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Numero do processo: 16327.720954/2014-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
ÁGIO. CONTAGEM DO PRAZO DECADENCIAL
O prazo decadencial para a lavratura de auto de infração para a glosa de despesas de amortização de ágio tem início com a efetiva dedução de tais despesas pelo contribuinte. Não ocorrência de decadência no caso concreto.
PRELIMINAR DE NULIDADE POR VÍCIO DE FUNDAMENTAÇÃO. INOCORRÊNCIA
A decisão recorrida encontra-se devidamente fundamentada, não havendo afronta ao princípio do contraditório, ampla defesa e devido processo legal, como suscitado pelo recorrente.
AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DETERMINAÇÃO.
Na aquisição de investimento em empresa com passivo a descoberto, o ágio limita-se ao valor pago pela investidora.
DEDUÇÃO DAS DESPESAS DE ÁGIO DE PERÍODOS ANTERIORES. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO.
A fase litigiosa se instaura com a impugnação. Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante.
Preclusão nada mais é do que a perda do direito de agir nos autos em face da perda da oportunidade, conferida por certo prazo. Tendo sido acatada a preclusão não há mais o que ser apreciado acerca do direito a dedução do ágio não deduzido em anos anteriores por não tratar-se de matéria de ordem pública.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC conforme Súmula CARF nº 4.
CSLL. DECORRÊNCIA.
O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplica-se, mutatis mutandis, à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova
Numero da decisão: 1302-002.059
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em REJEITAR as preliminares de nulidade da decisão de primeiro grau e de decadência e, no mérito, em NEGAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente
(assinado digitalmente)
MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA - Relator
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 ÁGIO. CONTAGEM DO PRAZO DECADENCIAL O prazo decadencial para a lavratura de auto de infração para a glosa de despesas de amortização de ágio tem início com a efetiva dedução de tais despesas pelo contribuinte. Não ocorrência de decadência no caso concreto. PRELIMINAR DE NULIDADE POR VÍCIO DE FUNDAMENTAÇÃO. INOCORRÊNCIA A decisão recorrida encontrase devidamente fundamentada, não havendo afronta ao princípio do contraditório, ampla defesa e devido processo legal, como suscitado pelo recorrente. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. DETERMINAÇÃO. Na aquisição de investimento em empresa com passivo a descoberto, o ágio limitase ao valor pago pela investidora. DEDUÇÃO DAS DESPESAS DE ÁGIO DE PERÍODOS ANTERIORES. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. A fase litigiosa se instaura com a impugnação. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Preclusão nada mais é do que a perda do direito de agir nos autos em face da perda da oportunidade, conferida por certo prazo. Tendo sido acatada a preclusão não há mais o que ser apreciado acerca do direito a dedução do ágio não deduzido em anos anteriores por não tratarse de matéria de ordem pública. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 09 54 /2 01 4- 01 Fl. 895DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 896 2 submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC conforme Súmula CARF nº 4. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplicase, mutatis mutandis, à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em REJEITAR as preliminares de nulidade da decisão de primeiro grau e de decadência e, no mérito, em NEGAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Presidente (assinado digitalmente) MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA Relator (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ana de Barros Fernandes Wipprich, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório Por bem retratar os históricos da infração, e do processo administrativo, adoto relatório da DRJSPO a seguir transcrito, apenas complementandoo ao final: “Tratase de impugnação interposta pelo interessado em face de autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL lavrados em decorrência de ação fiscal. A autuação se refere a despesa de amortização de ágio escriturada no anocalendário de 2009 e considerada indedutível pela fiscalização. DAS CONSTATAÇÕES DA FISCALIZAÇÃO Conforme relatado no Termo de Verificação, às fls. 204/215, na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL relativos ao anocalendário de 2009, o contribuinte amortizou e deduziu ágio, no valor de R$ 19.698.876,51, oriundo da incorporação da Serena Holdings Ltda. (CNPJ 05.892.786/000112). A autoridade fiscal intimou o interessado a esclarecer acerca da origem e dos fundamentos do ágio amortizado e constatou o que se segue. Em 10/02/2004, o Banco Bradesco S/A, CNPJ 60.746.948/000112, através de leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, adquiriu o controle do Fl. 896DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 897 3 Banco do Estado do Maranhão – BEM, CNPJ 06.271.464/000119, com a compra de 324.181.808 ações ordinárias pelo valor de R$ 78.000.000,00, pagos da seguinte forma: Dinheiro R$ 7.801.181,44 Títulos públicos federais R$ 70.198.818,56_ Total R$ 78.000.000,00 Considerandose que os títulos públicos federais acima citados foram adquiridos pelo Banco Bradesco com deságio de R$ 27.732.502,97, o custo de aquisição do Banco BEM resultou em: Valor de aquisição R$ 78.000.000,00 () Deságio títulos públicos R$ 27.732.502,97_ Custo de investimento R$ 50.267.497,03 A fiscalização informa ainda que as ações dos acionistas minoritários foram adquiridas pelo Banco Bradesco em 31/03/2004 e 31/07/2004. Com essas operações, o Banco Bradesco se tornou o único acionista do Banco BEM, tendo apurado os valores de ágio abaixo discriminados, que totalizaram R$ 107.839.919,67. Em 27/06/2003, havia sido constituída a empresa Serena Holdings Ltda., com capital social de R$ 1.000,00, dividido em 1.000 cotas de R$ 1,00 cada, distribuídas entre dois acionistas: União de Comércio e Participações Ltda. (empresa controlada pelo Banco Bradesco), com 999 cotas, e Márcio Cypriano, com 1 cota. Em 29/09/2004, o contrato social da Serena Holdings foi alterado, tendo a sua sócia União de Comércio e Participações Ltda transferido as suas 999 cotas para o Banco Bradesco. Além disso, o capital social da Serena Holdings foi aumentado de R$ 1.000,00 para R$ 213.902.700,00 com a emissão de 213.901.700 cotas, de valor nominal de R$ 1,00, subscritas e integralizadas pelo sócio Banco Bradesco, sendo R$ 90,60 em moeda corrente e R$ 213.901.609,40 mediante a conferência de 360.522.879 ações ordinárias de emissão do Banco BEM. Finalmente, em 31/12/2004, foi deliberada a incorporação da Serena Holdings pelo Banco BEM. Com a sequência de operações societárias acima, que findou com a incorporação da sociedade controladora pela sociedade controlada, o saldo de ágio oriundo da aquisição do Banco BEM, no valor de R$ 98.494.379,46, que anteriormente figurava no ativo do Banco Bradesco, seu adquirente, passou a integrar o ativo do próprio Banco BEM, que posteriormente alterou Fl. 897DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 898 4 sua denominação para Banco Bradesco BBI S/A – sujeito passivo da presente autuação. A partir de 31/12/2004, o próprio Banco BEM (Banco Bradesco BBI) passou a amortizar e deduzir esse saldo de ágio de R$ 98.494.379,46 pelo prazo de 60 meses. No termo de verificação, a fiscalização não questiona as operações societárias realizadas, mas apenas o valor do ágio apurado. Sustenta que não pode existir investimento com saldo credor, de acordo com a Instrução CVM nº 247/96 e o OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007. Argumenta que o valor mínimo de um ativo é zero, sendo indevido o registro de patrimônio líquido negativo relativamente à participação adquirida. Por isso, conclui a fiscalização que seria de R$ 50.267.497,03 (custo de aquisição do investimento) o valor máximo do ágio que poderia ser amortizado no presente caso. Além disso, a fiscalização alega que o Banco BEM não apresentou patrimônio líquido negativo em nenhum momento. Sustenta que o alegado patrimônio líquido negativo no valor de R$ 48.657.685,66 não decorreu de prejuízos passados ou de reconhecimento de perdas em seus ativos, mas de meros ajustes contábeis que não foram contabilizados e não afetaram o patrimônio líquido. Argumenta que, ainda que os ajustes fossem contabilizados, deveriam ser constituídas provisões cujas contrapartidas não teriam efeitos para fins fiscais, a teor do disposto no art. 335 do RIR/99. Sustenta a fiscalização que o balancete referente a 31/01/2004 (antes da aquisição) apresenta patrimônio líquido de R$ 37.947.967,88 e que o balancete relativo a 28/02/2004 (após a aquisição) apresenta patrimônio líquido de R$ 65.424.820,66. Assim, a fiscalização apurou o ágio efetivamente incorrido da seguinte forma: Com base em informação prestada pela própria contribuinte, a fiscalização relata que foi amortizado ágio no valor de R$ 9.345.540,20 em 2004, R$ 19.698.876,24 em 2005 e R$ 19.698.876,24 em 2006. Assim, conclui a fiscalização que não restou saldo a ser amortizado em anos posteriores. Ressalta a autoridade fiscal que a matéria acima já foi objeto de autuação, relativamente à amortização deduzida pelo contribuinte nos anoscalendário de 2007 e 2008, nos autos do processo administrativo nº 16327.720528/201206, tendo sido prolatado o Acórdão nº 1644.954 pela 10º Turma da DRJ São Paulo. Ao apreciar a impugnação apresentada pelo interessado, a DRJ decidiu que, devido à falta de comprovação dos ajustes contábeis, deveria ser adotado o valor do patrimônio líquido constante no balancete levantado em 31/01/2004, no valor de R$ 37.947.967,88, e por conseguinte foram consideradas corretas as glosas das amortizações naqueles anoscalendário. Fl. 898DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 899 5 Conclui a fiscalização, então, ser necessária a constituição do crédito tributário referente ao anocalendário de 2009, por constatada a dedução de amortização indevida de ágio no montante de R$ 19.698.876,51. DOS AUTOS DE INFRAÇÃO Ante as constatações acima descritas, a autoridade fiscal lavrou os seguintes Autos de Infração: 1. Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) – fls. 216/222 – no valor de R$ 10.809.266,02, já incluídos a multa de ofício de 75% e os juros de mora calculados até 10/2014, com a seguinte fundamentação: 2. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) – fls. 223/228 – no valor de R$ 6.485.559,62, igualmente incluindo a multa de ofício e os juros de mora acima citados, assim fundamentado: O crédito tributário constituído perfaz o montante de R$ 17.294.825,64, conforme Demonstrativo Consolidado às fls. 02. O contribuinte foi pessoalmente notificado da autuação em 21/10/2014 (fls. 230 e 240). Fl. 899DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 900 6 DA IMPUGNAÇÃO Irresignado, o interessado apresentou em 19/11/2014 a Impugnação de fls. 245/296, alegando, em síntese: 1) que a forma jurídica adotada para a aquisição do Banco BEM foi a mais direta, correta e adequada para atingir seu objetivo final: a expansão das atividades financeiras no território nacional, com o consequente aproveitamento do ágio decorrente dessa aquisição; 2) tratavase de aquisição de uma empresa de grande porte, com gestão e administração próprias e com diversas questões fiscais e operacionais que teriam que ser resolvidas pelo então adquirente (Banco Bradesco S/A), motivo pelo qual, para o aproveitamento do ágio pago na aquisição, foi realizada a transferência do Banco BEM para a Serena Holdings pelo mesmo valor anteriormente pago pelo Banco Bradesco, líquido das amortizações realizadas até esse momento; 3) é equivocada a conclusão da fiscalização de que o patrimônio líquido do Banco BEM era positivo na data da aquisição pois não foram consideradas todas as contas patrimoniais e de resultado hábeis a traduzir o patrimônio líquido da sociedade conforme a legislação societária; 4) o patrimônio líquido constante do balancete de 31/01/2004, no valor de R$ 37.072.766,89 (cosif 6.0.0.00.002), não contemplava: (i) o valor do aumento de capital realizado pela União em 13/02/2004, no valor de R$ 27.476.852,81 (Cosif 6.1.1.10.002) e (ii) os ajustes contábeis decorrentes de fatos geradores ocorridos até a data da aquisição no montante de R$ 113.207.305,36 (Cosif 7.0.0.00.009 e 8.0.0.00.006); 5) o balancete de verificação de janeiro de 2004 já estava fechado no momento da aquisição das ações do Banco BEM, não comportanto quaisquer alterações, uma vez que o sistema do Banco Central do Brasil não permite a realização de lançamentos retroativos; 6) não obstante a inexistência de registro desses valores no balancete de 31/01/2004, o seu registro no mês de fevereiro de 2004 é suficiente para a sua consideração para fins de apuração da equivalência patrimonial, uma vez que registrados no mês da aquisição e referentes a fatos geradores ocorridos antes dessa data; 7) conforme dispõem os artigos 20 e 21 do Decretolei nº 1.598/77, havia a necessidade de se fazer os ajustes no balancete de verificação a fim de eliminar as diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios contábeis adotados pelo Banco Bradesco (controladora); 8) os ajustes de que trata o citado artigo 21 poderiam ser realizados até de forma extra contábil (o que, de fato, não ocorreu), sendo descabida a alegação da fiscalização de que os ajustes realizados no caso concreto não seriam aceitos por não estarem contabilizados; 9) até a privatização, o Banco BEM era administrado pela União e não estava sujeito ao mesmo rigor contábil aplicado aos bancos privados; quando de sua aquisição, foram identificados diversos lançamentos contábeis que não haviam sido realizados, especialmente referentes a Fl. 900DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 901 7 provisões não efetuadas; assim, para uniformizar os critérios contábeis entre controlada e controladora, foi necessário realizar ajustes no patrimônio líquido do Banco BEM; 10) as instituições financeiras somente apuram balanços em 30/06 e 31/12 de cada ano; excetuadas estas datas, nos demais balancetes de verificação (no caso, referentes a 31/01/2004 e 28/02/2004) não se faz o encerramento das contas de resultado em formação e sua transferência para as contas do patrimônio líquido; para a correta apuração do patrimônio líquido é indispensável que sejam considerados, além dos valores constantes da conta “Patrimônio Líquido” (Cosif 6.0.0.00.002), aqueles presentes nas “Contas de Resultado Credoras” (Cosif 7.0.0.00.009) e nas “Contas de Resultado Devedoras” (Cosif 8.0.0.00.006); 11) assim, se considerados os montantes relativos às despesas e receitas em formação e ainda não transferidos ao patrimônio líquido, bem como o aumento de capital realizado pela União em 13/02/2004, de R$ 27.476.852,81 (Cosif 6.1.1.10.002), temse que o patrimônio líquido a ser considerado para fins de apuração do ágio na aquisição do Banco BEM S/A é negativo, consoante demonstrativo às fls. 267; 12) diversos documentos, conforme análise desenvolvida pela impugnante às fls. 269/274, demonstrariam que os ajustes (relativos a provisões) efetivamente ocorreram e decorrem de uniformização de critérios contábeis, tendo sido inclusive aceitos pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) quando do julgamento parcialmente favorável do recurso voluntário interposto nos autos do processo administrativo 16327.720528/201206, mencionado pelo agente fiscal; 13) é equivocada, ainda, a argumentação do agente fiscal ao se referir à vedação de dedução de provisões na apuração do lucro real (art. 335 do RIR/99), pois o que se está a discutir no presente caso é a apuração do valor do patrimônio líquido e não do lucro real tributado pelo IRPJ, não havendo que se falar em “patrimônio líquido real” ou “patrimônio líquido tributário”; 14) para a apuração da equivalência patrimonial, o valor do patrimônio líquido é apurado em conformidade com as regras societárias correspondentes, devendo ser calculado pela diferença entre a totalidade dos ativos e a totalidade dos passivos, motivo pelo qual somente pode ser quantificado se forem considerados todos os ajustes contabilizados pelo impugnante e informados ao agente fiscal, no montante de R$ 113.207.305,36, o que resulta num patrimônio líquido negativo de R$ 48.657.685,66 (passivo a descoberto); 15) é equivocado, ainda, o entendimento da autoridade fiscal segundo o qual o valor negativo do patrimônio líquido não poderia ser considerado para fins de determinação do valor do ágio na aquisição do investimento; 16) a legislação de regência não traz diferenciação alguma para o tratamento do valor do patrimônio líquido da sociedade adquirida, conforme referido valor seja positivo ou negativo no momento da aquisição; Fl. 901DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 902 8 17) sendo assim, entende que o patrimônio líquido negativo deve ser considerado para fins de cálculo do ágio na aquisição do investimento, visto que o ágio corresponde à diferença entre o custo de aquisição e a equivalência patrimonial, conforme previsto nos artigos 20 e 21 do Decreto lei nº 1.598/77 e no art. 13 da Instrução CVM nº 247/96; no mesmo sentido é a orientação contida no Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações, de Sérgio de Iudícibus e outros; 18) a adoção do valor negativo do patrimônio líquido na composição do ágio é orientada pela própria CVM, no item 21.1.10 do OfícioCircular CVM/SNC/SEP nº 1/2007, citado pela fiscalização, devendo ser cancelados os autos de infração; 19) não existe na legislação atual nenhum tipo de vedação no sentido de que o desdobramento do investimento deva ficar limitado ao valor de custo efetivamente desembolsado, como afirma a autoridade fiscal; 20) além disso, os fatos que deram origem ao ágio não poderiam mais ser questionados pela fiscalização, visto que ocorreram em 2004 e a ciência dos autos de infração ocorreu somente em 21/10/2014, após o decurso do prazo decadencial de cinco anos entre o surgimento do ágio e a ciência da autuação; 21) o Fisco não pode efetuar lançamentos sobre fatos pretéritos já consumados no tempo (fatos ocorridos em 2004 que deram origem ao ágio) para alcançar os efeitos decorrentes desses fatos em períodos subsequentes (amortização do ágio em 2009); 22) inexiste previsão legal, relativa à apuração da base de cálculo da CSLL, para adição do valor correspondente à amortização do ágio na aquisição de investimentos avaliados pelo método da equivalência patrimonial; portanto, o lançamento de CSLL deve ser cancelado; e 23) por fim, é ilegal a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício ora lançada, por ausência de previsão legal.” Após análise da impugnação retro mencionada, a 8ª Turma da DRJ SPO, através do Acórdão nº 1672.489, concordou com a alegação do recorrente de que o patrimônio líquido do Banco BEM na data de sua aquisição, em 13/02/2004, era negativo (passivo a descoberto), no montante de (R$ 48.657.685,66), devendo ser esse o valor a ser utilizado para a escrituração do investimento pelo método da equivalência patrimonial (MEP). No entanto, afirma ser impossível a existência de investimento com saldo credor, uma vez que o valor mínimo do investimento a ser considerado para efeitos de cálculo do custo de aquisição (no caso de patrimônio líquido a descoberto) deveria ser R$ 0,00 (zero), diversamente do procedido pelo recorrente que, no cálculo referido, considerou o valor credor de (R$ 43.771.154,15). Assim, julgou improcedente a impugnação, concordando com a glosa do montante de R$ 19.698.876,51 (fls. 214, 217, 224), amortizado pelo contribuinte no anocalendário de 2009, e mantendo o crédito tributário constituído no Auto de Infração. Fl. 902DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 903 9 Vejamos a ementa do acordão: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. FISCALIZAÇÃO. O sujeito passivo está sujeito à fiscalização de fatos ocorridos em períodos passados quando eles repercutirem em lançamentos contábeis de exercícios futuros, devendo conservar os documentos de sua escrituração, até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. AQUISIÇÃO DE INVESTIMENTO AVALIADO PELA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. PASSIVO A DESCOBERTO. ÁGIO LIMITADO AO VALOR PAGO. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, pelo método da equivalência patrimonial, desdobrar o custo de aquisição em valor de patrimônio líquido na época da aquisição e ágio ou deságio na aquisição. O patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado na data de aquisição ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial. Tratandose de aquisição de empresa com patrimônio líquido negativo, também chamado de passivo a descoberto, o ágio amortizável para fins fiscais limitase ao valor efetivamente pago pela investidora. JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE MULTA DE OFÍCIO. BASE LEGAL. CABIMENTO. A multa de ofício integra a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, o crédito tributário, sendo legítima a incidência dos juros de mora calculados com base na Taxa Selic. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Anocalendário: 2009 CSLL. ADIÇÃO DE DESPESAS DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. EXISTÊNCIA DE PREVISÃO NORMATIVA. A adição, à base de cálculo da CSLL, de despesas com amortização de ágio deduzidas indevidamente pela contribuinte encontra amparo nas normas que regem a exigência da referida contribuição. Regularmente notificada, a recorrente interpôs Recurso Voluntário alegando, em síntese: (i) Nulidade da decisão recorrida por vício na fundamentação da preliminar de decadência; (ii) Legitimidade da amortização do ágio apurado na aquisição do Banco BEM S/A; (iii) Demonstração do patrimônio líquido negativo no momento da aquisição das ações do Banco BEM S/A; Fl. 903DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 904 10 (iv) Da consideração do valor do Patrimônio Líquido Negativo (Passivo a Descoberto) para a apuração do Ágio a ser amortizado; (v) Ad argumentandum – Da necessidade de se deduzir as parcelas não amortizadas em anos anteriores; (vi) Da preclusão da possibilidade do Fisco questionar a origem do ágio na aquisição da recorrente; (vii) Ad argumentandum – Da inexistência de previsão legal para Adição, à base de cálculo da CSLL, da despesa com amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização; (viii) Da impossibilidade de exigência da multa; (ix) Da ilegalidade de cobrança de juros sobre a multa. É o relatório. Voto Conselheiro MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA. Conforme Despacho de fl. 893, o contribuinte foi cientificado do Acórdão 1672.489 da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em 19/05/2016, conforme aviso de recebimento dos correios AR, em fl. 760 deste processo – e apresentou Recurso Voluntário em 17/06/2016, conforme fl. 762. Portanto, configurada a tempestividade do Recurso, dele conheço. DAS PRELIMINARES Da Decadência Alega o Recorrente que, muito embora o ágio tenha sido amortizado no anobase de 2009, o fato contábilsocietário, que deu origem ao referido ágio, ocorreu no anobase de 2004. Assim, em 2014 (mais precisamente no dia 21/10/2014, quando ocorreu a ciência dos Autos de Infração em questão), não se poderia questionar a legalidade dos atos que originaram o direito ao aproveitamento do ágio, ocorridos em 2004, eis que já transcorrido o prazo decadencial de cinco anos. A referida preliminar de decadência não merece provimento. Isto porque, para a constituição de créditos de IRPJ e CSLL, o CTN prevê a modalidade de lançamento por homologação, no qual a atividade administrativa limitarse Fl. 904DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 905 11 á a verificação da atividade do contribuinte, ou seja, compor a base de cálculo, aplicar a alíquota e efetuar o pagamento. Desta feita, concluise que a homologação procedida pelo Fisco denotase pela apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL realizada pelo contribuinte, e não pela verificação do ágio registrado, ou qualquer outro elemento patrimonial, ainda que definitivamente constituído. Logo, o prazo decadencial correrá em face do fato gerador da obrigação tributária, e não sobre qualquer operação contabilizada. Apenas quando se verifica a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária é que surge contra o Fisco o prazo para a homologação dos elementos que dão origem aos créditos passíveis de constituição. O prazo para controle dos registros patrimoniais com possibilidade de repercussão tributária no futuro é definido em função do prazo para gozar do crédito decorrente. Neste contexto, pode a autoridade fiscal, no prazo de que dispõe para rever o período de apuração no qual foi aproveitado, exigir prova de sua efetividade e formação e, na ausência desta, negar sua utilização. É, exatamente, para ter esse controle que o art. 37 da Lei nº 9.430/96 estabelece que: “Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios.” Assim, a jurisprudência, a meu ver pacífica do CARF, converge no sentido de que “se a lei determina que o sujeito passivo deva guardar documentos referentes a negócios jurídicos que venham produzir efeitos fiscais futuros, há de se concluir, necessariamente, que essa lei dá ao fisco o direito de examinálos. Pois não haveria razão de a lei tributária exigir que o sujeito passivo guardasse documentos se não fosse para ficarem à disposição de eventual exame pela autoridade tributária. E se a lei confere ao fisco o direito de examinar aqueles documentos, é porque também lhe dá o direito de vir a questionar os negócios jurídicos ali registrados, desde que para constituir créditos tributários relativos a fatos geradores ocorridos em períodos posteriores, ainda não alcançados pela decadência, nos termos do art. 150, § 4º, e do art. 173, I, ambos do CTN.” (Acórdão: 9101002.387, Número do Processo: 10970.720271/201211, Data de Publicação: 14/09/2016, Contribuinte: METALSIDER LTDA, Relator(a): LUIS FLAVIO NETO) Para reforçar o entendimento esposado, transcrevese trecho do Acórdão nº 1302001.817, de relatoria da Conselheira Edeli Pereira Bessa, para quem a “a homologação tácita prevista no art. 150, §4º do CTN recai sobre a atividade de apuração do crédito tributário pelo sujeito passivo, em regra revelada ao Fisco por meio do pagamento ou da confissão da dívida. O registro contábil do ágio não afeta o resultado tributável antes de sua amortização fiscal, e assim não integra a atividade de apuração do crédito tributário. Logo, somente se cogitará de revisão da atividade de lançamento a partir do momento em que esta for praticada, ou seja, a partir do momento em que a amortização do ágio afetar a determinação do crédito tributário.” Em face do exposto, tendo em conta que o ágio apurado em 2004 só foi amortizado no ano de 2009, quando fez valerse de sua condição de direito creditório, alterando a base de cálculo dos tributos e, assim, sendo passível de glosa pelo Fisco, entendo Fl. 905DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 906 12 adequada a formalização da exigência em tela. Por conseguinte, REJEITO a preliminar de decadência arguida. Da Nulidade da Decisão Recorrida por Vício de Fundamentação O Recorrente pede a nulidade do Acórdão de 1ª instância alegando que o texto constante da decisão, no que tange a preliminar de decadência, tratase de simples reprodução de outro julgado, evidenciandose que os argumentos de defesa do Recorrente não foram individualmente analisados pela DRJ, em ofensa ao duplo grau de jurisdição e ao princípio constitucional do devido processo legal. No julgamento desta preliminar, a decisão recorrida fez menção ao PA 16327.720528/201206, que trata de autos de infração de IRPJ e de CSLL relativos à mesma matéria tratada no presente processo, ou seja, a glosa de despesas de amortização do ágio oriundo da aquisição do Banco BEM S/A. A diferença entre este processo e o aqui analisado reside, unicamente, nos diferentes períodos de tempo em que as deduções ocorreram, conforme expõe o Acórdão recorrido: “Consoante informado pela fiscalização, bem como pelo interessado, o PA 16327.720528/201206 trata de autos de infração de IRPJ e de CSLL relativos à mesma matéria tratada no presente processo, ou seja, a glosa de despesas de amortização do ágio oriundo da aquisição do Banco BEM S/A. No entanto, a autuação objeto do PA 16327.720528/201206 cuida, dentre outras infrações, das despesas deduzidas pelo contribuinte nos anos calendário de 2007 e 2008, ao passo que o presente processo trata da despesa deduzida no anocalendário de 2009.” Ocorre que, no processo administrativo aqui julgado, a mesma preliminar foi suscitada pelo contribuinte e indeferida. Para tanto, a autoridade julgadora de 1ª instância, reproduziu o tópico analisado naquele PA, que, em virtude da identidade das matérias julgadas, a DRJSPO adotou integralmente a fundamentação para o processo em espeque, o que fez expressamente, conforme consta do excerto à seguir: “Assim, tendo em vista a fundamentação acima, a qual adoto integralmente para a presente autuação formalizada em 21/10/2014, relativa à despesa de amortização de ágio deduzida no anocalendário de 2009, afasto a preliminar de decadência.” (fl. 729) Assim, cabe ressaltar que a instância julgadora cuidou em, primeiramente, traçar um paralelo entre os dois processos, mostrando que, no mérito, havia identidade entre os termos da autuação, e, depois, evidenciou que a fundamentação utilizada naquela oportunidade poderia ser adotada integralmente neste processo. Desta forma, entendo que a decisão recorrida encontrase devidamente fundamentada, não havendo afronta ao princípio do contraditório, ampla defesa e devido processo legal, como suscitado pelo recorrente, motivo pelo qual REJEITO a preliminar de nulidade. DO MÉRITO Fl. 906DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 907 13 A essência da controvérsia deste processo administrativo, como bem demonstrada na decisão recorrida, reside na definição do valor do ágio admitido para fins de amortização fiscal: se R$ 94.038.651,18 (como pretende o Recorrente), ou R$ 50.267.497,03 (conforme Acórdão de 1ª instância). Esclarecendo o tema em análise, transcrevo passagem da decisão recorrida: “A divergência entre a fiscalização e o contribuinte poderia ser sintetizada pelo quadro a seguir, onde se encontram discriminadas duas formas distintas de contabilização do investimento por ocasião da aquisição das ações do Banco BEM em 13/02/2004: Forma 1 Forma 2 Investimentos (43.771.154,15) 0,00 Ágio __94.038.651,18__ _50.267.497,03_ Custo de Aquisição 50.267.497,03 50.267.497,03 Notese, primeiramente, que tanto na forma 1 como na forma 2 de contabilização do investimento o custo de aquisição considerado é de R$ 50.267.497,03. Quanto a este valor não há discordância. Na forma 1, adotada pelo contribuinte, o investimento foi escriturado pelo valor credor de R$ 43.771.154,15, obtido por equivalência patrimonial a partir do valor do passivo a descoberto da investida, consoante demonstrativo reproduzido anteriormente. O valor do ágio, nesta forma de escrituração, ficou em R$ 94.038.651,18 (devedor), por simples diferença entre o custo de aquisição (devedor) e o valor patrimonial da investida considerado (credor, neste caso). Por outro lado, pela forma 2 de contabilização, defendida pela autoridade fiscal, o investimento tem valor zero e o ágio corresponde exatamente ao custo de aquisição, de R$ 50.267.497,03. Algebricamente, as duas formas são equivalentes. Como o custo contábil é o mesmo nas duas formas (custo contábil = valor do investimento + ágio), não haveria discrepância na apuração de ganho ou perda de capital por ocasião de uma eventual alienação da participação societária. Contudo, na situação em comento não houve a alienação da participação societária, mas sim a incorporação da sociedade controladora pela controlada. Neste caso, o ágio a ser amortizado após a incorporação seria maior na forma 1 adotada pelo contribuinte (aprox. R$ 94,0 milhões) do que na forma 2 admitida pela fiscalização (aprox. R$ 50,3 milhões).” Adiante na decisão de 1ª instância, a DRJ afirma que o valor do investimento não poderia superar o valor do custo de aquisição da empresa, pois o ágio deve, necessariamente, estar contido no preço pago, jamais podendo ter valor superior a esse. Logo, sustenta a impossibilidade do registro do passivo a descoberto no cálculo de quantificação do ágio. Fl. 907DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 908 14 O contribuinte, em seu Recurso Voluntário, alega que: (i) Não há diferenciação alguma entre ‘patrimônio líquido negativo” e “passivo a descoberto” para a legislação fiscal, de forma que não seria dado ao intérprete, por sua intuição, concluir que o legislador, ao referirse ao patrimônio líquido (art. 20, DecretoLei nº 1.598/1977), fez alusão apenas às situações nas quais o investimento apresenta uma valor patrimonial positivo; (ii) O registro da equivalência com patrimônio líquido negativo deve ser analisado em dois contextos distintos: quando da aquisição do investimento, e após a aquisição; (iii) Necessidade de que a empresa investidora considere como custo de aquisição do investimento todos os recursos que serão necessários para tornar o investimento viável sob a ótica financeira; (iv) A Recorrente não levou em consideração apenas o montante que seria pago para a União Federal, mas também o montante que obrigatoriamente seria aportado no Recorrente, portanto, este montante faz parte do preço pago pelo investimento; Feita esta exposição, passo a análise o mérito. Ao longo de sua peça recursal, a Recorrente procura deixar claro que a opção por si exercida seria o modo contábil mais correto para demonstração da essência da transação ocorrida, isto é, deixou expresso e trouxe diversos artigos acadêmicos corroborando o entendimento de que o registro da equivalência com o patrimônio líquido negativo deve ser analisado em dois contextos distintos: quando da aquisição do investimento e após a aquisição. O Recorrente consigna que na aquisição do investimento o ativo deve ser registrado com o valor do patrimônio líquido negativo acrescido do ágio pago, o que necessariamente irá gerar um valor positivo, representando o montante pago. Já no que se refere ao momento posterior à aquisição, o registro do investimento seria reduzido pela equivalência patrimonial até no máximo zerálo, não sendo possível registrar um valor negativo de investimento. Desta forma, admite que na situação em que o ágio é fundamentado na expectativa de rentabilidade futura, haveria necessidade de que a empresa investidora considerasse como custo de aquisição do investimento todos os recursos que seriam necessários para tornar o investimento viável sob a ótica financeira, a fim de que possa ser gerada a rentabilidade no futuro, principalmente no caso de instituições financeiras. Neste ponto, o Recorrente utiliza uma premissa equivocada que prejudica sua argumentação. Isto porque, para a apuração do ágio deve ser levado em consideração apenas o fato da aquisição do investimento, bem como só se deve levar em conta o custo assumido por ocasião daquele fato, e àquele momento. Senão, vejamos os dispositivos aplicáveis: Art. 20, DecretoLei nº 1598/1977: O contribuinte que avaliar investimento pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: (...) Fl. 908DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 909 15 Art. 385, RIR/99: O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. (destaquei) Fica evidente que a legislação aplicável se refere apenas ao momento da “aquisição da participação”, in casu, aquisição das ações da investida pela investidora. Como visto, não há referência a nenhum outro evento ou outras avenças entre adquirente e adquirida. A regra não trata de eventual assunção de dívidas ou ato similar, e nem de qualquer outro negócio que não seja a aquisição. Repitase: a regra trata apenas de ágio na aquisição. Neste ponto é necessário que se faça esta distinção, pois aqui há conflito entre a tese defendida pela Recorrente e a aqui sustentada. Para tanto, apresento trecho da declaração de voto do conselheiro Carlos Eduardo de Almeida Guerreiro, no julgamento do Caso Globo (Acórdão n. 110100.766), à seguir: “(...) o fato da adquirente assumir responsabilidade pelo “passivo a descoberto” da adquirida, pode implicar apenas no registro contábil de provisão (que inclusive será não dedutível). Mas, nunca implicará em registro de ágio, nem mesmo sob criativa a denominação de ágio indireto. Isso porque é a aquisição de investimento que pode dar margem ao ágio, enquanto a assunção de dívidas de outrem deve dar margem a provisão. Tratamse de eventos diferentes e totalmente independentes, não havendo porque confundilos. O mesmo vale para diversos outros eventos, como a eventual entrega de recursos na empresa adquirida, que implicará em registro de mútuo ou mesmo doação, mas jamais de ágio. (...) Enfim, o art. 385 do RIR/1999 regulamenta como desdobrar o custo de aquisição de participação, em ágio e valor patrimonial. Deste modo, não há cabimento em considerar nessa operação outras variáveis que não sejam a aquisição. A pretensão do contribuinte em somar o preço de aquisição o equivalente a “passivo a descoberto” da adquirida implicaria em um acréscimo ao ágio que não teria origem na aquisição, mas em uma circunstância da empresa adquirida que, inclusive, já foi considerada na definição do preço de aquisição de participação. Também, implica supor que é possível que um bem ou direito (o valor patrimonial da participação) possa ser negativo. Já a pretensão do contribuinte em justificar tal acréscimo alegando assunção de dívidas da adquirida ou mútuo ou doação, implicaria em supor que o ágio decorre de outros negócios diferentes daqueles que implicam em aquisição.” Fl. 909DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 910 16 Como bem assinala Guerreiro, tratamse de hipóteses distintas: uma se refere à aquisição de participação, que é um investimento, e dela originase o ágio; outra situação é a assunção de dívidas, in casu, o fato de a Recorrente assumir a responsabilidade pelo passivo a descoberto da investida. Nessa situação, a Recorrente deve criar uma provisão (que não será dedutível) apenas para que se possa demonstrar, em sua contabilidade, a referida assunção. Em outras palavras, a investidora não pode reconhecer os resultados da investida pelo fato desta não possuir qualquer direito sobre estes lucros enquanto houver passivo a descoberto na investida, pois sua responsabilidade, no ato da aquisição da participação está limitado ao montante integralizado, como será detalhado adiante. Ainda sobre a provisão, Hiromi Higuchi, em seu livro Imposto de Renda das Empresas (41ª Edição, p. 408), transcreve a instrução que orienta a abertura da mesma, afirmando que a constituição da referida provisão não é uma responsabilidade jurídica sendo, por esse motivo, indedutível. Vejamos: “À p. 94 do livro Princípios Contábeis – Normas e Procedimentos de Auditoria do IBC — Instituto Brasileiro de Contadores. São Paulo: Atlas, 1988, está dito o seguinte "A Instrução da CVM determina, e os princípios da contabilidade requerem, que a investidora ou a controladora deverá constituir provisão para cobertura de perdas efetivas em virtude de responsabilidade, quando aplicável, pelos prejuízos acumulados em excesso ao capital social da coligada ou da controlada. Nessas circunstancias, o valor do investimento na coligada ou controlada seria reduzido a zero e uma provisão para perdas consignada como passivo circulante ou exigível a longo prazo, dependendo do prazo que a investidora ou controladora teria para honrar o compromisso." A constituição da provisão para honrar o compromisso da coligada ou controlada porque o patrimônio tornouse negativo é mais de ordem ética e moral. Sob o aspecto jurídico não existe tal responsabilidade e por esse motivo a provisão é indedutível. Assim, não restam dúvidas de que para a constituição do ágio não devemos levar em consideração nada além do montante despendido com a aquisição da participação societária. O Passivo a Descoberto da sociedade investida não tem relevância alguma para a quantificação do ágio. Este pode, por uma questão de adequação contábil, ser representado por uma provisão para perdas, porém, será indedutível. Vêse que as passagens são plenamente aplicáveis ao caso em espeque posto colidiremse, exatamente, com a pretensão do Recorrente quanto à divisão do registro da equivalência do patrimônio líquido em dois contextos distintos: o contexto da aquisição, e o pósaquisição. Destarte, não são relevantes para a análise deste caso as alegações do Recorrente, ao longo de sua peça recursal, quando afirma não ter levado em consideração apenas o montante que seria pago à União Federal, “mas também o montante que obrigatoriamente seria aportado no Recorrente, não havendo dúvidas que este montante fez parte do preço pago pelo investimento (i. e., compõe o custo total do investimento).” (fl. 821) Fl. 910DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 911 17 Ora, como já explicado, para a mensuração do ágio decorrente da aquisição de participação, não há que se falar em quaisquer eventos ou avenças que não sejam aqueles decorrentes da aquisição, isto é, aqueles ocorridos no momento em que se dá a aquisição. Portanto, o mencionado argumento do contribuinte não dispõe de relevância jurídicofiscal, assim sendo improcedente. Adiante, o Recorrente contesta a alegação da DRJ de que a expressão “Patrimônio Líquido” utilizada em Resoluções do CFC e CPC’s indicam a ideia de valor positivo, afirmando que tais resoluções e CPC’s indicariam que o patrimônio líquido corresponde à diferença entre o valor do Ativo e o valor do Passivo, podendo ser positivo, negativo ou nulo, sendo que, se negativo, poderá igualmente ser denominado de passivo a descoberto. Em outras palavras, o Recorrente afirmou que, ainda que negativa, a diferença entre ativos e passivos continua sendo denominada de patrimônio líquido, ficando facultado ao credor optar pela denominação Passivo a Descoberto, conforme queira. Pondera, também, que a legislação não faz qualquer diferenciação nos casos de patrimônio líquido negativo, de forma que a DRJ precisou ampliar o conteúdo do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598/77, por meio de um esforço interpretativo intuitivo do dispositivo, para fundamentar a manutenção da infração dos autos. Para compreender este raciocínio utilizado na Decisão recorrida, transcrevese o seguinte trecho: “Assim, adotandose uma simples interpretação literal dos dispositivos mencionados, e abstraindo quaisquer ponderações acerca do alcance e do sentido da norma, teríamos que, sendo de 89,957% (aprox.) a sua participação no capital da investida, o correspondente valor patrimonial seria de (R$ 48.657.685,66) x 89,957% = (R$ 43.771.154,15), igualmente “negativo” (credor). Por simples decorrência algébrica, o ágio definido no art. 20 , inc. II, do Decretolei nº 1.598/77, seria de: Ágio = Custo de Aquisição – Valor Patrimonial do Investimento Ágio = R$ 50.267.497,03 – (R$ 43.771.154,15) Ágio = R$ 94.038.651,18 No entanto, a aplicação literal e a apuração meramente algébrica do ágio, tal como acima discriminado (correspondente à forma 1), foi questionada pela fiscalização. De fato, é pertinente a argumentação da autoridade fiscal ao apontar a impropriedade de se considerar um investimento de valor credor (“negativo”), pois implicaria em tratar equivocadamente o investimento como um passivo, uma obrigação a saldar. Como se sabe, ao adquirir ações de uma sociedade anônima, a responsabilidade dos acionistas está limitada ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas (art. 1.088 do Código Civil4), ou seja, nada além do valor investido poderá ser exigido ou cobrado do acionista. Portanto, a parcela do passivo da investida que excede os seus ativos (que representa o chamado passivo a descoberto) não poderá ser atribuída aos acionistas da sociedade. Significando, assim, que, do ponto de vista do controlador (que adquiriu as ações da sociedade com passivo a descoberto), o investimento Fl. 911DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 912 18 efetivamente vale zero. A aquisição de tal investimento mediante um pagamento de R$ 50.267.497,03, nestas circunstâncias, poderia ser escriturada na forma 2: Ágio = Custo de Aquisição – Valor Patrimonial do Investimento Ágio = R$ 50.267.497,03 – 0,00 Ágio = R$ 50.267.497,03 A reclamante argui que a forma 2 estaria em desacordo com o texto legal, configurando um procedimento não autorizado pelos arts. 20 e 21 do Decretolei nº 1.597/77, uma vez que o critério neles definido não explicita a utilização de valor zero em caso de patrimônio líquido negativo. Contudo, releva notar que o art. 20, caput, determina que o ágio deve ser apurado mediante o desdobramento do custo de aquisição. Destarte, mesmo sem uma análise mais aprofundada, não há como deixar de reconhecer que o cálculo meramente algébrico (forma 1) que resulta em um ágio de valor superior ao custo de aquisição, afigurase igualmente questionável. Intuitivamente, este desdobramento de um valor positivo (o custo de aquisição) haveria de ser em duas ou mais parcelas positivas menores. Dito de outra maneira: um raciocínio mais elementar e direto nos levaria a concluir que o ágio deveria estar contido no preço pago, jamais ter valor superior a ele.” Como se extrai do excerto acima, em que pese referirse a intuição – que pode sugerir certa discricionariedade por parte do aplicador da Lei – o raciocínio utilizado é correto, e representa, isto sim, uma clara aplicação da lógica. Sabese que o art. 20 do DecretoLei 1.598/1977 determina que o contribuinte que avaliar investimento pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em valor do patrimônio líquido na época da aquisição mais o valor pago à título de ágio por rentabilidade futura, chegamos à seguinte equação matemática: Custo de Aquisição = Valor Patrimonial do Investimento + Ágio Ora, se o Custo de Aquisição deve corresponder à soma do PL com o Ágio, é lógico que estes dois valores obtêm, individualmente, um valor menor que aquele. De forma contrária, não poderiam estar em lados opostos da equação, separados por um sinal de igualdade (=). Caso isso fosse possível, apenas para representar o absurdo da tese, seriam admitidas as seguintes equações: X=Y; X=2X; X=3X; X=4X; etc. Outrossim, pela perspectiva semântica da norma citada, ainda teríamos uma contradição quando da análise da palavra “desdobrar”. Segundo o Dicionário Online de Português (Dicio, https://www.dicio.com.br/desdobrar/; acessado em 07/12/2016), “desdobrar” significa: 1. Abrir uma coisa dobrada. 2. Dividir em duas ou mais partes: desdobrar uma verba do orçamento. 3. Desenvolver. Fl. 912DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 913 19 Nesse aspecto, é perfeita a interpretação ínsita no Acórdão recorrido, pois se o dispositivo legal impõe o desdobramento, ou seja, a divisão do Custo de Aquisição em Patrimônio Líquido e Ágio, é lógico que a norma levou em consideração que estes últimos seriam menores que aquele e, portanto, o Ágio deveria estar contido no preço pago. Logo, temos que a expressão Patrimônio Líquido utilizado no art. 20 do DecretoLei nº 1.598/77 só pode tratar daqueles casos em que os ativos de uma empresa cobrem os passivos da mesma, ou seja, considera apenas o Patrimônio Líquido positivo. Neste sentido a doutrina de Hiromi Higuchi (idem) afirma que: “Quando a lei diz que deverá desdobrar o custo de aquisição está se referindo ao valor pago. Com isso, o ágio está limitado ao valor pago. A contabilização do valor do Patrimônio Líquido negativo para aumentar o valor do ágio não tem base legal. Mesmo com PL negativo na investida o limite do ágio é o valor pago. Quando o valor do patrimônio líquido da coligada ou controlada tornase negativo depois da primeira avaliação, o ágio ou o deságio permanecerá até a data de sua amortização ou baixa de investimento. Neste caso o valor do Patrimônio Líquido será zero e nunca negativo. Não poderá ser negativo porque na aquisição de ações ou quotas já totalmente integralizadas a perda máxima é até o montante do valor de aquisição.” Para nos aprofundarmos sobre o conceito de fato adotado pela lei, é interessante o regresso ao Caso Globo (Acórdão 110100.766), onde a relatora Edeli Pereira Bessa colaciona diversos preceitos normativos da Contabilidade para a demonstração do conceito de Patrimônio Líquido adotada no art. 20 do DecretoLei n.º 1.598/77 que disciplina o desdobramento do custo na aquisição de participação societária. Vejamos: “A Norma Brasileira de Contabilidade — NBCT3, na redação dada pela Resolução do Conselho Federal de Contabilidade CFC n° 847/99, ao tratar de conceito, conteúdo, estrutura e nomenclatura das demonstrações contábeis, assim define, em seu item 3.2.2 o conteúdo e estrutura do Balanço Patrimonial: 3.2.2.1 — O Balanço Patrimonial é constituído pelo Ativo, pelo Passivo e pelo Patrimônio Líquido. a) o Ativo compreende os bens, os direitos e as demais aplicações de recursos controlados pela entidade, capazes de gerar benefícios econômicos futuros, originados de eventos ocorridos; b) o Passivo compreende as origens de recursos representados pelas obrigações para com terceiros, resultantes de eventos ocorridos que exigirão ativos para a sua liquidação; c) o Patrimônio Líquido compreende os recursos próprios da Entidade, e seu valor é a diferença positiva entre o valor do Ativo e o valor do Passivo. Quando o valor do Passivo for maior que o valor do Ativo, o resultado é denominado Passivo a Descoberto. Portanto, a expressão Patrimônio Líquido deve ser substituída por Passivo a Descoberto. Fl. 913DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 914 20 Este texto reafirma a definição que já estava presente desde a Resolução CFC no 686/90, no mesmo item da NBCT3: c) o Patrimônio Líquido compreende os recursos próprios da Entidade, e seu valor é a diferença positiva entre o valor do Ativo e o valor do Passivo. Quando o valor do Passivo for maior que o valor do Ativo, o resultado é denominado Passivo a Descoberto. Portanto, a expressão Patrimônio Líquido deve ser substituída por Passivo a Descoberto. No mesmo sentido, a Resolução CFC n° 774/94, que aborda os princípios fundamentais da contabilidade: Do Patrimônio deriva o conceito de Patrimônio Líquido, mediante a equação considerada como básica na Contabilidade: (Bens + Direitos) — (Obrigações) = Patrimônio Liquido Quando o resultado da equação é negativo, convencionase denominálo de "Passivo a Descoberto". É certo que aqueles termos da Resolução CFC n° 847/99 já se apresentam consolidados, após a alteração promovida pela Resolução CFC n° 1.049/2005, publicada em 08/11/2005. Mas a redação original da Resolução CFC no 847/99 também auxilia no alcance do conteúdo da expressão patrimônio líquido: 3.2.2 — Conteúdo e Estrutura 3.2.2.1 — 0 Balanço Patrimonial é constituído pelo Ativo, pelo Passivo e pelo Patrimônio Líquido. a) o Ativo compreende as aplicações de recursos representados por bens e direitos; b) o Passivo compreende as origens de recursos representados pelas obrigações para com terceiros; c) o Patrimônio Líquido compreende os recursos próprios da Entidade, e seu valor é a diferença entre o valor do Ativo e o valor do Passivo (Ativo menos Passivo). Portanto, o valor do Patrimônio Líquido pode ser positivo, nulo ou negativo. No caso em que o valor do Patrimônio Líquido for negativo, é também denominado de Passivo a Descoberto. Notase que quanto à Resolução nº 847/99 mencionada pela Relatora, e inclusive utilizada pelo Recorrente como seu argumento de defesa, deixa implícita uma possibilidade de denominarse o Passivo a Descoberto de Patrimônio Líquido Negativo, o que, segundo o Recorrente neste processo, autorizaria o expediente por ele adotado, haja vista que o art. 20 supracitado não faz qualquer diferenciação, não cabendo ao intérprete fazêla. No entanto, naquele processo (Caso Globo), a Relatora Edeli já previra essa dubiedade e, prontamente, refutou a possibilidade de utilização do patrimônio líquido negativo no desdobramento do custo de aquisição: “Ao estabelecer que o Patrimônio Líquido representa os recursos próprios da Entidade, a interpretação originalmente contida na Resolução CFC n° 847/99 já deixa entrever a contradição que somente foi corrigida com o aperfeiçoamento promovido com a Resolução CFC n° 1.049/2005: não há Fl. 914DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 915 21 recursos próprios quando é negativa a diferença entre o valor do Ativo e o valor do Passivo. A designação, inicialmente alternativa, e depois exclusiva, de Passivo a Descoberto é a que se presta a designar o contexto no qual os bens, os direitos e as demais aplicações de recursos controlados pela entidade são inferiores as origens de recursos representados pelas obrigações para com terceiros, resultantes de eventos ocorridos que exigirão ativos para a sua liquidação. Ou seja, o ativo é insuficiente para quitação de todas as dívidas da sociedade. Desta forma, mesmo em face da definição temporariamente fixada na Resolução CFC n° 847/99, é possível concluir que não existe, conceitualmente, Patrimônio Líquido Negativo. Patrimônio Líquido é expressão reservada para as hipóteses nas quais a contabilidade expressa recursos próprios da Entidade, na medida em que os bens, os direitos e as demais aplicações de recursos controlados pela entidade são mais do que suficientes para quitar as obrigações para com terceiros. Se outro é o cenário, o grupo patrimonial representativo da diferença entre o Ativo e o Passivo é denominado Passivo a Descoberto. É possível, portanto, interpretar que as leis, ao se reportarem ao valor de patrimônio líquido como referência para cálculo da equivalência patrimonial, tinham em conta, apenas, situações nas quais o investimento apresenta um valor patrimonial positivo.” (grifos) Nada obstante à contradição explicitada com brilhantismo pela Conselheira Edeli, é importante consignar que a dúvida quanto à possibilidade de utilização do PL com valor negativo, ou não, no cálculo do custo de aquisição, se existente, foi totalmente dirimida por ocasião da entrada em vigor da Resolução CFC 1.283/2010. Esta Resolução revogou diversos dispositivos anteriores, dentre os quais as Resoluções 847/99 e 1.049/05, estabelecendo a nomenclatura “Passivo a Descoberto” como a única possível nos casos em que o ativo não seja suficiente para saldar o passivo das empresas. Para consolidar os argumentos sustentados nesse voto, destaco ainda, que a responsabilidade do sócio acionista, está limitada ao valor integralizado de capital, como é claro o Código Civil ao estabelecer que: “Art. 1.088. Na sociedade anônima ou companhia, o capital dividese em ações obrigandose cada sócio ou acionista somente pelo preço de emissão das ações que subscrever ou adquirir.” Sendo assim, a obrigação do sócio se extingue com o pagamento do preço de emissão das ações que subscrever ou adquirir. E, conforme dito anteriormente, nada mais lhe poderá ser exigido em decorrência do evento “aquisição de participação”. Repisase que o que ainda poderia ser exigido decorreria de outras obrigações assumidas por outras formas contratuais, como o mútuo ou doação, porém, sobre tais eventos não poderá ser registrado ágio, pois esse se refere ao evento “aquisição de participação”. Assim, utilizando o exemplo deste caso, se o Banco BEM S/A (investida) fosse a falência, a responsabilidade do Banco Bradesco BBI S/A (investidora) está limitado àquilo que ele integralizou, ou seja, os R$ 50.267.497,03 efetivamente pagos e incorridos no momento da aquisição da participação. Fl. 915DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 916 22 À vista do exposto, é possível cravar que o “Patrimônio Líquido” mencionado no art. 20 do DecretoLei nº 1.598/77, é apenas aquele positivo, ou seja, aquele em que os ativos superam os passivos de uma empresa. Em conclusão, afirmo que o Acórdão da DRJ está em plena consonância com o entendimento aqui exposto, não merecendo reparos, motivo pelo qual deve ser mantida a autuação. Do Direito a Dedução do Ágio Não Deduzido em Anos Anteriores O recorrente pede, ainda, que se reconheça o direito a dedução do ágio não deduzido em anos anteriores. No entanto, este tópico além de envolver valores apurados em competências alheias à aqui discutida, não foi aventado na impugnação submetida à análise da autoridade julgadora de 1ª instância. Não se tendo instaurado a fase litigiosa quanto a esta matéria na oportunidade adequada (a impugnação), não há o que ser apreciado nesta instância, conforme a jurisprudência deste e. Conselho: MULTA DE OFÍCIO AGRAVADA. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. A fase litigiosa se instaura com a impugnação. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997. Preclusão nada mais é do que a perda do direito de agir nos autos em face da perda da oportunidade, conferida por certo prazo. Tendo sido acatada a preclusão não há mais o que ser apreciado acerca da multa por não tratarse de matéria de ordem pública. (Acórdão nº 9202004.291, Data da Sessão: 19/07/2016) Da Exigência de CSLL Como bem explicitado na decisão de 1 instancia, tanto a legislação fiscal quanto as normas contábeis a CSLL, adotou o mesmo disciplinamento contido na legislação do IRPJ quanto ao registro e ao tratamento a ser dispensado ao ágio, inclusive no que concerne à sua amortização. Da Incidência dos Juros de Mora sobre a Multa de Ofício A controvérsia relativa a este tópico consiste na alegação do Recorrente de que a multa, por não se confundir com tributo, não pode estar sujeito à incidência de juros de mora. Fl. 916DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 917 23 Para esclarecer o tema discutido neste tópico, cabe pontuar que o art. 61 da Lei nº 9.430/96 determinou que os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. Paralelamente, o art. 161 do Código Tributário Nacional dispõe que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. Ainda, no §1º do mesmo dispositivo, há previsão de que se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. O art. 139 do CTN, por sua vez, dispõe que o crédito tributário decorre da obrigação tributária e tem a mesma natureza desta. Já o art. 113, §1º, do mesmo diploma legal, define que a obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Do exposto, podemos concluir que se o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta, necessariamente deve abranger o tributo e a penalidade pecuniária. Ademais, a multa de ofício aplicada ao presente lançamento está prevista no art. 44 da Lei nº 9.430/96 que prevê expressamente a sua exigência juntamente com o tributo devido. Ao constituir o crédito tributário pelo lançamento de ofício, ao tributo soma se a multa de ofício, tendo ambos a natureza de obrigação tributária principal, devendo incidir os juros à taxa Selic sobre a sua totalidade. A jurisprudência da CSRF, inclusive, é pacífica quanto a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, como se detrai dos seguintes julgados: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC conforme Súmula CARF nº 4.(Acórdão CSRF nº 9101002385, de 12/07/2016, Processo 10932.000633/200905, relator do voto vencedor do Conselheiro André Mendes de Moura). JUROS E MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional, e sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão CSRF n 9202004250, de 23/06/2016, Processo 10980.723322/201582, relatoria da Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. O crédito tributário, quer se refira a tributo quer seja relativo à penalidade pecuniária, não pago no respectivo vencimento, está sujeito à Fl. 917DF CARF MF Processo nº 16327.720954/201401 Acórdão n.º 1302002.059 S1C3T2 Fl. 918 24 incidência de juros de mora, calculado à taxa Selic até o mês anterior ao pagamento, e de um por cento no mês de pagamento. (Acórdão CSRF nº 9303003480, de 25/02/2016, Processo 16682.721207/201191, relatoria do Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas). Em razão do exposto, voto no sentido de REJEITAR as preliminares de nulidade da decisão de primeiro grau e de decadência e, no mérito, em NEGAR provimento ao recurso voluntário. É como voto. MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA Relator Fl. 918DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.003484/2010-57
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/2006 a 31/12/2009
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO.
Acolhem-se os embargos declaratórios para sanar o vício de omissão apontado no acórdão recorrido, para deixar explícito no ato decisório os motivos pelos quais apreciou-se questão de direito não suscitada pelo recorrente no recurso voluntário.
Embargos Acolhidos.
Numero da decisão: 2401-004.615
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos de declaração, para, no mérito, acolhê-los, sem efeitos infringentes, mantida a parte dispositiva do acórdão recorrido, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins e Andréa Viana Arrais Egypto.
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/02/2006 a 31/12/2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. Acolhem-se os embargos declaratórios para sanar o vício de omissão apontado no acórdão recorrido, para deixar explícito no ato decisório os motivos pelos quais apreciou-se questão de direito não suscitada pelo recorrente no recurso voluntário. Embargos Acolhidos.
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OMISSÃO. Acolhemse os embargos declaratórios para sanar o vício de omissão apontado no acórdão recorrido, para deixar explícito no ato decisório os motivos pelos quais apreciouse questão de direito não suscitada pelo recorrente no recurso voluntário. Embargos Acolhidos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 34 84 /2 01 0- 57 Fl. 339DF CARF MF Processo nº 19515.003484/201057 Acórdão n.º 2401004.615 S2C4T1 Fl. 340 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos de declaração, para, no mérito, acolhêlos, sem efeitos infringentes, mantida a parte dispositiva do acórdão recorrido, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins e Andréa Viana Arrais Egypto. Fl. 340DF CARF MF Processo nº 19515.003484/201057 Acórdão n.º 2401004.615 S2C4T1 Fl. 341 3 Relatório Tratamse de embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional, às fls. 332/333, contra o Acórdão nº 2401003.022, da relatoria da Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, o qual está juntado às fls. 318/331. 2. Alega a embargante a existência de omissão no v. acórdão, mais especificamente na parte do voto vencedor do Conselheiro Igor Araújo Soares, dado que não houve a justificativa para a apreciação de matéria não ventilada pelo contribuinte no recurso voluntário. 2.1 Segundo a Fazenda Nacional, o acórdão recorrido incorreu em julgamento "extra petita", haja vista que o pedido formulado na insurgência do contribuinte cingiuse à controvérsia acerca da incidência da contribuição previdenciária sobre as verbas pagas a título de Participação nos Lucros ou Resultados (PLR), descabendo, portanto, o cancelamento do auto de infração. 3. Os autos digitais foram enviados à Procuradoria da Fazenda Nacional em 11/8/2014, que interpôs os embargos de declaração em 9/9/2014. 1 4. Os aclaratórios foram admitidos, em 17/3/2015, por meio de despacho do presidente em exercício da Turma, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, cujo processo foi devolvido para a distribuição e sorteio de novo relator (fls. 334/335). É o relatório. 1 As datas mencionadas constam da Consulta ao Histórico do Processo nº 19515.003484/201057, conforme campo próprio no eProcesso. Fl. 341DF CARF MF Processo nº 19515.003484/201057 Acórdão n.º 2401004.615 S2C4T1 Fl. 342 4 Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Relator 5. Preenchidos os requisitos de admissibilidade dos embargos de declaração, passo ao exame de mérito (art. 65, § 1º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015). 2 6. Ao compulsar os autos, verifico que o processo administrativo diz respeito à lavratura de auto de infração com imposição de multa agravada, relativo às competências 02/2006 a 12/2009, por deixar a empresa de arrecadar, mediante desconto das remunerações, a contribuição previdenciária dos segurados incidentes sobre valores pagos a título de PLR em desacordo com a Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000 (fls. 8/13). 7. Na petição recursal, a recorrente insurgiuse contra a decisão de piso que manteve a pretensão fiscal, alegando a inexistência do descumprimento da obrigação acessória, eis que era absolutamente dependente e resultante da obrigação principal vinculada à incidência da tributação sobre as parcelas de PLR, cuja exigência fiscal, por sua vez, não deveria prosperar. 7.1 Assim, para afastar a multa aplicada pela fiscalização, a autuada concentrou sua linha de defesa na improcedência do lançamento do crédito tributário relacionado à obrigação principal (fls. 268/288). 8. O auto de infração da obrigação principal foi mantido na segunda instância administrativa, ainda que apenas parte do crédito tributário original. Segundo o voto vencido, decidindo o colegiado pela existência de pagamento do salário indireto, na forma de participação nos lucros ou resultados em desacordo com a lei específica, caberia à empresa ter procedido ao desconto e recolhimento da contribuição do segurado a ele vinculado. Desse modo, o descumprimento da obrigação acessória ficava caracterizada (fls. 326/329). 9. Por sua vez, o voto vencedor consignou que a infração só ficaria configurada, tendo em conta a redação utilizada pelo legislador ordinário, caso a empresa deixasse de arrecadar a totalidade da contribuição previdenciária incidente sobre o saláriodecontribuição do segurado empregado, o que não era a hipótese dos autos. O fiscalizado deixou de efetuar o desconto exclusivamente sobre as verbas que não considerou como integrante da base de cálculo das contribuições previdenciárias (fls. 330/331). 10. Pois bem. Com efeito, o acórdão recorrido possui um vácuo a ser preenchido, porque não explicitou os motivos pelos quais apreciou questão não suscitada expressamente pela empresa recorrente por ocasião da interposição do recurso voluntário. 2 Tempestividade, conforme §§ 3º , 5º e 6º do art. 7º da Portaria MF nº 527, de 9 de novembro de 2010. Fl. 342DF CARF MF Processo nº 19515.003484/201057 Acórdão n.º 2401004.615 S2C4T1 Fl. 343 5 11. Nada obstante, a incompletude do acórdão não significa que houve julgamento fora dos limites da demanda, decidindose sobre pedido não formulado ou levando em consideração fatos não deduzidos no processo. 12. O pedido da recorrente foi a total improcedência do auto de infração lavrado em decorrência da identificação do descumprimento de obrigação acessória, com fundamento de que os pagamentos realizados pela empresa a título de PLR não justificavam a imposição da penalidade. 13. Com o fim de se posicionar a respeito do ponto controvertido, a tese vencedora não levou em consideração, na sua motivação, fundamento de fato não alegado pela parte recorrente. Não tenho dúvidas que os fatos examinados no acórdão continuaram restritos à falta de desconto pelo contribuinte da contribuição previdenciária incidente sobre as parcelas de PLR pagas aos segurados e que tal conduta não imporia a aplicação da sanção pecuniária de multa. 14. A matéria não cogitada no recurso voluntário trazida pelos votos divergentes dos conselheiros referese a uma questão meramente de direito, consistente no entendimento jurídico acerca da conduta prevista em lei que é apta a configurar a infração imputada à recorrente. 14.1 Em outras palavras, a análise vencedora diz respeito unicamente à compreensão da situação que caracteriza o descumprimento da norma jurídica da alínea "a" do inciso I do art. 30 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991. 15. Não há óbice, portanto, que o julgador administrativo acrescente outros fundamentos normativos para dar ou negar provimento ao recurso voluntário, desde que limitados à extensão do efeito devolutivo decorrente da interposição do apelo recursal, como ora se cuida. 16. Além do mais, o exame da subsunção do fato narrado pela autoridade lançadora ao antecedente da regramatriz da penalidade imposta é questão fundamental no controle da legalidade dos atos administrativos, relacionado à própria existência de motivação válida para o lançamento fiscal. 17. Em conclusão, cabe acolher os declaratórios com função integrativa, para agregarse novos fundamentos à decisão recorrida, na forma acima exposta, sem alteração, todavia, da parte dispositiva do julgado. 18. A título de observação, ressalvo meu ponto de vista contrário à tese vencedora no recurso voluntário, o que, evidentemente, não autoriza, por si só, conferir aos embargos efeitos modificativos. 19. Na eventualidade de interpretação divergente da legislação tributária entre colegiados distintos, é possível manejar a interposição de recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, na forma regimental. Fl. 343DF CARF MF Processo nº 19515.003484/201057 Acórdão n.º 2401004.615 S2C4T1 Fl. 344 6 Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER dos embargos declaratórios e, no mérito, ACOLHER OS DECLARATÓRIOS, sem efeitos infringentes, para sanar o vício de omissão apontado pela Fazenda Nacional, explicitando os motivos pelos quais foi apreciada questão de direito não ventilada expressamente por ocasião do recurso voluntário, mantida intacta a parte dispositiva do acórdão embargado. É como voto (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess. Fl. 344DF CARF MF
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Numero do processo: 15954.000130/2007-25
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Feb 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/05/2006
CS - OBRIGAÇÃO PRINCIPAL - DECADÊNCIA - APLICAÇÃO DO ART. 150, §4º DO CTN - EXIGÊNCIA DE RECOLHIMENTOS POR COMPETÊNCIA.
A decadência deve ser apreciada a luz do art. 150, §4º do CTN, quando constatado que para s fatos geradores (fundamentos legais) apurados resta demonstrado pela fiscalização a existência de recolhimentos antecipados.
CS - OBRIGAÇÃO PRINCIPAL - APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites, é necessário que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade e aplicação da retroatividade benigna deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.232
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial para que a retroatividade benigna seja aplicada de acordo com a portaria PGFN/RFB 14/2009, vencido o conselheiro Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado), que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/05/2006 CS OBRIGAÇÃO PRINCIPAL DECADÊNCIA APLICAÇÃO DO ART. 150, §4º DO CTN EXIGÊNCIA DE RECOLHIMENTOS POR COMPETÊNCIA. A decadência deve ser apreciada a luz do art. 150, §4º do CTN, quando constatado que para s fatos geradores (fundamentos legais) apurados resta demonstrado pela fiscalização a existência de recolhimentos antecipados. CS OBRIGAÇÃO PRINCIPAL APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites, é necessário que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. 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(assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Fl. 988DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 3 3 Relatório Tratase de Notificação Fiscal de lançamento de Débito – NFLD relativa a diferenças de contribuições devidas pelos segurados empregados, não descontadas contribuições patronais destinadas à Previdência Social – FPAS, ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho – RAT, aos Terceiros, incidente sobre a remuneração paga, devida ou creditada a segurados empregados e contribuintes individuais, no montante de R$ 13.717.420,60 (treze milhões, setecentos e dezessete mil, quatrocentos e vinte reais e sessenta centavos), consolidado em 12/02/2007. Conforme consta do relatório fiscal, fls. 604 2. Ação Fiscal para emissão de NFLD substitutiva à de DEBCAD 32.470.5794 (referente ao período de 01/1993 a 12/1998) e fiscalização normal referente ao período de 01/1999 a 05/2006. Sendo assim a Ação Fiscal teve como abrangência: 2.1. Período de 01/1993 a 12/1998 a Ação Fiscal restringiuse aos débitos que foram apurados na NFLD 32.470.5794; 2.2. Período de 01/1999 a 12/2004 — total com Diário; 2.3. Período de 01/2005 a 05/2006 — total sem Diário, pois a Empresa não apresentou durante o período Ação Fiscal, entre outros documentos, a escrituração contábil — "contabilidade" para o período de 01/2005 a 05/2006, sendo por isto lavrado Al — Auto de Infração especifico com número de DEBCAD 37.072.5913 com código de fundamentação Legal 38. 3. Cabe ressaltar que o crédito constituído através da NFLD 32.470.5794 foi considerado nulo pela DECISA 0 NOTIFICAÇÃO — DN número 21.403.4/666/2002 datado de 10/12/2002 e homologado em 11/12/2002, sendo assim os valores apurados em substituição a NFLD 32.470.5794 foram constituídos na forma do artigo 45, inciso II da Lei n o. 8212/91, transcrito a seguir: [...] 5. Para maior eficiência e praticidade o débito referente à NFLD 32.470.5794 foi desmembrado, o anexo Relatório dos Documentos Lavrados demonstra este desmembramento. Sendo que esta NFLD não faz parte do desmembramento da NFLD 32.470.5794. Consta ainda no Relatório Fiscal (fls. 604/641), que as contribuições apuradas tiveram por incidência os valores constantes da folha de pagamento e da Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. Fl. 989DF CARF MF 4 Ainda, a Fiscalização informa, em relação à cobrança das contribuições devidas aos Terceiros, ter observado o disposto no Parecer da Consultoria Jurídica MPAS nº 2.521/2001. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Previdenciária em Campinas/SP julgado o lançamento procedente, fls. 660. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 17/05/2012, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2301002.824, com o seguinte resultado: "Acordam os membros do colegiado, I) por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, nas preliminares, para excluir do lançamento, devido à regra decadencial expressa no §4º do art. 150 do CTN, as contribuições apuradas até a competência 02/2002, anteriores a 03/2002; II) por maioria de votos: a) em manter a aplicação da multa; b) em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, par que seja aplicada a multa prevista no art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente; III) por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso nas demais alegações da Recorrente.” O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 30/05/2006 DECADÊNCIA. PRAZO PEVISTO NO CTN. O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante nº 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212, de 24/07/91. Tratandose de tributo sujeito ao lançamento por homologação, que é o caso das contribuições previdenciárias, devem ser observadas as regras do Código Tributário Nacional CTN. Aplicase o art. 150, §4º do CTN se verificado que o lançamento referese a descumprimento de obrigação tributária principal, houve pagamento parcial das contribuições previdenciárias no período fiscalizado e inexiste fraude, dolo ou simulação. REMUNERAÇÃO DECLARADA EM GFIP. A empresa está obrigada a recolher a contribuição devida sobre a remuneração paga aos segurados empregados e contribuintes individuais que lhe prestam serviços. INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. Impossibilidade de apreciação de inconstitucionalidade da lei no âmbito administrativo. TAXA SELIC. A utilização da taxa de juros SELIC encontra amparo legal no artigo 34 da Lei 8.212/91. MULTA MORATÓRIA. PENALIDADE MAIS BENÉFICA. O não pagamento de contribuição previdenciária constituía, antes do advento da Lei nº 11.941/2009, descumprimento de Fl. 990DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 4 5 obrigação acessória punida com a multa de mora do art. 35 da Lei nº 8.212/1991. Revogado o referido dispositivo e introduzida nova disciplina pela Lei 11.941/2009, devem ser comparadas as penalidades anteriormente prevista com a da novel legislação (art. 35 da Lei 8.212/1991 c/c o art. 61 da Lei nº 9.430/1996), de modo que eta seja aplicada retroativamente, caso seja mais benéfica ao contribuinte (art. 106, II, “c” do CTN). Não há que se falar na aplicação do art. 35A da Lei nº 8.212/1991 combinado com o art. 44, I da Lei nº 9.430/1996, já que estes disciplinam a multa de ofício, penalidade inexistente na sistemática anterior à edição da MP 449/2008, somente sendo possível a comparação com multas de mesma natureza. Assim, deverão ser cotejadas as penalidades da redação anterior e da atual do art. 35 da Lei nº 8.212/1991. O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional, em 23/10/2012 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs, no mesmo dia, portanto, tempestivamente, o presente Recurso Especial. Em seu recurso visa a reforma do acórdão recorrido em relação aos seguintes aspectos: a) decadência, e b) retroatividade benigna Obrigação Acessória. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme o Despacho nº 2300 204/2014, da 3ª Câmara, de 11/03/2014. O recorrente traz como alegações, em relação ao item “a” – decadência, que: · com base no art. 150, §4º do CTN, identificase a exigência, na análise da decadência do crédito tributário, de considerarse o seu respectivo fato gerador, e ainda, que o tributo sujeito ao lançamento por homologação tenha sido apurado, seguido do cumprimento do dever, pelo sujeito passivo, de antecipar o seu pagamento. · se inexato o pagamento antecipado, negase a homologação e opera se o lançamento de ofício; se omisso na antecipação do pagamento, nada há passível de homologação e a exigência se formalizará por ato de ofício da administração (art. 149, V, do CTN) · sendo lançamento de ofício, para fins de contagem do prazo decadencial, não se aplica o art. 150, §4º, CTN e sim, o art. 173, I, que assim dispõe: · não há que se falar em homologação do lançamento quando não tenha havido pagamento relativo àquele específico fato gerador; ao contrário, a Administração, sob o amparo do art. 149, V, do CTN, deverá exercer o direito de lançar de ofício, enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública na forma do art.173 do CTN. · o STJ, ao interpretar a combinação entre os dispositivos dos arts. 150, §4º e 173, I, ambos do CTN, já pacificou o entendimento, no Fl. 991DF CARF MF 6 julgamento de matéria objeto de recursos repetitivos, entendendo que, não se verificando recolhimento de exação e montante a homologar, o prazo decadencial para o lançamento dos tributos sujeitos a lançamento por homologação segue a disciplina normativa do art. 173 do CTN. · Segundo o CTN, o crédito tributário decorre da obrigação principal (art. 139) e esta, por sua vez, surge com o fato gerador (art. 113, §1º). A decadência é causa extintiva do crédito tributário (art. 156, V), de modo que a sua caracterização tem como marco, inevitavelmente, cada fato gerador que venha a dar origem ao crédito, e portanto, não é possível, à luz do sistema, aplicar genericamente a decadência, sem atentar para cada fato gerador, considerando um único pagamento como suficiente para a aplicação do art. 150, §4º, para todo o restante do período. · Em relação ao item “b” retroatividade benigna obrigação acessória, o recorrente requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 32A, da Lei ny 8.212/91, em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a soma das duas multas anteriores (art. 35, II, e 32, IV, da norma revogada) ou a do art. 35A da MP nº 449/2008. Cientificado do Acórdão nº 2301002.824, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN, em 11/10/2014, o contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 992DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 5 7 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido, conforme Despacho de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial, fls. 712. Assim, não havendo qualquer questionamento acerca do conhecimento e concordando com os termos do despacho proferido, passo a apreciar o mérito da questão. Do mérito As questão objeto do recurso referemse, resumidamente, a regra para aferição da decadência quinquenal, bem como, a retroatividade benigna quanto à natureza das multas aplicadas nos autos de infração de contribuições previdenciárias após a MP 449/2008, convertida na lei nº 11.941/2009. Antes mesmo de apreciar a correta aplicação da regra decadencial no acórdão recorrido, passemos a considerações acerca do tema. O STF em julgamento proferido em 12 de junho de 2008, declarou a inconstitucionalidade do art. 45 da Lei n º 8.212/1991, tendo inclusive no intuito de eximir qualquer questionamento quanto ao alcance da referida decisão, editado a Súmula Vinculante de n º 8, senão vejamos: Súmula Vinculante nº 8“São inconstitucionais os parágrafo único do artigo 5º do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário”. O texto constitucional em seu art. 103A deixa claro a extensão dos efeitos da aprovação da súmula vinculando, obrigando toda a administração pública ao cumprimento de seus preceitos. Assim, prescreve o artigo em questão: Art. 103A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. Ao declarar a inconstitucionalidade do art. 45 da Lei n º 8.212, prevalecem as disposições contidas no Código Tributário Nacional – CTN, quanto ao prazo para a autoridade previdenciária constituir os créditos resultantes do inadimplemento de obrigações previdenciárias. O Código Tributário Nacional, ao dispor sobre a decadência, causa extintiva do crédito tributário, nos casos de lançamentos em que não houve antecipação do pagamento assim estabelece em seu artigo 173: Fl. 993DF CARF MF 8 "Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento." Já em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação, quando ocorre pagamento antecipado inferior ao efetivamente devido, sem que o contribuinte tenha incorrido em fraude, dolo ou simulação, aplicase o disposto no § 4º, do artigo 150, do CTN, segundo o qual, se a lei não fixar prazo à homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador, Senão vejamos o dispositivo legal que descreve essa assertiva: Art.150 O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento. § 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito. § 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. (grifo nosso) Contudo, para que possamos identificar o dispositivo legal a ser aplicado, seja o art. 173, I ou art. 150 do CTN, devemos identificar a natureza das contribuições para que, só assim, possamos declarar da maneira devida a decadência de contribuições previdenciárias. No caso, a aplicação do art. 150, § 4º, é possível quando realizado pagamento de contribuições, que em data posterior acabam por ser homologados expressa ou tacitamente. A procuradoria busca restabelecer as competências excluídas pelo colegiado a quo argumentando que no paradigma a aplicação do art. 150, §4° ou do art. 173, I, do CTN, teve como premissa a identificação de antecipação do pagamento em relação a cada fato gerador isoladamente considerado. Fl. 994DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 6 9 Dessa forma, embora, inicialmente concorde com a tese esboçada pela ilustre procuradora de, em inexistindo recolhimento antecipado a cada fato gerador isoladamente, a decadência deveria ser operada a luz do art. 173, I do CTN, entendo não ser esse o caso dos autos. Na verdade não concordo com a tese esboçada pelo voto vencedor do acórdão recorrido, todavia com as informações trazidas aos autos, entendo que a decadência deve ser realmente apreciada a luz do art. 150, §4º, todavia, por outros fundamentos. Podemos extrair do voto vencido, que a fiscalização manifestouse, fls. 740, acerca dos levantamentos e recolhimentos apurados, senão vejamos: Consequentemente, para a constituição do crédito previdenciário, aplicamse as disposições contidas no Código Tributário Nacional — CTN, consolidandose o entendimento pela possibilidade de incidência de duas regras distintas contidas neste diploma legal, conforme a situação verificada: ocorrendo o pagamento parcial da obrigação, o prazo decadencial para realizar o lançamento se sujeita ao disposto no parágrafo 4° do artigo 150 do CTN, e corresponde a 05 (cinco) anos contados a partir da ocorrência do fato gerador; não ocorrendo qualquer pagamento relativo it obrigação, contase o mesmo prazo de 05 (cinco) anos a partir do primeiro dia do exercício seguinte Aquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos moldes do artigo 173, I, do CTN. As contribuições relativas is competências 01/1999 a 11/2001 e 13/2001 encontramse fulminadas pela decadência, não importando para se chegar a tal conclusão qual das regras do CTN seja aplicada; FG (COMPETÊNCIAS) INÍCIO DA CONTAGEM ÚLTIMO DIA PARA LANÇAMENTO 01/1999 a 11/1999 e 13/1999 01/01/2000 31/12/2004 12/1999 a 11/2000 e 13/2000 01/01/2001 31/12/2005 12/2000 a 11/2001 e 13/2001 01/01/2002 31/12/2006 As contribuições relativas As competências 12/2001 e 01/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 202 — SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 002 33; competência 12/2001 referente ao LEVANTAMENTO 204 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 004 03; competências 12/2001, 01/2002 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 205 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 005 86; competências 12/2001, 01/2002 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 206 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 006 67; competências 12/2001, 01/2002 e 02 12002 referentes ao LEVANTAMENTO 207 — SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 007 48; competência 12/2001 referente ao LEVANTAMENTO 208 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 008 29; competências 12/2001 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 213 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 013 96; competências 12/2001, 01/2002 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 214 — SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 014 77; competências 12/2001, 01/2002 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 215 — SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 015 58; competências 12/2001 e 01/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 217 — SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 017 10; competências 12/2001, 01/2002 e 02/2002 referentes ao LEVANTAMENTO 218 — Fl. 995DF CARF MF 10 SAL. CONTRIB. CNPJ FILIAL 018 09 também restaram atingidas pela decadência, pois de acordo com o relatório de guias de recolhimento registradas e respectivas apropriações, fls 314 a 392 e 393 a 552 existem comprovantes de pagamentos que foram apropriadas parcialmente para estes períodos, aplicando se neste caso o § 4° do artigo 150 do CTN.. 0 Parecer PGFN/CRJ/CDA no 1437/2008 , aprovado pelo— Ministro da Fazenda 26/08/2008, determina em seu item 49: " Consequentemente, lido de ser exercidos pela Receita Federal do Brasil os atos necessários para o reconhecimento administrativo, independentemente de provocação do interessado, da decadência dos créditos " constituídos", com esteio no prazo do art. 45 da i n° 8.212/91(no que exceder os cincos anos do art. 173 do CTN), pendentes de pagamento ou eventualmente pagos a partir de 11/06/2008 ; Ou seja, conforme podemos extrair dos trechos transcritos, a própria fiscalização esclarece a existência de recolhimentos antecipados, razão pela qual aplicável a regra da decadência do art. 150, §4º. Vejamos os dessa forma, em existindo GPS que possam aproveitar esse fundamento legal, para efeitos de cumprimento da exigência de legal de recolhimento antecipado , há de se aplicar o art. 150, §4º do CTN. Ao contrário do que argumenta a procuradoria, a existência de recolhimentos antecipados pode ser detectada pela análise não apenas do relatório DAD, mas pelo conjunto de relatórios que compõem o auto de infração em conjunto com o relatório fiscal, e no presente caso, informação fiscal constante do processo. Fl. 996DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 7 11 Assim, no lançamento em questão a lavratura do AI deuse em 12/2/2007, tendo a cientificação ao sujeito passivo ocorrido no dia 07/3/2007. Os fatos geradores sob reapreciação envolvem as competência 12/2001 a 02/2002. Dessa forma, a luz do art. 150, §4º do CTN, considerando a demonstração nos autos de GPS recolhidas, correta a exclusão das competências, razão pela qual não há o que ser alterado no acórdão recorrido. Aplicação da multa retroatividade benigna Quanto ao questionamento sobre a multa aplicada, a qual deseja o recorrente ver reformado o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 32A, da Lei ny 8.212/91, entendo que razão assiste ao recorrente. Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. Fl. 997DF CARF MF 12 AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da Fl. 998DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 8 13 fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de Fl. 999DF CARF MF 14 pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de Fl. 1000DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 9 15 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. Fl. 1001DF CARF MF 16 § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 1002DF CARF MF Processo nº 15954.000130/200725 Acórdão n.º 9202005.232 CSRFT2 Fl. 10 17 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO PARCIAL, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Fl. 1003DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13708.001963/2002-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 1997
AUDITORIA DE DCTF. ERRO DE FATO. COMPROVAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DO DÉBITO DECLARADO.
Comprovada, por meio de diligência fiscal, a inexistência do débito, declarado em duplicidade em DCTF complementar, deve ser cancelada a exigência.
Numero da decisão: 2202-003.624
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
Assinado digitalmente
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Márcio Henrique Sales Parada, Martin da Silva Gesto, Rosemary Figueiroa Augusto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Cecília Dutra Pillar, Dílson Jatahy Fonseca Neto e José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado).
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Márcio Henrique Sales Parada, Martin da Silva Gesto, Rosemary Figueiroa Augusto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Cecília Dutra Pillar, Dílson Jatahy Fonseca Neto e José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado).
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ERRO DE FATO. COMPROVAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DO DÉBITO DECLARADO. Comprovada, por meio de diligência fiscal, a inexistência do débito, declarado em duplicidade em DCTF complementar, deve ser cancelada a exigência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Márcio Henrique Sales Parada, Martin da Silva Gesto, Rosemary Figueiroa Augusto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Cecília Dutra Pillar, Dílson Jatahy Fonseca Neto e José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado). Relatório Por bem descrever os fatos, reproduzo abaixo o relatório da Resolução nº 2101000.125, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento: Trata o presente processo de Auto de Infração contra a pessoa jurídica em epígrafe, no qual foi apurada falta de recolhimento ou pagamento do principal e declaração inexata. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 70 8. 00 19 63 /2 00 2- 85 Fl. 555DF CARF MF 2 O sujeito passivo impugnou o lançamento (fls. 1 a 42), alegando, em síntese: (i) que o Auto de Infração é nulo por não conter a descrição do fato gerador do tributo e o dispositivo legal violado; (ii) todos os créditos lançados encontramse extintos por pagamento; e (iii) não há que se falar em multa de ofício de 75%, tendo em vista que todos os créditos foram declarados em DCTF. Analisando os autos, a Divisão de Acompanhamento e Análise do Crédito Tributário – Dicat da Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Maiores Contribuintes – Demac no Rio de Janeiro (RJ) constatou a improcedência do lançamento dos débitos relacionados às fls. 252, no valor total de R$ 339.878,88 (fls. 255) e propôs a revisão de oficio do lançamento. O crédito sob controle foi reduzido para R$ 866.768,38 de imposto mais R$ 650.076,28 de multa (fls. 256 e 257) e os autos foram encaminhados para a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) no Rio de Janeiro 1 (RJ), para apreciar o mérito dos demais débitos questionados. A 7.ª Turma da DRJ no Rio de Janeiro 1 (RJ) julgou a impugnação improcedente, por meio do Acórdão n.º 1237.633, de 1 de junho de 2011. Inconformada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, no qual suscita uma preliminar de tempestividade e, no mérito, alega que, por equívoco, declarou, nas DCTF complementares, os mesmos débitos que já haviam sido informados nas originais, gerando uma duplicidade dos débitos relativos ao terceiro e ao quarto trimestres de 1997. Reitera os argumentos já trazidos, na impugnação, quanto à multa de ofício e requer a reforma da decisão recorrida. É o Relatório Na sessão de 14 de maio de 2013, os membros da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento resolveram converter o julgamento em diligência, para que a autoridade fiscal tomasse as seguintes providências (fls. 406/409): [...] intime a interessada a apresentar: a) cópias das folhas dos Livros Diário e Razão, com os respectivos Termos de Abertura e Encerramento, nas quais fique demonstrada a apuração do imposto sobre a renda na fonte correspondente aos períodos de apuração ainda em litígio, relacionados no Anexo Ia do Auto de Infração – Relatório de Auditoria Interna de Pagamentos Informados na DCTF; b) caso queira, documentação bancária na qual fique comprovada a movimentação financeira, dando suporte a suas alegações. Finda a diligência, a repartição deve elaborar relatório circunstanciado, dando ciência ao contribuinte, conferindolhe prazo para manifestação. A autoridade fiscal emitiu o Relatório Conclusivo da Diligência Fiscal de fls. 541/542, no qual verificou que não ocorreram fatos geradores que justificassem o recolhimento Fl. 556DF CARF MF Processo nº 13708.001963/200285 Acórdão n.º 2202003.624 S2C2T2 Fl. 556 3 em dobro dos tributos, levando à conclusão de que as DCTFs complementares foram enviadas em duplicidade pela Castrol Brasil Ltda. Cientificada do resultado da diligência, a Contribuinte não se manifestou, conforme termo de fl. 540. Tendo em vista a extinção da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, o processo foi sorteado para essa 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, para a minha relatoria. É o relatório. Voto Conselheiro MARCO AURÉLIO DE OLIVEIRA BARBOSA Relator O recurso é tempestivo e está dotado dos demais pressupostos legais de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. A Recorrente alega ter cometido equívoco no preenchimento das DCTF, ao declarar em duplicidade, nas declarações complementares, créditos tributários já informados nas originais e devidamente quitados. Afirma que, por essa razão, os créditos declarados nas DCTF complementares referentes aos terceiro e quarto trimestres de 1997 teriam permanecido em aberto. Conforme Relatório Conclusivo da Diligência Fiscal de fls. 541/542, a autoridade fiscal concluiu o seguinte: [...] como resultado da auditoria, foi possível verificar que não ocorreram fatos geradores que justificassem o recolhimento em dobro dos tributos, levando à conclusão de que as DCTFs complementares constantes do relatório das fls. 278 a 285 (numeração eletrônica) do Processo Administrativo nº 13708.001963/200285 foram enviadas em duplicidade pela Castrol Brasil Ltda. De acordo com a conclusão da diligência efetuada pela autoridade fiscal, assiste razão à Recorrente, pois foi constatado que os valores declarados nas DCTFs complementares, objeto do presente litígio, foram enviados em duplicidade, não existindo fatos geradores que os justificassem. Dessa forma, voto por DAR provimento ao recurso. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator Fl. 557DF CARF MF 4 Fl. 558DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10480.917363/2011-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 06 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3401-001.096
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
(assinado digitalmente)
Robson José Bayerl - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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COMPENSAÇÃO. ALARGAMENTO. Recorrente RODOBENS CAMINHÕES PERNAMBUCO LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Robson José Bayerl, Rosaldo Trevisan, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Trata o presente processo administrativo de PER que pretende obter reconhecimento de direito creditório das contribuições por suposto pagamento a maior. O sistema informatizado da Receita Federal emitiu o Despacho Decisório em processamento automatizado indeferindo o pedido, afirmando que o valor do DARF de onde viria o crédito já estava totalmente comprometido em quitação de débito constante de declaração prestada pelo contribuinte ao Fisco. A contribuinte manifestou inconformidade, explicando que: 1. A autoridade de administração e a autoridade fiscal não tomaram conhecimento das razões da contribuinte para seu direito, nem se aprofundaram em sua análise, nem buscaram investigar os fatos; a contribuinte não foi intimada a explicar os fundamento do seu pedido antes do despacho decisório; RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 80 .9 17 36 3/ 20 11 -4 5 Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10480.917363/201145 Resolução nº 3401001.096 S3C4T1 Fl. 3 2 2. seu direito repousa no fato de que ela indevidamente tinha incluído na base de cálculo do tributo receitas (tais como receitas financeiras, e outras), face a declaração de inconstitucionalidade pelo STF para o § 1º do artigo 3º da Lei 9.718/1998; pois a base de tributação deve se cingir às receitas de faturamento pela venda de mercadorias e da prestação de serviços. 3. Pede a reunião dos vários processos administrativos que tratam da mesma matéria/tributo, mudando apenas os períodos de apuração, para serem julgados na mesma ocasião. Os Julgadores de 1º piso não acolheram o pedido de reunião dos vários processos. Eles também consideraram improcedente o recurso da contribuinte, entendendo pela insuficiência de provas pelo alegado. Seria da contribuinte o ônus de provar o direito objeto do seu pedido, no momento da interposição da Manifestação de Inconformidade, sob pena de preclusão, ressalvadas as exceções legalmente previstas, nos termos do art. 16, caput, III e §4°, do Decreto 70.235/72, conforme consta do voto da decisão recorrida. Concluíram, os Julgadores a quo, pelo não reconhecimento do direito creditório, nos termos do Acórdão 11041.092. Inconformada, a contribuinte ingressou com recurso voluntário por meio do qual repisou as alegações apresentadas na manifestação de inconformidade, e acrescentou as seguintes: ● não é verdade que houve insuficiência de provas, pois apresentou planilha, balancete e livro obrigatório da contabilidade da contribuinte; ● a autoridade fiscal não questionou a efetividade dos pagamentos em discussão; ● não pode prevalecer o entendimento esposados pelos julgadores de 1º piso de que houve preclusão para a juntada de provas; isso fere o disposto na letra "c" do § 4º do artigo 16 do Decreto n. 70.235, de 1972 (apresentar provas que se destine a contrapor fatos e razões posteriormente trazidas aos autos). Cita doutrina, acórdãos e jurisprudências; ● a falta de retificação da DCTF não deve servir de justificativa para não se analisar e se deferir o direito da contribuinte; ● Não procede o entendimento dos Julgadores a quo de que a declaração de inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei n. 9.718/1998 proferida pelo STF não seja de observação obrigatória no processo administrativo fiscal; ● a Verdade Material deve prevalecer, e a autoridade deve realizar um exame completo dos fatos. É o relatório Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10480.917363/201145 Resolução nº 3401001.096 S3C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Robson José Bayerl, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3401000.984, de 25 de janeiro de 2017, proferida no julgamento do processo 10480.900040/201201, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela Resolução (3401000.984): "Tempestivo o Recurso e atendidos os demais requisitos de admissibilidade. Temos diante de nós mais um caso de despacho decisório processado automaticamente, sem que haja qualquer intervenção humana para rever o seu teor e a eventual existência de razões para questionar sua conclusão. É freqüente, nessas situações, que a contribuinte somente compreenda totalmente a situação quando recebe a decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento mantendo o indeferimento eletrônico inicial, geralmente por falta de provas ou de contra argumentações por parte da contribuinte. Nessa toada, há os que se escudam no instituto da preclusão probatória para justificar a impossibilidade de reverter as negativas até então impostas à contribuinte. Coerente com minhas propostas de votação anteriores em situações semelhantes, baseado no argumento de que o princípio da verdade material deve prevalecer, relativizando as formalidades e os institutos preclusivos e assemelhados, e no argumento de que não é do interesse público maior praticar a injustiça fiscal qual seja, a manutenção no Tesouro do pagamento indevido , é que proponho que se tome providências para garantir substantivamente o contraditório (e não apenas formalmente) e para se verificar a verdade do alegado pelas partes. As teses que esposo divergem das postas no acórdão de 1º piso: (a) para uma visão absoluta do ônus probatório e do instituto da preclusão probatória, argumento em favor de que prevaleça a Verdade Material, e que os julgadores do processo administrativo possam agir e determinar providências nessa direção, aliás como expus em outros votos quando fiz alusão aos modelos trazidos pelo novo CPC; (b) que a negativa em pedidos de restituição e/ou compensações motivada pela inexistência de créditos líquidos e certos passe a considerar que a liquidez e certeza possam ser demonstradas ao longo do processo administrativo, não se limitando ao que o instruiu antes de sua chegada à instância de julgamento. Ressalto que a contribuinte, segundo que foi relatado, em sua primeira contestação havia juntado balancetes e planilhas, o que poderia ser no mínimo considerado princípio de prova. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10480.917363/201145 Resolução nº 3401001.096 S3C4T1 Fl. 5 4 Por isso, tendo em vista que a administração tributária de jurisdição não apreciou as razões do suposto direito creditório, proponho a este Colegiado a conversão do julgamento em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo. Que se dê ciência à contribuinte desta decisão e também do relatório conclusivo e da informação fiscal resultantes da diligência, e prazo de 30 dias para ela se manifestar em cada uma dessas intimações." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, converto o julgamento deste processo em diligência para que a unidade de jurisdição local analise e informe a respeito do alegado pela contribuinte, e também a respeito da existência de retificação realizada ou tentada pela contribuinte com relação ao (débitos e créditos) discutido neste processo administrativo. (assinado digitalmente) Robson José Bayerl Fl. 178DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.720017/2007-43
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR
Exercício: 2005
ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE.
Consideram-se preservação permanente as florestas e demais formas de vegetação natural situadas ao redor de reservatórios d'água artificiais.
ÁREAS ALAGADAS. SÚMULA CARF 45
O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural não incide sobre áreas alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidroelétricas
Numero da decisão: 2201-003.452
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar
provimento ao recurso voluntário. Realizou sustentação oral, pelo Contribuinte, a Dra. Rachel Zerbinato Bispo, OAB/RJ 142.936.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO
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Consideram-se preservação permanente as florestas e demais formas de vegetação natural situadas ao redor de reservatórios d'água artificiais. ÁREAS ALAGADAS. SUMULA CARF 45 O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural não incide sobre áreas alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidroelétricas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Realizou sustentação oral, pelo Contribuinte, a Dra. Rachel Zerbinato Bispo, OAB/RJ 142.936. Assinado digitalmente Carlos Henrique de Oliveira - Presidente. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator. EDITADO EM: 24/02/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente Convocado), Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. A C Ó R D Ã O G E R A D O N O P G D -C A R F PR O C E SS O 1 07 68 .7 20 01 7/ 20 07 -4 3 Fl. 2.495 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária vereiro de 2017 vereiro de 2017 FURNAS-CENTRAIS ELETÉTRICAS SA FURNAS-CENTRAIS ELETÉTRICAS SA FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL AA Fl. 2495DF CARF MF 2 Relatório O presente processo trata da Notificação da Lançamento nº 01201/00003/2006 (fl. 3 a 7), pela qual a autoridade fiscal lançou crédito tributário relativo a Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural no valor originário de R$ 1.546.374,89, com Multa de Ofício de R$ 1.159.781,16 e juros de mora de R$ 197.935,98 (calculados até 31/07/2006), perfazendo o total apurado de R$ 2.904.092,03. O lançamento é relativo ao exercício de 2005 e o imóvel rural em questão está identificado na Receita Federal do Brasil pelo número 1.542.922-9. Atesta a Fiscalização que o contribuinte, regulamente intimado, não comprovou, por meio de laudo de avaliação do imóvel, o Valor da Terra Nua - VTN declarado, o que levou ao seu arbitramento com base nas informações disponíveis no Sistema de Preços de Terras - SIPT. A autoridade fiscal complementa a descrição dos fatos com suas considerações diante dos argumentos expostos pelo contribuinte em resposta à intimação fiscal, que tratou dos seguintes temas: - que a área do imóvel foi adquirida por desapropriação com fim exclusivo de formação de reservatório para instalação de parque gerador de energia; - que a Constituição Federal estabelece que são propriedade da União as áreas de rios e lagos; - que o imóvel não possui valor de mercado porque é um bem publico, razão pela qual adota VTN igual a zero; Discorrendo sobre tais alegações, o Auditor-Fiscal conclui que, na desapropriação de imóveis promovidas pelas empresas concessionárias, o beneficiário direto da expropriação é o prestador do serviço público, que tem tais propriedades incorporadas ao seu patrimônio e não da União; que as áreas de reservatório são, portanto, bens da empresa, afetados às suas atividades essenciais, não deixando de serem propriedades da empresa tão somente por estarem submersos. Ciente do lançamento em 11 de junho de 2007, fl. 62, o contribuinte apresentou a impugnação de fl. 64 a 92, em 21 de agosto de 2007, a qual foi julgada em 1ª Instância pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília/DF, cujas conclusões encontram-se expressas no Acórdão de fl. 176/187, acatado por unanimidade de votos, e que podem ser assim resumidas: Da Incidência do ITR, fl. 182 Da análise das alegações e documentos apresentados no presente processo, verifica-se que a impugnante contesta o crédito tributário lançado (f1s. 01/05), argüindo a tese da não- incidência do ITR/2005 sobre as áreas submersas, cobertas por águas do reservatório da usina hidrelétrica, e sobre as áreas de segurança que as margeiam. Fl. 2496DF CARF MF Processo nº 10768.720017/2007-43 Acórdão n.º 2201-003.452 S2-C2T1 Fl. 2.496 3 A requerente sustenta que o simples fato de ser proprietária de imóveis localizados fora de zonas urbanas de municípios não autoriza a cobrança do ITR, pois, na situação presente, a atividade da empresa é eminentemente industrial - produtora, transmissora e distribuidora de energia elétrica - não explorando qualquer atividade de natureza rural. (...) O Parecer/COSIT n" 15/2000 aborda e rebate a tese da não incidência tributária defendida pela impugnante, quando argumenta que os rios, lagos (naturais e artificiais), os terrenos marginais, as praias fluviais c os potenciais de energia integram, também por força constitucional, o patrimônio da Unido (art. 20, incisos III e VIII da CF/88). Esse parecer deixa claro que as áreas submersas pelas águas do reservatório de Usina Hidrelétrica foram incorporadas ao patrimônio da empresa, exploradora das atividades de eletricidade (para produção ou geração de energia elétrica), justamente com essa finalidade. Portanto, esses imóveis têm função econômica relevante para a empresa, integralizando parte de seu patrimônio, pois estão destinados ou afetados às suas atividades essenciais. (...) Dessa forma, concluiu-se que as áreas continuas do imóvel que abrigam as usinas e reservatórios são tributadas, sujeitando-se à apuração do ITR, excluídas apenas as áreas de interesse ambiental, reconhecidas por Ato Declaratório do IBAMA. Registre-se que requerente não informou a existência de quaisquer Áreas de Preservação Permanente c/ou de utilização limitada na D1TR/2005 (fls. 04). Do Grau de Utilização do Imóvel - 0,0%, fl. 184 Observe-se que a própria contribuinte apurou, na declaração do ITR/2005, grau de utilização da área aproveitável do imóvel (GU) de 0,0 %, com aplicação da alíquota de cálculo de 20,0 % (fls. 04). (...) Para fins de aferição do grau de utilização do imóvel e aplicação da respectiva alíquota de cálculo, nos termos do art. 10 da Lei n" 9.393/1996 e Tabela de Alíquotas anexa, o que importa é a efetiva utilização das áreas aproveitáveis do imóvel com atividades de natureza tipicamente rural (pecuária, agrícola, granjeira, aquícola ou florestal), sem levar em consideração, por absoluta falta de previsão legal, outros tipos de exploração econômica. (...) Assim, entendo que compete a esta turma de julgamento manter o grau de utilização do imóvel em 0,0%, com aplicação da alíquota de cálculo máxima de 20,0% para a dimensão do imóvel, ainda que essas áreas de terras estejam recebendo o mesmo tratamento tributário dispensado a latifúndios improdutivos. Do VTN Tributado , fl. 185 Fl. 2497DF CARF MF 4 (...) Por isso, para revisão desse VTN arbitrado, a impugnante deveria apresentar Laudo Técnico de Avaliação com ART/CREA, emitido por profissional habilitado ou empresa de reconhecida capacitação técnica, de acordo com a norma NBR nº 14.653-3 da ABNT, no teor da intimação inicial (fls. 06/07), que pudesse demonstrar de maneira inequívoca o cálculo do VTN tributado, a preços de 1' de janeiro do exercício de 2005. No entanto, não foi apresentado qualquer documento para justificar esse valor. (...) Logo, não se vislumbra no procedimento seguido pela autoridade fiscal, ao caracterizar a subavaliação do VTN do imóvel, qualquer ilegalidade que pudesse invalidar o credito tributário suplementar lançado. (...) Dessa forma, entendo que deva ser mantida a tributação do imóvel com base no VTN arbitrado pela autoridade fiscal para o 1TR/2005. Da Multa Proporcional - 75% A multa proporcional de 75,0% foi cobrada com fundamento no § 2" do art. 14 da Lei n°9.393/1996, (...) No presente caso, foi aplicada a multa de 75,0 % por ter havido subavaliação do VTN informado na declaração do 1TR/2005, em face da interpretação incorreta da legislação tributária pertinente. Dessa forma, entendo que deva ser mantida a cobrança da multa lançada de 75,0%, por estar de acordo com a legislação de regência. Com relação à diligência solicitada, não há como deferi-la, pois, além de o ônus da prova documental ser da contribuinte, não cabendo à autoridade administrativa produzir provas relativas ao VTN do imóvel fiscalizado, não há matéria de complexidade que demande a realização da perícia pleiteada. (...) Portanto, nenhuma circunstância há que justifique a perícia pleiteada. Como se viu, o lançamento limitou-se a formalizar a exigência apurada a partir das informações da DITR/2005, não havendo matéria de complexidade que demande parecer técnico complementar. Assim, e em observância ao art. 18 do Decreto n.° 70.235/1972 (PAF), cumpre que se indefira o pedido sob análise. Diante do exposto, voto para que se julgue procedente o lançamento do 1TR/2006, consubstanciado na notificação de lançamento/anexos de lis. 01/05, mantendo-se o imposto suplementar apurado pela autoridade fiscal, conforme demonstrado. Ciente do Acórdão da DRJ em 22 de janeiro de 2010, fl. 191, o contribuinte apresentou, o Recurso Voluntário de fl. 196 a 227, em 19 de fevereiro de 2007, cujos tópicos serão tratados no curso do voto a seguir. Com base nas considerações expostas na peça recursal, concluiu que: Fl. 2498DF CARF MF Processo nº 10768.720017/2007-43 Acórdão n.º 2201-003.452 S2-C2T1 Fl. 2.497 5 (i) a fiscalização federal presumiu a ocorrência do fato jurídico tributário e, sem mensurar a verdadeira base de cálculo, sem efetuar cálculos ditados pela Lei 9.393/96 — apontada como fundamento da capitulação da infração — (sem efetuar qualquer exclusão de valores, qualquer subtração de áreas e sem a. multiplicação necessárias à apuração do imposto) - apurou por arbitramento o valor da terra nua do imóvel onde está construída a USINA HIDRELÉTRICA, como comparável com imóvel com aptidão agrícola definida como pastagem; (ii) a fiscalização aplicou multa de 75% sobre base de cálculo incompatível- inexistente, alias - como demonstrado na alínea anterior, além de ser ofensiva aos parâmetros aceitos pela legislação e jurisprudência; (iii) a fiscalização desconsiderou áreas de exclusão indiscutível: margens, áreas de preservação permanente pela só determinação legal (Lei n° 4771/65, com redação dada pela Lei n° 7.803/89 transcrita linhas acima, bem como a RESOLUÇÃO n° 302, de 20/03/2.002, expedida pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente — CONAMA), no mínimo; (iv) as porções de terra cobertas pelas águas de reservatórios das usinas hidrelétricas - ou que lhe servem de margem legal, de preservação ou de segurança - são bens de domínio público da União e nunca poderiam ser colhidas no critério material da hipótese de incidência de qualquer tributo, quanto mais ainda de imposto da competência privativa e exclusiva daquela mesma pessoa política de direito público interno. As áreas, por ilação lógica, estão fora do campo de abrangência do imposto, isto 6, não são passíveis de sua incidência; (v) a base de cálculo, grandeza fundamental para a consistência lógica da regra-matriz, simplesmente inexiste, bastando examinar, a titulo de demonstração, como ficariam, se porventura houvesse, as funções mensuradora, objetiva e comparativa dessa entidade, como demonstrado linhas atrás. Ademais, a legislação não cuidou para que as hidrelétricas - se exercem atividade "não rural", como consta no Formulário para Declaração - pudessem excluir do valor do imóvel qualquer quantia relativa as instalações, benfeitorias e construções, como qualquer outro contribuinte do imposto, nem mesmo qual o valor que pode ser considerado para a avaliação de terreno alagado que, por certo, não serve as atividades ali nomeadas; (vi) Ainda quando a autoridade administrativa, sob o argumento: "a impugnante não apresentou qualquer documento comprovando os valores das áreas adotou, para o Município onde está situada, para o imóvel com aptidão agrícola definida como de uso misto inaproveitável, campo ou outros e calculou e arbitrou o Valor da Terra Nua do referido imóvel para cada ano. Esse valor somado ao indicado pela declarante a titulo de benfeitorias correspondem ao valor venal do imóvel nos respectivos exercícios ...." Logo, o que se vislumbra, contrariamente ao que assevera a autoridade "a quo" é a Fl. 2499DF CARF MF 6 flagrante arbitrariedade e ilegalidade com que agiu o Fisco, tanto ao admitir como VTN o valor fundiário genericamente estabelecido para o Município onde está situada a Usina Hidrelétrica, para a "terra com aquelas aptidões agrícolas mencionadas, arbitrando o VTN e somando-o ao declarado pela recorrente com benfeitorias, como se encontrasse amparo na Lei n° 9.393/96! E, como não o encontrou na lei, como determina a ordem jurídica, baseou-se em "parecer" emitido pela Secretaria da Receita Federal. (vii) é surpreendente, para não dizer surrealista, o argumento utilizado pela autoridade "a quo" para aceitar a ocorrência do fato jurídico tributário (fato gerador) e da base de cálculo. É inacreditável a força que se pretende dar ao argumento de que, no caso, trata-se de "área de pastagem", onde não há qualquer referência àquela porção de terra "coberta por água", necessária ao exercício da própria atividade: energia elétrica. Só a criatividade da autoridade fiscal, no afã de manter a exigência, pode determinar. (viii) aceitar a tributação nos termos em que indicada no Auto de Infração em debate é desobedecer garantia assegurada no Texto Constitucional, inserta no artigo 150, IV, da Constituição da Republica, qual seja: utilização de tributo com efeito de confisco. (ix) convém lembrar que o Fisco não procedeu a qualquer diligência para fosse apurado, acaso não fosse reconhecida, de plano, a improcedência da pretensão fazendária, os elementos mínimos para a manutenção do feito fiscal, nos termos ditados pela legislação, quais sejam: (a) área total do imóvel; (b) área alagada do imóvel; (c) construção, instalação e benfeitorias; (d) área de preservação permanente nos moldes da legislação florestal (Lei 4.771/65, em sua redação atualizada); (e) área que pertence à União, nos moldes do estabelece o artigo 20, III da Constituição da Republica; (f) área tributável — Lei n° 9.393/96; (g) valor da terra nua; (h) área aproveitável; (i) área utilizada e (j) grau de utilização. Conclui seus argumentos requerendo que seja acolhido o Recurso e determinado o arquivamento do feito, por entender que a exigência tributária imposta não encontra guarida no ordenamento jurídico vigente. Em 08 de outubro de 2014, em julgamento de 2ª Instância, o Colegiado, por maioria de votos, converteu o julgamento em diligência a fim obtenção de provas nos termos abaixo, vendido o Conselheiro Relator que votou por dar provimento ao Recurso Voluntário, fl. 317/327: a) Documentação (p. ex., atos expropriatórios e outros atos de transferência e registro de propriedade), que demonstrem a aquisição, pela recorrente da dimensão de área tributada, 7.334,4 ha. (NIRF 1.542.9229), devidamente acompanhada de quaisquer elementos outros (tais como laudos e mapas georreferenciados) que permitam uma clara vinculação entre os elementos supra, relacionados à aquisição de propriedade, e a referida área total. Fl. 2500DF CARF MF Processo nº 10768.720017/2007-43 Acórdão n.º 2201-003.452 S2-C2T1 Fl. 2.498 7 b) Documentação idônea (composta por laudo, mapas georreferenciados e/ou outros), através da qual se estabeleça uma exaustiva segregação da área objeto de tributação (7.334,4 ha.) nos seguintes grupos: b.1) Total de área a título de áreas alagadas; b.2) Total de área a título de áreas marginais, especificando necessariamente aqui aquelas definidas como Áreas de Preservação Permanente, consoante art. 2o, alíneas “a” e b” da Lei no. 4.771, de 15 de setembro de 1965 e b.3) outras. Atendendo a Intimação Fiscal em sede de Diligência, fl. 356, o recorrente juntou a documentação de fl. 359 a 2.486 É o relatório necessário. Voto Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Em razão de ser tempestivo e por preencher demais condições de admissibilidade, conheço do presente Recurso Voluntário. Inicialmente, entendo oportuno tecer algumas considerações sobre a lide em tela. Trata-se de autuação fiscal, em sede de Revisão de Declaração, onde o contribuinte foi instado a comprovar tão somente o VTN declarado. Na resposta à intimação, o contribuinte não comprovou o VTN e pleiteou a retificação de sua Declaração de Imposto Territorial Rural - DITR pelas razões então expostas, as quais foram consideradas improcedentes e deram origem à Notificação de Lançamento em discussão. O recorrente, valendo-se de argumentos reiterados e com boa lógica argumentativa, busca atribuir ao Fisco uma obrigação que é sua. Afinal, a apuração e o pagamento do ITR é efetuado pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da Administração Pública, sujeitando-se, apenas, a homologação posterior. Ou seja, o contribuinte deve fazer todos os levantamentos necessários à apuração do tributo e, caso instado para tal, deve comprová-los à autoridade fiscal(art. 10 da lei 9.393/96). Ora, neste caso, o contribuinte informou em sua DITR um VTN sem qualquer critério conhecido e, no momento do procedimento de homologação de sua Declaração, não comprova a informação prestada e, ainda, busca atribuir ao Fisco a responsabilidade pela apuração efetiva não apenas do Valor de sua Terra Nua, mas de todas as informações declaradas. Com isso, pretende a retificação de sua declaração, após o início do procedimento fiscal e sem apresentar documentos que amparem o pleito e que demonstrem o erro de fato no preenchimento da DITR. Limita-se a argumentos jurídicos que, como é de elementar sabença, podem não sobrepor outras teses igualmente bem construídas. Fl. 2501DF CARF MF 8 Assim, equivoca-se o contribuinte ao atribuir a manutenção da exigência fiscal à criatividade da autoridade fiscal. Os argumentos expostos tanto pelo Auditor Fiscal no curso do procedimento ou pela Turma de Julgamento de 1ª Instância, podem até não contar com a simpatia da representação do recorrente, mas não são conclusões criativas, posto que claros e pertinentes os lastros legais e normativos em que se fundam. Assim, deixando à margem questões não menos relevantes, inclusive entendimento pessoais sobre o tema, que só fariam aumentar o tempo e o custo de tramitação do presente litígio administrativo, temos que o cerne da presente demanda está na incidência do ITR sobre áreas ocupadas por reservatórios de usinas hidrelétricas. A partir da inclusão da alínea "f" do inciso II, do art. 10, da lei 9.9393/96, levada a termo pela Lei 11.727/2008, não há dúvidas sobre a possibilidade de exclusão das áreas ocupadas por tais reservatórios da área tributável do imóvel, não sendo tal permissivo legal oponível ao presente caso, já que o lançamento em discussão trata de fato gerador ocorrido em 1º de janeiro de 2006. Não obstante, a situação em tela é uma questão sobre a qual este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já se manifestou uniforme e reiteradamente, tendo emitido Súmula de observância obrigatória, nos termos do art. 72 de seu Regimento Interno, aprovado pela Portaria do Ministério da Fazenda nº 343, de 09 de junho de 2015, cujo conteúdo transcrevo abaixo: Súmula CARF nº 45: O Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural não incide sobre áreas alagadas para fins de constituição de reservatório de usinas hidroelétricas. A Súmula Carf nº 45 teve como um de seus paradigmas o Acórdão 3303- 35.854, de relatoria da Conselheira Vanessa Albuquerque Valente e que tratava de ITR relativo ao ano de 2003. Naturalmente, como, em 2003, a isenção prevista na Lei 11.727/2008, citada alhures, ainda não emprestava seus efeitos à apuração do Fato Gerador do ITR, pode-se inferir que o espírito da Súmula Carf nº 45 está alinhado ao voto condutor. Assim, entendo oportuno destacar algumas conclusões daquele julgado, que, por coincidência, citaram a ora recorrente, ainda que não fosse a interessada direta da lide então em discussão: Feitas essas considerações, concluo, diante de todas as questões postas no decorrer do voto que: a) Não há incidência do ITR sobre as áreas de propriedade de Fumas que constituem a Usina Hidrelétrica, pois após terem sido desapropriadas sobre tais áreas foi construída a referida Usina Hidrelétrica recebendo as águas represadas, que como trabalhado nessa peça, tais águas são bens da União. b) Não há incidência do ITR sobre as áreas de propriedade de Fumas que constituem a Usina Hidrelétrica, posto que a transferência da referida propriedade para a Recorrente foi pressuposto para que fosse construída a referida Usina, que após construída tornou público o bem, de tal modo que a propriedade da Recorrente é limitada aos aspectos de registros formais e contábeis, não podendo lhe ser atribuída qualquer das características ou elementos da propriedade, de tal modo que a Recorrente não se enquadra como sujeito passivo do ITR por não ter a propriedade, a posse ou o domínio útil das terras. Fl. 2502DF CARF MF Processo nº 10768.720017/2007-43 Acórdão n.º 2201-003.452 S2-C2T1 Fl. 2.499 9 c) Não há incidência do ITR sobre as áreas de propriedade de Fumas que constituem a Usina Hidrelétrica, pois as águas represadas que inundam as terras pertencem à União, que detém o domínio útil dessas terras, sendo, portanto, eventual sujeito passivo do imposto, que tem a sua incidência afastada pela imunidade recíproca. d) Não há incidência do ITR sobre as áreas do entorno do reservatório que forma a Usina Hidrelétrica por ser área de preservação permanente nos termos da legislação aplicável, e em conseqüência, excluída do campo da incidência do ITR. e) Não há incidência do ITR sobre as áreas de propriedade de Fumas que constituem a Usina Hidrelétrica, em vista da impossibilidade de ser atribuído, nos termos da legislação aplicável, o valor da terra nua. Enfim, em vista da análise constitucional, legal e fática, entendo como impossível, frente ao ordenamento jurídico vigente a incidência do ITR sobre as terras submersas sobre as águas que compõem os reservatórios formadores de Usinas Hidroelétricas, bem como de toda a área que faz margem ao referido reservatório." Como se constata nos autos, embora o contribuinte tenha resistido em prestar as informações no formado adequado para situações desta natureza, especialmente mediante apresentação de memorial descritivo elaborado nos termos do art. 9º do Decreto 4.449/2002, entendo que as informações trazidas contribuem para a conclusão do presente julgado. Em fl. 407 a 410, o recorrente apresenta um resumo das áreas adquiridas que compõem o imóvel rural objeto do lançamento, apontando os nomes dos ex-proprietários. Os documentos subsequentes individualizam cada uma das aquisições, sempre com os Registros Públicos acompanhados dos respectivos laudos de avaliação de cada propriedade. Tais documentos foram analisados por amostragem, concluindo-se que o resumo de fl. 281 a 284 tem lastro documental adequado. É verdade que há um ou outro caso em que se notam pequenas diferenças decorrentes de áreas chamadas "remanescentes", mas que não maculam a verossimilhança das informações contidas em seu conjunto. Portanto, considerando toda documentação juntada aos autos (registros e laudos de avaliação de cada uma das partes adquiridas), entendo que merece fé o documento de fl. 406, que aponta a existência de Área Inundável de 6.550,5732 ha, APP/Segurança de 291,5166 ha e Áreas do Canteiro de Obras de 492,3355, perfazendo o total de 7.334,4253. Assim, apenas em razão da Súmula Carf nº 45, já teríamos diminuído a área tributável do imóvel para 783,8 ha (7.334,4 ha, de área total - 6.550,6 ha, de área inundável). Com o destaque para o então Código Florestal, Lei 4.771/65, na alínea "b" do art. 2º, que reconhece como Área de Preservação Permanente, nos limites que cita, as florestas e demais formas de vegetação situadas ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais. Diante do exposto, considerando que toda a área do imóvel estaria fora do campo de incidência do tributo rural, seja por conta dos termos da Súmula Carf nº 45, seja por Fl. 2503DF CARF MF 10 serem ocupadas por benfeitorias ou por Área de Preservação Permanente, há se reconhecer a improcedência da exigência fiscal em tela. Conclusão Tendo em vista tudo que consta nos autos, bem assim na descrição e fundamentos legais acima expostos, voto por dar provimento ao recurso voluntário. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator Fl. 2504DF CARF MF
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Numero do processo: 13819.001190/95-71
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Apr 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 1993
DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Não tendo sido especificamente apontadas pela DRJ as razões que a levaram a anular o lançamento original, mas considerando que tal ato deu-se com base na Instrução Normativa -IN SRF nº 94/1997, artigo 6º, que diz em seu texto que as anulações de lançamentos nela baseadas dar-se-iam "sem prejuízo do disposto no artigo 173, II, do CTN", reputo que a anulação deu-se pela constatação de vício formal e, portanto, deve ser aplicado o artigo 173, II, do Códex Tributário, na contagem do prazo decadencial do lançamento em debate.
DESPESAS MÉDICAS.
Poderão ser deduzidos os pagamentos referentes a despesas médicas efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes, desde que comprovados mediante documentação hábil e idônea.
IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. GLOSA FUNDAMENTADA EM SÚMULA ADMINISTRATIVA DE DOCUMENTAÇÃO TRIBUTARIAMENTE INEFICAZ. SÚMULA 40 DO CARF.
A apresentação de recibo emitido por profissional para o qual haja Súmula Administrativa de Documentação Tributariamente Ineficaz, desacompanhado de elementos de prova da efetividade dos serviços e do correspondente pagamento, impede a dedução a título de despesas médicas.
Numero da decisão: 2202-003.713
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar de decadência, vencidos os Conselheiros Cecilia Dutra Pillar (Relatora), Martin da Silva Gesto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado), que a acolheram. No mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor, na parte em que foi vencida a Relatora.
Assinado digitalmente
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente
Assinado digitalmente
Cecilia Dutra Pillar - Relatora
Assinado digitalmente
Marcio Henrique Sales Parada - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado).
Nome do relator: CECILIA DUTRA PILLAR
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INOCORRÊNCIA. Não tendo sido especificamente apontadas pela DRJ as razões que a levaram a anular o lançamento original, mas considerando que tal ato deuse com base na Instrução Normativa IN SRF nº 94/1997, artigo 6º, que diz em seu texto que as anulações de lançamentos nela baseadas darseiam "sem prejuízo do disposto no artigo 173, II, do CTN", reputo que a anulação deuse pela constatação de vício formal e, portanto, deve ser aplicado o artigo 173, II, do Códex Tributário, na contagem do prazo decadencial do lançamento em debate. DESPESAS MÉDICAS. Poderão ser deduzidos os pagamentos referentes a despesas médicas efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes, desde que comprovados mediante documentação hábil e idônea. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. GLOSA FUNDAMENTADA EM SÚMULA ADMINISTRATIVA DE DOCUMENTAÇÃO TRIBUTARIAMENTE INEFICAZ. SÚMULA 40 DO CARF. A apresentação de recibo emitido por profissional para o qual haja Súmula Administrativa de Documentação Tributariamente Ineficaz, desacompanhado de elementos de prova da efetividade dos serviços e do correspondente pagamento, impede a dedução a título de despesas médicas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar de decadência, vencidos os Conselheiros Cecilia Dutra Pillar (Relatora), Martin da AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 00 11 90 /9 5- 71 Fl. 232DF CARF MF 2 Silva Gesto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado), que a acolheram. No mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor, na parte em que foi vencida a Relatora. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente Assinado digitalmente Cecilia Dutra Pillar Relatora Assinado digitalmente Marcio Henrique Sales Parada Redator Designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada e Theodoro Vicente Agostinho (Suplente Convocado). Relatório O Contribuinte acima identificado foi notificado por glosa de despesas médicas de sua DIRPF 1994, ano calendário 1993 Notificação de Lançamento emitida em 12/04/1995 (fls. 04). Conforme despachos de fls. 31 (de 26/04/96) a fls. 35, em face dos indícios de irregularidades nos recibos emitidos pelo dentista Renato Teodoro, foi determinado pelo Serviço de Fiscalização da DRF de Santo André/SP, a verificação quanto ao efetivo pagamento pelo contribuinte André da Silva Magalhães, das despesas médicas em favor do dentista Renato Teodoro, inclusive com previsão de diligência junto ao contribuinte para que fosse apurada a efetiva realização dos serviços prestados que deram origem aos recibos. Despacho de fls. 35 dá conta que o contribuinte seria ouvido a partir de 01/1997. As investigações levadas a efeito pela fiscalização da DRF Santo André resultaram em Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz (Processo Administrativo 10805000800/9823), da qual se extrai que as pessoas físicas que abateram de suas declarações no ano calendário de 1993, recibos emitidos pelo dentista Renato Teodoro, cujos nomes não constassem na lista excludente oferecida, deveriam ter as deduções glosadas. O PA está anexado às fls. 66/86 destes autos. A NL emitida em 12/04/1995 foi considerada nula por decisão de 27/10/1999 (fls. 47 e 49). Motivo da declaração de nulidade: porque o lançamento não contém todos os requisitos estabelecidos no art. 142 do CTN e art. 11 do Decreto nº 70.235/72 e que se encontram reproduzidos no art. 5º da IN SRF nº 94/1997, especialmente por não descrever a Fl. 233DF CARF MF Processo nº 13819.001190/9571 Acórdão n.º 2202003.713 S2C2T2 Fl. 233 3 matéria tributável e não tipificar com clareza a infração atribuída ao sujeito passivo". O contribuinte foi cientificado da decisão em 19/01/2000 (fls. 53). Foi então emitido auto de infração (fls. 88/98) com ciência do autuado em 18/12/2000 (fls. 96). Motivo da autuação: Glosa de despesas médicas (odontológicas) referentes aos recibos do Dr. Renato Teodoro, deduzidas da DIRPF 94, ano calendário 93 com base na Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz (PA 10805000800/9823), uma vez que o autuado não constava da relação de pacientes do referido dentista (anexada à referida Súmula, fls. 78/88). O Contribuinte Impugnou o lançamento e apresentou apenas os recibos do profissional. Acórdão nº 4.180/04 da DRJ Florianópolis, de 17/06/2004 (fls. 122/130), julgou procedente o lançamento pois o autuado não figura na relação de clientes atendidos pelo dentista Renato Teodoro e, mesmo ciente do lançamento, o contribuinte não produziu outras provas que demonstrassem a efetividade dos serviços prestados e respectivos pagamentos. Reporta precedente do Primeiro Conselho de Contribuintes (Ac 10245923, 1º CC, 2ª Câmara, sessão de 29/01/2003). A ciência do Acórdão da DRJ se deu em 30/03/2009 (fls. 148) e o interessado interpôs Recurso voluntário em 23/04/2009 (fls. 154/166). Em seu recurso, alega: a) Que comprovou através dos recibos originais a realização das despesas apontadas e que os serviços ali especificados foram realizados em sua boca; b) Que não poderia ter conhecimento da situação do profissional, pois a apuração de fraude estava restrita ao âmbito da Receita Federal; c) Que as portarias e decisões citadas no acórdão da DRJ não podem se sobrepor à lei, por serem apenas atos administrativos, dirigidos à própria administração pública e, se a lei que regula o Imposto de Renda autoriza as deduções, mero ato administrativo não as pode impedir; d) Menciona julgado do TRF da 1ª Região, 8ª Turma, datado de 05/08/2008 (recurso Aci nº 199.34.00.0001630DF) que por votação unânime decidiu afastar a glosa de valores de recibos de despesas odontológicas tidos por inidôneos pelo Fisco, por ausência de prova da não realização dos serviços constantes dos recibos; e) Argumenta que decorreram 14 anos desde a autuação, sem qualquer ajuizamento de ação pelo fisco contra o recorrente e que já ocorreu a prescrição prevista no CTN, que é de cinco anos. Requer a improcedência da autuação, seja pela aceitação das deduções efetuadas ou pelo reconhecimento da ocorrência de prescrição do direito de Receita Federal executar qualquer crédito decorrente dos fatos em discussão. É o Relatório. Fl. 234DF CARF MF 4 Voto Vencido Conselheira Cecilia Dutra Pillar, relatora. O recurso é tempestivo e atende às demais formalidades legais, portanto dele conheço. Da Preliminar DECADÊNCIA O recorrente alega prescrição uma vez que já decorridos 14 anos desde a autuação sem que a Fazenda Pública ajuizasse qualquer ação executória. No caso, não há que se falar em prescrição pois esta somente se inicia a partir da data em que o crédito tributário se torna exigível, ou seja, a partir do trânsito em julgado administrativo do processo relativo à autuação. Por outro lado, por se tratar de matéria de ordem pública, há de se verificar a ocorrência da decadência do direito do Fisco realizar o lançamento, em 18/12/2000, de IRPF relativo ao ano calendário 1993. Como regra geral, o termo inicial para a contagem do prazo decadencial é aquele definido no art. 173 do CTNCódigo Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966), nos seguintes termos: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. Compulsando os autos, verifico que o acórdão que declarou a nulidade da Notificação de Lançamento original motivou a anulação na falta de descrição da matéria tributável e não tipificar com clareza a infração atribuída ao sujeito passivo, tratandose pois de vício material, o que afasta a aplicação do inciso II do art. 173 do CTN. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, como é o caso do Imposto de Renda, havendo pagamento antecipado por parte do sujeito passivo, ainda que parcial, o prazo decadencial contase nos termos do §4o do art. 150 do CTN, que assim dispõe: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, Fl. 235DF CARF MF Processo nº 13819.001190/9571 Acórdão n.º 2202003.713 S2C2T2 Fl. 234 5 tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Os documentos acostados aos autos confirmam que o contribuinte sofreu a retenção na fonte do imposto de renda, no ano calendário 1993 (fls. 23/25). Desse modo, no caso em apreço, como houve antecipação do imposto, o termo inicial para a contagem do prazo decadencial iniciase em 31 de dezembro de 1993 (art. 150, § 4o, do CTN) com termo final em 31/12/1998. O lançamento se refere ao exercício 1994, ano calendário 1993 e foi constituído em 18/12/2000, data em que o sujeito passivo foi regularmente cientificado do Auto de Infração, conforme fls. 96. Ante tais fatos, concluo que em 18/12/2000, quando da regular constituição do lançamento com a ciência do sujeito passivo, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário já havia decaído, haja vista o decurso de cinco anos da ocorrência do fato gerador, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN. Considerando que os membros deste colegiado acordaram, pelo voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de decadência, conforme Voto Vencedor ao final consignado, passo a analisar o mérito. Do Mérito A glosa da despesa médica ocorreu em função de Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz. O interessado argumenta que não tinha conhecimento do processo administrativo que corria internamente na Receita Federal e que a lei permite as deduções realizadas. Tais argumentos não lhe socorrem pois a lei autoriza as deduções de despesas médicas desde que comprovadas por meio de documentação idônea. O julgado do TRF da 1ª Região, mencionado pelo recorrente não pode ser usado em seu favor, uma vez que não é parte naquela ação. Conforme já descrito no Acórdão da DRJ, o contribuinte teve conhecimento do processo administrativo relativo à Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz quando da autuação e não providenciou em sede de impugnação nem em sede recursal em comprovar a efetiva realização dos serviços que teriam dado origem aos recibos utilizados como dedução em sua DIRPF. Esta matéria é objeto da Súmula nº 40 do CARF que dispõe: A apresentação de recibo emitido por profissional para o qual haja Súmula Administrativa de Documentação Tributariamente Ineficaz, desacompanhado de elementos de prova da efetividade Fl. 236DF CARF MF 6 dos serviços e do correspondente pagamento, impede a dedução a título de despesas médicas e enseja a qualificação da multa de ofício. Assim, entendo que deve ser mantida a glosa das despesas. CONCLUSÃO Em face ao exposto, considerando que fui vencida na preliminar de decadência, voto por NEGAR provimento ao recurso. Assinado digitalmente Cecilia Dutra Pillar Relatora Voto Vencedor Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada, redator designado. DECADÊNCIA Peço vênia para divergir da ilustre Relatora, Conselheira Cecília Dutra Pillar, no que diz respeito à sua proposta de reconhecimento de decadência do lançamento. Disse em seu Voto: Compulsando os autos, verifico que o acórdão que declarou a nulidade da Notificação de Lançamento original motivou a anulação na falta de descrição da matéria tributável e não tipificar com clareza a infração atribuída ao sujeito passivo, tratandose pois de vício material, o que afasta a aplicação do inciso II do art. 173 do CTN. (...) O lançamento se refere ao exercício 1994, ano calendário 1993 e foi constituído em 18/12/2000, data em que o sujeito passivo foi regularmente cientificado do Auto de Infração, conforme fls. 96. Entendo que apesar de uma redação que pode suscitar dúvidas ao leitor, o Acórdão da DRJ (fl. 4749), que anulou o lançamento original, faz referência expressa à Instrução Normativa SRF nº 94, de 24/12/1997, especialmente o artigo 6º, para dizer que "os lançamentos que não contenham os requisitos do art. 42 do CTN sejam declarados nulos pelos titulares das DRJ...". Dizem os dispositivos legais utilizados como motivação para a declaração de nulidade que: Art. 5o Em conformidade com o disposto no art. 142 da Lei No 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional CTN) o auto de infração lavrado de acordo com o artigo anterior conterá, obrigatoriamente: I a identificação do sujeito passivo; II a matéria tributável, assim entendida a descrição dos fatos e a base de cálculo; Fl. 237DF CARF MF Processo nº 13819.001190/9571 Acórdão n.º 2202003.713 S2C2T2 Fl. 235 7 III a norma legal infringida; IV o montante do tributo ou contribuição; V a penalidade aplicável; VI o nome, o cargo, o número de matrícula e a assinatura do AFTN autuante; VII o local, a data e a hora da lavratura; VIII a intimação para o sujeito passivo pagar ou impugnar a exigência no prazo de trinta dias contado a partir da data da ciência do lançamento. Art. 6o Sem prejuízo do disposto no art. 173, inciso II, da Lei No 5.172/66, será declarada a nulidade do lançamento que houver sido constituído em desacordo com o disposto no art. 5o: I pelo Delegado da Receita Federal de Julgamento, na hipótese de impugnação do lançamento, inclusive no que se refere aos processos pendentes de julgamento, ainda que essa preliminar não tenha sido suscitada pelo sujeito passivo;(...) (destaquei) A Notificação de Lançamento anulada encontrase na fl. 04 e, de fato, faltam elementos essenciais, como por exemplo a ausência de identificação da Autoridade Administrativa lançadora, o que, a teor da Súmula CARF nº 21, é vício de natureza formal. Assim, não tendo sido especificamente apontadas pela DRJ as razões que a levaram a anular o lançamento, mas considerando que tal ato deuse com base na Instrução Normativa IN SRF nº 94/1997, acima citada, que diz em seu texto que as anulações de lançamentos nela baseadas darseiam "sem prejuízo do disposto no artigo 173, II, do CTN", reputo que a anulação deuse pela constatação de vício formal e, portanto deve ser aplicado o artigo 173, II, do Códex Tributário. Dessa feita, o novo lançamento poderia ser feito no prazo de cinco anos, a contar da data em que se tornou definitiva a decisão administrativa que anulou o lançamento anterior e não se operou, no caso, a decadência. Assim, VOTO por não reconhecer a decadência do lançamento em questão. Assinado digitalmente Marcio Henrique Sales Parada Fl. 238DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.721439/2012-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Apr 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011
FALTA DE MANIFESTAÇÃO ACERCA DE PETIÇÃO DO CONTRIBUINTE FORMULADA PREVIAMENTE AO JULGAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU.
A falta de apreciação, por parte do acórdão de primeiro grau, de petição do contribuinte formulando razões recursais e pedidos adicionais à impugnação, ainda que fosse para concluir pelo seu não conhecimento, implica em cerceamento de defesa via supressão de instância e violação da garantia de recorribilidade das decisões.
Decisão Recorrida Nula.
Numero da decisão: 2402-005.714
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário para fins de decretar a nulidade da decisão de primeiro grau, devendo o processo retornar à instância de origem para fins de se manifestar acerca dos documentos acostados pelo contribuinte.
(Assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho, Presidente em Exercício.
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson, Relator.
Participaram do presente julgamento o(a)s Conselheiro(a)s Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2011 FALTA DE MANIFESTAÇÃO ACERCA DE PETIÇÃO DO CONTRIBUINTE FORMULADA PREVIAMENTE AO JULGAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. A falta de apreciação, por parte do acórdão de primeiro grau, de petição do contribuinte formulando razões recursais e pedidos adicionais à impugnação, ainda que fosse para concluir pelo seu não conhecimento, implica em cerceamento de defesa via supressão de instância e violação da garantia de recorribilidade das decisões. Decisão Recorrida Nula.
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CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. A falta de apreciação, por parte do acórdão de primeiro grau, de petição do contribuinte formulando razões recursais e pedidos adicionais à impugnação, ainda que fosse para concluir pelo seu não conhecimento, implica em cerceamento de defesa via supressão de instância e violação da garantia de recorribilidade das decisões. Decisão Recorrida Nula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 72 14 39 /2 01 2- 28 Fl. 158DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário para fins de decretar a nulidade da decisão de primeiro grau, devendo o processo retornar à instância de origem para fins de se manifestar acerca dos documentos acostados pelo contribuinte. (Assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho, Presidente em Exercício. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson, Relator. Participaram do presente julgamento o(a)s Conselheiro(a)s Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Bianca Felícia Rothschild e João Victor Ribeiro Aldinucci. Fl. 159DF CARF MF Processo nº 11516.721439/201228 Acórdão n.º 2402005.714 S2C4T2 Fl. 69 3 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Juiz de Fora (MG) DRJ/JFA, que julgou procedente Notificação de Lançamento de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) relativa ao ano calendário 2010. A instância a quo assim sumarizou os termos da ação fiscal e da impugnação: O contribuinte retro identificado impugna o lançamento formalizado pela Notificação de fls.23/27, lavrada pela DRF/Florianópolis/SC em 30/04/2012, decorrente da revisão efetuada pela autoridade lançadora em sua Declaração de Ajuste Anual IRPF/2011 Retificadora, cópia apensada às fls.28/38, que apurou “dedução indevida de pensão alimentícia judicial”, no valor de R$ 9.396,55, resultando, em conseqüência, a apuração de imposto de renda suplementar, no valor de R$ 2.584,05, acrescido de multa de ofício (passível de redução), no valor de R$ 1.938,03, e juros de mora, no valor de R$ 285,27, calculados até abril de 2012. Conforme expresso no item “descrição dos fatos e enquadramento legal” da Notificação contestada, a autoridade fiscal assim justificou o procedimento adotado: Dedução indevida de pensão alimentícia judicial. Glosa do valor de R$ 9.396,55 por falta de comprovação ou por falta de previsão legal para sua dedução. A excônjuge foi intimada a apresentar os documentos referentes à pensão alimentícia judicial recebida. Da análise dos documentos verificouse que o contribuinte declarou, como dedução, os valores referentes ao 13º Salário, cuja tributação é exclusiva na fonte, em separado, e não pode ser utilizada como dedução na Declaração de Ajuste Anual. Em sua peça impugnatória de fls.02/03, instruída com os elementos de fls.09/22, o contribuinte contesta o lançamento efetuado, argumentando, em apertada síntese, que o valor questionado pelo Fisco referese ao valor da pensão alimentícia judicial informado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), conforme Comprovante Anual de Rendimentos em anexo. A exigência foi exonerada em sua maior parte pela DRJ/JFA (fls. 126/129), que a manteve, entretanto, no tocante à pensão alimentícia incidente sobre a gratificação natalina, por se tratar esta de rendimento sujeito à tributação exclusiva na fonte. O contribuinte interpôs recurso voluntário em 1º/9/2015 (fls. 140/153), arguindo que o valor tido por integrar o 13º salário, R$ 970,58, está na verdade informado separadamente e não fora objeto de dedução. Além disso, assevera que anteriormente ao julgamento peticionou o reconhecimento de sua isenção por moléstia grave, conforme documentos que juntou (fl. 47/51), e que tal pleito foi ignorado no acórdão guerreado, ainda que oportunamente informado à administração. Fl. 160DF CARF MF 4 Conclui pedindo o cancelamento da exigência e o reconhecimento ao direito de retificar a declaração objeto de litígio. É o relatório. Fl. 161DF CARF MF Processo nº 11516.721439/201228 Acórdão n.º 2402005.714 S2C4T2 Fl. 70 5 Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Compulsando os autos, verificase que, de fato, o contribuinte postulou previamente ao julgamento de primeiro grau, além do cancelamento da exigência já formulado quando da impugnação, a liberação da Declaração do Imposto de Renda AnoCalendário 2009, Exercício 2010, "para que eu possa retificála, desta forma respeitandose o meu direito", direito esse calcado, alegadamente, no reconhecimento de sua condição de portado de moléstia grave de acordo com laudo pericial do INSS que junto à ocasião (fls. 47/51). Também é possível constatar que tal pleito foi completamente ignorado pelo Acórdão contestado, que sequer fez referência ou tangenciou a questão, ainda que fosse para concluir pelo seu não conhecimento. Frisese que tampouco no relatório da decisão em questão é mencionada a entrega de tais documentos, devidamente acostados ao processo. Com efeito, deveria ter a DRJ/JFA, além de relatar a entrega da petição em evidência, ter se manifestado fundamentadamente acerca da possibilidade de conhecimento do pedido, adentrando no exame de seu mérito, sendo o caso. Nada disso ocorreu. Diante desse quadro, deve ser anulada a decisão de primeiro grau, e determinado o retorno dos autos àquela instância julgadora para apreciação desses argumentos levantados pelo contribuinte anteriormente ao julgamento de primeiro grau, face ao disposto no inciso II do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, sob pena de supressão de instância. Ante o exposto, voto no sentido de conhecer do recurso voluntário para fins de decretar a nulidade da decisão de primeiro grau, devendo o processo retornar à instância de origem para fins de se manifestar acerca dos documentos acostados pelo contribuinte constantes às fls. 47/51, nos termos explanados neste voto. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 162DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10283.720278/2008-97
Turma: Terceira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 18 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Exercício: 2004
IMPUGNAÇÃO. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA.
INDEFERIMENTO.
A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis.
CSLL. PIS. COFINS. INSS. DECORRÊNCIA.
Ressalvados os casos especiais, igual sorte colhem os lançamentos que tenham sido formalizados por mera decorrência, na medida que inexistem fatos ou argumentos novos a ensejar conclusões diversas.
Numero da decisão: 1803-001.075
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Ausente justificadamente o Conselheiro Walter Adolfo Maresch.
Nome do relator: Sérgio Rodrigues Mendes
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ementa_s : PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Exercício: 2004 IMPUGNAÇÃO. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis. CSLL. PIS. COFINS. INSS. DECORRÊNCIA. Ressalvados os casos especiais, igual sorte colhem os lançamentos que tenham sido formalizados por mera decorrência, na medida que inexistem fatos ou argumentos novos a ensejar conclusões diversas.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Exercício: 2004 IMPUGNAÇÃO. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis. CSLL. PIS. COFINS. INSS. DECORRÊNCIA. Ressalvados os casos especiais, igual sorte colhem os lançamentos que tenham sido formalizados por mera decorrência, na medida que inexistem fatos ou argumentos novos a ensejar conclusões diversas. Fl. 2351DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.068 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. Ausente justificadamente o Conselheiro Walter Adolfo Maresch. (assinado digitalmente) Selene Ferreira de Moraes Presidente (assinado digitalmente) Sérgio Rodrigues Mendes Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Selene Ferreira de Moraes, Meigan Sack Rodrigues, Walter Adolfo Maresch, Victor Humberto da Silva Maizman, Sérgio Rodrigues Mendes e Sérgio Luiz Bezerra Presta. Fl. 2352DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.069 3 Relatório Por bem retratar os acontecimentos do presente processo, adoto o Relatório do acórdão recorrido (fls. 987 a 990): Contra a empresa acima qualificada foram lavrados autos de infração, às fls. 14/99, para exigência de crédito tributário decorrente do SIMPLES Federal, relativo ao anocalendário 2003, nos seguintes montantes, aí incluídos os juros moratórios e a multa de ofício calculados até 29/02/2008: IRPJ de R$ 38.458,65 (fls. 27/34), PIS/PASEP de R$ 38.458,65 (fls. 35/42), CSLL de R$ 63.207,27 (fls. 43/50), COFINS de R$ 126.414,59 (fls. 51/58) e Contribuição para Seguridade Social INSS de R$ 244.160,48 (fls. 59/66). Conforme descrição de fatos e enquadramento legal, o crédito tributário apurado no auto de infração decorreu da identificação de repasses financeiros efetuados por administradoras de cartões de crédito e de débito, no anocalendário 2003, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, deixou de apresentar documentação que demonstrasse terem os valores sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil. A Fiscalização se iniciou com a ciência do contribuinte do Termo de Início de Fiscalização, às fls. 03/04, por meio do qual foi instado a apresentar, relativamente ao anocalendário 2003, os comprovantes de repasses recebidos da Redecard S/A., Companhia Brasileira de Meios de Pagamento e American Express do Brasil Tempo & Cia e os Livros Diário, Razão e /ou Livro Caixa, Livro Registro de Saídas, Livro Registro de Apuração do ICMS, Livro Registro de Documentos Fiscais e Termos de Ocorrências, Contrato/Estatuto Social e alterações. Em resposta, a contribuinte apresentou os documentos relacionados, às fls. 05, sendo instada, por meio do Termo de Intimação, às fls. 06/11, a demonstrar a tributação dos recursos provenientes de vendas com cartão de crédito e de débito, repassados por Redecard S/A, Companhia Brasileira de Meios de Pagamento e American Express do Brasil Tempo & Cia, conforme demonstrativos em anexo ao Termo, apresentando os respectivos comprovantes de recolhimentos. Foram juntados, na forma do Anexo I ao processo, cópia da declaração simplificada do exercício 2004, às fls. 62/80, documentos relativos às informações prestadas pela Manaus Energia sobre a arrecadação de contas, às fls. 81/91, Termo de Credenciamento e 1º Aditivo, às fls. 92/116, relatórios da Drogaria Nazaré sobre o recebimento de contas de água e luz nos meses de janeiro e fevereiro de 2003, às fls. 117/142 e 279/298, extratos de conta corrente da contribuinte no ano de 2003, às fls. 143/248, informações sobre a arrecadação de contas de água, fornecidas pela Águas do Amazonas, às fls. 249/250, e extratos de vendas com cartão do mês de janeiro/2003, às fls. 251/277. Nos Anexos II a V do processo constam relatórios da Drogaria Nazaré sobre o recebimento de contas de água e luz relativos aos demais meses do ano de 2003, acompanhados de diversos extratos de vendas com cartão. Diante da falta de documentos e esclarecimentos relativos à venda com cartão, foi lavrado o presente auto de infração para exigência dos impostos e contribuições devidos no anocalendário 2003, na sistemática do Simples Federal, às fls. 14/99, em Fl. 2353DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.070 4 razão da omissão de receitas não escrituradas e a decorrente insuficiência de recolhimento. Em razão da frustrada tentativa de ciência pessoal ao representante legal da empresa em 02/04/2008 e 15/04/2008, consignada no Termo de Constatação Fiscal, às fls. 899, foram adotadas as providências para ciência por Edital nº 55/2008, às fls. 900, considerandose o contribuinte cientificado em 09/05/2008 (data de desafixação do Edital). Em 08/05/2008, foram entregues ao procurador do contribuinte cópias do auto de infração lavrado em 26/03/2008, conforme registrado no Termo de Constatação fiscal, às fls. 901. Inconformada, a empresa apresentou impugnação ao lançamento em 06/06/2008, alegando, em síntese, que: a autuação está fundamentada na identificação de repasses financeiros efetuados por administradoras de cartões de crédito, relativos a vendas de mercadorias com utilização de cartões de crédito e de débito, no ano de 2003, em relação aos quais o contribuinte deixou de apresentar documentação que demonstrasse terem aqueles valores sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições administrados pela RFB a que estavam sujeitos. em razão do princípio da oficialidade, todas as providências para a averiguação dos fatos alegados cabem tanto à administração pública quanto à parte interessada, e sob esse fundamento o impugnante pretende buscar a verdade, visto que o fiscal autuante não observou os requisitos necessários para efetuar o lançamento. ainda na busca da verdade material, deve ser observado o princípio do informalismo em favor do interessado, que deve ser entendido como a ausência de formas rígidas, de modelos exclusivos, significando a contrario senso, a aceitação de um rol amplo e vasto de direitos e prerrogativas, no que diz respeito à realização da verdade material, objetivo maior tanto da Fazenda Pública quanto do contribuinte. como instrumento exclusivo para preservar direitos e assegurar garantias que possibilitem a manifestação final da Fazenda Pública, em questões tributárias, está o princípio do devido processo legal, que não se admite que o contribuinte venha a ser apenado sem que lhe seja propiciado oferecer todos os motivos, que justifiquem, ou ao menos expliquem, seu comportamento. o direito ao devido processo legal antessupõe a verificação de uma série de desdobramentos, tais como o direito a ser ouvido e o direito a oferecer e produzir prova adequada à defesa de suas pretensões. o prestigiamento do princípio da verdade real no processo administrativo exsurge da própria Lei nº 9.784/99, ao estabelecer, no artigo 36, que, quando o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria administração responsável pelo processo ou em outro Órgão administrativo, o Órgão competente para a instituição proverá, de ofício, a obtenção dos documentos ou das respectivas cópias. vale ressaltar que no processo administrativo fiscal, a prova documental poderá ser apresentada em qualquer momento anterior ao julgamento definitivo, mesmo que o processo se encontre aguardando julgamento de recurso, não se podendo falar de preclusão do direito do impugnante. Se, de ofício, o julgador pode determinar a produção de prova até o julgamento do processo, com muito mais razão deverá acolher qualquer requerimento probatório até a tomada de decisão, sendo Fl. 2354DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.071 5 certo que, efetuada a intimação, tem o contribuinte o prazo de trinta dias para insurgirse e apresentar impugnação e, caso pretenda ver realizada alguma diligência, precisa indicála e justificar sua necessidade, nos termos do art. 16, IV, do Decreto nº 70.235/72. portanto, requer que se solicite às empresas relatório de recebimento de contas de energia e de água no cartão de crédito e de débito e que seja solicitado às operadoras REDECARD, Companhia Brasileira de Meios de Pagamentos e American Express, relatório dos recebimentos das contas de energia elétrica e água e esgoto efetuados com cartão de crédito e de débito. também requer, com respaldo no princípio constitucional da ampla defesa e em face de sua evidenciada necessidade, que seja determinada a produção de prova testemunhal, através da oitiva dos representantes legais das empresas Manaus Energia e Águas do Amazonas, das quais recebia pagamentos de contas de água dos consumidores em cartões de crédito, débito e espécie e das já mencionadas administradoras de cartão de crédito. o fiscalizado deve ser ouvido sobre as circunstâncias e eventos relacionados ao objeto da investigação durante o transcurso do próprio procedimento, visando à obtenção da verdade material e, deste modo, deve ser informado sobre as diligências que serão realizadas e sobre os resultados das já efetuadas, estando vedado à fiscalização utilizar expedientes ardilosos no afã de obter respostas que eventualmente darão o necessário motivo ao lançamento. isso porque, no âmbito do procedimento de fiscalização, o agente não é parte contrária ao fiscalizado, devendo verificar o que de fato ocorreu para poder ou não enquadrar determinada conduta na hipótese da norma tributária, devendo suas solicitações ser sopesadas. se o ato examinado foi praticado pela pessoa fiscalizada ou, ao menos, teve sua participação, nada mais lógico do que ouvila acerca do contexto por ela vivenciado à época da prática do ato, no intuito de melhor qualificálo para fins de incidência. acontece que, em nenhum momento do presente procedimento fiscal, os interessados Francisca Assis Mousse e Frank Mousse, titulares da firma Drogaria Nossa Senhora de Nazaré Ltda. foram ouvidos ou informados sobre os procedimentos adotados, sendo tolhidos de participar da fiscalização que recaiu sobre sua pessoa jurídica, sendo que tal ato acarreta a nulidade do procedimento fiscal e das consequências por ele geradas. percebese claramente que o fiscal autuante não considerou a declaração anual simplificada da empresa Drogaria Nossa Senhora de Nazaré em seu procedimento fiscal, tampouco, os recebimentos de contas de energia elétrica e de água e, portanto, não deve a administração apartarse da realidade, ao contrário, deve reconhecer elementos concretos a fim de afastar a aplicação exclusiva da verdade formal. o lançamento fiscal deve observar a legalidade e a tipicidade em matéria tributária e o princípio da inocência, a fim de não acarretar a nulidade do lançamento. a empresa autuada além de Drogaria, trabalha recebendo contas de energia elétrica e água das concessionárias de fornecimento dentro do Estado do Amazonas, Manaus Energia S/A e Águas do Amazonas S/A, repassando os recursos para estas Fl. 2355DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.072 6 empresas concessionárias, sendo que grande parte destes recebimentos foram feitos no cartão de crédito e no cartão de débito. a fiscalização tem a faculdade de analisar todos os documentos necessários para a apuração da efetiva subsunção dos fatos à hipótese prevista na norma tributária, de forma a proceder corretamente ao lançamento. a liberdade na coleta de dados e informações dos fatos é indispensável para o exercício da atividade tributária, pois o ato administrativo do lançamento é vinculado e obrigatório e, se não houvesse a fiscalização, o tributo perderia sua qualidade de compulsório para se tornar prestação voluntária decorrente da simples colaboração do contribuinte com o Fisco. ocorre que não obstante a fiscalização gozar de amplos poderes e de todos os instrumentos necessários para apurar a ocorrência do fato imponível, há de se consignar que esse poder não é irrestrito, não podendo o agente fiscal ir além do permitido legalmente, sob pena de caracterizar crime pessoal (excesso de exação). está pacificado pelo Supremo Tribunal Federal, através da Súmula 439, que os limites do exame fiscal são os pontos objeto de investigação, ou seja, podese dizer que a autoridade possui certo limite na fiscalização, devendo ater aos documentos relevantes para a fiscalização, sendo inválido e ilícito o ato administrativo extravagante ao objeto investigado. embora a fiscalização disponha de amplos poderes para aferir a ocorrência do fato imponível, não pode ir além do legal e constitucionalmente permitido, significando que a recusa, desde que justificada, dos documentos solicitados pelos agentes configura bom argumento para a nãoapresentação dos mesmos, em vista da garantia constitucional contra a autoincriminação. requer a nulidade do procedimento fiscal, com o consequente cancelamento do débito gerado. 2. A decisão da instância a quo foi assim ementada (fls. 985): ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Anocalendário: 2003 DECADÊNCIA. O prazo decadencial dos tributos sujeitos ao regime de lançamento por homologação observa o disposto pelo artigo 150, § 4º, do Código Tributário Nacional, isto é, o prazo para esse efeito será de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador. A incidência da regra supõe, evidentemente, hipótese típica de lançamento por homologação, aquele em que ocorre pagamento antecipado do tributo. DESFECHO GENÉRICO POR PRODUÇÃO DE PROVAS. Não deve ser acolhido o protesto genérico, no desfecho da impugnação, pela produção de todos os meios de prova em direito admitidas, nos termos dos arts. 15 e 16, III e § 4º, do Decreto nº 70.235/1972, que prescreve a preclusão consumativa para apresentação de provas com a interposição da petição contestatória. Fl. 2356DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.073 7 DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO DO PEDIDO. A realização de diligência não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória, sendo assim, devem ser indeferidos os pedidos de diligência, quando for prescindível para o deslinde da questão a ser apreciada ou se o processo contiver os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador. Impugnação Procedente em Parte Credito Tributário Mantido em Parte. 3. Cientificada da referida decisão, apresenta a interessada, em 28/04/2011, Recurso de fls. 1.010 a 1.020, instruído com os documentos de fls. 1.021 a 1.064, nele argumentando, em síntese: a) que o Órgão julgador de primeira instância entendeu que não deve ser acolhido o pedido de produção de provas, bem como a realização de diligência, por entender que o processo contém os elementos necessários para a formação da livre convicção do julgador; b) que a Constituição Federal, no seu art. 5º, inciso LV, assegura aos litigantes em processos administrativos e judiciais o direito à ampla defesa com os meios de prova a ela inerentes, facultandose ao sujeito passivo, por conseguinte, direito ao requerimento de perícia que entender necessária para esclarecimento dos fatos e aspectos técnicos levantados com a autuação fiscal; c) que, com respeito ao indeferimento do pedido de diligências ou perícia, este terá de ser por meio de decisão devidamente fundamentada, caso contrário ocorrerá cerceamento do direito de defesa; d) que o indeferimento imotivado do pedido de perícia, sem a consideração da regra subsidiária do art. 420 do CPC, fere o art. 5º, inciso LV da CF/88, acarretando nulidade da decisão proferida, conforme art. 59, inciso I, do Decreto 70.235/72, ou seja, decisão com preterimento do direito de defesa do contribuinte; e) que, no presente caso, a perícia ou diligência versa sobre matéria fática, levandose em conta que a coleta da prova está na dependência de terceiros; e f) que deve ser dado provimento ao presente Recurso, determinandose o retorno dos autos ao agente fiscal autuante para que sejam realizadas as diligências necessárias, em face da necessidade de produção de provas que se encontram nas mãos de terceiros. Em mesa para julgamento. Fl. 2357DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.074 8 Voto Conselheiro Sérgio Rodrigues Mendes, Relator Atendidos os pressupostos formais e materiais, tomo conhecimento do Recurso. Tempestividade do Recurso 4. Não constando do presente processo prova da data da ciência da decisão recorrida, temse como tempestivo o Recurso ora interposto. Limites da lide 5. A presente lide se limita aos meses de maio a dezembro do anocalendário de 2003, já que, quanto aos meses anteriores (janeiro a abril), foram considerados decadentes pela decisão da primeira instância (fls. 991 a 993). Decisão recorrida 6. A decisão recorrida manteve integralmente a autuação sob os seguintes fundamentos (fls. 994 e 995): Constatase que, embora a contribuinte alegue que os valores de venda com cartão de crédito/débito foram decorrentes dos serviços de arrecadação de contas de água e luz, não efetuou a comprovação, por meio da escrituração em Livro Caixa, dos valores que teria arrecadado e repassado às empresas Manaus Energia e Águas do Amazonas. Para descaracterizar a omissão de receitas, deveria a contribuinte provar que os valores repassados pelas administradoras de cartão de crédito pertenciam a terceiros, comprovando o repasse dos valores para cada uma das operações de crédito/débito, o que a empresa não logrou êxito em fazer, conforme se verá a seguir. Analisando os documentos apresentados pela empresa, às fls. 81/116 do Anexo I, verificase que o demonstrativo de arrecadação firmado pela credenciante Manaus Energia computa a quantidade de documentos e os totais diários arrecadados pela credenciada Drogaria Nossa Senhora de Nazaré, ou seja, abrange valores globais. Para comprovar suas alegações de que, atuando como credenciada da Manaus Energia, parte das operações de venda eram decorrentes da arrecadação de contas de luz, era necessário que a impugnante apresentasse a conciliação item a item entre os valores de venda com cartão e os valores recebidos pela prestação de serviços de arrecadação de contas de luz, amparado em documentação hábil e idônea. Também deveria fazer essa conciliação para os valores Fl. 2358DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.075 9 que auferiu com vendas em cartão e que alega serem oriundos de arrecadação de contas de água, pois apenas informações globais prestadas pela Águas do Amazonas quanto aos valores arrecadados no ano pela Drogaria Nossa Senhora de Nazaré são insuficientes para comprovar qualquer relação entre a arrecadação de água e o valor repassado pelas administradoras de cartão. Além disso, constatase que, no Termo de Credenciamento concedido pela Manaus Energia à Drogaria Nossa Senhora de Nazaré para prestação de serviço de arrecadação (DF/FEF/001 2006) consta na “Cláusula Quarta Das Obrigações da Credenciada”, no item I, que o recebimento das importâncias correspondentes às contas apresentadas pelo usuário se daria em moeda corrente. Na “Cláusula Quinta Da Transferência da Arrecadação”, obrigase a Drogaria Nossa Senhora de Nazaré a transferir o produto da arrecadação diária das agências e/ou postos descentralizados, através de crédito em conta de livre movimento em nome da Manaus Energia, junto ao Banco do Brasil, no segundo dia da arrecadação, não podendo ser efetuado depósito em cheque. Ora. em razão das obrigações constantes do contrato de credenciamento, não é possível vislumbrar qualquer relação entre as vendas efetuadas por meio de cartão de crédito/débito com os valores arrecadados a título de conta de energia. As obrigações assumidas pela Drogaria Nossa Senhora de Nazaré junto à Manaus Energia para recebimento das contas em moeda corrente e repasse diário até o segundo dia da arrecadação excluem qualquer possibilidade de arrecadação por meio de cartão de crédito/débito. 7. A irresignação da Recorrente prendese, basicamente, ao fato de terem sido indeferidas, pela instância a quo, as solicitações feitas para que as empresas Manaus Energia S/A. e Águas do Amazonas S/A., e as operadoras de Cartões de Crédito Redecard S/A., Companhia Brasileira de Meios de Pagamentos e American Express do Brasil Tempo & Cia. fossem intimadas a apresentar relatório de recebimento de contas de Energia Elétrica e de Água no Cartão de Crédito e de Débito, além de ser procedida a oitiva testemunhal dos representantes legais das empresas acima referidas (fls. 922 a 924, 929, 930, 1.016 e 1.017). 8. Tenho como correto o indeferimento daquelas solicitações, sob as seguintes motivações (fls. 995 e 996): Tendo em vista que os documentos apresentados pela impugnante não permitem qualquer correlação entre as vendas com cartão efetuadas pela Drogaria Nossa Senhora de Nazaré Ltda. e as arrecadações de contas de energia e água em nome da Manaus Energia e Águas do Amazonas, cabe indeferir os pedidos de perícias e diligências propostos pela requerente, por se tratar de medidas absolutamente prescindíveis, pois já constam dos autos todos os elementos necessários ao julgamento. Fl. 2359DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES Processo nº 10283.720278/200897 Acórdão n.º 180301.075 S1TE03 Fl. 1.076 10 [...]. A realização de diligencia/perícia não se presta para produção de provas que o sujeito passivo possuía o encargo probatório de trazer ao processo, juntamente com a impugnação, ainda mais quando ele as justifica com fatos de terceiros, e não próprios. 9. Acrescento, ainda, que, além de prescindíveis para o deslinde do presente litígio, referidas solicitações revelamse impraticáveis, por isso que buscam obter de terceiros informações que estes, com absoluta certeza, não detêm. 10. Explicando melhor: as concessionárias de energia elétrica e de água não teriam como informar, em relação aos montantes por elas recebidos da Recorrente, necessariamente em moeda corrente por exigência contratual, quais parcelas seriam oriundas de pagamentos por meio de cartões de débito e de crédito, se eventualmente ocorreram. 11. De igual forma, as operadoras de cartões de crédito não teriam como informar, em relação aos valores creditados à Recorrente, por conta da aceitação por esta de cartões de débito e de crédito, quais destes dispêndios se refeririam a supostas cobranças de contas de água e de luz, e não a qualquer outro tipo de despesa. Demais exigências 12. Ressalvados os casos especiais, igual sorte colhem os lançamentos que tenham sido formalizados por mera decorrência daquele, na medida que inexistem fatos ou argumentos novos a ensejar conclusões diversas. Conclusão Em face do exposto, e considerando tudo o mais que dos autos consta, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO. É como voto. (assinado digitalmente) Sérgio Rodrigues Mendes Fl. 2360DF CARF MF Emitido em 09/11/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 21/10/2011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 21/10/2 011 por SERGIO RODRIGUES MENDES, Assinado digitalmente em 09/11/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES
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Numero do processo: 12897.000715/2009-41
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Feb 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Mar 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2005, 2006
ART. 74 DA MP Nº 2.158-35, DE 2001. TRATADO BRASIL-CHILE PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO DE RENDA. MATERIALIDADES DISTINTAS.
Não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, e as dispostas na Convenção Brasil-Chile para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano-calendário.
OPERACIONALIZAÇÃO DA NEUTRALIDADE DO SISTEMA E SUPERAÇÃO DO DIFERIMENTO DA TRIBUTAÇÃO.
A neutralidade do sistema de tributação quando investidor e investida estão localizadas no Brasil opera-se mediante a exclusão dos resultado positivo da investida apurado via Método de Equivalência Patrimonial no lucro real da investidora, porque os lucros da investida já foram tributados no Brasil pela mesma alíquota que seriam se o fossem pela investidora. Estando investidor no Brasil e investida no exterior, se a alíquota no exterior é menor do que a brasileira, quebra-se a neutralidade do sistema, e viabiliza-se diferimento por tempo indeterminado da tributação, caso a investidora, que detém poder de decisão sobre a investida, decida não distribuir os lucros. Por isso, o art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, ao determinar que os lucros sejam auferidos pelo investidor brasileiro, na medida de sua participação, ao final de cada ano-calendário, dispondo sobre aspecto temporal, evitou o diferimento, e, ao mesmo tempo, o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autorizou a compensação dos impostos pagos no exterior, viabilizando a neutralidade do sistema.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
Numero da decisão: 9101-002.561
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, acordam, (1) quanto à tributação de lucros auferidos no exterior, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Lívia De Carli Germano (suplente convocada), Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (2) quanto aos juros de mora sobre a multa de ofício, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa, substituída pela conselheira Lívia de Carli Germano.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Lívia de Carli Germano, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005, 2006 ART. 74 DA MP Nº 2.158-35, DE 2001. TRATADO BRASIL-CHILE PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO DE RENDA. MATERIALIDADES DISTINTAS. Não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, e as dispostas na Convenção Brasil-Chile para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano-calendário. OPERACIONALIZAÇÃO DA NEUTRALIDADE DO SISTEMA E SUPERAÇÃO DO DIFERIMENTO DA TRIBUTAÇÃO. A neutralidade do sistema de tributação quando investidor e investida estão localizadas no Brasil opera-se mediante a exclusão dos resultado positivo da investida apurado via Método de Equivalência Patrimonial no lucro real da investidora, porque os lucros da investida já foram tributados no Brasil pela mesma alíquota que seriam se o fossem pela investidora. Estando investidor no Brasil e investida no exterior, se a alíquota no exterior é menor do que a brasileira, quebra-se a neutralidade do sistema, e viabiliza-se diferimento por tempo indeterminado da tributação, caso a investidora, que detém poder de decisão sobre a investida, decida não distribuir os lucros. Por isso, o art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, ao determinar que os lucros sejam auferidos pelo investidor brasileiro, na medida de sua participação, ao final de cada ano-calendário, dispondo sobre aspecto temporal, evitou o diferimento, e, ao mesmo tempo, o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autorizou a compensação dos impostos pagos no exterior, viabilizando a neutralidade do sistema. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 21; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2395; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 1.120 1 1.119 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 12897.000715/200941 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9101002.561 – 1ª Turma Sessão de 09 de fevereiro de 2017 Matéria IRPJ LUCROS NO EXTERIOR Recorrente REXAM BEVERAGE CAN SOUTH AMERICA S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006 ART. 74 DA MP Nº 2.15835, DE 2001. TRATADO BRASILCHILE PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO DE RENDA. MATERIALIDADES DISTINTAS. Não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, e as dispostas na Convenção BrasilChile para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada anocalendário. OPERACIONALIZAÇÃO DA NEUTRALIDADE DO SISTEMA E SUPERAÇÃO DO DIFERIMENTO DA TRIBUTAÇÃO. A neutralidade do sistema de tributação quando investidor e investida estão localizadas no Brasil operase mediante a exclusão dos resultado positivo da investida apurado via Método de Equivalência Patrimonial no lucro real da investidora, porque os lucros da investida já foram tributados no Brasil pela mesma alíquota que seriam se o fossem pela investidora. Estando investidor no Brasil e investida no exterior, se a alíquota no exterior é menor do que a brasileira, quebrase a neutralidade do sistema, e viabilizase diferimento por tempo indeterminado da tributação, caso a investidora, que detém poder de decisão sobre a investida, decida não distribuir os lucros. Por isso, o art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, ao determinar que os lucros sejam auferidos pelo investidor brasileiro, na medida de sua participação, ao final de cada anocalendário, dispondo sobre aspecto temporal, evitou o diferimento, e, ao mesmo tempo, o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autorizou a compensação dos impostos pagos no exterior, viabilizando a neutralidade do sistema. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 89 7. 00 07 15 /2 00 9- 41 Fl. 1120DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.121 2 submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, acordam, (1) quanto à tributação de lucros auferidos no exterior, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Lívia De Carli Germano (suplente convocada), Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (2) quanto aos juros de mora sobre a multa de ofício, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Solicitou apresentar declaração de voto o conselheiro Luís Flávio Neto. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Cristiane Silva Costa, substituída pela conselheira Lívia de Carli Germano. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Lívia de Carli Germano, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício). Fl. 1121DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.122 3 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela REXAM BEVERAGE CAN SOUTH AMERICA S/A (efls. 945 e segs.) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1201 001.024 (efls. 920 e segs), pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 06/05/2014, no qual foi negado provimento ao recurso voluntário. Resumo Processual Na autuação fiscal, relativa ao anocalendário de 2005 e 2006, trata da tributação de lucros no exterior, com base no art. 74, caput, da MP nº 2.15835, de 2001, no qual foram lavrados autos de infração de IRPJ e CSLL. A Contribuinte apresentou impugnação, que foi julgada improcedente pela primeira instância (DRJ). A turma ordinária do CARF negou provimento ao recurso voluntário. Foi interposto pela Contribuinte recurso especial, admitido por despacho de exame de admissibilidade. A PGFN apresentou contrarrazões. A seguir, maiores detalhes sobre a autuação fiscal e da fase contenciosa. Da Autuação Fiscal Trata a autuação fiscal (Termo de Verificação Fiscal de efls. 613/620) de lucros no exterior que teriam sido auferidos pela REXAM BEVERAGE CAN SOUTH AMERICA S/A., por meio de sua controlada REXAM CHILE S/A (sede no Chile), no decorrer dos anoscalendário de 2005 e 2006, com fulcro no art. 74, caput, da MP nº 2.15835, de 2001. Foram deduzidos do IRPJ e CSLL lançados de ofício os valores pagos pela Contribuinte no Chile a título de imposto de renda. Da Fase Contenciosa. A contribuinte apresentou impugnação (efls. 639 e segs.), que foi julgada improcedente pela 4ª Turma da DRJ/Rio de Janeiro I, nos termos do Acórdão nº 1231.319 (e fls. 744 e segs.), conforme ementa a seguir. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005, 2006 LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. CONTROLADA. ADIÇÃO AO LUCRO REAL. Fl. 1122DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.123 4 Os lucros apurados por empresa controlada no exterior serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de cada ano, a partir do advento da MP 2158/2001, artigo 74. Tal hipótese não ocorrerá se a interessada comprovar que ocorrera, antes desta data, qualquer situação de disponibilização de lucro prevista na legislação em vigor. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Sobre os débitos de qualquer natureza para com a Fazenda Nacional, incidem, por força de lei e a partir de I o de abril de 1995, juros de mora equivalentes à taxa SELIC. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Ao ser mantida a infração constante no auto de infração principal, igual sorte colherá o lançamento que dele é reflexo. Uma vez interposto recurso voluntário pela Contribuinte, a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da Primeira Seção, por meio do Acórdão nº 1201001.024 (efls. 920 e segs.) negoulhe provimento, conforme ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006 TRATADOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. Segundo o artigo 10 da convenção firmada entre o Brasil e o Chile com vistas a evitar a dupla tributação do imposto sobre a renda, os dividendos distribuídos pela empresa controlada no Chile podem ser tributados em sua controladora no Brasil. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2005, 2006 TRATADOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. A convenção firmada entre o Brasil e o Chile com vistas a evitar a dupla tributação não alcança a contribuição social sobre o lucro líquido. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006 JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício sofre a incidência dos juros de mora. Precedentes do STJ. Fl. 1123DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.124 5 Foi interposto recurso especial pela Contribuinte (efls. 945 e segs.). Apresentou três divergências. Sobre a primeira, aplicação do art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, para os tratados para evitar a dupla tributação de renda, discorre que o art. 7º do Tratado firmado em 03/04/2001 entre Brasil e Chile para evitar dupla tributação de renda deve prevalecer sobre as normas de direito tributário interno, no caso, o art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, razão pela qual não caberia a tributação dos lucros da Rexam Chile S/A, antes que sejam efetivamente distribuídos para a investidora. Aduz que o acórdão recorrido equivocouse ao entender que o caso concreto trataria de tributação de dividendos e por consequência aplicar o art. 10 do tratado de bitributação. A segunda divergência diz respeito à abrangência do tratado BrasilChile, que diria respeito não apenas ao IRPJ, mas também à CSLL. Enfim, protesta sobre a incidência de juros de mora sobre multa de ofício. O Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 1087/1091 deu seguimento ao recurso. Foram apresentadas contrarrazões pela PGFN (efls. 1093/1108). Discorre que o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, veio complementar o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e que as duas normas convergem no sentido de (a) concretizar a tributação em bases universais para as pessoas jurídicas, levando em conta a renda auferida por meio de suas controladas ou coligadas no exterior; (b) impedir o diferimento indeterminado da tributação de lucros produzidos no exterior – prática que vinha sendo muito adotada por contribuintes para se beneficiar de sistemas tributários mais favoráveis e, ao mesmo tempo, escapar da tributação no Brasil; e (c) estabelecer presunção absoluta quanto ao momento em que se realiza a disponibilização dos lucros auferidos no exterior, via controladas e coligadas. Requer pela manutenção do acórdão recorrido. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura Adoto as razões do Despacho de Admissibilidade de efls. 1087/1091, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999 1, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, para conhecer o recurso da Contribuinte. Passo ao exame do mérito. Tratados para Evitar Dupla Tributação da Renda e Art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001. 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 1124DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.125 6 A princípio, transcrevo a norma em debate: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. A decisão recorrida partiu do pressuposto de que a norma, ao falar da incidência sobre o lucro disponibilizado à controladora no Brasil por sua controlada no exterior, estaria, na realidade, tratando da materialidade dividendos, que estaria expressamente autorizada pelo art. 10 da Convenção firmada entre Brasil e Chile. Nesse contexto, negou provimento ao recurso voluntário. Não obstante a substanciosa argumentação do voto, entendo que a materialidade sobre o qual incide a tributação do art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, trata de lucros, e não de dividendos. Os dividendos dependem a existência de resultado positivo da empresa. Constituemse em uma das destinações dadas ao resultado. Necessariamente, são de quantum inferior ao dos lucros. MARTINS2, no Manual de Contabilidade Societária, discorre sobre a existência de dividendos (1) fixo/mínimos prioritários, e (2) obrigatórios, respectivamente previstos nos arts. 203 e 202 da Lei nº 6.404, de 1976 (Lei das S/A), incidentes sobre percentual do lucro, e propõe a seguinte ordem de distribuição: Ordem Descrição Artigo Lei das S/A 1º Prejuízos Acumulados 189 2º Reserva Legal 193 3º Div. Fixo/mínimo prioritários preferencial, inclusive cumulativos 203 4º Reserva Contingências 195 5º Reserva Especial Div. Não Distribuídos 202 (§§ 4º e 5º) 6º Reserva Lucros a Realizar 197/202, inc. II 7º Dividendo Obrigatório 202 8º Reserva Retenção de Lucros e Reserva Estatutária 194, 196 e 198 Na realidade, apesar de o termo "disponibilizados" conferir razoável margem a dúvida, vez que, se seriam lucros disponibilizados, seriam aqueles destinados a quem de direito, a disponibilização trata do aspecto temporal da norma, ou seja, do momento em que os lucros foram entregues aos sócios. 2 MARTINS, Eliseu... [et. al]. Manual de Contabilidade Societária, 2ª ed. São Paulo : Atlas, 2013, p. 4337. Fl. 1125DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.126 7 Nesse contexto, em relação ao art. 74 em debate, o aspecto material trata dos lucros auferidos no exterior, por intermédio das controladas ou coligadas, em quantum proporcional à participação da controladora do Brasil sobre o investimento. Como já visto, o lucro pode ter diversas destinações. Contudo, a legislação brasileira adotou, para os lucros percebidos no exterior por meio de investimentos em controladas ou coligadas, um tratamento diferenciado. Fato é que, tanto para investimentos de controladas/coligadas no Brasil, quanto no exterior, os lucros auferidos pelas investidas são refletidas na contabilidade da investidora por meio do Método de Equivalência Patrimonial. Para investimentos no Brasil, a investidora contabiliza o resultado positivo da investida, proporcional à sua participação, e exclui o resultado na apuração do lucro real. Nesse caso, viabilizase a neutralidade porque, como o lucro auferido pela investida já foi tributado no Brasil, não cabe sua tributação no resultado da investidora. E principalmente porque a investida encontrase no Brasil, ou seja, os lucros auferidos pela investida são necessariamente oferecidos à tributação. Situação diferente ocorre quando o investimento tem sede no exterior. Nesse caso, a legislação brasileira previu, inicialmente, o mesmo tratamento em relação à contabilização do resultado positivo da investida: o lucro proporcional à sua participação é incluído no resultado da empresa brasileira, e excluído na apuração do lucro real. Contudo, dispôs uma etapa complementar: se os lucros forem auferidos de controladas e coligadas, cabe a adição no resultado tributável, na proporção de participação da investidora brasileira sobre o investimento, ao final de cada anocalendário. Partese da premissa de que os lucros são da investidora brasileira, e, por isso, a sua tributação não deve estar subordinada à política tributária adotada pelo país onde se encontra o investimento. Isso porque o país onde se encontra o investimento pode optar por tributar o lucro em bases tributáveis menores, e a controladora brasileira, que detêm poder de decisão sobre a investida, pode optar em não receber os lucros auferidos. Tratase de situação em que a neutralidade que ocorre quando investidora e investida estão no Brasil é desvirtuada. Porque quando ambas estão no Brasil, a mesma alíquota é aplicada sobre o lucro da investida e o da investidora. Tributase o lucro de investida, e tal valor não é tributado pela investidora. Não há prejuízo no sistema. Por outro lado, se investida está em país de tributação menor, não há que se falar em neutralidade. Na realidade, operacionalizase um diferimento em tempo indeterminado da tributação. E, precisamente para se evitar tal diferimento, o art. 74 da norma em debate dispôs expressamente sobre aspecto temporal: o lucro presumese distribuído para a empresa brasileira (na condição de detentora das ações/quotas da investida), na proporção de sua participação, ao final do anocalendário. Fl. 1126DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.127 8 E a neutralidade, que se operacionaliza quando tanto investida quanto investidora estão no Brasil, também é tutelada ao se dispor quando a investida está no exterior. Vale transcrever o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. Como se pode observar, não se pode falar em bitributação. A neutralidade da tributação entre investida e investidora é operacionalizada por meio de outro mecanismo, mediante compensação do que a investida já recolheu aos cofres no exterior, e superase a questão do diferimento de tributação por tempo indeterminado. A tributação só se consuma se as alíquotas no exterior foram inferiores à praticadas no Brasil. Por sua vez, precisamente sobre a perspectiva de que a materialidade trata dos lucros auferidos pela investidora brasileira, que não se aplica o art. 7º da Convenção Brasil Chile. Isso porque os lucros, apesar de auferidos pela empresa no exterior, pertencem, na medida da participação societária, ao seu investidor que se localiza no Brasil. Ou seja, a legislação brasileira diz respeito aos lucros auferidos pelo contribuinte, investidor, residente no Brasil. Por isso que entendo não haver reparos na interpretação conferida pela Receita Federal, por meio da Solução de Consulta Interna nº 18, da Cosit: As convenções internacionais para evitar dupla tributação que seguem o modelo da OCDE trazem uma regra de tributação exclusiva dos lucros disposta no Parágrafo 1 do Artigo 7, segundo a qual os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exercer suas atividades na forma indicada, seus lucros poderão ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis àquele estabelecimento permanente. Transcrevese a redação do citado parágrafo: “Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado, a não ser que a empresa exerça a sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento estável aí situado. Se a empresa exercer a sua atividade deste modo, os seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem imputáveis a esse estabelecimento estável.” 26. Assim, para entender a compatibilidade entre os acordos celebrados pelo Brasil para evitar a dupla tributação que seguem o modelo da OCDE e a legislação sobre a tributação de lucros de controladas e coligadas no exterior, é importante Fl. 1127DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.128 9 destacar o Comentário da própria OCDE sobre o Parágrafo 1º do Artigo 7 da Convenção Modelo (tradução livre): “ 10.1 O propósito do §1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontradas em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa de outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros.” 27. Conforme exposto pela OCDE, não seriam os lucros da sociedade investida tributados pelo Estado de residência dos sócios, mas os lucros auferidos pelos próprios sócios, em que pese na apuração da base de cálculo tributável seja utilizado como referência o valor dos lucros auferidos pela sociedade sediada no outro Estado. Portanto, o parágrafo 1º não visa impedir o Estado de residência dos sócios de tributar a renda obtida por intermédio de sua participação em sociedades domiciliadas no exterior. 28. O art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, prevê a tributação da renda dos sócios brasileiros decorrente de sua participação em empresas domiciliadas no exterior. Ou seja, a norma interna incide em contribuinte brasileiro, não gerando qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros. 29. É certo que a função primordial dos tratados é promover, mediante a eliminação da dupla tributação, as trocas de bens e serviços e a movimentação de capitais e pessoas. Esse objetivo é igualmente alcançado uma vez que o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autoriza a compensação dos tributos pagos no exterior, na hipótese de reconhecimento de lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real. Portanto, a aplicação da norma interna brasileira não acarreta a bitributação econômica dos lucros decorrentes de investimentos no exterior. 30. Além disso, é importante ressaltar que, segundo o Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, os acordos para evitar dupla tributação também têm por escopo a prevenção da elisão e evasão fiscal, já que os contribuintes poderiam ser tentados a abusar da legislação fiscal de um Estado, através da exploração das diferenças entre as várias legislações dos países ou jurisdições, de maneira a evitar a dupla não tributação. Transcrevese, por elucidativo, o parágrafo 7 dos Comentários da ConvençãoModelo: " 7. O objetivo principal das convenções para evitar a dupla tributação é promover, mediante a eliminação da dupla tributação Fl. 1128DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.129 10 internacional, o comércio internacional de bens e serviços, e a circulação de capitais e de pessoas. Também é objetivo das convenções evitar a fraude e evasão fiscal. 7.1 Os contribuintes podem ser tentados a abusar das leis tributárias do Estado, explorando as diferenças entre as legislações dos países ... " Destaca ainda a solução de consulta que nos tratados celebrados com a Dinamarca (Decreto nº 75.106, de 20 de dezembro de 1974) e com as Repúblicas Tcheca e Eslovaca (Decreto nº 43, de 25 de fevereiro de 1991), foi estabelecida cláusula expressa no sentido de não são tributar os lucros não distribuídos. Ou seja, nesse caso, o art. 74 da MP nº 2.15835, ao dispor sobre aspecto temporal da disponibilização dos lucros, em tese entraria em conflito com o celebrado no tratado. De qualquer forma, tal constatação ratifica entendimento de que, de fato, o art. 7º, no caso concreto, entre Brasil e Chile, não dispõe sobre os lucros auferidos pela investidora brasileira em razão de sua participação na investida localizada no exterior. Assim, tendo em vista que o Tratado BrasilChile não se aplica ao caso em análise, tanto para IRPJ quanto para CSLL, resta superada apreciação da segunda divergência apontada pela Contribuinte, de que a aplicação do Tratado BrasilChile deveria ser estendida à CSLL. Juros de Mora Sobre Multa de Ofício. Vale transcrever, inicialmente, o artigo 113, do CTN, que predica que o objeto da obrigação tributária principal é o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (grifei) § 2º (...) Por sua vez, o crédito tributário decorre da obrigação principal, conforme o artigo 139 do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A penalidade pecuniária tem base no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, materializada na multa de ofício aplicada sobre o tributo. E, como se pode observar a penalidade pecuniária, decorrente da infração, compõe a obrigação tributária principal e, por conseguinte, integra o crédito tributário. Por sua vez, o CTN, ao discorrer sobre o pagamento, informa que devem incidir juros sobre o crédito tributário não integralmente adimplido no vencimento, verbis: Fl. 1129DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.130 11 Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifei) § 1º (...) E a correção estipulada pelo mencionado art. 161, a partir da Lei nº 9.065, de 1995, segue a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, questão já pacificada pela Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Verificase, assim que tanto tributo quanto penalidade estão sujeitos à atualização prevista no art. 161 do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC. Conclusão Portanto, diante de todo o exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso da Contribuinte. Assinado Digitalmente André Mendes de Moura Declaração de Voto Tratase de recurso especial interposto por REXAM BEVERAGE CAN SOUTH AMERICA S/A (doravante “REXAM”, “contribuinte” ou “recorrente”), em que é recorrida a Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN” ou “recorrida”), em face do acórdão n. 1201001.024 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela então 1a Turma Ordinária da 2a Câmara desta 1 a Seção (doravante “Turma a quo”), que negou provimento ao recurso voluntário. Fl. 1130DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.131 12 O auto de infração, lavrado em face do contribuinte, exigiu, em relação aos anoscalendário de 2005 e 2006, IRPJ e CSLL incidentes sobre os lucros auferidos por uma empresa controlada domiciliada no Chile, denominada REXAM CHILE S/A (doravante “controlada chilena” ou “controlada no exterior”), acrescidas de juros de mora e de multa de ofício de 75%. Ao julgar o recurso especial interposto pelo contribuinte, o r. Colegiado da 1a Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”), por voto de qualidade, decidiu manter a decisão recorrida. Nesta declaração de voto, apresento os fundamentos que me fizeram divergir de tal entendimento. Para tanto, faço remissão às razões expostas em meu voto, no acórdão 9101002.332, julgado por este r. Colegiado em 04.05.2016, das quais permaneço convicto, dando destaque a algumas delas neste caso. Em breve retrospecto legislativo, observase que, até janeiro de 1996, as empresas residentes no Brasil sofriam a incidência de IRPJ exclusivamente sobre as rendas derivadas de fontes nacionais (princípio da territorialidade formal). Apenas com o art. 25 da Lei n. 9.249, de 26.12.1995, foi introduzida no ordenamento pátrio a regra da tributação da renda em bases mundiais (princípio da universalidade ou territorialidade material)3. Desse marco legal seguiuse a edição da IN/SRF n. 38, de 27.06.1996, que, entre outras coisas, tratou do critério temporal dessa tributação, ao dispor que os lucros de coligadas ou controladas no exterior seriam tributados no momento de sua transferência via pagamento, crédito, remessa, entrega ou emprego. Em 10.12.1997, foi publicada a Lei n. 9.532/97 que, em seu art. 1o, § 1º, “b”, elegeu esse mesmo critério temporal para a incidência do tributo. Em 29.06.1999, com o advento do art. 19 da MP n. 1.8586, os lucros auferidos pelas sociedades brasileiras por meio de suas controladas ou coligadas estrangeiras passaram a ser tributadas também pela CSLL. Em 24.08.2001, foi editada a Medida Provisória nº 2.15835, cujo art. 74 alterou o critério temporal da hipótese de incidência do IRPJ e da CSL previsto no art. 25 da Lei n. 9.249/95. Por meio da IN n. 213, de 07.10.2002, especialmente em seu art. 1o, a Secretaria da Receita Federal dispôs sobre a aplicação da legislação CFC a partir desse novo marco jurídico estabelecido pela MP n. 2.15835/2001. Nesse ambiente normativo, haveria a incidência de IRPJ e CSL sobre os “lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior” (§ 2º, art. 25, Lei n. 9.249/05, art. 19 da MP n. 18586/99). O critério temporal da incidência desses tributos seria a “data do balanço no qual tiverem sido apurados” “os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior” (MP 2.15835/2001). A administração fazendária, por sua vez, dispôs que o critério material da hipótese de incidência tributária seria o auferimento de “lucros” por “controladas e coligadas”, considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem (IN 213/02, art. 1o, §§ 1º e 7º). No art. 25 da Lei n. 9.249/05, bem como no art. 19 da MP n. 18586/99, a categoria selecionada pelo legislador para o exercício de sua competência tributária foi o 3 Sobre a concepção de territorialidade formal e material, vide: TIPKE, Klaus; LANG, Joachim. Direito tributário (Steuerrecht). Volume 1. Tradução da 18a edição alemã, totalmente refeita, de Luíz Dória Furquim. Porto Alegre : Sergio Antonio Fabris Editor, 2008, p. 103104; SCHOUERI, Luís Eduardo. Tratados e Convenções Internacionais sobre Tributação, in Revista de Direito Tributário Atual n. 17. São Paulo : IBDT/Dialética, 2003, p. 2050. Fl. 1131DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.132 13 “lucro”, o que representou a escolha por uma base tributável substancialmente maior do que aquela que seria possível caso houvesse optado por outras categorias, como a dos “dividendos”. Portanto, a tributação do “lucro” e não do “dividendo” tem sido uma constante decisão consciente do legislador competente. A representação gráfica abaixo ilustra como são díspares as bases de cálculo próprias dos “lucros das empresas” e dos “dividendos”: Lucro Lucro após o IR IR Dividendo após o IR IR Auferimento do lucro Tributação do lucro Distribuição tributada dos dividendos Como se pode observar, a base tributável própria à categoria lucros auferidos por controlada no exterior é necessariamente superior àquela que corresponderia à categoria dividendos pagos por controlada no exterior, o que demonstra significativa distinção entre elas. A legislação brasileira torna relevante o fato “auferimento do lucro” pela controlada no exterior, na data do encerramento do balanço. O “lucro” em questão, antes de qualquer tributação no outro Estado, é que deverá ser adicionado à base de cálculo do IRPJ e da CSL. Conforme a sistemática de tributação brasileira, o imposto pago no outro Estado contratante, apenas terá relevância em momento posterior, podendo ser utilizado como crédito para o pagamento do tributo brasileiro. Em momento algum a lei brasileira tributa dividendos fictos, o que causaria repulsa.4 Nesse cenário, identificada a norma de incidência tributária pertinente no sistema jurídico brasileiro, é necessário identificar as normas do acordo de bitributação que seriam aplicáveis ao caso. Notese que nem o recorrente e nem a recorrida descartam a incidência do tratado BrasilChile no presente caso. Tratase que matéria incontroversa nos presentes autos, como nem poderia deixar de ser. Em especial, discutese a incidência do art. 7o ou do art. 10o do acordo do acordo BrasilChile. No coração dos acordos de bitributação celebrados pelo Brasil, nos moldes da CMOCDE, consta a regra de que os lucros de empresas são tributáveis exclusivamente no Estado de residência da pessoa jurídica que os aufere. É o que se dá com a regra de distribuição 4 Sobre a repulsa à adoção de ficção quanto à prática do fato gerador do tributo, vide: COÊLHO, Sacha Calmon Navarro; DERZI, Misabel Abreu Machado. Tributação pelo IRPJ e pela CSLL de lucros auferidos por empresas controladas ou coligadas no exterior inconstitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo: Dialética, n.130, p. 135149, 2006, p. 138142. Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.133 14 de competência para a tributação dos “lucros das empresas”, prevista no tratado BrasilChile, em seu art. 7o, especialmente em seu item (1). Por sua vez, assim dispõe o art. 10o do acordo BrasilChile: 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente de um Estado Contratante a um residente do outro Estado Contratante podem ser tributados nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem também ser tributados no Estado Contratante em que resida a sociedade que os pague e de acordo com a legislação desse Estado, mas, se o beneficiário efetivo dos dividendos for um residente do outro Estado Contratante, o imposto assim exigido não poderá exceder de: a) 10 por cento do montante bruto dos dividendos, se o beneficiário efetivo for uma sociedade que controle, direta ou indiretamente, pelo menos 25 por cento das ações com direito a voto da sociedade que pague tais dividendos; b) 15 por cento do montante bruto dos dividendos em todos os demais casos. Este parágrafo não afeta a tributação da sociedade em relação aos lucros que dão origem ao pagamento dos dividendos. (...) Para o julgamento do presente caso, é preciso saber qual o sentido deve ser atribuído ao termo “pago”, especialmente quando presente na expressão “dividendos pagos” adotada no art. 10 do acordo BrasilChile, de forma a verificar se os rendimentos tributados pela legislação brasileira se enquadrariam nesta categoria. Na hipótese de não incidência da regra do art. 10 desse acordo de bitributação, deve ser aplicado o art. 7. O art. 10 (3), do acordo BrasilChile, define o termo “dividendos” como “rendimentos provenientes de ações ou outros direitos, com exceção dos direitos de crédito, que permitam participar dos lucros, assim como os rendimentos de outros direitos de participação sujeitos ao mesmo tratamento tributário que os rendimentos de ações pela legislação do Estado Contratante do qual a sociedade que os distribui seja residente.”. O dispositivo segue a tradição dos acordos de bitributação celebrados pelo Brasil. O sentido de “dividendos” estabelecido nesses tratados internacionais geralmente é mais amplo que no Direito doméstico brasileiro, de forma a abranger aquilo que em nossa legislação interna possui sentidos diversos, como rendimentos de “partes beneficiárias” (Lei 6.404/76, arts. 46 a 51) e distribuição lucros em razão de debêntures (Lei 6.404/76, arts. 52 a 74).5 Para fins de aplicação do acordo internacional, devem ser adotados esses conceitos mais amplos, expressos em seu texto. Embora o termo “dividendos” esteja definido expressamente no art. 10 (3) do acordo BrasilChile, o seu complemento “pagos” está entre os termos não definidos em seu texto, de forma que deve ser interpretado conforme o seu “contexto” e, caso este não forneça um sentido plausível, uma definição razoável deverá ser investigada no Direito doméstico dos Estados contratantes. O art. 3 (2) do tratado internacional em questão assim estabelece: 2. Para a aplicação da Convenção em um dado momento por um Estado Contratante, qualquer termo ou expressão que nela não se encontrem definidos terá, a não ser que de seu contexto se infira uma interpretação diferente, o significado que nesse momento lhe for atribuído pela legislação desse Estado 5 Vide, nesse sentido: CASELLA, Paulo Borba. Direito internacional tributário brasileiro. São Paulo : LTR, 1995, p. 3640; XAVIER, Alberto. Direito Tributário Internacional do Brasil. Rio de Janeiro: Forense, 2010, p. 588 e seg. Fl. 1133DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.134 15 relativa aos impostos que são objeto da Convenção, prevalecendo o significado atribuído pela legislação tributária aplicável nesse Estado sobre o significado atribuído por outras leis desse Estado. Prevê o acordo BrasilChile, então, o dever do aplicador investigar um sentido ao termo “pagos” (ou, em última análise, à expressão “dividendos pagos”), no contexto do próprio acordo internacional. Apenas se esse “contexto” não prover um sentido plausível ao termo do acordo, este deverá ser investigado no Direito doméstico. O intérprete apenas se desincumbirá de seu ônus com a incursão por evidências presentes no “contexto” dos tratados de bitributação para a interpretação de seus termos. Não se trata de atitude discricionária, mas de medida essencial para que o acordo bilateral seja coerentemente aplicado por ambos os Estados contratantes, em conformidade com a CVDT e as demais normas do Direito internacional. No acórdão 9101002.332, julgado por este r. Colegiado em 04.05.2016, procurei analisar exaustivamente evidências desse “contexto”, as quais convergiram para que demonstrar que “dividendos pagos”, conforme o acordo internacional, seriam aqueles cuja titularidade tenha sido efetivamente transferida de uma parte a outra. Não há qualquer fundamento para se alterar o entendimento exposto naquela reunião da CSRF. Com remissão às razões expostas naquele julgamento, cumpre aqui ao menos dar destaque à mais imediata de todas as evidencias, pertinente ao “contexto intrínseco” dos acordos de bitributação. O contexto intrínseco compreende o próprio signo linguístico sob interpretação ou outros presentes no texto do tratado, no preâmbulo, nos anexos, bem como em qualquer acordo ou instrumento celebrado pelas partes relativos ao tratado ou em conexão com a sua conclusão. A sua investigação, além de instintiva, decorre de prescrição expressa no art. 31 (1) e (2) da CVDT. A análise gramatical do trecho do art. 10 (1) do acordo BrasilChile, na oração “Os dividendos pagos por uma sociedade (...)”, evidencia o emprego do sujeito paciente (da passiva) “dividendos” acompanhado do particípio “pagos”. Importante ressaltar que o particípio consiste em uma forma nominal do verbo que expressa o resultado do “fato verbal”, isto é, indica uma ação já realizada, já finalizada, sobre o objeto da oração que ele qualifica, in casu, “os dividendos”. O termo “pago”, assim, atua como um reforço incisivo para delimitar a aplicação do dispositivo àquelas situações em que os rendimentos por ele tutelados (“dividendos”) tenham sido efetivamente “pagos”. Sob a perspectiva sintática, o termo “dividendo”, empregado na cláusula sob exame, por encontrarse qualificado como “pago”, impõe, necessariamente, que esta ação (pagar) já tenha sido concretizada (pela “sociedade”, agente da passiva na oração). A CVDT também determina que se investigue se e como o termo “pago” é empregado em outras passagens do acordo BrasilChile, como no art. 10 (6), no art. 11 (1), (5), (6), (7) e (8) ou no art. 12 (1), (4), (6) e (7). Em tais dispositivos, o termo “pago” é reiteradamente empregado no acordo, assumindo a função de delimitar um marco de transferência efetiva de recursos, seja em relação a juros, royalties ou dividendos. Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.135 16 De forma consistente, portanto, apenas se pode qualificar como dividendos pagos os valores ou direitos descritos no art. 10 (3) cuja titularidade tenha sido efetivamente transferida de uma parte a outra. Ademais, ainda com remissão às razões expostas no acórdão 9101002.332, cumpre também destacar o que dispõem os Comentários à CMOCDE, editados pelo Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, que compõem o “contexto extrínseco secundário” dos acordos de bitributação. Desde a sua versão de 1977, os Comentários à CMOCDE apresentam as seguintes disposições quanto à interpretação do art. 10 (dividendos), especialmente quanto aos termos “dividendos pagos”, in verbis: “7. Por este motivo, o parágrafo 1 simplesmente estabelece que dividendos poderão ser tributados no Estado de residência do beneficiário. O termo “pago” apresenta significado bastante amplo, já que o conceito de pagamento significa o cumprimento da obrigação de colocar recursos à disposição do acionista da maneira exigida por contrato ou pelo costume.” Portanto, o termo “pago”, conforme mais essa evidência, abrange apenas situações em que haja efetivo “cumprimento da obrigação de colocar recursos à disposição do acionista da maneira exigida por contrato ou pelo costume”. Por sua vez, os Comentários à CMOCDE, em sua versão mantida desde 2003, expressam a possibilidade de normas nacionais dos Estados contratantes afastarem os benefícios dos tratados quando restar configurada a prática de abusos pelo contribuinte. Podem ser citados como exemplos os parágrafos 9.2 e 22.1 dos Comentários ao art. 1o da CM OCDE, adicionados naquele, que tratam, em especial, se “as disposições e normas jurisprudenciais específicas da legislação interna de um Estado Contratante destinadas a prevenir abuso fiscal entram ou não em conflito com convenções tributárias”. Notese que, ainda que se atribua alguma relevância aos Comentários à CM OCDE, é preciso ter claro que muitos deles se voltam a situações reputadas como “abusivas” pelo sistema jurídico nacional de um dos Estados contrates. Contudo, a legislação brasileira de tributação de controladas no exterior não se encaixa nesse conceito, pois não se volta contra situações abusivas. Nossa legislação tem vocação para tributar lucros de controladas independentemente da prática de atos abusivos. Sob tal perspectiva, não se pode sustentar que a legislação brasileira afasta a incidência do tratado internacional sem que incorrerse em ofensa ao acordado perante o Direito Internacional público. É importante consignar que o STJ, em julgamento sobre a matéria, alcançou a mesma conclusão adotada nesta declaração de voto, como se observa da ementa a seguir: RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA DENEGADO NA ORIGEM. APELAÇÃO. EFEITO APENAS DEVOLUTIVO. PRECEDENTE. NULIDADE DOS ACÓRDÃOS RECORRIDOS POR IRREGULARIDADE NA CONVOCAÇÃO DE JUIZ FEDERAL. NÃO PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356/STF. IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM Fl. 1135DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.136 17 TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.15735/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. 1. Afastase a alegação de nulidade dos acórdãos regionais ora recorridos, por suposta irregularidade na convocação de Juiz Federal que funcionou naqueles julgamentos, ou na composição da Turma Julgadora; inocorrência de ofensa ao Juiz Natural, além de ausência de prequestionamento. Súmulas 282 e 356/STF. Precedentes desta Corte. 2. Salvo em casos excepcionais de flagrante ilegalidade ou abusividade, ou de dano irreparável ou de difícil reparação, o Recurso de Apelação contra sentença denegatória de Mandado de Segurança possui apenas o efeito devolutivo. Precedente: AgRg no AREsp. 113.207/SP, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 03/08/2012. 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizarse com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. Fl. 1136DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.137 18 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.15835/2001, aderese a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.15835/01) a qual objetivou regular; com efeito, analisandose a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.15835/01, constatase que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultantes de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. 10. Ante o exposto, conheço do recurso e doulhe parcial provimento, concedendo em parte a ordem de segurança postulada, para afirmar que os lucros auferidos nos Países em que instaladas as empresas controladas sediadas na Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo, sejam tributados apenas nos seus territórios, em respeito ao art. 98 do CTN e aos Tratados Internacionais em causa; os lucros apurados por Brasamerican Limited, domiciliada nas Bermudas, estão sujeitos ao art. 74, caput da MP 2.15835/2001, deles não fazendo parte o resultado da contrapartida do ajuste do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial. (STJ, REsp 1.325.709/RJ, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2014, DJe 20/05/2014) Igual entendimento foi adotado pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região, ao julgar o recurso de Apelação da União Federal e a Remessa Necessária nos autos do processo n. 2003.72.01.0000144/SC6: TRIBUTÁRIO. IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS SEDIADAS NO EXTERIOR. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. CONFLITO DE NORMAS. ART. 74, CAPUT, DA MP Nº 2.15835/2001. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. PREVALÊNCIA DA NORMA VEICULADA NOS TRATADOS. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA DOS LUCROS NO PAÍS DE DOMICÍLIO. REAVALIAÇÃO POSITIVA DOS INVESTIMENTOS EM CONTROLADAS SITUADAS NO EXTERIOR. NEUTRALIDADE DO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL PARA FINS FISCAIS. ART. 23, PARÁGRAFO ÚNICO, DO DL Nº 1.598/1977. 6 Vide: http://www.netinternacional.org/web/TabId/64/NoticiaId/229/pdf.aspx. Fl. 1137DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.138 19 1. Em matéria tributária, dispõe o art. 98 do CTN que os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. A doutrina adverte quanto à imprecisão técnica do dispositivo, porquanto não se trata, a rigor, de revogação da legislação interna, mas de suspensão da eficácia da norma tributária nacional, que readquirirá a sua aptidão para produzir efeitos se e quando o tratado for denunciado (Ricardo Lobo Torres). 2. A despeito da controvérsia no STF sobre a hierarquia normativa entre tratados em matéria tributária e lei interna, a questão se resolve no plano infraconstitucional. As disposições veiculadas nos tratados e convenções internacionais em matéria tributária, após se submeterem ao procedimento previsto no art. 49, inciso I, da CF, passam a integrar o ordenamento jurídico nacional. Eventual antinomia, assim, resolvese pelo princípio da especialidade, prevalecendo o regramento internacional naquilo que conflitar com a norma interna de tributação. A norma interna deixa de ser aplicada na hipótese específica regulada pelo tratado, mas continua válida e aplicável a todas as situações que não envolvem os sujeitos e os elementos de estraneidade definidos no tratado. Ocorre, dessa forma, a suspensão da eficácia da norma interna e não propriamente revogação ou modificação. 3. Entender que a superveniência de norma interna conflitante com o tratado internacional modificaria o regramento a ser aplicado implica denúncia implícita do acordo, sem a adoção dos procedimentos constitucionais e legais para tanto, desprezando, ademais, os princípios da boafé, da segurança e da cooperação que norteiam as relações internacionais. Em favor da prevalência dos tratados, cabe invocar não somente o art. 98 do CTN, mas também o art. 5º, § 2º, da Constituição Federal e o art. 27 do Decreto nº 7.030/2009, que promulga a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. 4. O Brasil firmou acordos visando a evitar a dupla tributação e a prevenir a evasão fiscal, em matéria de imposto de renda, com a China (Decreto nº 762/1993) e a Itália (Decreto nº 85.985/1981). Ambos oferecem tratamento uniforme à matéria, seguindo o Modelo de Acordo Tributário sobre Renda e Capital da OCDE. O art. 7º dos Tratados adota o princípio da residência no tocante à tributação dos lucros das empresas, estabelecendo a competência exclusiva do país de domicílio da empresa para a tributação de seus lucros. 5. O ponto nodal da controvérsia decorre do disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, que considera disponibilizados os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, independente de sua efetiva distribuição. 6. Equivocase a Fazenda Nacional ao sustentar que a tributação incide sobre os lucros obtidos por empresa sediada no Brasil, provenientes de fonte situada no exterior, na medida em que refletem positivamente no patrimônio da controladora, valorizando suas ações e demais ativos, pois a reavaliação positiva dos investimentos realizados em empresas controladas situadas no exterior não constitui renda tributável, conforme o disposto no parágrafo único do art. 23 do DL nº 1.598/1977 (na redação vigente até a Lei nº 12.973/2014). A norma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 em nada alterou o regime fiscal vigorante desde o art. 23 do DL nº 1.598/1977, que estabelece a neutralidade do método da equivalência patrimonial para efeitos fiscais, porque seu resultado positivo, relevante para a contabilidade, não é tributado. 7. Diante do evidente conflito do disposto no art. 74 da MP nº 2.15835, que determina a adição dos lucros obtidos pela empresa controlada no exterior, para o cômputo do lucro real da empresa controladora, na data do balanço no qual tiverem sido apurados, deve prevalecer a norma do art. 7º dos Decretos nº Fl. 1138DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.139 20 762/1993 e nº 85.985/1981, a fim de evitar a tributação dos lucros das empresas controladas pela impetrante na China e na Itália”. Esse mesmo entendimento tem sido adotado em outros julgados do CARF, por exemplo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006 IRPJ LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA DIVIDENDOS FICTOS LUCROS TRATADO ART. 10 OU ART. 7º 1 A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 não recai sobre dividendos fictos. Não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Ademais, o art. 10 do Tratado BrasilHolanda trata dos dividendos pagos, não permitindo que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado BrasilHolanda. Inaplicabilidade do art. 10 do tratado. 2 O regime de CFC do Brasil do art. 74 da MP 2.158/01 considera transparente as controladas no exterior (entidade transparente ou passthrough entity): considera como auferidos pela investidora no País os lucros da investida no exterior; são os lucros em dissídio. Isso é considerar auferidos os lucros no exterior pela investidora no País, por intermédio de suas controladas no exterior. Não é o mesmo que ficção legal: é parecença com a consideração do lucro de grupo societário (tax group regime). O art. 7º do Tratado Brasil Holanda é norma de bloqueio: define competência exclusiva para tributação dos lucros da sociedade residente num Estado contratante a este Estado. Regra específica em face de regra geral. A não aplicação da norma de bloqueio do art. 7º aos lucros em dissídio seria simplesmente desconsiderar, no âmbito de tratado, a personalidade jurídica da sociedade residente na Holanda. No mesmo sentido, bastaria um dos Estados contratantes proceder a uma qualificação a seu talante do que (não) sejam lucros de controlada residente noutro Estado contratante, para frustrar norma de tratado que as partes honraram respeitar. Intributabilidade com o IRPJ dos lucros em discussão, pela aplicação do art. 7º do Tratado BrasilHolanda. IRPJ, CSLL LUCROS DE COLIGADA NA ARGENTINA ADI 2.588. DF. No julgamento da ADI 2.588DF, com trânsito em julgado em 17/2/14, Reconheceuse a inconstitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01 em relação a lucros de coligadas não situadas em “paraíso fiscal”. Efeitos do julgamento da ADI 2.588DF sobre os lucros da coligada residente na Argentina. Intributabilidade, no País, desses lucros. CSLL LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA TRATADO. Sofrem incidência da CSLL os lucros das pessoas jurídicas controladas sediadas na Holanda. MULTA ISOLADA CONCOMITÂNCIA MULTA PROPORCIONAL Apenado o continente, incabível apenar o conteúdo. Penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo seria uma contradição de termos lógicos e axiológicos. Princípio da consunção em matéria apenatória. A aplicação da multa de ofício de 75% sobre a CSLL exigida exclui a aplicação da multa de ofício de 50% sobre CSLL por estimativa dos mesmos anoscalendário. (Acórdão 1103001.122 – 1ª Câmara / 3ª Turma Ordinária , sessão de 21/10/2014). Fl. 1139DF CARF MF Processo nº 12897.000715/200941 Acórdão n.º 9101002.561 CSRFT1 Fl. 1.140 21 Por fim, é importante consignar que igual entendimento deve ser adotado em relação à CSLL, inclusive por força do disposto no art. 11 da Lei n. 13.202, de 8.12.2015: Art. 11. Para efeito de interpretação, os acordos e convenções internacionais celebrados pelo Governo da República Federativa do Brasil para evitar dupla tributação da renda abrangem a CSLL. Parágrafo único. O disposto no caput alcança igualmente os acordos em forma simplificada firmados com base no disposto no art. 30 do DecretoLei no 5.844, de 23 de setembro de 1943. Aplicase ao referido enunciado legal o art. 106 do CTN, que assim dispõe: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; Desse modo, é necessário reconhecer que a CSLL encontrase indubitavelmente incluída no escopo dos acordos de dupla tributação celebrados pelo Brasil, independentemente do período em que houver sido celebrado o acordo, tendo em vista a eficácia retroativa do art. 11 da Lei n. 13.202/2015. Por todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto de contribuinte. (Assinado digitalmente) Conselheiro Luís Flávio Neto Fl. 1140DF CARF MF
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