 nas respectivas DIPJ e até mesmo dos respectivos patrimônios para o estabelecimento de limites operacionais, conforme observado em Laudo de Avaliação do BVW de lavra da KPMG. · O total dos valores expurgados do patrimônio líquido da VWL quando de sua incorporação em 29 de fevereiro de 2008 R$ 729.775.123,98 relativos ao somatório do ágio a amortizar mais o saldo contábil do investimento da VWL no BVW acima indicados equivalem ao valor do aumento de capital da própria VWL, R$ 727.680.000,00 realizado em 17 de abril de 2007. Nesse sentido, cabível aqui trazer a análise da d.PFN em suas contrarazões, que peço vênia para transcrever. Mostrase, assim, a necessidade de o ágio ou deságio auferido por uma empresa com a aquisição de uma participação societária ter como origem um propósito econômico real, assim como um efetivo substrato econômico. A presença concomitante desses dois requisitos é imprescindível ao reconhecimento da existência dessa figura econômica e contábil. A aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a sua real materialização no mundo econômico, não é hábil a gerar ágio ou deságio. Não se deve concluir, de forma alguma, que houve efetivo pagamento do ágio em razão da remessa de recursos da Alemanha para o Brasil em 17/04/2007, quando a VWFSAG remeteu à sua controlada integral VWL no Brasil, a título de IED, R$ 727.680.000,00, aumentando seu capital, quando tais recursos foram utilizados para aquisição do BVW pela VWL. A análise mais ampla nos revela que os referidos recursos, recebidos a título de Investimento Estrangeiro Direto IED, aspecto que encerra em si um caráter duradouro, não especulativo, do investimento, tais recursos retornaram à Alemanha 14 dias depois. Com efeito a VWL remeteu à VWAG da Alemanha R$ 726.429.905,13, como pagamento pela aquisição de 70,15% do BVW em 02/05/2007. Não houve efetivo pagamento de ágio. O que houve, ilustrativamente, foi a "retirada do dinheiro de um bolso para o outro". Isto porque, VWFSAG é controlada pela VWAG, sendo certo que os recursos remetidos apenas circularam pelo Brasil (por 14 dias), retornando imediatamente à Alemanha, ao "outro bolso" do investidor, para a VWAG. ... Assim, a questão posta nos presentes autos é a seguinte: um ágio criado internamente é hábil a gerar uma despesa dedutível nos termos do artigo 386 do RIR/99? A resposta é óbvia: não!!! Como já delineado acima, o artigo 386 do RIR/99 dispõe que o ágio criado com supedâneo na previsão de rentabilidade futura de uma empresa poderá gerar despesa dedutível na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. O Fl. 2617DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.618 25 propósito negocial que justifica a criação do ágio deve ser a previsão de ganho calculada pelo adquirente da participação societária. Outrossim, mesmo que se considere como válido o propósito negocial eleito pela Recorrente e se reconheça como oriundo de transações entre partes independentes, destacase que o registro que originou a criação do ágio fora cancelado com a posterior incorporação de uma empresa pela outra. Com efeito, é notório que uma sociedade não pode ser sócia dela mesma. Não pode uma empresa deter em seu ativo participação societária própria. O capital social de uma sociedade, do qual cada sócio tem participação, faz parte do patrimônio líquido da empresa e visa a permitir a persecução do seu objeto social. Por essa razão, quando o BVW incorporou a VWL, tal investimento, traduzido em ações da próprio BVW, teve que ser cancelado, pois ela não poderia ter, após a incorporação, participação societária de si mesmo. O registro do valor de mercado do BVW nos livros da VWL, assim, acabou sendo cancelado. Como já salientado, essa é a consequência normal quando uma empresa incorpora outra na qual detenha participação societária, daí porque o artigo 386 do RIR/99 (artigos 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997) autoriza, em condições onde o ágio ou deságio foi criado verdadeiramente, a amortização dessa diferença na conta de resultado da incorporadora. Como a incorporadora perde o investimento realizado pela incorporada, amenizase o prejuízo admitindo a dedução da sua aquisição na conta de resultado da empresa. Assim, tendo por base que a incorporação da VWL pelo BVW sempre foi o objetivo final da reorganização empresarial realizada pelo Grupo Volkswagen, com vistas a viabilizar o aproveitamento do ágio pelo BVW , e que tal junção importaria inevitavelmente o cancelamento de qualquer investimento recíproco que fosse feito entre as empresas (VWL e BVW), temse que a integralização, pela VWFSAG, do aumento de capital da VWP com ações da VWL, que detinha participação no BVW avaliada com ágio, se mostrou uma medida totalmente inócua. Como tal investimento seria obrigatoriamente cancelado com a incorporação, o valor de mercado das ações do BVW seria cancelado, restando à empresa resultante da reorganização somente o direito à amortização do ágio criado de forma artificial. Como resultado líquido da estruturação empresarial adotada, temse somente como efeito tributário o direito à amortização do ágio pela empresa resultante. O propósito negocial que deu origem ao ágio era a sua própria criação, um fim em si mesmo. O ágio criado com a engenharia societária não teve, assim, qualquer propósito negocial, sua finalidade foi estritamente tributária: reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL a ser paga pelo BVW após a incorporação da empresa VWL. Em que pese a criação do ágio terse pautado na rentabilidade futura do BVW, quando de sua aquisição junto à VWAG (Alemanha), o intuito não era auferir essa rentabilidade, mas sim deduzir a sua amortização na apuração do lucro real da empresa resultante da incorporação (o próprio BVW). Fl. 2618DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.619 26 Além de não ter qualquer propósito negocial, o ágio contabilizado com a aquisição do BVW pela VWL também não apresenta substrato econômico que justifique o seu surgimento. As remessas sucessivas e imediatas de recurso da/para a Alemanha revelam que o investimento que deu origem ao ágio não refletiu nenhum gasto efetuado pela adquirente do investimento e/ou nenhum ganho auferido pela VWAG (alienante). Mesmo tendo havido, no papel, a aquisição do investimento que deu origem ao ágio, o qual foi supostamente pago com recursos da VWL, oriundo de aumento de capital integralizado pela VWFSAG, não houve ingresso de recursos novos, de terceiros independentes. Houve mera circulação de valores de e entre pessoas ligadas. Caso não se entenda que o negócio foi realizado consigo mesmo, devese atentar que, da mesma forma que a posterior incorporação afastou o propósito negocial que deu ensejo ao ágio criado, ela também afastou o seu substrato econômico. Como já ressaltado, as quotas que a VWP emitiu em razão de seu aumento de capital, integralizadas pela VWFSAG com sua participação na VWL, que detinha participação no BVW avaliada com ágio, foram canceladas com a incorporação da VWL pelo BVW, que não poderia deter participação societária sobre ela mesma. Como afirmamos acima, os recursos remetidos, que supostamente pagaram pelo ágio, apenas circularam pelo Brasil (por 14 dias), retornando imediatamente à Alemanha, ao "outro bolso" do investidor (VWAG), não há que se falar em pagamento (financeiro ou patrimonial) e ganho (financeiro ou patrimonial) que suportasse o custo de aquisição do ágio. Ademais, caso se considere que houve efetivo ganho e gasto, estarseá diante da esdrúxula hipótese de se admitir que o BVW contabilize ágio e reserva de ágio surgido em função da alienação de sua própria participação societária a outra empresa. Em outros termos, considerarseá possível que uma empresa seja ao mesmo tempo alienante de sua participação societária e, em decorrência dessa alienação, responsável pelo pagamento do sobrepreço por ela mesma estipulado. Quem deve arcar com o ágio é o adquirente do investimento, nunca o alienante. Não apresentando propósito negocial e substrato econômico ao seu surgimento, o ágio ora em discussão não existiu, tendo sido criado somente no papel. Não existindo de fato, tal ágio, portanto, não é válido e nem eficaz para ser amortizado na conta de resultado da Recorrente, seja pelos artigos 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997 (385 e 386 do RIR/99), seja por qualquer outra norma que autoriza tal dedutibilidade. Nos termos dos artigos 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997, somente é amortizável na apuração da conta de resultado de uma empresa o ágio efetivamente decorrente da aquisição de uma pessoa jurídica por outra, por incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio. O caso dos presentes autos não se submete a essa norma uma vez que o ágio absorvido pela incorporadora não existiu, pois fora criado somente de forma artificial. Materialmente ele nunca ocorreu. Ora, se nunca houve ágio decorrente da aquisição de investimento (segundo o artigo 385 do RIR/99), não há que se falar em sua amortização no resultado da empresa que o absorveu por incorporação. Se ele nunca existiu, ele não pode ser utilizado. Fl. 2619DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.620 27 Outrossim, compulsando a Exposição de Motivos da Lei n° 9.532/1997, observase que a elaboração dos artigos 7° e 8° procurou justamente impedir a criação do ágio artificial, ou seja, a realização de um negócio fictício exclusivamente para fazer surgir tal benefício fiscal, senão vejamos: O art. 8° estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em visto o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. (grifo nosso) Vêse, assim, que a mens legis dos artigos 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997 foi de repudiar ações como a praticada pela Recorrente junto com o seu grupo econômico. O artigo 386 do RIR/99, o qual repete o conteúdo das referidas disposições legais, autoriza a concessão do benefício fiscal de amortização do ágio na conta de resultados nos casos em que essa diferença econômica realmente exista. O ágio ou deságio criado por meio de negócios sem fins econômicos e/ou onde não houve o efetivo dispêndio do preço de aquisição do investimento não deve dar ensejo ao benefício previsto nos multicitados artigos. Além de não ser dedutível nos termos dos artigos 7° e 8° da Lei n° 9.532/1997, o ágio utilizado pela Recorrente não é passível de integrar a conta de resultado por nenhum outro dispositivo que autoriza a dedutibilidade de despesas na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A despesa amortizada pelo sujeito passivo na apuração de seu lucro líquido não se enquadra em nenhuma das hipóteses de dedutibilidade previstas pelos artigos 324 a 327 do RIR/99. ..." Repiso que, diferentemente das alegações veiculadas no recurso voluntário, não há nos autos qualquer indício de independência das partes que poderiam suscitar autonomia de vontade das sociedades envolvidas. Afirmase isso ante a reiteração, pela recorrente, das razões de julgado da CVM no caso Mahle Metal Leve, que reconheceu o aproveitamento de ágio em operação envolvendo sociedades submetidas a controle comum. A Decisão da DRJ transcreveu na íntegra a decisão da CVM naquele caso (Processo Administrativo n° RJ 2010/16665). É curioso notar que o reconhecimento do aproveitamento do ágio se deu justamente pela comprovação, naquele caso, de autonomia na vontade das partes, como se verifica nas seguintes passagens: [...]Mahle Metal Leve S.A., também controlada de Mahle Industriebeteiligungen, companhia aberta com aproximadamente 17% de seu capital Fl. 2620DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.621 28 pertencente a minoritários compostos, basicamente, por três fundos independentes entre si e todos totalmente independentes desse grupo econômico liderado pela Mahle Industriebeteiligungen, adquiriu o capital total de Mahle Participações, para incorporála. Na essência, comprou Mahle Motores. [... ] Ademais, esta decisão somente aplicase ao caso concreto onde não restaram dúvidas de que a transação se deu sem a participação dos acionistas controladores que se abstiveram de votar. Demais casos devem ser analisados tendo em vista as suas características específicas. Como visto, tal circunstância de independência das partes não é compartilhada com o caso concreto em discussão nos autos. Corroborando esse entendimento, a Comissão de Valores Mobiliários CVM emitiu o OfícioCircular/CVM/SNC/SEP n° 01/2007, in fine. Nesse documento, a CVM, ao esclarecer dúvidas sobre a aplicação das Normas Gerais de Contabilidade, chama atenção para os casos, como o da presente lide, onde o ágio é criado artificialmente; onde, indevidamente, empresas de um mesmo grupo econômico geram ágio sem que haja o dispêndio de efetiva despesa (financeira ou patrimonial). OFÍCIOCIRCULAR/CVM/SNC/SEP n° 01/2007 Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2007 Aos Senhores Diretores de Relações com Investidores e Auditores Independentes ASSUNTO: Orientação sobre Normas Contábeis pelas Companhias Abertas Prezados Senhores, Os OfíciosCirculares emitidos pela área técnica da CVM têm como objetivo principal divulgar os problemas centrais e esclarecer dúvidas sobre a aplicação das Normas de Contabilidade pelas Companhias Abertas e das normas relativas aos Auditores Independentes. Esse ofíciocircular também procura incentivar a adoção de novos procedimentos e divulgações, bem como antecipar futura regulamentação por parte da CVM e, em alguns casos, esclarecer questões relacionadas às normas internacionais emitidas pelo IASB. A CVM vem, ao longo dos anos da sua atuação, buscando aperfeiçoar e manter atualizado o seu arcabouço normativo contábil, sempre com a participação de segmentos interessados do mercado ou da profissão contábil. Cumpre destacar a importante colaboração recebida da Comissão Consultiva de Normas Contábeis da CVM, que conta com representantes da ABRASCA, APIMEC, CFC, IBRACON, FIPECAFI/USP e colaboradores especialmente nomeados pela CVM, além dos professores Ariovaldo dos Santos (USP), José Augusto Marques (UFRJ) e Natan Szuster (UFRJ) e, agora, do Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC, recentemente instalado. omissis 20.1.7 "Ágio" gerado em operações internas A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporação de ações) resultam na geração artificial de "ágio". Uma das formas que essas operações vêm sendo realizadas, iniciase com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizarse do resultado constante do laudo oriundo desse processo Fl. 2621DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.622 29 como referência para subscrever o capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, serem seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como "arm's length". Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. (grifo nosso) Ainda nesse sentido, registrase o item 50 da Orientação Técnica OCPC 02/2008 do Comitê de Pronunciamentos Contábeis: É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação. (grifo nosso) O ágio, dessa forma, deve sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes, independentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e deveres proporcionais. À guisa de exemplo, se em um negócio o alienante pede pelo seu bem ou direito, determinado sobrepreço, essa mais valia a ser paga pelo adquirente deve ser justificada pela expectativa de algum ganho. Se não há previsão de ganho, não há porque existir ágio. Por fim, entendo que a discussão relativa à validade do laudo perde relevância diante do fato de que não existiu intervenção de terceiro, com interesse econômico independente do grupo, “livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação”, nas palavras da CVM. Pelo exposto, nego provimento ao recurso quanto a esse ponto. Fl. 2622DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.623 30 Da multa qualificada A fiscalização assim motivou a imposição da multa prevista no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996: “Pelos motivos expostos, em decorrência da desqualificação da operação de compra e venda de ações com apuração de ágio pelos motivos acima expostos e dos atos a este evento ligados, ficou caracterizada também a ação dolosa da operação recebimento e transferência de recursos com o exterior, pois sem propósito negocial, sem motivação extratributária, também esta etapa em conjunto com as demais levou a uma única finalidade: diminuição ou não pagamento de tributos, no caso do IRPJ, CSLL e IOF devidos pela VWL e pelo BVW.” Como visto, a conduta da contribuinte, implicou na dedução indevida da base de cálculo do IRPJ e da CSLL dos valores decorrentes de operações irreais, que não se enquadram na hipótese legal prevista pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Tal dedução indevida acarretou falta de recolhimento de tributo. O art. 44, I, da Lei nº 9.430/1996 disciplina as sanções que devem ser aplicadas no caso de falta de recolhimento do tributo: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) (...) 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.” Por sua vez, os arts. 72 da Lei nº 4.502/1964, utilizado pela fiscalização para a imposição da multa qualificada, assim dispõe: “ Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento.” Quanto ao conteúdo do prescrito no art. 72 da Lei nº 4.502/1964, cabe ressaltar que , nos termos da mensagem n° 49664, do Poder Executivo, que apresentou ao Congresso Nacional, o anteprojeto da Lei n° 4.502/1964, uma das medidas de aperfeiçoamento do sistema de controle e cobrança do imposto sobre consumo foi a reformulação do sistema de penalidades, um sistema de natureza tributária, e não penal, in verbis: Fl. 2623DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.624 31 “Dentre as medidas de aperfeiçoamento, sobressaemse, além da mencionada adaptação da Tabela de especificação dos produtos à Nomenclatura Aduaneira de Bruxelas, completando a reforma iniciada em 1958: (...) 5) a que reformula o sistema de penalidades, sua aplicação e graduação, levando em conta a situação econômica do infrator;” No sistema da Lei n° 4.502/1964 havia várias circunstâncias atenuantes e agravantes que deveriam ser levadas em consideração pela autoridade administrativa: “Da Aplicação e Graduação das Penalidades Art . 67. Compete à autoridade julgadora, atendendo aos antecedentes do infrator, aos motivos determinantes da infração e à gravidade de suas conseqüências efetivas ou potenciais; I determinar a pena ou as penas aplicáveis ao infrator; II fixar, dentro dos limites legais, a quantidade da pena aplicável. Art. 68. A autoridade fixará a pena de multa partindo da pena básica estabelecida para a infração, como se atenuantes houvesse, só a majorando em razão das circunstâncias agravantes ou qualificativas provadas no processo. (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) § 1º São circunstâncias agravantes: (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) I a reincidência; (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) II o fato de o impôsto, não lançado ou lançado a menos, referirse a produto cuja tributação e classificação fiscal já tenham sido objeto de decisão passada em julgado, proferida em consulta formulada pelo infrator; (Redação dada pelo Decreto Lei nº 34, de 1966) III a inobservância de instruções dos agentes fiscalizadores sôbre a obrigação violada, anotada nos livros e documentos fiscais do sujeito passivo; (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) IV qualquer circunstância que demonstre a existência de artifício doloso na prática da infração, ou que importe em agravar as suas conseqüências ou em retardar o seu conhecimento pela autoridade fazendária. (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) § 2º São circunstâncias qualificativas a sonegação, a fraude e o conluio. (Redação dada pelo DecretoLei nº 34, de 1966) Fl. 2624DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.625 32 No sistema original da lei a fraude era uma circunstância qualificativa que justificava a imposição de multa mais gravosa. Os conceitos definidos nos arts. 71, 72 e 73 não eram as únicas situações agravantes previstas no sistema de penalidades. A esfera tributária é autônoma em relação à esfera penal, como demonstra decisão do Supremo Tribunal Federal proferida por ocasião do julgamento do RE 62577/SP: “Contrabando. Diferença entre fraude penal e fraude fiscal. A absolvição no Foro Criminal não importa, necessariamente, na exclusão da responsabilidade de natureza fiscal. Autonomia das esferas administrativa e fiscal e da criminal. Recurso Extraordinário não conhecido.” Atualmente, o sistema de penalidades tributárias é bem mais simples, existindo apenas duas possibilidades de aumento dos percentuais definidos: a) a duplicação nos casos de sonegação, fraude ou conluio; b) e o aumento de metade no caso de não atendimento de intimação para prestar esclarecimentos, arquivos ou sistemas, e documentação técnica. O sistema tributário atual se valeu apenas dos conceitos de sonegação, fraude e conluio, eliminando as demais definições de circunstâncias agravantes ou atenuantes. Nesse caso, se a imposição da penalidade de 150% parece ser excessiva em algumas situações, a falta de opções de graduação ou dosimetria é decorrente do próprio sistema legal. Em sua defesa, a autuada afirma: “a penalidade agravada não se aplica aos casos em que o sujeito passivo age de acordo com suas convicções, deixando todo o seu procedimento às claras. Nessa hipótese afirma que não há tentativa de enganar quem quer que seja. O que pode haver é divergência na interpretação da lei tributária aplicável. Algo que não tem qualquer relação com sonegação, fraude ou conluio, afastando a possibilidade de ser imputada a multa qualificada até por força do disposto no art. 112 do CTN.” A meu ver, a análise da sequência das operações e seus resultados antes e depois de sua ocorrência, descritas em detalhes no TVF de fls. 1.046/1.096 e já exaustivamente analisadas neste voto, revelam a existência de um artifício criado única e exclusivamente para reduzir a carga tributária. Nesse sentido a simulação descrita e comprovada no referido TVF não deixa margens para dúvidas. Por bem resumir a situação, transcrevo os argumentos apresentados pela d.PFN em suas contrarazões, adotandoos no presente voto. "... Convém tecermos comentários sobre a fraude cometida pela Contribuinte. Isso porque, entendeu o Fiscal que a Contribuinte ora recorrente reduziu o montante dos impostos devidos de forma fraudulenta. Para tanto, o lançamento constatou que o sujeito passivo teria incorrido na previsão legal do art. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. Não merece guarida os argumentos de que todas as alterações societárias foram realizadas nos estritos ditames da legislação aplicável, às claras e com registros dos instrumentos nos órgãos competentes. Fl. 2625DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.626 33 Não obstante as razões trazidas pela Recorrente, a despesa amortizada por ele fora criada de forma artificial, por meio de simulação. Como já destacado acima, em que pese a Contribuinte ter tentado dar uma aparência de legalidade ao negócio que originou o ágio posteriormente amortizado, tal operação, na realidade, não era aquilo que aparentava. Embora a Contribuinte tenha declarado que o ágio por ele amortizado decorria de uma verdadeira aquisição de investimento pela empresa que por ele pagou, em operações conduzidas de maneira independente, pelos trabalhos da Fiscalização se evidenciou que não houve investimento nenhum, o ágio foi criado artificialmente com o único e evidente intuito de auferir um benefício fiscal indevido. A ausência de propósito negocial e de substrato econômico, da mesma forma que impedem a existência material do ágio, atestam a simulação praticada pela Contribuinte. Com a demonstração de que não houve nenhuma aquisição de investimento a justificar a existência do ágio, deixase claro que o único intuito do Grupo quando do aumento de capital da VWP, com a participação na VWL, que por sua vez controlava o BVW, com participação avaliada com ágio, fora criar um modo de redução dos impostos a serem pagos. Individualmente, as principais operações societárias realizadas pela Contribuinte não configuram nenhum ilícito cível e tributário. Isoladamente elas são perfeitas. Todavia, ao serem analisadas em conjunto, vêse o evidente intuito doloso nos ilícitos tributários cometidos. O fato de a reorganização societária em tela ter sido planejada em sua integra, desde o início, juntamente com a ajuda de consultoria especializada, reforça ainda mais o evidente intuito da Contribuinte de, com a criação do ágio, reduzir de forma indevida o seu futuro passivo tributário. A simulação resta inequívoca: havia motivos à sua realização (criação de um benefício fiscal indevido), e, com a incorporação, o negócio realizado (aquisição de participação avaliada com ágio) não foi executado materialmente. Quanto à validade de negócios realizados entre partes coligadas, merece registro o seguinte ensinamento de EDMAR OLIVEIRA ANDRADE FILHO: (...). As operações em circuito fechado submetemse a um filtro de sinceridade; a validade das operações entre partes relacionadas requer que elas tenham sempre uma causa ou um conteúdo econômico e sejam efetivamente realizadas (...) Como pode ser visto, tais condições de validade aos negócios entre coligadas não foram observadas pela Contribuinte em epígrafe e seu grupo econômico. Não houve qualquer filtro de sinceridade com a realidade. Destarte, a sonegação está caracterizada nos autos uma vez que a Contribuinte fiscalizada, por meio da reorganização societária, retardou parcialmente o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Com a simulação praticada, o sujeito passivo tentou amortizar a perda de um investimento inexistente. A simulação, correspondida pela atitude dolosa da Contribuinte em reduzir o montante do imposto devido, está mais do que comprovada ante os inúmeros fatos aqui apontados. Assim, por meio da criação de um ágio artificial, a Recorrente reduziu indevidamente o pagamento do IRPJ e da CSLL. Fl. 2626DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.627 34 Sendo assim, pelos argumentos aqui expostos, demonstrase cabalmente que o negócio praticado pela Contribuinte foi realizado com evidente intuito fraudulento. Por meio de uma aparente sequencia de operações societárias, na verdade, o que a Contribuinte procurou foi a redução da sua carga tributária. A qualificação da multa de ofício, assim, é inevitável. Diante do exposto, deve ser mantida a multa qualificada. Do lançamento em duplicidade de parte da CSLL relativa ao ano calendário de 2008 Alega a defendente que parte da CSLL, ora exigida, já foi lançada, encontra se depositada judicialmente e é objeto do processo administrativo n° 16327.720484/201125, devendo ser cancelados os valores cobrados em duplicidade. O auto de infração e as planilhas anexados pela defendente são insuficientes para demonstrar que as diferenças entre os valores depositados e os declarados correspondem ao montante das exclusões consideradas indevidas no presente processo. Para analisar a alegação da defendente é necessário identificar qual o objeto da ação judicial relativa aos depósitos judiciais (MS 2008.61.00.0138393). Conforme cópia da petição inicial do MS 2008.61.00.0138393 anexada aos autos (fls. 2.312/2.340), o objeto da ação é a elevação de 9% para 15% da alíquota da contribuição devida pelas “pessoas jurídicas de seguros privados, as de capitalização” e as instituições financeiras “referidas nos incisos I a XII do § 1º do art. 1º da Lei Complementar nº 105, de 10 de janeiro de 2001, efetuada pela Medida Provisória n° 413/2008, in verbis: “7. Pedido À vista do exposto, requer a Impetrante dignese V.Exa. concederlhe medida liminar para o fim de lhe assegurar o direito de recolher a Contribuição Social sobre o Lucro, no que respeita aos fatos geradores ocorridos a partir de maio de 2008 (inclusive), sem a majoração da alíquota veiculada pelo a rt. 17 da Medida Provisória n° 413/2008 (ou pela Lei de Conversão que dela resultar), assegurando a suspensão da exigibilidade do crédito tributário nos termos do a rt. 151, IV, do CTN, a salvo da imposição de penalidades pela d. autoridade impetrada. Verificase estarem configurados os pressupostos para a concessão da liminar. O fumus boni juris está presente ante a demonstração inequívoca de que a Medida Provisória atacada padece de vício formal, não tendo sido obedecidos os requisitos do a rt. 62, da Constituição, para utilização dessa via legislativa excepcional. Ademais, a mesma norma é ilegítima do ponto de vista material, porque instituiu critério de tributação diferenciado entre setores da economia, igualmente sem atender aos ditames constitucionais. Por outro lado, o periculum in mora é igualmente manifesto, na medida em que, não sendo deferida a liminar pleiteada, a d. autoridade impetrada, até por dever de oficio (art. 142, do CTN), iniciará ação fiscal para cobrança dos valores (cujo primeiro Fl. 2627DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.628 35 vencimento . ocorrerá no próximo dia 30 de junho), acrescidos de pesadíssimos encargos moratórios e punitivos, tornando ineficaz a segurança ainda que ao final concedida.” Com base nesses elementos podese afirmar que a diferença entre os valores declarados e os depositados consiste na diferença entre as alíquotas. Não há qualquer outro elemento que indique que os valores discutidos neste processo estão incluídos nos valores depositados. Pelo exposto, entendo que não restou demonstrada a duplicidade de cobrança alegada pela defendente. Da exclusão da superveniência de depreciação da base de cálculo da CSLL A matéria em discussão tem precedentes neste Conselho. Todos concordantes com a tese da recorrente. Vejase, nesse sentido, o Acórdão 110300.684, de 09 de maio de 2012, cuja ementa se transcreve a seguir. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008 ARRENDAMENTO MERCANTIL SUPERVENIENCIAS DE DEPRECIAÇÃO INTRIBUTABILIDADE. A lei tributária prescreve o regramento contábil além do tratamento tributário, impondo a ativação do bem a ser arrendado no imobilizado da arrendadora e a consequente depreciação com sua despesa nela. Ao assim estatuir, a lei não se limita ao lucro real quanto ao tratamento tributário "decorrente" da contabilização imposta, além do que a lei nem referencia lucro real ao versar sobre a disciplina da arrendadora. Os ajustes de superveniencias e de insuficiências de depreciação das normas do Bacen se prestam para obtenção de resultado de um financiamento conforme os fluxos das taxas de juros contratuais o que não se dá pela contabilização imposta pela lei. Para tanto, a lei teria de prever a ativação do bem no imobilizado da arrendatária, e não no da arrendadora o que dispensaria os ajustes das normas do Bacen. Os ajustes de superveniências de depreciação afetam o resultado da arrendadora como receita, mas não geram efeitos tributários: não interferem na base de cálculo da CSLL. Diante da amplitude da lei tributária cabe a inteligência do Ato Declaratório (Normativo) CST 34/87 para a CSLL. Também o Acórdão 120100.097, de 17 de junho de 2009. Vejase sua ementa. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2004, 2005, 2006 ARRENDAMENTO MERCANTIL. SUPERVENIENCIA E/OU INSUFICIÊNCIA DE DEPRECIAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. Os Fl. 2628DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.629 36 ajustes contábeis comandados pelos atos das autoridades monetárias com naturezas assemelhadas à antecipação de receitas e provisão de expectativa de perdas, devido a suas características peculiares. Apesar de ser permitido o seu trânsito pelo resultado do exercício, como é o caso dos ajustes de superveniencias e insuficiências de depreciação, é necessário que exista a expressa previsão legal para produzir qualquer efeito tributário. No caso, é invertido a lógica comumente aceita de que tudo o que compõe o lucro líquido já seria o ponto de partida natural para gerar efeitos tributários. Se faltar essa previsão legal, os efeitos tributários devem ser anulados por suas contrapartes, extracontabilmente. Tratandose da CSLL, apesar de não ter sido previsto isso explicitamente no Ato Declaratorio n° 34/87, vale o mesmo raciocínio utilizado para o IRPJ, pois o ponto de partida de ambos os tributos é o mesmo (lucro líquido). COMPENSAÇÃO DE BASE NEGATIVA. RECOMPOSIÇÃO DE OFICIO. Cancelada a exigência a título de superveniencia de depreciação, deve ser também cancelada a exigência dela decorrente referente à compensação indevida de base negativa. Quanto a este último, transcrevo seus fundamentos, que adoto como razão de decidir neste voto, na forma a seguir apresentada. "... SOCIEDADES DE ARRENDAMENTO MERCANTIL Criadas pela Lei n° 6.099, de 12/09/1974, já acima referenciada, são as instituições que têm por objeto o arrendamento de bens imóveis e móveis, de produção nacional, classificáveis no ativo fixo, adquiridos pela arrendadora para uso da arrendatária. Considerase arrendamento mercantil, cuja denominação vernácula é leasing, a operação realizada entre pessoas jurídicas que tenha por objeto o arrendamento mercantil de bens adquiridos de terceiros pela arrendadora, para fins de uso próprio da arrendatária e que atendam às especificações desta. A operação é regida por um contrato cujas cláusulas principais estabelecem: Descrição dos bens objeto do contrato; Valor das contraprestrações e forma de pagamento pela arrendatária; prazo de vencimento; opção, no vencimento do contrato, pela devolução do bem arrendado, pela renovação do contrato ou pela aquisição do bem, garantido o seu valor residual; reajustes, despesas e encargos contratuais. A depender de como algumas das variáveis acima (prazo, valor da opção, etc) se configuram, o arrendamento mercantil é classificado em arrendamento operacional ou financeiro. Fl. 2629DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.630 37 INSUFICIÊNCIAS DE DEPRECIAÇÕES ou SUPERVENIENCIAS DE DEPRECIAÇÕES. Em resumo, podese verificar que as empresas dedicadas à atividade de arrendamento mercantil, como a Recorrente, têm duas origens relevantes de despesas e de receitas. As despesas são decorrentes de (a) depreciação dos bens arrendados e (b) de juros e outros encargos decorrentes da captação de recursos. As receitas, por sua vez, originamse de (a) contra prestações de arrendamento mercantil e (b) de ganho no exercício da opção de compra do bem pelo arrendatário. No caso que se cuida a depreciação é que está em foco. O que as diferenciam das demais pessoa jurídicas é ocorrência do descasamento entre os prazos dos contratos de arrendamento mercantil e os prazos previstos para depreciação dos bens arrendados. Esse descasamento ainda é mais justificado pelo incentivo ofertado a essas empresas pela Lei n° 6.099/74 e regulamentada, entre outras, pela Portarias MF n°s 376E, de 28 de setembro de 1976, que entre outros regramentos estabeleceu, que: "(...) 11.6 O prazo usual de vida útil dos bens arrendados poderá, a critério das empresas arrendadoras, ser considerado com a redução de 30% (trinta por cento), para efeito de determinação da taxa anual de depreciação. (...) "(destaquei) Com efeito, considerandose que a maior fonte de receitas das empresas de leasing decorre das contra prestações do contrato, que devem ser reconhecidas em função do prazo do mesmo, bem como que o volume mais expressivo das despesas decorre da depreciação dos bens arrendados, que tem o seu prazo estabelecido em função da vida útil do bem, resta nítido que o desequilíbrio entre os dois prazos afeta os resultados das arrendadoras, fazendo com que haja reconhecimento antecipado de receitas ou despesas. Nesse contexto, em virtude dessa incompatibilização entre as receitas e despesas desse tipo de sociedade e para evitar prováveis distorções nas demonstrações financeiras, é que as autoridades monetárias as quais elas também estão sujeitas decidiram por equalizar o tratamento contábil a ser seguido pelas mesmas. Sob a forma de ajustes de suas despesas de depreciação dos bens arrendados para os prazos dos contratos de arrendamento. Dessa forma, a partir de 30/06/1988, com a criação do Plano Contábil das Instituições Financeiras COSIF, aprovado pela Circular do Banco Central do Brasil n° 1.273, de 29.12.87, os referidos ajustes contábeis foram criados. Vejamos as funções dessas contas estabelecidas pelo próprio Banco Central: "Título: INSUFICIÊNCIA DE DEPRECIAÇÕES () Conta:2.3.2.40.005 Função: Registrar a diferença entre o valor contábil e o valor atual dos contratos em andamento, às taxas pactuadas, quando este for menor. Quando da baixa do bem arrendado, com apuração de prejuízo com recebimento de valor residual garantido ou exercício da opção de compra pelo arrendatário, esta conta deve ser debitada pelo valor do prejuízo, em contrapartida com Bens Arrendados. Base Normativa: (Circ 1273)" (destaquei) Fl. 2630DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.631 38 "Título: SUPERVENIENCIA DE DEPRECIAÇÕES () Conta:2.3.2.30.008 Função: Registrar a diferença entre o valor contábil e o valor atual dos contratos em andamento, às taxas pactuadas, quando este for maior. Por ocasião da baixa do bem arrendado, com apuração de lucro, com recebimento do valor residual garantido ou exercício da opção de compra pelo arrendatário, esta conta deve ser creditada pelo valor do lucro, em contrapartida com Disponibilidades.(Circ 1273) "(destaquei) Trocando em miúdos, o regramento do banco central estabeleceu existência de duas contas no ativo Permanente (a primeira redutora desse Ativo e a outra não) com contrapartidas em contas de resultado (despesas de arrendamento e rendas de arrendamento) a fim de ajustar as diferenças acima apontadas. Insuficiência de Depreciações A primeira delas "Insuficiência de Depreciações" (Código 2.3.2.40.005), conta redutora, deve ser utilizada quando o valor das contra prestações decorrentes contrato de arrendamento mercantil trazidos a valor presente (valor presente do fluxo futuro de recebimentos tomando por base as taxas de juros contratuais) for menor do que sua carteira ajustada já pelas baixas e depreciações acumuladas (valor contábil). Quando o valor presente é menor que a simples soma desses recebimentos futuros, o ativo contábil da empresa ajustado também se reduz quando se usa o artifício da insuficiência de depreciação. Por outro torneio, quando o prazo dos contratos de arrendamento não é suficiente para que seja realizada a depreciação do bem temse uma despesa adicional decorrente da insuficiência de depreciação. Contabilização Mensalmente, debitase despesas de arrendamento e creditase a conta redutora do ativo "Insuficiência de Depreciações" Superveniencia de Depreciações A outra conta do ativo "Superveniencia de Depreciações" (Código 2.3.2.30.008), conta normal do ativo, nãoredutora, deve ser utilizada no sentido inverso, quando o valor das contra prestações decorrentes contrato de arrendamento mercantil trazidos a valor presente do fluxo futuro de recebimentos tomando por base as taxas de juros contratuais for maior do que sua carteira ajustada já pelas baixas e depreciações acumuladas (valor contábil). Quando o valor presente é maior que a simples soma desses recebimentos futuros, o ativo contábil da empresa ajustado também é aumentado quando se usa o artificio da superveniencia de depreciação. Por outras palavras, quando o prazo de depreciação é menor do que o contrato de arrendamento, ocorre a necessidade da sua diluição, redundando a mesma na superveniencia de depreciação. Contabilização Mensalmente, creditase receitas de arrendamento e debitase a conta do ativo "Superveniencia de Depreciações". Como os ajustes são efetuados mensalmente, na apuração anual do lucro real poderá haver a concomitância de ajustes extracontábeis tanto relativo à "Insuficiência de Depreciações" quanto à "Superveniencia de Depreciações", como é o caso dos autos. Fl. 2631DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.632 39 O autuante, no caso, glosou o efeito líquido dessas duas rubricas nos ajustes do lucro líquido da CSLL. Efeitos Tributários Como afirmado, em relação à "insuficiência de depreciações", as despesas de depreciação deveriam ser reconhecidas em momento diferente, mas são "corrigidas" contabilmente para correta apuração dos resultados das empresas de arrendamento mercantil segundo a sistemática do Banco Central. No segundo, ocorre o inverso, na medida em que as despesas de depreciação são "postergadas" para serem reconhecidas juntamente com as respectivas receitas. O Ato Declaratório Normativo CST 34/87, bem esclarece o contexto no qual esses ajustes determinados pelo Banco Central do Brasil estão inserido (Insuficiência de Depreciação e Superveniencia de Depreciação : "I Na determinação do lucro liquido das sociedades de arrendamento mercantil deverão ser observadas as disposições da Lei n" 6.099, de 12 de setembro de 1974, com as alterações introduzidas pela Lei n° 7.132, de 26 de outubro de 1983 e o disciplinado nas Portarias MF n°s 376E, de 28 de setembro de 1976, n° 564, de 03 de novembro de 1978 e 140, de 27 de julho de 1984, permitidos os ajustes determinados pela aplicação do Plano de Contas aprovado pelo Banco Central do Brasil. 11 Os ajustes de que trata o item anterior, quando relacionados com fatos administrativos cuja apropriação está disciplinada pelos atos ministeriais referidos, não serão computados na apuração do lucro real e deverão ser segregados contabilmente, de forma a permitir seja determinada sua composição e o tratamento tributário a eles dispensados. Ill — O mencionado procedimento de ajustes não poderá alterar os efeitos tributários decorrentes da aplicação das disposições dos atos legais referidos no item I. " (nossos destaques) O inciso I é bastante claro em traçar as normas legais e infralegais (Portarias Ministeriais) que dão o tom do tratamento tributário a ser seguido pelas empresas desse setor. Em sua ressalva final, permite que os ajustes contábeis referenciados pelos atos normativos do Banco Central sejam efetuadas. O inciso III do referido preceptivo legal é bastante claro em enfatizar que os referidos ajustes não poderão "alterar os efeitos tributários decorrentes da aplicação das disposições dos atos legais referidos no item I Ou seja, do inciso III se pode extrair dois pressupostos: i) as despesas com depreciação com suas especificidades tratadas nos atos legais referidos, por exemplo, não podem ser sobrepujadas ou anuladas pelo o quer que as normas do banco central determinem; ii) o lucro líquido não pode ser afetado por esses mesmos ajustes. Portanto, é óbvio que os ajustes contábeis feitos no lucro líquido apenas para efeito de equalização entre receitas e despesas das sociedades de arrendamento mercantil não podem produzir efeitos fiscais e que por isso tais ajustes precisam ser anulados por suas inversões , extracontabilmente, para fins de cálculo da CSLL. Fl. 2632DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.633 40 Cabe salientar um ponto importante, apesar de a terminologia tratada nesses ajustes não contemplar especificamente a expressão "provisões", na verdade tais ajustes não passam de antecipações de receitas e/ou provisões e reversão de provisões com uma nova roupagem. Quando ocorre "insuficiência de depreciações" fazse na verdade uma provisão, creditandose uma conta redutora do ativo e debitandose uma conta de resultado(despesa). Em período em que ocorre "superveniencia de depreciações" nada mais se faz do que reverter aquelas provisões ou mesmo antecipar receitas (caso em que as provisões ou ainda não foram feitas ou superem as provisões já ativadas), creditandose uma conta de receita e debitandose uma conta do ativo (superveniencia de depreciações), que é a contrapartida da conta redutora desse ativo (insuficiência de depreciações). A complexidade está apenas em que a conta de provisão está bipartida em 2(duas) contas cujos efeitos devem ser considerados em conjunto. Tratandose de provisão indedutível, então, o problema da falta de previsão legal não mais se coloca, pois a Lei 7.689/89 passa dar guarida ao desfazimento de tudo que lhe diz respeito, inclusive as reversões. Com razão a recorrente quando argumenta que as regras aplicáveis à apuração da capacidade contributiva da pessoa jurídica na determinação de seu lucro para fins de incidência do Imposto sobre a Renda também devem ser aplicáveis à CSLL. Discordo, portanto, do autuante e da decisão de piso quando mantêm o lançamento sob o argumento de que a legislação aplicável à Contribuição Social não tratou especificamente dos referidos ajustes, pelo seguinte motivo: Os ajustes contábeis comandados pelos atos das autoridades monetárias com naturezas assemelhadas à antecipação de receitas e provisão de expectativa de perdas, devido a suas características peculiares. Apesar de ser permitido o seu trânsito pelo resultado do exercício, como é o caso dos ajustes de superveniencias e insuficiências de depreciação, é necessário que exista a expressa previsão legal para produzir qualquer efeito tributário. No caso, é invertido a lógica comumente aceita de que tudo o que compõe o lucro líquido já seria o ponto de partida natural para gerar efeitos tributários. Se faltar essa previsão legal, os efeitos tributários devem ser anulados por suas contrapartes, extracontabilmente. Tratandose da CSLL, apesar de não ter sido previsto isso explicitamente no Ato Declaratório n° 34/87, vale o mesmo raciocínio utilizado para o IRPJ, pois o ponto de partida de ambos os tributos é o mesmo (lucro líquido). Corroborando com o item anterior, de que certos aspectos lógicos nem mesmo precisa estar explícito no sistema de Direito Positivo, lição do saudoso Lourival Vilanova em seu clássico "As estruturas lógicas e o Sistema de Direito Positivo", a Receita Federal tratou de explicitar que pode ser excluído do lucro líquido "quaisquer outros valores incluídos na apuração do lucro líquido que, de acordo com essa mesma legislação, não devam ser computados na determinação do residtado ajustado (IN 390/2004, art. 39, inciso II). "Art. 39. Na determinação do resultado ajustado, poderão ser excluídos do lucro líquido do período de apuração: I omissis II os resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores incluídos na apuração do lucro líquido que, de acordo com essa mesma legislação, não devam ser computados na determinação do resultado ajustado. § Io Fazem parte das exclusões de que trata este artigo: Fl. 2633DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.634 41 ()" E em sentido reverso em relação aos custos que foram deduzidos sem previsão legal da legislação de regência (IN 390/2004, art. 38, inciso I): "Art. 38. Na determinação do resultado ajustado, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração antes da provisão para o IRPJ: I os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com a legislação da CSLL, não sejam dedutíveis na determinação do resultado ajustado; (. . .)" Também considero o entendimento da DRJ em relação ao Ato Declaratório n°34/87 deveras literal e em dissonância com uma interpretação sistemática das normas envolvidas. Vejamos as próprias palavras da DRJ: "Contudo, o entendimento da defesa não é correto uma vez que o texto do Ato Declaratório nº34/87, em seu inciso I, é claro no sentido de que " ... I Os ajustes de que trata o item anterior, quando relacionados com fatos administrativos cuja apropriação está disciplinada pelos atos ministeriais referidos, não serão computados na apuração do lucro real. Portanto, verificase que o Ato Declaratório Normativo CST 34/87 trata especificamente de apuração do lucro real, base de cálculo do IRPJ e, uma vez que distintas as bases de cálculo, a orientação normativa do referido ADN 34/87 não pode ser estendida à CSLL criada pela Lei nº 7.689/88 que, acrescentese, é posterior ao referido Ato Declaratório. Alega a requerente, às fls. 62, que o ajuste previsto na Circular nº 1429, de 20/01/1989, registrado como complemento ou estorno nas contas de Despesas de Arrendamento em contrapartida com Insuficiência de Depreciação ou Superveniencia de Depreciações visa melhor refletir o resultado auferido pela sociedade nas suas demonstrações financeiras (destaque da impugnação). Dessa forma, concluise que a requerente, por força de sua atividade, está sujeita às normas de contabilização expedidas pelo Banco Central e, portanto, o resultado a que se refere a Lei n° 7.689/88 (art. 2") é aquele apurado na contabilidade, com a observância de tais normas. " (grifos no original) A decisão de piso, analisou isoladamente o inciso II do Ato Declaratório n°34/87, esquecendose de vislumbrar as considerações já aqui colocadas neste voto sobre os demais itens (I e III). Apegouse a expressão isolada "Lucro Real" para daí concluir que as especificidades ali tratadas diziam respeito apenas ao IRPJ e não à CSLL. Esqueceu se, primeiro, de aquilatar que ajustes eram aqueles e a natureza dos mesmos: diziam respeito apenas a ajustes contábeis a serem efetuados sobre o lucro líquido, ponto de partida para o IRPJ e a CSLL. Segundo, o seu argumento de que a Lei n° 7.689/88 por ser posterior ao referido Ato Declaratório corroboraria mais ainda a sua tese. Pelo contrário, a expressão lucro real, quiçá foi utilizada pelo legislador apenas porque o IRPJ era o único imposto sobre o lucro então vigente; Por último, o sentido Fl. 2634DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.635 42 da expressão "Lucro Real" pode ser substituída por algo correlato a "acertos extra contábeis" sem perda de seu conteúdo. Por fim, aqui se coloca um último questionamento, se o ajuste líquido dessas superveniencias tivesse se concretizado em sentido oposto ao aqui colocado, ou seja se ao fim e ao cabo redundasse em contabilização a maior de despesas no lucro líquido do que o previsto pela legislação de regência ou mesmo se as adições superassem as exclusões, o que é perfeitamente possível a depender da composição da carteira da arrendadora. O autuante iria de desfazer as adições extracontábeis e restituir o "imposto pago a maior" ? COMPENSAÇÃO DE BASE NEGATIVA. RECOMPOSIÇÃO DE OFICIO. Cancelada a exigência a título de superveniencia de depreciação, deve ser também cancelada a exigência dela decorrente referente à compensação indevida de base negativa. Cabe a autoridade executora deste Acórdão alimentar o sistema SAPLI de forma a restabelecer o saldo de base negativa da CSLL glosado." Por conseguinte, é correta a exclusão das superveniências de depreciação da base de cálculo da CSLL. Dou provimento ao recurso quanto a essa matéria. Da multa de ofício sobre a parcela depositada judicialmente Alega a recorrente que o montante depositado no Mandado de Segurança nº 2008.61.00.0138393 inclui parcelas relativas a superveniência de depreciação. Conforme já salientado, os elementos de prova constantes dos autos apenas evidenciam que a diferença entre os valores declarados e os depositados decorre da diferença entre as alíquotas de 9% e 15%. A improcedência da duplicidade apontada pela defendente, acarreta a improcedência do argumento de inaplicabilidade da multa de ofício sobre parcela depositada judicialmente. Dos juros de mora incidentes sobre a multa de oficio A recorrente questiona a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. Afirma que inexiste base legal para essa exigência e apresenta vários julgados deste Conselho que amparam sua tese. A aplicação de taxa de juros lastreadas em indicadores do mercado financeiro iniciouse com a Lei nº Lei nº 8.981/95, cujo art. 84 dispõe: Art. 84. Os tributos e contribuições sociais arrecadados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores vierem a ocorrer a partir de 1º de janeiro de 1995, não pagos nos prazos previstos na legislação tributária serão acrescidos de: I juros de mora, equivalentes à taxa média mensal de captação do Tesouro Nacional relativa à Dívida Mobiliária Federal Interna; (...) Fl. 2635DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.636 43 Em Seguida, a Lei nº 9.065/95 substituiu o indicador pela taxa SELIC: Art. 13. A partir de 1º de abril de 1995, os juros de que tratam a alínea "c" do parágrafo único do art. 14 da Lei nº 8.847, de 28 de janeiro de 1994, com a redação dada pelo art. 6º da Lei nº 8.850, de 28 de janeiro de 1994, e pelo art. 90 da Lei nº 8.981, de 1995, o art. 84, inciso I, e o art. 91, parágrafo único, alínea "a.2" da Lei nº 8.981, de 1995, serão equivalente à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente. (...) Por seu turno, a Lei nº 9.430/1996, ao remodelar a multa de mora incidente nos pagamentos em atraso, estabeleceu em parágrafo que sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal incidirão juros de mora à taxa SELIC, veja: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Com base nessa disposição a Receita Federal vem entendendo que a multa de ofício também está sujeita aos juros de mora à taxa SELIC, a partir do seu vencimento. O cerne da questão está, pois, na interpretação que se deve dar à expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições”. De fato o não pagamento de tributos e contribuições nos prazos previstos na legislação faz nascer o débito. Portanto, o débito decorre do não pagamento de tributos e contribuições nos prazos. Também nesse sentido é a multa de ofício débito decorrente de tributos e contribuições. Isso porque ela resulta, nos exatos termos da alínea a do art. 44 da Lei nº 9.430/96, da punição aplicada pela fiscalização à falta de pagamento ou recolhimento dos tributos e contribuições, após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória. A jurisprudência neste Conselho é predominante no sentido de que é cabível a apreciação da matéria pelo contencioso administrativo e de que a aplicação da taxa Selic à multa de ofício é correta. Nesse sentido já se manifestou este E. Colegiado quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA — MULTA DE OFÍCIO — OBRIGAÇÃO PR1NICIPAL — A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento Fl. 2636DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.637 44 do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Aplicável, portanto, a SELIC como taxa de juros de mora sobre a multa de oficio. Conclusão Pelo todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares suscitadas e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado para cancelar a exigência da CSLL referente à superveniência de depreciação. (assinado digitalmente) Frederico Augusto Gomes de Alencar Relator Fl. 2637DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.638 45 Voto Vencedor Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Redator Designado. Com a devida vênia, discordo do ilustre Conselheiro Relator em relação à manutenção da multa qualificada. Embora coadune com a opinião de que, em se tratando de ágio interno, possa, em tese, ser mantida a multa qualificada, no caso concreto há um fato que me levou a suscitar dúvidas a respeito do dolo do contribuinte: a independência das empresas do grupo e a obrigatoriedade de avaliação do investimento com base no valor de mercado por exigências das autoridades alemãs. Nesse sentido, destaco os seguintes excertos do recurso voluntário: Afinal, havendo: (i) normas legais e contábeis que impõem às transações entre VWAG e VWFSAG (e suas controladas) o respeito ao valor de mercado (com observância fiscalizada pelas autoridades fiscais e financeiras alemãs) e (ii) demonstrações financeiras atinentes ao período em que se deu a transação auditadas por terceiro independente e publicadas atestando a observância dos comandos normativos, não há dúvida de que o negócio avaliado pela Fiscalização e pela DRJ se deu at arm's length, comprovando as alegações do Recorrente. Caso porventura os elementos citados fossem insuficientes, ilação aceita para argumentar, na hipótese concreta ainda há mais. Foi elaborado laudo por empresa especializada e independente (KPMG) com o propósito especial de determinar o valor de mercado de BVW, o que redundou no pagamento do ágio por VWL, amortizado após a sua incorporação. [...] Portanto, são desprovidas de qualquer fundamento que não a tentativa de manutenção das autuações a qualquer custo as conclusões da DRJ de que: "As provas coligidas aos autos não são suficientes para demonstrar que o preço praticado na operação seria o mesmo acordado entre partes não relacionadas, envolvidas nas mesmas transações ou em transações similares, nas mesmas condições ou em condições semelhantes, no mercado aberto" (página 1 do acórdão folha 2.404 dos autos) . Mas não é só. A independência de fato entre VWAG e VWFSAG é verificável, ainda, a partir da constatação de que possuem: 1. Alta Administração (Diretorias. Conselho Consultivo "supervisory board" e Conselho de Administração) independentes. Os membros do Fl. 2638DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.639 46 órgão de VWAG (doe. 24 anexo à impugnação) não são os mesmos que têm assento no órgão equivalente de VWFSAG (doe. 25 que acompanhou a defesa); 2. Demonstrações financeiras independentes. Tanto o relatório financeiro de VWAG quanto o de VWFSAG, indicam de forma isolada as demonstrações das divisões automotivas e financeiras (doe. 2 juntado à impugnação páginas 130 a 132 e doe. 4 que instruiu a impugnação páginas 61 e 62); 3. Ambientes Regulatórios Diferentes. Como instituição financeira sujeita às regras do BAFIN, a VWFSAG se sujeita a regras distintas em relação à, dentre outros, estrutura de capital, índices de liquidez, em comparação à VWAG, atuante em ramo absolutamente distinto (automotivo); 4. Fluxos de caixa e disponibilidades de capital independentes. Tais dados revelam a saúde financeira das sociedades e são disponibilizados no relatório financeiro de VWAG, assim como no da VWFSAG, de forma independente para os segmentos automotivo e financeiro (doc. 2 páginas 133 e 134 e doc. 4 página 63); 5. Resultados independentes. Os ganhos e as perdas nas operações são apresentados tanto de forma consolidada, quanto de maneira isolada entre operações automotivas e financeiras nos relatórios financeiros de VWAG e VWFSAG, a fim de se conhecer como foi o retorno de cada segmento no exercício examinado (doe. 2 páginas 135 a 137 e doe. 4 página 60); 6. Taxas de custo dos capitais aplicados e retorno dos investimentos independentes. Os percentuais de cada um dos critérios são apurados nos relatórios financeiros de VWAG e VWFSAG de forma isolada por segmento automotivo e financeiro (doe. 2 páginas 141 e 142 e doe. 4 página 71); e 7. Riscos de mercado independentes. As descrições quanto às projeções de perspectivas de negócios para o exercício seguinte são feitas nos relatórios financeiros de VWAG e VWFSAG de forma isolada para os braços automotivos e financeiros (doe. 2 páginas 246 e 247 e doc. 4 página 71). [...] Também a VWAG era obrigada a adotar o "fair value" na venda das ações do BVW para a VWL, em razão das regras de transfer pricing alemãs. É o que se verifica, por exemplo, na Seção 8 do Corporation Income Tax Act (Körperschaftsteuergesetz), que dispõe sobre o princípio do "at arm 's lenght" e na Seção 1 do Foreign Tax Act (Außensteuergesetz), que autoriza a autoridade fiscal alemã a ajustar o lucro do contribuinte alemão nas operações com coligadas no exterior (doc. 26 anexo à impugnação). Fl. 2639DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo nº 16327.720416/201247 Acórdão n.º 1402002.072 S1C4T2 Fl. 2.640 47 Embora concorde que o ágio formado intragrupo, com mera circulação de recursos entre empresas do grupo não possa ser amortizado, no caso concreto, considero não haver, no mínimo, dúvida a respeito da ocorrência de fraude (art. 72 da Lei nº 4.502/64) necessária à qualificação da multa de ofício, conforme determina o parágrafo 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. E, em se tratando de penalidade, incide o disposto no art. 112, inciso IV, do CTN, ou seja, em caso de dúvida quanto à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação, interpretase da maneira mais favorável ao acusado a lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades. Assim sendo, voto por reduzir a penalidade aplicada para 75%. (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO Redator Designado Fl. 2640DF CARF MF Documento nato-digital Documento de 47 página(s) assinado digitalmente. Pode ser consultado no endereço https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx pelo código de localização EP22.0322.11349.M9OQ. Consulte a página de autenticação no final deste documento. PÁGINA DE AUTENTICAÇÃO O Ministério da Fazenda garante a integridade e a autenticidade deste documento nos termos do Art. 10, § 1º, da Medida Provisória nº 2.200-2, de 24 de agosto de 2001 e da Lei nº 12.682, de 09 de julho de 2012. Documento produzido eletronicamente com garantia da origem e de seu(s) signatário(s), considerado original para todos efeitos legais. Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001. Histórico de ações sobre o documento: Documento juntado por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO em 09/03/2016 11:18:00. Documento autenticado digitalmente por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO em 09/03/2016. Documento assinado digitalmente por: LEONARDO DE ANDRADE COUTO em 10/03/2016, FREDERICO AUGUSTO GOMES DE ALENCAR em 10/03/2016 e FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO em 09/03/2016. Esta cópia / impressão foi realizada por MARIA MADALENA SILVA em 22/03/2022. Instrução para localizar e conferir eletronicamente este documento na Internet: EP22.0322.11349.M9OQ Código hash do documento, recebido pelo sistema e-Processo, obtido através do algoritmo sha1: A2067855AC39D9B406806592457D4059BA211A20 Ministério da Fazenda 1) Acesse o endereço: https://cav.receita.fazenda.gov.br/eCAC/publico/login.aspx 2) Entre no menu "Legislação e Processo". 3) Selecione a opção "e-AssinaRFB - Validar e Assinar Documentos Digitais". 4) Digite o código abaixo: 5) O sistema apresentará a cópia do documento eletrônico armazenado nos servidores da Receita Federal do Brasil. página 1 de 1 Página inserida pelo Sistema e-Processo apenas para controle de validação e autenticação do documento do processo nº 16327.720416/2012-47. Por ser página de controle, possui uma numeração independente da numeração constante no processo.
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Numero do processo: 10166.721621/2009-38
Turma: Terceira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 26 00:00:00 UTC 2011
Data da publicação: Thu Jul 28 00:00:00 UTC 2011
Ementa: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
VALE TRANSPORTE. PAGAMENTO EM PECÚNIA. CRÉDITO EM CONTA CORRENTE. CARÁTER NÃO SALARIAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N 478.410/SP. UNANIMIDADE DE VOTOS. CONTROLE DIFUSO. TEORIA DA TRANSCENDÊNCIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES. EFEITOS ERGA OMNES. NÃO INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO.
O vale-transporte pago em pecúnia, mediante crédito na conta corrente dos segurados, não afeta a natureza jurídica de ser não salarial, segundo entendimento proferido no Recurso Extraordinário n 478.410/SP por unanimidade de votos.
Sendo o recurso extraordinário instrumento de apreciação da
constitucionalidade pela via difusa, há de se prevalecer a corrente que defende a Teoria da Transcendência dos Motivos Determinantes, a qual admite que a decisão proferida nessa modalidade de controle tenha efeitos erga omnes, hipótese em que a contribuição previdenciária não incidirá sobre a verba.
BOLSA DE ESTUDO. EDUCAÇÃO SUPERIOR. CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL. EXCLUSÃO DE VALORES.
Serão excluídos da base de cálculo da contribuição social previdenciária os valores pagos pelos empregadores a título de educação, estando incluídos cursos de graduação, pós graduação, de línguas estrangeiras, tendo em vista que esses estão destinados à capacitação profissional do trabalhador, não
retribuindo os serviços prestados por esses.
FPAS. REENQUADRAMENTO.
Caso seja feito enquadramento incorreto na Tabela de Códigos FPAS, prevista no Anexo III, da IN SRP nº 03/2005, a RFB, por meio de sua fiscalização, fará a revisão do enquadramento efetuado pelo sujeito passivo, observadas as atividades por ele exercidas.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2403-000.610
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencido o conselheiro Paulo Maurício Pinheiro Monteiro nas questões do vale transporte, bolsa de estudo e glosa de salário de família. Vencido o conselheiro Ivacir Julio de Souza na questão do vale transporte.
Nome do relator: CID MARCONI GURGEL DE SOUZA
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PAGAMENTO EM PECÚNIA. CRÉDITO EM CONTA CORRENTE. CARÁTER NÃO SALARIAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO N 478.410/SP. UNANIMIDADE DE VOTOS. CONTROLE DIFUSO. TEORIA DA TRANSCENDÊNCIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES. EFEITOS ERGA OMNES. NÃO INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. O valetransporte pago em pecúnia, mediante crédito na conta corrente dos segurados, não afeta a natureza jurídica de ser não salarial, segundo entendimento proferido no Recurso Extraordinário n 478.410/SP por unanimidade de votos. Sendo o recurso extraordinário instrumento de apreciação da constitucionalidade pela via difusa, há de se prevalecer a corrente que defende a Teoria da Transcendência dos Motivos Determinantes, a qual admite que a decisão proferida nessa modalidade de controle tenha efeitos erga omnes, hipótese em que a contribuição previdenciária não incidirá sobre a verba. BOLSA DE ESTUDO. EDUCAÇÃO SUPERIOR. CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL. EXCLUSÃO DE VALORES. Serão excluídos da base de cálculo da contribuição social previdenciária os valores pagos pelos empregadores a título de educação, estando incluídos cursos de graduação, pós graduação, de línguas estrangeiras, tendo em vista que esses estão destinados à capacitação profissional do trabalhador, não retribuindo os serviços prestados por esses. FPAS. REENQUADRAMENTO. Caso seja feito enquadramento incorreto na Tabela de Códigos FPAS, prevista no Anexo III, da IN SRP nº 03/2005, a RFB, por meio de sua Fl. 1043DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA 2 fiscalização, fará a revisão do enquadramento efetuado pelo sujeito passivo, observadas as atividades por ele exercidas. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso. Vencido o conselheiro Paulo Maurício Pinheiro Monteiro nas questões do vale transporte, bolsa de estudo e glosa de salário de família. Vencido o conselheiro Ivacir Julio de Souza na questão do vale transporte. Ivacir Júlio de Souza – Presidente Substituto. Cid Marconi Gurgel de Souza – Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ivacir Júlio de Souza, Cid Marconi Gurgel de Souza, Paulo Maurício Pinheiro Monteiro, Marcelo Magalhães Peixoto e Marthius Sávio Cavalcante Lobato. Ausente o conselheiro Carlos Alberto Mees Stringari. Fl. 1044DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA Processo nº 10166.721621/200938 Acórdão n.º 2403000.610 S2C4T3 Fl. 1.044 3 Relatório Tratase de recurso voluntário apresentado contra decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília/DF que julgou PROCEDENTE o lançamento constante no Auto de Infração de Obrigação Principal n 37.225.4292, no valor de R$ 326.610,31 (trezentos e vinte e seis mil, seiscentos e dez reais e trinta e um centavos). Segundo o relatório fiscal, a fiscalização procedeu à lavratura desse Auto de Infração de Obrigação Principal ao verificar que algumas parcelas não integraram a base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias relativas à quota patronal (ausência de informação por GFIP), sendo tais valores relativos aos pagamentos realizados aos segurados empregados a título de valetransporte, bolsas de estudo e saláriofamília e pagamentos realizados aos segurados contribuintes individuais em face da prestação de serviços diversos e serviços de frete e de valores incidentes sobre a remuneração destes apurados por meio de contabilidade. O período objeto da fiscalização compreendeu, em geral, as competências 01/2005 a 12/2005, de acordo com os levantamentos: BOL (01/2005 a 12/2005); CIC (02/2005, 06/2005 e 12/2005); FRE (01/2005, 03/2005 a 10/2005 e 12/2005); GLO (01/2005 a 12/2005); PF (02/2005 e 03/2005, 05/2005 a 07/2005, 09/2005 a 11/2005); VT (01/2005 a 12/2005). Desta autuação, a recorrente foi notificada em 31/08/2009 e apresentou impugnação, alegando em síntese: A tempestividade da defesa; Não possuir o vale transporte natureza salarial, motivo pelo qual não poderá tal verba sofrer incidência da contribuição social previdenciária; Que não obstante a legislação regente – Lei n 7.418/85 determinar que o benefício seja oferecido através de vales adquiridos pelo empregador, sendo vedada a antecipação em dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento, a realidade mostrase diferente; Possuir o Tribunal Superior do Trabalho – TST o mesmo entendimento da empresa, qual seja, o pagamento em dinheiro/creditamento na conta corrente dos empregados do valor relativo aos valestransporte não constitui salário e deve ser afastada da incidência da contribuição previdenciária, trazendo julgados para ratificar seu argumento de que a natureza jurídica dos valestransporte é indenizatória; Ter havido ofensa ao Princípio da Hierarquia das Leis, considerando que o parágrafo 10, do art.214 do Decreto n 3.048/99 extrapolou os preceitos contidos na Lei n 8.212/91; Fl. 1045DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA 4 Que as despesas relativas à educação superior dos empregados da recorrente não podem sofrer incidência da contribuição social previdenciária, trazendo jurisprudências para fundamentar tal argumento; Ter realizado o pagamento do saláriofamília nos moldes exigidos pela Lei n 4.266/63 e pelo art.82 do Decreto n 3.048/99; legislações que não autorizam o empregador a deduzir do total devido à Previdência eventual valor superior pago a título dessa verba; Que a remuneração dos empregados aumentou em virtude do acréscimo de parcelas como o vale transporte e a bolsa de estudo na base de cálculo da contribuição social previdenciária, tendo isso ocorrido de modo superficial e em desacordo com a legislação, inclusive, refletindo no suposto pagamento indevido do saláriofamília; Ter feito o pagamento aos prestadores de serviços (retirada do entulho de obras, gramas), bem como o recolhimento relativo à prestação dessa atividade, sem preparar, entretanto, a folha de pagamento para o registro dessas operações, tendo em vista não serem esses prestadores empregados; Que a conclusão do relatório fiscal não deverá prevalecer, tendo em vista que a base de cálculo da contribuição social previdenciária não poderá ser composta das verbas já citadas:bolsa de estudo, vale transporte, salário família, reafirmando todos os pontos anteriormente abordados; Ser indevida a ocorrência de alguns recolhimentos, rebatendo também outros pontos, tais como o erro nos cálculos de alguns autos de infração referentes ao descumprimento de obrigações acessórias; Quanto às citadas informações inexatas prestadas em GFIP ( FPAS 507,quando o correto seria FPAS 523) acrescenta que a alteração introduzida na IN SRP 03/2005 somente ocorreu em 20/01/2007, ou seja, posterior ao período objeto do lançamento (Janeiro/2005 a dezembro/2005), não estando incorreto portanto os códigos utilizados; Com relação às informações inexatas prestadas em GFIP (Códigos de terceiros 0000, quando o correto seria código 0003) informa que tal código implicaria no recolhimento de Incra e Salário Educação, o que está vedado por decisões judiciais; Ser indevida a representação fiscal para fins penais, tendo em vista que não omitiu valores (receitas, lucros, remunerações e demais fatos geradores das contribuições sociais previdenciárias). Por fim, requereu o conhecimento da impugnação e seu acolhimento. Instada a manifestarse acerca da impugnação, a 7 Turma da DRJ de Brasília/DF proferiu acórdão (n 0336.378) nos seguintes termos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 Fl. 1046DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA Processo nº 10166.721621/200938 Acórdão n.º 2403000.610 S2C4T3 Fl. 1.045 5 VALE TRANSPORTE. PAGAMENTO EM PECÚNIA. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO. O valetransporte pago em espécie em desacordo com a legislação própria (Lei 7418/85 e Decreto 95247/87) constitui saláriodecontribuição, não sendo alcançado pela hipótese de exclusão previdenciária prevista no art. 28, § 9º, alínea “f” da Lei 8212/91. REEMBOLSO EDUCAÇÃO SUPERIOR PAGAMENTO EM DESACORDO COM A LEI DE REGÊNCIA. Integram o salário de contribuição os valores relativos a curso superior, graduação e pósgraduação, de que tratam os art. 43 a 57 da Lei nº 9.394, de 1996. FPAS. REENQUADRAMENTO. Caso seja feito enquadramento incorreto na Tabela de Códigos FPAS, prevista no Anexo III, da IN SRP nº 03/2005, a RFB, por meio de sua fiscalização, fará a revisão do enquadramento efetuado pelo sujeito passivo, observadas as atividades por ele exercidas. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido. Irresignada com a decisão supra, a recorrente apresentou recurso voluntário, ratificando todos os argumentos anteriormente expendidos na impugnação. É o relatório. Fl. 1047DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA 6 Voto Conselheiro Cid Marconi Gurgel de Souza, Relator. DO MÉRITO I – DO VALOR PAGO A TÍTULO DE VALE TRANSPORTE: A recorrente rebate inicialmente que a parcela paga a título de vale transporte não deve integrar a base de cálculo da contribuição social previdenciária, tendo em vista que não possui natureza salarial. Afirma ainda que não obstante a legislação regente determinar que o benefício seja oferecido exclusivamente através de vales, sendo vedada a antecipação em dinheiro, a realidade mostrase diferente. No caso em tela, a recorrente efetuou o pagamento do benefício de vale transporte aos seus funcionários mediante crédito na conta corrente, o que impossibilita a exclusão desta parcela da base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias de acordo com o previsto no art.28, § 9º da Lei n 8.212/91. Art.28 – (...) (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) f) a parcela recebida a título de valetransporte, na forma da legislação própria; Pelo exposto, só há exclusão se o valetransporte for pago em acordo com a legislação própria, vejamos os instrumentos normativos que tratam dessa parcela: Lei n 7.418/85: Art. 4º A concessão do benefício ora instituído implica a aquisição pelo empregador dos ValesTransporte necessários aos deslocamentos do trabalhador no percurso residência trabalho e viceversa, no serviço de transporte que melhor se adequar. Decreto n 95.247/87: Art. 5° É vedado ao empregador substituir o ValeTransporte por antecipação em dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento, ressalvado o disposto no parágrafo único deste artigo. Parágrafo único. No caso de falta ou insuficiência de estoque de ValeTransporte, necessário ao atendimento da demanda e ao funcionamento do sistema, o beneficiário será ressarcido pelo Fl. 1048DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA Processo nº 10166.721621/200938 Acórdão n.º 2403000.610 S2C4T3 Fl. 1.046 7 empregador, na folha de pagamento imediata, da parcela correspondente, quando tiver efetuado, por conta própria, a despesa para seu deslocamento. Pelo exposto, caso o empregador não adquira os valestransporte necessários aos deslocamentos de seus trabalhadores, distribuindoos posteriormente, e, ao invés disso, pagar os vales em pecúnia, a contribuição social previdenciária incidirá sobre tal parcela, haja vista o não cumprimento de exigência legal. Ressaltese que há uma ressalva para que a contribuição não incida sobre as parcelas pagas aos segurados a título de valetransporte, que é a hipótese de faltar ou estiver insuficiente o estoque de valestransporte. Todavia, devese analisar que a realidade mostrase diferente, pois, nos dias atuais, é difícil encontrar uma empresa que forneça valestransporte em espécie, até mesmo pela facilidade que se tem de creditar o valor relativo aos vales em contacorrente. Lembrese que o Decreto 95.247, que regulamente tal benefício, é de 17 de novembro de 1985, época em que a dinâmica empresarial era outra. Além disso, com o fito de fundamentar mais ainda seus argumentos, a recorrente trouxe à baila uma decisão da Corte Suprema (Recurso Extraordinário n 478.410/SP) que admite a exclusão da parcela paga em dinheiro a título de valetransporte da base de cálculo da contribuição previdenciária. Há de ressaltar que os efeitos de uma decisão proferida em Recurso Extraordinário, via controle difuso, são, em regra, inter partes, tendo em vista que só serão erga omnes se o Supremo Tribunal Federal comunicar ao Senado Federal acerca do que foi decidido, o qual poderá editar resolução para suspender a eficácia da norma, segundo o art.52, X, da Constituição Federal. Assim, não tendo sido a decisão do RE n 478.410/SP comunicada ao Senado Federal seus efeitos ficariam somente inter partes e seriam ex tunc. Todavia, seria um retrocesso entender dessa maneira, considerando o atual estágio que se encontra nossa sociedade e as relevantes decisões que têm o Supremo Tribunal Federal proferido e influenciado nos julgamentos dos contenciosos administrativos. Destaco que tem ganhado força e conquistado cada vez mais espaço no cenário jurídico brasileiro a Teoria da transcendência dos motivos determinantes, que consiste na possibilidade de uma decisão proferida via controle difuso, que inicialmente só seria aplicada inter partes e teria efeito ex tunc, alcançar a todos. Sobre o tema, vejamos o que disse o Ministro Gilmar Mendes no informativo do STF 454 (resumos de decisões proferidas pelo Tribunal sobre determinadas matérias): Reclamação: Cabimento e Senado Federal no Controle da Constitucionalidade 3 Aduziu que, de acordo com a doutrina tradicional, a suspensão da execução pelo Senado do ato declarado inconstitucional pelo STF seria ato político que empresta eficácia erga omnes às decisões definitivas sobre inconstitucionalidade proferidas em caso concreto. Asseverou, no entanto, que a amplitude conferida Fl. 1049DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA 8 ao controle abstrato de normas e a possibilidade de se suspender, liminarmente, a eficácia de leis ou atos normativos, com eficácia geral, no contexto da CF/88, concorreram para infirmar a crença na própria justificativa do instituto da suspensão da execução do ato pelo Senado, inspirado numa concepção de separação de poderes que hoje estaria ultrapassada. Ressaltou, ademais, que ao alargar, de forma significativa, o rol de entes e órgãos legitimados a provocar o STF, no processo de controle abstrato de normas, o constituinte restringiu a amplitude do controle difuso de constitucionalidade.Rcl 4335/AC, rel. Min. Gilmar Mendes, 1º.2.2007. (Rcl4335) Reclamação: Cabimento e Senado Federal no Controle da Constitucionalidade – 4 Considerou o relator que, em razão disso, bem como da multiplicação de decisões dotadas de eficácia geral e do advento da Lei 9.882/99, alterouse de forma radical a concepção que dominava sobre a divisão de poderes, tornando comum no sistema a decisão com eficácia geral, que era excepcional sob a EC 16/65 e a CF 67/69. Salientou serem inevitáveis, portanto, as reinterpretações dos institutos vinculados ao controle incidental de inconstitucionalidade, notadamente o da exigência da maioria absoluta para declaração de inconstitucionalidade e o da suspensão de execução da lei pelo Senado Federal. Reputou ser legítimo entender que, atualmente, a fórmula relativa à suspensão de execução da lei pelo Senado há de ter simples efeito de publicidade, ou seja, se o STF, em sede de controle incidental, declarar, definitivamente, que a lei é inconstitucional, essa decisão terá efeitos gerais, fazendose a comunicação àquela Casa legislativa para que publique a decisão no Diário do Congresso. Concluiu, assim, que as decisões proferidas pelo juízo reclamado desrespeitaram a eficácia erga omnes que deve ser atribuída à decisão do STF no HC 82959/SP. Após, pediu vista o Min. Eros Grau.Rcl 4335/AC, rel. Min. Gilmar Mendes, 1º.2.2007. (Rcl4335) Desse modo, entendo que o art.52, X, da Constituição Federal, sofreu uma mutação constitucional, ao passo que a norma sofreu alteração pelo avanço da sociedade e pela mudança de interpretação do texto constitucional sem ter havido expressa modificação nesse texto, motivo pelo qual não se faz necessário ser expedida resolução do Senado Federal que suspenda a eficácia de norma (alínea f do parágrafo 9 do art. 28 da Lei n 8.212/91), considerando que a lei admite a exclusão apenas se a verba for paga de acordo com a legislação regente, que exige ser o pagamento em vale. Sendo assim, o pagamento de valetransporte em pecúnia não altera o caráter não salarial da verba, de modo que a incidência sobre essa parcela constitui afronta total à Constituição Federal, devendo, portanto, ser afastada a cobrança do levantamento Vale Transporte. Ademais, vale destacar que a decisão do Supremo Tribunal Federal foi utilizada na presente decisão também em respeito ao Regimento Interno do CARF, que, no seu art.62, parágrafo único, determina as hipóteses que uma norma pode ser afastada sob o argumento de inconstitucionalidade, estando dentre elas a obrigatoriedade da decisão ser proferida pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, o que foi verificado no caso em tela. Fl. 1050DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA Processo nº 10166.721621/200938 Acórdão n.º 2403000.610 S2C4T3 Fl. 1.047 9 II – DO PAGAMENTO RELATIVO À BOLSA DE ESTUDOS: A recorrente afirma ainda que as verbas pagas a esse título visam incentivar/capacitar a formação profissional de seus empregados, não retribuindo o trabalho efetuado pelos funcionários, trazendo para isso julgados do Superior Tribunal de Justiça, que decidiram pelo afastamento da incidência tributária sobre os valores referentes à bolsa de estudo, independentemente desta ser voltada para cursos de graduação de nível superior ou curso de línguas estrangeiras. Sobre o pagamento de cursos de ensino pagos pelo empregador, entendo que os cursos de graduação e pósgraduação bem aqueles de língua estrangeira visam à qualificação e capacitação dos profissionais, de modo que deverão ser afastados da incidência da contribuição previdenciária. A Lei 8.212/91 em seu art.28, §9°, alínea t determina que o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica (ensino fundamental e médio) e a cursos de capacitação/formação profissional vinculados às atividades desenvolvidas na empresa pelos empregados sejam excluídos da base de cálculo da contribuição previdenciária, in verbis: Art. 28. Entendese por saláriodecontribuição: (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) t) o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; Além disso, há que se destacar o papel social da empresa em proporcionar a capacitação profissional ao seu quadro, colaborando com a propagação desse direito fundamental garantido constitucionalmente, in verbis: Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Diante do exposto, entendo que tal parcela não possa sofrer a incidência tributária da exação em comento. III – DA GLOSA DO SALÁRIO FAMÍLIA: Sobre tal levantamento, a fiscalização entendeu que houve pagamento do salário família em valores maiores que os devidos, tendo sido por esse motivo glosados pela fiscalização e incluídos na base de cálculo da contribuição previdenciária, tendo em vista que a quantia ultrapassada revestese de natureza remuneratória. Fl. 1051DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA 10 A recorrente afirma que a cobrança relativa a esse valor é indevida, tendo em vista que foram somadas ao salário parcelas indevidas , consideradas pela empresa como não salariais. Sendo assim, considerando que não deve haver incidência tributária sobre as parcelas pagas a título de bolsa de estudo e valetransporte, não há o que se falar em aumento da base de cálculo, motivo pelo qual os valores glosados são indevidos. IV – DAS INFORMAÇÕES INEXATAS DECLARADAS EM GFIP: CÓDIGO FPAS E CÓDIGO TERCEIROS: A fiscalização também entendeu que a recorrente estava declarando suas informações via GFIP sob o código errado, tendo em vista que o código FPAS correto deveria ser o FPAS 523. Entendo que a cobrança deva ser mantida com relação aos códigos acima citados, considerando que o código FPAS 523 está de acordo com a atividade exercida pela recorrente, sendo ainda mais benéfico ao contribuinte, tendo em vista que se o código correto fosse o FPAS 507 o contribuinte deveria recolher, além do INCRA e do salárioeducação, as contribuições para terceiros (SEBRAE e SESCOOP). Com relação ao código terceiros, a auditoria entende que o correto para a recorrente utilizar é o código 0000, tendo em vista que o código 0003, informado pela recorrente em GFIP, estava errado. Entendo que o código correto seja o 0000, ressaltando a obrigatoriedade da recorrente recolher contribuição destinada ao INCRA e referente ao salárioeducação, tendo em vista que não se admite a ausência de recolhimento dessas exações pelo simples fato de entender que são indevidas com base em decisões judiciais que não vinculam os entendimentos proferidos pelos contenciosos. Todavia, a informação pelo código 0000, conforme já explicado em 1 instância, não alterará em nada a validade da cobrança dos presentes autos, considerando que a rubrica terceiros é objeto de discussão em outro Auto de Infração (AIOP 37.225.4314) e em outro processo. CONCLUSÃO: Voto pelo CONHECIMENTO do recurso voluntário para DARLHE PROVIMENTO. É como voto. Cid Marconi Gurgel de Souza. Fl. 1052DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA Processo nº 10166.721621/200938 Acórdão n.º 2403000.610 S2C4T3 Fl. 1.048 11 Fl. 1053DF CARF MF Emitido em 16/09/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/09/2011 por ANTONIA IRISMAR OLIVEIRA GUIMA, Assinado digitalmente em 09/09/2011 por CID MARCONI GURGEL DE SOUZA, Assinado digitalmente em 12/09/2011 por IVACIR JULIO DE SOUZA
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Numero do processo: 16832.001062/2009-22
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2012
Numero da decisão: 1402-000.146
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, resolvem sobrestar o julgamento nos termos do § 1º, do art. 62-A, do Anexo II, da Portaria MF nº 256/2009; que aprovou o Regimento Interno do CARF, até pronunciamento definitivo do STF sobre o tema.
Nome do relator: ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, resolvem sobrestar o julgamento nos termos do § 1º, do art. 62A, do Anexo II, da Portaria MF nº 256/2009; que aprovou o Regimento Interno do CARF, até pronunciamento definitivo do STF sobre o tema. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto – Presidente (assinado digitalmente) Antônio José Praga de Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio José Praga de Souza, Carlos Pelá, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira e Leonardo de Andrade Couto. Fl. 1032DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16832.001062/200922 Resolução nº 1402000.146 S1C4T2 Fl. 1.033 2 RELATORIO PRINCIPAL DO BRASIL COMERCIAL ATACADISTA LTDA recorre a este Conselho contra a decisão de primeira instância administrativa, que julgou procedente a exigência, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235 de 1972 (PAF). Transcrevo e adoto o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo administrativo fiscal de autos de infração lavrados contra o interessado em epígrafe em 30/11/2009. Foi constituído crédito tributário de Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ (fls. 356/359), no valor de R$ 203.183,56, mais a multa de ofício de 75% e os juros de mora; de Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS (fls. 364/367), no valor de R$ 61.528,86, mais a multa de ofício de 75% e os juros de mora; de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS (fls. 370/372), no valor de R$ 283.979,49, mais a multa de ofício de 75% e os juros de mora; e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL (fls. 375/378), no valor de R$ 102.232,60, mais a multa de ofício de 75% e os juros de mora, em decorrência de ação fiscal levada a efeito. Consta, no “Demonstrativo Consolidado do Crédito Tributário do Processo” (fl. 01), que os autos de infração lavrados, depois de formalizados, totalizaram o montante a pagar de R$ 1.370.757,37, já incluídos os valores devidos a título de tributo, de multa de ofício de 75% e de juros de mora, calculados até 30/10/2009. Os fatos geradores imbricados com o crédito tributário ora em análise ocorreram no anocalendário de 2006 (Lucro Arbitrado). A autoridade administrativa, além de relacionar a infração apurada no corpo dos autos de infração, pormenorizoua no Termo de Constatação Fiscal acostado aos autos (vide fls. 353/354), no qual relata o resultado da auditoria fiscal. Quanto aos autos de infração de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, afirma que o interessado, embora devidamente intimado, não comprovou por meio de documentos hábeis e idôneos a origem dos depósitos bancários listados, conforme termo de fls. 329/350. Aponta, no enquadramento legal, o art. 42 da Lei nº 9.430/1996. Afirma a fiscalização que o arbitramento do lucro se faz tendo em vista que o contribuinte notificado a apresentar os livros e documentos da sua escrituração, de acordo com o termo de início de fiscalização, deixou de apresentálos. O enquadramento legal é o art. 530, inciso III, do RIR/1999. O interessado, cientificado dos autos de infração em 21/12/2009 (vide fls. 432 e 447), apresentou sua peça de impugnação em 01/02/2010, nos termos da petição acostada aos autos do processo às fls. 448/451, por intermédio da qual alega o que segue abaixo: Fl. 1033DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16832.001062/200922 Resolução nº 1402000.146 S1C4T2 Fl. 1.034 3 Afirma que, em 19 de janeiro de 2010, recebeu ligação telefônica da autoridade administrativa signatária dos autos de infração informando sobre a existência da autuação, conquanto não tenha sido cientificada do valor, da data, do periodo de apuração, do tributo ou de qualquer outro elemento. Informa que imediatamente após a mencionada ligação telefônica tentou localizar, sem sucesso, o processo administrativo que trata da autuação. Aduz que depois de novos contatos telefônicos com a AuditoraFiscal da RFB, foi combinado que a ciência dos autos de infração ocorreria no dia 26 de janeiro de 2010, na sede da RFB. O evento foi transferido para o dia 27 de janeiro de 2010, posto que a Auditora Fiscal não se localizava na sede da RFB em função da realização de diligência externa. No dia 27 de janeiro de 2010, a AuditoraFiscal da RFB alegou que não daria ciência da autuação ao interessado, posto que entendeu que havia deficiência na procuração apresentada. A autoridade administrativa frisou que o “Sr. Luis Augusto Paulino (subscritor da procuração) não consta como sócio das empresas (Principal, Revere e Sea Venture)”. Nada obstante, aduz o interessado que o Sr. Luis Augusto Paulino possui poderes para representála, conforme cláusula 8ª do contrato social, não existindo qualquer irregularidade na referida procuração. Mesmo após o esclarecimento deste fato, a AuditoraFiscal não lhe permitiu ter acesso aos autos do processo, alegando que o prazo para defesa administrativa já havia transcorrido, considerando que a empresa foi citada por edital em 04 de dezembro de 2009. Observa que carece de provas a afirmação da fiscalização de que não foi possível localizar a empresa na Rua Visconde de Inhaúma, nº 50, Centro (RJ), o que justificaria a citação por edital. Com efeito, assevera que recebeu várias intimações da RFB neste endereço, no mesmo período, conforme processos que lista. Aduz que a citação por edital é medida excepcional, que somente pode ser realizada nas hipóteses em que restarem improfícuos os demais meios de intimação, conforme art. 23 do Decreto 70.235/1972. Conclui dizendo que a atitude da fiscalização implica em violação aos princípios constitucionais da ampla defesa e do devido processo legal, já que sem ter ciência ou vista dos autos não tem condições de se defender. Requer vista do processo, ciência da autuação e abertura do prazo de 30 dias para apresentação de impugnação. Em 01/02/2010, a fiscalização exarou o despacho de fls. 464/465, por meio do qual afirma que a ciência da autuação ocorreu em 21/12/2009, conforme Edital DEFIS/RJO nº 348, de 2 de dezembro de 2009. Diz ainda que o “site” da RFB informa a localização de todos os processos, sendo que o processo em epígrafe poderia ter sido encontrado pelo interessado, Fl. 1034DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16832.001062/200922 Resolução nº 1402000.146 S1C4T2 Fl. 1.035 4 de acordo com a consulta de fl. 463. Para arrematar, observa que o interessado recebeu a cópia do processo em 29 de janeiro de 2010, conforme documentos de fls. 435/445. Em 10/02/2010, o interessado recebeu cópia integral do processo (fl. 466). O interessado apresentou nova peça de impugnação em 26/02/2010, nos termos da petição acostada aos autos às fls. 468/494, por meio da qual alega o que segue: Aduz que a citação por edital é medida excepcional, que somente pode ser realizada nas hipóteses em que restarem improfícuos os demais meios de intimação, conforme art. 23 do Decreto 70.235/1972. Cita doutrina e jurisprudência sobre o assunto. Aduz que não existe sequer uma correspondência enviado ao seu endereço e que carece de provas a afirmação da autoridade fiscal de que não foi possível localizar a empresa na Rua Visconde de Inhaúma, nº 50, Centro (RJ), o que justificaria a citação por edital. Com efeito, assevera que recebeu várias intimações da RFB neste endereço, no mesmo período, conforme processos que faz referência. Portanto, a seu ver, houve cerceamento do direito de defesa. Em função do exposto acima, requer a declaração de nulidade dos autos de infração. Pugna ser ilegítimo o lançamento de imposto de renda arbitrado com base apenas em extratos ou depósitos bancários, pois a fiscalização deveria ter trazido aos autos do processo outros indícios, tais como a demonstração da natureza tributável do rendimento, que a pretensa renda não foi tributada, assim como não se trata de recurso do próprio contribuinte. Cita a Súmula 182 do Tribunal Federal de Recursos, doutrina e jurisprudência sobre o assunto. Alega que a fiscalização considerou como receita omitida valores relativos a simples transferências entre contas bancárias do próprio impugnante, de acordo com as planilhas de fls. 482/484. Frisa que a fiscalização considerou como receita omitida valores referentes a empréstimo contraído, no valor de R$ 1.500.000,00, com a empresa coligada Plena Comercial Atacadista, conforme planilhas de fls. 485/486; bem como a empréstimo contraído com o Banco Cruzeiro do Sul, a título de capital de giro, no valor de R$ 498.380,50, conforme planilha de fl. 487. Outrossim, devem ser desconsiderados os lançamentos a débitos, e o estorno de operações, frisados na planilha de fl. 487. Por fim, diz que vários ingressos financeiros referemse a vendas efetuadas no anocalendário anterior. Portanto, como era optante pelo lucro real, deveria ter oferecido à tributação essa receita no ano anterior. Garante que não tem como apresentar elementos de prova em função da “Operação Dilúvio” da Polícia Federal. Fl. 1035DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16832.001062/200922 Resolução nº 1402000.146 S1C4T2 Fl. 1.036 5 Argumenta ainda que o sigilo bancário foi violado sem respaldo em autorização judicial, o que gera a nulidade da autuação. Questiona a aplicação da taxa Selic para fins de cálculo dos juros moratórios e o efeito confiscatório da multa aplicada. A decisão recorrida está assim ementada: NULIDADE. AUTO DE INFRAÇÃO. Descabe a alegação de nulidade quando a autoridade fiscal observa os procedimentos fiscais previstos na legislação tributária. SIGILO BANCÁRIO. ACESSO ÀS INFORMAÇÕES PELO FISCO. LEGITIMIDADE. Os agentes do fisco podem ter acesso a informações sobre a movimentação financeira dos contribuintes sem que isso se constitua violação ao sigilo bancário, já que se trata de exceção expressamente prevista em lei. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. A Lei nº 9.430/1996, no seu art. 42, estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento de ofício do imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. Não podem ser considerados os créditos decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa jurídica, empréstimos bancários e outros valores que não correspondam a ingressos bancários. LUCRO ARBITRADO. Correto o arbitramento do lucro quando a pessoa jurídica não apresenta os livros e documentos, apesar de devidamente intimada, conforme previsto no artigo 530 do RIR/1999. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE . A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de dispositivos normativos. A legislação regularmente editada goza de presunção de constitucionalidade e de legalidade. MULTA DE OFÍCIO. Presentes os pressupostos estabelecidos em lei para aplicação de multa de ofício, a autoridade tem não só o poder, mas também o dever, de aplicála no percentual previsto na legislação tributária. TAXA SELIC. JUROS DE MORA. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplicase à exigência reflexa o mesmo tratamento dado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e de efeito que os vincula. ERRO NA DETERMINAÇÃO DO FATO GERADOR E BASE DE CÁLCULO. VÍCIO MATERIAL. LANÇAMENTO IMPROCEDENTE. O lançamento de ofício que não observou o correto período de apuração, transformando de mensal para trimestral o período de apuração, contém vício de ordem material, portanto, deve ser declarado improcedente. Cientificada da aludida decisão, a contribuinte apresentou recurso voluntário, no qual contesta as conclusões do acórdão recorrido, repisa as alegações da peça impugnatória e, ao final, requer o provimento. É o relatório. Fl. 1036DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16832.001062/200922 Resolução nº 1402000.146 S1C4T2 Fl. 1.037 6 VOTO Conselheiro Antonio Jose Praga de Souza, Relator. O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais e regimentais para sua admissibilidade, dele conheço. Apesar de ter pautado o presente processo para julgamento, ao elaborar o voto constatei que a contribuinte, no item ii.4 de seu recurso, à fl. 1020, questiona a legalidade da obtenção dos extratos bancários da empresa sem autorização judicial. Em conformidade com o artigo 62A, § 1º, do /regimento Interno do CARF, “Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543B.” Assim, em face da repercussão geral atribuída ao Recurso Extraordinário nº 601314, pelo Supremo Tribunal Federal, e do artigo 62A, § 1º, do Regimento Interno do CARF, propugno pelo sobrestamento do julgamento do presente processo para aguardar a decisão do Supremo Tribunal Federal, no recurso acima referido. (assinado digitalmente) Antônio José Praga de Souza Fl. 1037DF CARF MF Impresso em 19/09/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 23/11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 23/ 11/2012 por ANTONIO JOSE PRAGA DE SOUZA, Assinado digitalmente em 19/12/2012 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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Numero do processo: 13894.001678/2003-95
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 04 00:00:00 UTC 2010
Numero da decisão: 1801-000.037
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
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Numero do processo: 13708.002255/2004-23
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 18 00:00:00 UTC 2010
Numero da decisão: 1801-000.027
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, converter o
julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencidas as Conselheiras Maria de Lourdes Ramirez e Ana de Barros Fernandes.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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Recorrida DRJ-RIO DE JANEIRO/RJ Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. Vencidas as Conselheiras Maria de Lourdes Ramirez e Ana de Barros Fernandes, ANA DE BARROS FERNANDES - Presidente CARMEN FERREIRA SARAIVA - Relatora EDITADO EM: 12 NOV 2010 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Maria de Lourdes Ramirez, André Almeida Blanco, Rogério Garcia Peres e Ana de Barros Fernandes. Relatório A Recorrente optante pelo Sistema Integrado de Pagamentos de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte — Simples foi excluída de oficio pelo Ato Declaratório Executivo DERAT/RJO n° 536.091, de 02 de agosto de 2004, fl, 03, com efeitos a partir de 01/01/2002, com base nos fundamentos de fato e de direito indicados: Data da opção pelo Simples: 09/01/1998 Situação excludente: (evento 311). Descrição: sócio ou titular participa de outra empresa com mais de 10% e a receita bruta global no ano-calendário de 2000 ultrapassou o limite legal. CPF 105.297.727-87 CNP.133,681.750/0001-25 Data da ocorrência,. 31/12/2000 Fundamentação legal: Lei n°9.317, de 05/12/1996: art, 9 0, DC; art. 12, art. 14, I; art 15, Ii. Medida Provisória n" 2.158-34 • de 27/07/2001: art. 73. Instrução Normativa SRF n° 35.5, de 29/08/2003: art. 20, IX; art. 21; art. 23, I; art.. 24, II, c/c parágrafo único. A empresa manifestou-se contrariamente ao procedimento, apresentando a Solicitação de Revisão da Exclusão do Simples SRS, fl. 01, com pedido de revisão do ato em rito sumário, argumentando, em síntese, que providenciou a alteração contratual. Em conformidade com o Despacho Decisório, fl. 02, as informações relativas à opção pelo Simples foram analisadas das quais se pelo indeferimento do pedido. Restou esclarecido que o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes, CPF 105.297.727-87, participa com mais de dez por cento do capital da pessoa jurídica Abrasivos Amarante Ltda, CNPJ 33,681.750/0001-25, e a receita bruta global no ano-calendário de 2000 ultrapassou o limite legal, fls. 06/20. Cientificada em 08/06/2007, 11. 28, ela apresentou a manifestação de inconformidade em 03/07/2007, fl. 31. Afirma - Que em data de 11 11,200,5, .foi decretada sua exclusão do SIMPLES sob a alegação de que um de seus sócios, FERNANDO AURELIO PINTO GUEDES, participava do quadro societá~e gutra . empresa; - Ocorre que, em 14,10,2004, cientes da situação, foi arquivada na JUCERIA, alteração contratual configurando a salda do referido sócio, conforme/az prova cópia em anexo; - Informa também, que a receita bruta anual, desde o exercido de 2005, encontra-se dentro dos padrões estabelecidos pela legislação vigente. Está registrado como resultado do Acórdão da 3 TUR1VIA/DRJ/RJO 1/RJ tf 12- 15.216, de 30/07/2007, fls. 38/40: "Solicitação Deferida em Parte". Restou esclarecido que Porém, através da Alteração Contratual de fls. 32/35, juntada em sua defesa, o interessado comprova que o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes se retirou da sociedade em outubro de 2004. Portanto, desde outubro de 2004, deixou de existir a situação excludente apontada no Ato Declaratório, A opção de tributação, no 2 Processo n° 13708.002255/2004-23 81-TE01 Resolução n 1801-00.027 Fl. 46 entanto, deve prevalecer para todo o ano-calendário. Assim, o interessado só pode retomar ao Simples após 01/01/200.5. Conforme consulta à fi„ .37, verifica-se que o interessado, nos anos calendários de 2005 e 2006, entregou Declarações pelo Simples, que .foram liberadas. Dessa forma, os efeitos do Ato Declaratório de Exclusão em exame deveinficar limitados aos anos calendários de 2002, 2003 e 2004. Notificada em 10/09/2007, fl. 40, a Recorrente apresentou o recurso voluntário, fis. 41/42, em 02/10/2007, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Reitera seus argumentos apresentados junto à primeira instância de julgamento, em especial que - Que as empresas das quais o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes pertencia, Abrasivos Amarante Lida e Avelino Pinto Tapetes Lida, apresentaram os seguintes faturanzentos anuais: Ano Calendário de 2002 Abrasivos Amarante Lida R$ 1,044.683,85 Avelino Pinto Tapetes Ltda R$ 11 7.585,1 7 Total R$ 1,1 62269,02 Ano Calendário de 2003 Abrasivos Amarante Lida R$ 922.773,52 Avelino Pinto Tapetes Lida R$ 111,123,31 Total R$ 1 ,033.896,83 Ano Calendário de 2004 Abrasivos Anzarante Lida R$ 980.722,30 Avelino Pinto Tapetes Lida R$ 143.684,85 Total R$ 1.124,407,1.5 - Como se verifica, em nenhum momento o faturamento somado das empresa ultrapassou ao limite estabelecido pela legislação pertinente, estando, portanto, dentro dos padrões legais para enquadramento no SIMPLES FEDERAL,. Por todo o exposto, espera que essa Colenda Turma acolha as pretensões da Requerente, mantendo-a como pertencente ao regime de tributação SIMPLES FEDERAL, nos exercícios de 2002 a 2004, por ser medida da mais lídima JUSTIÇA.. Espera Deferimento É o Relatório. 3 VOTO Conselheira CARMEN FERREIRA SARAIVA O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência. Assim, dele tomo conhecimento. Compulsando os presentes autos, constato que não se encontram em condições de julgamento, pelas razões que passo a expor. É incontroverso o fato de que o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes, CPF 105.297.727-87, participa com mais de dez por cento do capital da pessoa jurídica Abrasivos Amarante Ltda, CNPJ 31681,750/0001-25, fls. 06120, Também não há litígio no fato de que o referido sócio se retirou da pessoa jurídica Avelino Pinto Tapetes, CNPJ 02.452.935/0001-34 em outubro de 2004, fls. 32/35. A Recorrente discorda do procedimento de ofício em relação aos anos- calendário de 2002 a 2004. O tratamento diferenciado, simplificado e favorecido aplicável às microempresas e às empresas de pequeno porte relativo aos impostos e às contribuições estabelecido em cumprimento ao que determina o disposto no art. 179 da Constituição Federal de 1988 pode ser usufruído desde que as condições legais sejam preenchidas. A Lei n° 9317, de 1996, fixa: Art. 90 Não poderá optar pelo SIMPLES, a pessoa jurídica: IX - cujo titular ou sócio participe com mais de 10% (dez por cento) do capital de outra empresa, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso lido art. 20; Analisando as condições excludentes legais e cumulativas restou esclarecido que: - o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes, CPF 105.297327-87, participa com mais de dez por cento do capital da pessoa jurídica Abrasivos Amarante Ltda, CNPJ 33.681,750/0001-25, fls. 06/09; - a receita bruta global de ambas as pessoas jurídicas ultrapassou no ano- calendário de 2000 o limite legal de R$ 1.200.000,00 (um milhão e duzentos mil reais), fls, 10/18; - o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes, CPF 105.297,727-87, se retirou da pessoa jurídica Avelino Pinto Tapetes, CNPJ 02.452.935/0001-34 em outubro de 2004, fls. 32/35. A descrição da razão de fato indicada no ato de exclusão está demonstrada de forma inequívoca pelo implemento concomitante das condições legais de excludentes a partir do ano-calendário de 2005. Em sentido diverso, a Recorrente afirma: 4 Processo n° 13708002255/2004-23 S1-TE01 Resolução n ° 1801-00.027 Fl 47 - Que as empresas das quais o sócio Fernando Aurélio Pinto Guedes pertencia, Abrasivos Anzarante Lida e Avelino Pinto Tapetes Lida, apresentaram os seguintes faturamentos anuais: Ano Calendário de 2002 Abrasivos Amarante Lida R$ 1,044.683,85 Avelino Pinto Tapetes Lida R$ 11 7.585,17 Total R$ .1 162,269,02 Ano Calendário de 2003 Abrasivos Amai-ante Ltda R$ 922.77.3,52 Avelino Pinto Tapetes Ltda R$ 1 1L123,31 Total R$ 1.033.896,83 Ano Calendário de 2004 Abrasivos Anzarante Lula R$ 980.722,30 Avelino Pinto Tapetes Lida R$ 143,684,85 Total R$ 1 124.407,15 - Como se verifica, em nenhum momento o faturamento somado das empresa ultrapassou ao limite estabelecido pela legislação pertinente, estando, portanto, dentro dos padrões legais para enquadramento no SIMPLES FEDERAL,' Tendo em vista a controvérsia entre a alegação do Erário e o argumento da Recorrente, a realização da diligência se torna imprescindível para esclarecer a situação fálica com o escopo de privilegiar o princípio da verdade material. Em face da questão sobre a qual divergem as partes e com a observância do disposto no art. 18 do Decreto n° 70.235, de 1972, voto pela conversão do julgamento em diligência para que, mediante parecer conclusivo, a Unidade da Receita Federal do Brasil que jurisdicione a Recorrente caracterize se a receita bruta global de ambas as pessoas jurídicas ultrapassou o limite legal no período de 01/01/2002 a 31/12/2004. A Recorrente deve ser cientificada dos procedimentos referentes à diligência efetuada e que se abra prazo para que se manifeste sobre seu conteúdo e sua conclusão, com o objetivo de lhe assegurar o contraditório e a ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes (inciso L,V do art. 50 da Constituição da República). CARMEN FERREIRA SARAIVA - Relatora 5
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