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Numero do processo: 16327.720407/2010-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2012
Data da publicação: Fri Apr 05 00:00:00 UTC 2013
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2006, 2007
CSLL. PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS. TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. Devem ser adicionados ao lucro líquido do período, para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social, os tributos cuja exigibilidade esteja suspensa por força de medida judicial. Precedente da Câmara Superior de Recursos Fiscais. JUROS APLICADOS SOBRE TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. São também indedutíveis os acréscimos de juros feitos às provisões contábeis de tributos com exigibilidade suspensa.
MULTA DE OFÍCIO. Somente é cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. Interpretação da Súmula CARF nº 47.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. APRECIAÇÃO DA MATÉRIA NO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. ADMISSIBILIDADE. A jurisprudência administrativa já está pacificada no sentido de que devem ser apreciados os questionamentos dirigidos contra a aplicação de juros sobre a multa de ofício. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC.
Numero da decisão: 1101-000.813
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em, por unanimidade de votos, REJEITAR a argüição de nulidade do lançamento e, por voto de qualidade, DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, divergindo os Conselheiros Benedicto Celso Benício Junior, Manoel Mota Fonseca e Guilherme Pollastri Gomes da Silva, que davam provimento ao recurso, e votando pelas conclusões o Conselheiro Carlos Eduardo de Almeida Guerreiro, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(documento assinado digitalmente)
VALMAR FONSECA DE MENEZES - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
EDELI PEREIRA BESSA - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Valmar Fonseca de Menezes (presidente da turma), Edeli Pereira Bessa, Benedicto Celso Benício Júnior, Carlos Eduardo de Almeida Guerreiro, Manoel Mota Fonseca e Guilherme Pollastri Gomes da Silva.
Nome do relator: EDELI PEREIRA BESSA
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PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS. TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. Devem ser adicionados ao lucro líquido do período, para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social, os tributos cuja exigibilidade esteja suspensa por força de medida judicial. Precedente da Câmara Superior de Recursos Fiscais. JUROS APLICADOS SOBRE TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. São também indedutíveis os acréscimos de juros feitos às provisões contábeis de tributos com exigibilidade suspensa. MULTA DE OFÍCIO. Somente é cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. Interpretação da Súmula CARF nº 47. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. APRECIAÇÃO DA MATÉRIA NO CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. ADMISSIBILIDADE. 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Acordam os membros do colegiado em, por unanimidade de votos, REJEITAR a argüição de nulidade do lançamento e, por voto de qualidade, DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, divergindo os Conselheiros Benedicto Celso AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 04 07 /2 01 0- 94 Fl. 1203DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 3 2 Benício Junior, Manoel Mota Fonseca e Guilherme Pollastri Gomes da Silva, que davam provimento ao recurso, e votando pelas conclusões o Conselheiro Carlos Eduardo de Almeida Guerreiro, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (documento assinado digitalmente) VALMAR FONSECA DE MENEZES Presidente. (documento assinado digitalmente) EDELI PEREIRA BESSA Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Valmar Fonseca de Menezes (presidente da turma), Edeli Pereira Bessa, Benedicto Celso Benício Júnior, Carlos Eduardo de Almeida Guerreiro, Manoel Mota Fonseca e Guilherme Pollastri Gomes da Silva. Fl. 1204DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 4 3 Relatório BANCO SANTANDER BRASIL S/A, já qualificada nos autos, recorre de decisão proferida pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento do Rio de JaneiroI que, por unanimidade de votos, julgou PROCEDENTE EM PARTE a impugnação interposta contra lançamento formalizado em 09/12/2010, exigindo crédito tributário no valor total de R$ 5.482.109,43. A presente exigência decorrente da glosa, na apuração da base de cálculo da CSLL, pela sucedida Banco Sudameris Brasil S/A, nos anoscalendário 2006 e 2007, de despesas correspondentes a tributos com exigibilidade suspensa, as quais também reúnem os encargos de juros sobre eles calculados. No Termo de Verificação Fiscal de fls. 923/931, a autoridade lançadora, depois de demonstrar a origem dos valores, argumentou que a contribuinte, ao discutir judicialmente a exigibilidade dos tributos, defende sua convicção de que obrigação tributária de fato não está sendo criada, pelas razões de Direito e as circunstâncias que julga aplicáveis. Ao obter judicialmente a suspensão da exigibilidade, cristalizase a possibilidade de que a ação patrocinada poderá vir a ser vitoriosa e que, em algum momento futuro, o tributo deixe definitivamente de ser exigível ao contribuinte titular do feito, total ou parcialmente, dependendo do alcance da decisão judicial. Daí que, por se tratar de um fato incerto, a apropriação ao resultado das despesas com um tributo que se encontra suspenso judicialmente representa contabilmente uma provisão, ou seja, uma obrigação fiscal condicionada a exigência futura e incerta. Citou doutrina em abono ao seu entendimento, e fundamentou a exigência no art. 13, inciso I da Lei nº 9.249/95, bem como nos arts. 3o e 50 da Instrução Normativa SRF nº 390/2004. Reproduziu ementa de solução de consulta neste sentido, bem como ementas de acórdãos do Primeiro Conselho de Contribuintes, inclusive no que tange à indedutibilidade dos juros de mora incidentes sobre tributos com exigibilidade suspensa. Além de promover a glosa das referidas despesas na apuração do ajuste anual da CSLL, o fiscal autuante recompôs as bases de cálculo das estimativas mensais, quando levantando balancete para suspensão ou redução do pagamento, identificando falta de recolhimento de estimativas que submeteu à aplicação da multa isolada, já considerando os efeitos da Lei nº 11.488/2007, e desenvolvendo extenso arrazoado para evidenciar que não haveria mais que se falar de dupla incidência sobre uma mesma materialidade, inclusive citando, neste sentido, entendimento expresso em Acórdão da CSRF (nº 01052875), de 25 de junho de 2008. Impugnada a exigência, foi ela parcialmente mantida pela autoridade julgadora de 1a instância, em acórdão assim ementado: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2006, 2007 NULIDADE Fl. 1205DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 5 4 Incabível a alegação de nulidade, comprovado que o auto de infração foi formalizado com obediência a todos os requisitos previstos em lei e não se apresenta nos autos nenhum dos motivos apontados no art. 59 do Decreto nº 70.235/1972. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA LANÇADA COM O TRIBUTO. A multa de ofício lançada com o tributo também se enquadra no conceito de débito para com a União, sujeitandose à incidência de juros Selic se não for paga tempestivamente. MULTA DE OFÍCIO. EMPRESA INCORPORADA. RESPONSABILIDADE DA SUCESSORA. Na sucessão empresarial, a sucessora é responsável pelos créditos tributários devidos pela sucedida, não somente aqueles relativos a tributos, mas também os decorrentes de penalidades pecuniárias devidas pelo descumprimento das obrigações tributárias, principal e acessória, independentemente do lançamento de ofício ocorrer antes ou depois do evento sucessório. APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E DE MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA. Conforme jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais é incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e a de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL Anocalendário: 2006, 2007 PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS. TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. Os tributos e contribuições que estejam com exigibilidade suspensa constituem provisões e não despesas incorridas, estando vedada sua dedução para apuração da base de cálculo da CSLL, conforme regra do art. 13, inciso I, da Lei 9.249/1995. A exoneração promovida em 1a instância de julgamento alcançou, apenas, a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, no valor de R$ 133.820,03, não se submetendo a reexame necessário. Cientificada da decisão de primeira instância em 13/07/2011 (fl. 1107), a contribuinte interpôs recurso voluntário, tempestivamente, em 27/07/2011 (fls. 1108/1140. Argúi a nulidade do lançamento em razão de vício de fundamentação, vez que lavrado com base em equivocado fundamento legal, na medida em que os valores glosados não possuem a natureza de provisões, mas, sim, de despesas efetivas. Aborda os conceitos de provisão, passivo e contingência passiva, para evidenciar a dedução de despesas reconhecidas no resultado em razão da constituição de um passivo efetivo, que decorre de uma obrigação legal com prazo certo e valor determinado. Esclarece que, como instituição financeira, deve observar da forma mais criteriosa possível as normas e princípios contábeis, especialmente as orientações do Banco Central e da CVM, como inclusive reconhecido no Parecer Normativo CST nº 78/78. Reporta se, então, à Deliberação CVM nº 489/05, que aprovou o Pronunciamento IBRACON NPC nº 22, veiculando conceitos assim resumidos pela recorrente: Fl. 1206DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 6 5 (i) por provisões: um passivo de prazo ou valor incertos; (ii) por passivo: uma obrigação presente de uma entidade, decorrente de eventos já ocorridos, cuja liquidação resultará em uma entrega de recursos; (iii) por obrigação legal: aquela que deriva de um contrato (por meio de termos explícitos ou implícitos), de uma lei ou de outro instrumento fundamentado em lei; e (iv) por contingência passiva: uma possível obrigação presente cuja existência será confirmada somente pela ocorrência ou não de um ou mais eventos futuros, que não estejam totalmente sob o controle da entidade. Reportase ao item 8 do Pronunciamento antes mencionado, que diferencia provisões de contingências passivas, e opõese ao entendimento da Turma Julgadora de 1a instância, de que tal norma somente se tornou aplicável à recorrente com a Resolução CMN nº 3535/2008, na medida em que sociedade anônima de capital aberto, sujeita às normas da CVM. Argumenta que estava obrigada, pela Lei nº 9.718/98, a recolher a Contribuição ao PIS e a COFINS sobre receitas auferidas, e embora obtendo decisão judicial favorável à sua pretensão de afastar a majoração veiculada por referida lei, com a conseqüente suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nunca deixou de existir a efetiva obrigação tributária. Daí a necessidade de reconhecer esta efetiva obrigação legal, especialmente em razão do princípio do conservadorismo, até porque a existência de uma tutela jurisdicional que lhe garante o não recolhimento do tributo não desnatura a obrigação tributária, como expresso no art. 113 do CTN. Não se trata, pois, de mera contingência passiva ou provisão, mas sim obrigação de direito público, decorrente de lei em pleno vigor, que caracteriza um passivo circulante efetivo (ainda que esteja com a exigibilidade suspensa por força de decisão judicial). Cita, neste sentido, excertos do Acórdão nº 10809.660. Defende, também, a dedutibilidade dos juros incidentes sobre os passivos tributários antes referidos, pois tratandose o principal de obrigação legal, o mesmo raciocínio deve ser aplicado aos juros incidentes sobre o valor principal da obrigação tributária, até porque estes acréscimos também decorrem de lei. Transcreve excertos do Anexo II da Deliberação CVM nº 489/05, acerca da caracterização dos tributos discutidos judicialmente, e correspondentes juros, como obrigação legal, e não uma provisão ou contingência passiva, considerando os conceitos da NPC. Observa que o Manual de Contabilidade Societária da FIPECAFI, citado na decisão recorrida, respalda a conduta adotada pela Recorrente, ao estabelecer que compete à administração da companhia avaliar a situação na qual está inserida e fazer refletir da melhor forma essa avaliação em suas demonstrações. Reproduz, ainda, outro excerto doutrinário em favor de seu entendimento. Conclui, assim, pela existência de nulidade em decorrência de erro material, dada a incongruência entre o fato efetivamente ocorrido e o enquadramento legal dado à infração, não se verificando a subsunção do fato à norma, consoante doutrina à qual se reporta. Subsidiariamente argumenta que inexiste dispositivo legal que determine a adição de despesas com tributos com exigibilidade suspensa, na apuração da CSLL. O art. 41, §1o da Lei nº 8.981/95 somente produz efeitos na determinação do lucro real, e o princípio da legalidade impede alterações na base de cálculo do tributo na ausência de norma legal, Fl. 1207DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 7 6 consoante abordado nos excertos doutrinários que transcreve, e firmado na jurisprudência administrativa que indica. Acrescenta que a CSLL, embora também incidente sobre o lucro, submetese a regras próprias quanto à definição das adições e exclusões à sua base de cálculo, sujeitandose, apenas, às mesmas regras de apuração e pagamento do IRPJ. Aponta incoerência da Receita Federal quanto ao PIS e COFINS deduzidos pela Recorrente, pois no ano de 2009, a Receita Federal do Brasil determinou a cobrança desses valores de PIS e COFINS, registrados pela Recorrente com exigibilidade suspensa, nos anos de 2006 e 2007, analisando a decisão judicial pertinente e concluindo que os débitos não estariam com exigibilidade suspensa. Afirma que documentos juntados à defesa evidenciam que estes valores foram cobrados com a inscrição em dívida ativa e propositura de execução fiscal pela PGFN. E, diante deste cenário, pede o cancelamento da autuação sob análise. Defende a impossibilidade de lançamento de multas na hipótese de responsabilidade tributária por sucessão. Expõe sua interpretação do art. 132 do CTN, aduz que as multas foram lançadas em 08/12/2010, enquanto a incorporação se deu em 31/08/2007, e invoca doutrina e jurisprudência administrativa que limitam a responsabilidade do sucessor aos tributos devidos pelo sucedido. Acrescenta, ainda, que não é o caso de aplicação da Súmula CARF nº 47, pois o Banco Sudameris Brasil S/A foi incorporado pelo Banco ABN AMRO Real S/A e, posteriormente, este o foi pelo Banco Santander Brasil S/A (Recorrente), todos eles instituições financeiras pertencentes a diferentes grupos econômicos, com administrações completamente distintas e independentes. Por fim, aborda a ilegalidade da cobrança dos juros sobre a multa, por absoluta ausência de previsão legal, que somente menciona sua incidência sobre tributo, conceito distinto de multa, consoante expresso no CTN, e defendido pela doutrina. Cita jurisprudência administrativa em seu favor, e invoca a aplicação do princípio da legalidade. Fl. 1208DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 8 7 Voto Conselheira EDELI PEREIRA BESSA Inicialmente cabe rejeitar a arguição de nulidade do lançamento, pois caso este tivesse sido lavrado com base em equivocado fundamento legal, a exigência deveria ser desconstituída em seu mérito, na medida em que o Decreto nº 70.235/72 somente cogita de nulidade de atos praticados por pessoa incompetente (art. 59), o que não se verifica no presente caso. É certo que o Decreto nº 70.235/72 também impõe ao agente autuante a necessidade de motivação do lançamento (art. 10), mas esta foi validamente constituída, permitindo à interessada deduzir regularmente sua defesa, cabendo apenas aferir a sua compatibilidade com os fatos e com o crédito tributário exigido. Assim, o presente voto é no sentido de REJEITAR a arguição de nulidade do lançamento. Aduz a recorrente que os valores glosados não possuem a natureza de provisões, mas, sim, de despesas efetivas. Aborda os conceitos de provisão, passivo e contingência passiva, para evidenciar a dedução de despesas reconhecidas no resultado em razão da constituição de um passivo efetivo, que decorre de uma obrigação legal com prazo certo e valor determinado, reportandose à Deliberação CVM nº 489/05, que aprovou o Pronunciamento IBRACON NPC nº 22. O presente lançamento tem por fundamento o art. 13, inciso I da Lei nº 9.249/95, que assim dispõe: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: I de qualquer provisão, exceto as constituídas para o pagamento de férias de empregados e de décimoterceiro salário, a de que trata o art. 43 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995, e as provisões técnicas das companhias de seguro e de capitalização, bem como das entidades de previdência privada, cuja constituição é exigida pela legislação especial a elas aplicável; [...] (negrejouse) O entendimento da recorrente, no sentido de que os valores glosados possuem natureza de obrigação legal, já foi acolhido em Turma deste Conselho Administrativo, no julgamento refletido no Acórdão nº 140100.058, de cuja ementa extraise: TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA – DEDUTIBILIDADE Provisão passiva representa uma obrigação incerta, ou certa mas ilíquida. O ato legal, a lei, tem presunção de constitucionalidade e de legitimidade. A obrigação ex lege tributária desfruta desse atributo e só com o trânsito em julgado favorável ao contribuinte têmse derruídas a certeza e a liquidez: obrigação tributária com exigibilidade suspensa não traduz contabilmente uma provisão, mas um contas a Fl. 1209DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 9 8 pagar diversamente, por ex., de um passivo relativo a uma reclamação trabalhista ainda em curso. As interpretações literal, lógica e sistemática conduzem à exegese de que as despesas com tributos com exigibilidade suspensa permanecem dedutíveis, para a determinação da base de cálculo da CSLL. No voto condutor do referido acórdão, o I. Conselheiro Marcos Shigueo Takata observa que provisão representa uma obrigação incerta, ou certa mas ilíquida, e que a obrigação tributária, em razão da presunção de constitucionalidade e de legitimidade da lei, é certa e líquida enquanto não se der o trânsito em julgado favoravelmente ao contribuinte, o qual, em verdade, exige a reversão do passivo antes contabilizado. Discorda, assim, que o fato de se ingressar com ação judicial contra certa lei tributária ou contra a legalidade de uma obrigação tributária transforme o passivo representativo desta obrigação em provisão, e afirma o acerto o item 4 do Anexo II do Pronunciamento IBRACON NPC nº 22, aprovado pela Deliberação CVM nº 489/2005. Referido Pronunciamento assim estabelece no Sumário que integra seu Anexo I: DEFINIÇÕES 6. Os termos a seguir são utilizados nesta NPC com os seguintes significados: (...) ii. Uma provisão é um passivo de prazo ou valor incertos. O termo provisão também tem sido usado no contexto de contas retificadoras, como depreciações acumuladas, desvalorização de ativos e ajustes de valores a receber. Esses ajustes aos valores contábeis de ativos não são abordados nesta NPC. iii. Provisões derivadas de apropriações por competência são passivos por mercadorias ou serviços que foram recebidos ou fornecidos, mas que não foram faturados ou acordados formalmente com o fornecedor, incluindo montantes devidos a empregados (por exemplo, os montantes relativos à provisão para férias), os devidos pela atualização de obrigações na data do balanço, entre outros. Embora às vezes seja necessário estimar o valor ou o tempo das provisões derivadas de apropriações por competência, o que poderia assemelharse conceitualmente a uma provisão, a diferença básica está no fato de que as provisões derivadas de apropriações por competência são obrigações já existentes, registradas no período de competência, sendo muito menor o grau de incerteza que as envolve. [...] vi. Uma obrigação legal é aquela que deriva de um contrato (por meio de termos explícitos ou implícitos), de uma lei ou de outro instrumento fundamentado em lei. [...] Ocorre que os conceitos de provisão e obrigação legal podem se tocar e se confundir em determinadas circunstâncias. O próprio Pronunciamento acima referido cogita desta possibilidade ao assim estabelecer, também no Anexo I: Provisões Fl. 1210DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 10 9 10. Uma provisão deve ser reconhecida quando: a. uma entidade tem uma obrigação legal ou não formalizada presente como conseqüência de um evento passado; b. é provável que recursos sejam exigidos para liquidar a obrigação; e c. o montante da obrigação possa ser estimado com suficiente segurança. Se qualquer uma dessas condições não for atendida, a provisão não deve ser reconhecida. É importante notar, por outro lado, a diferença existente entre provisões e outros passivos e contingências passivas, conforme os itens 7, 8 e os exemplos no Anexo II a esta NPC, notadamente aqueles incluídos no item 4. No presente caso, as decisões judiciais favoráveis à contribuinte afetam não só o direito do Fisco de exigir o crédito tributário, mas também suspendem a obrigação legal da contribuinte de pagálo. Há não só incerteza quanto ao seu recebimento por parte do Fisco, como também em relação ao seu pagamento por parte da contribuinte. Daí a possibilidade, como citado no voto do I. Conselheiro Marcos Shigueo Takata, de reversão deste passivo ao final do litígio judicial, prática comum no âmbito das provisões. Caso se tratasse de uma obrigação legal, líquida e certa, a decisão judicial final favorável ao contribuinte ensejaria o reconhecimento de uma receita por insubsistência passiva, semelhante a um perdão de dívida, e não mera reversão de provisão. Quanto ao referido item 4 do Anexo II do Pronunciamento IBRACON NPC nº 22, não se vislumbra, ali, um reconhecimento explícito de que tributos com exigibilidade suspensa por decisão judicial seriam qualificados como obrigação legal e não como provisão. Vejase: ANEXO II EXEMPLOS DE TRATAMENTO A SER DADO ENVOLVENDO CONTINGÊNCIAS ATIVAS E CONTINGÊNCIAS PASSIVAS O objetivo deste anexo é auxiliar no entendimento da NPC sobre Provisões, contingências ativas e contingências passivas e deve ser lido no contexto completo da NPC, não devendo ser considerado isoladamente. [...] 4. Tributos a. A administração de uma entidade entende que uma determinada lei federal, que alterou a alíquota de um tributo ou introduziu um novo tributo, é inconstitucional. Por conta desse entendimento, ela, por intermédio de seus advogados, entrou com uma ação alegando a inconstitucionalidade da lei. Nesse caso, existe uma obrigação legal a pagar à União. Assim, a obrigação legal deve estar registrada, inclusive juros e outros encargos, se aplicável, pois estes últimos têm a característica de uma provisão derivada de apropriações por competência. Tratase de uma obrigação legal e não de uma provisão ou de uma contingência passiva, considerando os conceitos da NPC. Em uma etapa posterior, o advogado comunica que a ação foi julgada procedente em determinada instância. Mesmo que haja uma tendência de ganho, e ainda que o advogado julgue como provável o ganho de causa em definitivo, pelo fato de que ainda cabe recurso por parte do credor (a União), a situação não é ainda considerada praticamente certa, e, portanto, o ganho não deve ser registrado. É de se ressaltar que a situação avaliada é de uma contingência ativa, e não de uma contingência passiva a ser revertida, pois o passivo, como dito no item anterior, é uma obrigação legal e não uma provisão ou uma contingência passiva. Fl. 1211DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 11 10 [...] c. Ao obter decisão final favorável sobre um ganho contingente, a entidade deverá observar o momento adequado para o seu reconhecimento contábil. Não havendo mais possibilidades de recursos da parte contrária, o risco da nãorealização do ganho contingente é considerado "remoto", e, portanto, a entidade deve reconhecer contabilmente o ganho quando a decisão judicial final produzir seus efeitos, o que ocorre, normalmente, após a publicação no Diário Oficial. Isso significa dizer que, a partir desse momento, o ganho deixará de ser contingente e se tornará um direito da entidade. Antes do registro do ganho contingente, porém, e periodicamente após seu registro, a administração da entidade deve avaliar a capacidade de recuperação do ativo, uma vez que a parte contrária pode tornarse incapaz de honrar esse compromisso, ou pode ser que sua utilização futura seja incerta. No primeiro contexto, abordado no item “a”, observase que, embora proposta uma ação judicial, nada se fala da existência de decisão hábil a suspender a exigibilidade do crédito tributário. O mesmo ocorre na seqüência do desenvolvimento do exemplo, no qual a análise tem em conta, apenas, decisões judiciais ainda não definitivas, sem qualquer referência acerca da eficácia imediata destes atos judiciais. Em tais condições, não há dúvida que o tributo devido representa uma obrigação legal da contribuinte, passível de exigência a partir de seu vencimento, e que pode vir a constituir um ganho futuro, caso haja certeza suficiente do sucesso da interessada na ação judicial proposta. Aqui, porém, a incerteza está presente ante a existência de decisões judiciais hábeis a suspender a exigibilidade do crédito tributário, impedindo, por prazo indeterminado, que o Fisco receba ou possa executar o direito que decorreria do fato gerador praticado. Oportuno transcrever, neste ponto, doutrina invocada na decisão recorrida, extraída do Manual de Contabilidade Societária, da FIPECAFI, ed. Atlas, 2010, cap. 19 (Provisões, passivos contingentes e ativos contingentes), p.p. 339/341. Os autores dessa obra, manifestandose precisamente sobre o exemplo 4a do Anexo II da NPC 22 do Ibracon, consignam que: Ao afirmar que se trata o caso de uma obrigação legal e não de uma provisão, foi criada, no nosso entender, uma ideia inexistente na norma: a de que uma obrigação de natureza legal não pode ser reconhecida como provisão, ou então não pode ser considerada de natureza possível ou remota, e sim tem que, obrigatoriamente, ser registrada como passivo líquido e certo, a pagar, independentemente da característica de probabilidade de desembolso futuro. E isso contraria fron talmente o texto da própria norma, como já visto. Isto porque, na introdução do tema, os autores comparam o Pronunciamento IBRACON NPC nº 22 com o entendimento expresso pelo IASB e assim concluem: Em primeiro lugar, a NPC deriva da IAS 37 emitida pelo IASB, e esta não contém o referido exemplo, e ele não se coaduna, no nosso julgamento, com o conteúdo das próprias normas, nem com a NPC 22 e nem com a IAS 37. No corpo da IAS 37 não há qualquer distinção entre "obrigação legal" e "obrigação não formalizada" (constructive obligation) para fins de reconhecimento de uma provisão. Vejase na parte inicial relativa às Definições, dentro do § 6a, da NPC 22: “(v) Um passivo é uma obrigação presente de uma entidade, decorrente de eventos já ocorridos, cuja liquidação resultará em uma entrega de recursos. Fl. 1212DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 12 11 (vi) Uma obrigação legal é aquela que deriva de um contrato (por meio de termos explícitos ou implícitos), de uma lei ou de outro instrumento fundamentado em lei. (vii) Uma obrigação não formalizada é aquela que surge quando uma entidade, mediante práticas do passado, políticas divulgadas ou declarações feitas, cria uma expectativa válida por parte de terceiros e, por conta disso assume um compromisso.” A partir dessas três definições podese construir que: "Um passivo é uma obrigação legal ou uma obrigação não formalizada presente de uma entidade." Ainda nas definições, há o conceito de provisão: "(ii) Uma provisão é um passivo de prazo ou valor incertos." Substituindo a definição de passivo nessa da provisão, chegase então a: "Uma provisão é uma obrigação legal ou uma obrigação não formalizada presente de uma entidade, decorrente de eventos já ocorridos, de prazo ou valor incertos, cuja liquidação resultará em uma entrega de recursos." Nestes termos, portanto, obrigação legal não é um conceito excludente de provisão. É possível que uma obrigação legal represente uma provisão, caso seja incerto, como no presente caso, o prazo para seu pagamento. Logo, o fato de a doutrina mencionada afirmar que compete à administração da companhia avaliar a situação na qual está inserida e fazer refletir da melhor forma essa avaliação em suas demonstrações é irrelevante para alterar a natureza atribuída ao passivo aqui em debate. Acrescentese, ainda, a conclusão do outro texto doutrinário citado na decisão recorrida, elaborado por Ricardo Mariz de Oliveira (“O Alcance e o Sentido Sistemático da lndedutibilidade dos Depósitos de Tributos em Processos Fiscais – A Dedutibilidade dos Depósitos em Processos de Consignação em Pagamento”, in Direito Tributário Atual volume 12 IBDTUSP e da Resenha Tributária, 1995): [...] E nenhuma lógica existe na atitude do contribuinte, de dizer que não deve o tributo quando vierem lhe cobrar, mas dizer na contabilidade que o deve, assim como na declaração de rendimentos para deduzilo fiscalmente. Num primeiro momento ele opõe ao fisco suas razões para não reconhecer o débito, e num momento seguinte, que deveria ser conseqüente, ele, inconseqüentemente, opõe ao fisco o direito de deduzir o tributo, que só existe se este for devido. [...] Assim, se o contribuinte não reconhece o débito não deve registrálo pura e simplesmente como uma despesa a pagar, como o faria em circunstâncias normais. O que ele deve fazer é registrar o risco em reserva ou provisão, que é indedutível. [...] O essencial, portanto, dentro dos preceitos relativos ao chamado "regime de competência", é que a dúvida lançada sobre o débito redunda em reserva ou provisão indedutível, e não em conta de despesa devida e a pagar, correspondente à despesa fiscalmente dedutível. A suspensão da exigibilidade, como dito, é suficiente para retirar a certeza desta despesa e caracterizar sua contrapartida como uma provisão, de modo a tornála indedutível no âmbito da apuração da CSLL. Em tais condições, a Câmara Superior de Recursos Fiscais, em decisão unânime e posterior ao Acórdão nº 140100.058, posicionouse Fl. 1213DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 13 12 contrariamente à pretensão de contribuinte autuada, consoante expresso na ementa do Acórdão nº 910100.592: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO – CSLL Exercício: 1998, 1999, 2000 Ementa: CSLL. PROVISÕES NÃO DEDUTÍVEIS. TRIBUTOS COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA. Por configurar uma situação de solução indefinida, que poderá resultar em efeitos futuros favoráveis ou desfavoráveis à pessoa jurídica, os tributos ou contribuições cuja exigibilidade estiver suspensa nos termos do art. 151 do Código Tributário Nacional, são indedutíveis para efeito de determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, por traduzirse em nítido caráter de provisão. Assim, a dedutibilidade de tais rubricas somente ocorrerá por ocasião de decisão final da justiça, desfavorável à pessoa jurídica. Do voto condutor do I. Conselheiro Claudemir R. Malaquias extraise: O entendimento que tem se firmado neste Conselho é de que os tributos que estejam com sua exigibilidade suspensa, nos termos do art. 151 do Código Tributário Nacional, devem ser provisionados contabilmente, não se confundindo, portanto, com o registro de despesas incorridas. Os tributos cuja exigibilidade esteja suspensa por uma das hipóteses previstas no citado art. 151 devem ser contabilizados pelo regime de caixa, ou seja, considerados como despesa somente por ocasião de seu efetivo pagamento. Enquanto provisão, está vedada a sua dedução na apuração da base de cálculo de qualquer tributo, devendo, portanto, neste caso, serem integralmente adicionadas à base de cálculo da CSLL. Afinal, este é o disciplinamento previsto no art. 41, § 1o da Lei nº 8.981/95 e no art. 13, inciso I da Lei nº 9.249/95. Este posicionamento foi muito bem apresentado no voto condutor do acórdão recorrido, da lavra do ilustre Conselheiro Paulo Roberto Cortês, a quem peço vênia para sua transcrição: "(..) Entretanto, ao que pese o argumento despendido pela contribuinte, entendo que ó mesmo não tem como prosperar, até porque, se a mesma entendesse que o crédito tributário questionado judicialmente era devido, não teria se aventurado a uma demanda judicial morosa e infrutífera. Se o fez, é porque entendia que as leis que instituíram ou majoraram as obrigações questionadas, traziam em seu bojo flagrantes ilegalidades e inconstitucionalidades, e sendo assim, não há o que se falar em contas a pagar, até porque, tal obrigação nasce de modo incondicional, ao passo que as características dos tributos com exigibilidade suspensa, são obrigações fiscais condicionadas à exigência futura e incerta. Portanto, por configurar uma situação de solução indefinida a data do encerramento do anocalendário a que se refere, dependente de eventos futuros que poderão ou não ocorrer, subsumese a uma situação de contingência que poderá resultar em efeitos futuros favoráveis ou desfavoráveis à pessoa jurídica, ou seja, à época do balanço, tal ganho ou perda é apenas potencial, não representando, evidentemente, uma obrigação incondicional. (...) Logo, decorre dai a necessidade da formação da provisão para o registro contábil dos tributos com exigibilidade suspensa em função de sua contingência passiva em exercício futuro, cujos, valores, apropriados como despesa no anocalendário, devem ser adicionados ao lucro liquido para fins de apuração do lucro real, bem Fl. 1214DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 14 13 como para a determinação da base de cálculo da CSLL, por força do disposto no art. 13, inciso I, da Lei n° 9.249/95. Nesta linha de argumentação, devese asseverar ainda que não encontra guarida no melhor direito a alegação da recorrente (fls. 369) no sentido de que a indedutibilidade dos tributos com exigibilidade suspensa aplicarseia, exclusivamente, à determinação do lucro real, base de cálculo do IRPJ, e não à CSLL. Com efeito, pelo disposto no art. 13, inciso I da Lei nº 9.249/95, para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro restou vedada a dedução de quaisquer provisões. Nestas estão incluídas aquelas constituídas em função de tributo com exigibilidade suspensa, excetuandose apenas as provisões para pagamento de férias e décimoterceiro salário e as provisões técnicas exigidas pela legislação especial de determinadas instituições. Da análise efetuada, concluise com o mesmo entendimento do acórdão recorrido que decidiu pela impossibilidade de ser deduzida da base de cálculo da CSLL a parcela relativa às contribuições para o PIS objeto de questionamento judicial e com exigibilidade suspensa. A dedutibilidade de tais rubricas somente ocorrerá por ocasião de decisão final da justiça, desfavorável à pessoa jurídica. Irrelevante, assim, discutir a aplicabilidade da Deliberação CVM nº 489/2005 à contribuinte, no período autuado, bem como outros acórdãos administrativos anteriores ao posicionamento da CSRF. Quanto aos juros glosados, a abordagem genérica da Lei nº 9.249/95 é suficiente para também afastar sua dedutibilidade imediata, pois se as obrigações com exigibilidade suspensa têm a natureza de provisão, o incremento que lhes é feito, da mesma forma destituído de exigibilidade imediata, terá por contrapartida, necessariamente, despesa indedutível. Em nada altera esta conclusão o fato de tais tributos estarem sujeitos à incidência de juros por determinação legal, pois relevante é a sua inexigibilidade, à semelhança do principal ao qual se vincula. Correta, portanto, a fundamentação adotada para glosa das despesas apontadas pela autoridade fiscal, inexistindo qualquer incongruência entre o fato efetivamente ocorrido e o enquadramento legal dado à infração. Em conseqüência, é desnecessário abordar a inaplicabilidade do art. 41, §1o da Lei nº 8.981/95 à apuração da CSLL. A recorrente ainda aponta incoerência da Receita Federal quanto ao PIS e COFINS deduzidos pela Recorrente, pois no ano de 2009, a Receita Federal do Brasil determinou a cobrança desses valores de PIS e COFINS, registrados pela Recorrente com exigibilidade suspensa, nos anos de 2006 e 2007, após analisar a decisão judicial pertinente e concluindo que os débitos não estariam com exigibilidade suspensa. Afirma que documentos juntados à defesa evidenciam que estes valores foram cobrados com a inscrição em dívida ativa e propositura de execução fiscal pela PGFN. E, diante deste cenário, pede o cancelamento da autuação sob análise. De outro lado, a recorrente expressamente reconhece que a decisão judicial que conferiu suspensão à exigibilidade do crédito tributário continua vigente, uma vez que o recurso de apelação interposto pela União foi recebido apenas no efeito devolutivo e ainda aguarda julgamento pelo Tribunal competente, concluindo que a situação processual que existia à época da contabilização pela Recorrente, do PIS e da COFINS como tributos com a sua exigibilidade suspensa, permanece até hoje. Fl. 1215DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 15 14 Os documentos referidos pela recorrente estão juntados às fls. 1174/1201 e consistem em elementos de ação de execução fiscal de débitos, precedida de cobrança administrativa de valores que se assemelham aos glosados pela autoridade lançadora. Tal cobrança foi acompanhada de despacho proferido no processo administrativo nº 16327.001368/200727, nos seguintes termos: A interessada acima identificada, discutiu os débitos controlados no presente processo administrativo, na Medida Judicial nº 2006.61.00.0218884. Encerrada a lide judicial, foi “intimada” conforme Despacho de folhas 603, a apresentar as planilhas demonstrativas das bases de cálculo do PIS e da COFINS, relativas aos fatos geradores ocorridos de janeiro a agosto de 2007. Noticia o Despacho em comento, que a Contribuinte já havia apresentado as planilhas referentes aos meses de outubro a dezembro de 2006. Ocorre que em verificação sumária não localizamos tais planilhas. Considerando que a Intimação DEINF/SPO/DICAT N 370/2009 de 29/05/09 (fl.605), foi recepcionada em 10/06/2009. E não tendo a Interessada cumprido a exigência. Sendo assim, não sendo possível verificar os valores exatos a serem exigidos. Dessa forma, proponho colocar em cobrança a totalidade dos débitos controlados nestes autos administrativos. Durante o procedimento fiscal, a autoridade lançadora teve em conta os débitos de Contribuição ao PIS e COFINS declarados com exigibilidade suspensa em DCTF. O reconhecimento desta circunstância pela própria contribuinte foi suficiente para que a Fiscalização promovesse a glosa dos valores não adicionados à base de cálculo da CSLL em 2006 e 2007. O fato novo trazido pela recorrente evidencia que, em análise paralela – o despacho antes descrito é datado de 19/10/2009, e o procedimento fiscal foi realizado entre 06/10/2009 e 09/12/2010 – a contribuinte foi questionada acerca da exigibilidade dos débitos antes declarados como suspensos, e não tendo sido atendidas satisfatoriamente as intimações, concluise pela necessidade de cobrança e posterior execução do crédito tributário correspondente. Embora o despacho judicial que determina a citação da recorrente seja datado de 23/08/2010, em seu recurso voluntário apresentado em 27/07/2011 a interessada limitase a juntar a acusação fiscal, e omite os embargos por ela apresentados, consoante se verifica em consulta às informações do processo judicial nº 003098037.2010.403.6182 junto ao sítio da Justiça Federal em São Paulo, na Internet. De outro lado, embora a autoridade administrativa que elaborou o despacho antes transcrito mencione o encerramento da lide judicial, observase, também em consulta ao sítio do Tribunal Regional Federal da 3a Região na Internet, que apenas em sessão de 16/08/2012 foi julgada a apelação e a remessa oficial nos autos do processo 2006.61.00.0218884, estando os autos em fase de formalização do acórdão correspondente. Por sua vez, em consulta às informações processuais em 1a instância, temse que a contribuinte obteve, em sentença proferida em autos de Mandado de Segurança, a concessão parcial da ordem para afastar a incidência do artigo 3º, 1º, da lei 9.718/98, da base de cálculo, que foi declarada inconstitucional incidenter tantum, dentre outros aspectos. Portanto, nada há que afirme a exigibilidade dos débitos declarados como suspensos nos períodos fiscalizados. Eventualmente alguma circunstância posterior, e Fl. 1216DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 16 15 especialmente a omissão da contribuinte no atendimento às intimações fiscais que lhe foram dirigidas, justificaram a cobrança daqueles débitos em paralelo ao procedimento fiscal aqui sob análise. Todavia, esta circunstância posterior, por si só, não legitimaria a dedutibilidade das provisões nos períodos fiscalizados e poderia, no máximo, apontar para a possibilidade de sua dedução em períodos futuros, o que caracterizaria postergação e permitiria a redução da exigência fiscal à semelhança do entendimento consolidado neste Conselho Administrativo acerca dos casos de inobservância do limite legal para compensação de prejuízos fiscais e ou bases de cálculo negativas da CSLL. Súmula CARF nº 36: A inobservância do limite legal de trinta por cento para compensação de prejuízos fiscais ou bases negativas da CSLL, quando comprovado pelo sujeito passivo que o tributo que deixou de ser pago em razão dessas compensações o foi em período posterior, caracteriza postergação do pagamento do IRPJ ou da CSLL, o que implica em excluir da exigência a parcela paga posteriormente. Assim, para infirmar a declaração prestada pela contribuinte em DCTF, nos anos de 2006 e 2007, cumprialhe trazer prova documental da exigibilidade dos débitos declarados como suspensos, e para pretender a redução da exigência, cumprialhe demonstrar a exigibilidade dos débitos em momento posterior, até a data do lançamento, bem como o recolhimento a maior de CSLL nestes períodos, em razão da não dedução daqueles valores no período em que eles se tornaram obrigação legal líquida e certa. Na medida em que o lançamento está fundamentado em fatos extraídos de declaração prestada pela contribuinte, e as alegações trazidas em recurso voluntário apenas indicam a possibilidade de alteração do estado de coisas em período futuro, sem qualquer prova consistente neste sentido, a exigência deve subsistir tal qual formalizada. No que tange à penalidade aplicada, o entendimento consolidado deste Conselho Administrativo impõe a sua exoneração: Súmula CARF nº 47. Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora, por infração cometida pela sucedida, quando provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. Consoante relatado, as infrações que motivaram a exigência foram constatadas nos anoscalendário 2006 e 2007. A contribuinte, Banco Sudameris Brasil S/A foi incorporada pelo Banco ABN Amro Real S/A em 31/08/2007, e este, por sua vez, foi incorporado pelo Banco Santander S/A em 29/08/2008. A autoridade lançadora apenas menciona que o CNPJ do Banco ABN Amro Real estava ativo à época da programação da fiscalização sobre o Banco Sudameris (12/02/2009), mas formaliza a exigência em face do sucessor, Banco Santander S/A. Logo, não está provado que as sociedades estavam sob controle comum ou pertenciam ao mesmo grupo econômico. Por sua vez, acórdãos que fundamentaram a edição da Súmula CARF nº 47 deixam entrever que, ausente esta condição, a sucessora não responde por penalidades devidas pela sucedida: Acórdão 10617143 (Sessão de 05/11/2008) Trecho da Ementa: MULTA DE OFICIO SUCESSÃO POR INCORPORAÇÃO RESPONSABILIDADE DO SUCESSOR SUCESSÃO ENTRE EMPRESAS COLIGADAS E CONTROLADAS EXONERAÇÃO IMPOSSIBILIDADE Fl. 1217DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 17 16 Tratandose de sucessão entre empresas ligadas, coligadas ou controladas, devese manter a multa de oficio lançada na empresa incorporada, já que é manifesta a interveniência da incorporadora nos procedimentos da incorporada, notadamente quando é patente a presença de empresas do grupo econômico na operação financeira que culminou com o procedimento fiscal. Acórdão 10323509 (Sessão de 26/06/2008) Trecho da Ementa: MULTA DE LANÇAMENTO DE OFICIO — SUCESSÃO CARACTERIZAÇÃO — A interpretação sistemática do CTN aliada ao conceito de que a pena não deve passar da pessoa de seu infrator, afasta a responsabilidade do sucessor pelas infrações anteriormente cometidas pelas sociedades incorporadas, desde que as sociedades, incorporadora e incorporadas, não tenham mantido alguma relação de interdependência entre elas. Acórdão 30238.897 (Sessão de 11/09/2007) Trecho da Ementa: MULTA DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE POR SUCESSÃO. Constatado que empresa incorporada e incorporadora pertenciam, em quase sua totalidade, ao mesmo sócio, não há como dar guarida à tese invocada pela recorrente, de liberação das penalidades em nome da incorporada, sob pena de macular o instituto da responsabilidade tributária por sucessão. Acórdão 10196.270 (Sessão de 09/08/2007) Trecho da Ementa: MULTA DE OFÍCIO. SUCESSÃO. Ainda que se entenda como excluída a multa de ofício por força do disposto no artigo 132 do CTN, tal exegese não pode prevalecer quando o controle efetivo da incorporada e incorporadora pertence ao mesmo grupo econômico. Acórdão 10323.033 (Sessão de 24/05/2007) Trecho da Ementa: MULTA DE OFÍCIO. SUCESSÃO. Cabível a imputação da multa de ofício à sucessora quando o controle da sucedida e da sucessora é exercido pelas mesmas pessoas. De fato, embora seja possível interpretar que o art. 132 do CTN não é suficiente para excluir a penalidade de ofício, vez que para isto deveria o legislador ter usado a redação do parágrafo único do artigo 134 do CTN (que determina que o disposto no artigo só se aplica, em matéria de penalidades, às de caráter moratório), não haveria porque se declarar, nos julgamentos administrativos, o cabimento da multa de ofício em face de sucessora ligada à sucedida, já que multa seria cabível em todos os demais casos. Por esta razão, interpretase que a Súmula CARF nº 47 define a única hipótese na qual é admissível a imputação de multa de ofício à sucessora. No que tange à aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício, observese que, como eles não integram o lançamento, e são motivados por evento posterior, sequer deveria ser apreciada esta matéria no contencioso administrativo fiscal. Contudo, admitese aqui o entendimento dos colegiados desta casa, no sentido de que deve ser apreciada esta matéria no julgamento administrativo dos autos de infração, para, no mérito, adotar as razões de decidir da I. Conselheira Viviane Vidal Wagner expressas em voto vencedor em julgamento proferido em 11/03/2010 na Câmara Superior de Recursos Fiscais, formalizado no Acórdão nº 910100.539: Fl. 1218DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 18 17 Com a devida vênia, ouso discordar do ilustre relator no tocante à questão da incidência de juros de mora sobre a multa de oficio. De fato, como bem destacado pelo relator, o crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto o tributo quanto a penalidade pecuniária. Em razão dessa constatação, ao meu ver, outra deve ser a conclusão sobre a incidência dos juros de mora sobre a multa de oficio. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de oficio. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo:Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." Convertese em crédito tributário a obrigação principal referente à multa de oficio a partir do lançamento, consoante previsão do art. 113, §1o, do CTN: "Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória § 1o A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. A obrigação tributária principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de oficio proporcional. Fl. 1219DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 19 18 A multa de oficio é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago" (§1o). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tomandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de oficio, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, ao compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de oficio. Art. 950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação especifica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61). § 1o A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo 13 previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, § 1o). § 2o O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, § 2o). § 3o A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de oficio. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou este E. colegiado quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA — MULTA DE OFÍCIO — OBRIGAÇÃO PR1NICIPAL — A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário Fl. 1220DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 20 19 corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Nesse sentido, ainda, a Súmula Carf n° 5: "São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral." Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei nº 9.065, de 1995. A jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, corno se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL 2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃO OCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tãosomente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaraçã o do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07).(g.n) No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, nos seguintes termos: Súmula CARFn° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórias incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Rejeitase, portanto, a pretensão da recorrente de excluir tal incidência. Diante do exposto, o presente voto é no sentido de REJEITAR a arguição de nulidade do lançamento e DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para excluir a multa de ofício aplicada à sucessora. (documento assinado digitalmente) EDELI PEREIRA BESSA – Relatora Fl. 1221DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 21 20 Fl. 1222DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES Processo nº 16327.720407/201094 Acórdão n.º 1101000.813 S1C1T1 Fl. 22 21 Fl. 1223DF CARF MF Impresso em 08/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 15/10/2012 por EDELI PEREIRA BESSA, Assinado digitalmente em 02/04/2013 por VALMAR FONSECA DE MENEZES
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Numero do processo: 10283.720715/2008-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2012
Ementa: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano calendário:2003
RECURSO DE OFÍCIO E RECURSO VOLUNTÁRIO. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. REQUISITOS ESSENCIAIS.
Tendo sido regularmente oferecida a ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do auto de infração, e não provada violação das disposições previstas na legislação de regência, nem muito menos qualquer demonstração de prejuízo ao contribuinte, restam insubsistentes as alegações de nulidade do auto de infração e do procedimento Fiscal.
DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. PROCEDIMENTO FISCAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. IMPUGNAÇÃO. INÍCIO DO CONTENSIOSO.
A ação fiscal tendente a apurar e constituir o crédito tributário é um procedimento administrativo que pode ter caráter inquisitório, O crédito constituído, por meio de lançamento de ofício, não é definitivo na esfera administrativa. O sujeito passivo pode exercer seu direito ao contraditório e a
ampla defesa na impugnação ao lançamento, quando se instaura o
contencioso administrativo fiscal.
LANÇAMENTO. COMPETÊNCIA.
O Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade tributária competente para constituir o crédito tributário, mediante lançamento, relativo a tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil.
MÉTODO PRL60. CÁLCULOS SEGUNDO INSTRUÇÃO NORMATIVA. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE INCOMPATIBILIDADE ENTRE A LEI Nº. 9.959/2000 E A INSTRUÇÃO
NORMATIVA SRF Nº. 243/2002.
A normatização do denominado método “PRL60”, empreendida no art. 12 da IN SRF nº. 243/2002, se analisada sob o prisma de uma interpretação gramatical, lógica, finalística e sistemática se mostra em perfeita consonância com as normas veiculadas no art. 18 da Lei nº. 9.430/97, com a redação estatuída pelo art. 2º da Lei nº. 9.959/2000.
MÉTODO PRL60. IN 243/2002. PONDERAÇÃO DE CUSTOS. ISOLAMENTO. EFEITO BENÉFICO.
A roupagem da fórmula adotada pela IN 243/2002 (PPn=%nPL –
60%x(%nPL)) se modifica em relação à sua formulação genérica prevista na literalidade da Lei (PP= PLV – 60%PLV – VA) ao incorporar a técnica da ponderação, contudo esse aspecto específico visto de forma isolada, ao contrário do apregoado diminui os ajustes se comparado com a sua formulação genérica, além do que essa nova “roupagem” também não macula sua essência que é provocar o surgimento do “preço parâmetro de comparação” a partir do expurgo do Valor Agregado e assim, manter a técnica do máximo isolamento para cada um dos insumos importados que
fazem parte do produto final a ser revendido, o que não acontece na fórmula da IN 32/2001 (((PP= PLV – 60%(PLV – VA ) nem na formulação genérica encontrada na literalidade Lei ((PP= PLV – 60%PLV – VA)).
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. É cabível
a aplicação de juros de mora sobre multa de ofício, pois a teor do art. 161 do Código Tributário Nacional sobre o crédito tributário não pago correm juros de mora, como a multa de ofício também constitui o crédito tributário sobre ela também necessariamente incide os juros de mora na medida em que
também não é paga no vencimento.
DILIGÊNCIA/PERÍCIA. A realização de diligência/perícia não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória.
CSLL. Aplica-se à CSLL, no que couber, o que foi decidido para o IRPJ, dada a intima relação de causa e efeito que os une.
Numero da decisão: 1401-000.848
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recuso de ofício e, por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade e, no mérito, pelo voto de qualidade, NEGAR provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Alexandre Antônio Alkmim Teixeira, Sérgio Luiz Bezerra Presta e Maurício Pereira Faro.
Nome do relator: ANTONIO BEZERRA NETO
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ementa_s : NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano calendário:2003 RECURSO DE OFÍCIO E RECURSO VOLUNTÁRIO. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. REQUISITOS ESSENCIAIS. Tendo sido regularmente oferecida a ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do auto de infração, e não provada violação das disposições previstas na legislação de regência, nem muito menos qualquer demonstração de prejuízo ao contribuinte, restam insubsistentes as alegações de nulidade do auto de infração e do procedimento Fiscal. DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. PROCEDIMENTO FISCAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. IMPUGNAÇÃO. INÍCIO DO CONTENSIOSO. A ação fiscal tendente a apurar e constituir o crédito tributário é um procedimento administrativo que pode ter caráter inquisitório, O crédito constituído, por meio de lançamento de ofício, não é definitivo na esfera administrativa. O sujeito passivo pode exercer seu direito ao contraditório e a ampla defesa na impugnação ao lançamento, quando se instaura o contencioso administrativo fiscal. LANÇAMENTO. COMPETÊNCIA. O Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade tributária competente para constituir o crédito tributário, mediante lançamento, relativo a tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil. MÉTODO PRL60. CÁLCULOS SEGUNDO INSTRUÇÃO NORMATIVA. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE INCOMPATIBILIDADE ENTRE A LEI Nº. 9.959/2000 E A INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF Nº. 243/2002. A normatização do denominado método “PRL60”, empreendida no art. 12 da IN SRF nº. 243/2002, se analisada sob o prisma de uma interpretação gramatical, lógica, finalística e sistemática se mostra em perfeita consonância com as normas veiculadas no art. 18 da Lei nº. 9.430/97, com a redação estatuída pelo art. 2º da Lei nº. 9.959/2000. MÉTODO PRL60. IN 243/2002. PONDERAÇÃO DE CUSTOS. ISOLAMENTO. EFEITO BENÉFICO. A roupagem da fórmula adotada pela IN 243/2002 (PPn=%nPL – 60%x(%nPL)) se modifica em relação à sua formulação genérica prevista na literalidade da Lei (PP= PLV – 60%PLV – VA) ao incorporar a técnica da ponderação, contudo esse aspecto específico visto de forma isolada, ao contrário do apregoado diminui os ajustes se comparado com a sua formulação genérica, além do que essa nova “roupagem” também não macula sua essência que é provocar o surgimento do “preço parâmetro de comparação” a partir do expurgo do Valor Agregado e assim, manter a técnica do máximo isolamento para cada um dos insumos importados que fazem parte do produto final a ser revendido, o que não acontece na fórmula da IN 32/2001 (((PP= PLV – 60%(PLV – VA ) nem na formulação genérica encontrada na literalidade Lei ((PP= PLV – 60%PLV – VA)). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. É cabível a aplicação de juros de mora sobre multa de ofício, pois a teor do art. 161 do Código Tributário Nacional sobre o crédito tributário não pago correm juros de mora, como a multa de ofício também constitui o crédito tributário sobre ela também necessariamente incide os juros de mora na medida em que também não é paga no vencimento. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. A realização de diligência/perícia não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória. CSLL. Aplica-se à CSLL, no que couber, o que foi decidido para o IRPJ, dada a intima relação de causa e efeito que os une.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recuso de ofício e, por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade e, no mérito, pelo voto de qualidade, NEGAR provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Alexandre Antônio Alkmim Teixeira, Sérgio Luiz Bezerra Presta e Maurício Pereira Faro.
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NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. REQUISITOS ESSENCIAIS. Tendo sido regularmente oferecida a ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do auto de infração, e não provada violação das disposições previstas na legislação de regência, nem muito menos qualquer demonstração de prejuízo ao contribuinte, restam insubsistentes as alegações de nulidade do auto de infração e do procedimento Fiscal. DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. PROCEDIMENTO FISCAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. IMPUGNAÇÃO. INÍCIO DO CONTENSIOSO. A ação fiscal tendente a apurar e constituir o crédito tributário é um procedimento administrativo que pode ter caráter inquisitório, O crédito constituído, por meio de lançamento de ofício, não é definitivo na esfera administrativa. O sujeito passivo pode exercer seu direito ao contraditório e a ampla defesa na impugnação ao lançamento, quando se instaura o contencioso administrativo fiscal. LANÇAMENTO. COMPETÊNCIA. O AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade tributária competente para constituir o crédito tributário, mediante lançamento, relativo a tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil. MÉTODO PRL60. CÁLCULOS SEGUNDO INSTRUÇÃO NORMATIVA. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE. DESCABIMENTO. AUSÊNCIA DE INCOMPATIBILIDADE ENTRE A LEI Nº. 9.959/2000 E A INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF Nº. 243/2002. A normatização do denominado método “PRL60”, empreendida no art. 12 da IN SRF nº. 243/2002, se analisada sob o prisma de uma interpretação Fl. 819DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 820 2 gramatical, lógica, finalística e sistemática se mostra em perfeita consonância com as normas veiculadas no art. 18 da Lei nº. 9.430/97, com a redação estatuída pelo art. 2º da Lei nº. 9.959/2000. MÉTODO PRL60. IN 243/2002. PONDERAÇÃO DE CUSTOS. ISOLAMENTO. EFEITO BENÉFICO. A roupagem da fórmula adotada pela IN 243/2002 (PPn=%nPL – 60%x(%nPL)) se modifica em relação à sua formulação genérica prevista na literalidade da Lei (PP= PLV – 60%PLV – VA) ao incorporar a técnica da ponderação, contudo esse aspecto específico visto de forma isolada, ao contrário do apregoado diminui os ajustes se comparado com a sua formulação genérica, além do que essa nova “roupagem” também não macula sua essência que é provocar o surgimento do “preço parâmetro de comparação” a partir do expurgo do Valor Agregado e assim, manter a técnica do máximo isolamento para cada um dos insumos importados que fazem parte do produto final a ser revendido, o que não acontece na fórmula da IN 32/2001 (((PP= PLV – 60%(PLV – VA ) nem na formulação genérica encontrada na literalidade Lei ((PP= PLV – 60%PLV – VA)). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. É cabível a aplicação de juros de mora sobre multa de ofício, pois a teor do art. 161 do Código Tributário Nacional sobre o crédito tributário não pago correm juros de mora, como a multa de ofício também constitui o crédito tributário sobre ela também necessariamente incide os juros de mora na medida em que também não é paga no vencimento. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. A realização de diligência/perícia não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória. CSLL. Aplicase à CSLL, no que couber, o que foi decidido para o IRPJ, dada a intima relação de causa e efeito que os une. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recuso de ofício e, por unanimidade de votos, REJEITAR as preliminares de nulidade e, no mérito, pelo voto de qualidade, NEGAR provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Alexandre Antônio Alkmim Teixeira, Sérgio Luiz Bezerra Presta e Maurício Pereira Faro (assinado digitalmente) Jorge Celso Freire da Silva – Presidente (assinado digitalmente) Antonio Bezerra Neto – Relator Fl. 820DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 821 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antonio Bezerra Neto, Fernando Alexandre Antônio Alkmim Teixeira, Luiz Gomes de Mattos, Maurício Pereira Faro, Sergio Luiz Bezerra Presta e Jorge Celso Freire da Silva. Fl. 821DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 822 4 Relatório Tratase de recurso voluntário contra o Acórdão nº 0112.747, da 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em BelémPA. Por economia processual, adoto e transcrevo o relatório constante na decisão de primeira instância: Versa o presente processo sobre o(s) Auto(s) de Infração de fls. 0416 e 21 23, relativo(s) ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ e Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido CSLL, ano(s)calendário 2003, com credito total apurado no valor de R$ 81.323.892,20, incluindo o principal (IRPJ e CSLL), a multa de ofício e os juros de mora, atualizados até 30/06/2008. A autuada tomou ciência do(s) lançamento(s) em 14/07/2008 (fls. 04e21). De acordo com a Descrição dos Fatos do(s) Auto(s) de Infração, a autuada incorreu na(s) seguinte(s) infração(ões): Falta de adição ao lucro líquido da parcela dos gastos com bens adquiridos de pessoas vinculadas, no exterior, que excede ao preço de transferência. A autuada apresentou sua impugnação ao lançamento em 12/08/2008 (fls. 342460). na qual alegou em síntese que: Da preliminar de cerceamento do direito de defesa 1. O fisco somente pode proceder ao arbitramento do valor do preço de transferência, quando os documentos do contribuinte forem omissos ou não merecerem fé; 2. Sendo necessário o arbitramento, é imprescindível que o processo para tal arbitramento se conduza pelos princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa; 3. Durante a ação fiscal, apresentou documentos claros e idôneos, que foram desconsiderados sem qualquer elemento probatório, sob a subjetiva alegação que faltaram planilhas ou que as planilhas pareciam confusas; 4. No dia 17/04/2007 a ação fiscal foi iniciada sem nada requerer na ocasião. Todavia, somente no dia 08/04/2008, os agentes fiscais retomaram a fiscalização para evitar a decadência dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação. Após o que, a ação fiscal foi levada a "toque de caixa", com prazos curtíssimos para apresentação de documentos de difícil obtenção, desrespeitando os princípios do contraditório e da ampla defesa: 5. Não foi oferecida à empresa a oportunidade de justificar a "confusão" nas planilhas apresentadas; 6. Os artigos 10 e 11 do Decreto n° 70.235/72 prevêem dois prazos distintos para a defesa do contribuinte. O primeiro que diz respeito à possibilidade do contribuinte impugnar ou cumprir as exigências do Auto de infração em 30 dias antes da ocorrência do lançamento, e o segundo que concede outros 30 dias para a Fl. 822DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 823 5 impugnação da notificação ao lançamento que é documento autônomo e apartado do auto de infração; 7. Os dispositivos legais não foram respeitados, uma vez que no mesmo ato administrativo os agentes fiscais propuseram à autuação da impugnante e Impuseram o lançamento de tributos e multas sob a alegação que os documentos apresentados eram imprestáveis; 8. Não teve ciência das diferenças apontadas pela fiscalização, nem teve oportunidade de corrigir os dados considerados confusos, inconsistentes e imprestáveis; 9. Os agentes fiscais não poderiam ter elaborado planilhas próprias, com utilização unilateral de um cálculo resultante de um suposto excesso de custo na aplicação do método PRL, uma vez que constam nos autos as planilhas da empresa, nas quais são apontados os métodos utilizados pela impugnante e os documentos que lhe deram origem. 10. Os agentes fiscais deveriam conferir a veracidade dos dados apresentados em caso de dúvidas, solicitar esclarecimentos à impugnante, respeitando o contraditório; Da preliminar de nulidade pela falta de comprovação das irregularidades 11. Os lançamentos foram realizados sem observância dos artigos 923 e 924 do RIR/99, onde se aduz que a escrituração faz prova em favor do contribuinte, cabendo ao fisco comprovar a inveracidade dos fatos registrados; 12. Apresentou todos os documentos que dispunha para comprovar os métodos praticados na apuração do preço de transferência, todavia os agentes fiscais não fizeram prova que os dados e cálculos da recorrente estariam errados. 13. Caberia a autoridade fiscal comprovar a inabilidade dos documentos apresentados; 14. A admissibilidade de um arbitramento seria possível, desde que comprovada a ocorrência de um fato gerador, para substituição da base de cálculo, quando houver inexistência de escrituração, recusa da apresentação da escrituração ou imprestabilidade da escrituração. 15. O lançamento é nulo no momento em que o fisco transfere para o sujeito passivo a obrigação do comprovar que todos os preços de transferência relativos a importações de insumos estão corretos e não ensejam qualquer ajuste, quando pende sobre o primeiro desconstituir a validade e apontar as supostas irregularidades; 16. Os agentes fiscais se limitaram a alegar genericamente que os documentos são "inconsistentes" ou "não são provas hábeis"; 17. Assim, os autos de infração e os lançamentos deles constantes são nulos de pleno direito, pois a fazenda não produziu provas capazes de desconstituir os fatos registrados na escrituração da impugnante, nem apontou precisamente quais documentos apresentados por esta última seriam inábeis; Da preliminar de nulidade por falta de competência para o lançamento Fl. 823DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 824 6 18. Nos termos do art. 10 do Decreto n° 70.235/72 e do art. 926 do RIR/99, a competência dos AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil é restrita à lavratura do Auto de Infração, enquanto que, na forma do art. 11 do Decreto n° 70.235/72, art. 944 do RIR/99 e art. 142 do CTN, compete às autoridades administrativas da Secretaria da Receita Federal Coordenadores, Superintendentes, Delegados c Inspetores aplicar as penalidades e efetuar o lançamento; 19. Nos termos do art. 196 do CTN, o "auto de infração" é considerado apenas início do procedimento do lançamento, enquanto o lançamento e a proposição das penalidades são reservados à autoridade administrativa; 20. Nos termo do art. 194 do CTN, o agente fiscal tem competência apenas para fiscalizar a aplicação da legislação tributária;. 21. O agente fiscal não é agente ou órgão de aplicação de lei ou de direito, de forma que ele não tem competência nem poderes judicantes (cognitivos, declaratórios ou executivos); 22. O Auto de Infração nada mais deve ser do que um relatório de ocorrência do que o agente fiscal presume constituir uma infração, utilizado para levar ao conhecimento da autoridade julgadora e assim instaurar a instância contenciosa; 23.0 procedimento pelo qual o agente fiscal impõe no Auto de Infração a multa, determinando o abatimento em caso de não haver recurso não é um processo regular; Da preliminar de nulidade pela falta de fundamentação/motivação 24. Os lançamentos carecem de um requisito fundamental, o motivo, pois foram realizados com base em alegações genéricas suposições e presunções sem a devida fundamentação e comprovação, devendo ser desconstituído pela nulidade; 25. Os autos de infração e lançamentos debatidos não analisam devidamente os pressupostos de fato e nem trazem narrativa discriminada das supostas condutas que os agentes pretendem imputar à impugnante; DO MÉRITO Da ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 26. A Lei n° 9.959/2000 modificou a fórmula de cálculo do PRL e da margem de contribuição bruta e mudou também o percentual da Margem de Contribuição Bruta de 20% para 60%, como forma de incentivar a empresas internacionais a agregarem valor aos produtos finais ou acabados no Brasil; 27. Essas modificações legislativas foram reproduzidas na IN SRF n° 32/2001 28. Todavia, a IN SRF n. 243/2002, que revogou a IN SRF n° 32/2001, deu uma nova interpretação a Lei n° 9.959/2000, na parte que trata da margem da contribuição bruta para fins de apuração do preço parâmetro pelo método PRL; As Instruções Normativas não podem ditar obrigações ou direitos maiores ou ou menores do que aqueles previstos na legislação construtora, tendo em vista sua mera função interpretativa. Pelo que, restaria clara a ilegalidade da IN SRF n° 243/2002, não podendo subsistir o lançamento; Fl. 824DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 825 7 Da incerteza do lançamento efetuado 30. Com base nos documentos acostados aos autos, o agente fiscal, ao utilizar presunções, não comprovou a ocorrência de erros nos cálculos apresentados pela impugnante; 31. A regra presuntiva da Lei n° 9.430/96 não é plena, devendose perquirir se experiência fundante da presunção tem incidência lógica em todos os casos contidos na generalidade da lei que fixou a presunção; 32. A amostragem utilizada pelo fisco para calcular o preço de transferência foi manipulada para criar a necessidade de ajuste na apuração do ano calendário 2003; 33. Nem mesmo a IN SRF n° 243/2002 previu a hipótese de cálculo do preço de transferência por amostragem, ao contrário referese à apuração considerando as quantidades e valores correspondentes a todas as operações de compras praticadas durante o período de apuração sob exame; 34. O agente fiscal não observou a margem de divergência de 5% tida como tolerável em relação ao preço de transferência, prevista no art. 38 da IN SRF n° 243/2002; 35. O lançamento vergastado, por estar baseado em presunções eivadas de incerteza, deve ser declarado nulo de pleno direito; Dos tratados internacionais para evitar a bitributação 36. O art. 98 do CTN destaca que os tratados e convenções internacionais devem prevalecer sobre as normas internas; 37. O Brasil firmou acordos/convenções para evitar a bitributação do Imposto de Renda com praticamente todos os países dos quais a Impugnante importou insumos de empresa vinculadas; 38. Esses acordos/convenções foram devidamente recepcionadas por nosso ordenamento jurídico, de forma que a impugnante só poderia efetuar qualquer ajuste relativo ao preço de transferência se o Fisco comprovasse que as transações se deram fora dos parâmetros arm's length; 39. Porem o fisco não comprovou que a impugnante efetuou transações fora dos parâmetros arm's length, nem que havia erro de cálculo relativo ao preço de transferência praticado; 40. Os ajuste exigidos pelo fisco contrariam os acordos internacionais para evitar a bitributação; Da inconstitucionalidade dos art. 18 e 19da Lei n° 9.430/96 41. Os artigos 18 e 19 da Lei n° 9.430/96 são inconstitucionais por: Fl. 825DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 826 8 a. Criarem fato gerador fictício, com base em presunção absoluta, na medida que préestabelecem margem de lucros sem considerar a realidade do mercado; b. Inverterem o ônus de prova e cercearem o direito de defesa do contribuinte, quando estabelecem de antemão a margem de lucro, delegando ao contribuinte produzir provas impossíveis; c. Tributarem lucros menores como se maiores fossem, em afronta ao princípio da capacidade contributiva, pois a margem de lucro utilizada pela lei é muito maior que a da realidade do país; 42. A administração pública não pode se esquivar de reconhecer a inconstitucionalidade reinante no caso em apreço, pois compete ao poder público anular seus atos quando manifestamente ilegais e inconstitucionais, na forma da Súmula 473 do STF; Do caráter de confisco da multa 43. A multa de 75% aplicada sobre os valores devidos de IRPJ e CSLL ofende os princípios do nãoconfisco, razoabilidade e proporcionalidade; Da juntada posterior de documentos 44. Tendo em vista que desde 2003 passou por várias alterações societárias, inclusive com modificação das controladoras, teve dificuldades de obter documentos de posse/propriedade das coligadas estrangeiras; 45. Por essa razão, requer que lhe seja deferida a juntada posterior de documentos que nesta ocasião restam impossíveis de serem apresentadas, na forma do art. 16, § 5o, do Decreto n° 70.235/72; Do pedido de perícia 46. Como as infrações são de cunho contábil e se prendem à forma como foram realizados os registros do preço dc transferência, é necessária a realização de perícia técnica para esclarecer se o método utilizado pela impugnante está correto ou não; 47. Por isso indica como seu perito o Sr. ODON MARTINS DO NASCIMENTO, CPF 078.133.50278; Da Contribuição reflexa 48. Invoca os mesmos argumentos para impugnar o Auto de Infração e lançamento relativos à CSLL; Fl. 826DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 827 9 O processo foi devolvido à unidade de origem para sanar dúvidas quanto à legitimidade da peça impugnatóría, conforme despacho de folhas 495496. O que resultou na juntada dos documentos de folhas 628633. A autuada, LP DISPLAY BRASIL LTDA (atualmente, SSC Displays Ltda), e a LP DÍSPLAY AMAZÔNIA LTDA, CNPJ 09.333.938/000106, apresentaram ainda termo aditivo à peça impugnatóría (fís. 497504), solicitando a exclusão da primeira e a inclusão da segunda no pólo passivo da relação processual, com base nos seguintes argumentos: 49. A LP DISPLAY BRASIL LTDA foi sucedida pela LP DISPLAY AMAZÔNIA LTDA, através de um Contrato de Trespasse, em meio a um plano de recuperação judicial; 50. Em tal plano, ficou definido que a LP DISPLAY AMAZÓNIA LTDA, sucessora, prosseguiria na exploração da atividade, para quem foram transferidos os ativos operacionais; 51. À sucessora, LP DISPLAY BRASIL LTDA, restou apenas os ativos que não seriam necessários à atividade operacional, com o fim exclusivo de satisfazer os credores; 52. O trespasse foi registrado na Junta Comercial do Estado do Amazonas em 19/08/2008 e publicado no Diário Oficial do Amazonas em 22/08/2008; 53. Tendo em vista a transferência do estabelecimento industrial de Manaus da LP DISPLAY BRASIL LTDA para a LP DTSPLAY AMAZÓNIA LTDA, com encerramento da atividade da primeira, as responsabilidades pelos tributos devidos foram integramente transferidas para a sucessora, na forma doart. 133,1, CTN; 54. A transferência da solidariedade também se faz necessária para facilitar a recuperação judicial, na medida que o Plano de Recuperação tem como espinha dorsal a liquidação dos ativos da sucedida, que, por estarem gravados com ônus real, dependem da liberação das garantias pelos respectivos credores, os quais certamente não o farão diante de tamanho passivo fiscal. Solicitam ainda, em caso de impossibilidade de transferência da responsabilidade, a nulidade do auto de infração, por ilegitimidade passiva, para que outro auto de infração seja lavrado na sucessora. Numerei a folha 634. Anexei a folha 635, que revela a atual denominação do sujeito passivo do lançamento Consultei os dados registrados no CD anexado à folha 17 e lacrei novamente o envelope com este conteúdo. É o relatório. A DRJ manteve então em parte o lançamento, RECORRENDO DE OFÍCIO da parte cancelada, nos termos da ementa abaixo: Assunto: Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2003 Fl. 827DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 828 10 Ementa: DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. São improfícuos os julgados administrativos trazidos pelo sujeito passivo, pois tais decisões não constituem normas complementares do Direito Tributário, já que foram proferidas por órgãos colegiados sem. entretanto, uma lei que lhes atribuísse eficácia normativa, na forma do artigo 100, II, do Código Tributário Nacional. DECISÕES JUDICIAIS. EFEITOS. ENTENDIMENTO DOMINANTE DOS TRIBUNAIS SUPERIORES. VINCULAÇÃO DA ADMINISTRATIVA. E vedada a extensão administrativa dos efeitos de decisões judiciais, quando comprovado que o contribuinte não figurou como parte na referida ação judicial. A autoridade julgadora administrativa não se encontra vinculada ao entendimento dos Tribunais Superiores pois não faz parte da legislação tributária de que fala o artigo 96 do Código Tributário Nacional, salvo quando tenha gerado uma súmula vinculante, nos termos da Emenda Constitucional n.° 45, DOU de 31/12/2004. DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. PROCEDIMENTO FISCAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. IMPUGNAÇÃO. INÍCIO DO CONTENSIOSO. A ação fiscal tendente a apurar e constituir o crédito tributário é um procedimento administrativo que pode ter caráter inquisitório. O crédito constituído, por meio de lançamento de ofício, não é definitivo na esfera administrativa. O sujeito passivo pode exercer seu direito ao contraditório e a ampla defesa na impugnação ao lançamento, quando se instaura o contencioso administrativo fiscal. LANÇAMENTO. COMPETÊNCIA. O AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade tributária competente para constituir o crédito tributário, mediante lançamento, relativo a tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO VEDADA. ENTENDIMENTO ADMINISTRATIVO. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a arguição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade dos preceitos legais que embasaram o ato de lançamento. As leis regularmente editadas segundo o processo constitucional gozam de presunção de constitucionalidade e de legalidade até decisão em contrário do Poder Judiciário. As alegações de inconstitucionalidade ou de ilegalidade somente são apreciadas nos julgamentos administrativos quando houver expressa autorização. INSTRUÇÃO NORMATIVA. ILEGALIDADE. As Delegacias de Julgamento da Receita Federal do Brasil não possuem competência para apreciar a ilegalidade da instrução Normativa editada pela autoridade hierárquica superior. MULTA DE OFÍCIO. OBSERVÂNCIA. Fl. 828DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 829 11 imposição da cobrança de multa de ofício decorre da lei em vigor que deve ser aplicada pelos agentes públicos, sob pena de responsabilidade. MULTA DE OFÍCIO. CONFISCO. E inaplicável o conceito de confisco e de ofensa à capacidade contributiva em relação à aplicação da multa de ofício. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. A realização de diligência/perícia não se presta à produção de provas que o sujeito passivo tinha o dever de trazer à colação junto com a peça impugnatória. CSLL. Aplicase à CSLL, no que couber, o que foi decidido para o IRPJ, dada a intima relação de causa e efeito que os une. Irresignada com a decisão de primeira instância, a interessada interpôs recurso voluntário a este CARF, repisando os tópicos trazidos anteriormente na impugnação. É o Relatório. Fl. 829DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 830 12 Voto Conselheiro Antonio Bezerra Neto, Relator O recurso reúne as condições de admissibilidade tanto do recurso de ofício quanto do recurso voluntário, deles tomo conhecimento. RECURSO DE OFÍCIO A matéria submetida a recurso de ofício relacionase aos ajustes adicionados ao lucro real em relação aos insumos importados que foram calculados apenas pelo método PIC. É que o contribuinte utilizouse dos dois métodos (PRL60 e PIC) para insumos diversos e o autuante também constituiu lançamento com base nos dois diferentes métodos. A DRJ cancelou os ajustes referentes ao método PIC, utilizandose dos seguintes fundamentos, naquilo que reputo mais importante destacar: Em 08/07/2008. a fiscalização intimou o contribuinte a apresentar, no prazo de 5 (cinco) dias úteis, os documentos utilizados como suporte para o cálculo do preço de transferência, pelo método PÍC, de 7 produtos importados. O auto de infração foi lavrado em 14/07/2008. (...) No que diz respeito aos insumos em que a fiscalizada empregou o método PIC para o cálculo do preço de transferência, a tese de irregularidade no procedimento é plausível. Isto porque a fiscalização, além de conceder um exíguo prazo para o contribuinte apresentar a documentação necessária para o cálculo do preço parâmetro, efetuou o lançamento antes do término do prazo fornecido. Observese que a fiscalizada foi intimidada, em 08/07/2008 (terçafeira), a apresentar a documentação comprobatória do preço parâmetro dos produtos que utilizou o método PIC, no prazo de 5 dias úteis (fl. 54). Desse modo, como a fiscalizada teria até o dia 15/07/2008 para apresentar tais documentos, o fisco só poderia efetuar o lançamento decorrente da falta desses documentos a partir do dia 16/07/2008. Ocorre que o Auto de Infração foi lavrado em 14/07/2008, ou seja, antes do prazo concedido. A irregularidade do procedimento, causada pelo desrespeito ao prazo para apresentação da documentação comprobatória, provocou a falta de comprovação da imprestabilidade da documentação de suporte do preço parâmetro praticado pelo contribuinte. Dessa forma, devem ser excluídos do lançamento os ajustes efetuados pela fiscalização, relacionados na Tabela 1, abaixo: (...) A DRJ cancelou o lançamento nesse aspecto, uma vez que segundo ela seria patente a irregularidade no procedimento, pelo fato de o lançamento ter sido efetuado Fl. 830DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 831 13 (14/07/2008) antes do término do prazo fornecido (15/07/2008). Porém, a DRJ foi infeliz ao não observar que a ciência propriamente dita dos autos de infrações se deu em 16/07/2008 (fls.04IRPJ, fls.21CSLL), portanto, no dia seguinte ao término do prazo. Nesse caso, não houve prejuízo algum ao Contribuinte, pois o que importa é a data da ciência e não a da emissão do auto de infração. Outrossim, a Recorrente em toda a fase de defesa em momento algum esboçou qualquer intenção de entregar tais documentos. Por todo o exposto, DOU PROVIMENTO ao RECURSO DE OFÍCIO. RECURSO VOLUNTÁRIO Nulidade A recorrente, em síntese, apregoa a nulidade do feito sob o argumento de que houve cerceamento do direito de defesa na fase de procedimento fiscal, com base nos seguintes argumentos: Falta de concessão de prazo hábil para a apresentação da documentação comprobatória; Falta de fundamentação dos motivos que justificaram a recusa dos documentos apresentados; Falta de concessão de prazo para contestação das infrações detectadas, bem assim foilhe negado perícia contábil, imprescindível para o deslinde do feito. Apenas para um melhor esclarecimento sobre o assunto, transcrevese o dispositivo que rege a matéria no processo administrativo fiscal. Prescreve o art. 59 do Decreto 70235/72 com a nova redação dada pela Lei 8748/93: Art. 59 São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa; Por conseguinte, considerase nulo o ato, se praticado por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa, não tendo se caracterizado quaisquer das situações, pois não se põe em dúvida a competência do autor, nem há que se falar em preterição do direito de defesa, vez que os fatos apurados foram descritos com o respectivo enquadramento legal, e levados ao conhecimento, da autuada, levando a mesma a defenderse plenamente através da peça impugnatória acostada aos autos. Em relação ao suposto cerceamento do direito de defesa em fase procedimental, digase que no procedimento administrativo de fiscalização, inexiste um amplo contraditório, nos moldes garantidos nos processos judiciais. Por outro lado, cabe salientar que o processo administrativo fiscal não se esgota nos atos do lançamento, já que também fazem parte dele a impugnação e o recurso voluntário, ou de ofício. É nesse sentido que se deve compreender o alcance do contraditório previsto no art. 5°, LV da Constituição Federal, já que é mais propriamente exercido nesta fase de apreciação do lançamento. Assim também entende Fl. 831DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 832 14 o tributarista Alberto Xavier, que na obra “Do Lançamento. Teoria Geral do Ato do Procedimento e do Processo Tributário”, Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 165, assim leciona: Em matéria de lançamento tributário a garantia de ampla defesa não atua necessariamente pela via do direito de audiência prévia à prática do ato primário, mas no “direito de recurso” deste mesmo ato, pelo qual o particular toma a iniciativa de uma impugnação em que o seu direito assumirá força plena. Dessa forma e nesse contexto, como bem colocado pela DRJ: a ausência de prazo hábil para apresentação de documentação comprobatória, no curso do procedimento fiscal, não se presta para declarar a nulidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa. Pelo que, deixo para apreciála em momento oportuno. Situação diferente é a da falta de fundamentação dos motivos que determinam a recusa dos documentos apresentados. Vez que a omissão, mesmo que parcial, dos motivos determinantes do lançamento dificulta a ampla defesa do sujeito passivo. Todavia, compulsando a descrição dos fatos do Auto de Infração, verificase que o AuditorFiscal descreve sucintamente quais os motivos que o levaram a considerar como imprestáveis a documentação apresentada. Logo, não há como prosperar a tese de cerceamento do direito de defesa. E , efetivamente, a recorrente exerceu o contraditório a que tem direito, por meio da peça impugnatória e recursal que ora se aprecia. No que se refere à aplicação do PRL60, como bem fundamentou a DRJ, nenhum prejuízo causou à Recorrente a adoção desse método, e não havendo nenhum prejuízo, não há que se falar em nulidade. As diferenças encontradas no PRL60 devemse exclusivamente à questão da legalidade da IN 2432002, que será tratada em tópico à parte. Eis abaixo os fundamentos da DRJ a esse respeito, não infirmados pela Recorrente e que os adoto também como razão de decidir: Situação diversa é dos insumos em que a fiscalizada utilizou o método PRL60, pois não verifiquei qualquer irregularidade no procedimento adotado pelo fisco. Isto porque a fiscalização, ao deparar com a insuficiência ou deficiência das memórias de cálculo dos preços parâmetros utilizados pela fiscalizada (fls. 1718), solicitou a esta apresentar todos os elementos necessários para o cálculo do preço de parâmetro, através das intimações dos dias 08/04/2008, 15/05/2008 e 27/06/2008 (fls. 3750). Intimações estas que foram atendidas pela recorrente no prazo que se estendeu da primeira intimação até o lançamento (08/04/2008 a 14/07/2008). Por conseguinte, a fiscalização com base nos elementos disponibilizados pela própria recorrente apurou novamente os preços parâmetros dos insumos importados. Os preços parâmetros apurados pelo fisco divergiram dos valores adotados pela fiscalizada. A fiscalizada, por sua vez, não apontou qualquer erro no cálculo efetuado pela fiscalização. Ora, se a recorrente não aponta nenhum erro de cálculo na apuração do preço de transferencia efetuado pelo fisco, se o fisco apurou o preço de transferencia pelo mesmo método utilizado pelo contribuinte (PRL60), e se o fisco utilizou no cálculo do preço de transferência os dados fornecidos pelo próprio contribuinte, não se pode afirmar que o procedimento adotado pelo fisco está viciado, pois, em tese, a fiscalização utilizou os mesmos elementos (metodologia e dados) utilizados pelo contribuinte para achar o preço parâmetro. Notese que, se o contribuinte entregou todos os documentos relativos ao preço de transferência pelo método PRL60, o resultado informado pela fiscalizada deveria ser o Fl. 832DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 833 15 mesmo apurado pelo fisco, pois a metodologia fornecida pela IN SRF 243/2002 não deixa margem para discricionariedades. Em relação à alegação de falta de prazo para contestação das infrações, também não procede. É que a Recorrente tomou ciência do lançamento em 14/07/2008, quanto foi intimado a recolher ou impugnar, no prazo de 30 (trinta) dias, o débito constituído para com Fazenda Nacional (fl. 04). Outrossim, o auto de infração é o instrumento idôneo para a constituição do crédito tributário, diferentemente do alegado pela Recorrente. Em relação à alegação de incompetência do Auditor Fiscal da Receita Federal para lavrar o auto de infração, é de se dizer que a matéria já foi inclusive sumulada por este CARF: Súmula CARF nº 8: O Auditor Fiscal da Receita Federal é competente para proceder ao exame da escrita fiscal da pessoa jurídica, não lhe sendo exigida a habilitação profissional de contador A recorrente sustenta também, com base em diversos argumentos, a inconstitucionalidade dos artigos 18 e 19 da Lei n. 9.430/96. Quanto à esse aspecto reiterese, a autoridade administrativa é vinculada a lei válida e vigente, não cabendo a este órgão do Poder Executivo deixar de aplicálas, encontrando óbice, inclusive na Súmula nº 2 deste CARF, in verbis: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acrescentese que, quando muito, em se admitindo o fato da autoridade lançadora ter cometido algum engano com relação à falta de prova ou matéria de fato e a sua subsunção à norma, tratarseia então de questão de mérito e não de preliminar de nulidade. Perícia: A contribuinte requer a realização de perícia, bem assim se insurge contra a decisão de primeira instância que a considerou prescindível, maculando assim de nulidade o procedimento fiscal. Porém, conforme se verificará na exposição mais adiante do mérito, assim como também ficou bastante claro em todo o contexto da decisão de primeira instância, os elementos indispensáveis à solução do litígio encontrase nos autos, motivo pelo qual o pedido de perícia dever ser indeferido nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235/72. Ademais, o deferimento de diligência e perícia é uma decisão do âmbito de discricionariedade do julgador, cabendo a ele fazêla ou não a depender da formação de sua convicção (diligência) ou mesmo que se lhe exigirá conhecimentos técnicos específicos que somente um perito especializado poderia ter (perícia), o que não é o caso dos autos em que se requer apenas análise de meros dados contábeis, fiscais e legais., perfeitamente dentro da alçada de competência do Auditor Fiscal. Portanto, indefiro o pedido de perícia e rejeito as preliminares de nulidade suscitadas. Fl. 833DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 834 16 MÉRITO O lançamento do preço de transferência que foi aplicado para os produtos que utilizaram o método PRL60 tem como origem imediata a sistemática de cálculo empregada (decorrente da diferenças entre a IN SRF 243/2002 e a IN SRF n° 32/2001), e, não, a imprestabilidade da memória de cálculo apresentada pela recorrente. Isso porque, como bem colocado pela decisão de piso, “o cálculo do preço parâmetro foi refeito pelo fisco com os dados fornecidos pelo próprio contribuinte.” Assim não merece guarida a alegação da Recorrente de que seria o caso do fisco demonstrar a inabilidade dos documentos apresentados, isso porque o autuante utilizou os dados apresentados pelo próprio contribuinte para calcular o preço parâmetro pelo mesmo método. Da mesma forma não tem razão a Recorrente quando tenta macular o procedimento do autuante de se utilizar de amostragem para fazer os devidos ajustes de preço de transferência, como se houvesse a intenção do fiscal de manipulação dos dados. Ora, a amostragem é uma medida de eficiência tradicional no ramo de Auditoria em geral, servindo apenas para limitar o espaço de auditagem, procedimento esse isento de qualquer ilegalidade e que ao fim e ao cabo só milita em favor da Recorrrente, justamente porque se fosse auditado todo o universo amostral os ajustes tenderiam a ser maiores ainda. Em relação {a tolerância de 5% para a divergência entre o preço parâmetro e custo do produto importado (art. 38 da IN 243/2002), conforme muito bem demonstrado pela DRJ e não refutado pela Recorrente: (....)as provas revelam que a alegação é inverídica. Os dados extraídos das "Planilhas Preço de Transferência 20031?% armazenados no CD à folha 17, e que foram sintetizados na Tabela 2, abaixo, demonstram que a menor margem de divergência utilizada no lançamento foi de 79,88%. Da possibilidade de alteração de critério jurídico em função de mudança de interpretação da Lei Outro ponto bastante relevante trazido pela Recorrente, referese à questionamento relacionado à legalidade da IN SRF 243/2002. Tratase de Instrução Normativa que veio regulamentar as determinações da Lei 9.430/96, alterada pelo artigo 2º da Lei 9.959/00, no que tange ao cálculo do método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL (60%) para determinação do Preço Parâmetro. O preço parâmetro (PP) por sua vez é o preço limite apurado “de cima para baixo”, a partir do Preço de Revenda Líquido (PRL) visando estimar a dedutibilidade dos custos e margem de lucro relativos aos bens importado por pessoas vinculadas localizadas no Fl. 834DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 835 17 exterior. O produto importado cujo preço ultrapassar esse preço parâmetro calculado, sofrerá ajustes tornando essa parcela excedente indedutível para efeito de tributação. Em primeiro há que se confirmar a existência de uma Instrução Normativa anterior, a IN 32/2001, que dava uma interpretação da Lei divergente da IN 243/2002. Ora, é sabido hodiernamente que não existe uma única interpretação correta para um texto de Lei. Isso porque toda lei é feita de texto, e texto tem suas idiossincrasias que independem da nossa vontade de perseguir o máximo de objetividade e univocidade. É uma pena que essa mesma cantilena é repetida infinitamente pelos doutrinadores e o que é pior, é absorvida sem resistência pela grande maioria dos operadores de direito. Pensar assim, data máxima venia, passa desapercebido de questões epistemológicas essenciais, tais como os limites da linguagem. Desconhece que os conceitos possuem uma textura aberta, como muito bem demonstrou Hart ainda no seu clássico. O conceito de Direito e Alf Ross em seu insuperável livro Justiça e Direito, através dos quais trouxeram, para arejar o Direito, as novidades da revolução linguísticopragmática instalada principalmente pelo “Segundo Wittgenstein” (Investigações Filosóficas). Nessa mesma linha, temos Ronald Dworkin. A doutrina e a jurisprudência têm se enredado nessa difícil missão de extrair “definibilidade” e “precisão” das regras e dos conceitos jurídicos, em “casos fronteiriços”, ou seja em casos tais em que ocorre uma indeterminação semântica no uso de termos gerais inerente a toda e qualquer linguagem, justamente em função do fenômeno da “textura aberta” da linguagem. Essas chamadas “lacunas de reconhecimento” podem representar tanto uma “vaguidade de grau” quanto uma “vaguidade combinatória”. A primeira se refere a dúvidas quanto à quantidade ou grau de presença de uma das propriedades constitutivas de um conceito que deve estar presente no caso particular para que a aplicação do conceito seja possível. A segunda lacuna, a de “vaguidade combinatória”, referirseia à imprecisão a respeito de quais são as propriedades constitutivas de um conceito e a maneira pela qual elas devem estar combinadas para que o uso do termo geral possa ser empregado de forma legítima. Afora isso, paira na interpretação de qualquer texto o “mal” da ambigüidade, dando margem mais de uma interpretação, como parece ser o caso concreto e que se demonstrará mais adiante com mais vagar. Em resumo, por trás de uma interpretação da norma não existe uma realidade objetiva com o qual pudesse ser confrontado diretamente a validez do seu resultado. Nesse sentido, o princípio basilar da legalidade não pode ser usado como escudo para persuadir que a “ferro e fogo” existe uma única interpretação correta de uma texto de Lei. Nesse diapasão, soa peremptório a utilidade dos atos infralegais que visam aclarar a norma e lhes dar concretude. É preciso não cair na ilusão de achar que todo o sentido da norma deva estar registrado literalmente com todas as palavras, como se o legislador fosse um demiurgo todo poderoso que conseguisse prever todas as situações fáticas e complexas que envolvem a realidade a ser coberta por uma determinada norma jurídica. Outrossim, causa espécie quando no trato dessa matéria, não sei se por ingenuidade ou sagacidade, se compara a interpretação da Lei com a Interpretação da IN . Ou por outras palavras, quando se compara a interpretação da Lei n. 9.959/2000 com a interpretação trazida pela IN SRF nº 243/2002. Ora, mas não se pode fazer tal comparação uma Fl. 835DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 836 18 vez que a interpretação mais adequada da Lei é o que se está em jogo, é o que se pretende provar. Nesse passo, quem usa desse artifício comete a chamada petição de princípio, que é a falácia utilizada por aqueles que dão por provado aquilo que pretendem ou deveriam pretender provar. Quando se usa açodadamente o princípio da legalidade para dizer que uma determinada interpretação da Lei é a mais adequada, nada mais faz o postulante do que reconhecer que não está fazendo o seu serviço direito, indo para o caminho mais fácil de dar por provado aquilo que deveria tentar provar. O presente voto vai se valer então de todos os tipos de interpretação tradicionais para tentar provar se a IN 243/2002 é legal ou não, justamente por submetêla à toda prova. O que garante que uma interpretação é mais adequada do que outra é verificar como essa interpretação se sai ao se submeter aos mais variados testes de resistência. Antes de fazer isso, nenhuma valia tem se agarrar em uma determinada interpretação e dizêla que tal ou qual seria a interpretação legal. O art. 146 do CTN, embora trata de questão mais específica envolvendo um mesmo sujeito passivo que foi submetido temporalmente pela Administração Pública a dois critérios jurídicos distintos, na verdade vem amparar a Administração Pública da possibilidade de se fazer uma mudança de critério jurídico, seja porque a interpretação anterior estava visivelmente equivocada, seja porque a Lei sendo interpretada, comportava claramente mais de uma interpretação jurídica. Nesse passo, não há dúvidas que a IN 243/2002, se comparada com a IN 32/2001 implementou mudanças de critério jurídico que passam a valer apenas a partir de 2003. A IN 32/2001 foi, sim, uma interpretação abraçada pela SRF até 2001 e como tal deve ser aplicada até esse limite de tempo. Embora as mudanças de critérios jurídicos não sejam salutares para a segurança jurídica, a Administração Pública não pode ficar “engessada” indefinidamente a uma interpretação equivocada feita por ela mesma. LEGALIDADE DA IN 2432002 Posta essas questões preambulares passemos ao enfrentamento direto da questão da legalidade da IN 243/2002, começando obviamente por uma interpretação gramatical que é o ponto de partida de qualquer interpretação. Depois, exploraremos aspectos matemáticos relacionados à simplicidade de cada uma das fórmulas em questionamento. A seguir faremos uma interpretação sistemática e finalística buscando pela racionalidade das fórmulas. Demonstraremos matematicamente alguns “mitos” que giram em torno da proporcionalização efetivada pela IN 243/2002. Por fim, submeteremos a um “teste de resistência” os mais fortes argumentos utilizados pelos doutrinadores no que tange a colocar à prova a legalidade da IN 243/2002. A grosso modo a Recorrente se insurge contra a metodologia de cálculo aplicada pela fiscalização com lastro na IN SRF nº 243/2002. Segundo ela, a metodologia de cálculo da Lei nº 9.430/96 não deixaria margens para qualquer mudança por meio de ato infralegal, onde modifica completamente o texto da norma com a inserção inclusive de conceitos de Fl. 836DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 837 19 participação de bens importados no preço de revenda final, majorando assim a sua carga tributária em relação a IN anterior. A princípio esclareçase, por importante, que a Lei nº 9.430/96 em sua redação original somente previa para o cálculo da margem de lucro um percentual de 20% a ser aplicado sobre o preço de revenda dos bens ou direitos. Uma interpretação apenas gramatical da referida norma apontava então para a impossibilidade de aplicação do referido método a situações que não fossem simples revenda de produtos importados sem a agregação de custos por meio de produção local. Nesse sentido, a Lei foi disciplinada pela IN SRF nº 38/97, que claramente vedava a utilização do PRL nessa situação específica, restando apenas como opção os métodos PIC (Preços Independentes Comparados) do CPL (Custo de Produção mais Lucro). Tal fato foi questionado pelos Contribuintes e o então “Conselho de Contribuintes”, atual CARF, produziu jurisprudência contra essa interpretação meramente gramatical. No caso a jurisprudência passou a afirmar a possibilidade aplicação do método PRL aos casos em que se agrega valor no país e não somente para os casos de simples revenda. É nesse contexto e vindo dar guarida às pretensões dos contribuintes é que foi editada a Lei nº 9.959/00, que alterou o art.18, inciso II, da Lei nº 9.430/96, cuja interpretação passou também a ser a base da presente controvérsia. No caso, criouse também a margem de lucro de sessenta por cento, dessa feita para os casos em que sobre a importação se agrega valor no país para subseqüente revenda. Mas, a lide circunscrevese não sobre esse percentual, mas sobre a base de cálculo sobre a qual ela incide. Eis os seus exatos termos do referido preceptivo legal: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (destaquei) Fl. 837DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 838 20 A interpretação gramatical é a primeira interpretação que se faz e é muito importante, pois apesar de não conseguir no mais das vezes definir univocamente uma determinada interpretação, ela serve sobretudo para eliminar inúmeras outras interpretações. Esse é o ponto! Dessa forma, essa etapa sempre será seguida por outros métodos de interpretação que possuem o fim de submeter à teste de adequação as hipóteses concorrentes elencadas na etapa anterior. Somente a partir do resultado final desse processo é que poderemos nos referir a uma interpretação adequada para determinada norma. Antes disso, como já se colocou, se referir a uma interpretação legal a partir da semântica apenas do texto da norma ou afirmar que a carga tributária seria maior ou menor é cair na falácia da petição de princípio, dando por provado aquilo que se quer provar. Outrossim, o efeito tributário também é uma consequência da interpretação mais adequada que se dê ao texto da norma, nunca podendo ser a causa ou justificativa para uma interpretação. Interpretação Gramatical Fórmula adotada pela IN 32/2001 e pela Recorrente A Recorrente faz a seguinte leitura gramatical do texto acima da Lei: “60% sobre o valor integral do preço líquido de revenda do produto menos o valor agregado no País”, representando a seguinte fórmula: PP1= PLV – 60%(PLV – VA) ou PP1= 40% PLV + 60% VA PP1=Preço parãmetro PLV=Preço líquido de Revenda VA =Valor agregado Fórmula adotada pela IN 243/2002 Fórmula geral analítica: PP2= PLV – 60%PLV – VA1 Fórmula sintética: PP2=40%PLV VA 1 A fórmulação exata constante na IN 243/2002 (PPn=%nPL –60%(%nPL) ), onde se incorpora efetivamente o fator ponderação de custos para fazer face à produto final revendido que incorpora mais de um insumo importado, será analisada em tópico à parte mais adiante no voto. Fl. 838DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 839 21 A diferença entre elas, matematicamente falando é apenas os parêntesis, denotando de plano um problema comum na linguagem, que é o da ambigüidade no plano semântico. Uma outro aspecto que transparece da fórmula é da IN 32/2001 em contraponto com a da IN 243/2002 é da feiúra da primeira e falta de simplicidade. O famoso físico Richard Feynman expressou essa verdade intuitiva quando disse: “Você pode reconhecer a verdade por sua beleza e simplicidade. Quando você a apreende corretamente, é óbvio que ela é correta – pelo menos se você tem alguma experiência... Os inexperientes, os birutas e pessoas assim, fazem suposições simples, mas você pode perceber imediatamente que eles estão errados, de modo que isso não conta. Outros, os estudantes inexperientes, fazem suposições que são muito complicadas, e de certo modo parece que está tudo certo, mas sei que não é verdade porque a verdade sempre se revela mais simples do que pensava.” 2 Apenas olhando para as duas fórmulas meu senso matemático indica que a fórmula da IN 243/2002 é mais simples e bonita. Mas, vamos avante. No plano gramatical e semântico, a favor da interpretação da IN 243/2002 temos que a expressão “diminuídos” concorda gramaticalmente em um primeiro momento com “sessenta por cento sobre o valor líquido de revenda” e a seguir com a expressão “... do valor agregado no país”. Outro ponto a favor dessa interpretação gramatical, está no fato de que teria optado em manter a expressão “e do valor agregado” junto no mesmo item porque caso se criasse um terceiro item isso ficaria incompatível com a existência de apenas duas metodologias de cálculo e não três, afinal o item estava sendo utilizado para representar de forma autônoma cada uma das metodologias: PRL 60 e PRL 20. De outra banda, em favor da interpretação conduzida pela Recorrente teríamos a ausência de uma vírgula antes da expressão “e do valor agregado” para ficar bem caracterizado ai a ausência dos parêntesis. Ora, mas se o objetivo do legislador fosse este mesmo de diminuir o valor agregado da margem de lucro por meio de parêntesis: PP= PLV – 60%(PLV – VA), por óbvio que o seu esforço de bem representar essa situação mais específica deveria ser seguida de uma redação mais robusta que contemplasse essa peculiaridade. Não se desincumbido bem dessa carga de prova, seja através da explicitação da fórmula matemática propriamente dita, como fazemos neste voto, seja através de uma formulação lingüística que ficasse mais claro isso, só se pode interpretar a formulação sem a existência dos parêntesis, ou seja, o valor agregado diminuindo diretamente o PLV para se chegar ao isolamento do preço parâmetro do produto importado (PP). Como se vê, ambas as interpretações poderiam ser possíveis a nível gramatical ou semântico, muito embora num cotejo raso entre as duas, existam mais pontos a favor da interpretação da IN 243/2002. Outrossim, se sopesarmos o valor de um erro de 2 Richard Feynman, citado em Hiperespaço, Rocco, página 149. Fl. 839DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 840 22 concordância nominal contra um erro de vírgula, pareceme cristalino que pressupor um erro de concordância nominal seria mais grave do que um mero erro de vírgula. Nesse sentido, no nível sintático/gramatical, parece mais razoável que a norma esteja a prescrever no cálculo da margem bruta de lucro, que seja considerado 60% sobre o valor líquido de revenda, portanto, daquela parcela que foi importada e, posteriormente, revendida diminuídos depois do valor agregado no país. Mas, por amor ao debate avancemos nos próximos métodos de interpretação. Interpretação lógica e matemática Uma outro aspecto que transparece da fórmula é da IN 32/2001 em contraponto com a da IN 243/2002 é da “feiúra” da primeira e falta de simplicidade. Como já se colocou retro, mas não custa repetir, o famoso físico Richard Feynman expressou essa verdade intuitiva quando disse: “Você pode reconhecer a verdade por sua beleza e simplicidade. Quando você a apreende corretamente, é óbvio que ela é correta – pelo menos se você tem alguma experiência... Os inexperientes, os birutas e pessoas assim, fazem suposições simples, mas você pode perceber imediatamente que eles estão errados, de modo que isso não conta. Outros, os estudantes inexperientes, fazem suposições que são muito complicadas, e de certo modo parece que está tudo certo, mas sei que não é verdade porque a verdade sempre se revela mais simples do que pensava.” 3 Essa mesma intuição não passou despercebida de Polizelli4: A aceitação da fórmula 60% sobre ( o valor integral do preço líquido de venda do produto menos o valor agregado no País) implicaria em se vencer um verdadeiro desafio interpretativo, pois cria um novo método de determinação de preço parâmetro distinto do método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL, cuja previsão legal determina que as margens de lucro sejam sempre sobre o produto ou parcela importada ou revendida. Por outras palavras, com essa interpretação perdese uma característica básica do método que é o “isolamento”. O método de cálculo é feito de “frente para trás”. Intuitivamente partimos do Preço de Revenda e vamos retirando tudo aquilo que seja possível até chegarmos, até isolarmos o preço parâmetro de importação para subseqüente comparação com o preço real importado. Uma vez isolado o preço de importação é que sobre ele deve incidir a margem bruta de lucro de 60%. Somente a fórmula da IN 243/2002 persegue esse desiderato e faz o isolamento de forma perfeita, pois ela retira todo o valor agregado, que é uma variável complicadora e muito peculiar do caso concreto e como tal deve ser expurgada, mesmo porque a margem bruta de 60% vem justamente substituíla. 3 Op. Cit. 4 “Parâmetros para a definição de valor agregado e interpretações possíveis da Lei nº 9.959/2000 quanto ao método PRL de preços de transferência”. Revista de Direito Tributário Internacional. Ano 1, nº 2. São Paulo: Quartier Latin, 2006. Fl. 840DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 841 23 A fórmula da IN 32/2001 ela não expurga o valor agregado, ela faz algo diferente, ela adiciona 60% do valor agregado! PP1= PLV – 60%(PLV – VA) ou PP1= 40% PLV + 60% VA Como se vê ela falha em simplicidade, na medida em que a referida fórmula contempla a subtração do Valor Agregado que por sua vez diminui o Preço de Revenda isso tudo no contexto de uma outra diminuição realizada sobre o Preço de Revenda, o que redunda em uma adição “disfarçada” do Valor Agregado para a formação do Preço Parâmetro. Ora, afora a questão de falta de simplicidade da fórmula, por que motivo adicionar e não subtrair, e apenas parte do valor agregado e por que nesse percentual de sessenta por cento? Afinal o percentual de 60% seria apenas para cobrir a margem de lucro bruta? Todos os termos de uma fórmula matemática tem que ter uma razão de ser bem objetiva e explicável. Não há razão lógica alguma para esse fato, a não ser admitirmos que essa interpretação é produto de um erro dando origem a essa fórmula por acaso. Interpretação finalística A fórmula da IN 32/2001 ao deixar de subtrair o valor agregado como era de se esperar para atingir o isolamento do valor importado a ser comparado, e ir pelo caminho ilógico de adicionar 60% do valor agregado para apurar o preço parâmetro, faz com que a fórmula deixe de funcionar adequadamente, deixando de fazer os ajustes necessários nos casos de manipulação de preços importados entre partes relacionadas, objetivo maior do Preço de Transferência. E essa distorção acontece, justamente porque a variável independente Preço Parâmetro (PP) a ser calculada aumenta diretamente proporcional a 60% do Valor agregado (VA). Ou seja, quanto maior o valor agregado no país maior se torna o PP e consequentemente menores vão ficando os ajustes até o ponto de não ter mais ajuste nenhum, independente de se fazer manipulação no Preço de importação. Um comportamento absurdo. Nunca esperado para essa fórmula. Outrossim, os Preços Parâmetros calculados com base nessa metodologia distorcida não guarda a mínima correspondência com o valor do bem importado, o que é outro absurdo e precisaria ser explicado. Apesar de taxar de ilegal a IN SRF nº 243/02 o tributarista Schoueri, termina por concordar com a distorção acima apresentada: “7.6.1.3.1 Segundo tais autores, a fórmula acima seria criticável, já que, ao incluir o valor agregado na parcela da margem, surge um encontro de subtrações, o que implica uma adição. Em outras palavras, quanto maior o valor agregado, maior seria o preço parâmetro e, portanto, menor a necessidade de ajuste fiscal. 7.6.1.3.2 Essa observação leva a uma aparente incongruência na aplicação do método. Afinal, se a margem de lucro deve ser suficiente para cobrir todos os custos locais, então lógico seria que quanto maior fosse o volume dos custos locais, tanto Fl. 841DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 842 24 maior fosse a margem; aplicandose a fórmula acima, chegase ao contrário: a margem de lucro diminui conforme se agrega valor no País. No limite, caso se agregasse enorme valor no País (e, portanto, caso se necessitasse de uma margem de lucro suficiente para remunerar tal agregação de valor), a margem resultante da aplicação da fórmula acima seria negativa. 7.6.1.3.3 O argumento é forte e coerente e, de fato, não parece passível de contestação a partir da lógica dos preços de transferência. Seria de se esperar que tivesse o legislador cuidado de ampliar a margem de lucro conforme houvesse maior agregação de valor, nunca o contrário.5 Porém, o mesmo renomado autor objeta que isso seria um efeito indutor positivo previsto pelo legislador para favorecer a agregação de valor no país e que não poderia ser desprezado. Ora, mas o objetivo do mecanismo de preço de transferência é outro completamente diferente não podendo se amoldar a tal desiderato. Na verdade o que se tenta justificar é um efeito errático da fórmula, se seguida uma interpretação errônea, que coincidentemente dá ensejo a um efeito indutor, mas que por óbvio não pode ser considerado um objetivo maior do Preço de Transferência, mormente quando esse efeito indutor torna a fórmula inútil para evitarse manipulação de preços importados advindos de aquisições entre partes relacionadas, finalidade maior desse instituto. Outro aspecto da fórmula não explicado pelos defensores da lógica da IN 32 2001 seria o porquê do legislador se utilizar da expressão matemática (PLVA) na fórmula PP=PLV 60%(PL – VA). Ora, (PL – VA) nada mais é do que Preço do Produto Importado (PPI) +Lucro. Então a margem bruta é uma expressão que faz incidir o percentual de 60% não sobre o valor agregado, mas sobre o próprio preço do produto importado mais o lucro. Ora, por que então não se fez referência direta a essas variáveis. E outra coisa, como explicar que a Margem Bruta seja uma grandeza que dependa do “Preço do bem importado”, se o Preço Parâmetro, que tem paralelismo com o Preço do bem importado, é justamente o que se pretende encontrar? Questão prenhe de questões, todas elas não elucidadas. Por que? Porque é produto da escolha por acaso da interpretação literal equivocada que só pode redundar em irracionalidade na fórmula produzida. Interpretação Sistemática Uma interpretação sistemática da referida fórmula envolve a análise dela a partir dos parâmetros da OCDE. Nesse passo, Victor Borges Polizelli em excelente artigo aponta que a fórmula da IN 243/2002 com a estrutura explícita de “Preço menos Margem de Lucro menos Valor Agregado” apesar de aparentar mudar a estrutura convencional dessa metodologia (“Preço menos Margem de Lucro” apenas) indica que as diretrizes da OCDE longe de vedar essa estrutura até a recomenda quando se é possível adotála. E não poderia ser diferente uma vez que essa nova estrutura é a que melhor se amolda ao conceito de isolamento dos produtos importados, conforme já tratado em outro tópico. 5 Preços de transferência no direito tributário brasileiro, 2ª ed. São Paulo: Dialética, 2006, pp.159160. Fl. 842DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 843 25 Eis a doutrina de Polizelli: Em socorro dessa proposta de interpretação, convém indicar que as diretrizes da OCDE, enquanto orientações gerais, não vedam expressamente a exclusão do valor agregado paralelamente à exclusão da margem de lucro. Pelo contrário, como já adiantado, a OCDE reconhece que é mais difícil determinar uma margem de lucro adequada para as situações em que há grande agregação de valor ao produto (item 2.22). Mais ainda, as diretrizes da OCDE (item 2.19) sugerem que seja conferido maior peso a outros atributos de comparabilidade (funções realizadas, circunstâncias econômicas etc.) quando a margem de lucro disser mais respeito a esses atributos do que ao próprio componente importado. Colocamse assim algumas questões: será que a legislação brasileira não veio a atender exatamente a essas recomendações da OCDE, quando previu a exclusão individualizada do “valor agregado no País”? Seria essa uma forma adequada de se atribuir maior peso à função de produção e à circunstância econômica de alta agregação de valor? 6 E na seqüência o autor indiretamente toca no ponto da falta de simplicidade que por sua vez se liga na falta do “isolamento”, questões já sublinhadas alhures: Fato é que, com a formulação proposta PP=PL –60%x PL – VA é muito mais fácil encontraremse definições apropriadas para os elementos “Valor agregado” e “margem de lucro” de modo a resultar em um preço parâmetro plenamente comparável com o preço praticado na importação. 7 Argumento equivocado de que a mudança de redação para fazer face apenas à ponderação aumentaria os ajustes tributários Não se venha alegar que a redação da IN 2322002 diverge muito da Lei no que tange a incorporação da ponderação e que isso aumentaria a carga tributária da Recorrente através de atos infralegais. Conforme tabelas abaixo, fica bem claro que a ponderação não é o fator que faz aumentar os ajustes, ao contrário, é sempre mais favorável ao contribuinte (vide Tabela III). Outrossim, essa sistemática apenas incorpora uma “lei lógica” adequando melhor a fórmula para situações em que o que está sendo revendido é um produto em que se encontram incorporados vários insumos, no preço de revenda do produto estão compreendidos os preços de venda dos vários insumos que o integram. A ponderação é apenas uma “lei lógica” para fazer essa segregação dos diversos preços de revendas individuais a partir do peso valorativo do produto importado no custo total do produto. 6 "Parâmetros para a definição de valor agregado e interpretações possíveis da Lei nº 9.959/2000 quanto ao método PRL de preços de transferência". Revista de Direito Tributário Internacional. Ano 1, nº 2. São Paulo: Quartier Latin, 2006. 7 Ibdem Fl. 843DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 844 26 Nesse ponto, cabe um parêntese. É que a roupagem da fórmula adotada pela IN 243/2002 se modifica ao incorporar a técnica da ponderação, mas sem macular a" sua essência que é provocar o surgimento do “preço parâmetro de comparação” a partir do expurgo do Valor Agregado e assim, manter a técnica do máximo isolamento. Não se pode olvidar da ideia de que de certa forma o insumo foi também foi revendido. Nesse caso, apurase por proporcionalidade a parcela do preço líquido de venda (PLn) do bem produzido que diz respeito ao insumo importado (PPn). Fórmula adotada pela IN 243/2002 em sua essência Fórmula analítica: PP= PLV – 60%PLV – VA Fórmula EXPRESSAMENTE adotada pela IN 243/2002 PPn=%nPL –60%(%nPL) Os mais desavisados observam logo que a fórmula é completamente diferente uma da outra, pois a variável VA (Valor agregado) existente na primeira formulação desaparece na segunda. Ora, mas %n=VI8/(VI+VA), ou seja, o percentual de participação do valor do bem importado sobre os custos totais é uma forma lógica de isolar o valor agregado do bem importado, afinal a variável “Total dos custos” é a soma do Valor Importado mais todo o Valor Agregado a esse insumo. No caso da participação de um único insumo importado, significa apenas a diminuição(subtração) por si só do valor agregado, não necessitando do artifício do rateio proporcional, repartindo o “bolo” em seus pedaços supostamente revendidos (PLVn, PPn). Por outras palavras, a participação do componente importado no preço de revenda líquido (%n x PL) é igual ao preço de revenda líquido do produto final (PLV) subtraído do valor agregado: (%n x PL) = PLVA Nesse passo, Victor Borges Polizelli no seu excelente artigo muito bem divisou essa identidade entre a fórmula genérica da IN 243/2002 (PP= PLV – 60%PLV – VA) e a fórmula derivada, verdadeiramente expressa na IN 243/2002 que contém a técnica da ponderação de custos (PPn=%nPL –60%(%nPL)). Eis abaixo a prova matemática estabelecida pelo referido autor entre a variável Valor Agregado e tudo aquilo que não representa a participação do componente importado “n” no preço de revenda líquido: Neste sentido, o valor agregado poderia então ser identificado como tudo o que não representar a participação do componente importado "n" no preço de revenda líquido ([1 %n] x PL). Aplicando esta identidade à proposição supra: 8 Valor declarado do bem importado Fl. 844DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 845 27 (%n x PL) + ([1 %n] x PL) = PL %n x PL + PL %n x PL = PL PL = PL * Proposição Verdadeira O sentido aqui identificado para o valor agregado é perfeitamente admissível na medida em que reflete a evolução histórica do método PRL (grifei). 9 Segue a seguir um exemplo bem simples de como esse mecanismo de substituição da operação de subtração pelo rateio funciona: Ex.: Dados hipotéticos: PLV=250, VA=40, 40%PLV=100, VI=60, LUCRO=150 PP=PLV –60%PLVVA (fórmula analítica) = 40%PLV – VA (fórmula reduzida) PP=10040=60 Aplicandose agora a fórmula EXPRESSA da IN 243: PPn=%nPL –60%(%nPL) %n=VI/(VI+VA)=60/(60+40)=0,6=60% PPn=60%x250 60%(60%x250)=15090=60 É claro que as fórmulas não são idênticas, pois variandose as variáveis (lucratividade, VA etc), como se verá mais adiante nas simulações, a fórmula expressa da IN 243 que contém a ponderação (PPn=%nPL –60%(%nPL)) tende a ter PP diferentes , mas observem, sempre mais favoráveis ao Contribuinte do que a formulação abstrata e que serve apenas para um produto revendido que contenha apenas um único insumo importado (PP=PLV –60%PLVVA). Vide comparação, então, da Tabela 3 com a Tabela 2, respectivamente. Essa lógica foi inclusive construída a partir da jurisprudência do CARF, mais precisamente a partir do brilhante voto proferido pela exConselheira Sandra Maria Faroni, relatora do Acórdão nº 10194.888, de 17 de março de 2005. No caso ela passa em revista as alterações produzidas no art.18 da Lei nº 9.430/96 pela Lei nº 9.959/2000. É o famoso caso de Revenda de Párabrisa com preço parâmetro de R$ 32.000,00 para um produto que valeria R$ 10,00. Essa é a distorção causada pela fórmula da IN 32/2001 sem a utilização da ponderação. Outrossim, vêse, ainda, que a questão não é somente de lógica jurídica, mas também de bom senso e de razoabilidade. De importante que se deve ter em mente, para a análise da interpretação de uma norma e seu correspondente ato regulamentar infralegal, é que “Nem sempre lei lógica precisa norma para estar no interior do sistema”, é o que nos ensina o 9 Op.cit. Fl. 845DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 846 28 saudoso Jusfilósofo Lourival Vilanova em sua obra “As Estruturas Lógicas e o Sistema de Direito Positivo”, São Paulo, Editora Max Limonad, 1997, pg.26. Portanto, apesar de tal previsão não estar literalmente explícita na Lei, vêse que sua sustentação encontra guarida quando posta em confronto com questões de fronteira, como fez a ilustre Conselheira Sandra Faroni no referido Acórdão. Além do que, como se demonstra a seguir, essa ponderação tem apenas o efeito benéfico de reduzir os ajustes se comparado a interpretação da IN 243/2002 sem a referida ponderação. É de se ver. TABELA 1 – “TESE DO CONTRIBUINTE” IN 32/2001 INTERPRETAÇÃO DA LEI COM VALOR AGREGADO DENTRO DA MARGEM DE LUCRO – S E M PROPORCIONALIZAÇÃO DOS CUSTOS FÓRMULA: PP= PLV – 60%(PLV – VA) Variáveis Simula 1 Simula 2 Simula 3 Simula 4 Simula 5 Simula 6 PP 155,4 150 138 124 102 96,6 PL 240 240 240 250 240 240 lucro 140 140 140 150 140 140 VA 99 90 70 40 10 1 VI 1 10 30 60 90 99 MARGEM de PL sobre (VI + VA) por fora 140,00% 140,00% 140,00% 150,00% 140,00% 140,00% AJUSTES 0 0 0 0 0 2,4 OBSERVAÇÕES Aqui só há ajustes quando o Valor agregado é ínfimo, fazendo com que a fórmula não funcione para os demais casos! Fl. 846DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 847 29 TABELA 2 – “TESE DO FISCO – PRIMEIRO PASSO INTERPRETAÇÃO DA LEI COM VALOR AGREGADO, MAS FORA DA MARGEM DE LUCRO – SEM PROPORCIONALIZAÇÃO DOS CUSTOS FÓRMULA: PP= PLV – 60%PLV – VA Variáveis Simula 1 Simula 2 Simula 3 Simula 4 Simula 5 Simula 6 PP 3 6 26 60 86 95 PL 240 240 240 250 240 240 lucro 140 140 140 150 140 140 VA 99 90 70 40 10 1 VI 1 10 30 60 90 99 MARGEM de PL sobre (VI + VA) por fora 140,00% 140,00% 140,00% 150,00% 140,00% 140,00% AJUSTES – IN 243 – SEM proporcionalização 4,00 4,00 4,00 0,00 4,00 4,00 OBSERVAÇÕES *Margem bruta maior de 60%(por dentro) ou 150% por fora não tem ajustes! Fl. 847DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 848 30 TABELA 3 – “TESE DO FISCO – ÚLTIMO PASSO INTERPRETAÇÃO DA LEI COM VALOR AGREGADO, MAS FORA DA MARGEM DE LUCRO – C O M PROPORCIONALIZAÇÃO DOS CUSTOS FÓRMULA: PPn=%nPL –60%(%nPL) Variáveis Simula 1 Simula 2 Simula 3 Simula 4 Simula 5 Simula 6 PP 0,96 9,60 13,20 60,00 86,40 95,04 PL 240 240 110 250 240 240 lucro 140 140 140 150 140 140 VA 99 90 70 40 10 1 VI 1 10 30 60 90 99 Proporção do VI sobre Custo total (VI+VA) %=> 1,00% 10,00% 30,00% 60,00% 90,00% 99,00% MARGEM de PL sobre (PBI + VA) Por fora 140,00% 140,00% 10,00% 150,00% 140,00% 140,00% AJUSTES – IN 243 – COM proporcionalização 0,04 0,40 16,80 0,00 3,60 3,96 OBSERVAÇÕES Valor agregado não afeta ajustes, a não ser que a margem bruta ultrapasse 60% (por dentro) ou 150% (por fora). Observar que não há ajustes aqui no ponto em que a proporcionalização do VI (Valor Importado) sobre os custos totais iguala a 60% (por dentro) e em que a Margem Bruta também alcança 150% (por fora) e 60% (por dentro), demonstrando a coerência da formulação. A partir das simulações acima, fica patente a conclusão peremptória de que a ponderação, quando isolada (eu disse quando isolada!) não produz ajustes desfavoráveis ao contribuinte, recaindo em falácia todos os argumentos em contrário. O que gera ajustes mais desfavoráveis ao contribuinte se comparado com a IN 32/2001 é apenas a questão de o Valor Agregado compor ou não a margem bruta, questão essa que não está clara na literalidade da Lei e que só pode ser deslindada a partir da utilização de um vasto conjunto de métodos interpretativos. Fl. 848DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 849 31 Observar como esse erro é reiteradamente difundido inclusive por doutrinadores de renome. Higuchi, citado no Recurso, assim critica a IN 243/2002: O art. 12 da IN 243/2002 não consignou nos cálculos a totalidade do preço líquido de venda e nem a totalidade do valor agregado no País como determina a lei. A instrução, sem base legal, apurou o percentual de participação dos bens importados na formação do custo total do bem produzido e aplicou esse percentual no preço líquido de venda e no valor agregado no País. 10 Em primeiro lugar, como já se disse a Lei não precisa consignar lei lógica básica para trazer razoabilidade e evitar absurdos, como seria o caso de não se aplicar a ponderação e, por último, como já demonstrado, a ponderação não aumenta os ajustes, pelo contrário, diminui. A questão é outra, o que causa o efeito de aumento dos ajustes é a consideração do Valor Agregado no seio da margem bruta de lucro ou fora dela. E isso, como já se viu, não está literalmente claro na Lei. Nesse passo, cai por terra também o argumento muito utilizado de que a tentativa do executivo de emplacar, mas sem sucesso, a Medida Provisória nº 478, de 29 de dezembro de 2009, restou configurada que a IN 2432001 que teria a mesma redação dessa Medida Provisória, tenha extrapolado a Lei nº 9.430/96. Isso porque em sua redação saltaria aos olhos que a referida Lei teria abarcado em seus dispositivos a variável “participação dos bens, direitos ou serviços importados no preço de venda do bem, direito ou serviço vendido”, ou seja, a ponderação. Mas, ora, essa variável quando isolada (eu disse quando isolada) não implica em fazer com que os ajustes aumentem desfavoravelmente aos contribuintes, pelo contrário, os ajustes diminuem, conforme já foi sobejamente demonstrado nas tabelas acima. Outro autor de renome, O Dr. Eurico M D. Di Santi escreveu um artigo muito erudito a respeito da questão, disponível na internet: “Preços de transferência: Fraude à lei e abuso de poder na pretensa regulamentação das Leis 9.430 e 9.959 pela IN 243” 11. O seu mérito é que não ataca em hipótese alguma a ponderação. Vai direto ao ponto nevrálgico da discussão: o papel desempenhado pelo Valor Agregado dentro da fórmula do preço de transferência. Nesse ponto, ele ataca ferrenhamente a desconsideração do Valor Agregado tal qual posta na IN 2432002.Utilizase de argumento já tratado alhures, qual seja, do efeito indutor provocado pela sistemática da legalidade anterior (IN 322001). Ou seja, o efeito extrafiscal da IN 32 foi “incrementar o valor agregado dos produtos finais sujeitos vendidos no País. (...) Ou seja, o método PRL 60 estimulava os contribuintes a agregar tangíveis e intangíveis ao bem importado, atendendo à lógica da Lei 9.959 e da IN 32.” O mérito do seu argumento é indicar um efeito indutor que embora se argumente, como o fiz alhures, que não tenha sido previsto pelo Legislador, é bem provável que de fato tenha acontecido no mundo empírico. O problema é minimizado na medida em que a eficácia e legalidade da IN 32 é garantida pelo Fisco no período em que norteou esse comportamento. Entretanto, tal argumento extrajurídico não é suficiente para se permanecer 10 Imposto de renda das empresas. Interpretação e prática. 36ª ed. São Paulo:IR Publicações, 2011, p.158. 11 Disponível em http://www.fiscosoft.com.br/a/5jrd/precosdetransferenciafraudealeieabusodepoderna pretensaregulamentacaodasleis9430e9959pelain243euricomarcosdinizdesanti. Acessado em 04 de junho de 2012. Fl. 849DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 850 32 com uma interpretação que sustenta a referida fórmula, como já demonstrado, que chega a resultados absurdos e, em determinado ponto, deixa inclusive de funcionar e produzir o seu efeito e finalidade maior, qual seja, evitar a manipulação de preços entre empresas interrelacionadas e evitar a transferência de lucros entre os respectivos países. Outro ponto atacado pelo Dr. Eurico de Santi diz respeito à tentativa de destrinchar a fórmula da IN 243/2002 provocando o que ele chama de “Adultério” na medida em que “distorce o sentido e a intenção originária da Lei 9.959 e da IN 32”: A IN 243 muda completamente a orientação que havia sido dada pela IN 32, mediante a alteração do cálculo do PRL60: (i) a Lei 9.959 e a IN 32 consideravam o valor agregado como pressuposto para aplicação do PRL 60 e, obviamente, o incluíam como variável na forma de cálculo desse método; (ii) a IN 243 inovou ao desconsiderar o valor agregado como variável no cálculo do PRL60, neutralizando o, e dando outra interpretação à palavra "bem". A IN 243, embora assuma o pressuposto da agregação de valor como diferencial para aplicação do PRL60 (hipótese), desconsiderao na solução normativa (consequência), pretendendo considerar a palavra "bem" não na acepção de produto final (após a agregação de valor no País, sentido prescrito pela Lei 9.959 pela IN 32), mas como o próprio insumo importado. Ou seja, a IN 243 passou a entender a palavra "bem" na acepção de insumo, completamente dissociada do "valor agregado no País".12 O argumento é inteligente, bem elaborado e merece ser respondido. Em primeiro lugar, notase uma certa precipitação em afirmar de plano que a intenção da Lei 9.9959 é tal e qual, colocando isso já como uma premissa verdadeira, quando na verdade é isso que se tenta provar. É a chamada petição de princípio. Em segundo lugar, observase em uma leitura atenta de todo o artigo que o autor intencionalmente não enfrenta a questão em seu ponto de partida inicial: a interpretação gramática e semântica. E por que penso que não o faz? Porque ficaria cristalino que a atribuição de estratagemas ardilosos ao conteúdo da IN 243, segundo ele, intencionalmente perpetrados pelo Fisco, não vingaria tão facilmente. O artigo tenta passar a ideia da existência de um plano conspiratório, ardiloso e maquiavélico plantado no seio da IN 243/2002 quando manipula a variável valor agregado. Ora, a variável “Valor agregado” está na literalidade da Lei 9.959, isso não se discute. O que se discute é sua posição matemática dentro da fórmula. A literalidade da Lei dá margem as duas interpretações, logo onde está o ardil da Receita Federal, que apenas se utiliza da opção mais racional e também prevista na literalidade da Lei? O que se tem que provar e o debate deve se instalar é em torno de qual das duas é a mais racional matematicamente! E isso o renomado autor não o fez. Ele em momento algum defende ou tenta explicar a racionalidade da sua hipótese, centrando forças apenas na tentativa de mostrar que a IN 2432002 “muda completamente a orientação que havia sido dada pela IN 32”, mas isso não se discute. O que se discute é qual a “legalidade” correta, afinal se é dado à Administração revogar ou anular os seus próprios atos, impingida que está do Interesse Público, por que não poderia mudar sua interpretação da Lei, resguardando os atos colhidos pelo entendimento anterior, quando ela afere cristalinamente que cometera um erro na interpretação anterior? O renomado autor ainda sob esse mesmo aspecto tenta demonstrar a obscuridade da fórmula, na forma de “artimanha”, qual seja, “manter o Valor Agregado como critério normativo relevante da hipótese (critério normativo), mas desconsiderálo como critério quantitativo relevante na solução normativa (consequência)”: 12 Ibdem Fl. 850DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 851 33 A artimanha da "Legalidade" 5 está em manter o valor agregado como critério normativo relevante da hipótese (critério normativo), mas desconsiderálo como critério quantitativo relevante na solução normativa (consequência): com isso, aparentemente, a IN 243 alinhase à Lei 9.430 com a redação dada pela Lei 9.959, pois mantém o valor agregado como critério relevante da hipótese normativa, contudo, o exclui como critério quantitativo relevante na solução normativa. Em cotejo com o ADULTÉRIO PARTE I, perpetrado pela IN 38, a diferença específica entre a IN 38 (julgada ilegal pelo CARF) e a IN 243 (ainda sob julgamento no CARF) é que no ADULTÉRIO PARTE I, a autoridade administrativa criou expressamente nova hipótese normativa introduzindo uma distinção legal (Caso 1 x Caso 2) que não havia na Lei 9.430; agora, no ADULTÉRIO PARTE II, de modo mais dissimulado, a IN 243 mantém a mesma hipótese normativa da Lei 9.430 (após a alteração pela Lei 9.959), confirma a distinção entre Caso 1 e Caso 2, mas elimina os efeitos jurídicos da dessa distinção legal quando não considera o valor agregado na solução normativa. E o faz mediante a obscura alteração da forma de cálculo do preço parâmetro. Ou seja, em termos bem objetivos: a IN 38 foi considerada ilegal porque criou nova hipótese normativa; a IN 243 é ilegal porque parte de uma distinção legal imposta pela Lei 9.959 (mantendo o valor agregado como hipótese para aplicação do PRL60), mas elimina os efeitos dessa distinção, mediante alteração da solução normativa específica para o Caso 1 (desconsiderando o valor agregado na fórmula). Tratase de exemplo clássico de fraude à lei: a única justificativa para o regime do PRL 60 instaurado pela Lei 9.959 é a existência de valor agregado tanto no critério normativo como no critério quantitativo da solução normativa que define o cálculo do preço parâmetro. A IN 243 manteve o critério normativo do valor agregado (na hipótese) sem considerálo na consequência normativa, justamente e não por acaso, na parte mais obscura e nãotransparente desse dispositivo normativo: a fórmula! 13 Esse ponto de sua inteligente argumentação também merece ser respondido. Aqui a inteligência do raciocínio do ilustre doutrinador reside em primeiro lugar reconhecer que a IN 2432002 não inova em relação à Lei 9.959 no que tange a utilização da variável Valor Agregado. Afinal isso foi a inovação justamente prevista na Lei 9.959 quando criou o PRL 60 e como já visto no tópico ligado à interpretação sistemática, uma possibilidade aventada pela OCDE. O autor chama essa previsão de “critério normativo” ou “critério relevante da hipótese normativa”. Porém, aponta um suposto ardil: concomitantemente o desconsidera da consequência normativo em seu chamado “critério quantitativo”. O que de importante tem se a dizer é que de fato a variável “Valor Agregado” constante na Lei como “critério normativo” RELEVANTE foi preservada. E foi preservada da forma mais racional possível, que é expurgando essa variável do Preço Líquido de Revenda para daí encontrar uma base pura sobre a qual aplicar a margem bruta e fixa de 60%, isto é fazer jus a característica mais essencial do cálculo do preço de transferência, o chamado “isolamento”.O que o douto doutrinador chama de desconsiderar o seu efeito da consequência normativo, podemos simplificar tudo com um “sinal negativo” aposto à variável “Valor Agregado” (PP= PLV – 60% PLV VA). É a própria semântica da fórmula que está justamente em discussão em função da interpretação gramatical e de todas as outras formas de interpretações que possam indicar qual a semântica matemática mais adequada que irá dar racionalidade na fórmula. Não há ardil algum aqui, há apenas interpretações mais ou menos razoáveis. E como já se demonstrou sobejamente nesse voto, a desconsideração do VA em sua totalidade seria a fórmula mais racional, pois só ela produz o isolamento necessário para se chegar em uma adequado Preço Parâmetro. 13 Ibdem Fl. 851DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 852 34 Por fim, o ilustre autor traz novamente um outro substancial argumento que merece ser enfrentado: Ocorre que o sistema normativo inaugurado pela Lei 9.959 já ofereceu uma solução normativa LEGAL para os casos em que não se considera o valor agregado: o método PRL20. Excluir o valor agregado para calcular o preço parâmetro é LEGALMENTE possível, mas desde que seja aplicada a margem de lucro de 20%: ignorar o valor agregado ao bem importado e, ainda, aplicar a margem de lucro de 60% implica abuso de direito da autoridade que manipula o sentido das Leis 9.430 / 9.959 por meio de uma nova fórmula, ao mesmo tempo em que trai a intenção patente do legislador, que só justificou a margem diferenciada do PRL60 em razão de considerar o valor agregado. 14 Notase, mais uma vez, que nesse ponto o autor contentase em atacar a fórmula da IN 2432002, mas nunca defende a outra opção matemática. Aliás, defende apenas em um único ponto e já muito aqui discutido, a questão extrafiscal do efeito indutor provocado pela fórmula da IN 322001. Novamente se diga, que uma fórmula de preço de transferência não pode se escorar apenas em efeitos extrafiscais, deve ter um mínimo de racionalidade interna para ser adotada e que racionalidade é essa para se evitar a manipulação dos produtos importados não se esclarece. Outrossim, o que se verifica é que a Recorrente nesse ponto ataca na verdade o percentual previsto de 60% previsto, esse sim, indubitavelmente, sem sombra de dúvidas, presente na Lei 9.959 e como tal qualquer falha do legislador em superdimensionálo refoge dessa instância julgadora e muito menos da IN 2432002. Esse ponto abre inclusive brecha para criticar a lógica da IN 32 e elogiar a lógica simples e direta da IN 2432002. É que esta última foi a única que preservou para todos os efeitos a Margem Bruta de Lucro prevista em Lei de 60%, trazendo mais previsibilidade e simplicidade para o importador, pois qualquer que seja o caso concreto essa é a margem bruta e fixa a ser aplicada sobre o valor importado mais o valor agregado para que não seja necessário se fazer ajustes. Explicando matematicamente, se fizermos um gráfico onde no eixo do “X” colocarmos a variável “Valor Agregado” – VA, variandoa paulatinamente e no eixo vertical do “Y” confrontála com a variável “Margem de Lucro” obteremos uma simples linha reta paralela ao eixo do “X” na altura de 60% por dentro ou 150% calculado por fora, indicando o limite a partir do qual não se terá nunca ajustes. Abaixo dessa reta (abaixo de 60% ou 150%) estariam todas as hipóteses onde os ajustes ocorreriam. Vêse aqui novamente o aspecto “beleza” e simplicidade presentes nessa fórmula. Se traçarmos o mesmo esquema gráfico para a fórmula da IN 322001, não obteremos essa mesma simplicidade, muito menos se preservaria o limite de 60% da margem de lucro como parâmetro de ajuste. Ela variaria de 60% até 0% de margem quando atingir um Valor de agregação de 60%. E a partir desse nível de agregação a fórmula provoca Margens negativas, ou seja, a fórmula para de funcionar. Então agora fica fácil de entender porque não se aprofunda nessa discussão, pois a fórmula produz resultados absurdos. Em primeiro lugar, não mantém a Margem de Lucro de 60% prevista em Lei e, por último, deixa de funcionar para nível de agregação maior de 60%, permitindo a partir desse nível a total manipulação de preços, diferente do objetivo maior do instituto do Preço de Transferência. Reitero o que o foi colocado pelo especialista em Direito Econômico Victor Polizelli: : 14 Ibdem Fl. 852DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 853 35 A aceitação da fórmula 60% sobre ( o valor integral do preço líquido de venda do produto menos o valor agregado no País) implicaria em se vencer um verdadeiro desafio interpretativo, pois cria um novo método de determinação de preço parâmetro distinto do método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL, cuja previsão legal determina que as margens de lucro sejam sempre sobre o produto ou parcela importada ou revendida. Mas, ainda uma última questão colocado pelo Doutor Eurico de Santi que merece nossa atenção. Segundo o renomado doutrinador: Excluir o valor agregado para calcular o preço parâmetro é LEGALMENTE possível, mas desde que seja aplicada a margem de lucro de 20%: ignorar o valor agregado ao bem importado e, ainda, aplicar a margem de lucro de 60% implica abuso de direito da autoridade que manipula o sentido das Leis 9.430 / 9.959 por meio de uma nova fórmula. 15 Conquanto já esclarecido que o referido percentual de 60%, adequado ou não, foi estabelecido explicitamente pelo legislador, cabe justificar o por quê de um aumento do seu patamar de 20% quando já se desconsidera o Valor Agregado. É como se houvesse uma anulação total do mesmo e como tal a fórmula deveria se comportar como se PRL 20 o fosse. Porém, esquecem os defensores dessa tese aquilo que foi muito bem sublinhado pelo Doutorando pela USP, Ricardo Marozzi Gregório, ao analisar o PRL 60 pela ótica da IN 2432002.: Portanto, a margem de lucro – ML – não precisará mais suportar o custo do valor agregado no País. Entretanto, continuará suportando os custos, despesas e remuneração da atividade comercial, bem como a remuneração da própria atividade de agregação de valor no País. E esta seria uma possível razão de a margem percentual de 60% sobre o preço de revenda líquido ser superior aos 20% sobre o preço de revenda menos os descontos incondicionais concedidos previstos para a hipótese em que não há produção local. (destaquei). 16 É que esquecem que com a agregação de valor há justificativa lógica para uma margem diferenciada porque existem outros componentes envolvidos que não se restringem apenas ao próprio valor agregado. Se retiramos determinados custos na forma de valor agregado não estou necessariamente anulando a lucratividade sobre essa agregação. É claro que o ideal seria o estabelecimento de mais de uma margem de lucro para se evitar os extremos, mas tal expediente não foi previsto por Lei. Nesse ponto, entre os próprios doutrinadores há uma certa discrepância na linha de raciocínio. No caso, o Dr. Marcelo Natale, economista e advogado, que participou de um debate com o Dr. Natanael Martins (exConselheiro do CARF), com o Dr. Shoueri, entre outros, se vê uma suposta inadequação entre o PRL 60 e a ponderação. Dr. Marcelo Natale (economista e advogado): Ora, no PRL 20, eu compro e revendo sem fazer uma alteração física naquele produto. No PRL 60 eu teria uma justificativa lógica para uma margem diferenciada porque eu tenho outros componentes, i.e. o valor agregado que foi o tópico anterior. E ele é o cerne dessa discussão. Não é possível discutir o PRL 60 sem discutir o valor agregado. Aí nós vamos para a IN 243 e procuramos com microscópio onde 15 Ibdem 16 Preços de transferência:uma avaliação da sistemática do método PRL. Tributos e preços de transferência. 3º vol. Coordenador Luís Eduardo Schoueri. São Paulo: Dialética, 2009, p.189) Fl. 853DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 854 36 está o valor agregado e simplesmente não o encontramos, ele é ignorado solenemente no texto da IN 243, porque foi feito uma proporcionalização linear do cálculo. Reconheço que ele guarda certa lógica, porém ele nada mais é do que o método PRL 20 proporcionalizado. Ora, ele ratifica que deve ser feito uma proporcionalização, portanto, 20% me parece totalmente cabível também nesses casos. E com isso, se por um lado, na introdução do PRL 60, uma margem maior seria justificável, entre aspas, porque eu introduzi o valor agregado, se eu tiro o valor agregado eu tiro a base também que sustenta os 60% ou qualquer uma margem diferenciada daquela dos 20%. Dr. Natanael Martins: Quer dizer, como um bom advogado você estaria a dizer que o PRL a 60 estaria a justificar a aplicabilidade do PRL a 20 com proporção, mas o PRL 60 se desmonta porque a IN tirou da base dele o valor agregado. Dr. Marcelo Natale: Brilhante conclusão. Nesse ponto, ouso discordar dos nobres doutrinadores. A proporcionalização em princípio não deve afetar a margem bruta de lucro a ser aplicado sobre os bens importados, uma vez que ela nada mais faz do que melhor distribuir o valor agregado total para cada um dos seus respectivos componentes importados, quando esse for o caso, isto é, quando o importador não opera com um único bem, produto ou serviço importado.Por outras palavras, a proporcionalização é um método de procura da verdade real, no caso de haver produção local com importação de mais de um bem, no que tange a fazer o isolamento do componente importado de tudo quanto mais aparece no produto final. É, portanto, uma metodologia neutra não afetando o quantum de percentual de margem bruta a ser aplicado. Alegado problema do “efeito circular”na formulação expressa da IN 243/2002 Alegase como falha da IN 243/2002 o fato de que cada vez que o contribuinte busca se aproximar do “preço parâmetro” obtido pela fórmula, ou seja, passando a adquirir o bem pelo valor equivalente ao “preço parâmetro”PP, poderá ficar sujeito a novo ajuste a título de Preço de Transferência. É o seu efeito circular. Tentase provar isso através de tabelas contendo exemplos hipotéticos. O que se observa é que de fato a fórmula se comporta não de forma errática, mas de forma previsível. Só haverá ajustes no momento em que o PL dividido pelo somatório do Valor Importado mais o Valor Agregado (PL/(VI+VA)), for inferior a 60%, se calculado por dentro ou 150%, se calculado por fora. Exatamente o que a fórmula se propõe a fazer, manter uma margem bruta de 60%, como está previsto na Lei. É claro que o exemplo dado pelo contribuinte não é só hipotético, mas irreal, pois as variáveis são interligadas, não se podendo conceber que a variação aleatória do VI não reflita também em um aumento correlacionado do Valor Agregado. No caso, as simulações sempre mantém constante o Valor Agregado. Outrossim, ninguém disse que a referida fórmula da IN 243/2002 é a fórmula perfeita, mas é a mais adequada se comparada com a formulação da IN 32/2011. Fl. 854DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 855 37 Decisões Judiciais Na seara judicial observase que o caminho trilhado foi o mesmo do assumido neste voto. Temse notícias que em 10/02/2011 (DJF3 CJ1 de 18/02/2011, p.596), a justiça passou a ter um entendimento convergente ao do Fisco, quando do julgamento da AMS 200361000173814. Por unanimidade, trilhouse caminho oposto, pela legalidade da IN 243/2002, tendo assim sido ementado: APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO – PRL. LEI Nº 9.430/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 243/02. APLICABILIDADE. 1. Caso em que a impetrante pretende apurar o Método de Preço de Revenda menos Lucro – PRL, estabelecido na Lei nº 9.430/96, sem se submeter às disposições da IN/SRF nº 243/02. 2. Em que pese sejam menos vantajosos para a impetrante, os critérios da Instrução Normativa nº 243/02 para a aplicação do método do Preço de Revenda Menos Lucro (PRL) não subvertem os paradigmas do art.18 da Lei nº 9.430/1996. 3. Ao considerar o percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido, a IN 243/2002 nada mais está fazendo do que levar em conta o efetivo custo daqueles bens, serviços e direitos na produção do bem, que justificariam a dedução para fins de recolhimento do IRPJ e da CSLL. 4. Apelação improvida. (destaquei) No mesmo sentido, pode ser mencionada a recente decisão proferida no mês de março pela Segunda Turma Ordinária da Primeira Seção de Julgamento deste Conselho (processo nº 10283.721285/200814), Considerações finais Como se percebe, apesar de ser controverso a conclusão aqui chegada de que mesmo a partir de uma análise gramatical/semântica a interpretação da Lei feita pela IN 243 20002 seja a mais favorável, por todos os outros ângulos que se analisa a questão (interpretação lógica, finalística e sistemática) de fato chegase à conclusão peremptória de que a IN 243/2002 é legal. Outrossim, a roupagem da fórmula adotada pela IN 243/2002 (PPn=%nPL – 60%x(%nPL)) se modifica, sim, em relação à sua formulação genérica prevista na literalidade da Lei (PP= PLV – 60%PLV – VA) ao incorporar a técnica da ponderação, contudo esse aspecto específico visto de forma isolada, ao contrário do apregoado diminui os ajustes se comparado com a sua formulação genérica, além do que essa nova “roupagem” também não macula sua essência que é provocar o surgimento do “preço parâmetro de comparação” a partir do expurgo do Valor Agregado e assim, manter a técnica do máximo isolamento para cada um dos insumos importados que fazem parte do produto final a ser revendido, o que não acontece na fórmula da IN 32/2001 (((PP= PLV – 60%(PLV – VA ) nem na formulação genérica encontrada da literalidade Lei ((PP= PLV – 60%PLV – VA)). Encerrado o processo interpretativo feito de forma exaustiva, não mais se pode alegar que a IN 243/2002 é ilegal pelo simples fato de divergir da IN 32/2001. A IN Fl. 855DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 856 38 32/2001 é apenas uma versão mal sucedida da interpretação da Lei e como foi consolidada em um determinado lapso de tempo, será acatada para os fatos geradores abarcados pelo referido período em que ela estava em vigor. Tratados para evitar a bitributação A Recorrente alega que o auto de infração contemplando os referidos ajustes contraria os acordos internacionais porque não ficou comprovado que ela efetuou transações fora dos parâmetros “arm 's length”, nem que havia erro de cálculo no preço de transferência praticado. A tese não merece prosperar. Conforme visto ao norte, a fiscalização comprovou, sim, que o preço de aquisição de alguns insumos importados mormente aqueles submetidos ao método PRL 60 utilizados na produção, excedem o preço parâmetro. Embora a Recorrente não seja específica ao apontar os acordos em questão e suas respectivas cláusulas. A praxe observada é que os referidos acordos não definem, nem limitam as metodologias de controle dos preços favorecidos, usualmente, denominadas "preço de transferência". Apenas, possibilita a tributação dos preços favorecidos nas operações comerciais entre os Estados Contratantes. No Estado brasileiro, o controle e a tributação dos preços de transferência se encontram delineados nos artigos 18 a 24 da Lei nº 9.430/96. Tais dispositivos estabelecem hipóteses fáticas em que ocorrendo, presumemse evasão de divisas através de operações com condições especiais entre vinculadas. Com efeito, os artigos 18 a 24 da Lei n° 9.430/96 não colidem com o referido Acordo. Nesse sentido a Solução de Consulta COSIT n° 6, de 23/11/2001, cuja ementa reproduzse abaixo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ementa: Aplicamse os ajustes previstos na Lei n° 9.430, de 27 dezembro de 1996, em matéria de Preços de Transferência. Não há contradição entre o artigo 9 do Modelo de Convenção Fiscal sobre o Rendimento e o Patrimônio da OCDE que trata dos preços de transferência nas convenções , e os artigos 18 a 24 da Lei nº 9.430, de 1996, que inserem e tributam os preços de transferência na legislação fiscal brasileira. Tampouco há contradição entre as disposições da Lei n 9.430, de 1996 e os acordos de bitributação firmados pelo Brasil em matéria relativa ao princípio arm's length. Aplicase o método Preço de Revenda menos Lucro — PRI„ com margem de lucro de sessenta por cento, ao processo de produção de outro bem, para fatos geradores ocorridos a partir de I de janeiro de 2000. Afasto, portanto, tal argumento. Fl. 856DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 857 39 Multa confiscatória (75%) Sobre a argüição de ser confiscatória a multa aplicada, cumpre gizar que ao julgador administrativo, que se encontra totalmente vinculado aos ditames legais, mormente quando do exercício do controle de legalidade do lançamento tributário (art. 142 do Código Tributário Nacional CTN), não é dado apreciar questões – como a de que a multa fiscal seria confiscatória – que importem a negação de vigência e eficácia do preceito legal válido e vigente. Tal prática encontra óbice, inclusive na Súmula nº 2 deste CARF: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (PORTARIA MF N.° 383 – DOU de 14/07/2010). Transferência de Responsabilidade A recorrente pede sua exclusão do pólo passivo do lançamento e a inclusão da sua sucedida na relação processual, mediante transferência de responsabilidade, na forma do art. 133,1, do CTN. No caso a transferência de responsabilidade se deu através de um contrato de trespasse. Em face das explicações escorreitas da decisão de piso e de não ter sido infirmadas pela Recorrente, adoto como razões de decidir os fundamentos utilizados pela decisão de piso, abaixo reproduzidos: A recorrente solicita sua exclusão do pólo passivo do lançamento e a inclusão da sua sucedida na relação processual, mediante transferência de responsabilidade, na forma do art. 133,1, do CTN. Para tanto aduz que por meio de um contrato de trespasse, aprovado num plano de recuperação judicial, transferiu os ativos operacionais da recorrente para a LP DISPLAY AMAZÔNIA LTDA. Operação que foi registrada na Junta Comercial do Estado do Amazonas em 19/08/2008 e publicada Diário Oficial do Amazonas em 22/08/2008. Ocorre que, nos casos exigência de créditos tributários constituídos de ofício, a função do contencioso administrativo de 1a instância é efetuar o controle de legalidade do lançamento objeto do Processo Administrativo Fiscal. Desse modo, os fatos supervenientes à constituição do crédito tributário, que não tem o condão de produzir efeitos no lançamento, não se submetem à apreciação autoridade julgadora. No caso vertente, a transferência do ativo da sucedida somente passou a produzir efeitos a partir de 19/08/2008, data de registro da operação sucessória, ou seja, após a constituição do crédito tributário. Logo, a sucessão aventada não tem o condão de modificar o lançamento, mas tão somente, se for o caso, de modificar o sujeito da relação processual na exigência do crédito constituído. Devida a impossibilidade administrativa de atender o pleito por meio deste julgamento, deixo de dar provimento ao pedido, Na oportunidade, rejeito o argumento de ilegitimidade do sujeito passivo, pelos mesmos motivos. Portanto, afasto o referido pleito e rejeito o argumento de ilegitimidade do sujeito passivo, uma vez que o trespasse se deu após a constituição do crédito tributário. Fl. 857DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 858 40 LANÇAMENTO CSLL Por fim, o que foi decidido com relação ao lançamento do IRPJ estendese ao lançamento reflexo de CSLL, no que couber, em virtude da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Por todo o exposto, VOTO no sentido de DAR provimento ao RECURSO DE OFÍCIO, e quanto ao RECURSO VOLUNTÁRIO, rejeito as preliminares de nulidade e, no mérito, NEGO provimento. (assinado digitalmente) Antonio Bezerra Neto Relator Fl. 858DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 859 41 Declaração de Voto Conselheiro Sergio Luiz Bezerra Presta Na sessão do mês de julho de 2012, o ilustre Conselheiro Relator Antonio Bezerra Neto apresentou as razões do seu voto no sentido de dar provimento ao recurso de ofício e quanto ao recurso voluntário, rejeitar as preliminares de nulidade e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. Apresento aqui minhas homenagens ao Conselheiro Relator Antonio Bezerra Neto e acompanho o relator na decisão referente ao recurso de ofício e das preliminares de nulidade. Porém, no mérito, peço vênia para discordar e trazer a colação voto da lavra do ilustre Conselheiro mineiro Alexandre Antonio Alkmim Teixeira, no julgamento do processo nº. 16643.000098/200916, que teve a decisão por voto de qualidade, “verbis”: “Trata, a questão em voga, das normas antielisivas instituídas pela lei nº 9.430/96, que tem por objetivo restringir os efeitos tributários da utilização dos preços de transferência como instrumento de economia fiscal. Segundo o International Tax Glossary, “o preço de transferência se refere à determinação dos preços a serem cobrados entre empresas relacionadas particularmente pelas companhias multinacionais – relativamente a transações entre vários membros de seus grupo (venda de bens, prestação de serviços, transferência e uso de tecnologias e patentes, mútuos etc.). Como tais preços não são livremente negociados, os mesmos podem ser eventualmente diferentes daqueles determinados pelas forças livres de mercado, nas negociações entre partes não relacionadas”. Temosse, assim, que o controle do preço de transferência objetiva evitar manipulação de preços, aplacando a elisão fiscal. Em uma definição mais ampla, o termo preço de transferência é frequentemente utilizado, principalmente no direito norte americano17, para se referir a fixação de preços em todos os tipos de transações entre partes relacionadas. De uma maneira geral o preço de transferência é conceituado como o preço utilizado em operações comerciais envolvendo partes relacionadas, localizadas em jurisdições tributárias diversas, responsáveis pela percepção de renda. A manipulação dos preços de transferência pode ser benéfica às empresas relacionadas na medida em que permite a alocação da renda ou do patrimônio de maneira mais favorável ao contribuinte, de acordo com as pressões tributárias ou necessidades do mercado. Assim é que uma empresa produtora localizada em um pais com alta pressão tributária poderá exportar seus produtos por baixo preço para uma empresa coligada localizada em país de baixa pressão tributária, transferindolhe renda e evitando o imposto respectivo no país de origem. Ou então, pode uma empresa localizada em um país com baixa tributação prestar serviço superfaturado a uma empresa coligada localizada em um país com alta pressão tributária, causando uma ficção de perda de rendimento nesta empresa e, por conseguinte, ocasionando a redução da base imponível do imposto reditório, enquanto a renda é transferida para a empresa localizada naquele primeiro país, que possui tributação mais favorável. 17 “The term “transfer pricing” is often used to refer to the setting of the prices on all types of transactions betwee related parties.” GUSTAFSON, Charles H., PERONI, Robert J., PUGH, Richard Crawford. Taxation of International Transactions. Materials, text and problems. West Publishing: St. Paul, 1.997. p. 499. Fl. 859DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 860 42 Ressaltese que tal mecanismo não é tido como um ilícito praticado pelas empresas. Assim, o direito que se relaciona ao preço de transferência, de um modo geral, não busca traçar métodos de coação sobre as empresas que o praticam. Muito ao contrário, o direito busca conferir ao país prejudicado na alocação da renda a capacidade de determinar (authority to adjust) qual teria sido o preço utilizado na transação em mercado livre (arm’s lenth), obedecendo a determinados parâmetros préfixados pela lei, e cobrar os tributos sobre renda a eles correspondente. Preocupados com os efeitos que a livre fixação dos preços de transferência pode ter no poder de tributar dos estados de economia de mercado e de tributação normal (não considerados países com regime de tributação favorecida), a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE18 desenvolveu um modelo de legislação a ser adotado pelos estados membros e não membros, como forma de restringir os efeitos tributários dessa prática. Nesse modelo de legislação, a OCDE apresentou métodos que podem ser aplicados pelos Estados para restringir os efeitos dos planejamentos tributários realizados pelos contribuintes. A legislação brasileira passou a tratar da matéria a partir da edição da lei nº 9.430/96, não tendo adotado integralmente as orientações da OCDE quanto à fixação dos métodos. No entanto, dentre os métodos adotados pelo Brasil, encontra se o Resale Price Method, constante do modelo OCDE. Por meio do método de revenda, no direito brasileiro chamado de Preço de Revenda Menos Lucro PRL, o preço parâmetro deve ser encontrado pela decomposição do preço de venda do bem pelo importado. Tomase o valor final de venda e promovese a sua decomposição, nos termos em que previsto na lei, até se aplicar a margem de lucro prevista na lei. Segundo a redação original da lei nº 9.430/96, o PRL regiase da seguinte forma: ‘Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda;(sem grifos no original). Nesses termos, a lei, na fixação do método PRL, não fazia diferenciação entre os bens importados aplicados à produção, daqueles bens importados que eram revendidos diretamente no mercado interno. Diante dessa situação, a Secretaria da Receita Federal entendeu que seria inviável aplicarse o método PRL quando o bem integrasse ou fosse consumido no processo produtivo no Brasil. Isso porque, sem a dedução dos demais valores que integraram a produção do bem, ao lado do produto importado, não se teria um valor razoável para funcionar como parâmetro de preço de livre mercado. Com isso, a então SRF editou a instrução normativa nº 38/1997, que proibia a utilização 18 OECD – ORGANIZATION FOR ECONOMIC COOPERATION AND DEVELOPMENT. OECD Transfer Price Guidelines for Multinational Enterprises and Tax Administrations. OECD, Paris, 2010. 371 pp. Fl. 860DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 861 43 do PRL quando o produto importado tivesse sido integrado em processo produtivo no Brasil. A questão suscitou inúmeros debates, tendo prevalecido entendimento de que a instrução normativa não poderia restringir a priori a utilização do método PRL. Esse foi o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais do então Conselho de Contribuintes, de relatoria do Conselheiro José Clóvis Alves, in verbis: PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA — Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos métodos descritos no artigo 18 da Lei n°9.430/96. Não pode haver restrição a utilização de qualquer um dos métodos pois tal imposição vai de encontro à previsão contida no caput do artigo 18 ‘POR UM DOS SEGUINTES MÉTODOS’ e à alternativa dada no § 40, do mesmo artigo.(processo nº 16327.004322/200255. Diante dessa situação, foi editada a lei nº 9.959, de 2000, que alterou o art. 18 da lei nº 9.430, passando a prever duas hipóteses de aplicação do PRL, de acordo com a destinação do bem importado: quando se tratar de mera revenda do bem importado, aplicase margem de lucro de 20% e quando o bem importado for utilizado como insumo na produção do bem final, aplicase margem de lucro de 60%. O cerne da divergência ora em julgamento diz respeito à aplicação do método PRL 60. Vejase o art. 18 da lei nº 9.430/96, in litteris: ‘Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; A divergência em julgamento referese ao disposto na IN 243/2002, que assim definiu a aplicação do método PRL 60, a saber: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: I dos descontos incondicionais concedidos; II dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; III das comissões e corretagens pagas; IV de margem de lucro de: a) vinte por cento, na hipótese de revenda de bens, serviços ou direitos; b) sessenta por cento, na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. (...) § 10. O método de que trata a alínea "b" do inciso IV do caput será utilizado na hipótese de bens, serviços ou direitos importados aplicados à produção. Fl. 861DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 862 44 § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da "participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido", calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. A questão em apreço é saber se a metodologia de cálculo descrita no parágrafo 11 do art. 12 da IN nº 243/2006 se adequa ao disposto no art. 18 da lei nº 9.430/96. Segundo a contribuinte, a sistemática adotada pela IN nº 243/2006 é mais onerosa que aquela adotada pelo lei nº 9.430/96, posto que na lei não estaria prevista a adoção de critério proporcional, ao passo que na instrução normativa, adotouse um critério de proporcionalidade não previsto na lei. A Recorrente aponta as divergências entre os dois instrumentos normativos da seguinte forma: (i) Cálculo da margem de lucro: A divergência decorre, em parte, porque a Lei 9.959/00, ao prescrever a fórmula de cálculo da margem de lucro, determina que o percentual de 60% incida sobre o valor integral do preço liquido de venda do produto, diminuído do valor agregado no pais. Já a IN 243/02, para o calculo da mesma margem de lucro, determina que o percentual de 60% seja calculado apenas sobre a parcela do preço liquido de venda do produto referente participação dos bens importados, atingindo um resultado invariavelmente menor. (ii) Cálculo do preço parâmetro: A expressão preçoparâmetro é utilizada pela legislação dos preços de transferência para denominar o valor obtido através do calculo de um dos métodos prescritos e com o qual se devera comparar o preço efetivamente praticado entre as partes relacionadas. Enquanto na Lei 9.959/00 o preço é estabelecido tomandose por base a totalidade do preço liquido de venda, a IN 243/02 pretende que o limite seja estabelecido a partir, apenas, do percentual da parcela dos insumos importados no preço liquido de venda, o que claramente acaba por restringir o resultado almejado pelo legislador. A exemplificação da diferença entre as duas sistemáticas de cálculo foi assim apresentada pela Recorrente: Fl. 862DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 863 45 Em sede de memorial, a Fazenda Nacional contrapõe os argumentos da Recorrente, e fundamenta que existe “falta de clareza na redação do texto legal, o que possibilita a construção de diferentes interpretações. A falta de clareza reside, especificamente, no art. 18, II, item 1, da Lei nº 9.430/96, que versa sobre o cálculo da margem de lucro de sessenta por cento” cuja interpretação pode albergar tanto a fórmula de cálculo adotada pela IN nº 32/2001 quanto pela IN nº 243/2002 Assim, segundo Fazenda Nacional, na leitura do art. 18 da lei nº 9.430/96, “a expressão “do valor agregado no País” não está em concordância com o termo “deduzidos” (deduzidos os valores... e do valor agregado no País)”. Isso porque, segunda a Fazenda Nacional, “valor agregado”, precedido da preposição + artigo “do”, não se pode referir à “deduzidos”. Com isso, “Assim, uma possível interpretação consiste em entender que houve um mero erro gramatical na redação legal, e que o legislador quis dizer “o valor agregado”. Nessa ótica, o valor agregado deve integrar apenas o cálculo da margem de lucro, não representando mais uma parcela a ser diminuída do preço de revenda do produto”. No entanto, ressalva que essa não seria a única interpretação possível do dispositivo: É possível, de outro lado, assumir que a aludida falta de concordância não traduz um simples erro gramatical, mas técnica redacional inapropriada, voltada a evitar a inclusão de mais uma alínea no inciso II do art. 18. Nessa linha de Fl. 863DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 864 46 raciocínio, a expressão “do valor agregado” se refere ao termo “diminuídos” (caput do inciso II), e não à palavra “deduzidos” (item 1 da alínea d), como identificado por Victor Polizelli19: Quanto à primeira investigação, já se mencionou que uma possível premissa para a interpretação da falta de clareza do texto introduzido no item “1” da nova alínea “d” do artigo 18, inciso II, da Lei nº 9.430/96, é a aceitação de que houve um erro gramatical na utilização da preposição “de” juntamente com o artigo “o” antes da expressão “valor agregado”. Pois bem, uma outra possível premissa é a que sustenta que não houve erro gramatical, mas técnica redacional inapropriada. Para melhor esclarecimento, vale a pena reproduzir a íntegra do novo texto do artigo 18, inciso II, depois da alteração introduzida pela Lei nº 9.959/00: [...] A técnica redacional inapropriada, identificada por Victor Polizelli, decorre da percepção de que a expressão “do valor agregado” não se refere à palavra “deduzidos”, presente no mesmo item “1” da alínea “d”, mas sim à palavra “diminuídos”, que consta no caput do próprio inciso II. Esta técnica seria justificada pela intenção de se evitar a inserção de uma alínea “e”, pois a exclusão do valor agregado só se aplicaria na hipótese de bens aplicados à produção. [...] Assumindo essa premissa para as hipóteses de produção local, uma outra fórmula de apuração do preço parâmetro pode ser identificada: PP = PL – 0,6 x PL – VA20 Nessa “segunda leitura” do texto legal, o valor agregado no País não é computado no cálculo da margem de lucro, consubstanciandose em mais uma parcela a ser subtraída do preço de revenda. Logo, o preço parâmetro seria obtido a partir da média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos (i) dos descontos incondicionais concedidos, (ii) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, (iii) das comissões e corretagens pagas, (iv) da margem de lucro de sessenta por cento, e (v) do valor agregado no País. A margem de lucro de sessenta por cento, por sua vez, seria calculada exclusivamente “sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores”. Superada a questão lingüística, aduz, a Fazenda Nacional, que a sistemática adotada pela IN nº 32/01 estava distorcida, pois o preço parâmetro variava de acordo com o nível de agregação de valor ocorrida no Brasil. Essa situação teria sido corrigida pela IN nº 243/2002, pois “mantém o preço parâmetro constante, independentemente do nível de agregação de valor ao bem importado”, atendendo aos propósitos específicos do controle de preços de transferência. Faz a demonstração dessa qualidade da IN nº 243/2002 por meio da seguinte tabela: Preço líquido de venda do bem produzido 21 Valor do bem importado Valor agregado no País Custo total do bem produzido Percentual de participação do bem importado no custo total do bem produzido Participação do bem importado no preço líquido de venda do bem produzido Preço parâmetro 162,50 60 5 65 92,31% 150 187,50 60 15 75 80% 150 212,50 60 25 85 70,59% 150 60 237,50 60 35 95 63,16% 150 60 262,50 60 45 105 57,14% 150 60 287,50 60 55 115 52,17% 150 60 312,50 60 65 125 48% 150 60 Contrapostos os argumentos, vejamos: 19 Apud GREGORIO, Ricardo Marozzi. Op. cit. p. 187188. 20 Onde: PL = Preço líquido de revenda do produto; VA = valor agregado no País; PP = preço parâmetro. 21 Observandose a margem bruta de lucro de 60% sobre o preço líquido de venda. Fl. 864DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 865 47 Ambas as partes concordam que a sistemática de apuração do método PRL 60 definidos na IN nº 32/2001 (defendida pela Contribuinte) e IN nº 243/2002, defendida pela Fazenda, conduzem a resultados diversos. Segundo se extrai do memorial da Fazenda Nacional, o método PRL 60, aceito pela Recorrente, pode ser descrito pela seguinte fórmula: Fórmula de cálculo do PRL 60, na interpretação da contribuinte (IN SRF nº 32/01): Preço Parâmetro = PLV – ML 60% (PLV – VA) Onde: PLV = preço líquido de revenda (preço de revenda após as deduções dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas); ML 60% = margem de lucro de sessenta por cento; VA = valor agregado no País. Por outro lado, o método PRL 60 extraído da sistemática de cálculo da IN nº 243/2002, pode ser descrito pela seguinte fórmula: Não existem, pois, dúvidas de que a sistemática defendida pela Recorrente diverge da sistemática sustentada pela Fazenda Nacional. Por outro lado, também não há duvidas de que a aplicação da IN SRF nº 32/2001 é mais favorável ao importador do que a IN SRF nº 243/2002. Vejase a explicação do prof. Luis Eduardo Schoueri, extraído do memorial da Fazenda Nacional, ao discorrer sobre a IN nº 32/2001, in verbis: [...] a fórmula acima é contestada por quem entende que a parcela do valor agregado, no lugar de compor o cálculo da margem de lucro, deveria ser deduzida em separado [...] Segundo tais autores, a fórmula acima seria criticável, já que, ao incluir o valor agregado na parcela da margem, surge um encontro de subtrações, o que implica uma adição. Em outras palavras, quanto maior o valor agregado, maior será o preço parâmetro e, portanto, menor a necessidade de ajuste fiscal. Essa observação leva a uma aparente incongruência na aplicação do método. Afinal, se a margem de lucro deve ser suficiente para cobrir todos os custos locais, então lógico seria que quanto maior fosse o volume de custos locais, tanto maior fosse a margem; aplicandose a fórmula acima, chegase ao contrário: a margem de lucro diminui conforme se agrega valor no País. No limite, caso se agregasse enorme valor no País (e, portanto, caso se necessitasse de uma margem de lucro suficiente para remunerar tal agregação de valor), a margem resultante da aplicação da fórmula seria negativa. O argumento é forte e coerente e, de fato, não parece passível de contestação a partir da lógica dos preços de transferência. Seria de se esperar que tivesse o legislador o cuidado de ampliar a margem de lucro conforme houvesse maior agregação de valor, nunca o contrário. Entretanto, não se pode deixar de lado o argumento de que a fórmula acima, conquanto se afaste da lógica dos preços de transferência, acaba por premiar as Preço parâmetro = PBI no PLV – ML 60% (PBI no PLV) ou Preço parâmetro = 40% (PBI no PLV) Onde: PBI no PLV = participação do bem, serviço ou direito importado no preço líquido de venda do bem produzido, obtida a partir da aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II do § 11 do art. 12 da IN SRF nº 243/02, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I do § 11 do art. 12; ML 60% = margem de lucro de sessenta por cento. Fl. 865DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 866 48 empresas que agregam valor, no País, aos bens importados. Aqueles que agregam muito valor não sofrem qualquer ajuste. 22 [...] Sem dúvida alguma, a sistemática da IN nº 32/2001 favorece as empresas no Brasil que importam insumos e agregam grande valor à mercadoria antes de vendêla; ao passo que a IN SRF nº 243/2002 não possibilita esse incentivo. No entanto, a princípio, tenho entendimento sedimentado de que não cabe à este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF fazer política fiscal ou política industrial, posto que o Governo Federal possui os instrumentos e mecanismos corretos e eficazes para tanto. A tributação sempre impacta no setor produtivo, em especial quando se trata da aplicação de uma norma antielisiva ligada à importação de insumos do exterior. Todavia, o fio condutor da decisão não pode se atrelar aos efeitos positivos ou negativos que a tributação tem na vida econômica das empresas, posto que referida medida não está afeta aos estritos princípios que informam a aplicação da legislação tributária, forte no princípio da legalidade. Demais disso, conforme bem assevera a Fazenda Nacional, a sistemática da IN nº 243/2002 veio justamente expurgar referido efeito da IN SRF nº 32/2001, considerada como uma distorção enquanto norma antielisiva de combate ao preço de transferência. A demonstração, feita pela Fazenda Nacional, da funcionalidade da IN SRF nº 243/2002, como norma antielisiva, tornando estável o preço parâmetro é inegável. Reproduzo, novamente, o seu quadro explicativo, in litteris: Preço líquido de venda do bem produzido23 Valor do bem importado Valor agregado no País Custo total do bem produzido Percentual de participação do bem importado no custo total do bem produzido Participação do bem importado no preço líquido de venda do bem produzido Preço parâmetro 162,50 60 5 65 92,31% 150 60 187,50 60 15 75 80% 150 60 212,50 60 25 85 70,59% 150 60 237,50 60 35 95 63,16% 150 60 262,50 60 45 105 57,14% 150 60 287,50 60 55 115 52,17% 150 60 312,50 60 65 125 48% 150 60 Nessa sistemática, não importa qual o montante ou percentual do valor agregado no país. Em qualquer caso, o preço parâmetro será o mesmo. Enquanto norma de controle ao preço de transferência, a sistemática de cálculo da IN SRF nº 243/2002 parece ser, de fato, mais eficiente do que a sistemática de cálculo da IN SRF nº 32/2001. No entanto, pelo mesmo fundamento supra apontado, entendo que a IN SRF nº 243/2002, apesar de sua inegável qualidade enquanto método perene de fixação do preço parâmetro, somente poderá ser aceito se estiver respaldada na lei – questão essa que será tratada adiante. Por fim, argumenta, a Fazenda Nacional, que a sistemática da IN nº 32/2001 também não está totalmente de acordo com a fórmula legalmente prevista na lei nº 9.430, posto que permitia a sua manipulação pelos contribuintes, ajustando o valor segundo a maior ou menor integração de bens, no Brasil, ao produto importado, sendo que “a inadequação entre a metodologia da IN SRF nº 32/01 e a finalidade da Lei nº 9.430/96 foi reconhecida pela Sexta Turma do TRF da 3ª Região, no julgamento do processo nº 2003.61.00.0061258/SP” Permissa venia, entendo que não está em julgamento, no presente processo, a legalidade da IN SRF nº 32/2001, mas apenas e tão somente a legalidade da IN SRF nº 243/2002. 22 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de Transferência no Direito Tributário Brasileiro. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Dialética, 2006. p.159160. 23 Observandose a margem bruta de lucro de 60% sobre o preço líquido de venda. Fl. 866DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 867 49 Isso porque é a IN SRF nº 243/2002 que fundamenta a lavratura do lançamento, cuja procedência é objeto de julgamento no presente feito, e não a IN SRF nº 32/2001. Demais disso, a IN SRF nº 32/2001 foi editada pela Secretaria da Receita Federal, não sendo razoável supor que a Fazenda Nacional venha contraporse à aplicação de uma instrução normativa editada pela própria Receita Federal. Aplicável, aqui, o princípio do non venire contra factum próprio, assim como o princípio da confiança legítima, que impede que o Estado sancione o contribuinte pela aplicação das normas administrativas por ele mesmo editadas, ainda que eivadas de ilegalidade. Postas essas considerações, resta saber se a sistemática da IN SRF nº 243 encontra respaldo na lei nº 9.430/96. Segundo a Recorrente, a sistemática pretendida pela IN nº 243/2002 impõe restrições não previstas na lei nº 9.430/96, razão pela qual a mesma deve ser considerada ilegal. Lado reverso, argumenta a Fazenda Nacional que, por ocasião de um erro gramatical existente no art. 18 da lei nº 9.430/96, a sua leitura permitiria dupla interpretação: a expressão “do valor agregado” seria um erro gramatical, podendo (1) referirse ao termo “deduzidos”, se considerado o termo “do valor agregado” como “o valor agregado” para corrigir a sentença gramatical, como (2) poderia referirse ao termo “diminuídos”, constante do inciso II do art. 18, consistindo em “técnica redacional inapropriada, voltada a evitar a inclusão de mais uma alínea no inciso II do art. 18”. No presente caso, a lei nº 9.959, de 2000, decorreu da conversão da medida provisória nº 2.01304, originada da MP nº 1924, de 07 de outubro de 1999, pelo que é possível saber, da exposição de motivos da referida medida provisória, se tratase, realmente, de técnica redacional inapropriada. Isso porque, se a mens legislatoris ratificaria a adoção de um método proporcional do preço líquido de venda para encontrase preço parâmetro, a interpretação, nesse formato será possível. Consultando a exposição de motivos da MP nº 1924/99, publicada no Diário do Congresso Nacional em 29 de outubro de 1999, no que se refere à alteração do art. 18 da lei n 9.430/96, temos o seguinte: O artigo 2º admite, para fins de controle de preços de transferência, a utilização do método Preço de Revenda menos Lucro – PRL, nos casos de importação de bens, serviços ou direitos empregados, utilizados ou aplicados na produção de outros bens, serviços ou direitos, estabelecendose, para tanto, uma margem de lucro de sessenta por cento. Não se pode, pois, afirmar tratarse de técnica redacional inapropriada, posto que não existiu a intenção do legislador em atrelar o termo “do valor agregado” ao inciso II do art. 18 da lei nº 9.430/96. Saber a intenção do legislador, sem a referência expressa de sua pretensão na exposição de motivos, é mera especulação. De toda sorte, não sou adepto da doutrina subjetivista da interpretação jurídica, segundo a qual “sendo a ciência jurídica um saber dogmático (a noção de dogma enquanto um princípio arbitrário, derivado de vontade do emissor da norma que lhe é fundamental), é, basicamente, um compreensão do pensamento do legislador; portanto interpretação ex tunc (desde então, isto é, desde o aparecimento da norma pela positivação da vontade legislativa), ressaltando, em consonância, o papel preponderante do aspecto genético e das técnicas que lhe são apropriadas (método histórico)”24. Com relação ao argumento gramatical, confesso que tenho grande resistência à interpretação exclusivamente literal dos textos normativos. Estando a norma 24 FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito. Técnica, decisão, dominação. Atlas, São Paulo, 2001. 3 ed. p. 262/263. Fl. 867DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 868 50 inserida em um sistema, procuro sempre por meio da lógica e numa leitura sistemática, buscar o sentido lógico e sistêmico de norma aplicável ao caso concreto. Resisto a aceitar que uma letra seja suficiente para alterar completamente uma norma jurídica, de forma a permitir o que, numa outra interpretação, não seria permitido. Isso porque a lei não se origina de um órgão técnico jurídico, mas sim de órgãos políticos, onde nem sempre estão presentes os elementos essenciais da boa técnica. E isso é reflexo de um Estado democrático, onde as pessoas elegem os seus representantes pelo voto direto. De fato, podem existir problemas hermenêuticos posto que,”ao valerse da língua natural, o legislador está sujeito a equivocidades que, por não existirem nessas línguas regras de rigor (como na ciência), produzem perplexidades”25. Todavia, “a chamada interpretação gramatical tem na análise léxica apenas um instrumento para mostrar e demonstrar o problema, não para resolvêlo. A letra da norma, assim, é apensa o ponto de partida da atividade hermenêutica. Como interpretar juridicamente é produzir uma paráfrase, a interpretação gramatical obriga o jurista a tomar consciência da letra da lei e estar atento às equivocidades proporcionadas pelo uso das línguas naturais e suas imperfeitas regras de conexão léxica”. No caso em apreço, acusa, a Fazenda Nacional, que o erro gramatical constante da redação do item 1 do inciso II do art. 18 da lei nº 9.430/96 estaria inserido nessa imperfeição léxica, permitindo a dupla interpretação do dispositivo. Leiase o dispositivo em debate: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; Segundo as regras gramaticais26, no item 1, o do só pode se referir a preço: preço de revenda e preço do valor agregado no país. É um princípio do paralelismo gramatical. Esse princípio prevê que termos coordenados devem manter estruturas sintáticas semelhantes. De fato, segundo Othon Garcia, in verbis: “Se coordenação é um processo de encadeamento de valores sintáticos idênticos, é justo presumir que quaisquer elementos da frase –sejam orações, sejam termos dela , coordenados entre si, devam, em princípio pelo menos – apresentar estrutura gramatical idêntica, pois não se pode coordenar frases (ou termos) que não comportem constituintes do mesmo tipo. Isso é o que se costuma chamar paralelismo ou simetria de construção.” Ainda na leitura gramatical, diante da presença de um termo precedido da preposição de + artigo o, para sabermos a qual outro termo ele se refere (está coordenado) basta procurar qual expressão pede a preposição de e a única possibilidade em toda a expressão entre vírgulas é a palavra preço. O princípio do paralelismo, já explicado acima, justifica o fato de ser gramaticalmente incorreto 25 FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito. Técnica, decisão, dominação. Atlas, São Paulo, 2001. 3 ed. p. 283. 26 Orientações gramaticais por Anya Campos. Fl. 868DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 869 51 ler o dispositivo como “deduzido do valor agregado” porque, se assim fosse, deveria ser “deduzidos dos valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção”. A se considerar do valor agregado, considerase, ao mesmo tempo, que há erro na lei quanto “deduzidos os valores referidos”. Existe, assim, de fato, um erro gramatical quando o item 1 diz “do valor agregado”, pois a expressão “preço do valor agregado” não conduz a uma leitura lógica do dispositivo, nem a um expressão passível de descrição de uma fórmula suficiente para o cálculo do preço parâmetro. Ressalto que, gramaticalmente, não existe outra interpretação possível. Isso porque, quanto à interpretação gramatical pretendida pela Fazenda Nacional, temse que o fato de a expressão “calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País” estar entre vírgulas é bastante significativo porque faz com que ela seja um bloco único e a coordenação esperada para do valor agregado deva estar presente dentro da expressão entre vírgulas e não fora dela. Para que fique clara a função sintática da oração entre vírgulas, é necessário que se faça uma decomposição do período em questão evidenciando os termos oracionais que foram omitidos. Decomposto, o período ficaria assim: “ O Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL é definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos da margem de lucro de sessenta por cento, que é calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção;” A oração que é calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País referese ao antecedente, de sentido amplo e genérico, margem de lucro e tem a função de explicálo, trazendo uma informação adicional que pode ser retirada sem que se comprometa o entendimento do restante do período. Notese que a informação é importante, mas, sintaticamente, forma um bloco único que pode ser transformado em uma oração independente, sendo que essa transformação não altera a compreensão do que restou do período. Observe: “O Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL é definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos da margem de lucro de sessenta por cento na hipótese de bens importados aplicados à produção. A margem de lucro é calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País”. Essas características fazem com que a oração que é calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País seja classificada como uma oração subordinada adjetiva explicativa, assim definida por grandes linguistas brasileiros, in verbis: “a [oração subordinada] adjetiva explicativa alude a uma particularidade que não modifica a referência do antecedente e que, por ser mero apêndice, pode ser dispensada sem prejuízo total da mensagem. Na língua falada, aparece marcada por pausa em relação ao antecedente e, na escrita, é assinalada por adequado sinal de pontuação, em geral, entre vírgulas”27 “Orações adjetivas restritivas explicativas modificam um termo de sentido amplo e genérico, enfatizando a sua maior característica ou uma de suas características. 27 BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da Língua Portuguesa. Lucerna. Rio de Janeiro. 2006. 715p. Fl. 869DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 870 52 Vêm sempre entre vírgulas, que marcam a necessidade de pausa respiratória entre o termo modificado e o restante da oração principal”28. É muito importante deixar claro, no entanto, que, quando se diz que a oração explicativa é mero apêndice e pode ser dispensada, estáse falando de uma dispensabilidade apenas sintática, pois, em termos de semântica (sentido, significado) podese dizer que tem sim relevância e muitas vezes relevância crucial para a boa compreensão do enunciado, como é o caso da oração em comento. Superada, pois a interpretação gramatical, imprestável para a solução da controvérsia posta em julgamento, passo à interpretação sistemática da norma, em sua correlação com o ordenamento jurídico. Em se tratando que norma que tem por objetivo criar um sistema antielisivo para os preços de transferência, inegavelmente a questão está afeta à composição da base de cálculo do imposto de renda apurado pelas empresas, no que toca à (hipótese I) formação da receita tributável (solucionada pelos métodos PVEx, PVA, PVV ou CAP), ou de dedução de despesas e/ou custos incorridos na formação da renda tributável (solucionada pelos métodos PIC, PRL ou CPL). A base de cálculo é um dos elementos essenciais da relação jurídico tributária, pois compõe o critério quantitativo constante do mandamento da norma, que descreve, hipoteticamente, os elementos que deverão formar o quantum do tributo devido na relação obrigacional concreta de tributação. Neste sentido, apenas e tão somente a lei pode definir os elementos formadores dessa relação, não se deferindo aos atos administrativos, inovar naquilo que a lei não previu – ainda que essa inovação seja indispensável para a funcionalidade da norma. Esse ponto é delicado e essencial para o julgamento do feito. Tomando por referência a redação original da lei nº 9.430/96 – em que não estava prevista a dedução dos valores agregados ao produto importado na aplicação do método PRL, o próprio Fisco entendeu pela inaplicabilidade do método aos casos de utilização do bem importado na produção nacional. Isso porque não havia, na lei, a previsão dessa dedutibilidade. A lógica então adota foi correta em um sentido: se a lei não prevê a dedução de valores da base de formação do imposto de renda, no caso, os valores agregados ao bem importado na produção do produto final, não poderia referida dedução ser realizada, invalidando o método PRL. Puro princípio da legalidade. Noutro sentido, no entanto, como não havia restrição a priori para utilização do método PRL, esta restrição não poderia ser imposta por meio de instrução normativa. Nessas situações, o julgador fica na situação de “dizer o que não pode”, mas não de dizer “como fazer corretamente”. A Conselheira Sandra Maria Faroni, no entanto, na sapiência que lhe é peculiar, reconhecida em tantos anos dedicados a esse Conselho, deixou registrado seu entendimento de que, na redação original da lei nº 9.430/96, poderia a instrução normativa completar a lei, e retirar da tributação aquilo que não havia sido previsto pela norma legal de controle dos preços de transferência. E, ao fazê lo, sugeriu a adoção do método que somente veio a ser adotado pela IN nº 243/2002. Vejase seu entendimento, proferido no julgamento do processo nº 16327.004012/200231, in verbis: Na peça apresentada a título de contrarazões e recebida como memorial, o ilustre Procurador da Fazenda Nacional tece considerações relevantíssimas em torno dos precedentes da Câmara, que passo a abordar. Inicialmente, faz referência a exemplo numérico adotado por ilustres Auditores Fiscais da Receita Federal em estudo intitulado “ Nota preços de transferência. 28 SACCONI, Luiz Antônio. Nossa Gramática Completa. 30 ed. Nova Geração. São Paulo. 2010. p. 406. Fl. 870DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 871 53 Posicionamento do Conselho de Contribuintes”, em que, a importação do insumo limpador de párabrisa, cujo preço no mercado atacadista seja da ordem de R$10,00, aplicado na produção de automóvel Honda Civic, com preço por volta de R$ 40.000,00, redundaria na admissibilidade de preçoparâmetro de R$32.000,00 para produto que vale R$10,00. Observo, de pronto, que o exemplo não é apropriado para evidenciar qualquer desvio em relação aos casos concretos analisados pela Câmara, que tratam de importação de princípios ativos para a indústria farmacêutica, em que o valor agregado ao insumo importado é relativamente insignificante. Por outro lado, a distorção apontada não decorre da interpretação, adotada pelo Conselho, de que a lei não veda a aplicação de qualquer dos métodos, mas sim, da determinação da base de cálculo para a aplicação do PRL. Nos casos em que o produto é revendido sem ser na forma em que foi adquirido, seu preço de revenda é aquele líquido dos valores agregados. Melhor dizendo, se o que está sendo revendido é um produto em que se encontram incorporados vários insumos, no preço de venda do produto estão compreendidos os preços de revenda dos vários insumos que o integram. A lei fala em preço de revenda, e, no exemplo erigido pelo Auditor e mencionado pelo Procurador, não se pode dizer que o limpador de párabrisa importado esteja sendo revendido por R$ 40.000,00. O que está sendo vendido por esse preço é o automóvel. Um ato normativo que estabelecesse a forma de apurar o preço de revenda, nos casos de o produto ser revendido com agregação de outros insumos, estaria cumprindo seu papel de regulamentar a lei, não padecendo de qualquer ilegalidade, pois não estaria limitando onde a lei não limitou. Na falta de ato normativo nesse sentido, caberia ao contribuinte demonstrar, segundo um critério razoável, a ser analisado pela fiscalização, que o preço de revenda por ele adotado para aplicação do método PRL corresponde ao do insumo importado aplicado no produto industrializado. A meu ver, a única forma possível de determinar o preço de revenda de qualquer insumo é aplicando, sobre o preço de venda do produto final, a mesma proporção que o custo do insumo representa no custo total do produto. A utilização desse critério independe da existência de ato normativo prevendoo, porque está rigorosamente dentro da lei. A lei determina a aplicação de margem de lucro sobre o preço de revenda do produto importado. Inexistindo preço de revenda determinado sobre cada elemento integrante do produto final, cabe determinálo, a partir dos elementos conhecidos. Ora, os elementos conhecidos são os custos individuais dos insumos (inclusive mão de obra) aplicados na produção, o custo do produto final (somatório dos custos dos insumos) e o preço de venda do produto final. É elementar que a única forma de isolar o valor de venda de cada componente é ratear o valor total de venda entre todos os componentes do custo total do produto na mesma proporção em que participam desse custo. Existindo ou não ato normativo nesse sentido, se o contribuinte faz essa segregação, a fiscalização não tem como rejeitar o cálculo pelo PRL. Por outro lado, não feita a segregação, cabe à fiscalização intimar o contribuinte a refazer o cálculo a partir do valor assim segregado. Concordo plenamente com a Conselheira Sandra Maria Faroni: na ausência da lei, e por uma questão sistemática, lógica e até mesmo teleológica da lei, é dado ao Fisco, por instrução normativa, RETIRAR elementos da base de cálculo do tributo. Isso não ofende o princípio da legalidade, que veda, na ausência da lei, “instituir ou aumentar tributo”. Demais disso, a decisão comentada decidiu questão formal, qual seja, a impossibilidade imposta pela IN SRF nº 32/97 de se adotar o método PRL no caso de utilização do bem importado na formação de um produto final, no Brasil, com agregação de valor. Fl. 871DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA Processo nº 10283.720715/200872 Acórdão n.º 1401000.848 S1C4T1 Fl. 872 54 No entanto, não é esta a hipótese dos autos: com a lei nº 9.959, de 2000, alterouse a redação da lei nº 9.430/96, para prever expressamente a possibilidade de o método PRL ser utilizado quando o bem importado for consumido na produção de um produto no Brasil. E a lei nº 9.959/00, bem ou mal, definiu a fórmula de cálculo do método PRL que, no meu entendimento, dada a divergência gramatical, deve ser a mais favorável ao contribuinte. Entre duas interpretações gramaticalmente impossíveis, ou seja, entre cometer um erro linguístico para majorar um tributo, atingindo diretamente o disposto no art. 150, inciso I da Constituição da República ou cometer um erro gramatical para majorar a base de incidência do imposto de renda, permissa venia, por viver em um Estado Democrático de Direito, sujeito ao princípio da legalidade formal e material, fico com a primeira opção. Dois fundamentos, sistemáticos e lógicos, me conduzem a essa convicção. PRIMEIRO FUNDAMENTO: da leitura da IN SRF nº 243/2002, a única hipótese de admitirse a sua conformação ao art. 18 da lei nº 9.430/96, é entender que o disposto no item 1, do inciso II de referido artigo é um “tipo” tributário, nos exatos termos em que rechaçado por Misabel de Abreu Machado Derzi, entendido como “ordem fluida que aceita transições continuas e graduais (que) opõese a conceito determinado classificatório”, e não no sentido de tatbestand, entendidos como “conceitos rígidos ou somatórios, padrões numericamente definidos, com o que se almeja alcançar ora a segurança jurídica, ora a uniformidade ou a praticidade na aplicação da lei em massa” (p. 367), própria do direito tributário. No direito tributário, não se admitem, na formação dos elementos essenciais da norma tributária – também chamados de mínimo irredutível do deôntico por Paulo de Barros Carvalho – , conceitos abertos, que permitam a inserção ou retirada de elementos, de forma a exonerarse ou aplicarse a tributação. Diferentemente de outros países, o princípio da legalidade, no Brasil, foi estrita e precisamente disposto na Constituição da República, justamente como forma de resguardar o direito do contribuinte – e não o direito do Estado. Supor o contrário atenta à própria noção de República, inadmissível em tempos contemporâneos. Esse argumento me conduz diretamente ao SEGUNDO FUNDAMENTO: a União, sabedora da ilegalidade da instrução normativa que ela própria editou, tem tentado, por meio de medidas provisórias, legalizar o que a IN SRF nº 243/2002 antecipadamente previu. De fato, a MP 478/2009 e a MP 563/2012, em suas essências, legalizam a base de cálculo pretendida pela IN SRF nº 243/2002. Lamentase que não o tenha feito antes da instrução normativa, pois, como bem demonstrado pelo competente Procurador da Fazenda Nacional, traria estabilidade na aplicação do método PRL”. Desta forma e diante dos argumentos acima transcritos, voto por dar provimento ao recurso voluntário, reconhecendo a ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 e por conseguinte, cancelando o auto de infração que a toma como fundamento. Sergio Luiz Bezerra Presta – Relator (Assinado digitalmente) Fl. 872DF CARF MF Impresso em 15/01/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assinado digitalmente em 27/08/2012 por SERGIO LUIZ BEZERRA PRESTA, Assinado digitalmente em 24/08/2012 por ANTONIO BEZERRA NETO, Assin ado digitalmente em 25/09/2012 por JORGE CELSO FREIRE DA SILVA
score : 1.0
Numero do processo: 10245.720124/2008-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2012
Ementa: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR
Exercício: 2004
Ementa:
ÁREA DE RESERVA LEGAL. COMPROVAÇÃO.
Admite-se, para o cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural, a exclusão da Área de Reserva Legal, desde que, em data anterior à da ocorrência do fato gerador do tributo, tenha sido averbada à margem da matrícula do imóvel rural no Cartório de Registro de Imóveis competente.
Na hipótese, a averbação da Área de Reserva Legal foi feita em data posterior
à do fato gerador do ITR.
VALOR DA TERRA NUA VTN.
ARBITRAMENTO.
Não se desincumbindo o recorrente de comprovar o Valor da Terra Nua declarado, mantém-se o VTN arbitrado pela autoridade fiscal com base no Sistema de Preços de Terra SIPT.
Numero da decisão: 2101-001.764
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar
provimento ao recurso. Vencido o Conselheiro Gonçalo Bonet Allage, que votou por dar provimento em parte especificamente quanto à área de reserva legal.
Nome do relator: CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY
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ementa_s : Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR Exercício: 2004 Ementa: ÁREA DE RESERVA LEGAL. COMPROVAÇÃO. Admite-se, para o cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural, a exclusão da Área de Reserva Legal, desde que, em data anterior à da ocorrência do fato gerador do tributo, tenha sido averbada à margem da matrícula do imóvel rural no Cartório de Registro de Imóveis competente. Na hipótese, a averbação da Área de Reserva Legal foi feita em data posterior à do fato gerador do ITR. VALOR DA TERRA NUA VTN. ARBITRAMENTO. Não se desincumbindo o recorrente de comprovar o Valor da Terra Nua declarado, mantém-se o VTN arbitrado pela autoridade fiscal com base no Sistema de Preços de Terra SIPT.
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COMPROVAÇÃO. Admitese, para o cálculo do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural, a exclusão da Área de Reserva Legal, desde que, em data anterior à da ocorrência do fato gerador do tributo, tenha sido averbada à margem da matrícula do imóvel rural no Cartório de Registro de Imóveis competente. Na hipótese, a averbação da Área de Reserva Legal foi feita em data posterior à do fato gerador do ITR. VALOR DA TERRA NUA VTN. ARBITRAMENTO. Não se desincumbindo o recorrente de comprovar o Valor da Terra Nua declarado, mantémse o VTN arbitrado pela autoridade fiscal com base no Sistema de Preços de Terra SIPT. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso. Vencido o Conselheiro Gonçalo Bonet Allage, que votou por dar provimento em parte especificamente quanto à área de reserva legal. (assinado digitalmente) ________________________________________________ LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Presidente. (assinado digitalmente) ________________________________________________ Fl. 72DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS 2 CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente), Gonçalo Bonet Allage, José Raimundo Tosta Santos, Alexandre Naoki Nishioka, Gilvanci Antonio de Oliveira Sousa e Celia Maria de Souza Murphy (Relatora). Relatório Trata o presente processo de Notificação de Lançamento contra o contribuinte em epígrafe, na qual foi apurado Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural suplementar em decorrência da falta de comprovação da Área de Reserva Legal e do Valor da Terra Nua VTN. Em 23.12.2008, o contribuinte impugnou o lançamento (fls. 18 e 19), alegando, em síntese, que, embora entenda oportuna a apresentação de laudo agronômico para mensurar o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural, ante a sua complexidade e elevado custo, não vê motivação para a sua realização no presente caso, sendo facultado ao contribuinte utilizar avaliação efetuada pelas Fazendas Públicas. Alega que, na determinação do Valor da Terra Nua declarado, tomou por base os valores praticados pelo INCRA naquele exercício, publicados no Boletim de Serviço – BS n.º 052, de 24.12.2001, com vigência de 5 anos. Sendo assim, o valor arbitrado com base no artigo 14 da Lei n.º 9.393, de 1996, não pode prosperar, haja vista que não se ampara em qualquer elemento técnico a lhe conferir juridicidade, ferir o princípio da moralidade e não levar em conta que o imóvel se localiza na Amazônia Legal, onde 80% de sua área é considerada reserva legal. A 1.ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DF) julgou a impugnação improcedente, por meio do Acórdão n.º 0342.399, de 30 de março de 2011, mediante a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2004 DA ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA/RESERVA LEGAL. Para ser excluída do ITR, exigese que a área de reserva legal, objeto de glosa pela autoridade fiscal, tenha sido averbada tempestivamente à margem da matrícula do imóvel e disponha de Ato Declaratório Ambiental ADA, protocolado em tempo hábil no IBAMA. DO VALOR DA TERRA NUA VTN. Deverá ser mantido o VTN arbitrado para o ITR/2004 pela autoridade fiscal com base no SIPT, por falta de laudo técnico de avaliação com ART, em consonância com a NBR 14.6533 da ABNT, que atingisse fundamentação e grau de precisão II, demonstrando inequivocamente o valor fundiário do imóvel à época do fato gerador do imposto e suas peculiaridades desfavoráveis, que justificassem o valor declarado. Fl. 73DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS Processo nº 10245.720124/200851 Acórdão n.º 2101001.764 S2C1T1 Fl. 2 3 Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido. Inconformado, a contribuinte interpôs recurso voluntário às fls. 59 a 67, no qual, citando e transcrevendo legislação, trechos da doutrina e ementas de julgados do STJ, alega, em síntese, que a lei não o obriga a apresentar Ato Declaratório Ambiental – ADA para o fim de obter a isenção do ITR sobre a Área de Reserva Legal. No tocante ao arbitramento do Valor da Terra Nua, argumenta que o INCRA é o órgão oficial com poderes constituídos para tratar de todos os assuntos que envolvem o sistema agrário nacional, e cabe a ele determinar o valor da terra a ser praticado. Pede o acatamento do Valor da Terra Nua declarado, assim como que se declare insubsistente o Acórdão recorrido na parte que o obriga a apresentar ADA. É o Relatório. Voto Conselheira Celia Maria de Souza Murphy O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos legais previstos no Decreto n° 70.235, de 1972. Dele conheço. 1. Área de Reserva Legal A Lei n.° 9.393, de 1996, que dispõe sobre o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, ao tratar da sua apuração e pagamento, no artigo 10, exclui da incidência do tributo as áreas de preservação permanente e de reserva legal previstas no Código Florestal Brasileiro, verbis: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: [...] II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; [...] (g.n.) O Código Florestal vigente na época dos fatos, Lei n.º 4.771, de 1965, prescrevia ser área de reserva legal aquela localizada no interior de uma propriedade ou posse Fl. 74DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS 4 rural, excetuada a de preservação permanente, necessária ao uso sustentável dos recursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à conservação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas. Seu artigo 16, ao regular a supressão de florestas ou outras formas de vegetação nativa, estipulava a manutenção de um percentual da propriedade rural a título de reserva legal, verbis: Art.16. As florestas e outras formas de vegetação nativa, ressalvadas as situadas em área de preservação permanente, assim como aquelas não sujeitas ao regime de utilização limitada ou objeto de legislação específica, são suscetíveis de supressão, desde que sejam mantidas, a título de reserva legal, no mínimo: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) (Regulamento) Ioitenta por cento, na propriedade rural situada em área de floresta localizada na Amazônia Legal; (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) IItrinta e cinco por cento, na propriedade rural situada em área de cerrado localizada na Amazônia Legal, sendo no mínimo vinte por cento na propriedade e quinze por cento na forma de compensação em outra área, desde que esteja localizada na mesma microbacia, e seja averbada nos termos do § 7o deste artigo; (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) IIIvinte por cento, na propriedade rural situada em área de floresta ou outras formas de vegetação nativa localizada nas demais regiões do País; e (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) IVvinte por cento, na propriedade rural em área de campos gerais localizada em qualquer região do País. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) [...] 2oA vegetação da reserva legal não pode ser suprimida, podendo apenas ser utilizada sob regime de manejo florestal sustentável, de acordo com princípios e critérios técnicos e científicos estabelecidos no regulamento, ressalvadas as hipóteses previstas no § 3o deste artigo, sem prejuízo das demais legislações específicas. [...] §4° A localização da reserva legal deve ser aprovada pelo órgão ambiental estadual competente ou, mediante convênio, pelo órgão ambiental municipal ou outra instituição devidamente habilitada, devendo ser considerados, no processo de aprovação, a função social da propriedade, e os seguintes critérios e instrumentos, quando houver: I o plano de bacia hidrográfica; II o plano diretor municipal; III o zoneamento ecológicoeconômico; IV outras categorias de zoneamento ambiental; e Fl. 75DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS Processo nº 10245.720124/200851 Acórdão n.º 2101001.764 S2C1T1 Fl. 3 5 V a proximidade com outra Reserva Legal, Area de Preservação Permanente, unidade de conservação ou outra área legalmente protegida. [...] §8oA área de reserva legal deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, sendo vedada a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, de desmembramento ou de retificação da área, com as exceções previstas neste Código. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) [...] (g.n.). A partir de 2001, a apresentação do Ato Declaratório Ambiental ADA tornouse obrigatória, a teor do disposto no artigo 17O da Lei n.° 6.938, de 1981, com a redação dada pela Lei n.º10.165, de 2000: Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) [...] § 1o A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) [...] (g.n.) Dos dispositivos legais transcritos, depreendese ser possível suprimir áreas de florestas e outras formas de vegetação nativa (não consideradas áreas de preservação permanente ou de utilização limitada), desde que seja mantida, a título de reserva legal, parte dessas florestas ou vegetações nativas, nos percentuais mínimos fixados. O § 8.º estipulava que a área de reserva legal deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no Cartório de Registro de Imóveis competente. A instituição da reserva legal é uma exigência da legislação ambiental, no caso, a Lei n.° 4.771, de 1965. Aplicase a todo e qualquer imóvel rural, variando seu percentual mínimo de acordo com a localização do imóvel e suas características, na forma prescrita. A lei ambiental impõe, àquele que detém a posse ou a propriedade do imóvel rural, a destinação do percentual mínimo para constituição da reserva legal. Deixa, todavia, critério do titular da propriedade ou da posse do imóvel determinar a área efetiva e sua localização, além dos seus limites no interior do imóvel rural, ficando a sua localização, sujeita a aprovação pelo órgão ambiental (artigo 16, § 4.°, da Lei n.° 4.771, de 1965, com a redação dada pela Medida Provisória n.° 2.16667, de 2001). De acordo com a Lei n.° 4.771, de 1965, a área de reserva legal deve ser averbada à margem da matrícula do imóvel rural no Cartório de Registro de Imóveis competente. O condicionamento da isenção do ITR à prévia averbação da Área de Reserva Fl. 76DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS 6 Legal à margem da matrícula do imóvel, nos moldes previstos, assegura o cumprimento dos objetivos do artigo 16, § 2º, do Código Florestal e do artigo 10, inciso II, alínea "a", da Lei n.º 9.393, de 1996. É que a averbação dessa área à margem da matrícula do imóvel pressupõe o seu prévio reconhecimento pelo órgão ambiental, feita a partir de Termo de Responsabilidade de Preservação de Floresta. Sendo assim, a comprovação da averbação da área de reserva legal à margem da matrícula do imóvel rural não só cumpre a exigência legal para a fruição da isenção como é até mesmo mais rigorosa do que a mera protocolização do Ato Declaratório Ambiental ADA junto ao órgão ambiental. Por essa razão, a comprovação da averbação da Área de Reserva Legal à margem da matrícula do imóvel rural tem sido acertadamente aceita para a correspondente exclusão da área total do imóvel no cômputo do ITR. Entendo que a lei tributária, ao admitir a isenção do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural sobre a área de Reserva Legal, impõe que a área de Reserva Legal esteja devidamente definida e constituída, descrita com todas as suas características, tendo em vista que área alguma do imóvel rural, além daquela destinada à Reserva Legal devidamente constituída pode ser beneficiada pela isenção do ITR a esse título. Conseqüência lógica desse posicionamento é que, para a isenção do imposto, é necessário que a Área de Reserva Legal esteja averbada na matrícula do imóvel rural no Cartório de Registro de Imóveis competente na época da ocorrência do fato gerador do imposto. Este entendimento encontra respaldo em recente decisão do STJ sobre o assunto, que, para chegar à mesma conclusão, aborda o tema sob os pontos de vista tributário e ambiental: TRIBUTÁRIO E AMBIENTAL. ITR. ISENÇÃO. RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO. IMPRESCINDIBILIDADE. NECESSIDADE DE INTERPRETAÇÃO EXTRAFISCAL DA RENÚNCIA DE RECEITA. 1. A controvérsia sob análise versa sobre a (im)prescindibilidade da averbação da reserva legal para fins de gozo da isenção fiscal prevista no art. 10, inc. II, alínea "a", da Lei n. 9.393/96. 2. O único bônus individual resultante da imposição da reserva legal ao contribuinte é a isenção no ITR. Ao mesmo tempo, a averbação da reserva funciona como garantia do meio ambiente. 3. Desta forma, a imposição da averbação para fins de concessão do benefício fiscal deve funcionar a favor do meio ambiente, ou seja, como mecanismo de incentivo à averbação e, via transversa, impedimento à degradação ambiental. Em outras palavras: condicionando a isenção à averbação atingirseia o escopo fundamental dos arts. 16, § 2º, do Código Florestal e 10, inc. II, alínea "a", da Lei n. 9.393/96. 4. Esta linha de argumentação é corroborada pelo que determina o art. 111 do Código Tributário Nacional CTN (interpretação restritiva da outorga de isenção), em especial pelo fato de que o ITR, como imposto sujeito a lançamento por homologação, e em razão da parca arrecadação que proporciona (como se sabe, os valores referentes a todo o ITR arrecadado é substancialmente menor ao que o Município de São Paulo arrecada, por exemplo, a título de IPTU), vê a Fl. 77DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS Processo nº 10245.720124/200851 Acórdão n.º 2101001.764 S2C1T1 Fl. 4 7 efetividade da fiscalização no combate da fraude tributária reduzida. 5. Apenas a determinação prévia da averbação (e não da prévia comprovação, friso e repito) seria útil aos fins da lei tributária e da lei ambiental. Caso contrário, a União e os Municípios não terão condições de bem auditar a declaração dos contribuintes e, indiretamente, de promover a preservação ambiental. 6. A redação do § 7º do art. 10 da Lei n. 9.393/96 é inservível para afastar tais premissas, porque, tal como ocorre com qualquer outro tributo sujeito a lançamento por homologação, o contribuinte jamais junta a prova da sua glosa no imposto de renda, por exemplo, junto com a declaração anual de ajuste, o contribuinte que alega ter tido despesas médicas, na entrega da declaração, não precisa juntar comprovante de despesa. Existe uma diferença entre a existência do fato jurígeno e sua prova. 7. A prova da averbação da reserva legal é dispensada no momento da declaração tributária, mas não a existência da averbação em si. 8. Mais um argumento de reforço neste sentido: suponhase uma situação em que o contribuinte declare a existência de uma reserva legal que, em verdade, não existe (hipótese de área tributável declarada a menor); na suspeita de fraude, o Fisco decide levar a cabo uma fiscalização, o que, a seu turno, dá origem a um lançamento de ofício (art. 14 da Lei n. 9.393/96). Qual será, neste caso, o objeto de exame por parte da Administração tributária? Obviamente será o registro do imóvel, de modo que, não havendo a averbação da reserva legal à época do períodobase, o tributo será lançado sobre toda a área do imóvel (admitindo inexistirem outros descontos legais). Perguntase: a mudança da modalidade de lançamento é suficiente para alterar os requisitos da isenção? Lógico que não. E se não é assim, em qualquer caso, será preciso a preexistência da averbação da reserva no registro. 9. É de afastar, ainda, argumento no sentido de que a averbação é ato meramente declaratório, e não constitutivo, da reserva legal. Sem dúvida, é assim: a existência da reserva legal não depende da averbação para os fins do Código Florestal e da legislação ambiental. Mas isto nada tem a ver com o sistema tributário nacional. Para fins tributários, a averbação deve ser condicionante da isenção, tendo eficácia constitutiva. [...] (g.n.) (STJ, 2.ª Turma. REsp 1027051 / SC. Relator: Min. Humberto Martins; Rel. p/ Acórdão: Min. Mauro Campbell Marques. Data do julgamento: 7.4.2011. Dje 17.5.2011) No caso em análise, às fls. 26 dos autos, consta a averbação da área de reserva legal de 733,5167 ha, na matrícula n.° 28.322, em 27.9.2007. Somente a partir dessa data, portanto, a referida área passou a se caracterizar como área de reserva legal, podendo ser Fl. 78DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS 8 excluída da área total do imóvel rural para a incidência do ITR. Por conseguinte, no exercício 2004, a referida área não era de reserva legal. 2. Valor da Terra Nua VTN Para informar o Valor da Terra Nua em sua Declaração do ITR do exercício 2004, o contribuinte baseouse nos documentos anexados às fls. 20 e 21, respectivamente Despacho SR25/s/nº/2001, emitido pelo Superintendente Regional da SR – 25/RR e Pauta de Valores Modelo Fundiário, publicado no Boletim de Serviço – INCRA. Nesses documentos, aprovase o valor básico da Terra Nua de R$ 17,87 por hectare na Gleba Tacutu, Microrregião Nordeste de Roraima, Município de Bonfim, Estado de Roraima. Foi intimado pela Fiscalização (fls. 2) a apresentar Laudo de Avaliação do Valor da Terra Nua do imóvel, emitido por engenheiro agrônomo ou florestal, conforme estabelecido na NBR 14.653 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, com grau de fundamentação e precisão II, com Anotação de Responsabilidade Técnica –ART registrada no CREA, contendo todos os elementos de pesquisa identificados e planilhas de cálculo e preferivelmente pelo método comparativo direto de dados do mercado. Alternativamente, poderia valerse de avaliação efetuada pela Fazenda Pública Estadual (exatoria) ou Municipal, ou pela Emater, apresentando os métodos de avaliação e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. Todavia, permaneceu inerte, fato que acarretou o lançamento constante do presente processo. A Fiscalização procedeu ao lançamento do ITR sobre o Valor da Terra Nua arbitrado com base nas informações do Sistema de Preços de Terra – SIPT, da Secretaria da Receita Federal do Brasil, lançamento este integralmente mantido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Brasília (DF). Tanto na impugnação quanto em sede de recurso, o contribuinte alega que o INCRA, como órgão competente para tratar dos assuntos que envolvem todo o sistema agrário nacional, seria o órgão com a palavra final sobre o valor da terra nua a ser praticado, e que o Valor da Terra Nua atribuído pelo Fisco não tem validade no mundo do Direito. Sobre esse assunto, impende salientar que a Lei n.º 9.393, de 1996, estipulou, em seu artigo 14, que, no caso de prestação de informações inexatas em DIAC ou DIAT, cabe à Secretaria da Receita Federal proceder à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização. Com fundamento nesse dispositivo legal, foi instituído o SIPT – Sistema de Preços de Terras, por meio da Portaria SRF nº 447, de 28.3.2002 (DOU de 3.4.2002), com o objetivo de fornecer informações relativas a valores de terras para o cálculo e lançamento do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR). Segundo o ato normativo que o instituiu, o referido sistema baseiase nos valores de terras e demais dados recebidos das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, e com os valores de terra nua da base de declarações do ITR. No caso em apreço, a autoridade fiscal utilizou o Valor da Terra Nua constante no SIPT Sistema de Preços de Terras, em razão da inércia do contribuinte. Como visto, a criação de tal sistema foi prevista no artigo 14 da Lei n.º 9.393, de 1996, que Fl. 79DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS Processo nº 10245.720124/200851 Acórdão n.º 2101001.764 S2C1T1 Fl. 5 9 expressamente autoriza a Secretaria da Receita Federal a instituir sistema de preços de terras. O referido sistema foi, por conseguinte, instituído com base na lei e foi utilizado para os fins nela previstos. Sendo assim, concluise que improcede o argumento do recorrente de que o Valor da Terra Nua atribuído pelo Fisco não tem validade no mundo do Direito. Para desconstituir o valor arbitrado com base no SIPT, o contribuinte poderia ter trazido aos autos Laudo de Avaliação do Valor da Terra Nua ou demais documentos indicados pela Fiscalização. Diferentemente agiu, e, para comprovar o Valor da Terra Nua utilizado, apresentou documentos emitidos pelo INCRA (fls. 20 e 21), nos quais o referido órgão atribui valor básico da terra nua por hectare para alienação das parcelas rurais integrantes da Microrregião Nordeste de Roraima, onde está localizada a Gleba Tacutu. Em que pese à importância da atribuição do valor da terra nua pelo INCRA, impende salientar que os documentos acostados não são contemporâneos aos fatos, de modo a conferirlhes precisão. Dispõe § 2° do artigo 80 da Lei n.° 9.393, de 1996, que o referido valor deve refletir o preço de mercado da terra nua em 1° de janeiro do ano a que se refere. Mesmo considerando, tal como alegado, que os valores atribuídos pelo INCRA têm validade por 10 anos, não se pode admitir, com segurança, que o valor da terra nua atribuído em 2001 tenha se mantido estável nos anos seguintes. Temse, assim, que não é possível atender ao pedido do recorrente, haja vista que a prova apresentada é insuficiente para contrapor o Valor da Terra Nua apurado pela Fiscalização por meio do SIPT, que considera valores de terras e demais dados recebidos das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, além dos valores de terra nua da base de declarações do ITR, tudo no exercício sob análise. Não há, portanto, reparos a fazer na decisão a quo. Conclusão Ante todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) _________________________________ Celia Maria de Souza Murphy Relatora Fl. 80DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 16/ 07/2012 por CELIA MARIA DE SOUZA MURPHY, Assinado digitalmente em 21/08/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLI VEIRA SANTOS
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Numero do processo: 10469.902092/2009-67
Turma: Segunda Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 06 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Thu Mar 21 00:00:00 UTC 2013
Numero da decisão: 1802-000.163
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa- Presidente.
(assinado digitalmente)
José de Oliveira Ferraz Corrêa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José de Oliveira Ferraz Corrêa, Marciel Eder Costa, Nelso Kichel, Gustavo Junqueira Carneiro Leão e Marco Antonio Nunes Castilho.
Nome do relator: JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa- Presidente. (assinado digitalmente) José de Oliveira Ferraz Corrêa - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José de Oliveira Ferraz Corrêa, Marciel Eder Costa, Nelso Kichel, Gustavo Junqueira Carneiro Leão e Marco Antonio Nunes Castilho.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José de Oliveira Ferraz Corrêa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José de Oliveira Ferraz Corrêa, Marciel Eder Costa, Nelso Kichel, Gustavo Junqueira Carneiro Leão e Marco Antonio Nunes Castilho. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 04 69 .9 02 09 2/ 20 09 -6 7 Fl. 88DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Recife/PE, que manteve a negativa de homologação em relação a declaração de compensação – DCOMP apresentada pela Contribuinte, nos mesmos termos que já havia decidido anteriormente a Delegacia de origem. Os fatos que deram origem ao presente processo estão assim descritos no relatório da decisão recorrida, Acórdão nº 1135.073, às fls. 53 a 59: A interessada acima qualificada formalizou pedido de compensação relativo a suposto crédito de pagamento indevido ou a maior oriundo da CSLL paga por estimativa, código 2484, referente ao fato gerador ocorrido em 31/08/2005, com débitos do IRPJ pago por estimativa — fevereiro/2006 e da CSLL paga por estimativa — fevereiro/2006. 0 valor originário do DARF postulado importa em R$ 7.292,29. Por meio do Despacho Decisório Eletrônico, às fls. 01, a Autoridade Competente resolveu NÃO HOMOLOGAR a compensação se fundamentando no fato de ter sido constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal da pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução da CSLL devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo da CSLL do período. A contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, às fls. 03, alegando que: houve um erro de preenchimento do PER/DCOMP, referente ao tipo de crédito, ou seja, a empresa lançou no campo de tipo de créditos, o pedido como pagamento indevido ou a maior, o que na realidade seria Saldo Negativo de Contribuição Social do ano de 2005, como destacado em DIPJ 2006/2005; na DCTF do 2º semestre de 2005, podese verificar que houve o recolhimento a maior da contribuição social, referente ao período de apuração do mês de Agosto/2005, que no final do ano, após apuração do Lucro Real, transformouse em Saldo Negativo, para posterior compensação; Por fim, pediu o deferimento do pedido de compensação, pelas razões acima expostas. Como já mencionado, a DRJ Recife/PE manteve a negativa em relação à compensação, expressando suas conclusões com a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005 Fl. 89DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 4 3 COMPENSAÇÃO. REQUISITO. Nos termos do art. 170 do CTN, somente são compensáveis os créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA MENSAL IMPOSSIBILIDADE. O valor pago a maior de IR ou de CSLL a título de estimativa mensal não pode ser compensado com débitos dos meses subseqüentes, em sendo o regime de tributação pelo lucro real anual. O valor pago a maior só pode ser utilizado na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração, ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. PEDIDO DE RETIFICAÇÃO DE PER/DCOMP. AUTORIDADE COMPETENTE. RITO PROCEDIMENTAL. Retificação de um PER/Dcomp não pode ser manuseada por via da manifestação de inconformidade. O PER/Dcomp somente pode ser retificado antes de adoção de decisão administrativa em torno do pleito dele constante. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada com essa decisão, da qual tomou ciência em 28/12/2011, a Contribuinte apresentou recurso voluntário em 26/01/2012, com os seguintes argumentos: a Contribuinte é pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real, optante do pagamento mensal do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL por estimativa, nos termos do art. 57 da Lei n° 8.981/1995 e dos arts. 2º e 30 da Lei n° 9.430/1996; em relação à CSLL do exercício de 2005, a empresa contribuinte apurou no balanço de 31/12/2005 um saldo negativo de R$ 13.155,00 (treze mil, cento e cinqüenta e cinco reais) (doc. 01), que foram utilizados para compensar o pagamento da CSLL e do IRPJ, ambos referentes ao mês de fevereiro de 2006, portanto, no exercício subseqüente à apuração do saldo negativo; todavia, ao preencher a presente PER/DCOMP, entregue em março/2006, a Recorrente cometeu apenas uma inexatidão material, informando que teria Crédito de Pagamento Indevido ou a Maior de CSLL, quando deveria ter informado Saldo negativo de CSLL do ano de 2005; a Recorrente tomou conhecimento da decisão da Delegacia de Julgamento em 28/12/2011 mais de 05 anos após a apresentação da PER/DCOMP quando os valores recolhidos a maior em favor da União não poderão mais ser objeto de restituição, não poderá mais haver retificação ou mesmo desistência do pedido de compensação; entretanto, os dados aqui presentes comprovam que houve um pagamento a maior no recolhimento da CSLL que serve, efetivamente, para quitar os débitos de CSLL e Fl. 90DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 5 4 IRPJ referentes a Fevereiro/2006. Analisandose os documentos apresentados, verificase que houve apenas erro material no preenchimento da obrigação acessória; o art. 74, § 11, da Lei n° 9.430/1996 atribui efeito suspensivo à exigibilidade do crédito tributário, enquanto pendente o julgamento do recurso. Todavia, o indeferimento da compensação não permite ao contribuinte apresentar um pedido de restituição, embora este seja detentor de um crédito relativo ao pagamento efetuado a maior; considerando, também, que o prazo para apresentar pedido de desistência da compensação já se esgotou, posto que ultrapassado mais de cinco anos da apresentação da PER/DCOMP, a empresa recorrente solicita o julgamento do presente recurso com base no princípio da razoabilidade; para tanto, requer que o pedido de compensação seja homologado, por se tratar de medida justa e em obediência ao princípio que veda o enriquecimento ilícito, até mesmo da Fazenda Nacional, que pôde usufruir do numerário recolhido a maior desde a efetivação do recolhimento. Este é o Relatório. Fl. 91DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 6 5 Voto Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, Relator. O recurso é tempestivo e dotado dos pressupostos para a sua admissibilidade. Portanto, dele tomo conhecimento. Conforme relatado, a Contribuinte questiona decisão que não homologou declaração de compensação – DCOMP por ela apresentada em 31/03/2006, na qual utiliza crédito decorrente de um alegado pagamento a maior referente à CSLL/estimativa do mês de agosto/2005. A DCTF referente ao segundo semestre de 2005 (fls. 15) discrimina débito de CSLL/estimativa do mês de agosto/2005 no valor de R$ 2.181,53. Para quitar este débito, a Contribuinte realizou pagamento no valor de R$ 7.292,29, conforme informado na mesma DCTF (no processo nº 10469.902089/200943 da mesma empresa, que também foi examinado nesta sessão do CARF, o recurso voluntário está acompanhado do comprovante do referido pagamento). Esta seria a origem do pagamento a maior, no valor excedente de R$ 5.110,76, do qual a Contribuinte utilizou R$ 1.746,52 na DCOMP ora examinada. Os débitos objeto da referida compensação correspondem à estimativa de IRPJ de fevereiro/2006, no valor de R$ 476,52, e à estimativa de CSLL de fevereiro/2006, no valor de R$ 1.406,75. A negativa tanto da Delegacia de origem, quanto da Delegacia de Julgamento, está amparada no art. 10 da IN SRF nº 600/2005, onde foi estabelecido que os pagamentos indevidos ou a maior a título de estimativas mensais de IRPJ/CSLL somente poderiam ser utilizados na dedução de IRPJ/CSLL devidos ao final do período de apuração ou para compor saldos negativos de IRPJ/CSLL do período. O voto que orientou a decisão da DRJ traz a seguinte observação: O que ocorre é que as estimativas mensais não são passíveis de restituição, vez que constituem mera antecipação do tributo a ser apurado ao final do anocalendário. Sendo mera antecipação, não extinguem o crédito tributário, não havendo que se falar em pagamento indevido ou a maior. Quando, ao final do anocalendário, apurase saldo negativo do tributo, resta então configurado o pagamento indevido ou a maior, aí sim passível de restituição ou compensação. Em sede de recurso voluntário, a Contribuinte pretende que seja desconsiderada a inexatidão material no preenchimento da DCOMP, de modo que a compensação seja homologada a partir de crédito a título de saldo negativo de CSLL em 2005, e não de pagamento a maior da estimativa de agosto/2005. É importante registrar que a regra contida no art. 10 da IN SRF nº 600/2005, que limitava a utilização de pagamento indevido ou a maior a título de estimativa mensal, não foi Fl. 92DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 7 6 repetida nas instruções normativas posteriores que tratam do mesmo assunto (IN RFB nº 900/2008 e IN RFB nº 1300/2012). Nestes outros atos normativos, a Receita Federal manteve a referida restrição apenas para o aproveitamento de retenções na fonte indevidas ou a maior, e não mais para os pagamentos indevidos ou a maior a título de estimativa. Registro também que a IN SRF nº 600/2005 foi expressamente revogada pela IN RFB nº 900/2008. Este colegiado tem admitido compensação com pagamento indevido ou a maior de estimativa desde que reste comprovado que o pagamento efetivamente superou o valor mensal que seria devido (seja com base na receita bruta, seja a partir de balancete de suspensão/redução), e que ele não tenha sido incluído no saldo negativo do período. A incidência de juros Selic sobre crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de estimativa mensal é diferente da incidência sobre crédito decorrente de saldo negativo anual. Mas a indicação é de que todo o pagamento da estimativa de CSLL de agosto/2005 restou incluído no saldo negativo daquele ano, porque consta da ficha 17 da DIPJ (ajuste anual da contribuição), às fls. 34, uma dedução anual a título de “CSLL mensal paga por estimativa” no valor de R$ 45.380,81, que é resultante do somatório de todos os pagamentos de estimativa, incluindo o acima referido. O fato de a contribuinte ter indicado crédito decorrente de pagamento a maior e não como saldo negativo não prejudica o pleito, porque o art. 165 do CTN não condiciona o direito à restituição de indébito, fundado em pagamento indevido ou a maior, a requisitos meramente formais. Na sistemática da apuração anual, caso haja tributo devido no encerramento do ano, as antecipações se convertem em pagamento definitivo. Por outro lado, se houver prejuízo fiscal, ou ainda se as antecipações superarem o valor do tributo devido ao final do período, fica configurado o indébito, a ser restituído ou compensado, mas somente a partir do ajuste. É importante destacar que os recolhimentos a título de estimativa são referentes, no seu conjunto, a um mesmo período (anocalendário), guardando uma correspondência direta com eventual saldo negativo passível de restituição/compensação. Deste modo, o fato de a Contribuinte reivindicar a repetição de pagamento feito ao longo de um anocalendário, por entender que esse pagamento foi feito indevidamente ou a maior, não pode ser obstáculo ao seu pleito. O saldo negativo não deixa de ser um pagamento a maior referente ao mesmo tributo e ao mesmo ano das estimativas. O importante é averiguar a repercussão das estimativas no ajuste final. Mas os elementos constantes dos autos não permitem verificar nem o regime e nem a composição das estimativas mensais de CSLL ao longo de 2005. Fl. 93DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 10469.902092/200967 Resolução nº 1802000.163 S1TE02 Fl. 8 7 Não há cópia completa da DIPJ do anocalendário de 2005, mas apenas cópia de sua Ficha 17 (fls. 34), e o balancete apresentado pela Recorrente não atende ao disposto no art. 35 da Lei 8.981/1995: Art. 35. A pessoa jurídica poderá suspender ou reduzir o pagamento do imposto devido em cada mês, desde que demonstre, através de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o valor do imposto, inclusive adicional, calculado com base no lucro real do período em curso. Além disso, há outros aspectos a serem verificados em relação à composição do saldo negativo de CSLL, porque ele não decorreu apenas das estimativas ao longo de 2005, mas também de retenções na fonte ocorridas no período. Estes pontos não foram examinados porque a DRF de origem pautou sua decisão na mencionada restrição de utilização de crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior de estimativa, fundamento que agora está sendo afastado. A solução deste processo demanda uma instrução processual complementar. É necessário que a Delegacia de origem (DRF Natal/RN): junte aos autos cópia integral da DIPJ do anocalendário de 2005; intime a Contribuinte a apresentar os balancetes de suspensão/redução que tenha elaborado relativamente ao anocalendário de 2005, e que atendam à finalidade determinada no art. 35 da Lei 8.981/1995, conforme o texto anteriormente destacado; verifique e elabore relatório circunstanciado sobre o valor do saldo negativo de CSLL no anocalendário de 2005, analisando não só os pagamentos feitos a título de estimativa mensal, mas também as retenções na fonte que foram computadas como dedução na DIPJ; intime a Contribuinte a se manifestar sobre as conclusões da diligência, antes de o processo retornar ao CARF. Diante do exposto, voto pela conversão do julgamento em diligência fiscal, para realização das providências determinadas acima. (assinado digitalmente) José de Oliveira Ferraz Corrêa Fl. 94DF CARF MF Impresso em 22/03/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 19/03/2013 por JOSE DE OLIVEIRA FERRAZ CORREA, Assinado digitalmente em 20/03/2013 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
score : 1.0
Numero do processo: 13409.000224/2006-74
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF
Exercício: 2005
PRAZO PARA INTERPOSIÇÃO DO RECURSO VOLUNTÁRIO. CIÊNCIA POSTAL DA DECISÃO RECORRIDA. TRINTÍDIO LEGAL CONTADO DA DATA REGISTRADA NO AVISO DE RECEBIMENTO OU, SE OMITIDA, CONTADO DE QUINZE DIAS APÓS A DATA DA EXPEDIÇÃO DA INTIMAÇÃO. RECURSO INTEMPESTIVO. NÃO
CONHECIMENTO.
Na forma dos arts. 5º, 23 e 33 do Decreto nº 70.235/72, o recurso voluntário deve ser interposto no prazo de 30 dias da ciência da decisão recorrida. Os prazos serão contínuos, excluindo-se na sua contagem o dia do início e incluindo-se o do vencimento. No caso de intimação postal, esta será considerada ocorrida na data do recebimento colocada no AR ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação.
Recurso voluntário não conhecido.
Numero da decisão: 2102-002.143
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NÃO CONHECER do recurso, pois perempto.
Matéria: IRPF- auto de infração eletronico (exceto multa DIRPF)
Nome do relator: GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS
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CIÊNCIA POSTAL DA DECISÃO RECORRIDA. TRINTÍDIO LEGAL CONTADO DA DATA REGISTRADA NO AVISO DE RECEBIMENTO OU, SE OMITIDA, CONTADO DE QUINZE DIAS APÓS A DATA DA EXPEDIÇÃO DA INTIMAÇÃO. RECURSO INTEMPESTIVO. NÃO CONHECIMENTO. Na forma dos arts. 5º, 23 e 33 do Decreto nº 70.235/72, o recurso voluntário deve ser interposto no prazo de 30 dias da ciência da decisão recorrida. Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. No caso de intimação postal, esta será considerada ocorrida na data do recebimento colocada no AR ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação. Recurso voluntário não conhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NÃO CONHECER do recurso, pois perempto. Assinado digitalmente GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Relator e Presidente. EDITADO EM: 03/07/2012 Fl. 47DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS, Assinado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Atilio Pitarelli, Acácia Sayuri Wakasugi, Giovanni Christian Nunes Campos, Núbia Matos Moura, Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti e Francisco Marconi de Oliveira. Relatório Em face do contribuinte JOÃO PAULO FALCÃO DE SOUZA, CPF/MF nº 029.440.26402, já qualificado neste processo, foi lavrada, em 31/10/2006, notificação de lançamento, decorrente da revisão de sua declaração de ajuste anual do anocalendário 2004. Ao contribuinte foram imputadas uma omissão de rendimentos percebidos do município de Calçado – PE (rendimentos de R$ 2.545,07 e IRRF de R$ 223,06) e uma glosa de IRRF de R$ 1.713,85, oriundo de rendimentos percebidos da empresa LOPES LOCAÇÃO E SERVIÇOS LTDA ME, para os quais não havia informação em DIRF. O contribuinte somente confessou um recebimento de rendimentos de R$ 23.496,00 da empresa Lopes Locação e Serviços Ltda.ME, com o IRRF de R$ 1.713,85, em sua DIRPFexercício 2005 (fl. 08). Inconformado com o lançamento, o contribuinte apresentou impugnação dirigida à Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, alegando que executava serviço de transporte de passageiros, devendo oferecer à tributação apenas 60% dos rendimentos da atividade. Juntou aos autos uma cópia do comprovante de rendimentos recebidos da empresa acima, no qual consta o montante de R$ 7.639,84 como rendimentos tributáveis e R$ 5.093,22 como rendimentos isentos (40% do Rendimento da Prestação de Serviços é Transporte de passageiros), datado de 29/09/2006, sem indicação do anocalendário a que se refere e sem qualquer IRRF (fl. 05). Inconformado com a autuação, o contribuinte apresentou impugnação ao lançamento, dirigida à Delegacia da Receita Federal de Julgamento. A 1ª Turma da DRJRecife (PE), por unanimidade de votos, julgou procedente o lançamento, em decisão consubstanciada no Acórdão n° 1125.440, de 26 de janeiro de 2009. A decisão acima considerou definitiva a imputação dos rendimentos recebidos do Município de Calçado (PE), pois o impugnante não se insurgiu expressamente contra eles, e manteve a glosa do IRRF referente aos rendimentos percebidos da empresa Lopes Locação e Serviços Ltda.ME, pois o contribuinte não conseguiu comprovar o desacerto da glosa. O contribuinte foi intimado da decisão a quo, via postal, como se vê pelo AR de fl. 25, no qual não há data de recebimento manual, havendo o carimbo com data de entrega de 16/06/2009 e postagem de 09/06/2009. Irresignado, interpôs recurso voluntário em 29/07/2009 (fl. 26). No voluntário, o recorrente alega, em síntese, que a tempestividade do recurso voluntário deve ser contada a partir da juntada do AR aos autos, na forma do art. 241, I, do CPC, implicando no necessário conhecimento do recurso, e, no mérito, alega que tem um contrato de prestação de serviço de transporte de passageiro com o município de Calçado (PE), Fl. 48DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS, Assinado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 13409.000224/200674 Acórdão n.º 210202.143 S2C1T2 Fl. 2 3 no qual já há a retenção dos tributos federais e municipais, nada havendo, assim, a tributar adicionalmente, como se tentou nestes autos. É o relatório. Voto Conselheiro Giovanni Christian Nunes Campos, Relator O contribuinte foi intimado da decisão a quo no prazo quinze dias após a data da postagem (09/06/2009) da intimação de fls. 23 a 25, pois o intimado ou seu proposto não colocou a data do recebimento no AR de fl. 25, e interpôs o recurso voluntário em 29/07/2009 (fl. 26), quando já fluíra o trintídio legal, que teve seu termo final em 27/07/2009, segundafeira, como se demonstrará a seguir. Para aclarar a afirmação acima, transcrevemse os arts. 5º, 23 e 33 do Decreto nº 70.235/72, que dispõem sobre as formas e prazos de intimação no rito do Processo Administrativo Fiscal: Art. 5º Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Parágrafo único. Os prazos só se iniciam ou vencem no dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato. Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1o , I a III – omissis; § 2° Considerase feita a intimação: Fl. 49DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS, Assinado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS 4 I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) III e IV – omissis; § 3o Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) § 4o Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 5o a §9º omissis. (...) SEÇÃO VI Do Julgamento em Primeira Instância (...) Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. (grifouse) Pelo acima destacado, vêse que o trintídio legal para interposição do recurso voluntário contase da data de ciência anotada no aviso de recebimento AR ou, se omitida (caso destes autos), quinze dias após a data da expedição da intimação. Ainda, os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Pelo que consta dos autos, o contribuinte foi intimado da decisão a quo no prazo de quinze dias contado da expedição do AR de fl. 25 (a intimação foi expedida no dia 09/06/2009), pois não anotou no AR a data que recebeu a correspondência, ou seja, devese considerar o contribuinte intimado da decisão da Turma de julgamento em 24/06/2009, quarta feira, ou 25/06/2009, quintafeira, aqui considerando que o dia 24 de junho é feriado em grande parte dos municípios do nordeste do Brasil, inclusive no Estado de Pernambuco, onde se encontra o domicílio do fiscalizado (Calçado – PE). E interpôs o recurso voluntário em 29/07/2009 (fl. 26), quartafeira. Assim, aqui se toma a data da ciência da decisão da Turma de Julgamento da DRJ como 25/06/2009, por ser mais favorável ao fiscalizado, implicando que o prazo para interposição do recurso voluntário encerrouse no dia 27/07/2009, segundafeira. Dessa forma, quando interposto o recurso voluntário em 29/07/2009, já tinha fluído o prazo legal. Patente, assim, a intempestividade do recurso voluntário, sendo definitiva Fl. 50DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS, Assinado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 13409.000224/200674 Acórdão n.º 210202.143 S2C1T2 Fl. 3 5 a decisão da Turma de Julgamento da DRJ que aqui se recorre, como se vê pelo art. 42 do Decreto nº 70.235/72, verbis: Art. 42. São definitivas as decisões: I de primeira instância esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; (...) À guisa de conclusão, devese ressaltar que os prazos do processo administrativo fiscal são contados na forma da legislação acima transcrita (Decreto nº 70.235/72 PAF), não se aplicando as normas do Código de Processo Civil CPC, como pugnado pelo recorrente, pois as normas do Decreto nº 70.235/72, que tem força de lei ordinária, são específicas, não sendo superadas pelas normas gerais do CPC. Dessa forma, voto no sentido de NÃO CONHECER o recurso voluntário interposto, pois perempto. Assinado digitalmente Giovanni Christian Nunes Campos Fl. 51DF CARF MF Impresso em 18/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS, Assinado digitalmente em 03/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS
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Numero do processo: 12466.000863/2009-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Nov 11 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 14/01/2004 a 09/12/2004 NULIDADE POR VÍCIO DO MPF. AUSÊNCIA. O Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) é instrumento interno de gerenciamento, controle e acompanhamento das atividades de fiscalização. Eventuais falhas em sua emissão ou prorrogação não contaminam o lançamento. HIERARQUIA ENTRE MEIOS DE PROVA. AUSÊNCIA A análise das provas, nos termos do direito processual pátrio, segue o método do livre convencimento motivado, não estabelecendo hierarquia entre os meios de prova, admitindo, por conseguinte, que o julgador forme sua convicção a partir da soma de indícios, principalmente quando, por meio de tais indícios, conclui-se que o fato probando é alvo de simulação. Outrossim, diante de robusto quadro indiciário, capaz de afastar dúvidas acerca da matéria fática, não há espaço para aplicação do art. 112 do Código Tributário Nacional. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 14/01/2004 a 09/12/2004 DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO, DO REAL VENDEDOR, COMPRADOR OU DE RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. O Dano ao Erário decorrente da ocultação das partes envolvidas na operação comercial que fez vir a mercadoria do exterior é hipótese de infração “de mera conduta”, que se materializa quando o sujeito passivo oculta a intervenção de terceiro, independentemente do prejuízo tributário perpetrado. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE.
A imposição de penalidade prevista em lei e cuja onstitucionalidade não foi alvo de questionamento perante o Poder Judiciário não pode ser afastada em face da aplicação de princípios abstratamente citados na Lei nº 9.784, de 1999, só aplicável ao processo administrativo fiscal de maneira subsidiária. Pelo mesmo motivo, não se pode mitigar a incidência da lei vigente em face de suposta violação de princípios constitucionais. Tal medida demandaria exame da constitucionalidade, procedimento vedado a este Colegiado,
segundo o art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.
REFLEXO DO ART. 33 DA LEI Nº 11.488, DE 2007 SOBRE O INCISO V DO ART. 23 DO DECRETOLEI
Nº 1.475, DE 1976. AUSÊNCIA.
O art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 não produz qualquer reflexo sobre a imposição da pena de perdimento ou multa substitutiva à hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação. Jurisprudência.
Recurso de Ofício Provido em Parte e Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3102-001.239
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em dar parcial provimento ao recurso de ofício para restabelecer a fração do lançamento fundada nas declarações de importação nº 04/0253545-8, 04/0804956-6, 04/0908200-1 e negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Luciano Pontes de Maya Gomes, que dava parcial provimento aos recursos voluntário e de ofício para reduzir a multa a 10% do valor aduaneiro, além dos conselheiros Nanci Gama e Álvaro Almeida Filho, que negavam provimento ao recurso de ofício, davam provimento integral ao recurso voluntário e, em segunda manifestação, suscitavam a aplicação da multa de 10% do valor aduaneiro. Fez sustentação oral o advogado Henry Gonçalves Lummertz. A Conselheira Nanci Gama fará declaração de voto.
Nome do relator: LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO
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AUSÊNCIA. O Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) é instrumento interno de gerenciamento, controle e acompanhamento das atividades de fiscalização. Eventuais falhas em sua emissão ou prorrogação não contaminam o lançamento. HIERARQUIA ENTRE MEIOS DE PROVA. AUSÊNCIA A análise das provas, nos termos do direito processual pátrio, segue o método do livre convencimento motivado, não estabelecendo hierarquia entre os meios de prova, admitindo, por conseguinte, que o julgador forme sua convicção a partir da soma de indícios, principalmente quando, por meio de tais indícios, concluise que o fato probando é alvo de simulação. Outrossim, diante de robusto quadro indiciário, capaz de afastar dúvidas acerca da matéria fática, não há espaço para aplicação do art. 112 do Código Tributário Nacional. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 14/01/2004 a 09/12/2004 DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO, DO REAL VENDEDOR, COMPRADOR OU DE RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO. O Dano ao Erário decorrente da ocultação das partes envolvidas na operação comercial que fez vir a mercadoria do exterior é hipótese de infração “de mera conduta”, que se materializa quando o sujeito passivo oculta a intervenção de terceiro, independentemente do prejuízo tributário perpetrado. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. Fl. 1DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.327 2 A imposição de penalidade prevista em lei e cuja constitucionalidade não foi alvo de questionamento perante o Poder Judiciário não pode ser afastada em face da aplicação de princípios abstratamente citados na Lei nº 9.784, de 1999, só aplicável ao processo administrativo fiscal de maneira subsidiária. Pelo mesmo motivo, não se pode mitigar a incidência da lei vigente em face de suposta violação de princípios constitucionais. Tal medida demandaria exame da constitucionalidade, procedimento vedado a este Colegiado, segundo o art. 62 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. REFLEXO DO ART. 33 DA LEI Nº 11.488, DE 2007 SOBRE O INCISO V DO ART. 23 DO DECRETOLEI Nº 1.475, DE 1976. AUSÊNCIA. O art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 não produz qualquer reflexo sobre a imposição da pena de perdimento ou multa substitutiva à hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação. Jurisprudência. Recurso de Ofício Provido em Parte e Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em dar parcial provimento ao recurso de ofício para restabelecer a fração do lançamento fundada nas declarações de importação nº 04/02535458, 04/08049566, 04/09082001 e negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os conselheiros Luciano Pontes de Maya Gomes, que dava parcial provimento aos recursos voluntário e de ofício para reduzir a multa a 10% do valor aduaneiro, além dos conselheiros Nanci Gama e Álvaro Almeida Filho, que negavam provimento ao recurso de ofício, davam provimento integral ao recurso voluntário e, em segunda manifestação, suscitavam a aplicação da multa de 10% do valor aduaneiro. Fez sustentação oral o advogado Henry Gonçalves Lummertz. A Conselheira Nanci Gama fará declaração de voto. (assinado digitalmente) Luis Marcelo Guerra de Castro Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Ricardo Paulo Rosa, Luciano Pontes de Maya Gomes, Mara Cristina Sifuentes, Álvaro Almeida Filho, Nanci Gama e Luis Marcelo Guerra de Castro. Relatório Tratase de recursos voluntário e de ofício apresentados em face do Acórdão 0718.210, da 2ª Tuma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis. Conforme consignado na Descrição dos Fatos às fls. 03 a 60, os despachos de importação relacionados às fls. 03 a 11 encontrarseiam maculados de simulação, em razão de que foram formulados pela pessoa jurídica Viamax Comercio, Importação e Exportação Ltda. Fl. 2DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.328 3 (Viamax), em seu próprio nome, mediante a apresentação de faturas comerciais que externariam a aquisição desta importadora a pessoas jurídicas ligadas a empresas do grupo Nokia sediadas na Alemanha, Finlândia, República da Coréia, República da Hungria, República Popular da China, Austria e EUA, mas que, de fato, representariam aquisições da pessoa jurídica Nokia do Brasil Tecnologia Ltda.(Nokia), apontada como responsável solidária pelo crédito tributário alvo do presente litígio. Tratarseia de uma operação realizada por conta e ordem de terceiros, mas que fora declarada como realizada por conta própria. Aduzse, ainda, falsidade ideológica dos documentos apresentados para instrução do despacho. Sustentase, nessa linha, que, restando caracterizadas duas infrações punidas com o perdimento da mercadoria, no caso a ocultação do real adquirente e responsável pela operação e a apresentação de documento falso para instrução do despacho, e face à impossibilidade de se promover a apreensão das mercadorias, lavrouse o auto de infração alvo do presente processo para cobrança da multa substitutiva da pena de perdimento. Ainda segundo consta do relatório fiscal, tais infrações foram demonstradas a partir do cotejamento entre documentos apresentados para despacho pela pessoa jurídica Viamax, especialmente os conhecimentos de transporte e faturas comerciais, e os documentos que deram apoio à escrituração da pessoa jurídica Nokia, além de outros, intitulados “delivery notes” e das respostas prestadas às intimações formuladas no curso da ação fiscal. Registra, finalmente, a autoridade autuante que a motivação para a simulação seria, por parte da Viamax, a obtenção indevida de benefícios do Fundo para o Desenvolvimento das Atividades Portuárias (Fundap) e, por parte da Nokia, o afastamento da incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) quando da comercialização da mercadorias, além de imposição de prejuízo ao controles próprios da legislação do IRPJ, inerentes às operações de compra e de venda com pessoa jurídica vinculada estabelecida no exterior (preços de transferência). Quanto ao prejuízo ao pagamento do IPI, relata o autuante que, após a intimação para apresentação de esclarecimentos acerca da forma de apuração do imposto, declarara a Nokia que não se creditara no momento da aquisição nem registrara o débito no momento da venda, e que, para a regularização completa do processo, emitira notas fiscais complementares, em Janeiro de 2007, promovendo o recolhimento do imposto. Não teriam sido apresentados documentos que comprovassem tal regularização Devidamente cientificadas, compareceram a autuada e a apontada como solidária ao processo para impugnar o lançamento nos termos expostos separadamente a seguir: 1 Pessoa Jurídica Viamax 1.1 Nulidade do procedimento em face de vício do Mandado de Procedimento Fiscal Segundo aduz, não foi observado o rito fixado na Portaria RFB n.º 11.371, de 2007, que determinou o encerramento de todos os procedimentos fiscais pendentes até 31/12/2007, mediante a competente ciência do sujeito passivo. Fl. 3DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.329 4 Alega, nessa esteira, que o MPF de diligência fora emitido em 19/03/2007, mas somente se aperfeiçoara em 22/10/2008, restando demonstrado, consequentemente, o descumprimento do prazo fixado para sua extinção. Expõe ainda sua convicção acerca do papel do MPF, como elemento que formaliza e valida a ação fiscal. 1.2. Decadência Na medida em que o auto de infração alvo do presente processo somente se aperfeiçoara em 02/04/2009, operase a decadência do direito de promover o lançamento que tivesse como objeto as operações realizadas antes de 02/04/2004. Transcreve o art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional e ementa de julgados proferidos pelo extinto Terceiro Conselho de Contribuintes. 1.3. Ilegitimidade passiva Após trazer considerações acerca da função do lançamento e transcrever citação doutrinária sobre o tema, argui que a penalidade aplicada à Viamax estaria fundada em presunções carregadas de subjetividade e que sob o mesmo manto do “provável” deveriam ser analisados seus argumentos, em estrita obediência aos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Sustenta, ademais, que ação fiscal não poderia basearse em premissas sem demonstrar o caminho percorrido para tanto. Aduz, ainda, que a característica essencial da importação seria a transferência de titularidade. Se, conforme alegado, não importara ou não adquirira, não poderia ser eleito sujeito passivo, nem alvo da aplicação da pena de perdimento. Ataca a aplicação do critério econômico de interpretação, alegadamente o fundamento para a imposição da exigência fiscal. Sustenta, por outro lado, que o Fisco a desqualificara como importadora, acusandoa de simular operações, mas não aponta qual teria sido sua motivação ou economia fiscal alcançada. Reforça, em outro item da impugnação, que o alegado ganho inerente ao Fundap seria auferido independentemente da operação se realizar na modalidade “por conta e ordem” ou “por conta própria”. 1.4. Legalidade das operações Argumenta que os princípios da liberdade fiscal e da capacidade contributiva estão alinhados ao princípio da dignidade humana e da liberdade. Assim, em nome da liberdade fiscal, dever fundamental do Estado e direito fundamental do Contribuinte, caberia ao Estado aceitar a opção fiscal adotada pelo Contribuinte no limite da sua liberdade contributiva e negocial. Cita obras dos juristas José Casalta Nabais, Helenilson Cunha Pontes e Heleno Taveira Torres. Fl. 4DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.330 5 Cita, ademais, trecho do relatório fiscal que demonstraria o histórico regular e lícito da pessoa jurídica, beneficiária do Fundap e devidamente habilitada a atuar no comercio exterior. Sustenta, nessa linha, que o próprio Fisco comprovara a conformidade da sua atuação com as regras que regem sua atividade, não apontando nenhuma conduta ilegal, nessa e nem em qualquer outra operação. 1.5 Ausência de caracterização da intenção deliberada de simular Aduz que, se houvesse intenção de ocultar a pessoa jurídica Nokia, apontada como responsável solidária, não teria apresentado documentos que, de alguma forma, a identificariam. Argumenta que todas as declarações de importação alvo de autuação foram registradas em 2004, época em que as operações seriam usualmente registradas na modalidade “em conta própria” e que a modalidade “por conta e ordem” estaria apenas “engatinhando”, já que teria sido instituída no ano de 2001 e somente regulamentada no ano de 2002, época em que as interpretações acerca da escolha da modalidade de operação ainda seria alvo de divergências por parte da própria Administração Pública. Para comprovar tal divergência, afirma que Declaração de Importação registrada em 27/07/2004, onde foram apresentados documentos com as características que deram ensejo à autuação, foi parametrizada para o canal vermelho de conferência, objeto de verificação física e documental, retificada, e, finalmente, desembaraçada sem que fosse apontada inconsistência acerca da modalidade de importação. Contesta, nessa linha, a alegada clareza da legislação e afirma a ausência de propósito para a prática de irregularidade que colocaria seu empreendimento em risco. Em face desses argumentos, invoca a aplicação do princípio da presunção de inocência, gizado no art. 5º, LVII, da Constituição Federal. Transcreve citação do jurista Roque Carazza acerca do princípio invocado. 1.6 Inexistência de Falsidade Ideológica Afirma que a imputação de falsidade seria desprovida de fundamento, pois a fatura seria autêntica e idônea, na medida em que tal falsidade seria oriunda de presunção de simulação que não restara comprovada, afastandose, como conseqüência, o alegado Dano ao Erário. Ademais, se tal conduta restasse comprovada, a penalidade não poderia recair sobre a Viamax, responsável exclusivamente pela apresentação dos documentos à autoridade aduaneira. Não sendo responsável pela emissão dos documentos, não poderia responder pelas penalidades decorrentes da sua falsificação. 1.7 Ausência de Dano ao Erário. Restando caracterizado que, no presente processo, demonstrouse exclusivamente discordância acerca da qualificação da modalidade de operação, desprovida de elementos que comprovassem o dolo, afastada estaria a conduta típica exposta no inciso V do art. 23 do Decreto Lei nº 1.455, de 1976. Fl. 5DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.331 6 Após transcrever o dispositivo, afirma que a conduta ali tipificada só se aperfeiçoa na hipótese de fraude ou simulação e que a única possibilidade de se presumir uma dessas figuras seria a não comprovação da origem dos recursos empregados. Ademais, para que se caracterizasse a fraude seria imperioso que se revelasse o dano ou ânimo de subtrair tributos. Afirma que todos os tributos foram pagos, não há irregularidade documental e as mercadorias estão de acordo com o que foi declarado. Argumenta que a manutenção da autuação, no seu sentir absurda, a condenaria a incertezas e ao término de suas atividades. 2. Pessoa Jurídica Nokia 2.1 Inobservância do Prazo para Revisão Aduaneira Após transcrever a atual redação do art. 54 do Decretolei nº 37, de 1966 e do art. 570 do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 4543, de 2002, afirma que não foi observado o prazo de 5 anos, contados do registro da DI, para a realização da revisão aduaneira. Cita precedentes do extinto Terceiro Conselho de Contribuintes. Assim, dado que a revisão das declarações registradas até 02/04/2004 só foi concluída em data posterior ao limite legal, caberia afastar a fração do lançamento fundada em tais declarações. 2.2 Violação ao Princípio da Verdade Material Afirma que o lançamento litigioso se baseara em presunções, suposições e ilações, em violação ao princípio da verdade material. Faz considerações acerca do alcance desse princípio, traz citações doutrinárias sobre o tema e cita jurisprudência dos extintos Conselhos de Contribuintes. Argumenta que, se restara imputada à impugnante e à pessoa jurídica Viamax a prática de fraude, caberia fazer prova do dolo, elemento essencial à sua caracterização. Transcreve o art. 72 da Lei nº 4.502, de 1964 e cita jurisprudência dos extintos Conselhos de Contribuintes e do Superior Tribunal de Justiça. Questiona a imputação de penalidade em face do art. 136 do Código Tributário Nacional, na medida em que a conduta apenada exige o dolo para sua prática, o que atrairia a aplicação do art. 137 do mesmo código, que trata da responsabilidade pessoal. Afirma, nessa linha, que a ausência de participação da pessoa jurídica Viamax na transação comercial não foi alvo de comprovação. Defende que, em relação a algumas das declarações de importação, como se verificaria com as de nº 04/05235458 (fls. 10381041), 04/08049566 (fls. 17631765) e 04/06735543 (fls. 13721374), não teriam sido trazidos ao processo elementos diversos dos extratos e das notas fiscais de compra, sem que tenha sido apontado qualquer elemento que possa ser tomado como falso. Registra que, em outros casos, onde são identificadas declarações instruídas com faturas comerciais em que a Nokia seria citada, a exemplo das DI n.ºs 04/02791007 (fls. Fl. 6DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.332 7 575/577), 04/04135409 (fls. 856/858), 04/04136006 (fls. 941/943), 04/04602163 (fls. 951/953) e 04/07341450 (fls. 1538/1541), não haveriam elementos para atribuirlhe a condição de adquirente das mercadorias importadas. Aduz reiteradamente que não haveria elementos para considerar que a Viamax, que poderia perfeitamente adquirir produtos da marca Nokia e comercializálos, não seria a responsável pela aquisição das mercadorias, especialmente quando existente no mercado interno empresa do próprio grupo NOKIA que poderia adquirir essas mercadorias, assim como diversas companhias telefônicas que as vendem. Contesta a imputação de falsidade material de faturas fundada na diferença entre o formato dos documentos, destacando a ausência de norma que obrigue a adoção de um padrão único. Tratandose de emitentes diferentes, sediadas em diferentes países, não haveria como arguir vício dos documentos baseado nesse critério. Ademais, caberia à fiscalização demonstrar qual seria o formato verdadeiro. Conclui, assim, que, além de falho, o critério empregado seria parcial e conveniente para as acusações, pois sustentaria que o formato verdadeiro seria o que informa a participação da Nokia e o falso, o que não indicaria tal participação. Contesta, ainda o poder probante do documento denominado “delivery note”, que não teria o poder de formalizar a operação de compra e venda entabulada nos termos da fatura comercial, verdadeiro documento apto a comprovar essa operação. Em caso de divergência entre os dois documentos, deveria prevalecer o segundo. Por outro lado, ainda que tal documento ou a fatura comercial consigne a expressão “sold to: Nokia do Brasil Tecnologia Ltda.”, ou qualquer outra análoga, caberia considerar a possibilidade de erro. A Nokia do Brasil não poderia figurar como adquirente das mercadorias na medida em que não foi a responsável pelos pagamentos efetuados a empresas no exterior. Pleiteia a realização de diligência junto ao Banco Central do Brasil no intuito de confirmar tal alegação. Contesta a afirmação de que os conhecimentos de transporte seriam ideologicamente falsos na medida em que tais títulos não indicariam a pessoa jurídica Viamax como adquirente das mas como consignatária. Ademais, se admitisse que as importações ocorreram na modalidade “por conta e ordem de terceiros”, não caberia imputarlhes a condição de ideologicamente falsos, na medida em que esta exigência estaria expressamente fixada na IN SRF 225, de 2002. Sustenta, por outro lado, que as faturas relativas às declarações de importação 04/04602180 (fls. 968/970) e 04/09082001 (fls. 1976/1978), foram expedidas por exportadoras que não fazem parte do grupo econômico Nokia, no caso as pessoas jurídicas FOXCONN e PHILLIPS, afastando, pelo menos com relação a essas duas operações, as acusações do Fisco. Insurgese contra a acusação de falsidade da fatura comercial que instruiu a DI n.º 04/04602180 (fls. 968/970) em face de eventuais erros de grafia. Tal acusação seria tão falaciosa quanto a de que a Viamax não poderia importar e comercializar no mercado interno produtos da marca Nokia. Fl. 7DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.333 8 Contesta, ainda, o argumento de que fizera uma opção questionável ao importar mercadorias por meio de recinto alfandegado no Espírito Santo, quando seu estabelecimento fabril estaria situado na Zona Franca de Manaus. Pondera, quanto a tal acusação, que as notas fiscais de saída emitidas pela Viamax evidenciam que os produtos não eram vendidos para o estabelecimento em Manaus, mas para o situado em BarueriSP. Por outro lado, tratandose, na maioria dos casos, de produtos acabados, que não recebem os benefícios fiscais relativos à Zona Franca de Manaus, não haveria motivo para importálos por meio de recinto próximo de seu estabelecimento fabril. A acusação de que teria procurado obter benefícios semelhantes àqueles assegurados pela Zona Franca de Manaus, sem no entanto, sujeitarse à legislação que disciplina esse regime aduaneiro, seria mera ilação. Ademais, o estabelecimento industrial da Nokia do Brasil se encontraria plenamente adequado à legislação que disciplina o regime da Zona Franca de Manaus. Considera igualmente infundada a alegação de que pretenderia se furtar ao controle do preço de transferência: nos termos do § 5º do art. 2º da IN SRF n.º 243, de 2002, esse controle seria igualmente aplicado em aquisições no mercado interno de produtos importados por sua conta e ordem ou por meio de uma importação por encomenda. Restando demonstrado, em face da soma desses argumentos, que o auto de infração litigioso valeuse de indícios e presunções para imputar infrações, caberia aplicar o disposto no art. 112 do CTN, que trata da interpretação mais favorável ao acusado quando houver dúvida quanto às circunstâncias materiais do fato. Consequentemente, ausente a comprovação de que a Nokia seria a adquirente das mercadorias no exterior, não haveria que se falar em interposição fraudulenta ou utilização de documentos falsos no desembaraço aduaneiro de importação, não havendo, em conseqüência, como se pretender aplicar a pena de perdimento ou a multa substitutiva. Defende, em outro giro, que a interposição fraudulenta de terceiros deixara de ser punida com a pena de perdimento, mas com a multa de 10% do valor da operação acobertada. Cita o art. 33 da Lei n.º 11.488, de 2007, aplicável ao presente litígio em face da retroatividade benigna, prevista na alínea “c” do inciso II do art. 106 do CTN. Argumenta, ainda, que não haveria como aplicar, no presente processo, o parágrafo único do art. 116 do CTN, em face da ausência de regulamentação. Os artigos da Medida Provisória n.º 66 de 2002 que trataram do tem não foram alvo de conversão. Finalmente, informa que a imputação relatada pelo autuante e consignada na Ficha nº 06/00306070 do Sistema Radar, no sentido de que a Nokia utilizaria fatura comercial confeccionada no Brasil teria sido afastada em julgamento administrativo promovido pela Delegacia de Julgamento e confirmado pelo Conselho de Contribuintes. Ponderando as razões aduzidas pela autuada, juntamente com o consignado no voto condutor, decidiu o órgão julgador a quo pela manutenção parcial da exigência, conforme se observa na ementa abaixo transcrita: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 14/01/2004 a 09/12/2004 Fl. 8DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.334 9 DILIGÊNCIA. CONTRATOS DE CÂMBIO. DESNECESSIDADE. Na modalidade de importação por conta e ordem de terceiro tanto o importador quanto o adquirente podem figurar no contrato de câmbio, sem que isso a desnature, sendo portanto, irrelevante, para a caracterização, ou não, dessas operações a comprovação de quem figurou nos referidos contratos. Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 14/01/2004 a 09/12/2004 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. O Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) não constitui requisito de validade do lançamento, pois é mero instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimento de auditoria fiscal. Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 06/04/2004 a 09/12/2004 CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO. TRADING. LEGITIMIDADE PASSIVA. Nos termos da legislação aduaneira, respondem pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. IMPORTAÇÃO POR CONTA E ORDEM DE TERCEIRO. OCULTAÇÃO DO COMPRADOR. SIMULAÇÃO. A importação realizada por conta e ordem de terceiro pode ser comprovada pelo Fisco tanto pela demonstração de que a operação de comércio exterior não foi realizada com recursos do próprio importador quanto pela demonstração de que a fatura comercial ou qualquer outro documento, emitido pelo exportador, identifica outro adquirente que não aquele que figura na DI, a um só tempo, como importador e adquirente da mercadoria importada, cabendo ao impugnante apresentar prova em contrário. FALSIDADE DOCUMENTAL. FALTA DE CONTESTAÇÃO ESPECÍFICA. A falta de esclarecimento ou de contestação específica acerca dos pressupostos adotados pelo Fisco para amparar a imputação, torna incontroversa, na espécie, a infração de falsidade documental. FALSIDADE MATERIAL. FATURA. A imputação de falsidade material da fatura comercial fundada em aspectos da grafia do documento impõe à fiscalização o encargo de juntar ao processo a pretensa fatura comercial verdadeira, de molde a se poder verificar se os elementos apontados pela fiscalização são, ou não, indicativos da aludida falsidade material. Fl. 9DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.335 10 DANO AO ERÁRIO. PROVA. A infração caracterizadora do dano ao Erário deve ser demonstrada pelo Fisco com a juntada aos autos dos documentos hábeis à sua comprovação. IMPORTAÇÃO. OCULTAÇÃO DO REAL COMPRADOR. SIMULAÇÃO. Convertese em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias que foram importadas mediante interposição fraudulenta que não sejam localizadas ou que tenham sido consumidas. Período apuração: 14/01/2004 a 02/04/2004 CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO EM MULTA. DECADÊNCIA. O direito de impor penalidade extinguese em cinco anos, a contar da data da infração. Impugnação Procedente em Parte Regularmente cientificadas, comparecem as pessoas jurídicas para, em sede de recurso voluntário, essencialmente, repisar os pontos de inconformidade manejados por ocasião da instauração da fase litigiosa, acrescentando, com relação ao julgamento recorrido, o que se segue: 1 Pessoa jurídica Viamax; 1.1 Quanto à nulidade do procedimento por vício do MPF: Seria inaceitável o entendimento de que o MPF seria um mero ato de controle da fiscalização. Estarseia diante de ato vinculado e, como tal, não se poderia admitir que normas a ele atreladas não seriam dotadas de poder de coerção, cujo descumprimento não vicie o ato administrativo. 1.2 Documentação apontada como ideológica ou materialmente falsa. Esclarece que a alegada inconsistência entre as faturas comerciais e os conhecimentos de transporte, que consignaram como exportador a pessoa jurídica NOKIA MOBILE PHONES, quando deveria ter informado a pessoa jurídica NOKIA INC seria fruto de desatualização de dados cadastrais da transportadora. Junta, na oportunidade, declaração da pessoa jurídica DHL Logistics ratificando tal informação. Cita jurisprudência dos extintos Conselhos de Contribuintes admitindo a juntada de prova na fase recursal. 1.3 Divergência na Administração acerca da qualificação da operação de comercio exterior. A fim de demonstrar a procedência de seus argumentos acerca da controvérsia afeta à definição da modalidade de operação correta, ou seja, se a importação deveria ser declarada como “por conta própria” ou “por conta e ordem”, aduz que o próprio Fl. 10DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.336 11 relator admitira o equívoco quando da qualificação dos sujeitos passivos. Transcreve trecho do voto condutor. 1.4. Ausência de Dano ao Erário Sustenta que o órgão de primeira instância não logrou êxito em demonstrar o dano perpetrado pela conduta atribuída ao sujeito passivo. Argumenta que o perdimento só se justifica nas hipóteses em que a mercadoria se encontra em situação irregular ou que seu proprietário deixou de atender aos preceitos legais, hipóteses não verificadas no presente processo. Cita jurisprudência dos Tribunais Superiores acerca da inaplicabilidade da pena de perdimento a mercadorias adquiridas de boafé. 1.5. Excesso de Exação Desobediência dos Princípios da Razoabilidade e Proporcionalidade Faz considerações acerca do princípio da proporcionalidade e sua aplicação como um limitador à discricionariedade administrativa. Sustenta que a aplicação da lei deve ser congruente com os fins por ela visados. Transcreve doutrina. Aduz que, apesar da Lei nº 9.784, de 1999, fazer menção aos princípios da razoabilidade de proporcionalidade separadamente, na realidade, a proporcionalidade constituiria um dos aspectos da razoabilidade. Sustenta, que essa proporcionalidade deve ser medida diante do caso concreto, fator que igualmente reduziria a liberdade para decisão. Esclarece que o princípio da razoabilidade, sob a feição da proporcionalidade entre meios e fins, estaria contido implicitamente no art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 9.784/99, que impõe à Administração Pública, em seu inciso V, a adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público . 1.6 Retroatividade Benigna Considerando que a penalidade prevista no art.33 da Lei n° 11.488/2007, posteriormente editado, é menos severa que a sanção originalmente imposta pela ocultação do real adquirente, se restasse caracterizada irregularidade apontada, a multa a ser aplicada seria a capitulada no dispositivo novel. 2 Pessoa Jurídica Nokia 2.1 Impossibilidade de se formalizar o lançamento sem a comprovação das irregularidades Inicialmente, tece considerações acerca do ônus da prova e traz à colação excertos da obra de Alberto Xavier e de Leandro Paulsen e René Bergman Ávila e transcreve o art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972. Reitera, em seguida, suas considerações relativas à aplicação do princípio da verdade material, além de sua convicção acerca da impossibilidade de se fundamentar a Fl. 11DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.337 12 exigência com base em presunções e ilações. Cita jurisprudência do extinto Conselho de Contribuintes. Argumenta que a acusação de interposição fraudulenta de terceiros ou utilização de documento falso não pode ser formulada em razão do conjunto de operações. Tal infração diz respeito a cada importação, Na mesma linha, os meios de prova deveriam ser apresentados e avaliados em relação a cada uma dessas operações. Assim, ainda que se admitisse a utilização de prova indiciária, tal quadro estaria adstrito às importações em relação às quais a Fiscalização produzira algum elemento material. Em relação às demais, só existiriam suspeitas ou presunções, insuficientes para embasar o lançamento. 2.2 Elementos que deveriam ter sido provados Entende a recorrente que, para a caracterização das infrações indicadas, interposição fraudulenta e uso de documento falso caberia trazer ao processo elementos que dessem respaldo a tal acusação. Aduz, nessa esteira, que as conclusões do Fisco partiriam da premissa de que a Recorrente deveria ter sido indicada nas declarações de importação como adquirente das mercadorias importadas no exterior. Apenas em tal hipótese restaria caracterizada a interposição fraudulenta de terceiro e, consequentemente, tornarseiam as declarações ideologicamente falsas. Transcreve o art. 23, V do DL nº 1.455, de 1976. Como consequência, para a caracterização da infração, não seria suficiente demonstrar que a recorrente participou da operação. Seria necessário comprovar que, à época dos despachos esta participação deveria ser consignada nas declarações. Ocorre que, à época dos despachos, ainda não haveria preceito que determinasse a identificação do encomendante. Essa indicação só se tornou obrigatória quando do início da vigência da IN 634, de 24 de março de 2006, ou pelo menos do art. 13 da Lei nº 11.281, de 20 de fevereiro de 2006. Traça as características da importação por encomenda e as justificativas para sua criação e, em seguida, expõe sua convicção no sentido de que, segundo o autuante, as operações realizadas por conta do importador, mas por ordem do adquirente se enquadrariam no conceito de “por encomenda”. Assim, ainda que se admitisse que as operações objeto do presente processo se realizaram nessa modalidade, não haveria como impor penalidades à recorrente pela omissão de sua indicação nas declarações, a menos que restasse demonstrado que as operações enquadrariam na modalidade “por conta e ordem de terceiro”. Para tanto, deveria provar que a operação, além de se realizar “por ordem”, teria igualmente se realizado “por conta” do importador. Sustenta, nessa linha, que a característica fundamental que demarca a operação como “por conta e ordem de terceiros” seria a origem dos recursos empregados. Cita o art. 1º da IN 225, de 2002. Fl. 12DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.338 13 Em face de todos esses argumentos, sem a comprovação de que a Viamax não disporia de recursos próprios para fazer face às operações, cairiam por terra os fundamentos da exigência. Posteriormente, após reiterar os argumentos acerca da não caracterização do dolo, passa à exposição pormenorizada dos elementos que, no seu sentir, demonstrariam os equívocos do julgamento alvo de recurso. Após expor que, para efeito do julgamento da lide, seria incontroverso que fechamento do contrato de câmbio teria sido efetuado pela pessoa jurídica Viamax, que também arcara com o pagamento das despesas relativas à importação, reitera seus argumentos acerca da fragilidade dos elementos de prova carreados. Afirma que adquirente é aquele que promove o pagamento e contesta a conclusão de que as faturas informariam quem seria o adquirente da mercadoria, aduzindo que tais documentos identificariam exclusivamente o comprador, enquanto partícipe da operação de compra e venda internacional, não contendo, nessa senda, informação acerca da origem dos recursos aplicados na operação. Ausente tal indicação, não haveria como excluir a possibilidade de erro nesse documento. O acórdão recorrido reconheceria que a indicação da pessoa jurídica na fatura não seria a prova cabal da condição de adquirente. Enumera as operações em que a fatura comercial indica a pessoa jurídica Viamax como adquirente, mas que a exigência foi mantida com base nas informações colhidas nas export notes e, mais uma vez, argumenta que, na discrepância entre os documentos, prevaleceria a fatura, a rigor o único apto a comprovar as características da operação. Aponta contradição no raciocínio, sustentando que, nas hipóteses em que a recorrente figurou na fatura, este documento seria suficiente para comprovar que esta seria a verdadeira adquirente e, quando não constou, atribuise valor probante ao “export note”. Defende que a circunstância da nota de compra identificar a Nokia como compradora (customer) das mercadorias e a fatura comercial não identificar a Viamax como adquirente, mas exclusivamente como importadora, não possuem a relevância assumida pelo acórdão recorrido. No seu sentir, a circunstância de a Viamax ser indicada como “importer" e não como "customer" não indica que tal pessoa jurídica não seja a adquirente da mercadoria. Tal indicação decorreria do formato da fatura comercial utilizada pelo exportador, Nokia GMbh, que emitiu as faturas que instruíram as declarações listadas. As operações da Nokia OYJ, da Nokia TMC LTD, da Beijing Nokia Mobile Telecommunication Ltd., da Dongguan Nokia Mobile Phones Co Ltd., da Philips e da Foxconn identificam o destinatário da mercadoria. importada como, "importer", enquanto outros exportadores o identificam como "customer". Registra que a expressão “customer” não poderia ser traduzida como “adquirente”, mas como “cliente”. Assim, se for empregado o significado literal, chegarseia à conclusão de que nenhum dos documentos constaria a informação de que a Nokia seria a adquirente das mercadorias. Aduz que o acórdão recorrido teria mais uma vez empregado “dois pesos e duas medidas” para valoração da prova, pois traduzira a expressão “customer” como Fl. 13DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.339 14 adquirente, mesmo quando esse não seria o seu significado literal, mas se negou a empregar esse critério para a tradição da expressão “importer”, emprestandolhe uma tradução literal e afirmando que se trataria de “importador”. Não haveria, portanto, para tratar de maneira diversa as faturas comerciais em que é indicada a Viamax apenas porque ela teria sido indicada como “importer” e não como “customer”. Em seguida, após transcrever trecho do relatório fiscal, aponta equívoco por parte do acórdão recorrido ao afirmar que o perdimento não estaria fundado na falha na qualificação da Viamax nos conhecimentos de transporte. Da mesma forma, contesta a conclusão do aresto recorrido no sentido de que a acusação de falsidade das faturas não estaria escorada na diferença de formato. Aduz, com relação a este ponto, que um dos elementos em que o autuante se fundou para a lavratura teria sido, sim, tal diferença de formato. Transcreve trecho que encerraria tal informação. Reafirma os argumentos acerca da validade dos conhecimentos, transcrevendo trecho da instrução normativa que disciplina a importação por conta e ordem e reforça a fragilidade da acusação de falsidade com base nas características extrínsecas das faturas. Esclarece que "Nokia Mobile Phones Inc." seria a antiga denominação da empresa "Nokia Inc.", conforme documentos que anexou aos autos, justificando a divergência entre as faturas comerciais e os conhecimentos de transporte, afastando, ademais, a alegação de que as pessoas jurídicas seriam empresas diferentes. Tratamse de denominações diferentes da mesma empresa. Consigna, assim, que as alegadas divergências, insuficientes para que se considere o documento falsificado, seriam fruto de erro de preenchimento. Aduz equívoco do acórdão recorrido em considerar que a alegação de falsidade da declaração de importação nº 04/06735543 tornarase incontroversa, em face da ausência de esclarecimento ou contestação específica. Transcreve trechos da impugnação onde acusa a ausência de provas da alegada falsidade e indica que tal declaração se enquadra nessa hipótese. Reitera que os documentos acostados (nota fiscal de saída, packing list e conhecimento de transporte) indicam a Viamax como adquirente da mercadoria. Aponta que o documento acostado a tal declaração (fls. 1376) não corresponderia a uma invoice, mas a um packing list, fato que se comprovaria por meio de comparação com faturas acostadas às fls. 1287 e 1386, por exemplo. Assim, não haveria elementos para afirmar que a operação ocorrera por conta e ordem de terceiros. Para tanto, seria necessário acostar uma fatura comercial ou a nota de entrega. Também não haveria como afirmar a falsidade dos documentos necessários ao desembaraço, hipótese em que, segundo restaria consignado no acórdão recorrido, deveriam ser apresentados, além dos documentos indicados, o conhecimento de transporte. Fl. 14DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.340 15 Arremata arguindo que, na linha desenvolvida pelo acórdão recorrido, o lançamento deveria ser igualmente considerado como prejudicado por falta de provas. Após reiterar que a acusação da não participação da pessoa jurídica Viamax estaria desprovida de provas, aponta suposta divergência entre as planilhas de fls. 42, onde são listadas 57 declarações alegadamente instruídas com documentos falsos, e o total de declarações consideradas maculadas, 270. Se somente 57 estariam escoradas em meios de prova, não haveria qualquer indício em relação às demais. Reitera a sua convicção acerca do poder probante das faturas comerciais. 2.3 Ausência de Prova do Dolo Sustenta que o acórdão recorrido não lograra demonstrar que haveria nos autos prova de que a Viamax e a Recorrente agiram dolosamente, preferindo sustentar que tal prova não seria necessária. Contesta tal conclusão arguindo que, como restara demonstrado à saciedade, a prova do dolo específico seria essencial, para que o auto de infração pudesse prevalecer. Contesta igualmente a afirmação consignada no acórdão recorrido no sentido de que a comprovação da ocultação somente possível em sede de procedimento de revisão aduaneira, o que justificaria o desembaraço de diversas declarações de importação parametrizadas para os canais vermelho e amarelo sem que a correta identificação das partes fosse questionada. Segundo aduz, se o Acórdão recorrido fixou o entendimento no sentido de que o exame das faturas e dos AWB seria suficiente para a prova do ilícito e tais documentos instruem a declaração de importação. Consequentemente, tais infrações poderiam ser sido identificadas no curso do despacho de importação. Assim, afirma, mais uma vez, que, em face de tais desembaraços, poderia assumir o entendimento de que não estaria cometendo alguma irregularidade. 2.4 Retroatividade Benigna Após reiterar as alegações acerca da aplicação retroativa do art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, traz à colação entendimento assentado em julgados da DRJ São Paulo II, no sentido de que o dispositivo novel teria como agente apenas o importador ou exportador ostensivo, aquele que cede o nome, em face da aplicação do princípio que veda o bis in idem. Indica o número dos acórdãos e a data em que foram prolatados. Argui, ademais, que a aplicação do § 3º do art. 727 do Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto nº 6.759, de 2009, expressamente citado pelo acórdão recorrido, estaria restrita às hipóteses em que multa de 10% seria aplicada em conjunto com o perdimento. Ou seja, quando se configurassem infrações distintas ou sujeitos passivos distintos. No presente processo, segundo aduz, as penalidades seriam aplicadas ao mesmo sujeito passivo e em razão da mesma infração. Fl. 15DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.341 16 Foi apresentado recurso de ofício relativo ao montante exonerado em razão do reconhecimento da decadência relativamente às declarações de importação registradas em data anterior a 5 anos, contados da data da formalização da exigência. É o Relatório. Voto Conselheiro Luis Marcelo Guerra de Castro, Relator Tomo conhecimento do presente recurso, que foi tempestivamente apresentado e trata de matéria afeta à competência desta Terceira Seção. Em nome da clareza, analiso separadamente cada um dos pontos sobre os quais se formou o presente litígio. 1 Preliminarmente Vício do Mandado de Procedimento Fiscal. Sustenta o sujeito passivo a nulidade do auto de infração em razão de vício do MPF que o teria dado suporte. Segundo aduz, a norma disciplinadora da sua expedição determinaria seu encerramento e conversão até determinada data. Descumprida tal determinação, restara viciada a exigência fundada no referido mandado. Peço vênia para não acatar tal pedido. Como é cediço, o art.59 do Decreto nº 70.235, de 1972 é suficientemente claro quando enumera as hipóteses de nulidade do procedimento: cerceamento do direito de defesa e incompetência do agente, hipóteses que não guardam relação com suposta falha na emissão do MPF. Inegável, ademais, que o dever de promover o lançamento de ofício encontra se gizado no parágrafo único do art. 142 do Código Tributário Nacional1 e o seu descumprimento caracterizaria violação, sujeita a responsabilização do agente legalmente competente, o AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, nos termos do art. 6º, I, “a” 2, da Lei nº 10.593, de 6 de dezembro de 2002. Nesse ponto, penso que a remansosa jurisprudência dos extintos Conselhos de Contribuintes andou bem quando firmou norte jurisprudencial semelhante ao adotado. Confirase: Acórdão 10423228, da 4ª Turma do Primeiro Conselho de Contribuintes, Sessão de 29/05/2008 1 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. 2 Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal, no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda, relativamente aos tributos e às contribuições por ela administrados: (Vide Medida Provisória nº 258, de 2005) I em caráter privativo: (Vide Medida Provisória nº 258, de 2005) a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário; (Vide Medida Provisória nº 258, de 2005) Fl. 16DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.342 17 “MPF MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL DEMONSTRATIVO DE EMISSÃO E PRORROGAÇÃO CIÊNCIA O MPF Mandado de Procedimento Fiscal é instrumento de controle administrativo e de informação ao contribuinte. Seu vencimento não constitui, por si só, causa de nulidade do lançamento e nem provoca a reaquisição de espontaneidade por parte do sujeito passivo. Eventuais omissões ou incorreções no Mandado de Procedimento Fiscal não são causa de nulidade do auto de infração. Ademais, o suposto vício estaria em processo estranho aos presentes autos. Acórdão 10516427, da 5ª Turma do Primeiro Conselho de Contribuintes, Sessão de 26/04/2007: IRPJ PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL MPF AUSÊNCIA DE NULIDADE O MPF Mandado de Procedimento Fiscal é instrumento de controle administrativo e de informação ao contribuinte. Eventuais omissões ou incorreções no Mandado de Procedimento Fiscal não são causa de nulidade do auto de infração. Acórdão 10516209, da 5ª Turma do Primeiro Conselho de Contribuintes, Sessão de 07/12/2006: IRPJ PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL MPF AUSÊNCIA DE NULIDADE O MPF Mandado de Procedimento Fiscal é instrumento de controle administrativo e de informação ao contribuinte. Seu vencimento não constitui, por si só, causa de nulidade do lançamento e nem provoca a reaquisição de espontaneidade por parte do sujeito passivo. Eventuais omissões ou incorreções no Mandado de Procedimento Fiscal não são causa de nulidade do auto de infração. Acórdão 10195760 da 1ª Turma do Primeiro Conselho de Contribuintes, Sessão de 21/09/2006: MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL – Eventuais omissões ou incorreções no Mandado de Procedimento Fiscal não são causa de nulidade do auto de infração, porquanto, sua função é de dar ao sujeito passivo da obrigação tributária conhecimento da realização de procedimento fiscal contra si intentado, como também, de planejamento e controle interno das atividades e procedimentos fiscais, tendo em vista que o Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, devidamente investido em suas funções, é competente para o exercício da atividade administrativa de lançamento. Acórdão 10515854, da 5ª Turma do Primeiro Conselho de Contribuintes, Sessão de 26/07/2006: MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL Eventuais omissões ou incorreções no Mandado de Procedimento Fiscal não são causa de nulidade do auto de infração, porquanto, sua função é de dar ao sujeito passivo da obrigação tributária Fl. 17DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.343 18 conhecimento da realização de procedimento fiscal contra si intentado, como também, de planejamento e controle interno das atividades e procedimentos fiscais, tendo em vista que o Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, devidamente investido em suas funções, é competente para o exercício da atividade administrativa de lançamento. NULIDADE DO LANÇAMENTO Não há o que se falar em nulidade do lançamento, quando obedecidos os pressupostos contidos no Decreto nº 70.235/72. Afasto, consequentemente, a preliminar de nulidade fundada na alegação de vício do Mandado de Procedimento Fiscal. 2 Mérito 2.1 Prejudicial de Decadência Decidiu o órgão julgador de primeira instância que a fração do lançamento fundada nas declarações registradas até 02/04/2004 deveria ser afastada, em face da decadência. Considerouse, assim, que as infrações litigiosas se aperfeiçoaram na data do registro da DI, quando se iniciaria a contagem do prazo decadencial de cinco anos. Tomouse como referência, para tanto, a combinação dos comandos fixados nos artigos 138 e 139 do Decretolei n.º 37, de 1966, assim redigidos: Art.138 O direito de exigir o tributo extinguese em 5 (cinco) anos, a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido lançado. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) Parágrafo único. Tratandose de exigência de diferença de tributo, contarseá o prazo a partir do pagamento efetuado. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) Art.139 No mesmo prazo do artigo anterior se extingue o direito de impor penalidade, a contar da data da infração. Assim, tendo em vista que a ciência do lançamento ocorreu em 02/04/2009, a possibilidade de se impor multa sobre as operações registradas entre 14/01/2004 e 02/04/2004 encontrarseia fulminada. Em que pese a aparente inconstitucionalidade formal do dispositivo, que avança sobre matéria afeta à lei complementar, como se manifestou o Supremo Tribunal Federal, por meio da Súmula Vinculante nº 8, não há como negar a higidez do acórdão submetido a reexame. Aliás, o chefe do Poder Executivo, em pelo menos duas oportunidades, reforçou a aplicabilidade do dispositivo, na medida em que o fez reproduzir no art. 669 do Fl. 18DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.344 19 Regulamento Aduaneiro de 2002, aprovado pelo Decreto nº 4.543/20023, e no art. 753 do Regulamento Aduaneiro de 20094, aprovado pelo Decreto nº 6.759/2009. Tratandose de ato, vigente e com status de lei, ou de decreto presidencial que não foram alvo de medida judicial tendente a questionar sua constitucionalidade, em observância ao art. 26A do Decreto nº 70.235, de 19725, não há como deixar de aplicála. Consequentemente, nego provimento ao recurso de ofício quanto a esta fração do lançamento. A fração do lançamento afastada por motivo diverso, relativa às declarações de importação nº 04/04602180 (fls. 967 a 975), 04/02535458 (fls. 1038/1041), 04/08049566 (fls. 1763/1765) e 04/09082001 (fls. 1976/1978), igualmente alvo de recurso de ofício, será analisada adiante, em conjunto com os argumentos atrelados ao recurso voluntário. 2.2 Ilegitimidade Passiva Não vejo como afastar, de plano, a responsabilidade das pessoas jurídicas indicadas como solidárias, e o principal elemento que leva a tal convicção é a natureza da acusação imputada. De fato, no presente processo, não se discute hipótese de responsabilidade solidária pelo pagamento de tributos, prevista no art. 124, I do CTN, cognominada “solidariedade de fato”, assim definida por Marcos Vinicius Neder6: No inc. I do art. 124, do CTN, foram definidos como devedores solidários aqueles que tenham interesse comum “na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal”. Assim, o antecedente da norma individual e concreta de responsabilidade descreve um fato não tributário interesse comum, cuja efeito jurídico será a inclusão de terceiro interessado no pólo passivo da obrigação principal de forma solidária aos demais devedores, sem necessidade de outra previsão legal. Aqui, discutese a aplicação de penalidade pelo descumprimento de obrigação acessória. Ou seja, obrigação tributária consubstanciada nos autos decorre da “conversão” instituída no § 3º do art. 1137 do mesmo CTN. Assim, todo debate acerca da apuração da responsabilidade não se situa no plano da avaliação do interesse comum ou da condição de contribuinte dos impostos, mas exclusivamente na investigação da coautoria. 3 Art. 669. O direito de impor penalidade extinguese em cinco anos, a contar da data da infração (Decretolei no 37, de 1966, art. 139). 4 Art. 753. O direito de impor penalidade extinguese em cinco anos, contados da data da infração (DecretoLei no 37, de 1966, art. 139). 5 Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) 6 Solidariedade de Direito e de Fato Reflexões acerca do seu Conceito, in Responsabilidade Tributária. Coordenadores Maria Rita Ferragut e Marcos Vinicius Neder. São Paulo. Dialética, 2007, p. 36. 7 § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. Fl. 19DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.345 20 No intuito de melhor explicitar meu ponto de vista, recorro mais uma vez à Doutrina, no caso, de Luciano Amaro8 (original não destacado): “Com certeza, ninguém duvidará de que o contribuinte seja pessoa que recolhe tributo, mas é inconcebível a idéia de contribuinte referida a alguém não na condição de pagador de tributos, mas na de pagador de multas pecuniárias [..]Aproveitando a linguagem do Código, se alguém que tem ‘relação pessoal e direta’ com o fato gerador é contribuinte, quem tem a ‘relação pessoal e direta’ com uma infração é infrator, nunca contribuinte” (...) Fica evidente que as categorias de ‘contribuinte’ e de ‘responsável’ foram estruturadas a partir do fato gerador do tributo (e não ‘fato gerador da penalidade pecuniária’, qualificação que o Código acaba, pelo menos implicitamente, dando à infração tributária) (...) A questão do vínculo entre o infrator (agente) e a infração (ação ou omissão) não se põe em termos de ‘relação pessoal e direta’ ou relação oblíqua com o ‘fato gerador’. O problema é de autoria, tout court. É infrator (agente) quem tenha o dever legal de adotar certa conduta (comissiva ou omissiva) e descumpre esse dever, sujeitandose, por via de consequência, à sanção que a lei comine. [...]Responsável, no que tange à responsabilidade por infrações, é a pessoa (não necessariamente o contribuinte de algum tributo) que, por ter praticado uma infração, deve responder por ela, vale dizer, deve submeterse às consequências legais do seu ato ilícito. Nesse contexto, a análise da solidariedade deve levar em consideração o comando do art. 603, I do Regulamento Aduaneiro aprovado pelo Decreto nº 4.543, de 2002, que reproduz o art. 95, I do Decretolei nº 37, de 1966. Diz o dispositivo (original não destacado): Art. 603. Respondem pela infração (Decretolei nº 37, de 1966, art. 95): I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática ou dela se beneficie; Dito isto, cabe analisar a conduta imputada às partes e de que forma estas concorreram para a prática das infrações apontadas pelo Fisco. A principal acusação, encontrase capitulada no art. 23, V do Decreto nº 1.455, de 1976, incluído pela Medida Provisória nº 66, de 2002, posteriormente convertida pela Lei nº 10637, de 2002. Vejase o que diz o dispositivo: 8 Direito Tributário Brasileiro. São Paulo. 2010. Saraiva, 16ª ed. p.332 Fl. 20DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.346 21 Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros; Analisando a peça fiscal, chegase à conclusão de que restou claramente exposto o papel de cada uma das pessoa jurídicas na conduta: a Viamax se apresentara como importador ostensivo e se atribuíra falsamente a condição de adquirente da mercadoria, enquanto a Nokia, embora tenha adquirido as mercadorias no exterior, permanecera oculta, pela interposição de um terceiro entre tal pessoa jurídica e o exportador. Resta evidente, a meu ver, que sem a atuação coordenada dessas duas pessoas jurídicas não haveria como perpetrar a conduta tipificada. Com efeito, se a lei pune a interposição de pessoas, evidentemente, todos que colaboraram na perpetração dessa conduta devem responder conjuntamente pela penalidade que lhe é imputada: tanto quem ocultou quanto quem foi ocultado. Igualmente descabida, a meu ver, é a pretensão de anular o lançamento em razão da qualificação atribuída às pessoas jurídicas Viamax e Nokia (a primeira como importadora e a segunda como responsável solidária). Impende recordar que a acusação formalizada pelo Fisco é a de que se verificou, na espécie, operações por conta e ordem sem que fossem cumpridas as obrigações inerentes a tal modalidade. Assim, a imposição da responsabilidade solidária ao adquirente estaria alinhada com o parágrafo único, III, do art. 32 do Decretolei 37, de 1966, conforme a redação que lhe foi fornecida pelo art. 77 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, que diz: "Parágrafo único.É responsável solidário: (...) III o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora." Ora, se o Fisco entendeu que a Viamax atuou como importadora e a Nokia como adquirente, ainda que oculta, nada mais coerente do que atribuirlhes a qualificação fixada no auto de infração. Finalmente, entendo igualmente descabida a pretensão de excluir uma das partes do rol dos responsáveis pela prática da segunda conduta alegadamente perpetrada, assim descrita pela legislação que a apenou: Art.105 Aplicase a pena de perda da mercadoria: (...) Fl. 21DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.347 22 VI estrangeira ou nacional, na importação ou na exportação, se qualquer documento necessário ao seu embarque ou desembaraço tiver sido falsificado ou adulterado; Com efeito, conforme expôs a autoridade autuante, os documentos de instrução do despacho seriam ideologicamente falsos em razão de que aparentariam a realização de uma operação comercial em termos diversos daqueles efetivamente praticados. Ora, se esse vício, relembrese, decorre da interposição de pessoas, que, conforme já se expôs, teria se perpetrado por meio da atuação duas pessoas jurídicas, no caso a Viamax e a Nokia, evidentemente, se confirmada a infração principal, fato que será melhor analisado a seguir, essas duas pessoas seriam igualmente responsáveis por esta segunda infração. 2.3 Materialidade da Conduta 2.3.1 Interposição Fraudulenta de Pessoas 2.3.1.1 Caracterização Antes de adentrar na análise das condutas imputadas e, evidentemente, da comprovação da sua prática, deixo registrado que a indicação de duas infrações, igualmente puníveis com a pena de perdimento, ou a exclusão de uma delas, em princípio, não traria qualquer conseqüência para o julgamento do litígio, bastaria que se configurasse a infração principal, a interposição de pessoas, para que a penalidade fosse mantida em sua integralidade. De outra banda, se afastada essa infração principal, não haveria que se falar em falsidade ideológica dos documentos de instrução do despacho, na medida em que estaria confirmada a higidez das informações constantes desses documentos. Daí porque, esta análise se concentrará na acusação de interposição de pessoas. Sustentase em sede de recurso, relembrese, que o aperfeiçoamento de tal infração capitulada no art. 23, V do Decretolei nº 1.455, de 1976, já transcrito acima, exigiria o dolo específico, representado pela intenção de burlar o pagamento de impostos. Consequentemente, a caracterização da coautoria também exigiria tal elemento psicológico. Com a devida licença, não acompanho tal raciocínio. A conduta apenada é, como se viu, “ocultar o sujeito passivo, o real vendedor, comprador ou o responsável pela operação”, mediante (e não com a finalidade de) fraude ou simulação. De fato, ante à impossibilidade de prever, elencar e combater todas as conseqüências da ocultação das partes envolvidas na operação, o Legislador Pátrio, a exemplo de outros países, optou por combater esse meio de execução. Fl. 22DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.348 23 Nessa linha, não vejo como condicionar a caracterização da infração ou da coautoria à demonstração da circunstância elencada no art. 72 da Lei nº 4.502, de 19649. Basta, portanto, que se demonstre a presença de simulação, conceituada no § 1º do art. 166 da Lei nº 10.406, de 2002 (Novo Código Civil): §1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; Comentando tais conceitos, que, à época da edição da obra, encontravamse gizados no art. 102 do Código Civil de 1917, expôs Alberto Xavier10: Compreendese, ainda, nas hipóteses de presunção relativa o caso da simulação subjetiva ou interposição fictícia de pessoas, prevista no art. 102 do Código Civil, quando os atos jurídicos que aparentam conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas das quem, realmente, se conferem ou transmitem. Nestes casos, existem dois atos jurídicos (o simulado e o dissimulado) pertencentes ao mesmo tipo negocial, pelo que a simulação não incide sob a natureza do negócio ou sobre seu valor, mas sobre o elemento subjetivo, visto que a pessoa a quem realmente interessa o negócio dissimulado, correspondente à vontade real, não ser a que figura de modo ostensivo no negócio simulado. A avaliação da conduta (e a intenção de praticála), portanto, não estaria focada na busca de subtrair o pagamento do imposto, mas na intenção de ocultar a participação da pessoa jurídica apontada como adquirente da mercadoria. Igualmente descabida, a meu ver é a pretensão de vincular a caracterização da condição de adquirente à comprovação do fechamento do câmbio das operações. Ora, adquirente, como é de conhecimento geral, é aquele que adquire o domínio ou, nos termos do Dicionário Houaiss11, que se torna proprietário, de um bem, móvel ou imóvel, através de venda, troca, herança, doação ou qualquer outro meio legal. No caso dos autos, a aquisição do domínio, segundo informado ao Fisco, decorreria de contrato de compra e venda, onde sabidamente, o pagamento do preço não é elemento da formação do vínculo contratual. Quanto a esse ponto, esclarece Orlando Gomes Orlando Gomes12: Três são os elementos essenciais da compra e venda: res, pretium et consensus. Quer significar com isso que está perfeito 9 Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. 10Tipicidade da Tributação, Simulação e Norma Antielisiva. São Paulo, 2001, Dialética, p. 55. 11 Edição eletrônica, disponível em http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=adquirente&stype=k 12 Contratos. Rio de Janeiro. Forense. 1994, 4ª ed., atualizada por Humberto Theodoro Júnior, p. 227. Fl. 23DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.349 24 e acabado quando se verifica, quanto à coisa e ao preço, o consentimento. Os dois primeiros constituem o objeto do contrato. A compra e venda se forma obviamente pelo consentimento das partes, mas ao enfatizar o consensus como um dos elementos essenciais do contrato, querse acentuar sua natureza simplesmente consensual, para deixar claro que a entrega da coisa vendida não é necessária à sua perfeição. Basta, com efeito, o simples consentimento, do qual para o vendedor a obrigação de entregar a coisa e para o comprador a de pagar o preço. Ora, se comprador (e adquirente, no caso do contrato de compra e venda) é aquele que estipula o negócio jurídico, que se forma independentemente do pagamento do preço, a responsabilidade pela remessa de divisas não tem qualquer relevância para a definição das partes. Quando esta última foi formalizada, o contrato de compra e venda já se encontrava aperfeiçoado. Nesse aspecto, destaca Roosevelt B. Sosa13, outrora Conselheiro do extinto Terceiro Conselho de Contribuintes: A bem da verdade, importador de fato é o adquirente, embora o faça por via de interposta pessoa. É o adquirente que em última análise, pactua a compra internacional e paga, pela via cambial, a importação. Embora essa condição nem seja essencial para caracterizar a importação de fato, bastando o interessado depositar a quantia correspondente na conta da interposta pessoa, que, a exemplo da importação, titularia a operação cambial. Prova de tal assertiva, a meu ver é flexibilidade do Regulamento de Câmbio de Importação, foi instituído por meio da Circular 3.231 do Banco Central do Brasil, de 03/04/2004 que, para evitar a necessidade de transferência de recursos, permite livremente que adquirente ou importador ostensivo promovam a remessa de divisas, como, aliás, já ressaltou o acórdão recorrido. Com efeito, não se pode pretender que o enquadramento da operação ficasse condicionado ao fechamento do câmbio ou quitação das despesas inerentes à importação, até porque, como já expôs o especialista em direito aduaneiro, bastaria que o verdadeiro detentor dos recursos, antes ou depois do fechamento, transferisse os valores necessários para tais pagamentos. Nessa linha, resta claro, a meu ver, que a identificação do responsável pelo fechamento de câmbio, com efeito, não tem qualquer importância para a definição da condição de adquirente. Ademais, em face do que já foi exposto, não vejo como reconhecer a alegada dubiedade ou novidade da legislação que disciplinava a atuação de pessoa jurídica por conta e ordem quando da realização das operações, registradas entre janeiro e dezembro de 2004. 13 Importação por Conta e Ordem de Terceiros. Disponível em http://www.contadorperito.com/index.php?tp=3&ag=8834 Fl. 24DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.350 25 Em primeiro lugar, já é mais do que consolidado perante o ordenamento jurídico pátrio o princípio de que a alegação de desconhecimento da lei não exime o infrator de cumprila. Em outras palavras, fixou a Lei de Introdução ao Código Civil (DL nº 4657, de 1942), em seu artigo 3º: Art.3o Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. Em segundo, é igualmente de conhecimento dos atores do comércio exterior que, desde 22/10/2002, data em que foi publicada a Instrução Normativa nº 225, de 2002, o Secretário da Receita Federal fez uso da delegação contida no art. 80, I, da Medida Provisória nº 2.15835, de 200114, definindo, no parágrafo único do seu art. 1º, a figura do importador por conta e ordem nos seguintes termos: Parágrafo único. Entendese por importador por conta e ordem de terceiro a pessoa jurídica que promover, em seu nome, o despacho aduaneiro de importação de mercadoria adquirida por outra, em razão de contrato previamente firmado, que poderá compreender, ainda, a prestação de outros serviços relacionados com a transação comercial, como a realização de cotação de preços e a intermediação comercial. Mais adiante, o art. 3º da IN 225, tratando da instrução do despacho de importação, exige (original não destacado): Art. 3º O importador, pessoa jurídica contratada, devidamente identificado na DI, deverá indicar, em campo próprio desse documento, o número de inscrição do adquirente no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). § 1º O conhecimento de carga correspondente deverá estar consignado ou endossado ao importador, configurando o direito à realização do despacho aduaneiro e à retirada das mercadorias do recinto alfandegado. § 2º A fatura comercial deverá identificar o adquirente da mercadoria, refletindo a transação efetivamente realizada com o vendedor ou transmitente das mercadorias. Se a mercadoria foi adquirida por um terceiro, independentemente da responsabilidade pelo fechamento do câmbio, o importador ostensivo, para efeito da legislação, estará agindo como importador por conta e ordem e deverá, sob pena de se sujeitar a penalidades, instruir o despacho de importação nos moldes do que definiu o art. 3º da mesma Instrução Normativa. Noutro giro, não merece guarida o argumento de que, em verdade, as operações em análise se enquadrariam em modalidade que passou a ser disciplinada posteriormente, a importação por encomenda, disciplinada no art. 11 da Lei nº 11.281, de 2006 (original não destacado): 14 Art. 80. A Secretaria da Receita Federal poderá: I estabelecer requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora por conta e ordem de terceiro; e Fl. 25DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.351 26 Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. Ora, o traço característico dessa modalidade de operação não é, como se pretendeu argumentar, o pagamento do câmbio. Na modalidade “importação por encomenda”, o importador contratado não apenas participa da negociação, mas adquire a mercadoria e revende ao contratante, emitindo uma nota fiscal própria para tanto. Diferentemente, tratando se de uma importação por conta e ordem, poderá até participar da negociação, por meio da realização da cotação de preços e pesquisas de mercado, mas não revenderá a mercadoria, emitirá exclusivamente uma nota fiscal de transferência. Em suma, na importação por encomenda, o importador recebe uma encomenda de um terceiro entabula compra e venda com o exportador e, em seguida, revende a mercadoria importada ao encomendante. Ou seja, se, como se argumenta, a Nokia adquiriu a mercadoria do exterior, não haveria como se considerála importador por encomenda, ainda que a lei que disciplinou essa modalidade já estivesse em vigor. Finalmente, não vejo como vislumbrar a alegada violação à liberdade negocial. A legislação exige, com efeito, que as operações sejam detalhadamente declaradas e esclarece, inclusive, de que forma deve se processar essa declaração. Evidentemente tal controle não limita a liberdade para negociar, apenas impõe transparência à descrição da forma como tal negociação tenha ocorrido, das partes envolvidas e papel exercido. 2.3.1.2 Poder Probante das Provas Indiciárias Como é possível extrair da leitura do relatório que antecede o presente voto outro argumento esgrimido de maneira recorrente é a ausência de prova cabal das infrações e, diante de tal ausência, a aplicabilidade do art. 112 do CTN15. Não acompanho tal raciocínio. Há que se ter em mente, em primeiro lugar, que o art. 29 do Decreto nº 70.235, de 1972 não traz qualquer restrição aos meios pelos quais o julgador poderá formar sua convicção. Confirase: Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Igualmente. não se pode falar em hierarquia entre os meios de prova, como se pretendeu arguir nas hipóteses em que, no presente processo, documentos internos da pessoa jurídica Nokia, denominados “export notes”, apresentariam um conteúdo diverso da fatura. 15 Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: (...) II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; Fl. 26DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.352 27 Lembro aqui a lição de Humberto Theodoro Junior16, acerca da sistemática de avaliação da prova que vige no País, doutrinariamente denominada de “persuasão racional” ou “livre convencimento motivado”, onde o julgador, exceto nas hipóteses expressamente previstas, não deve observar critérios prédeterminados na avaliação da prova. Deve, pois, em nosso sistema de julgamento, verificar o juiz se existe uma norma jurídica sobre a prova produzida. Se houver, será ela aplicada. Adotou o Código, como se vê, o sistema da persuasão racional, ou “livre convencimento motivado”, pois: a) embora livre o convencimento, este não pode ser arbitrário, pois fica condicionado às alegações das partes e às provas dos autos; b) a observância de certos critérios legais sobre provas e sua validade não pode ser desprezada pelo juiz (arts. 335 e 366) nem as regras sobre presunções legais; c) o juiz fica adstrito às regras de experiência, quando faltam normas legais sobre as provas, isto é, os dados científicos e culturais do alcance do magistrado são úteis e não podem ser desprezados na decisão da lide; d) as sentenças devem ser sempre fundamentadas, o que impede julgamentos arbitrários ou divorciados da prova dos autos. Não há que se falar, portanto, em hierarquia das provas, em razão do maior ou menor grau de formalismo empregado quando da elaboração do documento que supostamente lhe dá guarida: todo e qualquer meio de prova é válido e deve ser ponderado, exceto os expressamente ilegais. Feitas tais considerações, é extreme de dúvidas que a prova da simulação, principalmente a relativa, ou seja, onde há um negócio jurídico verdadeiro, mas aspectos relevantes para a aplicação da legislação são informados de forma distorcida, só é possível mediante a ponderação de indícios convergentes. Nesse ponto, reportome à esclarecedora lição da Profa. Maria Rita Ferragut17 (original não destacado): “A prova indiciária tem por fim sanar as dificuldades que o caso concreto suscita ao conhecimento dos fatos juridicamente relevantes, alterados para os fins de se evitar a incidência normativa. Ocorre que, como muitos desses atos artificiosos são realizados de maneira a conferirlhes uma aparência lícita, se a fiscalização tiver que se restringir à forma das provas que lhes são apresentadas não terá como saber se o evento descrito no fato realmente ocorreu. A perfeição formal de que o ato é revestido não tem o condão de afastar o deverpoder de buscar a verdade material”. 16 Curso de Direito Processual Civil. Rio de Janeiro, Forense, 9ª ed., volume II, p.p. 416/417 17 Presunções no Direito Tributário. Dialética. São Paulo, 2001, pág. 106. Fl. 27DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.353 28 Nessa mesma linha advoga Alberto Xavier, citando Galvão Telles18 (original não destacado): “Em regra, porém, dado que os simuladores procuram furtarse a olhares indiscretos e dado que as contradeclarações são entre nós pouco utilizadas, não existe prova direta da simulação. Esta terá que provarse indiretamente, através de presunções. A simulação deixa quase sempre vestígios que a denunciam: há fatos, circunstâncias que a experiência aponta como sintomas ou índices do caráter fictício ou imaginário de um ato jurídico.... Os indícios que fazem presumir a simulação serão particularmente convincentes se se tornar aparente um motivo simulatório ” Com efeito, como bem destacou o Tributarista, afora a convergência dos indícios, relevante para a formação da convicção é a identificação dos benefícios auferidos com a simulação, fatores que serão explorados a seguir. Finalmente, justamente em razão de que as provas da infração decorrem da soma da indícios apurados, não vejo como pretender atribuir ao ato de desembaraço aduaneiro o pretendido caráter homologatório das declarações prestadas, até porque, nos termos do art. 54 do DecretoLei nº 37, de 1966, a conclusão definitiva do despacho e, consequentemente, sua homologação, só se opera após a competente revisão aduaneira, Confirase: Seção II Conclusão do Despacho Art.54 A apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício fiscal aplicado, e da exatidão das informações prestadas pelo importador será realizada na forma que estabelecer o regulamento e processada no prazo de 5 (cinco) anos, contado do registro da declaração de que trata o art.44 deste Decreto Lei. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) 2.3.1.3 Indícios Carreados ao Processo Tomando por base a definição de Paulo Celso Bonilha19, a prova indiciária é formada por meio do raciocínio: partese de um fato conhecido, provado (factum probatum), e alcançase a percepção de um outro fato desconhecido, por provar (factum probandum). Trata se, essencialmente, da assimilação, por meio do método indutivo. Dito isto, passo a expor os elementos narrados pela autoridade Fiscal. 2.3.1.3.1 Infrações consignadas no sistema Radar pela Alfândega do Porto de Manaus e Representação Consubstanciada no Processo Administrativo Fiscal nº 10283.007371/200641. Informa a Autoridade Fiscal que a Ficha de Auditoria e Outros Procedimentos Fiscais à fl. 254, registrou a acusação de que a pessoa jurídica Nokia teria apresentado no despacho faturas comerciais elaboradas sem a assinatura de próprio punho do exportador, infração processada e julgada nos autos do processo nº 10283.006524/200632. 18 Manual dos Contratos em Geral, apud, Xavier, Alberto. Tipicidade da Tributação, Simulação e Norma Antielisiva. São Paulo, 2001, Dialética, p. 76. 19 Da Prova no Processo Administrativo Tributário. São Paulo. 1992. Livraria dos Tribunais, p. 112. Fl. 28DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.354 29 Quanto à tal ocorrência, aduz o sujeito passivo, relembrese, que tal acusação fora afastada pela DRJ Belém e que tal afastamento foi referendado pelo extinto Terceiro Conselho de Contribuintes. Embora a autoridade fiscal não tenha deixado clara sua convicção acerca de que as faturas comerciais objeto do presente processo se subsumiriam a essa mesma conduta, considero relevante registrar, até porque tive a oportunidade de relatar o recurso de ofício que tratou da matéria, que o fundamento para afastamento da penalidade não foi ausência de comprovação dos fatos narrados, quais sejam: que o exportador outorgaria poderes para a terceira pessoa jurídica situada no Brasil para assinar suas faturas comerciais. A penalidade foi afastada, com efeito, em razão de ausência de subsunção da conduta descrita à norma que impõe a penalidade aplicada. Confirase a ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2005 a 31/05/2006 IMPOSIÇÃO DE PENALIDADE. Tipicidade. O Ordenamento Jurídico Nacional não admite que o recurso à analogia por extensão resulte na fixação de penalidade à hipótese que não tenha sido expressamente prevista em lei. Inteligência do parágrafo 1º, do art. 108 do Código Tributário Nacional. Retroatividade Benéfica. Aplicabilidade Ato normativo, de caráter interpretativo, que confirma a legalidade da conduta até então considerada como infração, deve ser aplicado na solução de litígio pendente de julgamento. Inteligência do art. 106, I e II do Código Tributário Nacional. RECURSO DE OFÍCIO NEGADO Feitos tais esclarecimentos, passase às acusações que, de acordo com o relatório fiscal, manteriam relação com a infração apontada no presente processo Apontou a Alfândega do Porto de Manaus que, após a realização de auditoria de estoque no estabelecimento da pessoa jurídica Nokia, recolhera indícios de que mercadorias registradas nos livros de controle como oriundas do exterior estariam sendo importadas pela pessoa jurídica Viamax e repassadas à pessoa jurídica auditada por um preço muito semelhante ao da importação e em um prazo reduzido de tempo, o que poderia denotar a atuação como importadora por conta e ordem. Os elementos acostados a tal representação formaram o processo nº 10283.007371/200641 e foram considerados como meios de prova da infração. 2.3.1.3.2 Indícios Colhidos das Faturas Comerciais e Divergência entre as Faturas e Outros Documentos Afetos à Operação Aponta a autoridade fiscal que as faturas comerciais que instruíram as declarações listadas às fls. 40 a 42 permitiriam chegar à conclusão de que a pessoa jurídica Nokia seria o verdadeiro adquirente das mercadorias, na medida em que, em todos os documentos, tal pessoa jurídica estaria identificada, na Fatura Internacional ou na Delivery note, como compradora das mercadorias. Fl. 29DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.355 30 Em todas, constam as expressão “bill to/ordered by” (faturado para/pedido por, em uma tradução livre); “sold to (vendido para, em uma tradução livre)/ “ordered by” ou "customer" (que poderia ser traduzido como cliente ou comprador, igualmente em uma tradução livre). Tais documentos deixam claro que a pessoa jurídica Nokia é, de fato, a adquirente das mercadorias fornecidas por pessoas jurídicas do mesmo grupo econômico, sendo descabida, a meu ver as alegações de dubiedade dessas expressões, principalmente se considerarmos tal informação juntamente com os demais indícios que serão apresentados a seguir. Ademais, na esteira do que já foi exposto, não se pode reduzir o poder probante dos delivery notes, que apresentaram informações em descompasso com as faturas comerciais. Aponta, finalmente, o relatório fiscal, com relação aos indícios extraídos dos documentos de instrução do despacho, um padrão numérico que identificaria o pedido de compra e sua autoria. Conforme consignado, seria possível identificar nos conhecimentos como “P.O. NBR:", e na fatura internacional como "Your Reference" ou "P.O. Number", um número de controle que seguiria um padrão constante e que discriminaria as mercadorias e as condições reais da compra. Com efeito, segundo a tabela de fls. 40 os pedidos de compra precedidos pelas letras “TOR” teriam sido formulados pelo estabelecimentos identificado como “Nokia Torquato”. De se registrar que a pessoa jurídica Nokia está estabelecida na Av. Torquato Tapajós, conforme consignado na folha de rosto do auto de infração, à fl. 02. 2.3.1.3.3 Irregularidade no Pagamento do Imposto sobre Produtos Industrializados Segundo narrado no relatório fiscal, após regularmente intimado a esclarecer em que termos se processaria o recolhimento do Imposto sobre Produtos Industrializados nas operações envolvendo as mercadorias importadas, respondera a pessoa jurídica Nokia20, por meio seu procurador21: Item 4. Esclarecer como foi feita a Apuração do IPI referente às operações representadas pelas notas fiscais de compra e de venda das mercadorias em questão. R Inicialmente as notas fiscais de compra tiveram sua escrituração fiscal no período sem apropriação como crédito, do IPI destacado nos documentos fiscais. Também inicialmente as notas fiscais de venda ref. aos itens relacionados nas notas fiscais de compra tiveram sua, escrituração fiscal no período sem débito do IPI. Em janeiro de 2007, através de uma auditoria interna, apurou se a ausência de recolhimento do IPI em diversas notas fiscais de saídas cujos produtos eram oriundos das aquisições objeto deste termo de intimação (item 1). Para regularização completa do processo, a intimada emitiu notas fiscais complementares e o 20 Doc. às fls. 99 e 100. 21 Instrumento público às fls. 113 a 115. Fl. 30DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.356 31 recolhimento do imposto através da regularização da Apuração do IPI do período de Outubro/02 a Dezembro/06, considerando se respectivamente os créditos e os débitos de cada período, bem como, o valor efetivamente devido de cada período de apuração, os quais foram objeto de novo recolhimento através de DARFs. Tal informação, mais do que mostrar o prejuízo tributário associado à conduta perpetrada, alegadamente saneado, acrescenta mais um elemento ao quadro indiciário trazido aos autos. Ou seja, a “supressão” da pessoa jurídica Nokia da cadeia comercial, efetivamente, provocou prejuízo ao recolhimento do IPI de saída sobre os bens adquiridos. Com efeito, cabe recordar que, para fins de incidência desse imposto, o art. 79 da Medida Provisória nº 2.15835, de 200122, equipara a industrial o estabelecimento atacadista ou varejista que adquirir produtos importados por sua conta e ordem. Assim, quando se deixou de informar essa participação, evitouse o pagamento do imposto quando da saída dos produtos importados. Finalmente, a alegada “regularização”, a meu ver, demonstra que, se o contribuinte passou a contabilizar os créditos e apurar os débitos, nos termos da legislação que rege a importação por conta e ordem, acabou por reconhecer que, de fato, sua condição seria a de adquirente de mercadoria importada naquela modalidade. Também não se pode deixar de considerar que a inclusão de um elo entre os estabelecimentos da pessoa jurídica Nokia (o brasileiro, importador, e o estrangeiro, exportador), representaria, com efeito, um ganho para a pessoa jurídica Viamax, que além de prestar o serviço de importar por conta e ordem, auferiu benefícios do Fundap. Ou seja, se, em princípio, como será novamente tratado a seguir, não haveria porque a Nokia contratar (e remunerar) um terceiro para aparentar intermediar operações com mercadorias que poderia adquirir diretamente a pessoa jurídicas do mesmo grupo econômico, o benefício da Viamax, a meu ver está claramente delineado. Se não fosse para ocultar a Nokia, não haveria porque contratála e sem tal contratação, evidentemente, sua receita, com a prestação de serviços e com os benefícios do Fundap, seria reduzida. 2.3.1.3.4 Conclusão Independentemente dos elementos analisados anteriormente, suficientemente robustos para formação da convicção acerca da ocultação, por meio de artifício simulatório, da condição de adquirente da pessoa jurídica Nokia, não se pode deixar de considerar, para a análise desse quadro indiciário, a aparentemente injustificável inclusão de um elo entre operações realizadas por empresas de um mesmo grupo econômico. 22 Art. 79. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos, atacadistas ou varejistas, que adquirirem produtos de procedência estrangeira, importados por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. Fl. 31DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.357 32 Com efeito, não se consegue vislumbrar, e não foi alvo de esclarecimento, qual seria a justificativa para incluir um elo em uma operação em que consta como exportador e destinatário final pessoas jurídicas do mesmo grupo. Ora, salvo prova robusta em contrário, seria pouco crível que um terceiro, posto que estranho ao grupo econômico do qual exportador e importador fazem parte, tivesse condições de negociar preços e prazos em termos diferenciados. Consequentemente, não se encontra, a meu ver justificativa para a atipicidade das operações declaradas. Outro ponto que considero relevante esclarecer é a improficuidade da alegação no sentido de que não restara caracterizado prejuízo ao controle do cognominado “preço de transferência”, em razão de que, tanto na modalidade de operação “por conta e ordem”, quanto na denominada “por encomenda” seriam aplicadas as mesmas regras. De fato, o que se detectou no presente processo é que a participação da pessoa jurídica Nokia foi alvo de ocultação e não que tal participação foi erroneamente informada. Consequentemente, as operações envolvendo pessoas jurídicas relacionadas deixaram, efetivamente, de ser alvo do devido controle sob a ótica do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Nessa senda, somandose todos esses elementos, não vejo como pretender isolar esse quadro indiciário às operações relacionadas na lista de fls. 40 a 42, na medida em que os elementos carreados, a meu ver permitem que se considerem maculadas todas as operações envolvendo exportadores vinculados ao grupo Nokia, Viamax e Nokia do Brasil. Assim, considero que a únicas operações que devem ser excluídas da exigência, por insuficiência de provas, são as que tiveram como documento base as declarações de importação nº DI n.º 04/04602180 (fls. 967 a 975) e 04/09082001 (fls. 1976/1978), por tratarem de operação com empresas exportadoras não vinculadas ao grupo Nokia (FOXCONN BEIJING TRADING CO. LTD e PHILIPS AUSTRIA GMBH) e não ter sido apresentado outro elemento contundente que demonstrasse a ocultação da pessoa jurídica Nokia do Brasil. Não acompanho o raciocínio do acórdão de primeira instância, portanto, no que se refere à exclusão das DI n.ºs 04/02535458 (fls. 1038/1041) e 04/0804956 (fls. 1763/1765), uma vez que ambas estampam, na qualidade de exportador, pessoas jurídicas do “Grupo” Nokia. A meu ver, em face dos demais indícios, a ausência de juntada da fatura comercial, por si só, não é suficiente para afastar a convicção acerca da efetividade da infração. Com efeito, diante do quadro indiciário, não há como, na esteira do que pleiteou a recorrente, pretender isolar as operações e avaliálas caso a caso, máxime em razão da natureza dos indícios apresentados. 2.3.2 Falsidade Ideológica Conforme já antecipado, o presente voto se concentrou da infração principal, qual seja, de interposição fraudulenta de pessoas em razão de que a alegada falsidade dos documentos tem como questão prejudicial essa constatação. Reafirmese que, sem a caracterização da interposição de pessoas não haveria que se falar em falsidade dos documentos. Fl. 32DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.358 33 Ademais, cabe esclarecer, a listas de declarações maculadas pela interposição de pessoas abrange as operações onde se apontou falsidade documental. Ou seja, restando demonstrado, como exposto acima, que as operações estariam maculadas de infração igualmente apenada com a perda de perdimento, não há qualquer conseqüência jurídica que se possa extrair da alegada falsidade ideológica. Não há margem para que se imponham seguidos perdimentos à mesma mercadoria, nem consequentemente, seguidas multas por conversão do perdimento, como, de fato, não foram aplicadas. Limitome, assim, a esclarecer que, a meu ver, a alegada disparidade entre os conhecimentos de transporte que consignaram como exportador a pessoa jurídica NOKIA MOBILE PHONES, quando deveria ter informado a pessoa jurídica NOKIA INC, restou justificada. 3 Retroatividade Benigna Reflexo do art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 sobre o inciso V do art. 23 do Decretolei nº 1.475, de 1976 Matéria que recentemente tem sido trazida à consideração deste Colegiado é o cabimento da aplicação retroativa do art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 que, segundo defendido, teria derrogado tacitamente o inciso V do art. 23 do DL nº 1.455, de 1976, e, impondo penalidade mais branda à conduta descrita no ato derrogado, atrairia a aplicação do art. 106, II, “c” do Código Tributário Nacional23. Sustentase, equivocadamente, a meu ver, que, a partir da vigência do dispositivo novel, não mais seria possível aplicar a pena de perdimento às mercadorias alvo de operação maculadas pela ocultação das partes envolvidas. Tais conclusões, sinteticamente, estariam apoiadas na convicção de que, interpretandose tal dispositivo à luz do critério da mens legislatoris, chegarseia ao reconhecimento de que a infração tipificada no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, corresponderia materialmente à capitulada no 23, V do Decretolei nº 1.455, de 1976, diferenciandose exclusivamente no que se refere à individualização do infrator, já que a contida no dispositivo mais recente teria como agente apenas o importador ou exportador ostensivo. A se configurar tal identidade, a aplicação concomitante de duas penalidades implicaria violação ao princípio constitucional do non bis in idem, dogmatizado no art. 99 Decretolei nº 37, de 1966. Penso, entretanto, que apesar da convicção com que essa conclusão foi defendida, inclusive em acórdãos de primeira instância alvo de recurso de ofício, a pena instituída no art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 surgiu, efetivamente, como alternativa à declaração de inaptidão, nas hipóteses anteriormente previstas nas instruções normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que disciplinavam a inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). 23 Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: (...) II tratandose de ato não definitivamente julgado: (...) c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. Fl. 33DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.359 34 Para se chegar a tal convicção, fazse necessário realizar uma análise da legislação que dispõe sobre a inaptidão da inscrição no (CNPJ), especialmente na hipótese em que se configura sua inexistência de fato. Diz o art. 81 da Lei nº 9.430, de 1996: Art. 81. Poderá, ainda, ser declarada inapta, nos termos e condições definidos em ato do Ministro da Fazenda, a inscrição da pessoa jurídica que deixar de apresentar a declaração anual de imposto de renda em um ou mais exercícios e não for localizada no endereço informado à Secretaria da Receita Federal, bem como daquela que não exista de fato. (grifei) Como se pode observar, a legislação tributária, na esteira do consignado no novo Código Civil (Lei nº 10.406, de 2002), em seu art. 96624, que distingue a pessoa jurídica da empresa, atribui consequências à inscrição da contribuinte que, apesar de regularmente constituída junto aos órgãos de registro e da obtenção de número de cadastro junto ao Fisco, não preenche as condições para seu enquadramento como “existente de fato”, ou seja, que detenha os meios para a realização das operações comerciais que declarou ter realizado. Importante relembrar os contornos desse elemento distintivo da empresa, assim sintetizado pela professora Rachel Sztajn25: Organização parece ser o elemento central, essencial, necessário e suficiente, para determinar a existência da empresa, porque gera o aparato produtivo estável, estruturado por pessoas, bens e recursos, coordena os meios para atingir o resultado visado. Nessa esteira, diferenciando empresa de pessoa jurídica, esclarece o Des. Sérgio Campinho26: Da inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis resulta a presunção de se ter alguém dedicado a exercer atividade própria de empresário. É uma prova prima facie, mas que pode ser elidida por prova mais robusta em sentido contrário. Desse modo, se determinadas pessoas celebram contrato de sociedade, tendo por objeto o exercício de atividade própria de empresário, promovendo o arquivamento do respectivo instrumento na Junta Comercial, estará a sociedade, enquanto pessoa jurídica, constituída. Todavia, somente passará a ostentar a condição de empresária se efetivamente iniciar a exploração de seu objeto, abdicando da inatividade. Enquanto não entrar em operação o seu objeto, teremos a pessoa jurídica, a sociedade constituída, mas não uma sociedade empresária. Por outro lado, acerca dos efeitos da verificação da inexistência de fato, fixa o art. 82 da Lei 9.430, de 1996, responsável pela instituição desse status cadastral: 24 Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. 25 Teoria Jurídica da Empresa : Atividade Empresária e Mercados. São Paulo. Atlas, 2004, p. 129. 26O Direito de Empresa à Luz do Novo Código Civil. Rio de Janeiro. Renovar, 2004, 4ª ed., pp.. 28 e 29. Fl. 34DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.360 35 Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstos na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados, o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes tenha sido considerada ou declarada inapta. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. (grifei) Ou seja, da mesma forma em que, se verificado que a sociedade não reúne os elementos caracterizadores da empresa, perde a sua escrituração comercial a presunção estabelecida no art. 226 do mesmo Código Civil27, se não apresentadas condições mínimas de funcionamento, seus documentos fiscais perdem o poder de provar, por si só, a realização de um serviço ou a comercialização da mercadoria. Evidentemente, a atribuição de tal status à inscrição impõe um ônus significativo para o sujeito passivo, de sorte que a sua aplicação em dissonância com o que preceitua a norma que a instituiu, mais do que ilegal, afronta os princípios, implícitos e explícitos, norteadores da atuação da administração pública, gizados na Constituição Federal de 1988. De fato, a pretexto de fazer uso da delegação contida no caput do já transcrito art. 81 da Lei nº 9.430, de 1996, fixou o Fisco no art. 37, III da Instrução Normativa SRF nº 200, de 13 de setembro de 200228: Art. 37. Será considerada inexistente de fato a pessoa jurídica: (...) III que tenha cedido seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de terceiros, com vistas ao acobertamento de seus reais beneficiários; Seguindose tal ato ao pé da letra, bastaria que a pessoa jurídica cedesse seu nome uma única vez para que, apesar de possuir todos os meios para a realização de suas atividades, lhe ser atribuído o mesmo tratamento dispensado à pessoa jurídica que não reunia condições para enquadramento nos contornos do que a Lei Civil classificou de sociedade empresária. Além de desproporcional, tal dispositivo encontravase maculado de vício formal, pois foise muito além da delegação contida na lei que instituiu a inaptidão da inscrição, violando, por consequência, o princípio da legalidade, gizado no art. 3729 da Carta Política de 1988. 27 Art. 226. Os livros e fichas dos empresários e sociedades provam contra as pessoas a que pertencem, e, em seu favor, quando, escriturados sem vício extrínseco ou intrínseco, forem confirmados por outros subsídios. 28 Redação idêntica à do art. 41, III da IN RFB nº 568, de 8 de setembro de 2005. 29 Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte Fl. 35DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.361 36 Com efeito, o já transcrito art. 81 somente autorizou o Ministro da Fazenda a disciplinar os termos e condições em que se dará a declaração de inaptidão, jamais a apenar a cessão do nome, “equiparandoa” à inexistência de fato. Sabidamente, a instituição de penalidade, por meio de ficção jurídica exigiria lei em sentido formal. Tal explicação é fundamental para que se estabeleça a verdadeira mens legislatoris que orientou a redação do recente art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007, mais facilmente compreendida após sua leitura: Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Como se vê, a hipótese descrita no art. 33 da Lei nº 11.488 é exatamente a mesma do inciso III art. 37 da IN SRF nº 200, de 2002: ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações, com vistas ao acobertamento de determinada pessoa. Por outro lado, a conseqüência imposta pela IN, como já se viu, era o reconhecimento da condição de “inexistente de fato” e, consequentemente, a decretação da sua inaptidão. Tanto é assim, que o parágrafo único do art. 33 consigna ressalva no sentido de que, nas hipóteses descritas no caput, seria inaplicável o art. 81 da Lei nº 9.430, de 1996, já transcrito anteriormente, e que, como se viu, trata da decretação da inaptidão em face da inexistência de fato. Ou seja, a única leitura possível do dispositivo é que a pessoa jurídica que praticar a conduta descrita no caput, mas reunir elementos que a delineiem como “existente de fato”, não estará sujeita à decretação da inaptidão da sua inscrição. Tal convicção é reforçada com a leitura do parecer que encaminha o projeto de Lei de Conversão da Medida Provisória nº 351/2007 (PLV 13/2007), do qual resultou a Lei nº 11.488, de 2007, seu relator, que também responde pela autoria do dispositivo, faz a seguinte observação à proposta de redação do art. 35, posteriormente renumerado para 33, quando da conversão definitiva30: “Já no art. 35, juntamente com a modificação da redação do art. 81 da Lei no 9.430, de 1996, contida no art. 15 do PLV, sugerimos a adequação dos critérios legais para se declarar a inaptidão de inscrição das pessoas jurídicas e da multa aplicável no caso de cessão de nome da empresa para realização de operações de comércio exterior de terceiros.”(grifo nosso) 30 Disponível em http://www.camara.gov.br/sileg/integras/.pdf Fl. 36DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.362 37 Nesse ponto, convém registrar pronunciamento do Tribunal Regional Federal da 4ª Região nos autos da AMS nº 2005.72.08.005166631: Tenho, no entanto, que a disposição acima citada não tem o condão de afastar a pena de perdimento, ou seja, não revogou o art. 23 do DL nº 1.455/76, com a redação dada pela Lei nº 10.637/2002. Isso porque, a pena de perdimento atinge, em verdade, o real adquirente da mercadoria, no caso a HBB, sujeito oculto da operação de importação. A pena de multa de 10% revelase como pena pessoal da empresa que, cedendo seu nome, faz a importação, em nome próprio, para terceiros. Quanto à declaração de inaptidão do CNPJ, o parágrafo único do aludido artigo estatui que "à hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996", e que consiste, exatamente, na declaração de inaptidão do CNPJ. É dizer, realmente, quanto a essa declaração houve a vedação de aplicação dessa sanção na hipótese de importação em favor de terceiro oculto. Não obstante, tal penalidade não foi aplicada pelo auto de infração objeto desta impetração, tanto que está sendo objeto de apreciação em outro mandado de segurança, que tramita na 1ª Região, em decorrência de outro ato de outra autoridade fiscal, de modo que, no particular, a questão é de ser tratada no seio da aludida ação mandamental. Aliás, o explicitação constante do parágrafo único do art. 33 da Lei nº 11.488/2007, vem ao encontro do se que disse anteriormente, no sentido de que não houve a revogação da pena de perdimento para a hipótese retratada nos autos. Ao contrário, confirma a assertiva, porquanto exclui, expressamente, apenas a possibilidade da aplicação da sanção de inaptidão do CNPJ. Quanto às demais penas, permanecem incólumes, havendo a previsão, agora também, da pena pecuniária, nos termos do caput do aludido preceptivo legal. (os destaques não constam do original) Admitindo que a exegese baseada na mens legislatoris não fosse suficiente para demonstrar a ausência de sobreposição de infrações, não se poderia falar, no presente, de violação do princípio do non bis in idem, implícito no subsistema jurídicopenal norteado pela Constituição de 1988. Trazendo tal sobrenorma para o plano das regras jurídicas, diz o art. 99 do Decretolei nº 37, de 1966: Art. 99 Apurandose, no mesmo processo, a prática de duas ou mais infrações pela mesma pessoa natural ou jurídica, aplicam se cumulativamente, no grau correspondente, quando for o caso, as penas a elas cominadas, se as infrações não forem idênticas. Duas ou mais infrações, portanto, devem dar ensejo a duas ou mais penalidades, salvo se tais infrações se revelarem idênticas. Tal identidade, como é cediço, não se revela exclusivamente pela aparente semelhança na descrição da conduta. 31 2ª Turma, Relator Des. Otávio Roberto Pamplona, publicado em 01/08/2007 Fl. 37DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.363 38 Ou seja, pelo menos no plano do direito aduaneiro, é legalmente possível que uma única ação viole mais de uma regra e seja apenada com mais de uma sanção. Para demonstrar esse raciocínio, relembro hipótese constantemente trazida a este Colegiado, materializada nas circunstâncias em que o sujeito passivo, ao se equivocar na informação do código da NCM comete duas infrações, uma que tutela a exatidão do recolhimento dos tributos incidentes na importação, capitulada no art. 44, I da Lei nº 9.430, de 1996 e outra que zela pela exatidão das informações prestadas na declaração, com vistas à efetividade do controle aduaneiro, capitulada no art. 84 da Medida Provisória nº 2.158, de 2001. Com efeito, a declaração inexata, quando o item declarado é a classificação fiscal, impõe a aplicação de duas penalidades diversas, eis que a mesma ação infringe mais de uma norma. Ou seja, assim como ocorre no plano do direito penal, é possível que, com uma única conduta, sejam violadas duas ou mais regras. No âmbito daquele ramo, aplicase a cláusula de aumento da pena prevista no art. 70 do Código Penal (Decretolei no 2.848, de 1940)32; no direito aduaneiro, cada uma das penalidades correspondentes à cada norma infringida, nos termos do já transcrito art. 99 do DL nº 37/66. Finalmente, tal convicção é reforçada quando se observa a regulamentação do art. 33 no recente Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto nº 6.759, de 5 de fevereiro de 2009. Vejase o que diz o seu art. 727: Art.727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. (...) §3o A multa de que trata este artigo não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas ou exportadas. Não custa destacar que o parágrafo 3º acima transcrito possui conteúdo evidentemente interpretativo, a reclamar a aplicação do inciso I, do art. 106 do Código 32 Art. 70 Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicaselhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicamse, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior.(Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) Fl. 38DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.364 39 Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966)33, máxime em função de que, no presente processo, não se discute a inclusão da multa recéminstituída. Ademais, na esteira do que já foi debatido, não vejo como extrair do dispositivo regulamentar a interpretação defendida pela Recorrente. A meu ver, o parágrafo ressalta a possibilidade da aplicação concomitante das duas penalidades a uma mesma operação e, se for o caso, aos coresponsáveis pela prática de ambas as infrações. Qualquer interpretação diferente seria decretar a inutilidade do dispositivo. De fato, se não fosse para deixar claro que a multa em discussão conviveria com a decorrente com o perdimento, ou a sua conversão, não haveria porque incluir tal dispositivo no Regulamento Aduaneiro. A possibilidade de penalizar pessoas diferentes por infrações diferentes já estaria estampada no art. 679 do mesmo Regulamento34, que, esclareça se, reproduz o art. 608, do Regulamento de 2002. Forçoso é concluir, portanto, que as infrações não são idênticas e, nessa condição, poderiam ser aplicadas, concomitantemente, as penas a elas correspondentes a fatos que, a partir da entrada em vigor da lei nº 11.488, incidirem na hipótese descrita no seu art. 33. Concluindo, não há que se falar, no caso concreto, em derrogação tácita. Nesse ponto, precisa é a lição de Carlos Maximiliano35 que, analisando tal modalidade de antinomia, conclui: “442 — Pode ser promulgada nova lei, sobre o mesmo assunto, sem ficar tacitamente abrogada a anterior: ou a última restringe apenas o campo de aplicação da antiga; ou, ao contrário, dilatao, estendeo a casos novos; é possível até transformar a determinação especial em regra geral. Em suma: a incompatibilidade implícita entre duas expressões de direito não se presume; na dúvida, se considerará uma norma conciliável com a outra. O jurisconsulto Paulo ensinara que as leis posteriores se ligam às anteriores, se lhes não são contrárias; e esta última circunstância precisa ser provada com argumentos sólidos...” Com efeito, com base no pressuposto de que o ponto de partida para uma interpretação sistemática é a presunção de coerência do Ordenamento Jurídico, somente se afasta a aplicação da norma anterior após a demonstração inequívoca da incompatibilidade entre os dispositivos, conforme sintetizou o renomado hermeneuta36: Em resumo: sempre se começará pelo Processo Sistemático; e só depois de verificar a inaplicabilidade ocasional deste, se proclamará abrogada, ou derrogada, a norma, o ato, ou a cláusula.(destaquei) 33 Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; 34 Art. 679. Apurandose, no mesmo processo, a prática de duas ou mais infrações diferentes, pela mesma pessoa física ou jurídica, aplicamse cumulativamente, no grau correspondente, quando for o caso, as penalidades a elas cominadas (DecretoLei no 37, de 1966, art. 99, caput). 35 Hermenêutica e Aplicação do Direito. Rio de Janeiro. Forense, 2009, 19ª ed., p. 292. 36 op. cit. p. 291. Fl. 39DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.365 40 Ou seja, o esforço hermenêutico próprio da interpretação sistemática pressupõe a coerência do ordenamento e somente em situações excepcionais pode conduzir à conclusão da derrogação tácita da norma. 4 Violação aos Princípios da Proporcionalidade e Razoabilidade Pleiteia ainda o recorrente que se reconheça a afronta aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Mais uma vez, não vejo como acatar tal pleito. Em primeiro lugar, conforme consignou o art. 69 da Lei nº 9784, de 199937, diploma onde tais princípios estariam expressamente consignados, a aplicação dessa lei não se estende aos processos regidos por legislação própria, como é o caso do PAF, disciplinado pelo Decreto nº 70.235, de 1972. No máximo, poderseia se falar em aplicação subsidiária, relativamente a aspecto procedimental não previsto naquele Decreto. Incabível, a meu ver, a pretensão de afastar a lei vigente, mediante a aplicação de princípios estampados em norma procedimental estranha ao âmbito do Processo Administrativo Fiscal. Igualmente descabida é a pretensão de afastar a lei vigente sob o argumento de que os princípios supostamente violados estariam implicitamente previstos na Constituição Federal de 1988. Com efeito, após a edição da Súmula Vinculante nº 1038, do e. Supremo Tribunal Federal, restou claramente identificado o limite dos critérios de que se pode socorrer o julgador administrativo. Diz o dispositivo: VIOLA A CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO (CF, ARTIGO 97) A DECISÃO DE ÓRGÃO FRACIONÁRIO DE TRIBUNAL QUE, EMBORA NÃO DECLARE EXPRESSAMENTE A INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI OU ATO NORMATIVO DO PODER PÚBLICO, AFASTA SUA INCIDÊNCIA, NO TODO OU EM PARTE. Igualmente esclarecedora é a manifestação da mesma corte nos autos do RE 432.597AgR39: "Controle de constitucionalidade de normas: reserva de plenário (CF, art. 97): reputase declaratório de inconstitucionalidade o acórdão que embora sem o explicitar afasta a incidência da norma ordinária pertinente à lide para decidila sob critérios diversos alegadamente extraídos da Constituição." (destaquei) 37 Art. 69. Os processos administrativos específicos continuarão a regerse por lei própria, aplicandoselhes apenas subsidiariamente os preceitos desta Lei. 38 DJe nº 117/2008, p. 1, em 27/6/2008. DO de 27/6/2008, p. 1. 39 Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgamento em 141204, DJ de 18205. Fl. 40DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.366 41 Por óbvio, mais relevante do que fixar a as hipóteses em que o art. 97 da Constituição Federal deve ser observado, a manifestação do Pretório Excelso delimita o que se entende por controle da constitucionalidade de lei ou ato normativo, fixando, por via indireta, os limites de atuação deste Colegiado. Sabidamente, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) está impedido impedido de exercer tal controle em razão do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 1972, inserido pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 200840, transcrito no art. 62 do Anexo II da Portaria MF nº 256, de 2009, responsável pela aprovação do Regimento Interno deste Colegiado Nesse contexto, demonstrada a incidência da norma ao fato, não se poderia afastar a sua aplicação face ao critério da lex superior constitucional, máxime quando tal norma se situa no plano dos princípios, sabidamente normas de eficácia contida. 5 Conclusão Com essas considerações, dou parcial provimento ao recurso de ofício, para restabelecer a exigência fundada nas declarações de importação nºs 04/02535458 (fls. 1038/1041) e 04/08049566 (fls. 1763/1765), e nego provimento ao recurso voluntário. Sala das Sessões, em 11 de novembro de 2011 (assinado digitalmente) Luis Marcelo Guerra de Castro 40 Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Declaração de Voto Em que pese o posicionamento claro e fundamentado do ilustre Conselheiro Relator acerca da caracterização da infração relativa a importação mediante interposição fraudulenta de terceiros no presente processo, tal como apontada pela fiscalização no auto de infração que lhe é objeto, ouso, com o devido respeito, discordar de referido entendimento. Examinando os autos, não verifiquei, especialmente na descrição dos fatos dito infratores pela fiscalização, a razão da aplicação da pena de perdimento, convertida em multa pecuniária, de que trata o artigo 618, inciso XXII, § 5º, do Decreto nº 4.543/2002, em decorrência da acusação de ocultação do real importador mediante fraude/simulação, eis que a suposta ocultação, mediante, frisese, fraude ou simulação, foi percebida pela análise dos documentos que acompanharam as operações de importação. Explico: minha discordância com Fl. 41DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA Processo nº 12466.000863/200935 Acórdão n.º 310201.239 S3C1T2 Fl. 3.367 42 a aplicação de referida penalidade no presente caso resumese na seguinte indagação: destina se referida penalidade punir por acusação de ocultação mediante fraude aqueles que importam em nome próprio e revelam, de alguma forma, a quem se destina internamente o produto importado, especialmente quando este destinatário, dito real adquirente, como também o importador, ostentam atender todas as condições para realizar referida operação? A meu ver, a aplicação de rigorosa penalidade, somente se justifica quando a ocultação não se revela somente pela ausência no documento de importação da indicação do real adquirente, como entendo que ocorreu no presente processo, mas na intenção deliberada de impedir o conhecimento do real adquirente, que, por sua vez, visando acobertar uma grave ilicitude, não pode se apresentar como importador, o que evidentemente não é o caso da Nokia do Brasil. Simplesmente a alegação de possível vantagem fiscal no recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação de importação ou mesmo na saída promovida dos bens importados, a meu ver, não justifica a aplicação de extrema penalidade, eis que há mecanismos suficientes na legislação fiscal que permitem ao fisco exigir o tributo que deixou indevidamente de ser pago e ainda penalizar como penas agravadas aqueles que assim agiram dolosamente para evitar o pagamento de respectiva exação. A meu sentir, considerando a descrição dos fatos dito infratores pela fiscalização, em conjunto com as razões apresentadas pelos contribuintes, poderseia cogitar da aplicação da multa de que trata o art. 11 da Lei nº 11.488/2003, mas não na acusação de importação mediante interposição fraudulenta de terceiros e aplicação da pena de perdimento, que se traduz o lançamento em causa Por essas razões, sinteticamente expostas, meu voto é por dar provimento ao recurso do contribuinte, com a exclusão da pena de perdimento, convertida em multa pecuniária. Nanci Gama Fl. 42DF CARF MF Impresso em 04/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 1 3/03/2012 por LUIS MARCELO GUERRA DE CASTRO, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por NANCI GAMA
score : 1.0
Numero do processo: 10166.911278/2009-11
Turma: Primeira Turma Especial da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 29 00:00:00 UTC 2013
Data da publicação: Tue Apr 02 00:00:00 UTC 2013
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 31/03/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVA.
Cabe ao contribuinte o ônus de comprovar as alegações que oponha ao ato administrativo. Inadmissível a mera alegação da existência de um direito.
COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA
Somente os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3801-001.648
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Flávio de Castro Pontes - Presidente.
(assinado digitalmente)
Sidney Eduardo Stahl - Relator.
EDITADO EM: 08/03/2013
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flavio de Castro Pontes (Presidente) Marcos Antonio Borges, Jose Luiz Bordignon, , Paulo Antonio Caliendo Velloso da Silveira, Maria Inês Caldeira Pereira da Silva Murgel e eu, Sidney Eduardo Stahl (Relator)
Nome do relator: SIDNEY EDUARDO STAHL
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Data do fato gerador: 31/03/2005 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PROVA. Cabe ao contribuinte o ônus de comprovar as alegações que oponha ao ato administrativo. Inadmissível a mera alegação da existência de um direito. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA Somente os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Flávio de Castro Pontes - Presidente. (assinado digitalmente) Sidney Eduardo Stahl - Relator. EDITADO EM: 08/03/2013 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flavio de Castro Pontes (Presidente) Marcos Antonio Borges, Jose Luiz Bordignon, , Paulo Antonio Caliendo Velloso da Silveira, Maria Inês Caldeira Pereira da Silva Murgel e eu, Sidney Eduardo Stahl (Relator)
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PROVA. Cabe ao contribuinte o ônus de comprovar as alegações que oponha ao ato administrativo. Inadmissível a mera alegação da existência de um direito. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA Somente os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Flávio de Castro Pontes Presidente. (assinado digitalmente) Sidney Eduardo Stahl Relator. EDITADO EM: 08/03/2013 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flavio de Castro Pontes (Presidente) Marcos Antonio Borges, Jose Luiz Bordignon, , Paulo Antonio Caliendo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 91 12 78 /2 00 9- 11 Fl. 141DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES 2 Velloso da Silveira, Maria Inês Caldeira Pereira da Silva Murgel e eu, Sidney Eduardo Stahl (Relator) Fl. 142DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES Processo nº 10166.911278/200911 Acórdão n.º 3801001.648 S3TE01 Fl. 128 3 Relatório Adoto, por entender suficiente, o relatório da DRJ de Brasília, assim expresso: Consoante Despacho Decisório reproduzido à fl. 22, emitido eletronicamente em 07/10/2009, a autoridade competente homologou parcialmente a compensação efetuada pela contribuinte acima identificada por meio do PER/DCOMP nº. 15728.29980.151008.1.3.040441, transmitido em 15/10/2008, tendo em vista que não foi totalmente confirmado o crédito utilizado, no valor original de R$ 24.599,76, atribuído a pagamento a maior relativo ao período de apuração de 31/03/2005, efetuado através de DARF no importe de R$ 150.779,15, recolhido em 1/04/2005, sob o código de receita 2172 (Cofins), do qual o valor de R$ 148.597,96 foi utilizado para extinguir débito equivalente confessado em DCTF, restando disponível o valor original de R$ 2.181,19. Cientificada do despacho denegatório por via postal em 20/10/2009 (fl. 25), a interessada apresentou em 18/11/2009 a manifestação de inconformidade acostada às fls. 01/04, alegando, em síntese, que, de acordo com a legislação que rege a compensação tributária, tratada no art. 74 da Lei nº. 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº. 10.637, de 2002, cujos dispositivos reproduz, tem o direito de aproveitar o pagamento efetuado indevidamente a maior, bastando apenas proceder a retificação da DCTF. A DRJ julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade com base na seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/03/2005 PAGAMENTO A MAIOR. FALTA DE COMPROVAÇÃO. Não tendo sido trazida na manifestação de inconformidade nenhuma prova documental que dê suporte à alegada ocorrência de pagamento a maior, não há reparos a fazer no despacho decisório recorrido. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido Apresenta a Recorrente o presente recurso voluntário alegando em síntese que a DRJ deveria aceitar a DCTF retificadora “uma vez que o programa ao período mencionado no DARF de origem do crédito não permitiu a transmissão via internet, e por Fl. 143DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES 4 conseqüência glosar inadvertidamente a Declaração de Compensação – PER/DCOMP apurada pela recorrente...”. Junta com a sua defesa cópia de segurança da DCTF retificadora, DIPJ equivalente e outros documentos. Requer, por fim, seja aceita a retificação da DCTF e homologada a compensação apresentada. É o relatório, Fl. 144DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES Processo nº 10166.911278/200911 Acórdão n.º 3801001.648 S3TE01 Fl. 129 5 Voto Conselheiro Sidney Eduardo Stahl, relator O recurso é tempestivo e reúne os demais pressupostos de admissibilidade, razão pela qual dele se conhece. Conforme relatado a Recorrente apresentou PER/DCOMP cujo crédito não foi reconhecido pelo sistema da Receita em decorrência de já ter sido alocado com outro débito em DCTF. A recorrente alega que tal fato decorreu de erro no preenchimento da DCTF e que não pode corrigila tendo em vista que não lhe foi permitida a transmissão pela internet. Na realidade a Recorrente não pode retificar a DCTF porque já havia se esgotado o qüinqüênio relativo ao período informado. Mesmo assim não o fosse, do exame desse litígio administrativo verificase que a Recorrente não apresentou sequer um demonstrativo de cálculo do seu crédito, de que sorte o pedido de compensação nos moldes requeridos não pode prosperar. Consignese que o artigo 170 da Lei nº 5.172, de 25/10/1966 (Código Tributário Nacional) estabelece como requisito para compensação que o crédito seja líquido e certo. No caso em discussão, o direito creditório não se apresentou líquido e certo, pois a requerente não comprovou por meio de demonstrativos, da escrituração fiscal e dos lançamentos contábeis ou quaisquer outros documentos o valor de seu crédito. Lembremonos que estamos diante de um pedido de compensação e que cabe ao contribuinte, no mínimo, informar a origem de seu crédito, o Contribuinte administrado deve apresentar as provas do seu direito creditório. Tratase de postulado do Código de Processo Civil, subsidiariamente aplicável ao PAF, vejamos: Art. 333. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Art. 396. Compete à parte instruir a petição inicial (art. 283), ou a resposta (art. 297), com os documentos destinados aprovarlhe as alegações. No processo administrativo fiscal, temse como regra que cabe àquele que pleiteia o direito, provar os fatos, prevalecendo o princípio de que o ônus da prova cabe a quem dela se aproveita. Portanto, no caso em apreço, compete ao sujeito passivo. À ora Recorrente, a Fl. 145DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES 6 comprovação de que preenche os requisitos para fruição do ressarcimento, por intermédio da presente compensação. Ademais, do mesmo modo que o Decreto nº 70.235/1972 estabelece, em seu artigo 9°, a obrigatoriedade da autoridade fiscal traduzir por provas os fundamentos do lançamento, também atribui ao contribuinte, no inciso III do artigo 16, o ônus de comprovar as alegações que oponha ao ato administrativo. Em verdade, este dispositivo legal apenas transfere, para o processo administrativo fiscal, o sistema adotado pelo Código de Processo Civil, que, em seu artigo 333, ao repartir o ônus probandi, o faz inadmitindo a mera alegação e a negação geral. Assim, na hipótese da compensação pleiteada, recai sobre a interessada o ônus de provar a pretensão deduzida, sendo imprescindível que as provas e argumentos sejam carreados aos autos. Não sendo apresentadas provas das alegações, nem sequer a origem do crédito pleiteado, há que se negar o pedido realizado. Nesse sentido voto por negar provimento ao presente recurso voluntário. (assinado digitalmente) Sidney Eduardo Stahl Relator Fl. 146DF CARF MF Impresso em 02/04/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 27/03/2013 por SIDNEY EDUARDO STAHL, Assinado digitalmente em 28/03/2013 por FLAVIO DE CASTRO PONTES
score : 1.0
Numero do processo: 15956.000004/2008-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF
Exercício: 2004, 2006
IRPF. DESPESAS MÉDICAS. GLOSA.
As despesas médicas são dedutíveis da base de cálculo do imposto sobre a renda, desde que comprovadas e justificadas.
Hipótese em que o conjunto probatório existente nos autos não é suficiente para confirmar o pagamento, ou mesmo a prestação dos serviços apontados pela contribuinte.
Recurso negado.
Numero da decisão: 2101-001.603
Decisão: ACORDAM os Membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Matéria: IRPF- ação fiscal - outros assuntos (ex.: glosas diversas)
Nome do relator: ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA
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DESPESAS MÉDICAS. GLOSA. As despesas médicas são dedutíveis da base de cálculo do imposto sobre a renda, desde que comprovadas e justificadas. Hipótese em que o conjunto probatório existente nos autos não é suficiente para confirmar o pagamento, ou mesmo a prestação dos serviços apontados pela contribuinte. Recurso negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os Membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Presidente (assinado digitalmente) ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA Relator Fl. 301DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Processo nº 15956.000004/200831 Acórdão n.º 210101.603 S2C1T1 Fl. 278 2 Participaram do julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente), Alexandre Naoki Nishioka (Relator), José Raimundo Tosta Santos, Eivanice Canário da Silva, José Evande Carvalho Araujo e Ewan Teles Aguiar. Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 266/275) interposto em 20 de junho de 2008 contra acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo II (SP) (fls. 254/262), do qual a Recorrente teve ciência em 02 de junho de 2008 (fl. 264, verso), que, por unanimidade de votos, julgou procedente o auto de infração de fls. 219/222, lavrado em 26 de dezembro de 2007, em decorrência de dedução indevida de despesas médicas, verificada nos anoscalendário de 2003 e 2005. O acórdão teve a seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2003, 2005 GLOSA DE DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. SÚMULA DE DOCUMENTAÇÃO TRIBUTARIAMENTE INEFICAZ. A existência de "Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz" impede a utilização de recibos como elementos de prova de despesas médicas, quando apresentados isoladamente, sem apoio em outros documentos probatórios complementares que demonstrem a efetiva prestação dos serviços e o correspondente pagamento. GLOSA DE DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. Mantidas as glosas de despesas médicas, quando não comprovada a efetividade dos serviços prestados e do seu pagamento. Lançamento Procedente” (fl. 254). Não se conformando, a Recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 266/275), pedindo a reforma do acórdão recorrido, para cancelar o auto de infração. É o relatório. Voto Conselheiro ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Relator O recurso preenche os requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. No tocante ao meritum causae, verificase que os valores apurados no auto de infração combatido se referem à glosa de despesas médicas, especificamente em relação (i) aos Fl. 302DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Processo nº 15956.000004/200831 Acórdão n.º 210101.603 S2C1T1 Fl. 279 3 valores supostamente pagos à profissional Rosemary Gomes, cujos recibos foram objeto da edição de “Súmula de Documentação Tributariamente Ineficaz”, (ii) à diferença apurada em relação ao valor apontado em DIRPF e aquele efetivamente pago à Unimed Ribeirão Preto e, por fim (iii) ao montante transferido, supostamente, à Dra. Sarah de Oliveira Lollato. Em relação aos citados pontos, objeto do auto de infração guerreado, cumpre pontuar que a Recorrente (i) admitiu, expressamente, a ocorrência de divergências em relação ao valor efetivamente pago à Unimed, e, bem assim, (ii) também desistiu de recorrer em relação à glosa do valor correspondente às despesas médicas declaradas com base em recibos emitidos pela Dra. Rosemary Gomes, razão pela qual referidos aspectos não serão objeto de análise nesta fase recursal. Feitas as breves ressalvas destacadas no parágrafo precedente, fazse mister aferir, assim, a correção da glosa das despesas médicas em relação à Dra. Sarah Lollato. Antes de ingressar, propriamente, nos fatos objeto de apuração in casu, cumpre trazer à baila o quanto disposto pelo art. 8º da Lei n.º 9.250/95, aplicável ao mérito da demanda, in verbis: “Art. 8º. A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I – de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II – das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; ... §2º. O disposto na alínea ‘a’ do inciso II: I – aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II – restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao seu próprio tratamento e ao de seus dependentes; III – limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou Cadastro Geral de Contribuintes – CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento.” Já o Decreto 3.000/99, ao regulamentar o imposto de renda, introduziu o seguinte comando normativo: Fl. 303DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Processo nº 15956.000004/200831 Acórdão n.º 210101.603 S2C1T1 Fl. 280 4 “Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei n.º 5.844, de 1.943, art. 11, § 3º). § 1º. Se foram pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (DecretoLei n.º 5.844, de 1943, art. 11, § 4º).” Cabe mencionar que deve a autoridade fiscalizadora fazer a prova necessária para infirmar o recibo de despesas dedutíveis acostado aos autos pela fiscalizada, comprovando a não prestação do serviço ou o não pagamento. Não se pode, simplesmente, glosar as despesas médicas pelo fato de a fiscalizada não comprovar documentalmente o pagamento, já que o contribuinte, em relação a este ponto, não está obrigado a liquidar as obrigações representativas dos serviços por títulos de créditos, podendo fazer a liquidação em espécie. Salvo em casos excepcionais, quando a autoria do recibo for atribuída a profissional que tenha contra si súmula administrativa de documentação tributariamente ineficaz, devidamente homologada e com cópia nos autos para que o contribuinte possa exercer seu direito de defesa ou, quando efetivamente existirem nos autos elementos que possam afastar a presunção de veracidade de recibo, não se pode recusar recibos que preenchem os requisitos legais e que vêm acompanhados de declarações dos profissionais confirmando a prestação dos serviços, o respectivo recebimento, o beneficiário do tratamento e os dados completos do prestador. Nesse sentido a determinação contida no art. 845, § 1°, do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000/99, in verbis: "§ 1° Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores com elemento seguro de prova ou indicio veemente de falsidade ou inexatidão” (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 79, §12)." Os documentos que comprovam a contraprestação dos serviços médicos prestados e deduzidos pelo contribuinte devem ser devidamente armazenados pelo mesmo lapso de tempo que as autoridades fiscais têm para constituir possível crédito. Nesse sentido, colacionase alguns acórdãos que elucidam tal entendimento: “NULIDADE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA – PROVA – No processo administrativo tributário os fatos devem evidenciarse com provas documentais. A documentação dos fatos havidos no transcorrer do anocalendário tem prazo para guarda igual àquele em que possível a constituição do correspondente crédito tributário.” (1º Conselho de Contribuintes, 2ª Câmara, Recurso Voluntário nº. 146.926, relator Conselheiro Naury Fragoso Tanaka, sessão de 04/07/2007) “DOCUMENTOS – GUARDA – O prazo para guarda de documentos é o mesmo que o permitido ao sujeito ativo para exigir o tributo ou rever de ofício o lançamento.” (1º Conselho de Contribuintes, 2ª Câmara, Recurso Voluntário nº. 140.839, relator Conselheiro Naury Fragoso Tanaka, sessão de 21/06/2006) Fl. 304DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Processo nº 15956.000004/200831 Acórdão n.º 210101.603 S2C1T1 Fl. 281 5 No presente caso, muito embora não se esteja a tratar, especificamente, da hipótese de dedução de despesas médicas relativas a profissional, em face do qual houve investigação específica e edição de súmula administrativa de documentação ineficaz, para fins tributários, acredito que o arcabouço probatório existente in casu não permite conclusão diversa daquela apontada pela fiscalização. Nesse sentido, como se sabe, o processo administrativo fiscal, regrado pelo Decreto n.º 70.235/72, com natureza de lei ordinária, estabeleceu, de forma inconteste, em relação à aferição do conjunto probatório, o princípio do livre convencimento motivado, estampado pelo art. 29 do referido diploma legal, vazado nos seguintes termos: “Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias.” À luz do referido princípio, pois, entendo ser escorreita a conclusão alçada pela decisão a quo, na medida em que as provas produzidas apontam, expressamente, para a inexistência das despesas, tal como declaradas pela contribuinte. De fato, compulsandose os autos, verificase que, muito embora a Dra. Sarah Lollato não tivesse contra si a edição de súmula de documentação tributariamente ineficaz, a contribuinte não logrou comprovar a efetiva prestação dos serviços pela referida psicóloga, e, bem assim, especialmente, os pagamentos feitos na importância indicada. Compulsandose os autos do presente processo, notase, com clareza, que além dos recibos, pela qualidade do material empregado (modelo de recibo que pode ser facilmente encontrado em estabelecimentos comerciais), não se mostrarem compatíveis com a importância alegadamente paga pela contribuinte (fls. 64/67), o que, por si só, não poderia sufragar a glosa dos valores, também se verifica a inexistência de comprovação, por qualquer meio hábil, dos serviços prestados, seja por declaração do próprio profissional, seja por demonstração do comparecimento do contribuinte ao consultório da referida psicóloga. Nada obstante, também o pagamento não restou comprovado pela contribuinte, na medida em que, à luz dos documentos apresentados, a Recorrente demonstrou a transferência à Dra. Sarah Lollato apenas do valor de R$ 750,00 (fl. 06), montante em muito discrepante do quanto, alegadamente, teria pago à citada profissional, sendo improvável supor que o restante da verba tenha sido desembolsado em espécie. Além disso, verificase que, em 2003, os rendimentos da contribuinte, somandose o valor líquido das pensões (fls. 68/69) percebidas, atinge o valor de R$ 80.000,00 no ano, não sendo razoável supor que tenha, de fato, gasto boa parte desse valor (R$ 10.000,00) apenas com o pagamento de valores à psicóloga (fora outras despesas apontadas nos próprios autos). Os referidos indícios, outrossim, devem ser acrescidos do fato, também relevante para o fim de formar a convicção do julgador, de que a contribuinte, nesse mesmo anocalendário, se apropriou de despesas médicas notoriamente inidôneas, em relação a profissional que teve contra si a edição de súmula de documentação tributariamente ineficaz (fls. 41/56), profissional este que, residente na cidade de Bebedouro (município diverso do que reside a Recorrente), inclusive chegou a afirmar que desconhecia a contribuinte in casu. Fl. 305DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS Processo nº 15956.000004/200831 Acórdão n.º 210101.603 S2C1T1 Fl. 282 6 Por todas essas razões, e, especialmente, à luz do conjunto probatório existente nos autos, entendo cabível a glosa em relação às despesas declaradas pela contribuinte, razão pela qual não merece prosperar a sua irresignação. Eis os motivos pelos quais voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso. (assinado digitalmente) ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA Relator Fl. 306DF CARF MF Impresso em 23/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/04/2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 25/04/ 2012 por ALEXANDRE NAOKI NISHIOKA, Assinado digitalmente em 26/04/2012 por LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
score : 1.0
Numero do processo: 10640.002433/2004-50
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF
Exercício: 2001
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO.
Constatada, mediante embargos de declaração, a ocorrência de obscuridade, omissão ou contradição deve-se proferir novo Acórdão, para rerratificar o Acórdão embargado.
Embargos Acolhidos
Numero da decisão: 2102-002.060
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em
ACOLHER os embargos de declaração, para rerratificar o Acórdão nº 210200.396, de 02/12/2009 e alterar a redação do dispositivo da decisão que passa a ter o seguinte teor: "ACORDAM os membros da Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir dos rendimentos tributáveis a quantia de R$ 33.046,25 (R$ 140.176,91 R$ 107.130,66) e alterar o imposto de renda retido
na fonte de R$ 19.557,84 para R$ 14.992,02".
Matéria: IRPF- auto de infração eletronico (exceto multa DIRPF)
Nome do relator: NUBIA MATOS MOURA
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em ACOLHER os embargos de declaração, para rerratificar o Acórdão nº 210200.396, de 02/12/2009 e alterar a redação do dispositivo da decisão que passa a ter o seguinte teor: "ACORDAM os membros da Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir dos rendimentos tributáveis a quantia de R$ 33.046,25 (R$ 140.176,91 R$ 107.130,66) e alterar o imposto de renda retido na fonte de R$ 19.557,84 para R$ 14.992,02".
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1841; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; access_permission:can_modify: true; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C1T2 Fl. 1 1 S2C1T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10640.002433/200450 Recurso nº 154.840 Embargos Acórdão nº 210202.060 – 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 17 de maio de 2012 Matéria IRPF Embargos Embargante DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL EM JUIZ DE FORA/MG Interessado SANDRA ELISA PIMENTA DE SOUZA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2001 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. Constatada, mediante embargos de declaração, a ocorrência de obscuridade, omissão ou contradição devese proferir novo Acórdão, para rerratificar o Acórdão embargado. Embargos Acolhidos Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em ACOLHER os embargos de declaração, para rerratificar o Acórdão nº 210200.396, de 02/12/2009 e alterar a redação do dispositivo da decisão que passa a ter o seguinte teor: "ACORDAM os membros da Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir dos rendimentos tributáveis a quantia de R$ 33.046,25 (R$ 140.176,91 R$ 107.130,66) e alterar o imposto de renda retido na fonte de R$ 19.557,84 para R$ 14.992,02". Assinado digitalmente Giovanni Christian Nunes Campos – Presidente Assinado digitalmente Núbia Matos Moura – Relatora Fl. 292DF CARF MF Impresso em 30/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/06/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 25/06/2012 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 16/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10640.002433/200450 Acórdão n.º 210202.060 S2C1T2 Fl. 2 2 EDITADO EM: 25/06/2012 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Acácia Sayuri Wakasugi, Francisco Marconi de Oliveira, Giovanni Christian Nunes Campos, Núbia Matos Moura e Roberta de Azeredo Ferreira Pagetti. Ausente justificadamente o Conselheiro Atilio Pitarelli. Relatório Em sessão plenária realizada em 2 de dezembro de 2009 esta Turma julgou o recurso apresentado pela contribuinte SANDRA ELISA PIMENTA DE SOUZA, Acórdão nº 210200.396, fls. 196/199, sendo proferida a seguinte decisão: ACORDAM os membros da Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir os montantes de R$ 23.904,65 dos rendimento tributáveis, de R$ 4.565,82 do IRRF declarado e de R$ 1.286,87 da despesa dedutível da contribuição previdenciária, nos termos do voto da Relatora. Ao tomar conhecimento do acórdão acima mencionado, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Juiz de Fora/MG apresentou Embargos de Declaração, fls. 204, onde aponta a existência de contradição no acórdão embargado, conforme a seguir transcrito: No demonstrativo de fl. 06 do Acórdão (ou fl. 198, verso, do processo) a Relatora corrigiu os cálculos elaborados pela Autoridade Fiscal e apurou novo valor de R$ 105.200,66 para o Total de Rendimentos Tributáveis da DIRPF/2001. À fl. 7 do Acórdão (ou fl. 199 do processo), a Relatora deu provimento parcial ao recurso da contribuinte para excluir o montante de R$ 23.904,65 dos rendimentos tributáveis. No Auto de Infração o valor dos rendimentos tributáveis recebidos de pessoa jurídica foi revisto para R$ 138.246,91. Excluindose deste valor a parcela de R$ 23.904,65, conforme determinado pela Relatora, temse: R$ 138.246,91 R$ 23.904,65 = R$ 114.342,30. Sendo assim, proponho encaminhar o presente processo ao CARF para esclarecer qual o valor dos rendimentos tributáveis recebidos de Pessoa Jurídica a ser considerado: R$ 105.200,66 ou R$ 114.342,30. É o Relatório. Fl. 293DF CARF MF Impresso em 30/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/06/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 25/06/2012 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 16/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10640.002433/200450 Acórdão n.º 210202.060 S2C1T2 Fl. 3 3 Voto Conselheira Núbia Matos Moura, relatora Os Embargos de Declaração apresentados pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Juiz de Fora/MG preenchem os requisitos legais para sua admissibilidade e devem ser conhecidos. Cuidase de Auto de Infração que imputou à contribuinte a infração de omissão de rendimentos, no valor total de R$ 67.512,02, sendo R$ 47.054,90 da União Federal, em processo trabalhista e R$ 20.457,12 do Ministério da Saúde. Em decorrência da omissão de rendimentos, a autoridade fiscal alterou o imposto de renda retido na fonte de R$ 11.007,95 para R$ 19.557,84. No acórdão embargado esclareceuse que a infração de omissão de rendimentos recebidos do Ministério da Saúde não fazia parte da lide e que, no que se refere aos rendimentos recebidos em decorrência da ação trabalhista, restou assentado que o rendimento recebido pela contribuinte foi de R$ 94.159,49 e que houve o pagamento de honorários advocatícios de R$ 9.415,95, de modo que o rendimento tributável passou para R$ 84.734,54. E mais, restou também assentado que o imposto de renda retido na fonte sobre os rendimentos recebidos em decorrência da ação trabalhista foi de R$ 13.480,00. Para ilustrar tais conclusões fezse constar no voto condutor do acórdão embargado os seguintes demonstrativos: Rendimentos Tributáveis na DAA (Ex. 2001): Rendimento Tributável Ação Trabalhista: ........................... R$ 84.743,54 Rendimento Tributável Min. da Saúde (mat. ñ litigiosa) .... R$ 20.457,12 Total dos Rendimentos Tributáveis: ................................. R$ 105.200,66 Imposto de Renda na Fonte a Compensar: I.R.R FONTE (Proc. Trabalhista) ........................... R$ 13.480,00 I.R.R FONTE (Rend. Minist. Da Saúde) .................... R$ 1.512,02 (=)I.R.R FONTE (a compensar) .............................. R$ 14.992,02 No demonstrativo acima transcrito consta uma pequena impropriedade, pois deixouse de incluir os rendimentos recebidos de pessoas físicas que a contribuinte ofereceu à tributação em sua Declaração de Ajuste Anual (DAA), no valor de R$ 1.930,00. Ou seja, o valor de R$ 105.200,66 corresponde aos rendimentos recebidos de pessoas jurídicas e os rendimentos tributáveis seriam, na verdade, de R$ 107.130,66 (R$ 105.200,66 + R$ 1.930,00). Contudo, a redação do último parágrafo do voto condutor do acórdão embargado, assim como o dispositivo do acórdão (...por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir os montantes de R$ 23.904,65 dos rendimento Fl. 294DF CARF MF Impresso em 30/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/06/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 25/06/2012 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 16/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS Processo nº 10640.002433/200450 Acórdão n.º 210202.060 S2C1T2 Fl. 4 4 tributáveis, de R$ 4.565,82 do IRRF declarado e de R$ 1.286,87 da despesa dedutível da contribuição previdenciária, nos termos do voto Relatora) não refletem as conclusões a que se chegou no voto do acórdão, assim como não refletem a verdade material demonstrada nos autos, sendo certo que para apurar o imposto suplementar devido pela contribuinte devem ser promovidas as seguintes alterações: rendimentos tributáveis de R$ 140.176,91 para R$ 107.130,66 e imposto de renda retido na fonte de R$ 19.557,84 para R$ 14.992,02. Ante o exposto, voto por acolher os embargos de declaração, rerratificar o Acórdão nº 210200.396, de 02/12/2009 e alterar a redação do dispositivo da decisão que passa a ter o seguinte teor: ACORDAM os membros da Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL provimento ao recurso, para excluir dos rendimentos tributáveis a quantia de R$ 33.046,25 (R$ 140.176,91 – R$ 107.130,66) e alterar o imposto de renda retido na fonte de R$ 19.557,84 para R$ 14.992,02. Assinado digitalmente Núbia Matos Moura Relatora Fl. 295DF CARF MF Impresso em 30/10/2012 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/06/2012 por NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 25/06/2012 po r NUBIA MATOS MOURA, Assinado digitalmente em 16/07/2012 por GIOVANNI CHRISTIAN NUNES CAMPOS
score : 1.0
Numero do processo: 10880.910405/2006-47
Turma: Terceira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IRPJ. COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO.
O indeferimento dos pedidos de compensação por integral utilização dos
créditos indicados em procedimentos de compensação anteriores somente
pode ser infirmado mediante prova ou demonstração de que as compensações
anteriores não importaram em exaustão do crédito.
Tendo o contribuinte se limitado a defender a existência do saldo crédito
indicado à compensação, quedando silente quanto ao fundamento específico
do Despacho Decisório de indeferimento das compensações – utilização
integral do saldo credor indicado – não merece provimento o recurso
voluntário.
Numero da decisão: 1103-000.754
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
Matéria: CSL- que não versem sobre exigência de cred. trib. (ex.:restituição.)
Nome do relator: HUGO CORREIA SOTERO
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ementa_s : IRPJ. COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. O indeferimento dos pedidos de compensação por integral utilização dos créditos indicados em procedimentos de compensação anteriores somente pode ser infirmado mediante prova ou demonstração de que as compensações anteriores não importaram em exaustão do crédito. Tendo o contribuinte se limitado a defender a existência do saldo crédito indicado à compensação, quedando silente quanto ao fundamento específico do Despacho Decisório de indeferimento das compensações – utilização integral do saldo credor indicado – não merece provimento o recurso voluntário.
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NÃO HOMOLOGAÇÃO. O indeferimento dos pedidos de compensação por integral utilização dos créditos indicados em procedimentos de compensação anteriores somente pode ser infirmado mediante prova ou demonstração de que as compensações anteriores não importaram em exaustão do crédito. Tendo o contribuinte se limitado a defender a existência do saldo crédito indicado à compensação, quedando silente quanto ao fundamento específico do Despacho Decisório de indeferimento das compensações – utilização integral do saldo credor indicado – não merece provimento o recurso voluntário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. ALOYSIO JOSÉ PERCÍNIO DA SILVA Presidente. HUGO CORREIA SOTERO Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Fernandes Barroso, Marcos Shigueo Takata, Eduardo Martins Neiva Monteiro, Cristiane Silva Costa, Hugo Correia Sotero e Aloysio José Percínio da Silva. Fl. 71DF CARF MF Impresso em 06/02/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/10/2012 por JOSE ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 07/11/201 2 por HUGO CORREIA SOTERO, Assinado digitalmente em 28/12/2012 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10880.910405/200647 Acórdão n.º 110300.754 S1C1T3 Fl. 2 2 Relatório Tratase de indeferimento de pedido de compensação formalizado pelo contribuinte, indicando o Despacho Decisório de fl. 7, exarado pela Delegacia da Receita Federal de São Paulo (SP) a inexistência do crédito apontado na declaração de compensação, nestes termos: “A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Contra a decisão apresentou o contribuinte manifestação de inconformidade (fl. 13), arguindo ter declarado em DCTF o valor de R$ 78.500,06, ter recolhido R$ 84.847,60, de sorte a dispor, no exercício de 2003, de crédito no valor de R$ 6.347,54, pelo que requeria a reforma do Despacho Decisório e a homologação das compensações requeridas. A manifestação de inconformidade foi indeferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento de São Paulo (SP) por acórdão assim ementado: “COMPENSACÃO EM DCOMP. Não comprovada a existência de direito creditório vedase ao contribuinte efetuar as compensações em DCOMP. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. O reconhecimento do crédito depende da efetiva comprovação do alegado recolhimento indevido ou maior do que o devido. Compensação não Homologada” Da decisão se extrai: “A lide gira, portanto, em torno da existência ou não do direito creditório da interessada. Quanto a esta questão, a pleiteante nada apresentou para comprovar a existência, liquidez e certeza do crédito utilizado para a compensação dos débitos informados em DCOMP. Para qualquer reconhecimento de direito creditório, a requerente deverá fazer prova inequívoca da existência e veracidade do direito creditório (art.170 do CTN) sem a qual nada pode ser deferido de ofício pela autoridade fiscal. No mínimo deveria ter sido apresentado planilha demonstrativa de conciliação entre débitos e créditos respaldados em documentos comprobatórios da existência do alegado direito creditório. Fl. 72DF CARF MF Impresso em 06/02/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/10/2012 por JOSE ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 07/11/201 2 por HUGO CORREIA SOTERO, Assinado digitalmente em 28/12/2012 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10880.910405/200647 Acórdão n.º 110300.754 S1C1T3 Fl. 3 3 Em não tendo sido comprovado pela interessada a veracidade de suas alegações quanto à existência de direito creditório (falta de liquidez e certeza), fica mantido o despacho decisório proferido nos presentes autos.” Recurso voluntário de fl. 41, indicando o contribuinte a forma de obtenção do saldo credor utilizado para fins de compensação. É o relatório. Voto Conselheiro Hugo Correia Sotero Relator Recurso tempestivo. Preenchidos os requisitos de admissibilidade. No recurso interposto (fl. 41), limitouse o contribuinte a indicar os DARF pagos e os valores declarados em DCTF, afirmando que os pagamentos foram superiores aos valores efetivamente devidos, o que teria gerado crédito no valor de R$ 6.347,54. Nada obstante, a não homologação das compensações pleiteadas não se deu por questionamentos atinentes à composição do saldo credor e sim, e é expresso o Despacho Decisório neste sentido, por terem sido “localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Em resumo, a não homologação das compensações decorreu da utilização integral do crédito para quitação de outros débitos. Nesse contexto, tendo o Despacho Decisório, inclusive, indicado as compensações anteriormente realizadas pelo contribuinte, caberia a este, na manifestação de inconformidade e no recurso voluntário interposto, demonstrar que as compensações realizadas anteriormente (indicadas no Despacho Decisório) não importaram em consumo integral do crédito, o que garantiria a homologação das compensações. À míngua de comprovação da incorreção do Despacho Decisório, conheço do recurso voluntário para negarlhe provimento. Hugo Correia Sotero Relator Fl. 73DF CARF MF Impresso em 06/02/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/10/2012 por JOSE ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 07/11/201 2 por HUGO CORREIA SOTERO, Assinado digitalmente em 28/12/2012 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 10880.910405/200647 Acórdão n.º 110300.754 S1C1T3 Fl. 4 4 Fl. 74DF CARF MF Impresso em 06/02/2013 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/10/2012 por JOSE ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 07/11/201 2 por HUGO CORREIA SOTERO, Assinado digitalmente em 28/12/2012 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA
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