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Numero do processo: 10611.722082/2011-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Período de apuração: 13/01/2006 a 11/06/2008
DRAWBACK SUSPENSÃO. RESÍDUOS NÃO EXPORTADOS. PERDAS SUPERIORES A 5%. INADIMPLEMENTO PARCIAL DO REGIME. ART. 353 DO RA/2002. Configurado o inadimplemento parcial do regime aduaneiro especial de drawback, modalidade suspensão, diante da existência de resíduos não exportados decorrentes de perdas superiores a 5%, é devida a cobrança dos tributos aduaneiros suspensos.
MULTA DIÁRIA POR DESCUMPRIMENTO DO REGIME DE DRAWBACK. ART. 107, VII, E DO DECRETO-LEI Nº 37/66. DESCABIMENTO.
A multa capitulada no art. 107, VII, e do Decreto-Lei nº 37/66 não se aplica a descumprimento do regime de drawback, mas sim às condutas desempenhadas durante a utilização do regime aduaneiro especial (descumprimento de requisito, condição ou norma operacional).
Recurso de Ofício negado.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.931
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
José Henrique Mauri - Presidente.
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora.
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Larissa Nunes Girard e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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Fazenda Nacional ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Período de apuração: 13/01/2006 a 11/06/2008 DRAWBACK SUSPENSÃO. RESÍDUOS NÃO EXPORTADOS. PERDAS SUPERIORES A 5%. INADIMPLEMENTO PARCIAL DO REGIME. ART. 353 DO RA/2002. Configurado o inadimplemento parcial do regime aduaneiro especial de drawback, modalidade suspensão, diante da existência de resíduos não exportados decorrentes de perdas superiores a 5%, é devida a cobrança dos tributos aduaneiros suspensos. MULTA DIÁRIA POR DESCUMPRIMENTO DO REGIME DE DRAWBACK. ART. 107, VII, “E” DO DECRETOLEI Nº 37/66. DESCABIMENTO. A multa capitulada no art. 107, VII, “e” do DecretoLei nº 37/66 não se aplica a descumprimento do regime de drawback, mas sim às condutas desempenhadas durante a utilização do regime aduaneiro especial (descumprimento de requisito, condição ou norma operacional). Recurso de Ofício negado. Recurso Voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. José Henrique Mauri Presidente. Semíramis de Oliveira Duro Relatora. Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 61 1. 72 20 82 /2 01 1- 73 Fl. 634DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 635 2 Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Larissa Nunes Girard e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório A Recorrente é beneficiária do Regime Aduaneiro Especial de Drawback, modalidade suspensão e importou mercadorias com a suspensão do pagamento dos tributos devidos. Entretanto, a Fiscalização verificou que, no processo industrial a que foram submetidas as mercadorias para obtenção dos produtos destinados à exportação, foram identificados resíduos com percentuais superiores aos 5% permitidos pela legislação, relativamente aos Atos Concessórios nº 2005.0254855, 2006.0053887, 2006.0127350, 2006.0165669, 2006.0190604, 2007.0085722, 2007.0169705 e 2008.0028187. Por consequência, foram lavrados autos de infração para cobrança dos tributos (PISimportação, COFINSimportação, IPIimportação e Imposto de Importação), com multa de ofício de 75% e juros. Ademais, foi lavrado auto de infração para constituição de multa por descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para utilizarse do regime aduaneiro, com suporte no art. 107, inciso VII, alínea "e" do DecretoLei nº 37/66 com a redação dada pelo art. 77 da Lei n° 10.833/2003. A 7ª Turma da DRJ/FOR, no acórdão nº 0825.819, exonerou toda a multa aplicada com base no art. 107, inciso VII, alínea "e" do DecretoLei nº 37/66, no valor de R$ 9.244.000,00, recorrendo de ofício ao CARF. E, manteve a cobrança dos tributos suspensos, multa de ofício e juros de mora. A decisão foi assim ementada: DRAWBACK SUSPENSÃO. RESÍDUOS NÃO EXPORTADOS. PERDAS SUPERIORES A 5%. INADIMPLEMENTO PARCIAL DO REGIME. Caracteriza inadimplemento parcial do regime aduaneiro especial de drawback, modalidade suspensão, a existência de resíduos não exportados decorrentes de perdas superiores a 5% (cinco por cento), o que enseja a cobrança dos correspondentes tributos suspensos e consectários legais. DRAWBACK SUSPENSÃO. INADIMPLEMENTO PARCIAL. MULTA DIÁRIA POR DESCUMPRIMENTO DE REQUISITO, CONDIÇÃO OU NORMA OPERACIONAL. NÃO CABIMENTO. Expirado o prazo para exportação, previsto em ato concessório de Drawback, modalidade suspensão, é incabível a aplicação da multa diária por descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para utilizar regime aduaneiro especial, prevista no artigo 107, inciso VII, alínea “e”, do Decretolei nº 37, de 1966, com a redação da Lei nº 10.833, de 2003. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Fl. 635DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 636 3 Logo, a questão posta nestes autos é o descumprimento parcial do regime de drawbacksuspensão, uma vez que a fiscalização identificou em cada ato concessório, e seus respectivos “laudos técnicos”, que os produtos exportados (fusos direito/esquerdo, fuso roda traseira direita/esquerda, disc abs, cubo roda dianteira 22/25 dentes e fusos esquerdo/direito a tambor), industrializados a partir do insumo aço importado, sob o regime de drawback suspensão, apresentaram, no processo industrial, perdas superiores os 5%. Essas sobras superiores a 5% foram vendidas como sucatas, restos do processo produtivo de forjamento e/ou usinagem, ao qual o aço importado foi submetido. A compilação dos tópicos do extenso relatório fiscal foi corretamente transcrita pela DRJ, que comparam as importações e exportações para cada Ato Concessório: Em relação ao AC 2005.0254855, no item 5.2.1.3 “IMPORTAÇÕES x EXPORTAÇÕES”, a fiscalização aduz, às fl. 7172: “A partir das importações DOC 4 e exportações efetivadas pela beneficiária, elaboramos o Demonstrativo intitulado CÁLCULO DE UTILIZAÇÃO DA MERCADORIA (INSUMO) IMPORTADA À MERCADORIA (PRODUTO) EXPORTADA – PRODUÇÃO E ESTOQUE DOC 6 onde as mesmas foram relacionadas pela respectiva Declaração de Importação – DI DOC 4 – e pelos Registros de Exportação – REs, em ordem cronológica. Utilizando a relação de consumo insumo x produto informada pela beneficiária em seu laudo técnico intitulado “DRAWBACK – ATO CONCESSÓRIO Nº 20050254855 LAUDO TÉCNICO CONCLUSIVO DAS EXPORTAÇÕES REALIZADAS DESTE ATO” DOC 3 que foi de 1,60 kg por peça de fuso obtivemos um saldo negativo de estoque de 11.503,80 kg de AÇO. Vale dizer que as mercadorias importadas – AÇO – não foram suficientes para se produzir os FUSOS que foram exportados. (...) [...] a beneficiária, por meio de seu ofício datado de 07/12/11 DOC 3 apresentou as notas fiscais de entrada, relativas às compras no mercado nacional, cujos quantitativos são suficientes para compensar os saldos negativos apurados. Também apresentou as cópias do Livro de Registro de Controle de Produção e Estoque DOC 3. As notas fiscais DOC 3 apresentadas foram emitidas pela Gerdau Aços Especiais SA e têm datas de emissão/saída – 31/03/06 a 27/03/09 – compatíveis com as datas das importações das mercadorias efetivadas e sua industrialização.” E, no item 5.2.1.4 (fl. 72), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 73: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico, que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a Fl. 636DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 637 4 obtenção dos FUSOS ESQUERDOS/DIREITOS destinados à exportação resultou perda de 0,280 kg por peça. Esta perda de 0,280kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 17,50% (0,280/1,600) do AÇO empregado no processo.” Quanto ao AC 2006.0053887, no item 5.2.2.4 (fl. 78), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 79: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico, DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback com a suspensão do pagamento dos tributos devidos foi submetido para a obtenção dos FUSOS DE RODA, CUBOS DE RODA e, FUSOS ESQUERDOS e DIREITOS, cuja descrição completa consta no demonstrativo acima, destinados à exportação resultou perdas. No quadro abaixo, por tipo de produto exportado, relacionamos cada item com as suas respectivas perdas em kg de acordo com as informações prestadas no laudo técnico e os respectivos percentuais apurados por esta Fiscalização.” No que se refere ao AC 2006.0127350, no item 5.2.3.4 (fl. 83), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: Fl. 637DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 638 5 A fiscalização afirma, à fl. 84: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico, DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback com a suspensão do pagamento dos tributos devidos foi submetido para a obtenção dos FUSOS DE RODA, CUBOS DE RODA, e FUSOS ESQUERDOS e DIREITOS, cuja descrição completa consta no demonstrativo acima, destinados à exportação resultou perdas. No quadro abaixo, por tipo de produto exportado, relacionamos cada item com as suas respectivas perdas em kg de acordo com as informações prestadas no laudo técnico e os respectivos percentuais apurados por esta Fiscalização.” Em relação ao AC 2006.0165669, no item 5.2.4.4 (fl. 88), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 89: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback – com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a obtenção dos FUSOS ESQUERDOS/DIREITOS A TAMBOR destinados à exportação resultou perda de 0,340 kg por peça. Esta perda de 0,340kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 18,38% (0,340/1,850) do AÇO empregado no processo”. Fl. 638DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 639 6 Quanto ao AC 2006.0190604, no item 5.2.5.4 (fl. 93), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 94: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback – com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a obtenção dos fusos direitos/esquerdos destinados à exportação resultou perda de 0,340 kg por peça. Esta perda de 0,340kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 18,38% (0,340/1,850) do aço empregado no processo”. No que pertine ao AC 2007.0085722, no item 5.2.6.4 (fl. 97), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 98: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback – com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a obtenção dos FUSOS ESQUERDOS/DIREITOS A TAMBOR destinados à exportação resultou perda de 0,340 kg por peça. Esta perda de 0,340kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 18,38% (0,340/1,850) do AÇO empregado no processo”. Fl. 639DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 640 7 No que diz respeito ao AC 2007.0169705, no item 5.2.7.4 (fl. 101), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 102: “Temos, pois, a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback – com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a obtenção dos FUSOS ESQUERDOS/DIREITOS A TAMBOR destinados à exportação resultou perda de 0,340 kg por peça. Esta perda de 0,340kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 18,38% (0,340/1,850) do AÇO empregado no processo”. No que se refere ao AC 2008.0028187, no item 5.2.8.4 (fl. 105), ao discorrer sobre o último laudo apresentado pela empresa, o autuante destaca as principais informações desse documento: A fiscalização afirma, à fl. 106: “Temos pois a ratificação da AUTO FORJAS, por meio de seu laudo técnico DOC 3 que do processo produtivo ao qual o AÇO importado sob o Regime Aduaneiro Especial de Drawback – com a suspensão do pagamento dos tributos devidos – foi submetido para a obtenção dos FUSOS ESQUERDOS/DIREITOS A TAMBOR destinados à exportação resultou perda de 0,340 kg por peça. Esta perda de 0,340kg por peça conforme informação acima destacada e constante do laudo técnico datado de 22/11/11 DOC 3 equivale a 18,38% (0,340/1,850) do AÇO empregado no processo”. Por sua vez, em cada Ato Concessório, os percentuais de perda apurados e os excedentes foram assim identificados: Fl. 640DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 641 8 “5.3.1.1. ATO CONCESSÓRIO Nº 2005.0254855 No processo produtivo no qual foram obtidos os FUSOS DIREITOS/ESQUERDOS resultou resíduos quantificados em 0,280 kg por peça conforme informação prestada no Laudo Técnico Conclusivo datado de 22/11/11 DOC 3. No subitem 5.2.1.4, a partir das informações das perdas (resíduos) de 0,280 kg informadas no Laudo Técnico Conclusivo DOC 3 apuramos o respectivo percentual que é de 17,50% (0,280/1,600). Assim, cumprindo o que determina o art. 353 do Regulamento Aduaneiro – RA, aprovado pelo Decreto nº 4.543 de 26/12/02, linhas acima reproduzido, desprezaremos os resíduos, não exportados, no montante de 5% e apuraremos os excedentes conforme abaixo demonstrado: 5.3.1.2.ATOS CONCESSÓRIOS nº 2006.0053887 e 2006.0127350 Neste tópico trataremos dos Atos Concessórios de Drawback – modalidade Suspensão nºs 2006.0054887 e 2006.0127350 por contemplarem os mesmos produtos e terem as mesmas informações relativas aos resíduos. No processo produtivo no qual foram obtidos os produtos abaixo relacionados resultou resíduos, também abaixo quantificados por peça, conforme informações prestadas nos laudos técnicos conclusivos datados de 22/11/11 DOC 3. No subitem 5.2.2.4 e 5.2.3.4. a partir das informações das perdas (resíduos) em kg informadas nos Laudos Técnicos Conclusivos DOC 3 apuramos os seus respectivos percentuais que constam do demonstrativo acima. Assim, cumprindo o que determina o art. 353 do Regulamento Aduaneiro RA, aprovado pelo Decreto nº 4.543 de 26/12/02, linhas acima reproduzido, desprezaremos os resíduos, não exportados, no montante de 5% e apuraremos os excedentes conforme abaixo demonstrado: Fl. 641DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 642 9 5.3.1.3. ATOS CONCESSÓRIOS DE DRAWBACK nº 2006.0165669, 2006.0190604, 2007.0085722, 2007.0169705 e 2008.0028187 Neste tópico trataremos dos Atos Concessórios de Drawback – modalidade Suspensão nºs 2006.0165669, 2006.0190604, 2007.0085722, 2007.0169705 e 2008.0028187 DOC 3 por contemplarem os mesmos produtos e terem as mesmas informações relativas aos resíduos. No processo produtivo no qual foram obtidos os FUSOS DIREITOS/ESQUERDOS resultou resíduos quantificados em 0,340 kg conforme informação prestada nos Laudos Técnicos Conclusivos datado de 22/11/11 DOC 3. No subitem 5.2.4.4, 5.2.5.4, 5.2.6.4, 5.2.7.4 e 5.2.8.4. a partir das informações das perdas (resíduos) de 0,340 kg informadas nos Laudos Técnicos Conclusivos – anexo 01 apuramos o seu percentual que é de 18,38% (0,340/1,850). Assim, cumprindo o que determina o art. 353 do Regulamento Aduaneiro RA, aprovado pelo Decreto nº 4.543 de 26/12/02, linhas acima reproduzido, desprezaremos os resíduos, não exportados, no montante de 5% e apuraremos os excedentes conforme abaixo demonstrado: Diante dos resíduos de aços, não exportados, com percentual acima 5% (cinco por cento), a Fiscalização apurou o valor tributável: Em relação ao AC nº 2005.0254855, no item 5.4.1, a fiscalização aduz que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão nº 2005.0254855 foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 06/00501277 registrada em 13/01/06. Às fls. 23 desta DI, consta a taxa cambial de 2,3679 quando o correto é 2,2679. Assim, o VMLD – (valor tributável) de US$ 41.774,85 que consta às fls. 13 da referida DI, corresponderia ao valor de R$ 94.741,18 convertido à taxa cambial de 2,2679. Segundo o autuante, conforme visto no subitem 5.3.1.1, no que se refere ao AC nº 2005.0254855, a glosa de 12,50%; este percentual será aplicado sobre o VMLD – R$ 94.741,18 e corresponderá ao valor tributável de R$ 11.842,65, que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. Em relação ao AC nº 2006.0053887, a fiscalização afirma, no item 5.4.2, que as importações de aço vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão nº 2006.0053887, foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 06/06860791 registrada em 13/06/06. Segundo o autuante, às fls. 13 desta DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 68.708,04 que convertido à taxa cambial de 2,2615 que consta às fls. 23 dessa DI, corresponde a R$ 155.383,23. Em seguida, aduz o autuante: “Conforme visto no subitem 5.3.1.2 temos vários produtos e para cada um deles o percentual da glosa será diferente, conforme abaixo demonstrado: (...) A partir do dos quantitativos totalizados, individualizados por produto, que constam no demonstrativo CÁLCULO DE UTILIZAÇÃO DA MERCADORIA (INSUMO) IMPORTADA À MERCADORIA (PRODUTO) EXPORTADA PRODUÇÃO E ESTOQUE do Ato Concessório 2006.0053887 DOC 6 e do demonstrativo acima que quantifica os Fl. 642DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 643 10 resíduos, montamos um terceiro demonstrativo que apresenta, por produto, o quantitativo a ser glosado. Da quantidade relativa às perdas e da quantidade total consumida, podemos estabelecer o percentual relativo à glosa que será de (20.260,57/102.533,20) 19,76%. A glosa de 19,76% será aplicada sobre o VMLD – R$ 155.383,23 e corresponderá ao valor tributável de R$ 30.703,73 que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais”. Em relação ao AC nº 2006.0127350, a fiscalização afirma, no item 5.4.3, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão, acima citado, foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 06/11511694 registrada em 25/09/06. Às fls. 13 desta DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 177.630,02, que, convertido à taxa cambial de 2,1969, corresponde a R$ 390.235,39. Em seguida, aduz o autuante: Conforme visto no subitem 5.3.1.2 temos vários produtos e para cada um deles o percentual da glosa será diferente, conforme abaixo demonstrado: (...) A partir do dos quantitativos totalizados, individualizados por produto, que constam no demonstrativo CÁLCULO DE UTILIZAÇÃO DA MERCADORIA (INSUMO) IMPORTADA À MERCADORIA (PRODUTO) EXPORTADA PRODUÇÃO E ESTOQUE do Ato Concessório 2006.0127350 DOC 6 e do demonstrativo acima que quantifica os resíduos, montamos um terceiro demonstrativo que apresenta, por produto, o quantitativo a ser glosado. Da quantidade relativa às perdas e da quantidade total consumida, podemos estabelecer o percentual relativo à glosa que será de (65.159,12/278.254,45) 23,41%. A glosa de 23,41% será aplicada sobre o VMLD – R$ 390.235,39 e corresponderá ao valor tributável de R$ 91.354,10 que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. No que se refere ao AC nº 2006.0165669, o autuante afirma, no item 5.4.4, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão acima citado foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 06/15398000 registrada em 19/12/06. Às fls. 13 da DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 134.148,17, que convertido à taxa cambial de 2,147 informação que se encontra às fls. 23 da mesma DI corresponde a R$ 288.016,12. Fl. 643DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 644 11 De acordo com a fiscalização, conforme visto no subitem 5.3.1.3 a glosa de 13,38% será aplicada sobre o VMLD de R$ 288.016,12 e corresponderá ao valor tributável de R$ 38.536,56 que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. No que se refere ao AC nº 2006.0190604, o autuante afirma, no item 5.4.5, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão acima citado foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 07/02798295, registrada em 05/03/07. Às fls. 13 da DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 150.486,76, que convertido à taxa cambial de 2,126 informação que se encontra às fls. 2 3 da mesma DI corresponde a R$ 319.934,85. De acordo com a fiscalização, conforme visto no subitem 5.3.1.3 a glosa de 13,38% será aplicada sobre o VMLD de R$ 319.934,85 e corresponderá ao valor tributável de R$ 42.807,28 que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. Quanto ao AC nº 2007.0085722, o autuante afirma, no item 5.4.6, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão acima citado foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 07/10751200, registrada em 13/08/07. Às fls. 13 da DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 72.822,30, que convertido à taxa cambial de 1,9191 informação que se encontra às fls. 23 da mesma DI corresponde a R$ 139.753,28. De acordo com a fiscalização, conforme visto no subitem 5.3.1.3 a glosa de 13,38% será aplicada sobre o VMLD de R$ R$ 139.753,28 e corresponderá ao valor tributável de R$ 18.698,99, que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. Quanto ao AC nº 2007.0169705, o autuante afirma, no item 5.4.7, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão acima citado foram formalizadas por meio das Declarações de Importação – DIs nºs 08/02740248, 08/044479663 e 08/08441692 registradas em 21/02, 25/03 e 06/06/08, respectivamente. Entende o autuante que a beneficiária ao iniciar a produção de FUSOS destinados à exportação, utilizou o AÇO relativo às primeiras importações (as mais antigas). De modo que, ao proceder à glosa do AÇO, a fiscalização afirma que iniciará pela última importação (a mais recente) até concluir a quantidade total a ser glosada. Às fls. 13 da DI nº 08/008441692 – última DI (de data de registro mais recente) consta, segundo o autuante, o VMLD (valor tributável) de US$ 24.331,81, que convertido à taxa cambial de 1,6307 informação que se encontra às fls. 23 da mesma DI corresponde a R$ 39.677,88. De acordo com a fiscalização, conforme visto no subitem 5.3.1.3 a glosa de 13,38% será aplicada sobre o VMLD de R$ R$ 39.677,88 e corresponderá ao valor tributável de R$ 5.308,90 que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. Enfim, no que pertine ao AC nº 2008.0028187, o autuante afirma, no item 5.4.8, que as importações de AÇO vinculadas ao Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão acima citado foram formalizadas por meio da Declaração de Importação – DI 08/ 08717108 registrada em 11/06/08. Da DI consta o VMLD (valor tributável) de US$ 23.856,96, que convertido à taxa cambial de 1,6265 informação que se encontra às fls. 23 da mesma DI corresponde a R$ 38.803,34. De acordo com a fiscalização, conforme visto no subitem 5.3.1.3 a glosa de 13,38% será aplicada sobre o VMLD de R$ R$ 38.803,34 e corresponderá ao valor tributável de R$ 5.191,89, que será transferido para o sistema SAFIRA para apuração dos tributos devidos bem como os acréscimos legais. Em sede de impugnação, a empresa aduziu que: Fl. 644DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 645 12 Mesmo que as perdas decorrentes do processo de produção sejam superiores a 5%, em momento algum há o descumprimento do regime de Drawback, já que a impugnante cumpriu todos os requisitos para a manutenção deste regime, tendo, inclusive, exportado quantidade superior ao que estava obrigada; ocorre que, no processo produtivo, como é o caso da impugnante, ao se produzirem as peças que serão posteriormente exportadas, o insumo que é utilizado em tal produção sofre uma perda natural e decorrente do processo. Por consequência, referida perda não pode ser utilizada para a produção de outro, já que, logicamente, já não tem a qualidade necessária a possibilitar sua reutilização; para evidenciar o afirmado, tomandose como exemplo o aço, que é insumo de produção da impugnante. Ao se utilizar uma barra de aço para a produção de um párachoque de carro, por exemplo, tal barra encontrase em estado perfeito, ou seja, sem dobramentos, sem modelamento, sem rachaduras. Ao final do processo de produção a barra original do aço já passou por diversas alterações e, portanto, não poderá ser utilizada para produzir outro pára choque, já que a utilização dessa placa de aço deformada prejudicaria a qualidade do produto final; desse modo, em seu processo de industrialização, a impugnante sofre uma perda de insumo, que no caso em tela, foi efetivamente superior a 5%. apesar das perdas do processo de produção da impugnante serem superiores a 5%, essas são naturais, não podendo ser evitadas, mas tal fato não descaracteriza o regime de drawback desde que o contribuinte brasileiro cumpra com sua obrigação de exportação da quantidade exata da matéria prima importada; pensar de maneira distinta significaria que qualquer contribuinte que, por peculiaridades em seu processo de produção, apresentasse perdas maiores que 5% da matéria prima empregada, ficaria obstado de utilizarse do regime de drawback suspensão, fato que além de malferir o princípio da isonomia não atenderia a mens legis da norma de regência deste regime aduaneiro; notese que no trabalho fiscal realizado, ao analisar cada ato concessório da impugnante, a fiscalização apurou que a quantidade exportada foi superior a quantidade de matéria prima importada, gerando inclusive o que denominou, na autuação, de “estoque negativo”. se assim o é, qual o fundamento jurídico para sustentar a autuação perpetrada? Se a impugnante apresenta perdas normais em seu processo produtivo superiores a 5%, e, por força desta peculiaridade compra a mesma matéria prima para poder cumprir com suas obrigações de exportação, é juridicamente impossível manter a referida autuação; a situação vivida pela impugnante é antiga, sendo compartilhada por diversos contribuintes, havendo entendimento judicial e administrativo de que isso, chamado de princípio da fungibilidade do regime aduaneiro, é suficiente para evitar a desconsideração do regime; o próprio legislador federal, diante de inúmeros casos nesse sentido, editou a Medida Provisória 428/2008, posteriormente convertida na Lei n. 11.774, de 17 de setembro de 2008, que, atualmente em vigor, traz a previsão, em seu artigo 17, do princípio da fungibilidade; é evidente que esse princípio deve ser plenamente observado na análise de fato dos contribuintes beneficiados com o regime aduaneiro. E causa estranheza o fato da fiscalização ter constatado que a impugnante comprou matériaprima no mercado interno, que cumpriu com todas as suas obrigações de exportação e, mesmo assim, apoiandose no fato de perdas superiores a 5% nos processos produtivos, autuou a defendente; ainda que o Regulamento Aduaneiro de 2002 tenha primado pelo princípio da vinculação física da mercadoria importada que necessita ser industrializada, é evidente que a modificação legislativa acima transcrita restaura a obrigação do aplicador em adotar o princípio da fungibilidade nas análises fiscais e respectivas autuações. E resta evidente que tal modificação, ainda que posterior aos anos em que a impugnante gozou do benefício dos regimes de Drawback, deve ser respeitada para fins de penalização da empresa. Essa conclusão é decorrência lógica da leitura do artigo 106 do Código Tributário Nacional; Fl. 645DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 646 13 em uma análise minuciosa de cada um dos atos concessórios do Drawback, pode ser demonstrado que, apesar de a impugnante ter obtido perdas superiores a 5%, estas foram supridas por matériasprimas provenientes do mercado interno a fim de possibilitar o integral cumprimento do Drawback, exportando tudo aquilo a que estava obrigada, mesmo tendo perdas naturais em seu processo de produção; como acima evidenciado, ao efetivamente exportar as suas peças, é notória a conclusão de que as mesmas haviam sido produzidas parcialmente com material beneficiado pelo Drawback e parcialmente com material que não foi beneficiário do mesmo, qual seja, a mercadoria interna. Apesar de haver a substituição da matéria prima externa pela interna, em momento algum tal fato pode ser utilizado para fins de considerar que houve o descumprimento do Drawback, pois, como já exposto, é necessário que a quantidade de matéria prima importada seja exportada, e isso foi cumprido integralmente pela impugnante; ainda que por hipótese o princípio da vinculação física seja exaltado para fins de permitir a interpretação conferida pela fiscalização, é indiscutível que a interpretação da norma deve ser realizada em consonância com a situação de fato vivida pela impugnante; a leitura do artigo 341 do RA/2002 permite que o intérprete identifique dois elementos, quais sejam: (i) a matériaprima importada deve ser submetida ao processo produtivo; e (ii) o resultado do processo produtivo deve ser exportado. Não há meio interpretativo que sustente a conclusão de que 100% da mercadoria importada deva ser exportado sob a forma de produto acabado, ainda que tal fato seja cumprido; conforme atesta o próprio auto de infração lavrado, 100% da matéria prima aço importada pela impugnante foi exclusivamente empregada em seu processo produtivo. Não houve, neste sentido, qualquer descumprimento da norma de regência; não houve deslocamento ou desvio de finalidade na condução adotada pela impugnante. Esta nunca circulou a matériaprima importada, dando destino diverso à mesma do que empregála em seu processo produtivo. E, além disso, o produto resultante do processo industrial foi integralmente exportado; a interpretação literal do artigo acima permite afirmarmos que por parte da impugnante houve o efetivo cumprimento do requisito legal de fruição dos benefícios do regime de drawback; de fato, a problemática erigida pela ação fiscal é outra, distinta da falta de vinculação física da matériaprima importada. pela análise fiscal, como os processos industriais da impugnante geram perdas superiores a 5%, concluiuse que essas não foram empregadas no processo produtivo, erigindo, com isso, a presunção de desvio de finalidade; é evidente que essa conclusão beira as raias do absurdo. Não houve desvio de finalidade dos requisitos de cumprimento do regime, nem geração proposital de perdas nos processos produtivos. a perda de insumo, que no caso em tela, foi efetivamente superior a 5%: “...é NORMAL, INEVITÁVEL E DECORRENTE do processo de produção. E perdas não possuem valor comercial de grande monta para a IMPUGNANTE. O caso da IMPUGNANTE é completamente diverso daqueles em que o usuário do DRAWBACK gera vantagem ilícita no desvio de finalidade de emprego / destino do insumo importado. A obtenção do resíduo sucata que é vendido pela IMPUGNANTE tem valor comercial muito inferior à própria matéria prima importada. O que evidencia que não faz, sequer do ponto de vista econômico, há algum sentido na autuação fiscal. Aliás, Ilmos. Julgadores, caso assim não seja entendido, qual seria a vantagem econômica para a IMPUGNANTE ao importar aço com preço de mercado para depois revendêlos como sucata? Nenhuma, evidente, porque assim proceder seria contrário a qualquer lógica do mercado”. portanto, clarividente se faz que as perdas decorrentes do processo de industrialização da impugnante não possuem por objetivo ludibriar o fisco para evitar o recolhimento dos tributos devidos, mas sim são naturais do mesmo e não podem ser evitadas. Diante da peculiaridade dos seus processos produtivos e dos percentuais de perdas gerados, é evidente que a autuação perpetrada e, em especial, a imputação da multa, não guardam fundamento de validade com o sistema jurídico brasileiro; Fl. 646DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 647 14 além da multa e juros comuns incidentes sobre os tributos, cobrase uma multa especial exorbitante no valor de R$ 9.224.000,00 decorrente de aplicação diária de R$ 1.000,00, nos termos do artigo 728 do Regulamento Aduaneiro RA aprovado pelo decreto nº 6.759/09; por essa norma, percebese claramente que a hipótese de incidência da referida multa é o descumprimento de requisito do Drawback, ou seja, não exportar a matériaprima importada com isenção de tributos. Desse modo, para que a multa seja passível de aplicação é necessário que se verifique o fato gerador no mundo fático, ou seja, a efetiva falta de exportação das mercadorias importadas com isenção; para a multa ser aplicada à impugnante, o Fisco argumenta que, pelo fato de ela ter tido perdas em seu processo produtivo, não exportou toda a matériaprima importada e, portanto, seria sancionada por meio da multa diária. Entretanto, absurdo maior não há, vez que como já exposto, é necessário que haja o descumprimento de requisito do Drawback para imposição da multa, e em momento algum houve violação a este requisito, já que toda matériaprima importada foi efetivamente exportada; a imposição da multa diária é verdadeira ilegalidade, vez que tal multa diária apenas pode ser cominada quando houver infração ou for descumprida norma concessória do Drawback, e isso, como exaustivamente exposto, não ocorreu; não obstante o integral cumprimento dos requisitos do Drawback, cabe ressaltar que a multa especial diária também não está prevista em nossa jurisprudência administrativa pátria quando os requisitos do Drawback não são efetivamente preenchidos, conforme ementas de decisões transcritas; como permitir que a sanção aplicada, qual seja, a multa diária no valor de R$ 1.000,00, seja permitida quando atinge, praticamente, a totalidade do montante exorbitante do Auto de Infração de R$ 9.000.000,00?; de tal modo, resta evidente que a multa especial incidente sobre o presente Auto de infração, qual seja, a multa diária de R$ 1.000,00, é completamente ilegal, vez que a impugnante em momento algum cometeu infração quanto aos requisitos para concessão do Drawback, bem como tal multa não lhe possibilita regular defesa, tendo efeitos nitidamente confiscatórios, o que é vedado em nosso ordenamento jurídico; Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa seus argumentos quanto ao não descumprimento do regime do drawback e requer a exclusão da multa de ofício de 75%, já que não houve dolo. Defende o acerto da decisão da DRJ quanto à exoneração da multa diária. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Regime Aduaneiro Especial de Drawback Suspensão Tratase de regime de incentivo à exportação, que permite a importação de insumos do exterior (a serem incorporados ou utilizados na industrialização de produtos Fl. 647DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 648 15 destinados à exportação) com a suspensão dos tributos incidentes sobre a operação, os quais ficam suspensos desde a entrada no território nacional. O ponto central do regime é que as mercadorias importadas devem ser totalmente integradas no processo produtivo ou na embalagem, acondicionamento ou apresentação de mercadorias destinadas a posterior e obrigatória exportação. A suspensão dos tributos aduaneiros na importação é condicionada à posterior exportação, nos exatos termos do Ato Concessório. Caso realizada a correta exportação, operamse os efeitos legais da isenção tributária. Se não, serão exigidos os tributos suspensos, considerados como não pagos. As informações do Ato Concessório são aquelas relacionadas ao processo de industrialização e ao projeto de exportação, cujas informações são fornecidas pelo próprio beneficiário. Os requisitos formais do regime de drawback são inerentes ao controle do incentivo à exportação, sendo caso que deságua na isenção dos tributos aduaneiros, o que acarreta a estreita observância das condições impostas para habilitação no regime, em observância ao art. 111, do CTN. O drawback traz como escopo o “princípio da vinculação física”, ou seja, demanda que a mercadoria ou insumo importado seja vinculado fisicamente ao bem a exportar. A razão de ser da vinculação física voltase a evitar que as mercadorias importadas do exterior sem pagamento de tributos, fossem destinadas ao mercado interno, gerando uma desigualdade em relação àquelas tributadas no regime comum. Dispunha o art. 341 do Regulamento Aduaneiro, Decreto nº 4.543/02, vigente à época: Art. 341 As mercadorias admitidas no regime, na modalidade de suspensão, deverão ser integralmente utilizadas no processo produtivo ou na embalagem, acondicionamento ou apresentação das mercadorias a serem exportadas. E o art. 342: Art. 342. As mercadorias admitidas no regime que, no todo ou em parte, deixarem de ser empregadas no processo produtivo de bens, conforme estabelecido no ato concessório, ou que sejam empregadas em desacordo com este, ficam sujeitas aos seguintes procedimentos: I no caso de inadimplemento do compromisso de exportar, em até trinta dias do prazo fixado para exportação: a) devolução ao exterior ou reexportação; b) destruição, sob controle aduaneiro, às expensas do interessado; ou Fl. 648DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 649 16 c) destinação para consumo das mercadorias remanescentes, com o pagamento dos tributos suspensos e dos acréscimos legais devidos; II no caso de renúncia à aplicação do regime, adoção, no momento da renúncia, de um dos procedimentos previstos no inciso I; e III no caso de descumprimento de outras condições previstas no ato concessório, requerimento de regularização junto ao órgão concedente, a critério deste. Entendo como necessário o cumprimento do princípio da vinculação física. Em recente decisão, a Câmara Superior, no acórdão nº 9303004.427–3ª Turma, julg. 06/12/2016, ratificou a jurisprudência majoritária do CARF, nesse sentido: ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Período de apuração:29/03/2006 a 19/12/2007 DRAWBACK SUSPENSÃO. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO FÍSICA. INOBSERVÂNCIA. INADIMPLEMENTO DO REGIME. EXIGIBILIDADE DOS TRIBUTOS SUSPENSOS. POSSIBILIDADE. O cumprimento do princípio da vinculação física é requisito essencial para o adimplemento do compromisso de exportação assumido no ato concessório do regime drawback suspensão. Neste caso, a Recorrente ao obter as perdas superiores a 5%, adquiriu os insumos no mercado interno a fim de possibilitar o integral cumprimento do Drawback, exportando a integralidade prevista no Ato Concessório. Em vista disso, alega a seu favor a retroatividade da Lei nº 11.774/2008, para que diante da fungibilidade não haveria descumprimento do regime. Entendo que a razão não está com a contribuinte, uma vez que o descumprimento parcial do drawback se deu por decorrência de perdas no processo de industrialização superiores ao expressamente permitido pela legislação: 5%. O descumprimento parcial do regime já se caracteriza pela afronta ao disposto no art. 353 do RA/2002. Perdas do insumo aço, acima de 5% A Recorrente informou que as perdas, no processo produtivo, do aço importado, as quais constam em seis laudos técnicos são todas vendidas na forma de sucata, conforme as notas fiscais de saída, operação venda de sucata, nº 007403, 023231, 023339, 051936 e 051772 de 30/07/07, 13/03/08, 14/03/08, 11/03/09 e 09/03/09 DOC 3, bem como informou: “AUTO FORJAS LTDA, empresa sediada no Município de Sete Lagoas – Min(sic) Gerais estabelecida na Av. Prefeito Alberto Moura, 900 Bairro Distrito Industrial, inscrita no CNPJ sob o Fl. 649DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 650 17 numero 25.308.198/000368, atendendo vossa solicitação via telefone e também ao item 4C do Termo de Intimação Fiscal inicial nº 00156/0, estamos apresentando cópia das notas fiscais de venda de Sucatas de aço que apuramos no momento de forjamento e ou usinagens de nossas peças (sic) com isto esclarecemos que as perdas declaradas em nossos laudos não geram outros produtos e sim são totalmente sucateadas.” Há de se destacar que as sucatas foram vendidas no mercado nacional, conforme notas fiscaisfaturas apresentadas pela beneficiária DOC 3 ou seja não foram exportadas”. Dispõe o art. 353 do RA/2002 que: Art. 353. Na concessão do regime serão desprezados os subprodutos e os resíduos não exportados, quando seu montante não exceder de cinco por cento do valor do produto importado. E, o art. 65 da Portaria SECEX nº 35/06: Art.65. Serão desprezados os subprodutos e os resíduos não exportados, quando o seu montante não exceder de 5% (cinco por cento) do valor do produto importado. Assim, na concessão do regime de Drawbacksuspensão serão desprezadas as perdas não exportadas, quando seu montante não exceder de 5% do produto importado. Caso contrário, o excesso deve ser objeto de tributação. Entretanto, as perdas no processo industrial superiores os 5% são fatos incontroversos. Assim, se descumprido o disposto no artigo 353 do RA/2002, são devidos os tributos suspensos correspondentes às diferenças superiores aos 5%. Andou bem a decisão recorrida ao afirmar: Havendo excesso de perdas, há inadimplemento parcial do regime, ainda que a empresa exporte a quantidade comprometida de produtos, ou mesmo acima do pactuado. Nesse sentido a Portaria Secex nº 35/2006, que revogou a Portaria Secex nº 14/2004, dispõe, em seu art. 154, que o inadimplemento do Regime será considerado total, quando não houver nenhuma exportação que comprove a utilização da mercadoria importada; ou parcial, se existir exportação efetiva que comprove a utilização de parte da mercadoria importada. Houve, portanto, descumprimento parcial do Drawback. Não há qualquer violação à isonomia na aplicação da norma prevista no art. 353 do RA/2002. Isso ocorreria se a norma fosse excepcionada para uns e para outros não. Fl. 650DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 651 18 A mens legis do dispositivo é no sentido que sejam permitidas perdas somente até 5%, e foi exatamente o que fez a fiscalização a cobrar os tributos suspensos correspondentes às diferenças superiores àquele percentual, para cada AC. Cabe ressaltar que a fiscalização não considerou totalmente inadimplido o Drawback, mas apenas parcialmente, exigindo apenas as diferenças acima do percentual de 5%, conforme fls. 107116. Outrossim, apesar de, pelo que já foi acima expendido, estar patente a violação ao art. 353 do RA/2002, o que, por si só, já é suficiente para manter a autuação, de forma diversa do que alega a impugnante, houve, como consequência da referida violação, descumprimento do princípio da vinculação física, expressamente citado pela fiscalização à fls. 4648 como princípio basilar do Drawback suspensão, sendo que, conforme acima expendido, a necessidade de seu cumprimento nesse regime é patente. De acordo com o princípio da vinculação física, todas as mercadorias importadas, com suspensão dos tributos, devem ser integralmente utilizadas diretamente e fisicamente no processo produtivo ou na embalagem, acondicionamento ou apresentação de mercadorias destinadas à exportação, nos termos e condições previstos no Ato Concessório do Regime (Art. 341 do RA/2002). Ora, apesar de a legislação, excepcionando o referido princípio, permitir perdas até 5% (cinco por cento), havendo excesso, como no caso concreto, resta cristalina a afronta ao citado postulado, já que os produtos importados não são, por esse fato, integralmente utilizados nas mercadorias destinadas à exportação, o que também é motivo para a manutenção da autuação. Aliás, a empresa deixa claro que aplicou produtos adquiridos no mercado interno às mercadorias exportadas, fato que, em vez de socorrer a impugnante depõe contra ela, já que deixa claro o descumprimento da vinculação física, em franca violação ao art. 341 do RA/2002, ao afirmar, à fl. 426, que: “Se a IMPUGNANTE apresenta perdas normais em seu processo produtivo superiores a 5% (cinco por cento) e, por força desta peculiaridade compra a mesma matéria prima para poder cumprir com suas obrigações de exportação, é juridicamente impossível manter a referida autuação”. Em suma, da aplicação conjunta dos art. 341 e 353 do RA resulta a conclusão de inadimplemento parcial dos atos concessórios, sendo devida a cobrança dos tributos aduaneiros suspensos. Por fim, quanto ao item “da glosa e apuração do valor tributável”, não houve contestação expressa do valor tributável atribuído às perdas. Correta aplicação da multa de ofício de 75% Fl. 651DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 652 19 Alega a Recorrente que, já que ausente o dolo, não caberia a aplicação da multa de ofício de 75%. Todos os traços da multa aplicada estão previstos em lei, atendendo ao princípio da legalidade, nos termos dos artigos 5º, II e 37, caput da Constituição e artigo 97 do CTN. E ainda, de acordo com o parágrafo único do art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Dessa forma, constatada a falta de recolhimento de tributo, a autoridade fiscal não só está autorizada como, por dever funcional, está obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa pertinente, que neste caso foi de 75%. Diante disso, deve ser afastado esse pleito da empresa. Recurso de Ofício – exoneração da multa diária (art. 107, VII, “e” DL 37/66) A multa, com suporte na alínea “e” do inciso VII do art. 107 do DL 37/66, foi calculada em R$ 1.000,00 diários, aplicada da data em que encerrada a validade dos atos concessórios até a data da lavratura do auto de infração. A motivação do relatório fiscal foi assim descrita: Drawback é um Regime Aduaneiro Especial conforme disposto no capítulo V do Título I – Dos Regimes Aduaneiros Especiais do Livro IV – Dos Regimes Aduaneiros Especiais e dos Aplicados em Áreas Especiais do Regulamento Aduaneiro – RA (decreto 4.543/02). Sendo o Drawback um Regime Aduaneiro Especial e tendo constatado que a AUTO FORJAS descumpriu norma (= cometeu infração), conforme verificado nos subitens 5.3. e 6.1, ao utilizar o Regime Aduaneiro Especial de Drawback sujeitarseá a MULTA PELO DESCUMPRIMENTO DE REGIME ADUANEIRO ESPECIAL no valor diário de R$ 1.000,00 (Hum mil Reais). A multa acima será aplicada para cada um dos Atos Concessórios de Drawback modalidade Suspensão nºs Atos Concessórios de DRAWBACK – modalidade Suspensão nºs 2005.0254855, 2006.0053887, 2006.0127350, 2006.0165669, 2006.0190604, 2007.0085722, 2007.0169705 e 2008.0028187 DOC 3. 6.3.2.1. ATO CONCESSÓRIO nº 2005.0254855 Tendo o Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão nº 2005.0254855 DOC 3 expirado em 13/01/08 (= data de validade), conforme se verifica pela tela do sistema Drawback Web do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio – MDIC intitulada “Consulta de Dados Básicos DOC 3 a multa será aplicada a partir do primeiro dia seguinte ou seja dia 14/01/08. Fl. 652DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 653 20 A multa será aplicada a partir do dia 14/01/08, 2ª feira, até o dia 16/12/11 data de lavratura do Auto de Infração, perfazendo um total de 1.433 dias, conforme demonstrativo abaixo: (...) O total da MULTA PELO DESCUMPRIMENTO DE REGIME ADUANEIRO ESPECIAL será pois de R$ 1.433.000,00 (1.433 dias x R$ 1.000,00) para o Ato Concessório de DRAWBACK, modalidade Suspensão nº 2005.0254855 DOC 3 6.3.2.2. ATO CONCESSÓRIO nº 2006.0053887 (...) Não merece reparo a decisão de piso, no sentido de que assa multa não se subsome ao presente caso. O teor prescritivo do dispositivo é: Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (...) VII de R$ 1.000,00 (mil reais): (...) e) por dia, pelo descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para habilitarse ou utilizar regime aduaneiro especial ou aplicado em áreas especiais, ou para habilitarse ou manter recintos nos quais tais regimes sejam aplicados; Observase que a aplicação da multa diária se volta a apenar as condutas descumprimento de requisito, condição ou norma operacional durante a vigência do regime, ou seja, durante a utilização do benefício aduaneiro ou ainda, se se estiver pleiteando a habilitação no regime. Então, não se aplica a regime do drawback já extinto. Por isso, acertamento o voto condutor da DRJ consignou: Toda norma jurídica positiva, entre as quais se inclui a norma que estabelece uma penalidade no campo tributário, possui um pressuposto ou suporte fático e um dispositivo ou regra normativa. A concretização do pressuposto de fato faz incidir a norma jurídica. Sendo assim, inferese da leitura do dispositivo acima que o legislador bem definiu as hipóteses em que a conduta do sujeito passivo perante o agente do fisco poderá resultar na imposição da referida multa, quais sejam: Fl. 653DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 654 21 i) descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para habilitarse em regime aduaneiro especial ou aplicado em áreas especiais; ii) descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para utilizar regime aduaneiro especial ou aplicado em áreas especiais; ou ainda, iii) descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para habilitarse em recintos nos quais tais regimes sejam aplicados; e iv) descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para manter recintos nos quais tais regimes sejam aplicados. Isto posto, cabe perquirir se houve a devida subsunção dos fatos à norma infringida. Observandose as hipóteses acima, verificase que a única que poderia ser aplicável ao caso concreto seria a “ii” (descumprimento de requisito, condição ou norma operacional para utilizar regime aduaneiro especial ou aplicado em áreas especiais). A infração cometida pela impugnante (auto lavrado em 16/12/2011), conforme se pode deduzir do acima expendido, referese ao fato de ter havido excesso de perdas (acima de 5%), o que causou a violação do princípio da vinculação física, em relação aos mencionados Atos Concessórios de Drawback, modalidade Suspensão, tendo havido inadimplemento parcial do regime, e tendo estes AC´s expirado em 13/06/2007, 26/09/2007, 20/10/2007, 13/01/2008, 05/03/2009, 13/08/2009, 20/02/2010 e 12/06/2010. Entretanto, esse fato relacionado à citada infração não se enquadra em nenhuma das citadas hipóteses. Isso porque, de acordo com a legislação já citada, tendo em vista a natureza e o modus operandi do regime drawback, modalidade suspensão, conforme exposto anteriormente, somente se pode aventar a possibilidade de a impugnante utilizar o regime aduaneiro de drawback, fazendo importações, exportando, etc, até a data limite para exportação prevista no ato concessório. Após essa data não cabe mais utilização do regime. Cabe apenas a verificação do cumprimento de todas as condições e requisitos assumidos na concessão do regime e, constatado o inadimplemento, ou seja, a não utilização dos insumos importados nas exportações pactuadas no AC, há que se exigir os tributos suspensos com seus respectivos consectários legais. Em outras palavras, entendo que a conduta sancionada pela penalidade em relevo referese às atividades que o interveniente deva desempenhar em cumprimento de suas obrigações durante a utilização do regime. Isto é, não se está falando em cumprimento do próprio regime, assim considerado após o prazo Fl. 654DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 655 22 estabelecido para as exportações, e sim o cumprimento de obrigações operacionais para que possa utilizar o regime durante o período de sua vigência. Este argumento se justifica quando se vislumbra o objetivo de norma punitiva variável, que apena o descumprimento de obrigação enquanto não for regularizada a situação, impondo um acréscimo diário da multa, estimulando de maneira significativa que o infrator regularize sua situação. Tanto que, no caso em tela, em se admitindo que fosse cabível tal multa, era de se esperar que a sua imposição diária estancasse apenas quando ocorresse o cumprimento da obrigação, a qual, segundo a fiscalização, consiste no adimplemento do próprio regime de drawback (obediência ao limite de 5% de perdas e à vinculação física) que, ressaltese, não foi e nem nunca seria cumprido pela beneficiária, já que esgotado o prazo para a realização das exportações a que estaria obrigada. Portanto, sob essa equivocada perspectiva, a multa seria exigida indefinidamente, o que não faz o menor sentido. Assim, ao término do prazo concedido no AC para utilização do regime de drawback, não há que se falar em aplicação de multa diária por descumprimento de obrigação durante a utilização do regime, e sim, como já mencionado, na verificação do cumprimento de todas as condições e requisitos assumidos na concessão do regime. Enfim, encerrado o prazo concedido no ato concessório para utilização do Drawback, há que se analisar o cumprimento dos termos do regime, que se descumpridos, levam a autuação fiscal dos tributos que estavam suspensos. Por conseguinte, nego provimento ao recurso de ofício. Conclusão Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício e negar provimento ao voluntário. Sala de Sessões, 25 de julho de 2017. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 655DF CARF MF Processo nº 10611.722082/201173 Acórdão n.º 3301003.931 S3C3T1 Fl. 656 23 Fl. 656DF CARF MF
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Numero do processo: 13888.721696/2014-29
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS
Período de apuração: 01/10/2011 a 01/05/2012
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DE MEMBROS DO CONSELHO
DIRETOR DE PESSOA JURÍDICA.
Deixar de recolher valores retidos sobre a folha de pagamento e outros é comportamento que se amolda à situação típica capaz de atribuir responsabilidade aos dirigentes que deixam de efetivar o pagamento do quanto retido, o que enseja a condenação dos solidários.
Numero da decisão: 3302-003.504
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos a Conselheira Maria do Socorro e o Conselheiro Ricardo Rosa, que declaravam nula a decisão de primeira instância e a Conselheira Lenisa Prado, Relatora, que dava provimento ao Recurso. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Domingos de Sá
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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Deixar de recolher valores retidos sobre a folha de pagamento e outros é comportamento que se amolda à situação típica capaz de atribuir responsabilidade aos dirigentes que deixam de efetivar o pagamento do quanto retido, o que enseja a condenação dos solidários. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos a Conselheira Maria do Socorro e o Conselheiro Ricardo Rosa, que declaravam nula a decisão de primeira instância e a Conselheira Lenisa Prado, Relatora, que dava provimento ao Recurso. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Domingos de Sá. (assinatura digital) Ricardo Paulo Rosa - Presidente (assinatura digital) Lenisa Prado - Relatora A C Ó R D Ã O G E R A D O N O P G D -C A R F PR O C E SS O 1 38 88 .7 21 69 6/ 20 14 -2 9 Fl. 1.168Fl. 1.168 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária janeiro de 2017 janeiro de 2017 Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CAPIVARI SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE CAPIVARI FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL AA Fl. 1171DF CARF MF 2 (assinatura digital) Domingos de Sá Filho - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Paulo Guilherme Dérouledé, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araújo e Lenisa Prado. Relatório A questão tem início em procedimento fiscal1 de revisão de declaração de pessoa jurídica, onde foram constatadas divergências nos valores informados na Declaração do Imposto de Renda Retido na Fonte (DIRF) com os valores recolhidos aos cofres públicos mediante Documento de Arrecadação das Receitas Federais (DARF), e confessados por meio de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), referentes aos anos calendário de 2009 a 2012. A Santa Casa de Misericórdia de Capivari foi intimada a prestar esclarecimentos com relação à divergência dos valores informados entre a DIRF, a DCTF, e os recolhimentos por meio de DARF relativos ao IRRF, referentes ao período fiscalizado, porque, diante das informações incompatíveis, a fiscalização considerou que os mesmos não foram integralmente recolhidos. A fiscalizada não respondeu à primeira intimação, motivo pelo qual foi re- intimada2. Em 28/03/2014 a contribuinte solicitou prorrogação de trinta dias de prazo para resposta. Em 29/04/2014 a fiscalizada solicitou nova prorrogação de prazo, por mais 45 dias. A fiscalização deferiu a prorrogação do prazo por mais 20 dias3. Em 19/05/2014 a contribuinte apresentou sua resposta à intimação (fls. 435/635), onde admite que as DIRFs e as DCTFs foram preenchidas de forma equivocada e que nelas existem omissões. Alega que os equívocos foram perpetrados pelo escritório de contabilidade. Acostou à sua resposta planilhas separadas por códigos de retenção, nos quais são informados os valores pagos e os valores devidos. A contribuinte também informa que efetuou retenções de contribuições sociais sem o devido recolhimento aos cofres públicos, nem tão pouco as declarou em DCTF. Essas contribuições foram retidas sob o código da receita 5952 - que equivalem a retenção da CSLL, da COFINS e da contribuição para o PIS/Pasep pela prestação de serviços de limpeza, conservação, manutenção, segurança, vigilância, transporte de valores e locação de mão-de- obra, pela prestação de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção e riscos, administração de contas a pagar e a receber, e pela remuneração de serviços profissionais, conforme planilhas constantes da resposta à intimação. 1 Mandado de Procedimento Fiscal n. 0812500.2014.00056, de 27/06/2014. 2 Termo de Reintimação n. 06/2014, lavrado em 14/03/2012, cuja ciência ocorreu em 21/03/2014, conforme atesta o Aviso de Recebimento Postal de fls. 3 Termo de Deferimento lavrado em 06/05/2014, cuja ciência ocorreu em 09/05/2014, conforme atesta o Aviso de Recebimento Postal de fls. Fl. 1172DF CARF MF Processo nº 13888.721696/2014-29 Acórdão n.º 3302-003.504 S3-C3T2 Fl. 1.169 3 Considerando os valores admitidos como devidos pela própria contribuinte em sua resposta, e as informações obtidas nos sistemas da Receita Federal do Brasil, a fiscalização constatou a insuficiência de pagamentos de tributos retidos na fonte. Por esse motivo foram lançados de ofício os tributos não pagos e não confessados em DCTF. Nas hipóteses em que houve pagamento a maior do que o declarado, não foi feita a compensação de ofício. Por se tratar de não-recolhimento dos valores retidos de Imposto de Renda Retido na Fonte declarado pela própria contribuinte, a fiscalização trouxe ao pólo passivo da cobrança os administradores da contribuinte, diante da responsabilidade pessoal prevista artigo 8º do Decreto-Lei n. 1.736/19794. Amparado nas Atas de Assembléia Geral, instrumento no qual foram oficializadas as posses das diretorias da Santa Casa, o auditor segmentou o procedimento fiscal em três autos de infração, devidos conforme o período de Administração do Conselho Diretor, a fim de responsabilizar os administradores somente pelos tributos devidos em seus mandato. Encerrado o procedimento fiscal, foi lavrado Auto de Infração pela exigência de PIS/PASEP (R$ 2.252,57 - fls. 674/677), CSLL (R$ 3.465,50 - fls. 678/681), e COFINS (R$ 10.396,55 - fls. 682/685) no período de 01/10/2011 a 01/05/2012, tendo sido acrescidos esse montante multa de 75% e juros de mora. Cientificados sobre a lavratura dos autos, a contribuinte - Santa Casa de Misericórdia de Capivari - apresentou impugnação (fls. 719/722), oportunidade na qual informa que aderiu ao PROSUS5, motivo pelo qual requer o arquivamento do procedimento. Os responsáveis solidários - administradores da contribuinte no período fiscalizado - também apresentaram suas impugnações6 tempestivamente. A Delegacia de Julgamentos no Rio de Janeiro rejeitou todas as impugnações, mantendo o crédito tributário no montante exigido no Auto de Infração. Esse julgamento resultou na seguinte ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de Apuração: 01/10/2012 a 01/05/2012 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA Não se configura cerceamento do direito de defesa se o contribuinte demonstra na impugnação pleno conhecimento da 4 Art. 8º - São solidariamente responsáveis com o sujeito passivo os acionistas controladores, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, pelos créditos decorrentes do não recolhimento do imposto sobre produtos industrializados e do imposto sobre a renda descontado na fonte. Parágrafo único. A responsabilidade das pessoas referidas neste artigo restringe-se ao período da respectiva administração, gestão ou representação. 5 Concessão de moratória e remissão das dívidas vencidas no âmbito da Secretaria da Receita Federal e da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional prevista na Lei n. 12.873 de 24/10/2013. 6 Antonio Carlos Rossi - fl. 795; Clóvis Alberto Di Stefano - fls. 807; Djalma Laurindo Aguirra - fls. 817; Iron Juliano - fl. 861; Vitório Sálvio dal Fabbro - fl. 934; Luiz Antonio Dal Fabbro - fl. 898, e Pascoal Marracini - fl. 782. Fl. 1173DF CARF MF 4 acusação e a ele foi dada a oportunidade de apresentar defesa tempestiva. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento, de sorte que antes disto não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Período de Apuração: 01/10/2012 a 01/05/2012 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DE MEMBROS DO CONSELHO DIRETOR DE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO (PIS, CSLL E COFINS) Os membros de conselho diretor de pessoa jurídica de direito privado são solidariamente responsáveis com o sujeito passivo pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração de lei, como o de não recolhimento de tributo retido. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A Santa Casa de Misericórdia de Capivari foi considerada intimada sobre o teor do acórdão acima mencionado pela abertura da mensagem na Caixa Posta de seu Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) em 29/04/2015, conforme atesta a certidão de folha 1025. Os responsáveis solidários foram intimados sobre o acórdão proferido pela DRJ de origem via Aviso de Recebimento Postal7, e todos interpuseram recursos voluntários8, motivo pelo qual os autos do processo ascenderam a este Conselho. É o relatório. 7 Sr. Pascoal Marracini, intimado em 05/05/2015 (fl. 1030); Sr. Luiz Antonio del Fabbro, intimado em 18/05/2015 (fl. 1038); Sr. Iron Juliano, intimado em 08/05/2015 (fl. 1032); Sr. Antonio Carlos Rossi, intimado em 22/05/2015 (fl. 1036); Sr. Djalma Laurindo Aguiar, intimado em 11/05/2015 (fl. 1034); Sr. Clovis Alberto di Stefano, intimado em 07/05/2015 (fl. 1026); Sr. Vitório Sálvio Dal Fabbro, intimado em 08/05/2015 (fl. 1028). 8 O Sr. Clovis Alberto di Stefano interpôs recurso voluntário em 03/06/2015 (fls. 1040/1054); o Sr. Antonio Carlos Rossi interpôs recurso voluntário em 03/06/2015 (fls. 1056/1070); o Sr. Pascoal Marracini interpôs recurso voluntário em 03/06/2015 (fls. 1072/1086); o Sr. Luiz Antonio del Fabbro interpôs recurso voluntário em 05/06/2015 (fls. 1087/1106); o Sr. Iron Juliano interpôs recurso voluntário em 05/06/2015 (fls. 1108/1127); o Sr. Djalma Laurindo Aguiar interpôs recurso voluntário em 05/06/2015 (fls. 1128/1148) , e; o Sr. Vitório Sálvio dal Fabbro interpôs recurso voluntário em 8/06/2015 (fls.1149/1164). Fl. 1174DF CARF MF Processo nº 13888.721696/2014-29 Acórdão n.º 3302-003.504 S3-C3T2 Fl. 1.170 5 Voto Vencido Conselheira Lenisa Prado Inicialmente registro a tempestividade de todos os recursos voluntários que serão aqui apreciados. Consigno, também, que apesar de devidamente cientificada do teor do acórdão proferido pela instância de origem (certidão acostada à folha 1025), a Santa Casa de Misericórdia de Capivari não recorreu. Os recursos voluntários dos senhores Clovis Alberto di Stefano (fls. 1040/1054), Antonio Carlos Rossi (fls. 1056/1070) e Pascoal Marracini (fls. 1072/1086) reproduzem exatamente os mesmos argumentos. Por esse motivo, trago breve síntese dos fundamentos neles contidos: 1) Informam que a Santa Casa de Misericórdia de Capivari aderiu ao PROSUS (previsto na Lei n. 12.873/2013) para a quitação dos débitos através de desconto diretamente nos repasses do Sistema Único de Saúde, conforme dispõe a Portaria Conjunta PGFN/RFB n. 03, de 26 de fevereiro de 2014. Deste modo, a exigibilidade dos créditos objeto do processo sob julgamento está suspensa, não sendo possível a superveniência de atos de cobrança. Assim, é imperativo que o tramite do processo também seja suspenso; 2) Diante da disposição do enunciado no verbete n. 430 da Súmula/STJ e pelo fato de que a Santa Casa de Misericórdia de Capivari - contribuinte principal - está promovendo o pagamento da dívida fiscal na forma permitida pela Lei n. 12.873/2013, não há se falar em responsabilização dos administradores como supostos responsáveis solidários; 3) Não existe nos autos nenhuma indicação que os administradores tenham praticado atos que infringissem as leis, o estatuto social ou que resultem em excesso de poderes. Também não há comprovação nos autos que o patrimônio da contribuinte seja insuficiente para arcar com o passivo tributário (art. 134 do CTN). Deste modo, é inviável a pretensão do auditor fiscal em desconstituir a personalidade jurídica da Santa Casa de modo a responsabilizar seus administradores; 4) Não há se falar, na hipótese dos autos, de apropriação indébita dos valores reclamados. O que houve, de acordo com os recorrentes, é o resultado das dificuldades financeiras da Santa Casa, o que torna apropriada a tese de inexigibilidade de conduta diversa por parte dos administradores. Os argumentos de defesa dos Srs. Luiz Antonio del Fabbro (fls. 1087/1106), Iron Juliano (fls. 1108/1127), Djalma Laurindo Aguiar (fls. 1128/1148) e Vitório Sálvio dal Fabbro (fls.1149/1164) são os mesmos, os quais passo a analisar: 1) Cada um dos recorrentes tecem considerações sobre a impossibilidade de responsabilização pelos tributos em razão do cargo que ocupavam na Santa Casa de Misericórdia de Capivari no período fiscalizado; 2) Também discorrem sobre a impossibilidade de responsabilização solidária, seja porque ainda "não foram esgotadas todas as possibilidades de recebimento em face do devedor principal", ou porque a contribuinte possui patrimônio suficiente para arcar com as dívidas; Fl. 1175DF CARF MF 6 3) Não há dolo na falta do pagamento dos tributos, porque essa falha decorre única e exclusivamente do fato de que a Santa Casa passa por graves problemas financeiros. Nessa linha de raciocínio, informam que não houve apropriação indevida de verbas destinadas ao pagamento dos tributos. Simplesmente tais recursos nunca existiram; 4) Não se aplica o conteúdo do art. 135 do CTN, que se destina às empresas privadas, aos fatos narrados nos autos, já que a Santa Casa - instituição sem fins lucrativos - exerce função pública e é mantida, essencialmente, pelos recursos públicos; 5) Por fim, informam que a adesão da contribuinte ao PROSUS suspende a exigibilidade do montante cobrado. 1. PROSUS. LEI N. 12.873/2013 De acordo com a Lei n. 12.873/20139, a finalidade do PROSUS (Programa de Fortalecimento das Entidades Privadas Filantrópicas e das Entidades sem Fins Lucrativos que Atuam na Área da Saúde e que Participam de Forma Complementar do Sistema Único de Saúde) é, dentre outras, promover a recuperação de créditos tributários e não tributários devidos à União (inciso III do art. 24) e também apoiar a recuperação econômico e financeira das entidades de saúde privadas filantrópicas e das entidades de saúde sem fins lucrativos (art. 25). A Prefeitura de Capivari considerou a contribuinte apta a se beneficiar do programa instituído pela Lei n. 12.873/2013 e aprovou a proposta da entidade em aderir ao PROSUS (fls. 773). Por esta razão, em sua impugnação, a Santa Casa de Misericórdia de Capivari requereu o arquivamento do processo sob julgamento (fls. 719/721). Está nos autos comprovação que a contribuinte efetivamente encaminhou alguma documentação ao Ministério da Saúde, conforme determina a lei já mencionada (fls. 772). Porém, não é possível concluir se a correspondência encaminhada ao Ministério contém todos os documentos elencados no artigo 2810. Deste modo, ainda que se considere a aprovação tácita prevista no § 2º do art. 30 da mencionada lei, não há se considerar aprovado o pedido de adesão ao benefício. Ademais, a legislação de regência impõe algumas outras condições, além do deferimento propriamente dito, para se obter os benefícios do PROSUS. De acordo com o art. 37 da Lei n. 12.873/2013, é necessário também a solicitação, "na unidade da Secretaria da Receita Federal do Brasil ou da Procuradoria -Geral da Fazenda Nacional de seu domicílio tributário, o pedido de moratória, até 90 (noventa) dias após o deferimento do pedido de adesão" (art. 37 da lei mencionada). 10 Art. 28. Para aderir ao Prosus, a entidade de saúde privada filantrópica e a entidade de saúde sem fins lucrativos apresentarão ao Ministério da Saúde, até 3 (três) meses após a publicação das normas de execução ou operacionalização pelo Ministro de Estado da Saúde a que se refere o art. 43, requerimento instruído com os seguintes documentos: I . estatuto social e atos de designação e responsabilidade dos seus representantes legais; II . plano de capacidade econômica e financeira de que trata o inciso IV do caput do art. 27; III . aprovação do gestor local do SUS da oferta prevista no inciso II do caput do art. 27; e IV . indicação do representante de direção ou administração da entidade de saúde responsável por: a) coordenar e gerenciar a execução do plano de recuperação econômica e financeira; e b) prestar informações, atender requerimentos e pedidos de diligências oriundos de órgãos e entidades públicas a respeito do plano de capacidade econômica e financeira. Fl. 1176DF CARF MF Processo nº 13888.721696/2014-29 Acórdão n.º 3302-003.504 S3-C3T2 Fl. 1.171 7 A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, em conformidade com suas atribuições inerentes, publicou a Portaria Conjunta PGFN/RFB n. 3/2014, que impõe outros dois requisito: a) petição de desistência dirigida ao Delegado da Receita Federal de Julgamento, em formato pré-determinado (§ 2º do art. 3º11), e; b) o pedido de moratória deve vir acompanhado de autorização do gestor local do SUS (art. 3812). Avaliando a documentação existente nos autos não é possível assegurar se a contribuinte - Santa Casa de Misericórdia de Capivari - realmente está usufruindo dos benefícios encartados na Lei n. 12.873/2013, já que não é possível concluir se todos os requisitos foram cumpridos. E é de grande importância tal constatação, já que o § 6º do artigo 37 da lei regulamentadora expressamente prevê que: § 6º A moratória alcança as dívidas tributárias e não tributárias das entidades de saúde privadas filantrópicas e das entidades de saúde sem fins lucrativos na condição de contribuinte ou responsável. (grifo nosso) A moratória estipulada pelo PROSUS é a dilação do prazo do vencimento do tributo para 180 (cento e oitenta) meses, objetivando viabilizar a superação da situação transitória de crise econômico-financeira da entidade beneficiada13. Deste modo, tem-se a suspensão da exigibilidade desses tributos até o final do prazo de duração do programa. A leitura conjunta e sistemática dos § 6º do artigo 34 e § 1º do artigo 37 permite chegar a conclusão que os efeitos decorrentes da suspensão da exigibilidade dos tributos também devem alcançar os administradores/recorrentes, já que se enquadram na categoria "responsáveis" para fins tributários. Irrefutável essa conclusão, já que a finalidade do programa é permitir o pagamento dos tributos devidos. Se ao final forem pagos, não há se falar em responsabilidade dos administradores/recorrentes. Também não há como conceber a exigência dos tributos pelos responsáveis solidários enquanto o contribuinte principal que está acobertado pelo benefício da inexigibilidade está, mensalmente, amortizando dívida tributária também atribuída aos recorrentes. 11 Art. 3º Para inclusão na moratória dos débitos que se encontrem em discussão na esfera administrativa ou judicial, estejam ou não submetidos a causa legal de suspensão de exigibilidade, as entidades deverão desistir, de forma expressa e irrevogável, da ação judicial ou da impugnação ou recursos administrativos, inclusive relativos a créditos informados na Declaração de Compensação prevista no § 1º do art. 74 da Lei n. 9.430, de 27 de dezembro de 1996, não homologada e, cumulativamente, renunciar a quaisquer alegações de direito sobre as quais se fundem os processos administrativos ou as ações judiciais. (...) § 2º A desistência da impugnação ou recurso administrativo deverá ser efetuada mediante petição dirigida ao Delegado da Receita Federal de Julgamento ou ao Presidente do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, conforme o caso, na forma do Anexo II. 12 Art. 38. O pedido de moratória deverá vir acompanhado de autorização do gestor local do SUS para a retenção mensal pela União, para fins de pagamento das obrigações tributárias correntes, de valores do Fundo Nacional de Saúde que lhe seriam destinados para fins de repasse à entidade de saúde privada filantrópica ou à entidade de saúde sem fins lucrativos que requereu adesão ao Prosus. § 1º Concedida a moratória, seus efeitos ocorrerão a partir do primeiro dia do mês seguinte ao do pedido. 13 § 1º do artigo 37 da Lei n. 12.873/2013. Fl. 1177DF CARF MF 8 Em conclusão: caso se comprove que a contribuinte efetivamente faz jus ao benefício da moratória, os mesmos efeitos deverão ser concedidos aos administradores/recorrentes. 2. SOBRE A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DOS RECORRENTES Por ser pertinente a solução da lide, transcrevo trecho do Termo de Declaração de Sujeição Passiva lavrado contra os administradores recorrentes: "Contra o Sr. (...) foram constatados fatos que configuram, em tese, crime contra a ordem tributária, tipificado no art. 2º, inciso II da lei n. 8.137, de 27 de dezembro de 1990; isto é, crime de apropriação indébita. Nas DIRF dos anos-calendário de 2009, 2010, 2011 e 2012 foram informadas retenções de Imposto de Renda sem os devidos recolhimentos integrais, constatados através das informações dos sistemas informatizados da RFB. A retenção foi também comprovada mediante análise de recibos de pagamentos de funcionários da contribuinte, cujas cópias encontram-se no processo mencionado acima. Também houve retenção de contribuições sociais, retidas de pessoas jurídicas prestadoras de serviços, e não recolhidas aos cofres públicos. Havendo retenção do tributo sem o correspondente recolhimento, exige-se o débito da fonte pagadora, no caso o sujeito passivo, que também incorre em crime de apropriação indébita (art. 2º, inciso II, da Lei n. 8.137/90) e caracteriza-se como depositária infiel de valor pertencente à Fazenda Pública (Lei n. 8.866/94). Para essa hipótese (retenção sem recolhimento), há ainda previsão, no Decreto-Lei n. 1.736/90, de responsabilidade solidária dos sócios administradores, com fundamento no art. 124, inciso II, e art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, Lei n. 5.172, de 25 de outubro de 1966. Ante o exposto, restou caracterizada a sujeição passiva solidária nos termos do art. 124, inciso II, e art. 135, inciso III, da Lei n. 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional) ao Sr. (...)". De acordo com a Teoria dos Motivos Determinantes, o ato administrativo está forçosamente vinculado aos fatos concretos apurados e aos fundamentos legais que lhe dão suporte. Trago a conhecimento alguns estudos que são adequados para a solução da questão: "A importância da descrição dos fatos deve-se à circunstância de que é por meio dela que o autuante demonstra a consonância da matéria de fato constata na ação fiscal e a hipótese abstrata constante da norma jurídica. É, assim, elemento fundamental do material probatório coletado pela autoridade lançadora, posto que uma minudente descrição dos fatos pode até suprir eventuais incorreções no enquadramento legal adotado no auto de infração (...); o contrário é que, via de regra, não se admite, até porque, no mais das vezes, não há como aferir a correção do fundamento legal, se não se puder saber, com precisão, quais os fatos que deram margem à tipificação legal e à autuação. Por meio da descrição dos fatos é que fica estabelecida a conexão Fl. 1178DF CARF MF Processo nº 13888.721696/2014-29 Acórdão n.º 3302-003.504 S3-C3T2 Fl. 1.172 9 entre todos os meios de prova coletados e/ou produzidos (documentos fiscais, relatórios, termos de intimação e declaração, demonstrativos, etc) e explicitada a linha de encadeamento lógico destes elementos, com vistas à demonstração da plausibilidade legal da autuação"14. Seguindo a mesma esteira de raciocínio, é o entendimento de Maria Teresa Martinez López e Marcos Vinicius Neder: "a errônea compreensão dos fatos ocorridos ou do direito aplicável é vício que dificilmente poderá ser sanado no curso do processo, pois incide no motivo do ato. Não é vício formal na descrição, mas no próprio conteúdo do ato. Não adianta a repetição do lançamento pela autoridade com a finalidade de aproveitamento do ato anterior pela sua convalidação, pois remanesce na nova norma individual e concreta introduzida a mesma anomalia. A correção só poderá ser empreendida por meio da invalidação do lançamento original e a formalização de nova exigência fiscal, se ainda dentro do prazo decadencial".. Na hipótese dos autos, a fiscalização adotou em seu relatório ações e fundamentos normativos que não correspondem a conclusão a que chegou. O não recolhimento das contribuições15, - matéria sob julgamento - não enseja a responsabilidade solidária alegada. O art. 8º do Decreto-lei n. 1.736/7916 versa sobre exclusivamente sobre a apropriação indevida de Imposto sobre Produtos Industrializados e Imposto de Renda Retido na Fonte. Logo não se aplica a PIS/Pasep ou a COFINs exigidos nos presentes autos. Não há qualquer menção pelo fiscal autuante que os ora recorrentes tenham agido com excessos de poderes, ou que tenham infringido a lei, contrato social ou estatutos, requisitos essenciais para a aplicação do artigo 135 do CTN. Nesse sentido é o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, consolidado no julgamento do Recurso Especial n. 1.101/728, submetido à sistemática dos recursos repetitivos. Esse paradigmático acórdão resultou na seguinte ementa: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DISPENSA. RESPONSABILIDADE DO SÓCIO. TRIBUTO NÃO PAGO PELA SOCIEDADE. 1. A jurisprudência desta Corte, reafirmada pela Seção inclusive em julgamento pelo regime do art. 543-C do CPC, é no sentido de que "a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra declaração dessa 14 MICHELS, Gilson W. Processo Administrativo Fiscal: anotações ao Decreto n. 70.235/1972. 15 Arts. 1º e 6º da IN/SRF n. 459/2004. 16 Art. 8º São solidariamente responsáveis com o sujeito passivo os acionistas controladores, os diretores, os gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, pelos créditos decorrentes do não recolhimento do imposto sobre produtos industrializados e do imposto sobre a renda descontado na fonte. Fl. 1179DF CARF MF 10 natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco" (REsp 962.379, 1ª Seção, DJ de 28.10.08). 2. É igualmente pacífica a jurisprudência do STJ no sentido de que a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa (EREsp 374.139/RS, 1ª Seção, DJ de 28.02.2005). 3. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (REsp 1101728/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em 11/03/2009, DJe 23/03/2009) Assim, ainda que a Santa Casa de Misericórdia de Capivari não cumpra com os requisitos previstos na Lei n. 12.873/2013 (PROSUS), entendo que aos recorrentes não pode ser imputada a cobrança sob análise, uma vez que não há nos autos prova de que tenham agido com excessos ou ilegalidades condicionantes do art. 135 do CTN. Diante do que dispõe o acórdão proferido nos autos do Recurso Especial n. 1.101.728/SP e da regra contida na alínea b do inciso II do art. 62 do RICARF, dou integral provimento ao recursos voluntários apresentados por Antonio Carlos Rossi, Clóvis Alberto Di Stefano, Djalma Laurindo Aguirra, Iron Julian, Vitório Sálvio dal Fabbro, Luiz Antonio Dal Fabbro, e Pascoal Marracini. É como voto. Lenisa Prado - Relatora Fl. 1180DF CARF MF Processo nº 13888.721696/2014-29 Acórdão n.º 3302-003.504 S3-C3T2 Fl. 1.173 11 Voto Vencedor Voto Vencedor, Domingos de Sá Filho. Ousei discorda da i. Relatora, tão-só, quanto à responsabilidade solidária dos dirigentes em relação às retenções de contribuições de empregados e terceiros não recolhidos nas épocas próprias. Tenho que o fato da entidade beneficente estar em situação dificuldade financeira, por si só, não é suficiente para afastar a responsabilidade daqueles que procedem aos descontos e ficam de posse de recursos, deixando de recolher aos cofres ente público. Essa é exatamente a conduta praticada que leva a responsabilização e configura apropriação indébita, sujeita as penas previstas pelo Código Penal Brasileiro. A responsabilidade só alcança às importâncias retidas, pois, tenho que o eventual descumprimento da lei em relação às contribuições não recolhidas por dificuldade financeira, desde que as obrigações estejam contabilizadas e declaradas a Autoridade Tributária, descaracteriza a infração, não podendo falar em responsabilidade, por que é praticada no exercício regular de administração. Como é de conhecimento geral, dívida por si só não configura conduta capaz de levar a responsabilidade. Mas deixar de recolher valores retidos sobre a folha de pagamento e outros, esse comportamento subsumi a situação típica capaz de atribuir responsabilidade aos dirigentes que deixam de efetivar o pagamento do quanto retido, motivo pelo qual em relação aos valores retidos e não pago impõe em manter a solidariedade. É como voto. (assinatura digital) Domingos de Sá Filho Fl. 1181DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.902466/2008-78
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Oct 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1999
COMPENSAÇÃO. REQUISITOS.
A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei. A mera alegação da existência do crédito, desacompanhada de prova da sua origem, constitui fundamento legítimo para a não homologação da compensação.
Numero da decisão: 1201-001.876
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, por insuficiência de crédito.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, por insuficiência de crédito. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida - Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa.
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REQUISITOS. A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei. A mera alegação da existência do crédito, desacompanhada de prova da sua origem, constitui fundamento legítimo para a não homologação da compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, por insuficiência de crédito. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 90 24 66 /2 00 8- 78 Fl. 129DF CARF MF 2 A Recorrente transmitiu DCOMP, por meio do qual compensou o pleiteado crédito a título de IRPJ relativa ao mês de novembro de 1999, de R$ 1.373,72, com débito tributário de sua responsabilidade, no montante de R$ 1.447,35 (cf. fls. 80/84). O Despacho Decisório (fl.54) não homologou o pleito do contribuinte, sob a alegação de que, embora localizado o Darf de pagamento indicado na DCOMP, o crédito já teria sido integralmente utilizado para quitação de outro débito, não restando crédito disponível. Irresignada com a exigência, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 1/3). Sustenta que sua DIPJ (fls. 5/51) indica que houve recolhimentos de IRPJ apurados no 2º trimestre de R$ 1.649,81, e no 4º trimestre, de R$1.111,91. Aduz que recolheu R$ 60.932,36 no ano de 1999, sendo R$ 58.170,64 indevidos. Em sessão de 30 de maio de 2011, a 2ª Turma da DRJ/BSB, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 0343.272 (fls. 88/92), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo: ESTIMATIVA. IRRETRATABILIDADE DA OPÇÃO DE PAGAMENTO DO IRPJ OU DA CSLL POR ESTIMATIVA. SALDO DE IMPOSTO A PAGAR OU A COMPENSAR. A forma de pagamento do IRPJ ou da CSLL por estimativa será irretratável para todo o anocalendário. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real anual que efetuar pagamento indevido ou a maior de imposto de renda ou de CSLL a título de estimativa mensal, somente poderá utilizar o valor pago ou retido na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. Intimada da decisão de primeira instância, a Recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 96/99). Sustenta existir tremenda contradição da DRJ, uma vez que a mesma 2ª Turma já teria reconhecido o direito creditório em outro processo que indica e que o crédito é líquido e certo. Após encaminhamento dos autos ao E. CARF, o julgamento do recurso voluntário foi convertido em diligência por meio da Resolução nº 1801000.079 (fls. 106/109), a qual determinou o retorno dos autos à unidade de jurisdição da Recorrente para que seja analisado o mérito do pedido, ou seja, a origem e a procedência do crédito pleiteado, em face da sua contabilidade, registros no Sapli, outros pedidos de restituição/compensação com origem no mesmo crédito, vinculação a outros processos administrativos fiscais, formação do saldo negativo no final do ano calendário etc. Em atendimento à diligência, a autoridade fiscal responsável emitiu termo de Informação Fiscal (fls. 118/121), manifestandose pela insuficiência do crédito solicitado pelo contribuinte. O contribuinte, após intimado, não se manifestou. É o relatório. Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10166.902466/200878 Acórdão n.º 1201001.876 S1C2T1 Fl. 3 3 Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli O recurso é tempestivo e cumpre os requisitos legais, razão pela qual dele tomo conhecimento. De acordo com o despacho decisório, o crédito pleiteado pela Recorrente não existiria, uma vez que teria sido utilizado para quitar débitos lançados em DCTF no mesmo montante, não havendo pagamento a maior ou indevido passível de compensação. Após a diligência requerida, a autoridade fiscal responsável ratificou a insuficiência do crédito, conforme atestam as seguintes passagens de suas conclusões: 10. Nessa linha, o valor do débito de IRPJ para o 4° Trimestre/1999, num total de R$ 18.003,14, apurado em tabela 02 abaixo, são os valores declarados em DCTF (fl.111), que é documento de confissão de dívida e instrumento hábil para a exigência do crédito, consoante preconiza o art. 5° e §§ do DecretoLei n° 2.124/84, diferentemente da DIPJ, que é declaração de natureza informativa à administração tributária. Código Receita Período de Apuração Vencimento Valor (reais) 2362 10/1999 30/11/1999 4.464,76 2362 11/1999 30/12/1999 6.814,11 2362 12/1999 31/01/2001 6.724,27 Total: 18.003,14 TABELA 02 11. A partir dos dados extraídos dos sistemas para o 4° Trimestre/1999, que são pagamentos em DARF no valor de R$ 19.534,14 e débitos de IRPJ no valor de R$ 18.003,14, constata se que a contribuinte possui um saldo credor de R$ 1.531,00, passível de compensação, e não R$ 58.170,64 como alegado pela contribuinte em sua manifestação de inconformidade. 12. Ainda de acordo com o sistema Sief, dos nove pagamentos listados em tabela 01 acima, três pagamentos, números 03, 05, e 07, foram utilizados em DCOMPs, conforme tabela 03 abaixo. Assim, o saldo credor de R$ 1.531,00 será vinculado a DCOMP 42367.44215.191104.1.3.049844, e as demais DCOMPs, referentes aos pagamentos 05 e 06, não possuem crédito passível de compensação. Pagamento Período de Apuração Data de Arrecadação Valor (reais) DCOMP Processo 04 11/1999 30/12/1999 4.734,34 42367.44215.191104.1.3.049844 10166.902484/200850 05 11/1999 30/12/1999 1.373,72 18816.22686.191104.1.3.042116 10166.902466/200878 07 12/1999 31/01/2000 4.846,84 06570.13640.191104.1.3.040651 10166.902493/200841 TABELA 03 13. Pelo exposto, em razão do direito creditório de pagamento a maior de IRPJ, apurado para o 4º Trimestre/1999, no valor de R$ 1.531,00, ter sido totalmente utilizado em DCOMP de nº Fl. 131DF CARF MF 4 42367.44215.191104.1.3.049844, resta comprovada a inexistência de crédito para o pagamento de R$ 1.373,72 (data de arrecadação 30/12/2000), DCOMP 18816.22686.191104.1.3.042116, que é o objeto de análise deste processo de compensação. Observase, assim, que após minucioso trabalho, a autoridade fiscal demonstrou que realmente o alegado direito creditório não procede. Isso porque o crédito que a contribuinte possui já foi alocado para outras compensações, não possuindo saldo suficiente para liquidar o débito ora exigido. E da leitura do relatório da diligência, percebese que o fisco de fato procedeu com uma apuração rigorosa e explicou no detalhe os motivos quanto à insuficiência do crédito. Considerou corretamente os valores declarados em DCTF (instrumento de confissão de dívida) e, a partir daí, evidenciou todo o passo a passo dos créditos e débitos compensados, indicando as respectivas fontes de análise. Já a contribuinte, no seu recurso voluntário, faz menção apenas a alguns argumentos genéricos, sem identificar precisamente sua vinculação direta com a metodologia que foi adotada e sem explicar as razões concretas de onde e como o fiscal teria se equivocado. Ora, alegações genéricas sobre a origem do direito creditório, desacompanhadas de documentos hábeis e idôneos acerca de sua natureza e efetiva origem, são incapazes de fazer prova acerca da liquidez e certeza do crédito. Cabe, aqui, lembrar do velho brocardo latino: "alegar e não provar é quase não alegar" (allegatio et non probatio quasi non allegatio) ou "alegar e não provar o alegado importa nada alegar" (niagara ilia et allegatum nom probare paria sunt). Em se tratando de compensação, a comprovação da liquidez e certeza do crédito constitui ônus da contribuinte, conforme interpretase do 170 do CTN, in verbis: “Artigo 170 A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública.” Grifei. Reportome, ainda, ao artigo 36 da Lei n 9.784/1999, dispositivo este que estabelece que cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no artigo 37 deste Lei. Nesse caso concreto, a Recorrente não apresentou sua escrituração contábil, apurações fiscais, relatório de auditoria independente, planilhas demonstrativas ou qualquer outra documentação pertinente a fazer prova efetiva do crédito que pleiteia. O que se tem no caso, pois, é uma compensação cujo crédito não restou efetivamente comprovado, prejudicando o direito correlato de compensação. Vale assinalar que a jurisprudência do CARF, conforme atestam as ementas dos julgados abaixo, admite a possibilidade de compensação de indébito, mas desde que haja comprovação cabal quanto à liquidez e certeza do crédito pleiteado, o que não ocorreu. “RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO TRIBUTÁRIO. PROVA. ÔNUS. O ônus da prova do crédito tributário pleiteado no Per/Dcomp Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10166.902466/200878 Acórdão n.º 1201001.876 S1C2T1 Fl. 4 5 Pedido de Restituição é da contribuinte (artigo 333, I, do CPC). Não sendo produzida nos autos, indeferese o pedido e não homologase a compensação pretendida entre crédito e débito tributários.” (Ac. 1102000.890. Sessão de 14/08/2013). “DESPACHO DECISÓRIO E DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. São válidos o despacho decisório e a decisão que apresentam todas as informações necessárias para o entendimento do contribuinte quanto aos motivos da nãohomologação da compensação declarada. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROVA DO INDÉBITO. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. A DCTF (retificadora ou original) não faz prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas apresentadas pelo contribuinte”. (Ac. 3302 002.383.. Sessão de 02/11/2013). “PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF. PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. AUSÊNCIA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da Dctf, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da liquidez e da certeza do direito de crédito. A simples retificação, desacompanhada de qualquer prova, não autoriza a homologação da compensação” (Ac. 3802002.076. Sessão de 14/08/2013). À falta, então, da demonstração cabal e comprovação do crédito informado na DCOMP analisada, o direito alegado milita contra a Recorrente. Nesse sentido, e em face do que foi exposto, CONHEÇO do RECURSO VOLUNTÁRIO para NEGARLHE provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 133DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10930.722569/2014-96
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2009
PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. CONSTITUCIONALIDADE DE NORMA. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2.
O processo administrativo tributário tem por mister a análise da legalidade do ato administrativo produzido no âmbito da administração tributária em razão do primazia do agir da administração pública em conformidade com a lei. Não cabe a própria Administração exercer controle de constitucionalidade da norma, em razão de sua incompetência quanto à matéria. Aplicação da Súmula CARF nº 2.
Numero da decisão: 2201-003.804
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente e Relator.
EDITADO EM: 22/08/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2009 PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO. CONSTITUCIONALIDADE DE NORMA. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2. O processo administrativo tributário tem por mister a análise da legalidade do ato administrativo produzido no âmbito da administração tributária em razão do primazia do agir da administração pública em conformidade com a lei. Não cabe a própria Administração exercer controle de constitucionalidade da norma, em razão de sua incompetência quanto à matéria. Aplicação da Súmula CARF nº 2.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente e Relator. EDITADO EM: 22/08/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
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CONSTITUCIONALIDADE DE NORMA. INCOMPETÊNCIA. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 2. O processo administrativo tributário tem por mister a análise da legalidade do ato administrativo produzido no âmbito da administração tributária em razão do primazia do agir da administração pública em conformidade com a lei. Não cabe a própria Administração exercer controle de constitucionalidade da norma, em razão de sua incompetência quanto à matéria. Aplicação da Súmula CARF nº 2. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguídas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente e Relator. EDITADO EM: 22/08/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 72 25 69 /2 01 4- 96 Fl. 458DF CARF MF 2 Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de Recurso de Voluntário interposto contra acórdão da 5ª Turma da DRJ Curitiba/PR que manteve, integralmente, o lançamento tributário relativo às contribuições previdenciárias devidas sobre os valores das notas fiscais/faturas emitidas pelas prestadoras de serviço mediante cessão de mãodeobra e não retidas nem recolhidas pela empresa tomadora. Tal crédito foi constituído por meio do auto de infração (fls. 5 do processo digitalizado), devidamente explicitado, pelo qual foi apurado o crédito tributário no valor de R$ 975.766,79, em valores consolidados em setembro de 2010. A ciência do auto de infração, que contém o lançamento referente às contribuições previdenciárias que deveriam ter sido retidas e calculadas sobre o valor da nota fiscal/fatura emitida na prestação de serviços mediante cessão de mãodeobra no período de janeiro de 2007 a dezembro de 2009, ocorreu em 16 de setembro de 2010, conforme se verifica pela cópia do AR às folhas 381. Em 18 de outubro de 2010, foi apresentada a impugnação ao lançamento (fls. 384). Em 20 de maio de 2011, a 5ª Turma da DRJ de Curitiba, por meio da decisão consubstanciada no Acórdão 0631.854 (fls. 413), de forma unânime, julgou improcedente a defesa administrativa apresentada. Tal decisão tem o seguinte relatório que, por sua clareza e precisão, reproduzo (fls. 414): "O presente Auto de Infração de Obrigação Principal AIOP, no montante de R$ 975.766,79, foi lavrado em 13/09/2010, em face do sujeito passivo acima identificado, para constituição do crédito tributário, relativo a contribuições previdenciárias correspondentes a 11% incidentes sobre o valor das notas fiscais de prestação de serviço mediante empreitada ou cessão de mão de obra, que a empresa autuada, na qualidade de tomadora dos serviços, deveria ter retido das empresas prestadoras de serviço, tal como impõe o caput do art. 31 da Lei 8.212, de 1991 (na redação dada pela Lei 9.711, de 1998), e recolhido em nome da previdência social à Receita Federal do Brasil. O relatório fiscal explicativo do lançamento (fls. 47/54) oferece as seguintes informações acerca da constituição do crédito: 1. Este relatório é parte integrante do Auto de Infração AI, n° 37.082.6400, lavrado contra o contribuinte acima identificado, com base nas contribuições incidentes sobre os serviços prestados mediante cessão de mão de obra ou empreitada;... 5. Foram verificados, e constatado que se trata de prestação de serviços com cessão de mão de obra, os contratos celebrados com as seguintes empresas: Fl. 459DF CARF MF Processo nº 10930.722569/201496 Acórdão n.º 2201003.804 S2C2T1 Fl. 459 3 GMA Montagem Industrial Ltda — EPP, J.M.F. Silva & Cia Ltda, Antonio Lemes da Silva Júnior & Cia Ltda e Empresa Líder de Prestação de Serviços S/C Ltda (Anexos). Os documentos que possibilitariam a verificação da ocorrência ou não de cessão de mão de obra, referentes aos serviços prestados pelas demais empresas, não foram apresentados, razão pela qual a mesma está sendo presumida. Pela não apresentação desses documentos foi emitido o Auto de Infração n°: 37.082.6515. A fls. 55/58 os auditores fiscais autuantes anexaram relação das notas fiscais que deram origem ao lançamento. No prazo regulamentar, o sujeito passivo impugna o lançamento para requerer a declaração de nulidade da exigência fiscal ou a inexigibilidade do crédito apontado. Preliminar Para fundamentar seus pleitos, o impugnante aponta, em preliminar, hipótese de nulidade da autuação por ausência de motivação do ato. Nesse passo, diz que A ação fiscal alinhavou de forma superficial uma extensa gama de leis e decretos, sem, contudo, colocar de forma clara e precisa os motivos de fato, vale dizer, a conduta irregular que culminaria com as penalidades e obrigações impostas. A alusão genérica aos registros existentes na contabilidade não permitiria ao contribuinte saber quais os elementos que foram examinados (notas fiscais de prestação de serviço, GFIP, GPS, folhas de pagamento e documentos contábeis), restando clara a dificuldade de compreensão dos elementos de que se valeu a ação fiscal para irrogar a conduta irregular da impugnante. Ainda em preliminar o impugnante alega hipótese de cerceamento do direito de defesa e afronta ao princípio do devido processo legal, mediante suposição de que antes da lavratura da NFLD a fiscalização deveria ter previamente notificado o contribuinte, com abertura de prazo para eliminar a irregularidade apontada, caso efetivamente existisse. A falta dessa providência acarretaria a nulidade do lançamento. Mérito No mérito, aduz que a substituição tributária criada pela Lei 9.711, de 1988 seria inconstitucional, uma vez que se tratariam de contribuições diversas, aquelas frutos da retenção (art. 31, da Lei 8.212) e aquelas que se pretende antecipar, previstas nas letras "a" e "c" do parágrafo único do art. 11 da mesma Lei 8.212, de 1991, porque incidiriam as primeiras sobre o faturamento da empresa e as segundas sobre a folha de salários. Enquanto isto, condição básica para a antecipação admitida pela Constituição Federal e pelo Código Tributário Nacional seria a coincidência entre o tributo recolhido antecipadamente com aquele efetivamente devido no futuro. Fl. 460DF CARF MF 4 Seria inconstitucional, também, por incidir sobre a mesma base de cálculo da Cofins, ofendendo o parágrafo 4° do art. 195 da Constituição Federal. É o relatório. Cientificado da decisão que contrariou seus interesses em 21 de junho de 2011 (AR fls. 426), o sujeito passivo apresentou tempestivamente, recurso voluntário (fls.427), no qual, na essência, reproduz seus argumentos da impugnação. Às folhas 2 do processo digital, consta despacho da Seção de Controle e Acompanhamento Tributário SACAT da Delegacia da Receita Federal em Londrina, que informa que: "O presente processo foi formalizado para dar seguimento à parcela do crédito tributário não abrangida no parcelamento da Lei 11.941/2009, conforme descrito no despacho de fls. 453 (numeração manual) do processo 11634.001306/201023: Processo: 11634.001311/201036 Contribuinte: USINA CENTRAL DO PARANÁ S/A Debcad n° 37.082.6400 (com competências parceladas peia Lei 11.941/2009) Debcad n° 43.995.1950 (com competências não abrangidas pelo parcelamento)" Depreendese, portanto, que parte dos créditos constituídos pelo Debcad constante do lançamento originalmente realizado foi objeto de confissão e parcelamento, restando em litígio, pelo noticiado, as competências posteriores a outubro de 2008, ou seja de novembro de 2008 a dezembro de 2009. O recurso foi distribuído por sorteio eletrônico, em sessão pública, para este Conselheiro. É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Relator Carlos Henrique de Oliveira Presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do presente recurso voluntário e passo a analisálo na ordem de suas alegações. PRELIMINARES DA AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO Segundo o Recorrente há vício de motivação no lançamento. Entende que o relatório fiscal não relata com precisão a hipótese de incidência da exação pretendida, muito menos os elementos que embasaram o lançamento e a subsunção do fato à norma legal. Fl. 461DF CARF MF Processo nº 10930.722569/201496 Acórdão n.º 2201003.804 S2C2T1 Fl. 460 5 Argui que, em razão do vício apontado, não há na imputação fiscal qual a conduta irregular que culminaria nas penalidades e obrigações impostas. O que há, na visão do recorrente é uma menção genérica às notas fiscais de prestação de serviços e documentos contábeis que foram analisados e considerados inadequados. Tal identificação, tal particularização é obrigação imposta pelo artigo 142 do CTN ao Fisco. Cita doutrina e jurisprudência no sentido de suas alegações. Não verifico o vício apontado. Explico. O relatório fiscal explicita às folhas 38 a conduta irregular praticada e o faz de forma sucinta, direta, concisa e precisa, mencionando não só o ilícito cometido pelo Contribuinte como também a penalidade aplicada: 5. Foram verificados, e constatado que se trata de prestação de serviços com cessão de mão de obra, os contratos celebrados com as seguintes empresas: GMA Montagem Industrial Ltda EPP, J.M.F. Silva & Cia Ltda, Antonio Lemes da Silva Júnior & Cia Ltda e Empresa Líder de Prestação de Serviços S/C Ltda (anexos). Os documentos que possibilitariam a verificação da ocorrência ou não de cessão de mão de obra, referentes aos serviços prestados pelas demais empresas, não foram apresentados, razão pela qual a mesma está sendo presumida. Pela não apresentação desses documentos foi emitido o Auto de Infração n°: 37.082.6515. 6 . Em decorrência das penalidades previstas na vigência do art. 32, §§ 4o ao 9o e art. 35 da Lei 8.212, de 24 de Julho de 1991 e as alterações introduzidas pela Medida Provisória n° 449, de 03 de Dezembro de 2008 (convertida na Lei n° 11.941, de 27 de Maio de 2009), que introduziu na Lei 8.212/91 o art. 32A; e, considerando o que dispõe o inciso II, alínea "c" do art. 106 do CTN que disciplina a aplicação das penalidades mais benéficas ao sujeito passivo, até a competência 11/2008 comparouse a multa imposta pela legislação vigente à época da ocorrência do fato gerador e a multa imposta pela legislação superveniente, sendo observado a aplicação das penalidades mais benéficas ao sujeito passivo na presente ação fiscal, conforme mostra o quadro SAFIS COMPARAÇÃO DE MULTAS, em anexo.." E mais, individualizou a base de cálculo, procedimento decorrente de análise dos contratos apresentados e planilhas auxiliares de cálculo, anexadas ao relatório fiscal (fls. 56): Fl. 462DF CARF MF 6 As relações de diferenças mencionadas constam das folhas 61/64, cujo pequeno excerto, reproduzo: Claríssima a imputação fiscal. Não há a menor falha na motivação do auto de infração. Observo não só a fundamentação legal, como também a descrição da conduta ilícita e a menção às provas acostadas. Preliminar de nulidade rejeitada. DO CERCEAMENTO DE DEFESA Argui a Recorrente cerceamento de seu direito de defesa em face da não abertura de prazo antes da lavratura da NFLD para que o contribuinte pudesse regularizar o suposto crédito tributário existente. Tal conduta, na visão do Recorrente, inverteu os atos do procedimento administrativo, ofendendo o direito de defesa previsto na Carta da República. São seus argumentos (fls 436): A autoridade fiscal não pode promover a notificação de lançamento antes da lavratura do auto de infração. A necessidade de elaboração de auto de infração se constitui em precedente de forma essencial ao início do processo administrativo fiscal, devendo ser anterior até mesmo à própria notificação do débito, posto que daria à recorrente a possibilidade de saber da existência de imputação de irregularidade contra si para poder corrigila, garantindo, assim, o contraditório e a ampla defesa. Fl. 463DF CARF MF Processo nº 10930.722569/201496 Acórdão n.º 2201003.804 S2C2T1 Fl. 461 7 Esse procedimento, aliás, decorre da lei que disciplina o processo administrativo no âmbito da Administração Pública, mais especificamente no Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972. Referido decreto estabelece como etapas intransponíveis para a formação de um juízo de regularidade em torno do processo administrativo o auto de infração, seguido da notificação de lançamento. A propósito, transcrevemse os arts. 10 e 11, do Decreto n' 70.235, de 06 de março de 1972: "Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula." (destaques constam do recurso) A criativa interpretação da norma esposada pelo Contribuinte não merece prosperar. É cediço na doutrina e na jurisprudência que o procedimento de fiscalização é inquisitório, ou seja, não permite a dialética típica do processo, não há contraditório. É a instauração do litígio, por meio da impugnação ao crédito, que inaugura o processo administrativo tributário. Nesse sentido a lição de Cleide Previtalli Cais (O Processo Tributário, 7ª ed. Ed. Revista dos Tribunais, pag. 214), que ao asseverar que a expressão processo tributário engloba tanto a fase administrativa quanto a judicial, afirma: "O Decreto Federal 70.235/72, confirma esse entendimento nos arts 7º e 14 quando versa sobre o procedimento fiscal¸ou seja atos que darão início ao processo que será instaurado mediante a impugnação da exigência tributária perante a instância administrativa, conforme regula os artigos 14 e seguintes." Não poderia ser outra a posição doutrinária em razão da disposição legal. Recordemos os artigos mencionados do Decreto 70.235, pela douta processualista: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: I o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; Fl. 464DF CARF MF 8 II a apreensão de mercadorias, documentos ou livros; III o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. § 2° Para os efeitos do disposto no § 1º, os atos referidos nos incisos I e II valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. (...) Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. (destaques não constam do texto da lei) Ora, não há que se falar em direito ao contraditório, base da ampla defesa, em procedimento inquisitório, procedimento de fiscalização, pelo qual a autoridade busca verificar o cumprimento das obrigações legais impostas ao fiscalizado. Hugo de Brito Machado (Curso de Direito Tributário, 20ªed. Malheiros Ed. pag. 393), leciona no mesmo sentido: "O processo de determinação e exigência do crédito tributário, ou processo de acertamento, ou simplesmente lançamento tributário, dividese em duas fases: (a) unilateral ou não contenciosa e (b) bilateral, contenciosa ou litigiosa" Tal distinção é fundamental e aqui o maior equívoco teórico do Recorrente ´posto que além da inexistência de contraditório recordemos que a fase é unilateral ou não contenciosa com o início do procedimento de fiscalização operase a exclusão da espontaneidade do contribuinte, segundo expressa determinação do artigo 138 do CTN, ou seja, não pode mais o sujeito passivo corrigir seu erro senão suportando a sanção cabível. Justamente por isso, a interpretação do Recorrente de que o Decreto 70.235/72 determina a intimação para cumprimento da exigência para que o sujeito passivo possa 'corrigir' sua falta é totalmente equivocada. Ao reverso, a intimação é do crédito constituído, tributo devido mais consectários legais, para pagamento ( cumprimento da exigência), ou apresentação da devida impugnação (pressuposto de discordância), com a consequente instauração do devido processo legal. Por todo o exposto, forçoso rejeitar a preliminar também nessa parte. Passemos ao mérito. Após tecer considerações sobre a possibilidade da autoridade administrativa deixar de aplicar lei inconstitucional, em face da existência da Súmula nº 473, do STF, que assevera que a Administração pode anular seus próprios atos quando eivados de vícios que os tornem ilegais, passa o Recorrente a arguir a não configuração da substituição tributária, novamente sob um viés de constitucionalidade da lei tributária. São seus argumentos (fls. 442): Fl. 465DF CARF MF Processo nº 10930.722569/201496 Acórdão n.º 2201003.804 S2C2T1 Fl. 462 9 "Depois, resta claro como a luz do sol que a contribuição ora exigida é muito mais do que modalidade de substituição tributária, constituindo, em verdade, nova e diferente forma de tributação sobre os sujeitos envolvidos na relação tributária. De fato, do art. 31 da Lei n° 8.212/91, com a nova redação dada pelo art. 23 da Lei n° 9.711/98, notase, com clareza, a intenção da lei no sentido de criar obrigação tributária em substituição, com amparo no art. 150, § 7o, da Constituição Federal. É o que se vê pela letra da lei: "Art. 31 da Lei 8.212/91. A empresa contratante de serviços executados mediante cessão de mãodeobra, inclusive era regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços e recolher a importância retida até o dia dois do mês subseqüente ao da emissão da respectiva nota fiscal ou fatura, em nome da empresa cedente da mãodeobra, observado o disposto no § 5o do artigo 33. § Io. 0 valor retido de que trata o caput, que deverá ser destacado na nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, será compensado pelo respectivo estabelecimento da empresa cedente da mãodeobra, quando do recolhimento das contribuições destinadas à Seguridade Social devidas sobre a folha de pagamento dos segurados a seu serviço." 0 objetivo almejado com a instituição dessa contribuição foi o de antecipar os valores que futuramente seriam devidos aos cofres do INSS a título de contribuição previdenciária incidente sobre a folha de salários. Contudo, não se pode ter como válida a nova imposição tributária, ante as peculiaridades próprias dos dispositivos referidos, notadamente a Constituição Federal. Vejamos: Constituição Federal "Art. 150. ... § 7o. A lei poderá atribuir a sujeito passivo de obrigação tributária a condição . de responsável pelo pagamento de imposto ou contribuição, cujo fato gerador deva ocorrer posteriormente, assegurada a imediata e preferencial restituição da quantia paga, caso não se realize o fato gerador presumido. (Redação dada ao parágrafo pela Emenda Constitucional n° 03/93) " Código Tributário Nacional "Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste Capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindoa a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação." Fl. 466DF CARF MF 10 Como se denota dos textos normativos, os argumentos de sustentação da invalidade da imposição tributária em voga são absolutamente básicos: não existe fato gerador respectivo, cuja ocorrência futura é passível de ser presumida, exatamente porque aquele relativo à antecipação (substituição tributária da Lei n° 9.711/98) não é o mesmo que o previsto para ocorrência futura, qual seja, a incidência de contribuição previdenciária sobre a "folha de pagamentos" (parte patronal). Efetivamente,a substituição tributária criada pelo art. 31 da Lei 8.212/91 não atende os requisitos legais e tipificados constitucionalmente. A norma do § 7o do art. 150 .da Constituição Federal, combinado com o art. 128 do Código Tributário Nacional, é clara e específica quanto aos aspectos essenciais a serem verificados a fim de possibilitar a antecipação de um tributo mediante substituição tributária e a transferência da responsabilidade a terceira pessoa, como no caso." Depois de citar alguma doutrina e jurisprudência, que acredita embasarem seus inventivos argumentos, a Recorrente conclui (fls. 449): "Destarte, não há dúvidas, pois, que a substituição tributária (antecipação) inaugurada pela Lei n° 9.711/98 (nova redação à Lei n° 8.212/91) é, assim, totalmente inconstitucional." Prossegue, o Apelante, em sua análise sobre a constitucionalidade da exação. Agora visa atacar a inconstitucionalidade da utilização, pela Lei de Custeio, de mesma base de cálculo da COFINS. Entende que (fls 449): "Também não pode alcançar sucesso em segunda instância administrativa o argumento da decisão ora recorrida de que a Lei n° 9.711/98 não criou nova tributação sobre o faturamento. 0 fato é que, efetivamente, a base de cálculo e o fato gerador da contribuição instituída pela Lei n° 9.711/96 são os mesmos da Cofins. Com efeito, o art. 195 da Constituição Federal estabelece que "a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: b) a receita ou o faturamento;" E finaliza no § 4o: "A lei poderá instituir outras fontes destinadas a garantir a manutenção ou expansão da seguridade social, obedecido o disposto no artigo 154, I. " O referido art. 154 e seu inciso I da Constituição Federal, de sua vez, ditam que: "Art. 154. A União poderá instituir: I mediante lei complementar, impostos não previstos no artigo anterior, desde que sejam nãocumulativos e não tenham fato Fl. 467DF CARF MF Processo nº 10930.722569/201496 Acórdão n.º 2201003.804 S2C2T1 Fl. 463 11 gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados nesta Constituição;" Por aí, se criado um determinado tributo, não pode outro ser instituído sobre o mesmo fato gerador e base de cálculos próprios daquele. Dessa forma, uma vez estabelecido pelo legislador contribuição incidente sobre o faturamento, qual seja, a COFINS, ficou expressamente vedada a utilização desta como base de cálculo de qualquer outra contribuição previdenciária (...) Ora, não é necessário esforço incomum para se concluir que o valor da fatura (faturamento) decorrente da prestação de serviços, efetivamente, já se constitui em base imponível da COFINS, pelo que jamais poderia ser utilizado também como base de cálculo da hipótese de incidência da nova contribuição instituída pela Lei n° 9.711/98, sem ofender o disposto no art. 195, § 4o, da Constituição Federal de 1.988. Do ponto de vista jurídico, De Plácido e Silva assim conceitua o ato de faturar: "Derivado de fatura, quer significar o • ato de se proceder à extração ou formação da fatura, a que se diz propriamente faturamento." (...) Então, não há dúvidas de que a Lei n° 9.711/98, na parte em que conferiu alteração ao art. 31 da Lei n° 8.212/91, além de não ter validade por impossível de se conceber a substituição tributária pretendida, é também inconstitucional no que se refere à base de cálculo eleita, por ferir, de morte, o disposto no art. 195, § 4o, da Lei Maior, que remete seu texto ao art. 154, I." (destaques do último parágrafo não constam do recurso voluntário). Forçoso reconhecer que todos os argumentos acima transcritos caminham no sentido da inconstitucionalidade da norma ensejadora da exação. Sobre o tema, este colegiado não deve se pronunciar. É pacífico o entendimento sobre o papel do julgador administrativo: o controle de legalidade do ato de lançamento tributário. Tal controle, decorrente do poder/dever da Administração Pública de verificar o cumprimento da lei por todos os seus agentes, enseja a aplicação da lei válida e vigente, não podendo a Administração se imiscuir na competência do Poder Judiciário, este sim, investido no poder de verificar a validade e vigência da lei no sistema jurídico pátrio. Logo, este julgador, e seus pares, são incompetentes para apreciar as questões apresentadas como postas. Sobre tais considerações se assentou o entendimento deste Conselho Administrativo. Tal embasamento ensejou a edição da Súmula CARF nº 2: Fl. 468DF CARF MF 12 "Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." Assim, imperiosa a negativa do voluntário quanto aos temas acima expostos. CONCLUSÃO Diante do exposto e pelos fundamentos acostados, voto por conhecer do recurso para, rejeitando as preliminares de nulidade, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Relator Fl. 469DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.900285/2013-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 14/09/2012
RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO.
Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.709
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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Ausência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. Recorrente FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA UNICAMP FUNCAMP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 14/09/2012 RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO. Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Recurso Voluntário negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas. Relatório Tratase de manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório eletrônico que indeferiu Pedido de Restituição Eletrônico PER referente a alegado crédito de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 90 02 85 /2 01 3- 94 Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 3 2 pagamento indevido ou a maior efetuado por meio do DARF, código de receita 8301 (PIS – Folha de Pagamento). Segundo o Despacho Decisório, o DARF informado no PER foi integralmente utilizado na quitação do respectivo débito, não restando crédito disponível para restituição. Em sua manifestação de inconformidade a interessada argumentou, em resumo, que o pagamento indevido decorre de sua condição de imune às contribuições sociais, nos termos dos art. 150, inciso VI, alínea “c”, art. 195, § 7º, c/c art. 205, art. 6º, art. 203, inciso III, art. 145, § 1º, art. 146, II, todos da Constituição Federal, e do art. 14 do CTN. Discorre sobre sua condição de imune. Requer que seja declarada como Entidade Beneficente de Assistência Social. Ao analisar o caso, a DRJ em Juiz de Fora (MG), entendeu por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 09051.743, com base primordialmente nos seguintes fundamentos: (i) a imunidade das contribuições sociais está sujeita às exigências estabelecidas pela Lei 12.101/2009; (ii) a Recorrente não possui CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social); (iii) o PIS não está abrangido pela imunidade estabelecida no art. 195, § 7º da Constituição Federal; e (iv) a Recorrente está sujeita ao PIS sobre a Folha de Salários e não sobre o Faturamento. Intimado da decisão e insatisfeito com o seu conteúdo, o contribuinte interpôs, tempestivamente, Recurso Voluntário através do qual alegou, resumidamente: (i) que o STF já teria pacificado seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, que teve repercussão geral reconhecida; (ii) que a Recorrente atende a todos os requisitos da Lei 12.101/2009 para fins de usufruto da imunidade, conforme comprovado no pedido de emissão do CEBAS protocolizado (trata sobre cada um dos requisitos); (iii) que a emissão do CEBAS é um ato administrativo vinculado, constituindo obrigação legal uma vez constatado o atendimento dos requisitos legais para gozo da imunidade; (iv) que a emissão do CEBAS tem caráter declaratório, sendolhe conferidos efeitos retroativos. Requer, ao final, que seja dado provimento ao seu recurso, para fins de deferir o pedido de restituição, por se tratar de instituição imune às contribuições previdenciárias. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.674, de 27 de junho de 2017, proferido no julgamento do processo 10830.900254/201333, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.674): Fl. 171DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 4 3 "O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Consoante acima narrado, tratase de Pedido de Restituição Eletrônico PER nº 23871.62072.130912.1.2.040241 referente a alegado crédito de pagamento indevido ou a maior da contribuição previdenciária sobre a folha de salários a cargo do empregador, efetuado por meio do DARF no valor original de R$ 42.011,75. Como é cediço, para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez, cuja comprovação deve ser efetuada pelo contribuinte. No caso concreto ora analisado, portanto, há de se verificar se o crédito tributário alegado pelo contribuinte encontrase revestido de tais características, sem as quais o pleito não pode ser deferido. Alega o contribuinte que o seu pleito decorre do seu direito seria líquido e certo ao gozo da imunidade. A DRJ, por seu turno, entendeu de forma diversa, conforme se extrai da passagem do voto a seguir transcrita: A imunidade relativa às pessoas jurídicas que prestam assistência social está prevista nos seguintes dispositivos constitucionais: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] VI instituir impostos sobre:(Vide Emenda Constitucional nº 3, de 1993) a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. [...] Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: [...] § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. A imunidade prevista no artigo 150 acima transcrito é especifica para impostos não abrangendo às contribuições sociais. Portanto, não alcança o PIS/PASEP –Folha de Salários. A imunidade prevista no artigo 195, § 7º, é específica para contribuições para seguridade social e depende da caracterização da entidade como beneficente Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 5 4 de assistência social que atenda às exigências estabelecidas em lei, entre elas a certificação de que trata a Lei 12.101/2009, conforme dispositivos transcritos a seguir: Art. 1o A certificação das entidades beneficentes de assistência social e a isenção de contribuições para a seguridade social serão concedidas às pessoas III do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, quanto às entidades de assistência social. (...) Art. 29. A entidade beneficente certificada na forma do Capítulo II fará jus à isenção do pagamento das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, desde que atenda, cumulativamente, aos seguintes requisitos (grifo não original) Com base nos atos acima transcritos, que vinculam este colegiado de 1ª instância administrativa, a contribuinte, por não ser detentora do certificado de entidade beneficente de assistência social, não faz jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º, da CF/88, por descumprir exigência contida em lei. Com lastro no artigo 21 supra, não compete à RFB decidir sobre a concessão de certificados de entidade beneficente de assistência social, não tendo força vinculante as decisões judiciais e o posicionamento da doutrina mencionados pela defesa. De modo que, o pedido, para que seja declarada como Entidade Beneficente da Assistência Social, com força substitutiva do registro e da certificação de que trata o art. 21 da Lei nº 12.101/2009, não pode ser atendido no âmbito desse colegiado. A contribuinte impetrou o mandado de segurança nº 2007.61.05.0129681, junto à 2ª Vara Federal de Campinas, que atualmente tramita no TRF 3º Região, com sentença proferida reconhecendo o direito à imunidade prevista no art. 195, 7º, da CF/88, no tocante à Cofins, desde que cumpridos os requisitos do art. 14 do CTN e os deveres instrumentais acessórios estabelecidos pela legislação fiscal. Portanto, mantida a exigência do certificado de entidade beneficente de assistência social para gozo da imunidade prevista no artigo 195, 7º, da CF/88. Concordo com a conclusão a que chegou a DRJ no trecho acima, por entender que não restou comprovada a certeza e liquidez do crédito pleiteado pelo contribuinte. Embora a Recorrente tenha protocolizado pedido de emissão do CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social) desde 18/12/2013, é certo que este pedido ainda não foi deferido, encontrandose atualmente na situação de "encaminhado". E sendo esta emissão um requisito essencial ao gozo da imunidade pleiteada, nos termos do que determina a Lei nº 12.101/2009, não há como se entender que o crédito tributário objeto da presente demanda seja líquido e certo. Notese que o art. 29 da referida lei dispõe que fará jus à isenção a entidade beneficente certificada. Ademais, como bem destacou a DRJ em sua decisão, a análise quanto ao atendimento dos requisitos dispostos na Lei n. 12.101/2009 e a consequente concessão do Fl. 173DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 6 5 CEBAS não é de competência da Receita Federal do Brasil, ou mesmo deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Nesse contexto, ainda que o ato administrativo de concessão do CEBAS seja plenamente vinculado, e que os seus efeitos sejam declaratórios, conferindolhe aplicação retroativa, tais fatores não afastam a necessidade de que haja a análise quanto a tal pleito por parte da autoridade competente. Sendo assim, não há como se deferir o pleito do contribuinte de restituição apresentado, por faltarlhe certeza e liquidez. De outro norte, importante ainda que se analise o segundo fundamento da decisão recorrida, que assim dispôs: Ainda que a contribuinte fosse detentora de tal certificado, o entendimento da administração tributária é que o PIS/PASEP não está abrangido pelo artigo 195 da Carta Magna, sendo devido o seu recolhimento na forma da lei. No caso vertente, o crédito pretendido decorre de pagamento de PIS/PASEP – Folha de Salários. Cabe, então, observar o disposto no art. 13 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001: Art. 13. A contribuição para o PIS/PASEP será determinada com base na folha de salários, à alíquota de um por cento, pelas seguintes entidades: I templos de qualquer culto; II partidos políticos; III instituições de educação e de assistência social a que se refere o art. 12 da Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, a que se refere o art. 15 da Lei no 9.532, de 1997; V sindicatos, federações e confederações; VI serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; VII conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, reconhecidas como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, e que atendam ao disposto nesta Lei. (...) Art. 21. A análise e decisão dos requerimentos de concessão ou de renovação dos certificados das entidades beneficentes de assistência social serão apreciadas no âmbito dos seguintes Ministérios: I da Saúde, quanto às entidades da área de saúde; II da Educação, quanto às entidades educacionais; e VIII fundações de direito privado e fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; IX condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; e Fl. 174DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 7 6 X a Organização das Cooperativas Brasileiras OCB e as Organizações Estaduais de Cooperativas previstas no art. 105 e seu § 1o da Lei no 5.764, de 16 de dezembro de 1971. [...].” [Grifei]. Por sua vez, os mencionados arts. 12 e 15 da Lei nº 9.532, de 1997, assim dispõem1: Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c", da Constituição, considerase imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos. (Vide artigos 1º e 2º da Mpv 2.18949, de 2001) (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º Não estão abrangidos pela imunidade os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável. § 2º Para o gozo da imunidade, as instituições a que se refere este artigo, estão obrigadas a atender aos seguintes requisitos: [...] Art. 15. Consideramse isentas as instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos. (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º A isenção a que se refere este artigo aplicase, exclusivamente, em relação ao imposto de renda da pessoa jurídica e à contribuição social sobre o lucro líquido, observado o disposto no parágrafo subseqüente. [...] § 3º Às instituições isentas aplicamse as disposições do art. 12, § 2°, alíneas "a" a "e" e § 3° e dos arts. 13 e 14. Nesse sentido, o Decreto nº 4.527, de 17 de dezembro de 2002, ao regulamentar a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado em geral, assim dispõe: Art. 9º São contribuintes do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários as seguintes entidades (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13): [...] III instituições de educação e de assistência social que preencham as condições e requisitos do art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, que preencham as condições e requisitos do art. 15 da Lei nº 9.532, de 1997; [...] Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 8 7 Art. 46. As entidades relacionadas no art. 9º deste Decreto (Constituição Federal, art. 195, § 7º , e Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13, art. 14, inciso X, e art. 17): I não contribuem para o PIS/Pasep incidente sobre o faturamento; e [...] Art. 50. A base de cálculo do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários mensal, das entidades relacionadas no art. 9º, corresponde à remuneração paga, devida ou creditada a empregados. [...].” [Grifei]. Portanto, considerando as normas legais supracitadas e que a contribuinte se declara imune em razão da atividade por ela exercida (atividades de apoio à educação – exceto caixas escolares), não há incidência da contribuição para o PIS/Pasep sobre o faturamento. Entretanto, é devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88. Assim, diante da ausência de certeza do crédito pleiteado, voto por considerar improcedente a manifestação de inconformidade, ratificando o Despacho Decisório que indeferiu a restituição pretendida. Sobre este ponto, o contribuinte alegou em seu recurso voluntário que o STF já pacificou seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, publicado em 04/04/2014, que teve repercussão geral reconhecida. Da análise do referido julgado, extraise que o STF chegou à seguinte conclusão: A pessoa jurídica para fazer jus à imunidade do art. 195, § 7º, CF/88, com relação às contribuições sociais, deve atender aos requisitos previstos nos artigos 9º e 14, do CTN, bem como no art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98 e Lei nº 12.101/2009, nos pontos onde não tiveram sua vigência suspensa liminarmente pelo STF nos autos da ADIN 2.2085. As entidades beneficentes de assistência social, como consequência, não se submetem ao regime tributário disposto no art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e no art. 13, IV, da MP nº 2.15835/2001, aplicáveis somente àquelas outras entidades (instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos) que não preencherem os requisitos do art. 55, da Lei nº 8.212/91, ou da legislação superveniente sobre a matéria, posto não abarcadas pela imunidade constitucional. A inaplicabilidade do art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e do art. 13, IV, da MP º 2.15835/2001, às entidades que preenchem os requisitos do art. 55 da Lei nº 8.212/91, e legislação superveniente, não decorre do vício da inconstitucionalidade desses dispositivos legais, mas da imunidade em relação à contribuição ao PIS como técnica de interpretação conforme à Constituição. Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 9 8 Ou seja, o STF concluiu que as entidades beneficentes de assistência social não se submetem ao regime tributário disposto no art. 13, IV da MP n. 2.15835/2001, por fazerem jus à imunidade do art. 150, § 7º, da CF/88. E como restou conferida à tese ali assentada repercussão geral e eficácia erga omnes e ex tunc, tal entendimento deverá ser observado por este Conselho, por força do que dispõe o Regimento Interno deste Conselho, in verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (...). § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverãoser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Com base no entendimento do STF expresso no RE 636.941/RS, há de se reconhecer, portanto, a insubsistência da conclusão constante da decisão recorrida no sentido de seria "devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88". Contudo, para que se possa concluir pela aplicação do julgado do STF ao caso vertente, seria necessário verificar se a Recorrente se enquadra como entidade beneficente de assistência social e se atende os requisitos legais dispostos na legislação pertinente. Ocorre que, consoante anteriormente apontado, o pedido de concessão da CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social), um dos requisitos para o gozo da imunidade, ainda não foi deferido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, a Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10830.900285/201394 Acórdão n.º 3301003.709 S3C3T1 Fl. 10 9 quem compete analisar o atendimento dos requisitos dispostos na legislação pertinente (art. 14 do CTN, art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98, e Lei nº 12.101/2009). É válido destacar, inclusive, que o STF, ao julgar o RE 636.941/RS tratou expressamente desta certificação, concluindo que "a definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade". É o que se infere da passagem a seguir transcrita, extraída do voto do Ministro Luiz Fux, relator do mencionado RE: Pela análise da legislação, percebese que se tem consagrado requisitos específicos mais rígidos para o reconhecimento da imunidade das entidades de assistência social (art. 195, § 7º, CF/88), se comparados com os critérios para a fruição da imunidade dos impostos (art. 150, VI, c, CF/88). Ilustrativamente, menciono aqueles exigidos para a emissão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social – CEBAS, veiculados originariamente pelo art. 55 da Lei nº 8.212/91, ora regulados pela Lei nº 12. 101/2009. A definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, não implicando significativa restrição do alcance do dispositivo interpretado, qual seja, o conceito de imunidade, e de redução das garantias dos contribuintes. Com efeito, a jurisprudência da Suprema Corte indicia a possibilidade de lei ordinária regulamentar os requisitos e normas sobre a constituição e o funcionamento das entidades de educação ou assistência (aspectos subjetivos ou formais). Diante do acima exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 178DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10183.006199/2005-55
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 06 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 01 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Data do fato gerador: 01/01/2001
ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA. REQUISITOS PARA NÃO INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL.
A partir do exercício 2001, para fins de redução do valor devido de ITR, é indispensável a comprovação do protocolo do Ato Declaratório Ambiental protocolado junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. COMPROVAÇÃO DE ÁREAS E VALORES DECLARADOS. NECESSIDADE. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. POSSIBILIDADE.
Cabe ao Fisco, ao revisar as declarações prestadas pelo sujeito passivo, verificar os dados delas constantes. Havendo necessidade, o contribuinte deve ser intimado a comprovar as informações prestados, e em não o fazendo, cabe ao Fisco glosar os dados não comprovados, invertendo o ônus da prova.
Numero da decisão: 2201-003.773
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, e José Alfredo Duarte Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente e Relator.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Redator designado
EDITADO EM: 17/07/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, e José Alfredo Duarte Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira - Presidente e Relator. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Redator designado EDITADO EM: 17/07/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
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ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA. REQUISITOS PARA NÃO INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL. A partir do exercício 2001, para fins de redução do valor devido de ITR, é indispensável a comprovação do protocolo do Ato Declaratório Ambiental protocolado junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. COMPROVAÇÃO DE ÁREAS E VALORES DECLARADOS. NECESSIDADE. INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. POSSIBILIDADE. Cabe ao Fisco, ao revisar as declarações prestadas pelo sujeito passivo, verificar os dados delas constantes. Havendo necessidade, o contribuinte deve ser intimado a comprovar as informações prestados, e em não o fazendo, cabe ao Fisco glosar os dados não comprovados, invertendo o ônus da prova. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, e José Alfredo Duarte Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente e Relator. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 00 61 99 /2 00 5- 55 Fl. 253DF CARF MF 2 Carlos Alberto do Amaral Azeredo Redator designado EDITADO EM: 17/07/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra a decisão de primeiro grau que manteve o crédito tributário constituído por meio de auto de infração (folhas 07 do processo digitalizado), referente ao imposto territorial rural suplementar lançado de ofício. . Os motivos ensejadores do lançamento tributário se encontram no Relatório Fiscal (fls 9). Foi constituído um crédito tributário de R$ 700.735,53 referente ao imposto (R$ 281.013,61). juros de mora (R$ 208.961,72), e multa de ofício (R$ 210.760,20), atualizados até dezembro de 2005. O crédito constituído referese ao fato gerador ocorrido em 01/01/2001 e se aperfeiçoou com a ciência pessoal do contribuinte em 15 de dezembroo de 2005 (AR fls. 24). Irresignado, o contribuinte apresenta, tempestivamente, impugnação ao lançamento (fls. 28), em 13 de janeiro de 2006. A 1ª Turma da DRJ em Campo Grande/MS, em 27 de janeiro de 2007, nega procedência à impugnação apresentada, proferindo a decisão consubstanciada no Acórdão de Impugnação 0411.324 (fls 120). Tal decisão restou assim ementada: "ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL É necessário que o contribuinte protocolize o ADA no Ibama ou em órgãos ambientais estaduais delegados por meio de convêncio, no prazo de até 6 meses, contato a partir do término do prazo fixado para a entrega da declaração, para que as áreas de Preservação Permanente e de Utilização Limitada possam ser excluídas da incidência do ITR. VALOR DA TERRA NUA O valor da terra nua, apurado pela fiscalização, em procedimento de ofício nos termos do art. 14 da Lei nº 9393/96, não é passível de alteração, quando o contribuinte não apresentar elementos de convicção que justifiquem reconhecer valor menor. ÁREA DE EXPLORAÇÃO EXTRATIVA A área utilizada com exploração extrativa é comprovada com plano de manejo sustentado devidamente aprovado pelo Ibama desde que o cronograma esteja sendo cumprido. Lançamento Procedente" Fl. 254DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 254 3 O acórdão cuja ementa reproduzimos, tem o seguinte relatório, que adoto por sua clareza e precisão (fls 89): De acordo com a Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fls. 06/07, foi glosada a área de utilização limitada informada na Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial DITR (DIAC/DIAT), em virtude do não cumprimento dos requisitos estabelecidos na lei para sua exclusão da incidência do imposto. Também foi glosada a área utilizada na exploração extrativa, por falta de comprovação com plano de manejo sustentado devidamente aprovado pelo Ibama. 3.As alterações no cálculo do imposto estão demonstradas à fl. 02. As glosas efetuadas culminaram com a redução do grau de utilização de 100,0% para 6,9%, com a conseqüente alteração da alíquota aplicável do imposto, de 0,45% para 20,00%, conforme a tabela mencionada no art. 11 da Lei n° 9.393/96. Conseqüentemente, a área tributável aumentou de 3.396,0 ha para 19.977,0 ha.Sendo o Valor da Terra Nua declarado substituído pelo Valor da Terra Nua constante do SIPT. 4.O interessado apresentou impugnação tempestivamente, fls. 25/39, onde aduz, que: Recebeu o Auto de Infração pelo correio, onde consta intimação para efetuar o pagamento do ITR, mais juros e multa de mora no total de R$ 700.735,53; Na Descrição dos Fatos constou apuração de infração intitulada falta de recolhimento do ITR, relativas às áreas declaradas de Preservação Permanente e Utilização Limitada/reserva legal e do valor da Terra Nua; Não foi apresentado Laudo elaborado por profissional habilitado bem como o ADA para comprovar a área de preservação permanente existente no imóvel; Não ficou comprovada também a área de utilização limitada mediante averbação na matrícula do imóvel, conforme determina a lei; Com respeito ao valor da terra nua declarado não foi apresentado o Laudo de Avaliação de Imóveis Rurais, conforme o art. 14, § Io da Lei 9393/96, razão pela qual o VTN declarado foi substituído pelo Valor da Terra Nua constante do SIPT; A exigência do ADA é uma formalidade dispensável pela legislação fiscal em vigor, havendo outras provas que podem ser aceitas pela administração, como por exemplo, averbação na matrícula do imóvel; Transcreveu o § 7o, do art. 10 da Lei 9.393/1996, com redação dada pela Medida Provisória 2.16667, de 24/08/2001 para justificar a não obrigatoriedade de prévia comprovação das áreas isentas; Fl. 255DF CARF MF 4 Citou, ainda, várias ementas de Acórdãos do Conselho de Contribuintes; Discorda do VTN apurado no lançamento porque ficou acima do preço de mercado; Possui área de exploração extrativa autorizada pelo Ibama; Por fim, requer seja desconsiderada a retificação de ofício da DITR/2001 e, conseqüentemente do lançamento. Instruiu os autos, com a documentação de fts. 40/63, constando entre outros documentos, cópias das matrículas do imóvel e escrituras públicas." Ciente da decisão que contrariou seus interesses, em 09 de março de 2007 ( AR fls. 135), o Contribuinte apresenta recurso voluntário em 04 de abril seguinte (fls. 138), do qual constam, em regra, os mesmos argumentos. Em 21 de maio de 2009, apreciando o apelo interposto, a 1ª Turma da 2ª Câmara da 3ª Seção deste Colegiado, resolve converter o julgamento em diligência para que (fls. 179): Por meio de informação fiscal (fls. 250) a SECAT/DRF em Campo Grande/MT, em 04/07/2016, responde, fundamentadamente, ao questionamento formulado. Reproduzo a conclusão: "Portanto, não restam dúvidas de que, de fato, o imóvel denominado Fazenda Vale do Guariba, cadastrado na RFB sob o NIRF 0.731.1915 e no INCRA sob o nº 901.016.023.6475, com 19.977,0 hectares, tem como registro imobiliários as matrículas nº 34.544 e 34.545, ambas do RGI do 6º Ofício de Cuiabá/MT." Por sorteio eletrônico, o presente processo foi para mim distribuído, em razão do Relator originário não mais pertencer ao colegiado. É o relatório do necessário. Voto Vencido Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira Relator O recurso é tempestivo. Passo a apreciálo na ordem de suas alegações. Fl. 256DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 255 5 Antes, porém, necessário apontar que, em face da inequívoca resposta dada à diligência determinada, consoante o relatado, tornase despiciendo qualquer comentário a respeito do tema. Voltando ao apelo, argumenta o Recorrente às folhas 139 que: "O autuante cometeu uma série do que prefere o impetrante chamar de equívocos por descuido, que embora culminassem ilegitimidade e ilegalidade, classificaos o impetrante de meros erros que são sujeitos à falibilidade humana, resultaram no julgamento parcial e discricionário. Basta que os senhores Membros do Conselho de Contribuintes examinem as peças da informação fiscal, os documentos apresentados na impugnação e o julgamento de modo cristalino, os erros cometidos, as más interpretações das leis e as razões do impetrante. Que referente à Área de Preservação Permanente não houve apresentação do Laudo elaborado por Engenheiro ou Florestal, informando às áreas que se enquadram no art. 2o da Lei 4771/65 (redação dada pelo art. Io da Lei 7803/89), conforme art. 10, § Io, inciso II, letra 'a' da Lei 9393/96, sendo desconsiderado o valor declarado, como também a não comprovação da solicitação de emissão do Ato Declaratório Ambiental junto ao IBAMA, conforme Lei n°. 6.938, de 31 de agosto de 1981, com a redação dada pela Lei n°. 10.165, de 27 de dezembro de 2000, em data anterior a 31 de março de 2001, conforme art. 17, inciso II da Instrução Normativa SRF n°. 60/2001 (no 73/2000) (10, § 4o, inciso II da Instrução Normativa SRF n°. 41 com a redação dada pela Instrução Normativa SRF n°. 67/1997), sendo desconsiderado o valor declarado. Em relação à área de utilização limitada não foi apresentada a documentação probatória da reserva em cartório de registro de imóveis, à margem da matrícula do imóvel, conforme art. 10, § Io, inciso II, letra 'a' da Lei 9393/96, e art. 16, § 2o da Lei 4771/65 (redação dada pelo art. 1 o da Lei 7803/89), em data anterior à do fato gerador do ITR, conforme art. 12, § 1 o do Decreto 4.382/02, sendo desconsiderado o valor declarado e também a não comprovação da solicitação de emissão do Ato Declaratório Ambiental junto ao IBAMA, conforme Lei n°. 6.938, de 31 de agosto de 1981, art. 170, § 5o, com a redação dada pelo art. I o da Lei 10165, de 27 de dezembro de 2000, errí'data anterior a 31 de março de 2001, conforme art. 17, inciso II da Instrução Normativa SRF n°. 60/2001 (n°. 73/2000) (10, § 4o, inciso II da Instrução Normativa SRF n°. 43/1997, com redação dada pela Instrução Normativa SRF n°. 67/1997), sendo desconsiderado o valor declarado. O que se nota é que a glosa das áreas de 600,0 hectares declarada como área de preservação permanente e a de 15.981,0 hectares como área de utilização limitada, ocorreu tão somente em razão da falta de apresentação do ADA, que segundo o auditor autuante, seria uma das exigências para que o benefício da isenção fosse aceito, conforme legislação fiscal exposta nos autos. Fl. 257DF CARF MF 6 Tratase, portanto, de formalidade dispensável pela própria legislação fiscal em vigor, pois existem outras provas que podem ser aceitas pela Administração, das quais, averbação da área à margem da matrícula do imóvel na data da ocorrência do fato gerador, requisito este, que no caso em questão, foi devidamente cumprido, conforme demonstra as matrículas 34.544 e 34.545 do Cartório de Registro de Imóveis da Terceira Circunscrição Imobiliária de Cuiabá Mato Grosso. Com efeito, o art. 8° da Lei 9.960, de 28/01/2000, que introduziu nova redação à Lei 6.938, de 31/08/1981, dispõe que a utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é opcional, e se após vistoria, for constada divergência, será lavrado novo ADA e os dados efetivamente levantados serão enviados à Secretaria da Receita Federal para providências, "in verbis": (...)" Após, discorre sobre a legislação aplicável e menciona jurisprudência do STJ e deste próprio Conselho Administrativo sobre a desnecessidade de apresentação do ADA. A decisão recorrida assim se pronunciou sobre o tema (fls. 128): "Com base nos dispositivos expostos, fica claro que, para fins de exclusão da área de utilização limitada, da incidência do ITR, é obrigatória a protocolização do ADA, junto ao IBAMA, ou órgão conveniado, no prazo para isso fixado. Salientese que, embora o Regulamento tenha sido editado no ano de 2002, apenas consolidou a legislação vigente à época de sua edição, normatizando alguns de seus pontos, sem inovar na exigência, sendo, na matéria em apreço, aplicável para o lançamento do ITR do exercício considerado. Da mesma forma, a Solução de Consulta, datada de 2003, é igualmente aplicável. Assim, na sistemática de lançamento por homologação, cabe ao sujeito passivo apurar o imposto e proceder ao seu pagamento, sem prévio exame da autoridade fiscal. Até que decorra o prazo decadencial, pode essa autoridade examinar as informações que embasaram o lançamento. Ocorrendo tal situação, o contribuinte deverá comprovar o que foi declarado, com documentos. Inclusive, há orientação na página 12 do Manual de Preenchimento da DITR/2001 o contribuinte deverá guardar em seu poder, por cinco anos, os documentos que comprovem as especificações, qualidades e condições atribuídas às áreas indicadas na declaração, tais como laudo técnico expedido por profissional habilitado, certidões fornecidas por órgãos públicos competentes ou por Cartório de Registro de Imóveis e atos do Poder Público. (...) No presente processo o contribuinte foi intimado a apresentar os documentos exigidos para gozo da isenção relativa à área de interesse ambiental de utilização limitada, área utilizada com atividade extrativa e valor da terra nua. Porém, não houve atendimento à intimação fiscal, os valores referentes a esses Fl. 258DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 256 7 itens foram desconsiderados e o valor da terra nua declarado substituído pelo constante no SIPT. Na fase impugnatória, o contribuinte juntou cópia da matrícula do imóvel de n° 2.896, onde consta a averbação de 8.000,0 hectares como de utilização limitada. Porém não foi apresentado Ato Declaratório Ambiental (ADA) do Ibama, ou de outro órgão conveniado. Documento este exigido para efeito de exclusão do ITR (Portaria Ibama n° 162, de 1997)." (destaques não constam da decisão de piso) Do exposto, verifico que a controvérsia se instaura no tocante à área averbada na matrícula do imóvel como sendo de utilização limitada Manutenção de Floresta Limitada quanto à necessidade de apresentação do ADA perante a autoridade ambiental competente, IBAMA ou, por força de convêncio, órgão estadual de controle ambiental. Segundo a decisão de piso, por força de vários atos integrantes da legislação tributária, tal apresentação é imprescindível para a fruição do benefício fiscal, ou seja, a não incidência do ITR sobre a área constante da matrícula do imóvel. Recordemos a Lei nº 9393/96, na redação vigente à época dos fatos geradores: "Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: I VTN, o valor do imóvel, excluídos os valores relativos a: a) construções, instalações e benfeitorias; b) culturas permanentes e temporárias; c) pastagens cultivadas e melhoradas; d) florestas plantadas; II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; (...)" (destaques não constam do texto legal) Vejamos a redação da Lei nº 4.771/65, no ponto que nos interessa: "Art. 16. As florestas de domínio privado, não sujeitas ao regime de utilização limitada e ressalvadas as de preservação Fl. 259DF CARF MF 8 permanente, previstas nos artigos 2° e 3° desta lei, são suscetíveis de exploração, obedecidas as seguintes restrições: (...) § 2º A reserva legal, assim entendida a área de , no mínimo, 20% (vinte por cento) de cada propriedade, onde não é permitido o corte raso, deverá ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, sendo vedada, a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, ou de desmembramento da área." (destaques não constam do texto legal) Observo a ausência de determinação legal, no texto reproduzido e vigente à época dos fatos, sobre a necessidade do ADA. Não desconheço que a previsão legal sobre a exigência de tal informação para o órgão de controle ambiental, hoje se encontra previsto em lei (Lei nº 6.938/81, com a redação da Lei 10.165/00), lei ambiental se diga, mas de forma expressa como condição para a fruição do favor tributário. "Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA. A Taxa de Vistoria a que se refere ocaputdeste artigo não poderá exceder a dez por cento do valor da redução do imposto proporcionada pelo ADA.(Incluído pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória." (novamente destaquei) Porém, é inegável que tal exigência só passa a existir a partir de 2001, posto que a publicação da lei se dá nos últimos dias de dezembro de 2000. Tratase de imposto cujo fato gerador se dá em 01 de janeiro de 2001. Não obstante a novidade, que ao meu ver, ofende o princípio da segurança jurídica, fundante em matéria tributária, é inegável que no caso em apreço, a exigência se torna totalmente despicienda. Explico. É cediço que a imprescindibilidade do ADA se pauta na necessidade que o Estado tem de conhecendo o meio ambiente e a destinação que se quer dar a ele proteger o interesse comum, tão determinante em matérias ambientais. Logo, precisa o Estado, por meio de seus órgão de controle, da informação sobre os locais onde se deve e portanto se favorece a proteção dos recursos naturais. De tal constatação, surge a interpretação finalística da exigência da Lei 6938/91: se o sujeito passivo opta por reservar parte de sua propriedade para a preservação do meio ambiente, seja por força de lei, seja por faculdade, ele tem o direito de afastar a incidência Fl. 260DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 257 9 tributária sobre tal porção de área rural, tendo para tanto, que cumprir dois requisitos: averbação de tal decisão na matrícula do imóvel e cientificação de tal situação para o órgão ambiental. Tal constatação me move no sentido de dar razão ao contribuinte no caso 'in concreto'. Recordemos o texto da escritura pública que instaurou a limitação ao uso da propriedade rural (fls. 57): Reproduzo, pela sua importância em minha decisão e com o perdão da repetição, o texto inicial da averbação acima reproduzida: "Conforme Termo de Retificação de Averbação da Reserva Legal, termo nº 0410/2004, expedido aos 02062004, processo nº 6117/2003, datado de 23/10/2003, celebrado entre o proprietário deste imóvel, Sr JOSÉ JAIR MARTINS DA COSTA, brasileiro, casado,(...) e a Fundação Estadual do Meio Ambiente, FEMA, representada pelo Secretário Estadual do Meio Ambiente, Presidente do FEMAMT, Moacir Pires de Miranda Filho, (...) fica retificado, o Termo celebrado em 30/04/1998, averbado sob nº 15 desta matrícula, (...)" Ora, para a instituição da utilização limitada da propriedade, foi firmado um termo entre a Fundação Estadual do Meio Ambiente e o contribuinte, que expressamente, prevê que não pode haver qualquer tipo de exploração sem a autorização do órgão competente. Ressalto que verifico, averbado sob no 14 da mesma matrícula, Termo de Responsabilidade de Manutenção de Floresta Manejada, TRMFM, datado de 15/06/97, firmado com o Superintendente do IBAMA em Mato Grosso. Flagrante a desnecessidade do ADA em tal situação. O Estado tem a informação necessária para permitir seu poder/dever de fiscalização. Digo mais, o Estado, por meio do órgão competente, expressamente autorizou tal limitação de utilização da propriedade. Fl. 261DF CARF MF 10 Não há como se exigir a novidade imposta pela Lei nº 6.938/81, com a novel redação dada pela Lei nº 10.165/00, dias após sua publicação, quando a finalidade da Lei já estava contemplada no caso concreto. Não se pode olvidar que a antiga redação da Lei nº 6.938/81, dada pela Lei nº 9.960/00, expressamente dizia ser a utilização do ADA para efeitos de redução de valor a pagar de ITR era opcional. O contribuinte não merece tal surpresa. Não em prazo tão curto. Do exposto, voto por dar provimento ao recurso nessa parte. Prosseguindo com sua oposição ao lançamento e por via de consequência à decisão de piso, alega o recorrente (fls. 147): "No que diz respeito à valoração da Terra Nua não foi apresentado Laudo de Avaliação de Imóveis Rurais, conforme NBR 8799 da ABNT, sendo, conforme art. 14, § I o da Lei 9393/96, substituído o Valor da Terra Nua por Hectare Declarado pelo Valor da Terra Nua por Hectare constante no SIPT (Sistema de Preços de Terras da Secretaria da Receita Federal). O impetrante por não concordar com a alteração e inconformado com o valor, apresenta as escrituras anexas visando à comprovação do preço de mercado de terras. O impetrante no preenchimento da declaração do Imposto Territorial Rural ITR obedeceu exatamente às exigências legais, contidas na Lei n°. 9.393/1996, art. 8o, § 2o, que assim dispõe: "Art. 8o: O contribuinte do ITR entregará, obrigatoriamente, em cada ano, o Documento de Informação e Apuração do ITR DIAT, correspondente a cada imóvel, observadas datas e condições fixadas pela Secretaria da Receita Federal. Par. 2o: O VTN refletirá o preço de mercado de terras, apurado em 1" de janeiro do ano a que se referir o DIAT, e será considerado autoavaliação da terra nua a preço de mercado." Diante dos fatos, o impetrante discorda do VTN apurado pelo Auditor Fiscal, uma vez que este ficou muito acima do preço de mercado, tanto é que anexou as escrituras à impugnação visando a comprovação do preço de mercado das terras" No tocante ao ponto, assim se pronunciou o voto condutor da decisão recorrida (fls. 129): "O procedimento utilizado pela fiscalização para apuração do Valor da Terra Nua, VTN, com base nos valores constantes em sistema da Secretaria da Receita Federal, encontra amparo no art. 14 da Lei n.° 9.393/1996, já mencionado. O valor do SIPT só é utilizado quando após intimado, o contribuinte não apresenta elementos suficientes para comprovar o valor por ele declarado, da mesma forma que tal valor fica sujeito à revisão quando o contribuinte não comprovar que seu imóvel possui características que o distingam dos demais imóveis do mesmo município. Não há como modificar o VTN porque, apesar de Fl. 262DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 258 11 intimado, o interessado não apresentou Laudo Técnico, não usou desta prerrogativa legal que lhe permitiria reduzir o VTN atribuído a sua propriedade. Apresentou cópia de escrituras públicas às fls. 49/62, porém, tais documentos por si só, não são suficientes para alterar considerado no lançamento de ofício, pois não possuem elementos de convicção que justifiquem reconhecer valor menor. Cabe salientar que o VTN considerado no lançamento pode ser revisto pela autoridade administrativa com base em laudo técnico elaborado por Engenheiro Civil, Florestal ou Agrônomo, acompanhado de cópia de Anotação de Responsabilidade Técnica ART, devidamente registrada no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia CREA, e que demonstre o atendimento das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, através da explicitação dos métodos avaliatórios e fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel e dos bens nele incorporados. A título de referência, para justificar as avaliações, poderão ser apresentados anúncios em jornais, revistas, folhetos de publicação geral, que tenham divulgado is, os levantamentos de valores efetuados pela prefeitura são para base de cálculo de tributo diverso ao do ITR. Acertada a decisão de piso. Como bem mencionado, a comprovação do valor de mercado da terra nua com preceitua a legislação mencionada pelo recorrente em seu apelo é ônus do sujeito passivo, posto que a declaração relativa ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural é ato unilateral por ele praticado. Assim, a comprovação das informações inseridas na declaração do ITR é ônus do Recorrente, não cabendo à Administração Tributária tal encargo. A requisição de informações efetuada pela Autoridade Fiscal, não atendida, realmente inverte o ônus da prova. Recordemos, a lógica presente na ação fiscal. O Fisco, buscando verificar a correção das declarações prestadas pelo sujeito passivo, intima o contribuinte a comprovar as informações relativas ao cálculo do imposto sobre a propriedade rural. A ausência da comprovação, segundo a legislação tributária, enseja o lançamento. No processo administrativo fiscal instaurado pela impugnação, o Contribuinte deve comprovar suas alegações. Observase no presente caso, que o Recorrente não o fez no procedimento inquisitório fiscalizatório e tampouco apresentou as provas no processo administrativo tributário instaurado com a impugnação ao lançamento. Recurso voluntário negado nesta parte. Nada mais constando do apelo, passo à conclusão do voto. Conclusão Diante de todo o exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso para determinar a exclusão da área tributável das áreas de reserva legal e de utilização limitada, no total de 16.581,0 ha. Fl. 263DF CARF MF 12 assinado digitalmente Carlos Henrique de Oliveira Relator Voto Vencedor Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Redator designado. Ao mesmo tempo em que rendo minhas homenagens ao Ilustre Relator, ouso discordar de suas conclusões exclusivamente em relação à procedência da exigência de apresentação pelo contribuinte de Ato Declaratório Ambiental protocolado junto ao IBAMA. Para demonstrar o motivo de tal divergência de opinião, necessário rememorar alguns preceitos legais e normativos correlatos, naturalmente, acompanhados das considerações que permitam evidenciar a interpretação dada à norma e em que circunstâncias esta se contrapõe à opinião expressa pelo Relator. Lei 9.393, de 19 de dezembro de 1996 Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. (...) § 1º Para os efeitos de apuração do ITR, considerarseá: (...) II área tributável, a área total do imóvel, menos as áreas: a) de preservação permanente e de reserva legal, previstas na Lei nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803, de 18 de julho de 1989; Notase que a apuração e o pagamento do ITR é obrigação do próprio contribuinte, o que deve ser feito nos prazos estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal e está sujeita a homologação posterior, situação típica dos lançamentos por homologação. Além disso, o texto legal é claro ao excluir do campo de incidência do tributo rural as áreas de preservação permanente e de reserva legal. Em relação ao gozo do benefício isentivo, assim dispõe a Lei nº 6.938/81: Art. 17O. Os proprietários rurais que se beneficiarem com redução do valor do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural – ITR, com base em Ato Declaratório Ambiental ADA, deverão recolher ao IBAMA a importância prevista no item 3.11 do Anexo VII da Lei no 9.960, de 29 de janeiro de 2000, a título de Taxa de Vistoria.(Redação dada pela Lei nº 10.165, de 2000) § 1oA. A Taxa de Vistoria a que se refere o caput deste artigo não poderá exceder a dez por cento do valor da redução do imposto proporcionada pelo ADA.(Incluído pela Lei nº 10.165, de 2000) Fl. 264DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 259 13 § 1o A utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória. (...) § 5o Após a vistoria, realizada por amostragem, caso os dados constantes do ADA não coincidam com os efetivamente levantados pelos técnicos do IBAMA, estes lavrarão, de ofício, novo ADA, contendo os dados reais, o qual será encaminhado à Secretaria da Receita Federal, para as providências cabíveis. O texto acima evidencia uma atuação conjunta de órgãos autônomos no sentido de manter o controle em relação à desoneração tributária. Ademais, prevê a necessidade de pagamento de uma taxa de vistoria, a qual, em sendo realizada, e não se confirmando a existência das áreas excluídas de tributação, poderá ensejar o lançamento de ofício do tributo, sendo inequívoco que o ADA é obrigatório para aqueles que desejam se beneficiar da redução do tributo devido a título de ITR. Em relação ao exercício em discussão, a Instrução Normativa SRF nº 61, de 06 de junho de 2001, estabeleceu que a Declaração do Imposto sobre a Propriedade Rural deveria ser apresentadas até 28 de setembro de 2001. Além disso, dispôs: Art. 17. O contribuinte deverá providenciar, junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), no prazo de seis meses, contados do prazo estabelecido no art. 3º, o Ato Declaratório Ambiental (ADA) a que se refere o art. 17 da IN SRF nº 60, de 2001, se: I o imóvel teve alterada a área de interesse ambiental em relação à área declarada no ano anterior; II o imóvel está sendo declarado pela primeira vez. Portanto, embora o fato gerador do ITR, neste caso, tenha ocorrido em 01/01/2001, somente em 28 de setembro de 2001 o contribuinte precisaria apresentar sua DITR, e ainda dispunha de prazo para providenciar o protocolo do ADA junto ao Ibama até o final do mês de março de 2002. Portanto, não identifico na situação posta qualquer surpresa para o contribuinte que pudesse ofender o Princípio da Segurança Jurídica ou corroborar a conclusão do Ilustre Relator de que a novidade introduzida pelo art. 17O da Lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei nº 10.165/00, não poderia ser exigida dias após a sua publicação. Como seu viu, o contribuinte teve prazo de um ano e três meses para providenciar o protocolo do documento junto ao órgão ambiental. Tempo mais do que suficiente para tal. Por outro lado, o fato do contribuinte ter averbado, à margem da escritura do imóvel, área de reserva legal, mediante termo firmado com Fundação Estadual do Meio Ambiente, ou mesmo Termo de Responsabilidade de Manutenção de Floresta Manejada, firmado com o IBAMA, não afasta a obrigação de promover o protocolo do Ato Declaratório Ambiental, que, como já expresso acima, configura instrumento eleito pelo legislador para controle, integração de órgãos e fonte de custeio da atividade de vistoria, questões absolutamente indispensáveis ao acompanhamento do cumprimento dos preceitos da legislação relativos à limitação da utilização de tais áreas, bem assim da correção no gozo da benesse fiscal. Fl. 265DF CARF MF 14 O entendimento expresso pelo voto do Relator, segundo o qual, em razão das averbações citadas no parágrafo precedente, seria flagrante a desnecessidade do ADA, já que . o Estado tem a informação necessária para permitir seu poder/dever de fiscalização, importaria acreditar na existência de uma estrutura administrativa própria e eficiente de controle de todas as áreas de utilização limitada e de preservação permanente averbadas à margem das matrículas no Registro de Imóveis para todos as propriedades rurais do país. Existindo ou não tal estrutura, o fato é que o legislador estabeleceu a forma que entendeu adequada para promover tal controle e fiscalização, não sendo possível a este Conselho deixar de aplicar comando legal válido e vigente apenas pela convicção de que tal atividade poderia ser levada a termo de outra forma. Vejamos o que dispõe o a lei 5.172/66 ( CTN) Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; II outorga de isenção; III dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. (...) Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Pelos comandos acima, a interpretação da legislação tributária que outorga isenção deve se dar de forma literal. Ademais, no exercício de sua competência privativa, a Autoridade Administrativa está obrigada a constituir o crédito tributário, mediante lançamento, sempre que, analisando o caso concreto de forma vinculada à legislação, identificar infração a lei ou a ato normativo tributário. Não há esforço interpretativo que, a partir da literalidade da frase "a utilização do ADA para efeito de redução do valor a pagar do ITR é obrigatória", possa ser capaz de concluir pela desnecessidade da obrigação imposta pelo legislador. É entendimento corrente neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que, com o advento da lei 6.938/81, com a redação dada pela Lei nº 10.165/00, é obrigatória a apresentação do ADA protocolado junto ao IBAMA. Situação diversa da verificada em períodos anteriores ao ano de 2001, como se depreende da Súmula Carf. nº 41, segundo a qual, “a não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA) emitido pelo IBAMA, ou órgão conveniado, não pode motivar o lançamento de ofício relativo a fatos geradores ocorridos até o exercício de 2000”. No caso em tela, o que se vê é a utilização da função extrafiscal do tributo, mediante sua aplicação como instrumento de política ambiental, estimulando a preservação ou recuperação da fauna e da flora em contrapartida a uma redução do valor devido a título de Fl. 266DF CARF MF Processo nº 10183.006199/200555 Acórdão n.º 2201003.773 S2C2T1 Fl. 260 15 Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural. Contudo, a legislação impõe requisitos para gozo de tais benefícios, os quais variam de acordo com a natureza de cada hipótese de exclusão do campo de incidência do tributo e das limitações que cada situação impõe ao direito de propriedade. Portanto, não tendo o contribuinte cumprido as formalidades impostas pela legislação para fins de fruição do direito à isenção e considerando a limitação disposta no art. 111, inciso II da Lei 5.172/66(CTN), pela qual se conclui que as normas reguladoras das matérias que tratam de isenção não comportam interpretação ampliativa, entendo acertada a decisão de primeira instância que manteve o lançamento por entender indispensável a apresentação do Ato Declaratório Ambiental. Pelo quê nego provimento ao recurso na parte relacionada à exclusão das Áreas de Preservação Permanente e de Utilização Limitada. Conclusão Tendo em vista tudo que consta nos autos, bem assim na descrição e fundamentos legais acima expostos, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Carlos Alberto do Amaral Azeredo Redator designado. Fl. 267DF CARF MF
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Numero do processo: 10920.007512/2007-53
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1997 a 31/12/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. CONHECIMENTO.
Não se conhece de Recurso Especial de Divergência quando, a despeito de os julgados cotejados tratarem da mesma matéria, o paradigma foi proferido à luz de arcabouço normativo já ultrapassado, quando as normas que orientaram o recorrido sequer se encontravam em vigor. Ademais, a ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas inviabiliza a comparação entre os julgados, com o fito de demonstrar eventual dissídio interpretativo.
Numero da decisão: 9202-005.730
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. CONHECIMENTO. Não se conhece de Recurso Especial de Divergência quando, a despeito de os julgados cotejados tratarem da mesma matéria, o paradigma foi proferido à luz de arcabouço normativo já ultrapassado, quando as normas que orientaram o recorrido sequer se encontravam em vigor. Ademais, a ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigmas inviabiliza a comparação entre os julgados, com o fito de demonstrar eventual dissídio interpretativo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Acordam ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 00 75 12 /2 00 7- 53 Fl. 718DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Trata o presente processo, da Notificação Fiscal de Lançamento de Débito – NFLD n.º 37.112.2139, lavrada contra o contribuinte acima identificado para exigência da contribuição destinada ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FNDE, incidente sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados empregados, conforme os seguintes levantamentos: a) levantamento GSE (02/1997; 07 a 12/2000; 12/2001; 06/2002; 12/2002 e 06/2003 a 12/2003): efetuado em razão de a empresa ter efetuado deduções indevidas em documentos de arrecadação do salárioeducação, comparativamente ao número de beneficiários informados na Relação de Alunos Indenizados — RAI , conforme representação administrativa elaborada pelo FNDE, acompanhada de Demonstrativo de Divergência por Estabelecimento; b) levantamento SED: contribuições para o salárioeducação incidentes sobre remunerações pagas aos segurados empregados sob o titulo de: ABONO, ocorridos em 02/1997, 02/1999, 05/1999, 07/1999, 05/2000 e 07/2000, previstos em Convenções Coletivas de Trabalho (CCT); PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS (PLR), ocorridas em 03/1997, 08/1997 e 03/1998, em desacordo com a legislação; REEMBOLSO ESCOLAR e de CURSOS TÉCNICOS, no período de 01/1997 a 12/2005, não extensivo a todos os empregados; assistência odontológica prestada aos seus segurados, no período de 05/1999 a 12/2005, não disponibilizada a todos; previdência privada fechada administrada pela WEG Seguridade Social WSS, no período de 01/1997 a 12/2005, não disponibilizada a todos os segurados. Em sessão plenária de 19/04/2012, foi julgado o Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 240102.389 (efls.538 a 550), assim ementado: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1997 a 31/12/2005 PREVIDENCIÁRIO. PRAZO DECADENCIAL. PAGAMENTO ANTECIPADO. CONTAGEM A PARTIR DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR Constatandose a antecipação de pagamento parcial do tributo aplicase, para fins de contagem do prazo decadencial, o critério previsto no § 4.º do art. 150 do CTN, ou seja, cinco anos contados da ocorrência do fato gerador. RELATÓRIO DE REPRESENTANTES LEGAIS. INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. O Relatório de Representantes Legais representa mera formalidade exigida pelas normas de fiscalização, em que é feita a discriminação das pessoas que representavam a empresa ou Fl. 719DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 719 3 participavam do seu quadro societário no período do lançamento, não acarretando, na fase administrativa do procedimento, qualquer responsabilização das pessoas constantes daquela relação. DISPONIBILIZAÇÃO DE PLANO EDUCACIONAL E ODONTOLÓGICO APENAS A EMPREGADOS COM DETERMINADO TEMPO DE VÍNCULO COM A EMPRESA. NÃO ATENDIMENTO A REGRA QUE ESTABELECE QUE A ISENÇÃO É CONDICIONADA AO FORNECIMENTO DO BENEFÍCIO A TODOS OS EMPREGADOS E DIRIGENTES. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO. O estabelecimento norma empresarial que permita a fruição de plano educacional e odontológico apenas por empregados com determinado tempo de permanência na empresa, pela legislação vigente à época dos fatos geradores, feria a regra de isenção que exige que o benefício seja estendido a todo o quadro funcional, acarretando na incidência de contribuição sobre a verba. PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR. NÃO EXTENSÃO A TODOS OS EMPREGADOS E DIRIGENTES. INCIDÊNCIA. Os valores vertidos pela empresa para custeio do plano de previdência fechada somente não sofrem a tributação previdenciária quando disponibilizados a todos os seus empregados e dirigentes. Recurso Voluntário Provido em Parte” A decisão foi assim registrada: "ACORDAM os membros do colegiado, I) por unanimidade de votos por afastar a preliminar relativa a exclusão das pessoas jurídicas arroladas como solidárias; e II) por maioria de votos por reconhecer a decadência até a competência 11/2002, vencida a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, que aplicava a regra decadencial prevista no art. 173, I do CTN; e III) Por unanimidade de votos, no mérito, por negar provimento ao recurso." O processo foi encaminhado à PGFN em 15/05/2012 (Despacho de Encaminhamento de efls.551) e, em 08/06/2012, foi interposto o Recurso Especial de efls. 552 a 558 (Despacho de Encaminhamento de efls. 565). O Recurso Especial está fundamentado nos arts. 67 e 68, Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e visa rediscutir a decadência. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, por meio do Despacho de Admissibilidade de 24/09/2012 (efls. 567 a 569). Em seu apelo, a Fazenda Nacional apresenta os seguintes argumentos: Fl. 720DF CARF MF 4 é consenso na doutrina e jurisprudência pátrias que, em sede de tributo sujeito a lançamento por homologação, a aplicação do artigo 150, § 4º somente é possível quando o contribuinte, reconhecendo a ocorrência do fato gerador de determinado tributo, efetua o pagamento, ainda que parcial, possibilitando ao Fisco a conferência posterior dos valores recolhidos, contrapondoos com os efetivamente devidos, efetuando o lançamento de ofício de eventuais diferenças; concluise, pois, que o pressuposto primordial para a aplicação da regra de decadência constante do artigo 150, § 4º, do CTN, é o pagamento antecipado parcial do tributo exigido; noutro passo, diante da inexistência de qualquer pagamento, o prazo decadencial para a cobrança dos tributos sujeitos a lançamento por homologação é aquele constante do artigo 173, I, do CTN; esta concepção, aliás, encontrase cristalizada no Enunciado n.º 219 da Súmula do extinto Tribunal Federal de Recursos: “Não havendo antecipação de pagamento, o direito de constituir o crédito previdenciário extinguese decorridos cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte aquele em que ocorreu o fato gerador”; partindo dessa premissa e pousando a vista sobre o caso dos autos, verifica se que o contribuinte não efetuou qualquer antecipação de pagamento nas competências até 11/2002, razão pela qual a regra a ser utilizada para a contagem do prazo decadencial é a constante do artigo 173, I, do CTN, e não a do artigo 150, §4º, do mesmo diploma legal; tendo em conta que na decisão recorrida inverteuse a aplicação dos referidos dispositivos legais, afigurase inafastável a conclusão de que houve patente vulneração dos comandos neles encartados; ora, se não restou demonstrada a existência da antecipação do pagamento com relação às contribuições apuradas, independentemente da aferição sobre a quem cabia o ônus da prova no caso, é cediço que a regra deve ser aplicada; mesmo tratandose de tributos sujeitos a lançamento por homologação, se não há qualquer prova de que ocorreu a antecipação do pagamento, estáse diante, na verdade, de lançamento de ofício, portanto a regra a ser aplicada na espécie é a preconizada pelo inciso I do art. 173, do CTN; nessa perspectiva, cumpre enfatizar que o cerne da questão aqui debatida reside na análise da existência de pagamento antecipado, cujo reconhecimento tem a aptidão de atrair a incidência do art. 150, § 4º, do CTN; em não havendo tal antecipação de pagamento, a aplicação do art. 173, I, do CTN é impositiva; no voto condutor do acórdão vergastado foi sufragada a tese de presunção do pagamento antecipado em favor do contribuinte, e nesse contexto o colegiado aplicou a regra contida no art. 150, § 4º do CTN, para declarar a decadência total das contribuições, inclusive da competência 12/1998; com efeito, o acórdão objurgado afrontou a legislação de regência acerca do cabimento do ônus da prova, ao invertêlo em favor do contribuinte; o artigo 333, do Código de Processo Civil, aplicado na seara tributarista por força do artigo 108, do CTN e da Lei de Introdução ao Código Civil, é claro em suas prescrições acerca do ônus probatório, verbis: Fl. 721DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 720 5 “Art. 333. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.” ora, se a decadência extingue o crédito tributário, fica claro que ao contribuinte, réu da acusação fiscal, cabe o ônus de provar que houve pagamento das contribuições dele exigidas, para fins da contagem do prazo decadencial segundo a regra prevista no art. 150, § 4º do CTN; no caso, não restou comprovado nem o recolhimento integral da contribuição previdenciária devida, tampouco o seu pagamento parcial. observase, em verdade, que o contribuinte não se desincumbiu de seu ônus processual de comprovar a existência de pagamento das contribuições discutidas; todas as considerações acima postas nos conduzem às seguintes conclusões: a) independentemente de aferir a quem cabia o ônus de comprovar a existência ou inexistência de recolhimento antecipado do tributo, a regra a ser aplicada, diante da ausência dessa prova, é a preconizada pelo art. 173, inciso I, do CTN; b) o ônus probatório acerca de tais fatos cabia ao contribuinte; aliás, o documentado nos autos, conforme se infere da leitura do relatório fiscal e do demonstrativo analítico do débito, conduz à conclusão de não ter ocorrido nenhum recolhimento das contribuições previdenciárias em foco, pois a fiscalização nada lançou como “Valor. Recol/Decl.” ao calcular o tributo devido. Ao final, a Fazenda Nacional pede o conhecimento e provimento do recurso, com a consequente aplicação do art. 173, I, do CTN para a contagem da decadência. Cientificado do Acórdão nº 240102.389, do Recurso Especial da Procuradoria e do despacho que lhe deu seguimento em 03/09/2013 (AR Aviso de Recebimento de efls. 573), o Contribuinte, em 12/09/2013, ofereceu as Contrarrazões de efls. 656 692 e interpôs o Recurso Especial de efls. 594 a 655. Em sede de Contrarrazões, o Contribuinte argumenta: o Recurso Especial da União não deve ter seguimento, vez que o paradigma é imprestável para o caso, já que trata de caso em que não houve prova do pagamento antecipado, enquanto que no caso desses autos há robusta prova de recolhimento antecipado da contribuição previdenciária no período objeto da fiscalização; o Relatório Fiscal, no seu item 8.2.1, assim descreve: "A glosa de deduções que ensejou a presente NFLD decorre dos fatos expostos na representação administrativa encaminhada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FNDE à Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, tratandose em síntese, das diferenças entre valores deduzidos em comprovantes de arrecadação direta ao salárioeducação e o Fl. 722DF CARF MF 6 número de alunos beneficiários informados pela empresa na Relação de Alunos Indenizados RAI" (destaque no original). ou seja, é a própria autoridade administrativa que aborda a "glosa de deduções", isto é, houve um recolhimento, porém, com uma dedução superior à devida, ao menos segundo a fiscalização; ora, se houve uma dedução, é porque houve um recolhimento, ainda que menor do que o desejado pelo Fisco; outra vez, agora no item 8.2.3 do mesmo Relatório Fiscal, há o reconhecimento de que houve recolhimento de contribuições previdenciárias, quando diz a autoridade: "O exame realizado pelo FNDE consistiu em verificar a regularidade das deduções realizadas na modalidade "indenização de dependentes", baseandose nas informações constantes do Sistema de Gestão da Arrecadação SIGA da autarquia. Verificouse se o valor deduzido no documento de arrecadação do salárioeducação era equivalente ao número de alunos beneficiários informado pela empresa na Relação de Alunos Indenizados RAL" mais adiante, no mesmo Relatório Fiscal, item 8.2.5, diz a fiscalização: "Com base no cruzamento das informações da RAI com as deduções realizadas pela empresa no documento de arrecadação, foi emitido Demonstrativo ...."(destaques do contribuinte). para saber se a dedução foi feita corretamente ou não, a fiscalização obrigatoriamente teve que analisar o "Documento de Arrecadação", que nada mais é que a guia de recolhimento; de outro lado, sabese que um dos motivos da lavratura da exigência fiscal foi a contribuição que a autuada fazia à WEG Seguridade Social (WSS) e que, segundo a fiscalização, em função da existência de uma carência de um ano de casa, tal benefício não estaria disponível para todos os empregados, por isso deveria compor a base de cálculo da contribuição previdenciária; por sua vez, a contribuição que a autuada fazia à citada entidade de previdência privada correspondia a 2,98 % do total da sua folha de salários. Essa informação está devidamente comprovada no item 110 da sua Impugnação; essa contribuição de 2,98% tem por base de cálculo o total da folha de salários; assim, se em um determinado mês abrangido no período fiscalizado o total da folha de salário fosse de R$ 1.000.000,00, consequentemente, a contribuição da autuada para a entidade de previdência privada seria de R$ 29.800,00, ou seja, 2,98%; a Fiscalização, por sua vez, está exigindo que esse valor de R$ 29.800,00 seja incluído na base de cálculo da contribuição previdenciária; como a Fazenda Nacional está alegando que não há prova de recolhimento, significa dizer, então, que o Fisco esteve na sede da fiscalizada, lavrou a exigência fiscal com Fl. 723DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 721 7 relação aos R$29.800,00 e não se certificou se a autuada teria recolhido, ou não, a contribuição previdenciária sobre o total da folha de salários R$ 1 milhão que é justamente o maior valor; se assim fosse (mas não é), então esse fiscal deveria ter sofrido um processo disciplinar porque deixou de fiscalizar justamente o maior valor; teria esse fiscal encerrado a fiscalização, sem se certificar se houve o recolhimento das contribuições normais da autuada; naturalmente que não foi esse o seu procedimento, ao contrário, ele manuseou todas as GFIP do período e as respectivas guias de recolhimento; é natural, e sem sombra de dúvidas, que a fiscalização tenha examinado todos os recolhimentos efetuados no período, e tenha concluído pela regularidade dos mesmos, com exceção da parte objeto do lançamento complementar; os argumentos acima demonstram a incoerência da alegação da Fazenda Nacional, de que não houve prova de recolhimento antecipado e demonstram, de forma inequívoca, a existência regular de recolhimentos (pagamentos antecipados sob o regime de lançamento por homologação) à Previdência Social em todos os meses do período fiscalizado; aliás, essa é a única conclusão possível quando se verifica o conteúdo do Mandado de Procedimento Fiscal que originou a fiscalização em pauta; de acordo com o referido Mandado n° 09424745F00, de 28/09/2007, que faz parte integrante deste processo, a fiscalização tinha por objeto verificar: "As Contribuições Sociais previstas no art. 11, parágrafo único, alíneas "a", "b", e "c", da lei nº 8.212, de 24/07/91, e contribuições por lei devidas a terceiros, provenientes de empresas ou equiparados, na forma do artigo 3º da lei nº 11.457, de 16/03/2007" como se observa, o foco da fiscalização foi a verificação do recolhimento de todas as contribuições previdenciárias devidas pela empresa, em especial, aquelas mencionadas na alínea "a" do parágrafo único; e foi isso que de fato foi fiscalizado, foram analisadas pela fiscalização todas as GFIP's do período e a correspondente Guia de Recolhimento, e o resultado foi a constatação do regular recolhimento das contribuições previdenciárias, com exceção apenas daquelas que resultaram na lavratura da exigência fiscal (uma parte pequena comparada ao todo) que, no entender da autuada, não caberia a incidência em questão; apenas a título ilustrativo, a folha de salário da autuada, no mês de setembro de 2005 (dentro do período fiscalizado, portanto), foi na ordem de R$ 17,5 milhões; essa informação constou da GFIP, que foi analisada juntamente com a guia de recolhimento respectiva e considerada regular pela fiscalização; se não tivesse ocorrido o recolhimento regular, teria sido lavrada a exigência fiscal; apesar de tudo isso, diz a Fazenda Nacional em seu Recurso Especial (fls. 5): Fl. 724DF CARF MF 8 "Partindo dessa premissa e pousando a vista sobre o caso dos autos, verificase que o contribuinte não efetuou qualquer antecipação de pagamento nas competências até 11/2002, razão pela qual a regra a ser utilizada..." (destacamos) a afirmação de que a autuada "não teria efetuada qualquer antecipação de pagamento" mostrase, no mínimo, agressiva e desrespeitosa para com a autuada, que tem se mostrado um contribuinte pontual; o pior de tudo é que a Fazenda Nacional possui nos seus arquivos, eletrônicos ou não, todos os registros das antecipações de pagamento efetuadas pela autuada, não só do período fiscalizado, como de qualquer outro período; aliás, as empresas integrantes do Grupo WEG estão submetidas ao regime de "Acompanhamento Tributário Diferenciado" da Receita Federal, de sorte que soa muito estranho que um contribuinte submetido a esse regime não tenha feito qualquer antecipação de pagamento de tributos; também não merece acolhida a argumentação lançada pela Fazenda Nacional, na parte final do seu Recurso Especial, em que afirma não ter havido pagamento antecipado, haja vista que a fiscalização nada lançou como "valor Rec/Decl" ao calcular o tributo devido; o que se deve entender por "pagamento antecipado", sob o regime do lançamento por homologação, é se o contribuinte se comportou dentro dos limites estabelecidos no caput do art. 150 do CTN, ou seja, o contribuinte, tomando por base a legislação de regência do tributo, apura o montante que entender devido e antecipa o pagamento sem o prévio exame da autoridade administrativa; a contagem pelo art. 173 caberia se a autuada nada tivesse recolhido a título de contribuição previdenciária no período fiscalizado, ou numa ou algumas dessas competências, mas não é esse o caso; devese salientar que a contribuição previdenciária é um recolhimento mensal único, cuja guia é gerada em decorrência das informações prestadas na GFIP, e é esse recolhimento que atrai a aplicação do § 4o do art. 150 do CTN; o fato de uma ou mais verbas não terem sido submetidas à tributação, por questão de interpretação divergente entre o fisco e o contribuinte, mas tendo havido pagamento antecipado em relação às demais verbas, não desloca a contagem do prazo para o art. 173 do CTN; o que importa, para fins de contagem de prazo decadencial de lançamento, é saber se houve, ou não, pagamento antecipado, pouco importando se essa ou aquela verba salarial tenha ou não sido incluído na sua base de cálculo; no tocante ao ônus da prova, a Fazenda Nacional atribui à autuada essa responsabilidade, tentando se fundamentar no inciso II do art. 333 do CPC, porém sem razão; a Fazenda Nacional deseja ver reconhecido o seu direito de constituir o crédito tributário em período anterior ao reconhecido pelo acórdão recorrido, portanto é da Fazenda Nacional o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito, ou seja, aplicase o inciso I, do art. 333, do CPC, e não o inciso II; Fl. 725DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 722 9 ainda que se pretendesse fundamentar no inciso II desse artigo, cabe destacar que essa alegação só foi trazida pela Fazenda Nacional nessa fase recursal; em nenhum momento anterior se fez tal alegação, o que teria dado a possibilidade de produção de prova pela autuada; a conduta da Fazenda Nacional, nesse particular, mostrase como um descumprimento com a obrigação da verdade e desrespeita a disposição contida no art. 339 do CPC; há evidências e provas robustas nos autos, especialmente pelas informações contidas nos próprios relatórios da fiscalização, apontando que houve antecipação de pagamento, sob o regime do lançamento por homologação, apenas em montantes inferiores aos desejados por ela; sendo assim, o Acórdão n° 20177572 não serve como paradigma para se aceitar o seguimento do seu Recurso Especial; por fim, a linha de argumentação da Contribuinte está alinhada com a decisão tomada por esta Câmara Superior de Recursos Fiscais, nos autos do Processo 36918.002963/200575, conforme Acórdão n° 920201.418, de 12/04/2011, de cuja ementa extraise, no que aqui interessa: "In casu, aplicouse o prazo decadencial insculpido no artigo 150, § 4o, do CTN, eis que restou comprovada a ocorrência de antecipação de pagamento, por tratarse de salário indireto, tendo o contribuinte efetuado o recolhimento das contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração reconhecida (salário normal)."(g.n.) Ao final, a Contribuinte pede o não seguimento do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, se assim não se entender, que lhe seja negado provimento. Distribuído o processo na Instância Especial, o julgamento foi convertido em diligência à Câmara recorrida, para análise de admissibilidade do Recurso Especial da Contribuinte e demais providências, conforme Resolução nº 9202000.039, de 28/09/2016 (e fls. 695/696). Ao Recurso Especial da Contribuinte foi dado seguimento, conforme Despacho de Admissibilidade de 09/06/2017 (efls. 699 a 706), admitindose a rediscussão da tributação relativa a plano de previdência complementar fechada não oferecido a empregados com menos de 12 meses de trabalho na empresa. Em seu apelo, a Contribuinte apresenta os seguintes argumentos: Do critério impessoal e razoável para adesão ao plano de previdência a Autoridade Administrativa aponta como fundamento para essa exigência fiscal, o fato de que o plano de previdência privada não estaria sendo oferecido a todos os empregados, e esse entendimento está baseado numa única razão: o fato de que existia um prazo de carência de um ano para ingresso no plano; Fl. 726DF CARF MF 10 ao longo de todo o seu arrazoado, tanto na Impugnação como no Recurso Voluntário, a Contribuinte demonstrou que o plano de previdência complementar estava disponível para todos os seus empregados, e que a carência de 12 meses não prejudica essa característica; aliás, todo empregado que, em um primeiro momento está com menos de12 meses de casa, num segundo momento esse mesmo empregado ultrapassa os 12 meses, podendo aderir ao plano, ou seja, todos os empregados podem aderir ao plano, basta cumprir a carência; defendeu a Contribuinte que o que define se um determinado benefício está disponível para todos os empregados, é que o critério (no caso, a carência) seja impessoal e que todos, em tese, tenham condições de preenchêlo; ou seja, todos, de forma impessoal, podem preencher os requisitos e, a partir de então, usufruir do benefício; a expressão "todos" não significa dizer que 100% de todos os colaboradores devem ter direito ao benefício, a qualquer tempo, mas sim que todos, em tese, tenham condições de preencher determinados requisitos e, então, usufruir do benefício; ainda com relação ao requisito de tempo de empresa, cabe trazer à colação o procedente do TRF da 4a Região, quando analisou o requisito de tempo de empresa para fins de auxílio escolar, cujos fundamentos são os mesmos: "A exigência de um período mínimo de trabalho na empresa não configura discriminação a afastar a aplicação do disposto no art. 28, § 9o, alínea "t", da Lei n0 8.212/91.(AC 2003.72.05.0043713 do TRF da 4a reg.)" Da ausência de natureza salarial tratando das parcelas que compõe o salário, além do pagamento em dinheiro, o art. 458 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) enumera uma série de utilidades, entre elas a alimentação, o vestuário, a habitação entre outras; o parágrafo 2º desse mesmo artigo, porém, enumera uma série de utilidades que, de forma expressa, não são considerados como salário, entre elas, as contribuições para a previdência privada; portanto, é a própria CLT que afasta a natureza salarial das parcelas vertidas para custear planos de previdência privada complementar, e se elas não têm natureza salarial nem remuneratória, não podem sofrer a incidência da contribuição previdenciária; A Constituição Federal e a Lei Complementar nº 109, de 2001 referindose ao regime de previdência privada complementar, dispõe o § 2o do art. 202 da Constituição Federal: "§ 2o As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei." Fl. 727DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 723 11 o texto constitucional é claro ao determinar que as contribuições do empregador para custear planos de previdência privada: a) não integram o contrato de trabalho dos participantes; e b) não integram a remuneração dos participantes; em sintonia com o texto constitucional, determina a Lei Complementar n° 109, de 2001, no seu art. 69: "Art. 69 As contribuições vertidas para as entidades de previdência complementar, destinadas ao custeio de planos de benefícios de natureza previdenciária, são dedutíveis para fins de incidência de imposto sobre a renda, nos limites e nas condições fixadas em lei. § 1o Sobre as contribuições de que trata o caput não incidem tributação e contribuições de qualquer natureza", (g.n.). não há, portanto, qualquer espaço legal para a fiscalização exigir contribuição previdenciária sobre as contribuições vertidas pela Contribuinte, destinadas a custear planos de benefícios de natureza previdenciária, por meio de entidade legalmente constituída e autorizada a funcionar pelo próprio MTPS, que é uma Entidade Fechada de Previdência Complementar (EFPC); Parecer Exarado pela Secretaria da Previdência Complementar inconformada com a autuação fiscal sofrida, a Contribuinte solicitou à Secretaria de Previdência Complementar (SPC), do Ministério da Previdência Social (MPS), o seu posicionamento; a razão dessa solicitação é que o Regulamento do Plano de Benefícios da EFPC WEG Seguridade Social foi aprovado por aquela Secretaria, órgão do MPS; apenas lembrando, na época da aprovação do Regulamento, em julho de 1991, a fiscalização do recolhimento das contribuições previdenciárias estava a cargo do próprio MPS, portanto quem aprovou o Regulamento da EFPC foi, em última análise, o próprio MPS que, à época, era responsável pela fiscalização; desta forma, não é razoável que o MPS em um dia aprove o Regulamento e, no dia seguinte, lavre um auto de infração contra aquele Regulamento que ele próprio aprovou; pela razão acima é que se buscou a manifestação expressa da Secretaria de Previdência Complementar; a manifestação da SPC resultou na emissão da Nota Técnica n° 45/2009/SPC/DELEG, de 04/06/2009, na qual concluiu, após minuciosa fundamentação, que é indevida a exigência da contribuição previdenciária em questão; referida Nota Técnica encontrase juntada aos autos e o seu item 17 assim registra: "Claro e cristalino restou que o plano de benefícios da consulente instituiu um critério plausível para a admissão do empregado ou equiparado no mesmo, não contendo em seu artigo 5o um critério discriminatório, mas uma condição de Fl. 728DF CARF MF 12 acessibilidade que confere caráter de estabilidade, elemento este intrínseco de um plano previdenciário, evitando uma elevada rotatividade, que levaria a Entidade Fechada de Previdência Complementar a ter um custo maior de administração, em função da maior entrada e saída de particulares, em detrimento de seu principal foco de atuação, a manutenção dos benefícios de caráter beneficiário." e complementa no item 24: "Pelo exposto, mesmo sob a ótica da Lei n° 8.212/91, indevido o pagamento da contribuição previdenciária sobre a parcela paga pela empresa destinada ao custeio dos planos de benefícios de natureza previdenciária. Reforçando esse entendimento de universalidade, temos que, no caso da consulente, mesmo sendo a adesão à previdência complementar facultativa, mais de noventa e sete por cento dos empregados aderiram ao plano de previdência." (negritos do original) e conclui a Nota Técnica: "Sobre a contribuição da empresa vertida para entidade de previdência complementar não Incide tributação e contribuição de qualquer natureza, "(g.n.) portanto, não é apenas a Contribuinte que entende não ser devida a contribuição previdenciária em questão, mas o Próprio Ministério da Previdência Social, por meio da Secretaria de Previdência Complementar, também defende o mesmo entendimento. Ao final, a Contribuinte pede o provimento do Recurso Especial. Cientificada do Recurso Especial do Contribuinte e do despacho que lhe deu seguimento em 14/07/2017 (Despacho de Encaminhamento de efls. 707), a Fazenda Nacional ofereceu, em 18/07/2017 (Despacho de Encaminhamento de fls. 715), as Contrarrazões de e fls. 708 a 714, com os seguintes argumentos: o art. 28 da Lei n.º 8.212, de 1991, define que o saláriodecontribuição do empregado e trabalhador avulso será formado pela: “remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa”. (destacouse) e o § 9º do art. 28 desse diploma legal, aplicável tanto à contribuição do empregador quanto do empregado, prevê que estarão excluídas da incidência da contribuição previdenciária as seguintes parcelas: § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) Fl. 729DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 724 13 (...) p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9º e 468 da CLT; (Incluído pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) com efeito, no caso do preceptivo legal citado não se mostra por demais enfatizar que face ao seu caráter isentivo deve, a teor do artigo 111 do Código Tributário Nacional, ser interpretado literalmente, não comportando exegese ampliativa por parte do aplicador da norma; como visto, o legislador constitucional e ordinário previu que a base de cálculo contribuição previdenciária é composta pela totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados aos empregados a qualquer título; no caso das parcelas pagas pelo empregador ao empregado a título de previdência complementar, somente não haverá incidência da exação quando o programa em questão for oferecido à totalidade de seus empregados, sem qualquer exceção (art. 28, §9º, “p”, da Lei n.º 8.212/91); na hipótese dos autos, é cristalino que o programa implantado pela empresa não é ofertado a todos aqueles que compõem o seu quadro funcional, uma vez que previamente foram excluídos da opção ao benefício os empregados em período de experiência; ora, como enfatiza a fiscalização em seu relatório, ao criar esse requisito de adesão a empresa findou por estabelecer um óbice à extensão do programa de previdência privada a todos os empregados da empresa, motivo pelo qual não pode ser beneficiar da isenção prevista no § 9º alínea “d” do art. 28 da Lei n.º 8.212, de 1991; sobreleva destacar que, em verdade, o programa oferecido pela empresa não atende ao disposto no caput do art. 16 da Lei Complementar n.º 109/2001, disciplinadora do Regime de Previdência Complementar, segundo o qual os “Os planos de benefícios devem ser, obrigatoriamente, oferecidos a todos os empregados dos patrocinadores ou associados dos instituidores”, sendo facultativa a adesão (§1º, art. 16); com efeito, a Lei Complementar n.º 109, de 2001, como visto, prevê expressamente que o benefício será obrigatoriamente oferecido a todos os empregados dos patrocinadores ou associados dos instituidores, sem fazer qualquer distinção; tudo considerado, o lançamento da contribuição previdenciária deve ser mantido, visto que: a) o benefício de previdência complementar implantado pela empresa não é oferecido à totalidade de seus empregados logo, não se aplica ao caso a norma isentiva prevista no § 9º, d, art. 28, Lei n.º8.212/91. b) os valores pagos pelo empregador aos empregados beneficiários do programa de previdência privada possuem natureza salarial, pois decorrem do contrato de trabalho. Fl. 730DF CARF MF 14 c) tais valores eram pagos com habitualidade e integram o salário do empregado, eis que nos termos do art. 458 Consolidação das Leis do Trabalho considerase salário não somente os valores pagos em espécie, mas também outras prestações "in natura" que a empresa, por força do contrato ou do costume, forneça habitualmente ao empregado. Ao final, a Fazenda Nacional pede que seja negado provimento ao recurso do contribuinte. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Tratase de Recursos Especiais interpostos pela Fazenda Nacional e pela Contribuinte. Quanto ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, este é tempestivo, restando perquirir sobre o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade. A matéria suscitada é a decadência até a competência 11/2002, declarada no acórdão recorrido. Em sede de Contrarrazões, a Contribuinte pede o não conhecimento do apelo, alegando que no caso do paradigma indicado pela Fazenda Nacional Acórdão nº 20177.572 não houve pagamento antecipado, enquanto que no caso do acórdão recorrido teria havido esse pagamento. No caso do acórdão recorrido, prolatado em 19/04/2012, tratase de Contribuições Sociais Previdenciárias, cuja decadência foi apreciada à luz da Súmula Vinculante nº 8, do Supremo Tribunal Federal, editada em 12/06/2008. Confirase: "É cediço que, com a declaração de inconstitucionalidade do art. 45 da Lei n.º 8.212/1991 pela Súmula Vinculante n.º 08, editada pelo Supremo Tribunal Federal em 12/06/2008, o prazo decadencial para as contribuições previdenciárias passou a ser aquele fixado no CTN. Quanto à norma a ser aplicada para fixação do marco inicial para a contagem do quinquídio decadencial, o CTN apresenta três normas que merecem transcrição: (...) A jurisprudência majoritária do CARF, seguindo entendimento do Superior Tribunal de Justiça, tem adotado o § 4.º do art. 150 do CTN para os casos em que há antecipação de pagamento do tributo, ou até nas situações em que, com base nos elementos constantes nos autos, não seja possível se chegar a uma conclusão segura sobre esse fato. O art. 173, I, tem sido tomado para as situações em que comprovadamente o contribuinte não tenha antecipado o pagamento das contribuições, na ocorrência de dolo, fraude ou simulação e também para os casos de aplicação de multa por descumprimento de obrigação acessória. (...) Fl. 731DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 725 15 Na situação sob enfoque, verifico que, embora não haja relatórios discriminando as guias de recolhimento apresentadas ou o abatimento de créditos do contribuinte no Discriminativo Sintético do Débito, os autos levamme a concluir que havia guias de recolhimento para o período, uma vez que parte do crédito diz respeito a glosas de valores compensados indevidamente e o outro levantamento diz respeito a verbas não consideradas pela empresa como base de cálculo de contribuições, sendo que as verbas registradas em folhas de pagamento e declaradas na GFIP não foram objeto de lançamentos, como se pode ver do item 10 do Relatório Fiscal da NFLD n.º 37.112.2147 (fl. 83). Há de se concluir assim que havia guias de recolhimento para o período. Assim, seguindo a jurisprudência majoritária do CARF, entendo que deva ser aplicada a norma do art. 150, § 4.º, do CTN, para a contagem do prazo de decadência, mesmo verificando que o sujeito passivo não reconheceu a incidência de contribuições sobre as bases de cálculo apuradas. Esse posicionamento conduzme à conclusão de que devam ser excluídas pela caducidade as competências até 11/2002, haja vista que a cientificação do lançamento ocorreu em 12/12/2007." (grifei) Ressaltese que o item 10 do Relatório Fiscal, citado no voto e acima destacado, assim registra: "RECOLHIMENTOS E CRÉDITOS CONSIDERADOS. 10.1. Não houve qualquer recolhimento das contribuições sociais objeto deste lançamento. As remunerações reconhecidas em folhas de pagamento e em GFIP's, bem como os respectivos recolhimentos, não são objetos desta NFLD. (grifei) Assim, constatase que, conforme a especificidade das Contribuições Sociais ora tratadas, no voto vencedor registrase que o próprio autuante informa a existência de recolhimentos parciais, relativos a remunerações reconhecidas em folhas de pagamento e em GFIP's. Nesse passo, foram aplicadas as regras do CTN, adotandose o entendimento do Recurso Especial nº 973.733 SC (2007/01769940), julgado em 12/08/2009, que teve o acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC. Destarte, o paradigma apto a demonstrar a alegada divergência, seria um julgado que, proferido já à luz da Súmula Vinculante STF nº 8, de 2008, e do Recurso Especial nº 973.733 SC, de 2009, tratando de Contribuições Sociais Previdenciárias, adotasse a interpretação no sentido de que a informação do fiscal autuante acerca da existência de recolhimento parcial, relativo a remunerações reconhecidas em folhas de pagamento e em GFIP's, não fosse considerada suficiente para a aplicação do art. 150, § 4º, do CTN. Entretanto, o paradigma indicado Acórdão nº 20177.572, de 17/03/2004 foi proferido anteriormente às normas que orientaram o recorrido, trata de Contribuições para o PIS e registra a absoluta inexistência de pagamento. Nesse passo, o paradigma aplica o art. 45 da Lei nº 8.212, de 1991, sendo que a referência às regras Fl. 732DF CARF MF 16 do CTN e a eventual existência de pagamento representa obiter dictum, para aqueles que porventura adotassem tal tese, que àquela época não era vinculante para o CARF. Confirase: "Ocorre que, em razão do que foi decidido, relativamente ao IRPJ, pelo Primeiro Conselho de Contribuintes, aduz a recorrente, quando do seu recurso, a decadência do direito de o Fisco lançar os meses de abril, maio e agosto de 1996. Entretanto, vislumbro, em consonância com o entendimento mantido por aquele Conselho, que, relativamente às contribuições sociais, o direito da Fazenda Nacional decai após 10 anos, contados do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos termos do art. 45 da Lei nº 8.212/91. Em verdade, o CTN fixa em 5 (cinco) anos o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário, como se infere da leitura de seus arts. 150 , § 42, e 173, e, ainda, a Constituição determina, em seu art. 146, III, "b", que compete à lei complementar estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária, especialmente sobre prescrição e decadência. Ocorre que a Lei Complementar fixou normas gerais sobre o assunto, porém, permitiu expressamente que lei ordinária regulamentasse, de forma específica, o prazo decadencial, como se pode depreender da leitura do § 4º do art. 150, verbis: (...) Assim, no que diz respeito às contribuições sociais, o legislador ordinário estabeleceu, e salientese, após a Constituição de 1988, por meio do art. 45 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, o seguinte prazo: "Art. 45. O direito da Seguridade Social apurar e constituir seus créditos extinguese após 10 (dez) anos contados: 1 do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído;" Reafirmando a especificidade do prazo decadencial para as contribuições sociais, recentemente, no âmbito dos atos infralegais, temos o Decreto n2 4.524, de 18 de dezembro de 2002, que, em seu art. 95, dispõe, verbis: (...) Assim, diante destes atos normativos e para dar primazia à Segurança Jurídica, com o devido respeito àqueles dos quais divirjo, entendo que se deve aplicar o método hermenêutico da Interpretação Conforme a Constituição, que, ressalto, não se trata de princípio de interpretação da Constituição, mas sim de interpretação da lei ordinária de acordo com a Constituição. (...) Fl. 733DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 726 17 Por oportuno, saliento, ainda, que não compete a este Colegiado julgar a constitucionalidade das leis e atos normativos, mas tão somente aplicálos de forma harmônica. Desta forma e por tudo até aqui exposto, entendo que enquanto o Poder Judiciário, competente para a apreciação da inconstitucionalidade dos atos normativos, não retirar do mundo jurídico a Lei nº 8.212/91, à mesma devese dar uma interpretação conforme a Constituição, no sentido de concebê la como regra válida a determinar o prazo decadencial das contribuições sociais, sendo este, por conseguinte, de 10 (dez) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Ressalto, contudo, que, ainda para aqueles que concebem o prazo decadencial para as contribuições como o de cinco anos, não há prova nos autos de que houve o efetivo pagamento, ou seja, que houve a antecipação de pagamento a que se reporta o art. 150 do CTN, verbis: (...) Logo, como nos autos só se tem a confirmação de que parcela do crédito tributário foi declarada, e ainda, como a recorrente, que alega a decadência, não logrou comprovar o efetivo pagamento, entendo que para aqueles que concebem a decadência tãosomente pelas regras do CTN, no caso, esta não se operou, pois, diante da ausência de pagamentos, deve ser aplicada a regra do art. 173, inciso I, do CTN, segundo a qual a contagem dos cinco anos iniciase no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado." (grifei) Assim, resta claro que no paradigma não se adota a tese do repetitivo do STJ, mencionada apenas como obiter dictum, sendo que não há registro de que algum dos Conselheiros tenha acompanhado a relatora pelas conclusões. Ademais, no paradigma apenas foi registrado que houve declaração parcial do crédito, enquanto que no caso do acórdão recorrido registrouse a informação do Relatório Fiscal, no sentido da existência de recolhimentos parciais, relativos a remunerações reconhecidas em folhas de pagamento e em GFIP's. Diante do exposto, tendo em vista que o paradigma, além de não guardar similitude fática com o recorrido, foi proferido à luz de arcabouço jurídiconormativo já superado quando da prolação do acórdão recorrido, não conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Quanto ao Recurso do Contribuinte, este é tempestivo, restando também perquirir sobre o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade. Em seu recurso, a Contribuinte busca rediscutir se os valores vertidos pela empresa para custeio do plano de previdência fechada devem sofrer a tributação previdenciária, quando não disponibilizados a todos os seus empregados, mas apenas àqueles com mais de doze meses na empresa. Fl. 734DF CARF MF 18 Assim, tratase de previdência complementar fechada, sendo que a exclusão diz respeito a empregados com menos de doze meses na empresa. Nesse passo, o paradigma apto a demonstrar a alegada divergência seria um julgado em que, tratandose também de previdência privada fechada, e impondose o mesmo óbice à participação do plano, qual seja, a exigência de um mínimo de tempo de serviço na empresa, a conclusão fosse no sentido de não incidência das contribuições. Entretanto, os paradigmas indicados Acórdãos nºs 20600.418 e 9202 002.265, que na verdade foram proferidos no mesmo processo, de nº 36202.002312/200541 não se revestem dessas características, conforme será a seguir explicitado. Os paradigmas, que constituem acórdãos proferidos em face do mesmo caso, tratam de previdência complementar aberta e o óbice à participação no plano nada tem a ver com o tempo do empregado na empresa e sim com o fato de o empregado receber abaixo do limite imposto pelo RGPS. Confirase: Acórdão nº 20600.418 "Salientese que o argumento utilizado pela fiscalização para não considerar cumpridos os requisitos contidos no art. 28, § 9°, "p" da Lei n " 8.212/1991 e acolhido pela ilustre relatora, no sentido de que o programa de previdência complementar não se encontrava disponível à totalidade de seus empregados e dirigentes, decorre do fato de que a recorrente disponibilizou o referido plano de previdência complementar aos empregados e dirigentes que percebessem remuneração superior ao limite máximo do salário de contribuição do Regime Geral da Previdência Social — RGPS. (...) Dentro desse enfoque, o Instituto de Política Econômica Aplicada — IPEA, de acordo com seu Boletim de Políticas Sociais — Previdência Social Acompanhamento e Análise n° 13, edição especial 2007 (fls. 51), manifestase no sentido de que o público alvo da previdência complementar é uma minoria da população que possui rendimentos mais elevados e querem completar sua aposentadoria, nos seguintes termos: (...) Destarte, a própria natureza da previdência complementar, no sentido que a sua finalidade precípua é a de complementar os benefícios de aposentadoria daqueles que auferem remuneração superior ao limite imposto para o RGPS, nos leva a concluir que não restou violada a norma contida no art. 28, § 9°, "p" da Lei n ° 8.212/1991, por considerar que não obstante o plano de previdência complementar ser voltado tão somente aqueles que percebam remuneração superior ao limite do RGPS, caracterizado está que este plano de previdência complementar encontrase disponível à totalidade dos empregados e dirigentes da recorrente." Acórdão nº 9202002.265 "Ademais, é inaplicável ao presente caso o disciplinado no art. 16 da Lei Complementar nº 109, de 2001, posto que o referido Fl. 735DF CARF MF Processo nº 10920.007512/200753 Acórdão n.º 9202005.730 CSRFT2 Fl. 727 19 dispositivo disciplina “Os Planos de Benefícios de Entidades Fechadas” e aqui tratamos de “Planos de Benefícios de Entidades Abertas”, disciplinados no art. 26 e seguintes da referida Lei Complementar. (...) Ou seja, há de se verificar se a disponibilização do plano de previdência complementar somente aos empregados e dirigentes que percebam remuneração superior ao limite máximo do salário de contribuição do Regime Geral da Previdência Social – RGPS configura ou não violação a exigência de que o referido plano seja disponível à totalidade dos empregados e dirigentes da empresa. Há de se salientar que o sistema de previdência social, no seu regime geral, básico, possui caráter universal e destinase a todos, sendo obrigatório à população economicamente ativa, mediante atendimento de determinados requisitos e de contribuições. Contudo, frente à massa de segurados que nesse sistema se amparam é evidente a insuficiência do modelo do Regime Geral de Previdência Social. Por outro lado, o sistema de previdência complementar, de caráter privado, facultativo e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência social, objetiva garantir a continuidade do padrão de bemestar correspondente a fase em que o individuo laborava." A partir daí o paradigma exarado pela CSRF reitera o paradigma prolatado pela Turma Ordinária, sendo que os dois julgados inclusive têm o mesmo Redator Designado. Assim, constatase a absoluta ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e os paradigmas, o que inviabiliza o cotejo, com o fito de demonstrar eventual divergência jurisprudencial, razão pela qual não conheço do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte. Diante do exposto, não conheço dos Recursos interpostos pela Fazenda Nacional e pelo Contribuinte. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 736DF CARF MF 20 Fl. 737DF CARF MF
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Numero do processo: 10166.728964/2014-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/08/2010 a 30/09/2012
INTIMAÇÃO. VIA POSTAL. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
É válida a intimação feita por via postal no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, sendo este aquele fornecido por ele, para fins cadastrais, à administração tributária.
CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. OFENSA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não devem prosperar as alegações de ofensa ao contraditório e à ampla defesa quando destituídas de qualquer comprovação, em especial quando a documentação dos autos é incompatível com elas.
DECISÃO. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
Considera-se fundamentada a decisão que contém elementos de fato e de direito suficientes para suportar as conclusões apresentadas, não estando o julgador obrigado a analisar argumentos que não teriam o condão de alterar o que foi decidido.
A omissão no julgado deve ser apontada objetivamente, não servindo para infirmá-lo alegações de cunho genérico.
AUDITOR-FISCAL DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. COMPETÊNCIA. LANÇAMENTO E JULGAMENTO.
O Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade administrativa a quem compete privativamente constituir o crédito tributário por meio do lançamento de ofício, ao sujeito passivo e responsáveis solidários, bem como elaborar e proferir decisões ou delas participar em processo administrativo-fiscal.
MPF. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
O MPF é instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos fiscais de forma que eventuais irregularidades no seu trâmite ou emissão não teriam força para invalidar o auto de infração dele derivado.
O MPF é expedido em face do sujeito passivo fiscalizado, não havendo previsão de emissão para os sujeitos passivos solidários.
DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. FRAUDE, DOLO OU SIMULAÇÃO.
Nos casos em que comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial começa a fluir no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o tributo poderia ter sido lançado.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. LARANJAS.
Cabível a imputação de solidariedade às pessoas, físicas ou jurídicas, com interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Igualmente, e sem prejuízo da primeira imputação, correta a inclusão, como responsável tributário, à pessoa física que, agindo na condição de mandatário, preposto, diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica de direito privado pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA.
Uma vez demonstrados o exercício de fato de poderes de administração pelas pessoas físicas apontadas como responsáveis, bem como o seu interesse jurídico comum na situação que gerou o fato gerador, estão presentes os requisitos para a responsabilização pelo crédito tributário lançado.
MULTA QUALIFICADA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. SONEGAÇÃO. CABIMENTO.
É cabível a qualificação da multa no caso de fraude e sonegação, caracterizados pela utilização de interpostas pessoas e de sistema de controle de pagamento de remunerações "por fora", de modo a se furtar ao cumprimento das obrigações tributárias acessórias e principais.
AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO EM ESPÉCIE. INCIDÊNCIA.
O auxílio-alimentação quando pago em espécie e com habitualidade integra o base de cálculo das contribuições previdenciárias.
VALE-TRANPORTE. ENUNCIADO Nº 89 DA SÚMULA CARF.
A contribuição social previdenciária não incide sobre valores pagos a título de vale-transporte, mesmo que em pecúnia.
PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO.
A perícia é reservada à elucidação de pontos duvidosos que exijam esclarecimentos especializados para o deslinde da questão. Restringindo-se a questão controversa à apresentação de prova documental, torna-se prescindível, para solução do litígio, a realização de perícia visando tão somente suprir a obrigação do sujeito passivo em comprovar a regularidade de sua escrituração e de sua conduta.
ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 2201-003.780
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores correspondentes ao vale-transporte.
(Assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente
(Assinado digitalmente)
Daniel Melo Mendes Bezerra - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DANIEL MELO MENDES BEZERRA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/08/2010 a 30/09/2012 INTIMAÇÃO. VIA POSTAL. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. É válida a intimação feita por via postal no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, sendo este aquele fornecido por ele, para fins cadastrais, à administração tributária. CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. OFENSA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não devem prosperar as alegações de ofensa ao contraditório e à ampla defesa quando destituídas de qualquer comprovação, em especial quando a documentação dos autos é incompatível com elas. DECISÃO. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Considera-se fundamentada a decisão que contém elementos de fato e de direito suficientes para suportar as conclusões apresentadas, não estando o julgador obrigado a analisar argumentos que não teriam o condão de alterar o que foi decidido. A omissão no julgado deve ser apontada objetivamente, não servindo para infirmá-lo alegações de cunho genérico. AUDITOR-FISCAL DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. COMPETÊNCIA. LANÇAMENTO E JULGAMENTO. O Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade administrativa a quem compete privativamente constituir o crédito tributário por meio do lançamento de ofício, ao sujeito passivo e responsáveis solidários, bem como elaborar e proferir decisões ou delas participar em processo administrativo-fiscal. MPF. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. O MPF é instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos fiscais de forma que eventuais irregularidades no seu trâmite ou emissão não teriam força para invalidar o auto de infração dele derivado. O MPF é expedido em face do sujeito passivo fiscalizado, não havendo previsão de emissão para os sujeitos passivos solidários. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. FRAUDE, DOLO OU SIMULAÇÃO. Nos casos em que comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial começa a fluir no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o tributo poderia ter sido lançado. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. LARANJAS. Cabível a imputação de solidariedade às pessoas, físicas ou jurídicas, com interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Igualmente, e sem prejuízo da primeira imputação, correta a inclusão, como responsável tributário, à pessoa física que, agindo na condição de mandatário, preposto, diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica de direito privado pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. Uma vez demonstrados o exercício de fato de poderes de administração pelas pessoas físicas apontadas como responsáveis, bem como o seu interesse jurídico comum na situação que gerou o fato gerador, estão presentes os requisitos para a responsabilização pelo crédito tributário lançado. MULTA QUALIFICADA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. SONEGAÇÃO. CABIMENTO. É cabível a qualificação da multa no caso de fraude e sonegação, caracterizados pela utilização de interpostas pessoas e de sistema de controle de pagamento de remunerações "por fora", de modo a se furtar ao cumprimento das obrigações tributárias acessórias e principais. AUXÍLIO-ALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO EM ESPÉCIE. INCIDÊNCIA. O auxílio-alimentação quando pago em espécie e com habitualidade integra o base de cálculo das contribuições previdenciárias. VALE-TRANPORTE. ENUNCIADO Nº 89 DA SÚMULA CARF. A contribuição social previdenciária não incide sobre valores pagos a título de vale-transporte, mesmo que em pecúnia. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A perícia é reservada à elucidação de pontos duvidosos que exijam esclarecimentos especializados para o deslinde da questão. Restringindo-se a questão controversa à apresentação de prova documental, torna-se prescindível, para solução do litígio, a realização de perícia visando tão somente suprir a obrigação do sujeito passivo em comprovar a regularidade de sua escrituração e de sua conduta. ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
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VIA POSTAL. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. É válida a intimação feita por via postal no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, sendo este aquele fornecido por ele, para fins cadastrais, à administração tributária. CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA. OFENSA. FALTA DE COMPROVAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Não devem prosperar as alegações de ofensa ao contraditório e à ampla defesa quando destituídas de qualquer comprovação, em especial quando a documentação dos autos é incompatível com elas. DECISÃO. FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Considerase fundamentada a decisão que contém elementos de fato e de direito suficientes para suportar as conclusões apresentadas, não estando o julgador obrigado a analisar argumentos que não teriam o condão de alterar o que foi decidido. A omissão no julgado deve ser apontada objetivamente, não servindo para infirmálo alegações de cunho genérico. AUDITORFISCAL DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. COMPETÊNCIA. LANÇAMENTO E JULGAMENTO. O AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil é a autoridade administrativa a quem compete privativamente constituir o crédito tributário por meio do lançamento de ofício, ao sujeito passivo e responsáveis solidários, bem como elaborar e proferir decisões ou delas participar em processo administrativo fiscal. MPF. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 89 64 /2 01 4- 91 Fl. 12478DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.411 2 O MPF é instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos fiscais de forma que eventuais irregularidades no seu trâmite ou emissão não teriam força para invalidar o auto de infração dele derivado. O MPF é expedido em face do sujeito passivo fiscalizado, não havendo previsão de emissão para os sujeitos passivos solidários. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. FRAUDE, DOLO OU SIMULAÇÃO. Nos casos em que comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial começa a fluir no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o tributo poderia ter sido lançado. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. “LARANJAS”. Cabível a imputação de solidariedade às pessoas, físicas ou jurídicas, com interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. Igualmente, e sem prejuízo da primeira imputação, correta a inclusão, como responsável tributário, à pessoa física que, agindo na condição de mandatário, preposto, diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica de direito privado pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. Uma vez demonstrados o exercício de fato de poderes de administração pelas pessoas físicas apontadas como responsáveis, bem como o seu interesse jurídico comum na situação que gerou o fato gerador, estão presentes os requisitos para a responsabilização pelo crédito tributário lançado. MULTA QUALIFICADA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. SONEGAÇÃO. CABIMENTO. É cabível a qualificação da multa no caso de fraude e sonegação, caracterizados pela utilização de interpostas pessoas e de sistema de controle de pagamento de remunerações "por fora", de modo a se furtar ao cumprimento das obrigações tributárias acessórias e principais. AUXÍLIOALIMENTAÇÃO. PAGAMENTO EM ESPÉCIE. INCIDÊNCIA. O auxílioalimentação quando pago em espécie e com habitualidade integra o base de cálculo das contribuições previdenciárias. VALETRANPORTE. ENUNCIADO Nº 89 DA SÚMULA CARF. A contribuição social previdenciária não incide sobre valores pagos a título de valetransporte, mesmo que em pecúnia. PEDIDO DE PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A perícia é reservada à elucidação de pontos duvidosos que exijam esclarecimentos especializados para o deslinde da questão. Restringindose a questão controversa à apresentação de prova documental, tornase prescindível, para solução do litígio, a realização de perícia visando tão somente suprir a obrigação do sujeito passivo em comprovar a regularidade de sua escrituração e de sua conduta. Fl. 12479DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.412 3 ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores correspondentes ao valetransporte. (Assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente (Assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão administrativa de primeira instância proferida pela DRJ Fortaleza que julgou improcedente a impugnação ofertada para desconstituir o lançamento tributário formalizado. O lançamento do crédito tributário é composto pelos seguintes Autos de Infração: Auto de Infração Valor Principal Data da Consolidação Valor Consolidado Contribuições Levantamentos 51.043.3626 193.750,60 02/12/2014 539.084,72 patronais incidentes sobre as remunerações de segurados empregados: contribuições previstas no art. 22, I e II, da Lei n° 8.212/1991 (FPAS e RAT). PF REMUNERACOES PAGAS A MOTOBOYS; SE REMUNERAÇÕES PAGAS A EMPREGADO. 51.043.3634 53.129,03 02/12/2014 147.829,65 contribuições destinadas aos terceiros: FNDE (Salário Educação), INCRA, SENAC, SESC e SEBRAE PF REMUNERACOES PAGAS A MOTOBOYS; SE REMUNERAÇÕES PAGAS A EMPREGADO. O Relatório Fiscal destacou o histórico e aspectos mais relevantes da autuação nos termos seguintes: A empresa autuada é uma loja de revenda de autopeças, parte de um empreendimento denominado REDE PRESIDENTE e é constituída em nome de laranja. A empresa foi excluída do Simples Nacional, com efeitos a partir de 23/03/2010, por meio do Ato Declaratório Executivo n° 40, de 24/11/2014 (Processo n° 10950.725932/201497). Fl. 12480DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.413 4 O relatório utilizase de elementos coligidos nos processos administrativos fiscais n° 11020.723699/201218 e n° 15586.720329/201195, bem como no Inquérito Policial n° 256/2008DPF/MGA/PR, instaurado em 02/04/2008, por força de requisição do Ministério Público Federal e que tramita da Delegacia da Polícia Federal de Maringá/PR. Tal inquérito encontrase distribuído para o Juízo Federal da 3a Vara Criminal de Curitiba/PR, sob o n° 2008.70.0094275/PR. No âmbito do inquérito policial, foram providenciados dois pedidos de quebra de sigilo de dados e/ou telefônico, em cujas decisões o Juízo fez constar que todos os dados e informações obtidos no inquérito fossem compartilhados com a Receita Federal do Brasil RFB. Foi também determinada a quebra do sigilo fiscal, tributário e patrimonial de 110 pessoas físicas e jurídicas relacionadas à REDE PRESIDENTE, dentre os quais os integrantes da família Tolardo. Em cumprimento às decisões judiciais, a Polícia Federal franqueou o acesso da RFB aos dados coletados nas investigações do inquérito. As investigações da Polícia Federal em conjunto com a RFB culminaram na deflagração da Operação Laranja Mecânica, realizada em 17/10/2012, com o cumprimento de diversos mandados de busca e apreensão. Todo o material foi disponibilizado à RFB. As provas apontam para a existência de um grande empreendimento comercial, no ramo de autopeças (atacado e varejo), denominado REDE PRESIDENTE, com lojas em várias unidades da federação e que, embora formalmente constituída por diversas empresas, a quase totalidade em nome de laranjas, tratase, na verdade, de um único empreendimento, iniciado por Samuel Tolardo, já falecido, e transmitido aos seus herdeiros e atuais proprietários, sua esposa, Íris da Silva Tolardo, e os filhos, Robson Marcelo Tolardo, Rogério Márcio Tolardo, Samuel Tolardo Júnior e Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Os mandados de busca e apreensão tiveram por alvo vários endereços, dentre eles endereços da família Tolardo, bunkers onde se encontravam armazenados documentos, endereços de laranjas e endereços das empresas que funcionavam como filiais do empreendimento. Além dos arquivos com os documentos apreendidos, a Polícia Federal disponibilizou à RFB os laudos de perícia criminal relativos à mídia apreendida. DA ORIGEM (IMPORTADORA TOLARDO E REAL IGUAÇU) Na base de dados da RFB foi identificada a empresa Importadora Tolardo Ltda. (CNPJ 79.112.637/000120), que tinha como sócios Samuel Tolardo e seu irmão Hélio Tolardo. Essa empresa tinha como atividade a exploração do comércio de compra, venda e importação de peças e acessórios para autos em geral, bem como representações por conta própria e foi aberta em 1962. Em setembro/1983, a Importadora Tolardo Ltda. foi incorporada pela empresa Real Iguaçu Auto Peças Ltda. (CNPJ 77.597.318/000126), doravante mencionada simplesmente como Real Iguaçu. Essa empresa era da família Tolardo. No Bunker localizado na Rua Rui Barbosa, em Maringá/PR, foi encontrada a quarta alteração contratual da Real Iguaçu, de 10/11/1994, onde consta que até essa data os sócios eram José Dario Tolardo e Maria Silene Tolardo, marido e esposa. Fl. 12481DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.414 5 Foi encontrado, ainda, no bunker, dentre vários arquivos relacionados à REDE PRESIDENTE, um pendrive com um arquivo intitulado “TCC Final Corrigido”, que se trata de um trabalho de conclusão de curso, elaborado por uma das funcionárias do esquema, Mirian Coutinho de Lima Lepetit, que se constitui em uma avaliação de desempenho como perspectiva de melhoria pessoal e organizacional em uma empresa de autopeças na cidade de Maringá. Resta claro no trabalho que essa empresa era a REDE PRESIDENTE, tendo sido mencionada que a empresa surgiu em 1962, composta por três sócios, filhos de imigrantes italianos, chamados no trabalho de S, D e H, iniciais dos irmãos Tolardo. De acordo com a alteração contratual da Real Iguaçu, constatase que até 1994, a empresa tinha a razão social de Tolardo Auto Peças. Em 11/09/1991, faleceu um dos irmãos, Hélio Tolardo. Também na década de 90, a empresa Real Iguaçu, na época denominada de Tolardo Auto Peças, sofreu diversas autuações fiscais, o que parece ter motivado os novos rumos da empresa. A partir de então, iniciouse a empreitada ilícita do esquema fraudulento denominado REDE PRESIDENTE. Em 1994, a Real Iguaçu altera seu endereço de Maringá/PR para Santo André/SP e, em novembro/1994, interpõe sócios laranjas em seu quadro societário. Em 1995, passa à condição de inativa. A estratégia da empresa de mudança para Santo André/SP e inserção de sócios laranjas parece funcionar, já que, após a inscrição na Dívida Ativa dos débitos tributários, a execução fiscal teve que ser ajuizada em Santo André/SP, onde a empresa não existia de fato. A Real Iguaçu resta inativa desde 1995, abandonada pela família Tolardo em face de suas dívidas fiscais. DO SURGIMENTO DA RPT E REDE PRESIDENTE Na segunda metade da década de 90, com a autuação fiscal e o consequente abandono da Real Iguaçu, ocorre a cisão dos irmãos Tolardo. O mencionado trabalho de conclusão do curso de Mirian Coutinho de Lima Lepetit confirma a separação dos irmãos Tolardo. Samuel Tolardo (“S”) e José Dario Tolardo (“D”) continuaram trabalhando no mesmo ramo, porém de forma separada. O primeiro ficou com a REDE PRESIDENTE, alvo da presente ação fiscal, e José Dario Tolardo com a rede de distribuição de autopeças denominada Vespor Automotive. Nessa época, Samuel Tolardo adquire uma outra empresa do ramo de autopeças, a FORAMEC, criando a partir dessa “cria” a empresa RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda. O nome de fantasia PRESIDENTE passa a ser utilizado pelas lojas de Samuel Tolardo. A sigla RPT remete às iniciais de REDE PRESIDENTE. Em setembro/1983, a Importadora Tolardo Ltda. foi incorporada pela empresa Real Iguaçu Auto Peças Ltda. (CNPJ 77.597.318/000126), doravante mencionada simplesmente como Real Iguaçu. Essa empresa era da família Tolardo. No Bunker localizado na Rua Rui Barbosa, em Maringá/PR, foi encontrada a quarta alteração contratual da Real Iguaçu, de 10/11/1994, onde consta que até essa data os sócios eram José Dario Tolardo e Maria Silene Tolardo, marido e esposa. Fl. 12482DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.415 6 Foi encontrado, ainda, no bunker, dentre vários arquivos relacionados à REDE PRESIDENTE, um pendrive com um arquivo intitulado “TCC Final Corrigido”, que se trata de um trabalho de conclusão de curso, elaborado por uma das funcionárias do esquema, Mirian Coutinho de Lima Lepetit, que se constitui em uma avaliação de desempenho como perspectiva de melhoria pessoal e organizacional em uma empresa de autopeças na cidade de Maringá. Resta claro no trabalho que essa empresa era a REDE PRESIDENTE, tendo sido mencionada que a empresa surgiu em 1962, composta por três sócios, filhos de imigrantes italianos, chamados no trabalho de S, D e H, iniciais dos irmãos Tolardo. De acordo com a alteração contratual da Real Iguaçu, constatase que até 1994, a empresa tinha a razão social de Tolardo Auto Peças. Em 11/09/1991, faleceu um dos irmãos, Hélio Tolardo. Também na década de 90, a empresa Real Iguaçu, na época denominada de Tolardo Auto Peças, sofreu diversas autuações fiscais, o que parece ter motivado os novos rumos da empresa. A partir de então, iniciouse a empreitada ilícita do esquema fraudulento denominado REDE PRESIDENTE. Em 1994, a Real Iguaçu altera seu endereço de Maringá/PR para Santo André/SP e, em novembro/1994, interpõe sócios laranjas em seu quadro societário. Em 1995, passa à condição de inativa. A estratégia da empresa de mudança para Santo André/SP e inserção de sócios laranjas parece funcionar, já que, após a inscrição na Dívida Ativa dos débitos tributários, a execução fiscal teve que ser ajuizada em Santo André/SP, onde a empresa não existia de fato. A Real Iguaçu resta inativa desde 1995, abandonada pela família Tolardo em face de suas dívidas fiscais. DO SURGIMENTO DA RPT E REDE PRESIDENTE Na segunda metade da década de 90, com a autuação fiscal e o consequente abandono da Real Iguaçu, ocorre a cisão dos irmãos Tolardo. O mencionado trabalho de conclusão do curso de Mirian Coutinho de Lima Lepetit confirma a separação dos irmãos Tolardo. Samuel Tolardo (“S”) e José Dario Tolardo (“D”) continuaram trabalhando no mesmo ramo, porém de forma separada. O primeiro ficou com a REDE PRESIDENTE, alvo da presente ação fiscal, e José Dario Tolardo com a rede de distribuição de autopeças denominada Vespor Automotive. Nessa época, Samuel Tolardo adquire uma outra empresa do ramo de autopeças, a FORAMEC, criando a partir dessa “cria” a empresa RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda. O nome de fantasia PRESIDENTE passa a ser utilizado pelas lojas de Samuel Tolardo. A sigla RPT remete às iniciais de REDE PRESIDENTE. O trabalho de Mirian Coutinho de Lima Lepetit confirma que os filhos de Samuel Tolardo o sucederam na empreitada e que Rogério Márcio Tolardo (chamado de “M”) tem a maior participação no negócio. Consta também o número de lojas da rede e os estados onde estão localizadas. Fl. 12483DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.416 7 A RPT tinha endereço inicial em Tatuapé, São Paulo/SP. Mudouse, em 06/04/2000, para Guarulhos/SP. Em 21/06/2002, mudouse para o Rio de Janeiro/RJ. Sempre teve filiais espalhadas pelo país, várias delas com nome de fantasia “Distribuidora Presidente”. As provas indicam que foram utilizados laranjas como sócios dessa empresa, além de constar laranja também no quadro societário da Mansfield Finance, por sua vez, sócia da RPT. DA REDE PRESIDENTE Apesar de a empresa RPT ser mencionada pela denominação de REDE PRESIDENTE, ela é apenas uma das tantas empresas formalmente constituídas em nome de laranjas, mas que, em verdade, compõem um único empreendimento empresarial/comercial, que se passa a citar por REDE PRESIDENTE. Diversas empresas foram constituídas, inclusive diversas factorings que serviam de elo financeiro para o esquema, centralizando recebimentos e pagamentos. A maioria dessas factorings foram abandonadas nos anos de 2007 e 2008, provavelmente por ter sofrido fiscalização da RFB. Outras empresas passaram a desempenhar essa função financeira, muitas sem ter sequer existência física. Algumas empresas serviam exclusivamente para centralizar as compras e distribuilas para as lojas. Várias outras foram constituídas para abrigar as diversas lojas de vendas de autopeças espalhadas pelo país. Entre elas, uma coisa em comum: todas com laranjas em seus quadros societários. Há outras empresas, estas em nome dos verdadeiros mentores do esquema, porém utilizadas com a função de amealhar o patrimônio, principalmente imóveis, obtido de forma fraudulenta. O logotipo da REDE PRESIDENTE identificado no sítio da internet é o mesmo utilizado em vários endereços físicos de lojas da rede espalhadas pelo território nacional. Os colaboradores/funcionários do esquema se referem a ele ora como REDE PRESIDENTE, ora como DISTRIBUIDORA PRESIDENTE, ora simplesmente como PRESIDENTE. As lojas onde estão distribuídos os diversos CNPJ são chamadas de filiais. O esquema REDE PRESIDENTE comprava peças junto aos fornecedores e as reembalava em caixas com a marca Napa Parts. Foi encontrado em computador apreendido, um arquivo contendo o planejamento estratégico de marketing dessa marca. O texto final do documento vincula a marca Napa Parts à REDE PRESIDENTE. O logotipo da Napa Parts aparece em muitas lojas da REDE PRESIDENTE ao lado do logotipo da REDE PRESIDENTE. Dentre os documentos encontrados, destacamse os de controle das filiais, que as identificavam com um número seguido do nome da cidade, relacionando também o CNPJ utilizado pela filial, o endereço, a inscrição estadual, telefone, email e o gerente. Foram encontrados nos bunkers do esquema carimbos e relatórios contendo, inclusive, as empresas já inativas, sendo identificadas mais de 80 (oitenta) empresas. Dentre os diversos documentos de controle, no bunker situado na Rua das Camélias, foi encontrada a relação de funcionários, emitida em 08/10/2012, que os lista por Fl. 12484DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.417 8 filial. No endereço residencial de Vânia Maria Lenarduzzi, foi encontrado documento que discrimina o salário 1 (registrado) dos funcionários e o salário 2 (popular “por fora”). Este último documento tem 727 nomes, distribuídos em 42 filiais, apenas as que têm ou tinham uma existência física. Em outro documento encontrado, há um relatório bem mais enxuto das filiais, com razão social, CNPJ e sócios, constando 84 (oitenta e quatro) empresas do esquema REDE PRESIDENTE. No endereço residencial de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, foi encontrado um parecer emitido em fevereiro/2011 pela empresa Pactum Advocacia Empresarial, onde consta um “mapeamento fiscal” dirigido à REDE PRESIDENTE. Foi registrado que a REDE PRESIDENTE atua principalmente no mercado atacadista de autopeças e conta com uma rede de distribuição de amplitude nacional, estruturada a partir de diversas empresas distintas, com regimes tributários distintos. Há outros documentos colhidos que revelam a existência da REDE PRESIDENTE, todos anexados ao processo. LARANJAS UTILIZADOS PELO ESQUEMA Os laranjas utilizados pelo esquema são funcionários, terceiros sem vínculo efetivo com a REDE, que recebiam pela utilização de seu nome, e pessoas que sequer sabiam da utilização dos seus nomes. A par dos elementos apresentados no decorrer do relatório, devem ser salientadas as diligências efetuadas em procedimento fiscal realizado na DRF Caxias do Sul/RS junto à empresa NTE da REDE PRESIDENTE. Foram feitas diligências junto às sócias laranjas, Sra. Silvia Vilhalba e Sra. Petrona Ledesma Aliende, pessoas extremamente humildes, que confirmaram não serem sócias de nenhuma empresa. Dos SERVIÇOS EXECUTADOS POR FÁBIO NOVAES Na residência de Fábio Novaes Moreira, que presta serviços contábeis por meio do escritório de contabilidade Transcontec, foram encontrados documentos que comprovam a utilização dos nomes e dados de pessoas físicas, inclusive paraguaios, para o preenchimento de documentos de identidade falsos, com o fim de utilizálos como laranjas nas empresas do esquema. Fábio Novaes Moreira enviava as Declarações Anuais de Ajuste de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física DIRFP relativas a essas pessoas. No endereço de Fábio Novaes Moreira, foram encontrados documentos pessoais paraguaios e brasileiros. Várias carteiras de identidade tinham provas e características evidentes de falsificação. Havia documentos distintos com a mesma foto, além de incompatibilidade de algumas fotos com as idades registradas nos documentos. A necessidade da falsificação das CI deveuse ao fato de que passou a ser necessária a certificação digital para várias operações junto à Secretaria da Receita Federal do Brasil, para cuja emissão há necessidade de comparecimento da pessoa. Tal necessidade gerou, inclusive, o pedido de aumento por parte das pessoas que emprestavam seu nome, pois agora deveriam comparecer no órgão certificador, segundo comprova troca de mensagens entre Robson Marcelo Tolardo e Daniel de Oliveira Junior. Fl. 12485DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.418 9 Como exemplo das falsificações, destacase a identidade de Juarez Mielke, que já havia falecido da data da expedição do RG. Foram encontradas duas versões para a identidade de Maria Aparecida Ribeiro e duas para Cláudio Afonso Miranda. Além da versão original da CI de Cleonice da Silva Mielke encontrada na residência de Fábio Novaes, foi encontrada outra versão no seu escritório. A foto dessa carteira falsificada é a mesma de outra em nome de Elidia Mendes Santos. DA VINCULAÇÃO DE IPS UTILIZADOS PARA A TRANSMISSÃO DE DIRPF Foram identificados quatro endereços IP (quatro computadores) de onde foram enviadas as DIRPF do exercício 2010 da família Tolardo, de Milton Assis de Oliveira, procurador da Mansfield Ltda. (sócia da RPT, empresa da REDE PRESIDENTE), de Luiz Tavares da Silva e de Francisco Tomaz Neto, estes dois últimos sócios laranjas da empresa Gama Factoring Ltda. Nas mesmas datas e em horários muito próximos, esses mesmos computadores foram utilizados para transmissão das DIRPF do exercício 2010 de vários outros contribuintes, dos quais 103 são laranjas da REDE PRESIDENTE. No bunker da Rua Rui Barbosa, 1027, Maringá/PR, foi localizado relatório intitulado “Relação das Declarações do IRPF 2010”, com controle das DIRPF 2010 de mais de 200 pessoas físicas, dentre elas as 103 antes referidas. DOS LARANJAS PARA REGISTRO DE VEÍCULOS Inúmeros veículos da REDE PRESIDENTE eram registrados em nome de laranjas. Havia controles dos veículos, que eram distribuídos entre as filiais (empresas do esquema) e as pessoas usadas como proprietárias eram pagas, sendo algumas funcionários das empresas. CARTÓRIO COSTA Havia necessidade de autenticações cartorárias, reconhecendo a autenticidade das assinaturas dos laranjas. Praticamente 100% (cem por cento) das autenticações de reconhecimento de firma nos diversos contratos sociais das empresas e em outros documentos, como procurações, eram feitas no Cartório Costa ou Cartório IguatemiPR, que são o mesmo cartório. Os nomes para feitura de documentos e reconhecimento de firma eram passados ao cartório, alguns verdadeiros e outros não. Há conversas nas quais se constata que o cartão de autógrafos era enviado para preenchimento fora do cartório, o que não é um procedimento normal, já que deveria ser confeccionado no tabelionato. Vários dos laranjas com assinaturas autenticadas viviam em cidades muito longe dali, como Ponta Porã/MS, e sequer tinham conhecimento de que constavam em quadro societário de alguma empresa. Em outra conversa interceptada, constatase que havia autenticações por semelhança e “verdadeiras” e não era necessário o comparecimento dos laranjas para que as autenticações fossem feitas. Mesmo as assinaturas verdadeiras não eram feitas de forma presencial no cartório, em desobediência à lei. Os cartões eram enviados para preenchimento fora do cartório. EMPRESAS DIVERSAS DA REDE PRESIDENTE Fl. 12486DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.419 10 No Relatório de Filiais tratado no tópico “REDE PRESIDENTE” foram verificadas 56 filiais, carimbos de 80 estabelecimentos e na pasta de empresas (ativas e inativas) foram identificadas 112 empresas. Na busca, junto às empresas, de pessoas físicas que tiveram suas DIRPF transmitidas pela REDE PRESIDENTE, constataramse 60 empresas, a maioria do ramo de autopeças, todas vinculadas à rede. Seguem alguns procedimentos que levaram à identificação dessas empresas. DEINF/SP Em 2008, a Delegacia Especial das Instituições Financeiras DEINF/SP promoveu verificações fiscais na Gama Factoring, quando foram identificados pagamentos efetuados por ela a fabricantes de autopeças. Essas empresas foram intimadas e, de forma uníssona, responderam que os pagamentos tinham origem em vendas efetuadas a empresas da REDE PRESIDENTE. Todos os contratos sociais das empresas citadas pelas compradoras foram encontrados no bunker da Rua Rui Barbosa, 1027, Maringá/PR, o que comprova a sua vinculação com a REDE PRESIDENTE. DRF EM VITÓRIA/ES A empresa Comercial Presidente de Auto Peças Ltda. foi objeto de fiscalização pela Delegacia da Receita Federal do Brasil DRF em Vitória/ES, tendo sido lavrado o Auto de Infração que compõe o processo administrativo 15586.720329/201195. Os seus fornecedores foram intimados a apresentar notas fiscais e comprovantes de pagamentos, tendo sido constatado que os pagamentos foram feitos por outras empresas, quase todas de factoring. As empresas que efetuaram os pagamentos no ano se 2007 foram intimadas, via Correios, a justificar e comprovar os motivos que as levaram a efetuar tais pagamentos. As únicas três empresas que receberam a intimação (Dumas Factoring, PSE Com. de Peças e Uberpeças Dist Auto Peças) não a atenderam. Em regra, as factoring não foram localizadas pelos Correios, pois não precisavam existir fisicamente. Todas as empresas que efetuaram os pagamentos estavam constituídas em nome de laranjas. Com exceção da Duma Factoring e da PSE Com de Peças, todas estão na relação daquelas cujos sócios tiveram suas DIRPF/2010 transmitidas pelos mesmos computadores que transmitiram as declarações da família Tolardo e de outras duas pessoas vinculadas à REDE PRESIDENTE. Os sócios laranjas dessas empresas estão relacionados na Relação de Declarações do IRPF 2010 encontrada no bunker da Rua Rui Barbosa, 1027, Maringá/PR . Deve ser destacado que, no ano de 2007, a regra era a utilização de factorings para efetuar os pagamentos, porém a partir dos anos de 2008 e 2009, em razão das investigações da DEINF/SP, a REDE PRESIDENTE abandonou suas factorings, passando a utilizar outras empresas. INVESTIGAÇÕES POLICIAIS NAPA PARTS, AMAZON AUTO PEÇAS E SENSUS PEÇAS P/ VEÍCULOS Fl. 12487DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.420 11 Em 02/04/2008, por solicitação da Procuradoria da República em Curitiba/PR, a Delegacia da Polícia Federal DPF de Maringá/PR instaurou o inquérito de número 256/2008DPF/MGA/PR, tendo sido solicitadas diligências para localizar as seguintes empresas e seus sócios: Amazon Auto Peças Ltda., Fabiro Factoring Ltda. e Napa Parts Dist de Auto Peças Ltda. No endereço cadastral da Napa Parts Dist de Auto Peças Ltda., havia uma empresa denominada “Presidente Distribuidora”, a qual, segundo informações de um comerciante vizinho, possuía uma marca de peças chamada “Napa”. Suas sócias não foram encontradas nos seus endereços cadastrais. A Amazon Auto Peças, supostamente sediada no Amapá, não foi localizada, tampouco seus sócios. A DPF investigou e obteve o verdadeiro endereço de alguns dos sócios, sendo possível a oitiva de três deles, todos pessoas humildes, desenvolvendo as atividades de diarista (faxineira), auxiliar de serviços gerais e trabalhador de serraria. Todos disseram sequer conhecer as empresas investigadas. Uma outra sócia não foi localizada, mas foi obtida a informação de que teria sido presa em 2006. Todos os documentos juntados ao feito têm firma reconhecida no Cartório Costa, localizado no distrito de Iguatemi, Maringá/PR, mesmo algumas empresas tendo domicílio em estados distantes da Federação, como Rio de Janeiro e Amapá. Em diligência efetuada em Maringá/PR, que resultou na Informação n° 098/2010, foi constatado por entrevistas com funcionários que saíam do local e com um funcionário de estabelecimento próximo que a Napa Parts seria do “pessoal da Distribuidora Presidente” e que o seu dono seria uma pessoa de nome Marcelo Tolardo. Em consulta aos bancos de dados disponíveis, a autoridade policial descobriu que Marcelo Tolardo seria o então empresário Robson Marcelo Tolardo, filho de Samuel Tolardo e irmão mais velho de Rogério Márcio Tolardo, que faziam parte do quadro societário da RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda. Distribuidora Presidente. Havia, ainda, uma empresa denominada Napa Distribuidora de Auto Peças Ltda., sediada em Guarulhos/SP, que utilizou essa razão social até julho/2000. Após esse mês, essa empresa passou a utilizar o nome de Presidente Peças Ltda. Em julho/2003, a razão social passa a ser Presidente Peças para Veículos Automotores Ltda. e, finalmente, em junho/2005, passa a ser Sensus Peças para Veículos Automotores Ltda. PROCEDIMENTO CAXIAS DO SUL/RS A DRF Caxias do Sul/RS realizou procedimento de fiscalização na empresa NTE Auto Peças Ltda., cuja razão social até dezembro/2008 era Alba Auto Peças Ltda. Foram efetuadas diligências junto a dois fornecedores, Cinpal Companhia Industrial de Peças para Automóveis e Tenneco Automotive Brasil Ltda, para que esclarecessem o motivo das transferências efetuadas para elas pela NTE. Ambas apresentaram farta documentação, a qual, em linhas gerais, evidencia que as transferências feitas pela NTE consistiam em pagamento parcial de vendas a outras empresas, inclusive da PRV. DILIGÊNCIAS DA FISCALIZAÇÃO Fl. 12488DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.421 12 A fiscalização verificou que o maior volume de compras da REDE PRESIDENTE era efetuado por meio das empresas PRS e PSE e intimou mais de 40 fornecedores para prestar esclarecimentos. Modine do Brasil Sistemas Térmicos Ltda. informou que o contato da empresa PRS seria o Sr. Bene, que representa também as empresas RPT Distr Auto Peças e PRV Comercio Atac de Peças Aut Ltda. A Indústria e Comércio de Auto Peças Rei Ltda. respondeu que o comprador da empresa PRS seria o Sr. Adailton Hilário da Silva, que representava também a Comercial Presidente de Auto Peças Ltda., Distribuidora Pinheirão Peças Automotivas Ltda. e a Retífica Presidente Prudente Peças p/ Veíc Ltda. A Jofund S/A informou que o contato em 2008 na PRS era o Sr. Adailton Hilário da Silva, também responsável pela empresa Comercial Presidente de Autopeças Ltda. Com relação ao período de 2009 a 2012, informou que ele era, ainda, o responsável pelas compras das empresas RPT Distribuidora de Auto Peças, Alba Autopeças Ltda., APE Auto Peças Ltda., PSE Comercial de Peças para Veículos Ltda., PRE Comércio e Distribuição de Auto Peças Ltda., PRV Comércio Atacado de Peças Automotivas Ltda. e KRE Comércio de Peças Ltda. A Cerâmica e Velas de Ignição NGK do Brasil Ltda. informou que o contato na PRS seria Edenilson Ferreira de Oliveira, encontrado no mesmo endereço do responsável por compras da RPT e da PRTS de Maringá/PR. A empresa Meritor do Brasil informou que o atual contato comercial/financeiro da PRV trata e assunto comercial/financeiro relacionado à PRS, porém desconhece a exata relação jurídica entre essas empresas. A RHO Interruptores Automotivos Ltda. Informou que de 2008 até 13/12/2012, o contato era o Sr. Estevão. A partir de 2013, o contato passou a ser Nélio Jonei Gonçalves de Oliveira, Alex Brito e Karen Rocha. Foi apresentada lista de 16 empresas, todas pertencentes à REDE PRESIDENTE. Da mesma forma, as 13 empresas citadas por Susin Francescutti Metalúrgica Ltda. compõem a REDE PRESIDENTE. O contato da empresa RPS seriaFrancisca Dias ou o Sr. Edenilson. A Max Gear informou que os contatos eram Karen Rocha, Johny Vieira e Edenilson. As empresas listadas, com 40 estabelecimentos de 28 CNPJ raiz, são todas da REDE PRESIDENTE. A Max Gear apresentou planilha referente ao período 2008 a 2010, com os pagamentos recebidos pelas vendas, identificando a empresa de acordo com o extrato bancário, onde se constata que as vendas feitas para a PRS foram pagas mediante transferências bancárias de outras 13 empresas, todas da REDE PRESIDENTE. Affinia Automotiva Ltda. também apresentou planilha com a identificação das vendas efetuadas para a PRS no ano de 2008. A identificação das empresas “pagadoras” foi feita apenas pelo nome, provavelmente o nome que aparece no extrato bancário, todas da REDE PRESIDENTE. Fl. 12489DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.422 13 A Mann Hummel Brasil Ltda. disse que o contato da PRS era Edenilso Ferreira de Oliveira e apresentou rol de empresas relacionadas ao representante, todas da REDE PRESIDENTE. A relação das empresas apresentada pela fornecedora TMD Triction do Brasil S/A intitulada “6. empresas do Grupo Presidente” também contém várias empresas representadas pela mesma pessoa da PRS, todas elas da REDE PRESIDENTE. São 42 estabelecimentos, com 23 CNPJ raiz. Vários outros fornecedores apresentaram respostas praticamente nos mesmos termos, citando os mesmos contados e apresentando as mesmas empresas pertencentes à REDE PRESIDENTE. Destacase que a fiscalização identificou 70 “empresas” do esquema que tiveram algum tipo de atividade no período de 2008 a 2012. RESPONSÁVEIS PELA REDE PRESIDENTE FAMÍLIA TOLARDO Conforme já dito, a REDE PRESIDENTE teve origem na empresa Real Iguaçu (ou Tolardo Auto Peças), dos irmãos Tolardo (Samuel Tolardo e José Dario Tolardo), sediada em Maringá/PR. Na década de 90 essa empresa sofreu diversas autuações fiscais e sua sede foi mudada para o estado de São Paulo, após o que foram interpostos laranjas no seu quadro societário. Em 1995, a Real Iguaçu, com pesadas dívidas fiscais, passou à condição de inativa e foi abandonada pela família Tolardo. Samuel Tolardo adquiriu a Foramec e a partir dela criou a RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda., com o nome de fantasia “PRESIDENTE”. Fizeram parte do quadro societário dessa empresa Samuel Tolardo e Rogério Márcio Tolardo, seu filho. Robson Marcelo Tolardo, outro filho de Samuel Tolardo, teve vínculo empregatício de maio/2002 a maio/2010. No final de 1999, a família Tolardo passou a incluir laranjas no quadro societário da RPT. Destacase como prova desse fato, conversa telefônica de 05/05/2012 gravada pela Polícia Federal entre Íris da Silva Tolardo, esposa do falecido Samuel Tolardo, e sua amiga Leda (ou Ieda). Íris da Silva Tolardo comenta sobre a atitude de uma funcionária do esquema, Odete Cardoso Berti, que supostamente teria preterido um de seus filhos, Rogério Márcio Tolardo, na administração do esquema, ao dizer que o “patrão” seria apenas Robson Marcelo Tolardo. Ela diz ainda que, ao menosprezar o filho Márcio (Rogério Márcio Tolardo) em favor de Robson Marcelo Tolardo, Odete estaria menosprezando não apenas ele, mas também os demais, Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore e Samuel Tolardo Júnior. Isso porque todos seriam “sócios” da REDE PRESIDENTE. Forte elemento de comprovação da participação da família Tolardo no esquema é o arquivo “ACERTOS CELO MAR JR ALTERADOS.xls”, encontrado no pendrive de Odete e no pendrive de Samuel Tolardo Júnior. Esse arquivo controla os débitos e créditos entre os irmãos Tolardo e os rendimentos obtidos no esquema da REDE PRESIDENTE desde 30/11/2007 até 31/05/2011. Foram encontrados no HD apreendido na residência de Samuel Tolardo Júnior os extratos de conta de cartão de crédito AMEX dos meses de abril/2008 e fevereiro/2009 a maio/2009, cujos valores constavam na planilha. Essa conta AMEX está em nome de Robson Marcelo Tolardo, mas contém detalhamento de valores de despesas dos demais irmãos, bem como da mãe Íris da Silva Tolardo. Fl. 12490DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.423 14 Segundo a mencionada planilha, em todo o período de 30/11/2007 até 31/05/2011 cada irmão tinha direito a um “crédito mensal” de R$ 100.000,00 (cem mil reais). Durante o período, o irmão Rogério Márcio Tolardo recebeu valores, normalmente em cheques de terceiros, bem superiores, o que gerava uma dívida, ou saldo devedor, como o excerto de 30/11/2010, no valor de R$ 647.887,53 (seiscentos e quarenta e sete mil, oitocentos e oitenta e sete reais e cinquenta e três centavos). Essa dívida não era paga e os outros irmãos passavam a ter um crédito adicional no período seguinte, a fim de se equipararem a Rogério. Na prática, no período mencionado, cada um dos 4 irmãos recebeu crédito superior a R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) mensais. Esses valores foram confirmados no programa CAIXA encontrado em computador apreendido na residência de Lais de Oliveira Wochner e Ronaldo Paixão Wochner e comprovam o vínculo da família com a REDE PRESIDENTE. PROGRAMA CAIXA O Programa Caixa e todo o banco de dados alimentado por ele foram encontrados na residência de Lais de Oliveira Wochner, importante operadora do esquema, e Ronaldo Paixão Wochner, colaborador como programador no Departamento de Informática da filial 23. O programa provavelmente foi desenvolvido por este último. Conforme informado no Relatório Circunstanciado n° 176/2014 da Polícia Federal e Ofício 2348, de 24/09/2014, o programa e o banco de dados foram disponibilizados à fiscalização. O programa consiste em uma espécie de contabilidade e controlava os recursos físicos (não bancários) de todo o esquema da REDE PRESIDENTE, controlando o seu fluxo financeiro, com as remessas de valores das empresas (ou “filiais”) e a destinação dos recursos em espécie. A fiscalização extraiu vários relatórios desse programa, estando todas as extrações validadas pelo Laudo 300/2014 e seu anexo de arquivos juntados ao presente processo. Constavam no banco de dados várias “contas” representativas de custos, despesas, pagamentos, recebimentos, etc., bem como vários “centros de custos”, tais como os relativos a cada uma das “filiais”. Dentre os centros de custo destacase o “020 DIRETORES”. Entre as subcontas, sobressaem aquelas inerentes a cada um dos integrantes da família Tolardo. Filtrandose o centro de custos “20DIRETORES” e aplicandose outro filtro relativos às subcontas, foi possível filtrar os pagamentos efetuados a cada um deles. Como exemplo, os lançamentos do mês de janeiro/2009 relativos a Robson Marcelo Tolardo (Subconta Celo) totalizaram R$ 51.249,75 (cinquenta e um mil, duzentos e quarenta e nove reais e setenta e cinco centavos), correspondente a despesas pessoais como escola do filho, salário do caseiro, contas de telefone de casa, viagens aéreas, etc. Esse valor coincide com o valor da planilha “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls” encontrada nos pendrives de Odete e Samuel Tolardo Júnior. Essa coincidência de valores entre a mencionada base de dados e a planilha ocorre para os outros valores também. Algumas despesas eram rateadas entre os irmãos, como o aluguel de um salão de festas e uma conta de luz. SAMUEL TOLARDO Já foi relatado o surgimento da REDE PRESIDENTE, acrescentandose neste tópico mais informações sobre o mentor e responsável pelo esquema, Samuel Tolardo, falecido em 2007. Samuel Tolardo era bastante conhecido no ramo de autopeças no Paraná, mais especificamente na cidade de Maringá. Fl. 12491DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.424 15 Nas DIRPF do período 2001 a 2007 o endereço de Samuel Tolardo foi informado como sendo no estado de São Paulo, entretanto dado o seu costume de informar/declarar dados não verdadeiros para dificultar a fiscalização, nada mais profícuo do que a alteração do seu endereço. Rápida pesquisa na internet já demonstra que a cidade onde verdadeiramente residia era Maringá/PR, chegando ele a ser vítima de um sequestro no norte do Paraná. Em notícia do jornal eletrônico “Odiario.com”, de Maringá, vêse o relato de sua morte, tendo ocorrido um acidente quando dirigia a sua Pajero pela Avenida Parigot de Souza. Citase que era empresário do ramo de autopeças, conhecido por ser vítima de sequestro no Vale do Ivaí em 1999. Na fiscalização da NTE Auto Peças Ltda. EPP, foram obtidas cópias de cheques emitidos em 2006 por essa empresa, que tinha na época a razão social Alba Auto Peças Ltda., com assinaturas falsas de sua sócia laranja, Silvia Vilhalba. Esses cheques tinham que ser confirmados pelo titular da conta, em face das quantias elevadas. No Relatório Fiscal emitido naquele procedimento (Processo 11020.723699/201218) consta que foi encontrado o nome de Samuel Tolardo na parte superior dos cheques e o banco HSBC esquivouse de esclarecer esse fato. A exfuncionária do banco responsável pelas operações disse que era procedimento comum entrar em contato com as pessoas autorizadas pelas empresas, no caso de dúvidas quanto à liberação dos pagamentos. Outro elemento que vincula Samuel Tolardo à REDE PRESIDENTE é o trecho da denúncia feita em 2006 à Polícia Civil (Delegacia de Defraudações) por um ex funcionário da RPT, Ivanilto Mascena dos Anjos. No cumprimento dos Mandados de Busca e Apreensão foram encontradas várias procurações em benefício de Samuel Tolardo e relacionadas a empresas do esquema REDE PRESIDENTE. IRIS DA SILVA TOLARDO Iris da Silva Tolardo é a matriarca da família Tolardo, viúva de Samuel Tolardo. Embora não aparente ter poder decisório no esquema, tem pleno conhecimento das atividades e de seu caráter ilícito, além de ser beneficiada por todo o patrimônio e rendimentos obtidos da atividade. Aparece também como administradora/responsável por uma empresa registrada em nome dos seus filhos, bem como procuradora ou caucionante de aluguel de empresas do esquema. No Programa Caixa utilizado pela REDE PRESIDENTE, na subconta Íris foram identificados diversos pagamentos de despesas pessoais como TV a cabo, plano de saúde, água, telefone, consertos, etc., além de vultosos pagamentos com o histórico “RETIRADAS”. As vultosas retiradas denotam a posição de Íris da Silva Tolardo como coproprietária do esquema. ROBSON MARCELO TOLARDO Após o falecimento do pai, Robson Marcelo Tolardo tornouse o principal comandante da REDE PRESIDENTE. Fl. 12492DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.425 16 Há várias provas do envolvimento e da posição de Robson Marcelo Tolardo no esquema, como a resposta a uma intimação de uma das fornecedoras da RPS, que o menciona como proprietário da empresa, conversas por email, escutas telefônicas, procuração das empresas e “laranjas”, procuração de seu pai para efetuar a compra de uma das empresas, depoimento de seu tio à Polícia Federal, entrevistas com funcionários e exfuncionários. Um elemento que comprova a participação de Robson Marcelo Tolardo, bem como de seus irmãos, no esquema é o arquivo “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls” encontrado nos pendrives de Odete e de Samuel Tolardo Júnior. O programa CAIXA confirma os pagamentos verificados nesse arquivo. A REDE PRESIDENTE pagava todo tipo de despesas pessoais de Robson Marcelo Tolardo. As vultosas quantias mensais denotam a posição de coproprietário do esquema, tratandose de verdadeiro pró labore. JEANE CRISTINE TOLARDO DALLE ORE O arquivo “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls” e o programa CAIXA também comprovam a participação de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, filha mais nova de Samuel Tolardo. As despesas pessoais dela eram custeadas pela REDE PRESIDENTE e ela realizava retiradas vultosas, o que denota sua condição de coproprietário do esquema. Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore tinha participação ativa no esquema, sobretudo como administradora do grupo adquirido (Emprepar), conforme demonstram as ligações telefônicas interceptadas pela Polícia Federal. Há, inclusive, ligações entre ela e sua mãe e entre esta e Robson Marcelo Tolardo, as quais demonstram que a filha do exdono da Embrepar ensinou Samuel Tolardo Júnior e Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore sobre os procedimentos do negócio adquirido. Além de administrar a Embrepar, Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore tinha diversas procurações de sócios laranjas para gerir os negócios, era proprietária de diversos imóveis utilizados pela REDE PRESIDENTE, além de ser fiadora de contratos de locação de outros também utilizados pelo esquema. ROGÉRIO MÁRCIO TOLARDO O arquivo “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls” e o programa CAIXA também comprovam a participação de Rogério Márcio Tolardo, da mesma forma que seus irmãos. Ele teve envolvimento ativo na REDE PRESIDENTE desde cedo, constando como sócio da RPT juntamente com seu pai. Foram encontradas várias procurações outorgadas pelos “laranjas”, para que Rogério Marcelo Tolardo administrasse empresas do esquema. Além disso, ele é proprietário de seis imóveis utilizados pela REDE PRESIDENTE e aparece nas conversas telefônicas como administrador do esquema. SAMUEL TOLARDO JÚNIOR Da mesma forma que seus irmãos, o arquivo “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls e o programa CAIXA comprovam a participação de Samuel Tolardo Júnior no esquema, no papel de sócios. Fl. 12493DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.426 17 No seu apartamento foram encontrados vários documentos do esquema, que comprovam a sua participação desde 1996. É dele a propriedade de vários imóveis utilizados pela REDE PRESIDENTE, além de lhe terem sido outorgadas procurações para administração das empresas. É de se destacar, ainda, as escutas telefônicas nas quais foi mencionado diversas vezes como integrante do esquema. DA SONEGAÇÃO DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS Conforme visto e demonstrado exaustivamente no Relatório Fiscal, o acesso ao Sistema CAIXA pela Polícia Federal possibilitou que se verificasse os pagamentos efetuados pelo esquema, bem como a identificação das filiais. Essa identificação das filiais ou empresas envolvidas também pôde ser apurada nas planilhas de vendas encontradas no computador de Daniel de Oliveira Júnior e pelos diversos controles encontrados no cumprimento dos Mandados de Busca e Apreensão. Depois do confronto das verbas verificadas com as folhas de pagamento e GFIP das várias empresas da REDE PRESIDENTE, a Auditoria constatou que tais documentos não traziam a maioria das verbas, ou seja, houve sonegação de contribuições previdenciárias. O grupo estava pagando, por exemplo, salários, valetransporte, valealimentação, aluguéis, comissões, gratificações, etc. sem considerálos para fins de incidência de contribuição previdenciária. Para apurar o total de contribuição previdenciária sonegada, foram excluídas do Extrato da Conta Caixa todas as verbas que não possuíam natureza salarial, tendo sido constatado valores pagos a empregados das seguintes empresas do GRUPO PRESIDENTE: PRE Comércio e Distribuidora de Auto Peças Ltda.; A P E Auto Peças Ltda.; IME Peças para Veículos Ltda. ME; PRV Comércio de Peças Ltda. ME; Daniel de Oliveira Júnior; PRV Comércio Atacadista de Peças Automotivas Ltda.; PRS Peças para Veículos Ltda.; Fort Lub Produtos Automotivos Eireli ME; RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda. Os valores pagos a empregados foram comparados com aqueles declarados em GFIP e a diferença foi considerada para apuração da base de cálculo das contribuições previdenciárias sonegadas. Foram apurados valores pagos a pessoas físicas por serviços prestados como motoboys das seguintes empresas do GRUPO PRESIDENTE: PRE Comércio e Distribuidora de Auto Peças Ltda.; Fl. 12494DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.427 18 A P E Auto Peças Ltda.; IME Peças para Veículos Ltda. ME; PRV Comércio Atacadista de Peças Automotivas Ltda.; PRS Peças para Veículos Ltda.; RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda.; Foram apurados valores pagos a diretores membros da família Tolardo por meio da empresa RPT Distribuidora de Auto Peças Ltda. Com relação aos valores pagos aos motoboys e aos membros da família Tolardo, não houve deduções, pois não havia declaração de tais valores em GFIP. Apesar de ter sido declarado em GFIP prólabore pagos aos sócios laranjas, não houve nenhuma declaração em GFIP dos valores pagos à família Tolardo e discriminados no “Extrato de Conta Bancária”. DO MODUS OPERANDI A sistemática do GRUPO PRESIDENTE para sonegar as contribuições previdenciárias consistia em pagar em dinheiro ou depositar nas contas correntes de seus empregados verbas de cunho salarial sem considerálas na apuração desses tributos. Determinadas verbas (aluguel, valetransporte, auxílioalimentação, pagamento a motoboys, retiradas de diretores) eram sonegadas completamente. Outras (salário, gratificação, comissão, rescisão, férias, 13°), eram sonegadas em parte. Em uma auditoria ordinária seria quase impossível a identificação desses valores, tendo a apuração sido possibilitada pela execução dos Mandados de Busca e Apreensão decorrentes da Operação Laranja Mecânica, quando a fiscalização pôde acessar o “Caixa 2”. Os Mandados de Busca e Apreensão tiveram como alvo vários endereços, destacandose o bunker da Rua das Camélias, 690, Maringá/PR, uma residência de alvenaria, sem identificação alguma. Esse lugar foi identificado nas investigações policiais, principalmente por escutas telefônicas, quando se apurou que lá funcionaria o controle de Recursos Humanos do esquema. Foi em um HD apreendido nesse endereço que se encontrou o programa CAIXA. Além do pagamento de verbas a empregados registrados, foram detectados pagamentos de salário a empregados sem registro. Os salários desses empregados e verbas como férias eram objeto de recibos comuns. Foram encontrados também comprovantes de depósitos nas contas dos empregados em valores bem superiores àqueles declarados. DOS PAGAMENTOS A MOTOBOYS No exame do Extrato de Caixa, foram constatados centenas de pagamentos efetuados a pessoas físicas prestadores de serviços de motoboys. A contribuição a cargo das empresas que contratam pessoa física para lhe prestar serviços sem vínculo empregatício é de 20% sobre o valor da remuneração paga, conforme art. 22, III, da Lei n° 8.212/1991. DO VALETRANSPORTE PAGO EM DESCONFORMIDADE COM A LEGISLAÇÃO Fl. 12495DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.428 19 A jurisprudência dos Tribunais Regionais Federais é unânime em considerar o caráter salarial dos valores de valetransporte pagos em pecúnia, pois consiste em violação ao disposto no art. 5° do Decreto n° 95.247/1987, pelo qual é vedado ao empregados substituílo por antecipação em dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento. Assim, deve integrar a base de cálculo das contribuições previdenciárias. Também se defendeu a tese de que o vale transporte pago em dinheiro e de forma contínua passa a integrar a remuneração do empregado, incidindo a contribuição previdenciária com base no art. 201, § 11, da Constituição Federal. DO AUXÍLIOALIMENTAÇÃO PAGO EM DESCONFORMIDADE COM A LEGISLAÇÃO O auxílioalimentação tem natureza salarial quando a empresa não está incluída no Programa de Alimentação do Trabalhador PAT, nos termos da Lei n° 6.321/1976, conforme art. 28, §9°, da Lei n° 8.212/1991 e art. 3° da lei n° 6.321/1976. Assim, os valores pagos em dinheiro apurados foram considerados pela fiscalização como base de cálculo das contribuições previdenciárias. DA MULTA DE OFÍCIO São utilizadas pessoas físicas “laranjas” na constituição de empresas participantes do esquema REDE PRESIDENTE, dentre as quais a fiscalizada. São usados expedientes escusos, como a falsificação de diversos documentos e assinaturas. Essa conduta visa a modificar uma característica essencial do fato gerador da obrigação, o real sujeito passivo, enquadrandose a situação no conceito de fraude previsto no art. 72 da Lei n° 4.502/1964. Igualmente, enquadrase no conceito de sonegação dado pelo art. 71, II, da mesma lei, vez que se constitui em ação dolosa tendente a impedir o conhecimento das condições pessoais do contribuinte suscetíveis de afetar a obrigação tributária ou o crédito tributário. Os pagamentos “por fora” efetuados aos empregados, descobertos graças aos Mandados de Busca e Apreensão, consistem em omissão de parcela relevante da remuneração, incorrendo o contribuinte nos conceitos de fraude (ação tendente a impedir a ocorrência do fato gerador ou modificar suas características) e sonegação (ação tendente a impedir o conhecimento da autoridade tributária da ocorrência, natureza e circunstâncias do fato gerador, reduzindo o montante do tributo devido). Ambas as condutas evidenciam claramente o dolo do contribuinte, impondo a aplicação da multa de ofício qualificada em percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) prevista no art. 44 e seu §1° da Lei n° 9.430/1996. DA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA Em face da comprovação inequívoca de que os reais proprietários e administradores da fiscalizada são os integrantes da família Tolardo, eles são nomeados sujeitos passivos solidários mediante lavratura de Termo de Sujeição Passiva Solidária, com base no art. 124, I, e art. 135, III, do Código Tributário Nacional CTN. Como foi fartamente comprovado que os integrantes da família Tolardo são os verdadeiros proprietários e beneficiários do esquema REDE PRESIDENTE, resta inequívoco que têm interesse comum nos negócios desse esquema, do qual faz parte a empresa alvo do lançamento. Além disso, o art. 135 do CTN impõe a solidariedade dos verdadeiros diretores gerentes ou representantes do empreendimento. A responsabilidade pessoal decorre Fl. 12496DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.429 20 de atos praticados com excesso de poderes ou infração à Lei, exatamente o caso da família Tolardo, que se utiliza de meios fraudulentos, tais como interposição de laranjas em sua empresas, ou a larga prática de vendas sem nota fiscal, à margem da escrituração ou de declaração. Dessa forma, lavramse os competentes Termos de Sujeição Passiva Solidária em desfavor dos reais sócios proprietários do esquema: Sra. Íris da Silva Tolardo, Sr. Robson Marcelo Tolardo, Sr. Rogério Márcio Tolardo, Sr. Samuel Tolardo Júnior e Sra. Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Ciência da PRV A correspondência enviada para o endereço cadastral da PRV foi devolvida com a informação dos Correios de que a empresa mudouse. Foi emitido, pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Brasília/DF o Edital Eletrônico 001070687, com data de publicação 15/12/2014 e data da ciência 30/12/2014. Foi emitido também, pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Maringá/PR, o Edital Eletrônico 001070688, com data de publicação e de ciência idênticas. Ciência de Robson Marcelo Tolardo A correspondência enviada para Robson Marcelo Tolardo no seu endereço em São Paulo/SP retornou com a seguinte informação dos Correios: “Desconhecido inf. Cezar”. A correspondência enviada para o endereço em Maringá/PR também foi devolvida, tendo sido registrado pelos Correios como motivo “Mudouse inf. por caseiro”. Foram emitidos os seguintes editais eletrônicos: Edital Eletrônico emitido pela Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Pessoas Físicas em São Paulo/SP, com data de publicação 15/12/2014 e data de ciência em 30/12/2014; Edital Eletrônico emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Maringá/PR, com data de publicação 15/12/2014 e data de ciência em 30/12/2014. Impugnação de Rogério Márcio Tolardo Rogério Márcio Tolardo foi intimado em seu endereço de Curitiba/PR em 10/12/2014 e em seu endereço no Rio de Janeiro/RJ em 12/12/2014, conforme Avisos de Recebimento juntados aos autos. Em 07/01/2015, apresentou impugnação, alegando, em resumo que: A impugnação é tempestiva, pois o impugnante tomou conhecimento do Auto de Infração por terceiros, não tendo acontecido a intimação pessoal. AUSÊNCIA DE MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL De acordo com o Decreto n° 7.574/2011, art. 33, qualquer procedimento de apuração de créditos tributário impõe a necessidade de cientificação prévia do sujeito passivo, entretanto o impugnante não foi cientificado da existência de processo de fiscalização em Fl. 12497DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.430 21 andamento contra si, tampouco da desconsideração da personalidade jurídica da empresa autuada e da sua responsabilização solidária. A Portaria RFB n° 3.014/2011, art. 4° e art. 7°, II, exige que seja emitido Mandado de Procedimento Fiscal que contenha os dados identificadores do sujeito passivo e que haja a ciência deste. Uma vez que não houve a ciência do impugnante da ação fiscal, houve cerceamento do seu direito à ampla defesa e ao contraditório, não lhe sendo garantido o devido processo legal. Em ofensa ao art. 296 do Código Tributário Nacional, não houve a lavratura do termo de início do procedimento em nome do impugnante, o que impossibilitou a sua defesa. O impugnante sequer faz parte da pessoa jurídica autuada, que tem personalidade jurídica própria e distinta, e só tomou conhecimento do procedimento de fiscalização por meio do recebimento do Termo de Sujeição Passiva Solidária encaminhado por via postal quando da lavratura do Auto de Infração. Não havendo a cientificação, a sujeição passiva solidária baseouse em presunções. Assim, deve ser reconhecida a nulidade do processo administrativo fiscal. NULIDADE DA INTIMAÇÃO REALIZADA PELOS CORREIOS Segundo o Decreto n° 70.235/1972, art. 23, a intimação pessoal é a regra e somente sendo ela infrutífera, podem ser procedidas as demais formas. Essa regra é repetida pelo Decreto n° 7.574/2011, art. 10, I. Além disso, segundo os mesmos decretos, a intimação por via postal deve ser endereçada ao domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo. No caso, contudo, a correspondência foi enviada a outros endereços diferentes daquele constante na DIRPF do impugnante, o que gera a sua nulidade. Não comprovada a ciência inequívoca do impugnante, deve ser reconhecida a nulidade da intimação por falta de observância da lei, devendo ser determinada a sua realização ou deve ser ela considerada efetivada quando da disponibilização do processo administrativo fiscal ao sujeito passivo. CERCEAMENTO DE DEFESA Houve a desconsideração de personalidade jurídica e a responsabilização do impugnante por meio de um termo de sujeição passiva tributária, sem qualquer fundamentação ou elementos de convicção para tal, além de não ter ele participado do processo administrativo fiscal. Imputações dessa natureza não podem se basear em meras ilações e presunções, portanto deveriam ter sido enviados ao sujeito passivo cópias de todos os documentos utilizados pela Auditoria Fiscal, o que não ocorreu. Fl. 12498DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.431 22 O impugnante compareceu à Unidade da Receita Federal do Brasil onde possui domicílio fiscal e entregou mídias para gravação, porém não lhe foi fornecido o conteúdo integral do processo administrativo. Dessa forma, diante do cerceamento de defesa do impugnante e conforme art. 12, II, do Decreto n° 70.235/1972, é nulo o processo. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO IMPUGNANTE O processo administrativo foi instaurado com a utilização dos elementos coligidos nos processos administrativos fiscais 11020.723699/201218 e 15586.720329/2011 95 e no Inquérito Policial 256/2008 da Delegacia da Polícia Federal de Maringá, entretanto mostrase nulo o direcionamento administrativo contra a impugnante, como se sujeito passivo solidário fosse, por ausência de prova que o justifique, notadamente perante a ausência de qualquer demonstração de vínculo entre a impugnante e a empresa autuada naqueles autos. A afirmação de que o sócio da impugnante seria laranja e faz parte de um grande esquema não é verdadeira e baseiase em meras presunções. A conclusão a que chegaram os Auditores Fiscais decorreu do inquérito policial, que é um procedimento policial administrativo, de cunho meramente investigativo e inquisitivo, sem contraditório e ampla defesa, pois a impugnante, na pessoa de seu sócio, sequer foi ouvida pela autoridade policial. Não é admissível a prova emprestada, pois a sua produção ocorreu no âmbito do inquérito policial, sem ser observado o contraditório e a ampla defesa. ILEGITIMIDADE DO AUDITOR FISCAL O Auditor Fiscal extrapolou os limites de sua competência funcional prevista na Lei n° 10.593/2002, ao desconsiderar a personalidade jurídica da empresa e atribuir responsabilidade objetiva e solidária ao impugnante sem indicar concretamente os motivos, notadamente porque o impugnante não é sócio da autuada e não exerce qualquer função dentro dela, não estando relacionado ao fato gerador do tributo lançado. A responsabilidade invocada para o impugnante balizouse no art. 124, I, do CTN, sem ser indicado seu interesse ou relação com a situação que constituiu o fato gerador. E com respeito ao art. 135, III, do mesmo código, não foi provado pelo Auditor Fiscal que o impugnante esteja relacionado à empresa autuada como diretor, gerente ou representante e, nessa condição, tenha praticado qualquer ato com excesso de poder ou infração de lei. A responsabilização efetuada é de competência exclusiva do Procurador da Fazenda Nacional, na esfera judicial, desde que presentes os requisitos. O Auditor Fiscal é parte manifestamente ilegítima para imputar tal responsabilidade, sendo o ato nulo por falta de competência, conforme estatui o art. 59, II, do Decreto n° 70.235/1972. ILICITUDE DAS PROVAS UTILIZADAS As provas utilizadas no processo administrativo, decorrentes de mandados de busca e apreensão são ilícitas, já que determinados por autoridade judicial incompetente para análise da matéria. Fl. 12499DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.432 23 O inquérito policial teve origem em compartilhamento de dados entre o COAF, Receita Federal e Ministério Público, sem qualquer autorização judicial. “Além disso, o juízo que decretou a busca e apreensão, no momento em que houve a instauração dos procedimentos, nenhum dos crimes investigados eram crimes antecedentes do delito de lavagem de dinheiro. Portanto, a vara de lavagem de dinheiro não tinha competência para processar o feito'’". Ainda que fossem emanadas de juiz competente, houve extrapolação dos limites da ordem judicial pela autoridade fiscal, que se baseou em elementos de provas colhidas em computadores particulares de terceiros, para os quais não foram expedidos mandados de busca e apreensão específicos. Não houve, em relação a esses terceiros, autorização específica de quebra de sigilo de mensagens eletrônicas e arquivos digitais, o que causa a nulidade das provas. Além de ter havido violação ao seu direito de privacidade e ao sigilo das comunicações telefônicas, as conversas desses terceiros não guardam qualquer relação com a autuação e fiscalização. O sigilo bancário só pode ser quebrado mediante autorização judicial nas hipóteses de conduta delituosa configurada, nunca por arbítrio do agente fiscal. Não foram observados os requisitos para a quebra do sigilo dos terceiros, não sendo as provas fundadas em elementos concretos, sérios e idôneos, sendo nula a decisão que não se ampara em fatos e fundamentos de pleno direito, especialmente quando o juiz era incompetente. Não há prova do envolvimento do impugnante. A utilização de um pendrive com um trabalho de conclusão de curso de terceiro como base para a transplantação da responsabilidade para o impugnante é presunção. A utilização de dados sigilosos, inclusive de terceiros, com a quebra de sigilos fiscais, de dados de informática e utilização de planilhas unilaterais, que sequer foram fornecidas à parte, constitui uso de provas ilícitas. O acusado deve ter ciência da prova na primeira oportunidade após a sua realização, não se podendo cogitar de prova não sujeita ao contraditório. PREJUDICIAL AO MÉRITO NECESSIDADE DE SUSPENSÃO O Código de Processo Civil, em seu art. 13, determina que, verificada irregularidade na representação do contribuinte no processo, a autoridade julgadora deve suspender o processo, determinando prazo razoável para ser sanado o defeito. Em face do disposto no art. 265, IV, o julgamento do processo deve ser sobrestado até que o processo principal seja apreciado. O mesmo art. 265, no seu inciso UI, determina que se suspende o processo quando a sentença de mérito dependa do julgamento de outra causa ou da declaração de existência da relação jurídica que constitua o objeto principal de outro processo pendente. Há necessidade de o processo administrativo fiscal aguardar o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal sobre a quebra do sigilo bancário diretamente pela autoridade administrativa, realizada pelo Auditor Fiscal sem qualquer justificação ou fundamentação, já que a Lei Complementar n°105 é objeto de 5 (cinco) Ações Diretas de Inconstitucionalidade ADIN, toda apensadas à ADI 2390, ainda pendente de julgamento. Fl. 12500DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.433 24 Se o processo prosseguir haverá a nulidade das exigências fiscais, pois realizado com base em leis objeto de ações questionando a sua inconstitucionalidade. A Portaria MF n° 103/2002 já previu que, no caso de julgamento pelo STF, os órgãos administrativos julgadores devem automaticamente adotar o seu entendimento jurisprudencial. Devem ser aguardados os julgamentos, a fim de que as decisões administrativas não sejam proferidas em confronto com o entendimento dessa corte. Assim, a impugnante requer a suspensão do prosseguimento do processo administrativo fiscal, até a supressão da causa impeditiva à continuidade da exigência fiscal. AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE DO IMPUGNANTE IMPOSSIBILIDADE DE IMPUTAÇÃO DA RESPONSABILIDADE A TERCEIRO Não foi provado que o impugnante recebia recursos da pessoa jurídica autuada. A Auditoria sequer conseguiu provas de que o impugnante participou da administração da sociedade, como email ou mensagem, ordens, autorizações ou qualquer outro ato. O impugnante tem outras atividades, sendo sócio de uma empresa que comercializa equipamentos eletrônicos, além de prestar serviços na mesma área, tudo devidamente declarado em seu Imposto sobre a Renda. “O simples fato de ser filho de Samuel Tolardo não implica em dizer que todas as auto peças que sofreram autuação fiscal são de responsabilidade de seu falecido pai”. Mesmo que ficasse configurada a responsabilidade de seu genitor, esse fato não é suficiente para a transferência da responsabilidade efetuada. O impugnante nunca teve procuração da empresa ou de seus sócios para administrála. As procurações mencionadas dizem respeito a outros fatos e outras pessoas. Não há comprovação de atos praticados por ele que pudessem gerar débitos. Não há vinculação do impugnante com os fatos geradores, tampouco o interesse comum previsto no art. 124 do CTN. Seria necessária a sua participação efetiva no fato gerador do tributo, conjuntamente com os outros sujeitos passivos. O art. 134 do CTN dispõe que a responsabilidade de terceiros somente ocorre nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação pelo contribuinte. Tampouco o impugnante se enquadra no art. 135 do CTN. Não é sócio da empresa, não a administra e ela continua ativa e sujeita à exigibilidade da autuação fiscal. Ademais, se não há responsabilidade do sócio gerente pelo simples inadimplemento do tributo, não pode haver a responsabilização objetiva do impugnante. Os atos praticados foram descaracterizados pela Auditoria sem cumprimento do art. 116, parágrafo único, do CTN. Inexiste lei ordinária e, consequentemente, a previsão dos procedimentos para a desconsideração de atos e fatos jurídicos, como fez a fiscalização. Além disso, para a desconsideração da personalidade jurídica, é necessária autorização judicial, não tendo o Auditor Fiscal poderes para tal. INEXISTÊNCIA DE PROVA DE BENEFÍCIO PELO IMPUGNANTE Fl. 12501DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.434 25 A responsabilização do impugnante foi pautada em documentos unilaterais elaborados por terceiros, sem qualquer identificação do Impugnante, tendo havido mera presunção. Os fiscais reconhecem que as planilhas se referem a anos anteriores ao período lavrado, não podendo servir de prova, tratandose de mera presunção. O fato de os sócios de algumas das empresas indicadas no Relatório Fiscal terem sido funcionários da empresa pertencente ao falecido Sr. Samuel Tolardo não é suficiente para a responsabilização de 70 empresas e seus respectivos sócios e de toda a família Tolardo, indicados equivocadamente como sócios de fato. Não existe previsão legal expressa que albergue a responsabilização efetuada. A lei não estabelece que familiares ou qualquer sócio eventualmente de fato devam ser responsáveis por solidariedade. O legislador não pode estabelecer confusão entre os patrimônios das pessoas físicas e jurídicas, desconsiderando a personalidade jurídica e descaracterizando as sociedades limitadas, implicando em irrazoabilidade e afrontando os arts. 5°, XIII, e 170, parágrafo único, da Constituição Federal. O enquadramento no art. 124, I, do CTN não pode prosperar, uma vez que as empresas são absolutamente autônomas, com sócios distintos, localizadas em bairros, cidades e estados distintos, sem qualquer identidade em seu quadro social e objeto social, com quadro de funcionários próprio. Não se trata sequer de grupo econômico, pois possuem administração própria e descentralizada e não realizavam conjuntamente a situação configuradora do fato jurídico tributário. Ademais, o simples fato de as empresas se apresentarem como um grupo empresarial para o mercado não é suficiente para caracterizar a solidariedade por grupo econômico, devendo haver a comprovação de existência de unidade jurídica de controle ou planificação de atividade de forma que seja interligada a utilização da mão de obra, o que não se verifica no caso. A responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN se realiza quando todos os devedores tenham realizado conjuntamente o fato gerador, o que não se vislumbra no processo. No caso, os “sócios de fato” não praticaram o fato gerador em conjunto com a empresa. Não foi concebido um único ato, por exemplo, em que o impugnante ou qualquer membro da sua família tenha realizado o fato tributário, sendo temerário, excessivo e ilegal a sua responsabilização. Afirmar que ele sabia de tudo não é suficiente para que lhe seja imputada a responsabilidade solidária, mormente quando ela é absolutamente estranha à empresa. O simples fato de algumas sociedades pertencerem a um grupo econômico não acarreta a responsabilidade tributária prevista no art. 124, I, do CTN, ficando a Fazenda Pública impedida de imputar ao grupo a corresponsabilidade, já que o interesse em comum era apenas econômico e não jurídico. PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA Fl. 12502DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.435 26 O prazo decadencial está previsto no art. 173, I, do CTN. A extinção do crédito tributário pela decadência está previsto no art. 156, V, do CTN, que estipula ser de cinco anos o prazo para o lançamento do crédito tributário. O lançamento dos tributos deveria ser feito por homologação, o que não ocorreu. Assim, a Fazenda não constituiu devidamente o crédito tributário em relação à impugnante, já que não foi realizado o lançamento e a respectiva cientificação. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário, portanto, decaiu. Não acatada a decadência, requer seja acatada a prescrição dos créditos tributários. AUSÊNCIA DE RELAÇÃO DE EMPREGADOS, AVULSOS, A UTÔNOMOS ETC. O Auditor Fiscal não nominou no seu relatório os empregados a quem a empresa teria efetuado os pagamentos, tampouco a forma e as condições do pagamento. Baseouse em documentos apócrifos, unilaterais e inservíveis como prova. Em consequência, a Notificação é improcedente e nula. Foi infringido o art. 10 do Decreto n° 70.235/1972 e o direito da impugnante à ampla defesa. INCONSTITUCIONALIDADE IMPOSSIBILIDADE DA AMPLIAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO A redação original do art. 195, I, da Constituição Federal somente se referia à folha de salários, sendo inconstitucional a redação original da Lei n° 8.212/1991 que fazia incidir a contribuição sobre quaisquer rendimentos pagos ao trabalhador. Somente a partir da Emenda Constitucional n° 20/1998, o art. 195, I, da Constituição foi alterado para albergar quaisquer rendimentos do trabalho pagos à pessoa física. Assim, é flagrante a inconstitucionalidade da exigência da contribuição sobre a remuneração até 1999. Mesmo após a Emenda Constitucional n° 20/1998, sobre as verbas com caráter indenizatório não incidem as contribuições previdenciárias, uma vez que não constituem retribuição pelo trabalho, mas sim objetivam reparar uma perda, repondo o patrimônio do ofendido. São elas: adicionais de periculosidade, insalubridade, noturno, abono de férias, horas extraordinárias, gorjetas, prêmios, abonos, ajudas de custo, diárias de viagens e outras. Da mesma forma, verbas não habituais não podem ser tributadas. Assim, devem ser excluídas da base de cálculo lançada os valores que não são salário strictu sensu, com novos cálculos dos valores devidos. INEXIGÊNCIA DO SALÁRIOEDUCAÇÃO INCONSTITUCIONALIDADE A contribuição denominada SalárioEducação não é contribuição para a Seguridade Social e não se enquadra no art. 240 da Constituição Federal. Dessa forma, o art. 1° da Medida Provisória n° 1.5651/97 e o art. 15 da Lei n° 9.424/1996 são inconstitucionais por elegerem a folha de salários como base de cálculo dessa contribuição, pois tal verba somente pode ser base de cálculo das contribuições para a Seguridade Social. INEXIGÊNCIA DO INCRA EMPRESA DE PREVIDÊNCIA URBANA Fl. 12503DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.436 27 O INCRA não é exigível, pois a empresa autuada é urbana e não exerce atividade rural. Esse é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça. Mesmo que a empresa fosse contribuinte do INCRA, o STF equiparou tal contribuição àquelas das entidades de promoção profissional, “juridicizada pelo art. 21, §2°, da Carta de 1969”. Essa espécie de contribuição foi prevista na Constituição de 1988, no seu art. 149. Não tem, pois, natureza de contribuição para a Seguridade Social. De acordo com a Constituição de 1988, a folha de salários somente pode ser base de cálculo das contribuições para a Seguridade Social e de formação profissional vinculada ao sistema sindical (art. 240). O art. 62 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias ADCT, que determinou a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SENAR, não fez alusão às contribuições, como fez o art. 240 da Constituição Federal. Assim, houve a revogação da lei anterior relativa ao INCRA, por incompatível com a existência do SENAR, não havendo a recepção pela Constituição de 1988. INEXIGÊNCIA DO SAT NECESSIDADE DE LEI COMPLEMENTAR Quanto ao SAT, apesar de seu nomen juris indicar que se trata de uma contribuição complementar ou adicional à contribuição prevista no art. 22, I, da Lei n° 8.212/1991, é na verdade mais um tributo incidente sobre a mesma base de cálculo. Assim, é totalmente inconstitucional, pois os arts. 195, §4°, e 154, I, da Constituição Federal dispõem que a criação desse tributo somente poderia ocorrer por lei complementar. Sob outro aspecto, o SAT é inconstitucional porque sua alíquota é definida por ato exclusivo do Poder Executivo, o qual definiu, por meio dos Decretos números 612/1992 e 2.173/1997 sua base de cálculo e alíquotas. Esse é o entendimento do Tribunal Regional Federal da 4a Região e do STJ. ILEGALIDADE DA COBRANÇA SOBRE VERBAS Devem ser excluídas, por falta de previsão legal, todas as verbas de caráter indenizatório, tais como: valores pagos nos 15 (quinze) primeiros dias de afastamento do empregado doente ou acidentado; aviso prévio indenizado e a projeção dele decorrente de um avo de décimo terceiro salário; o adicional de 1/3 (um terço) de férias, o abono de férias, férias indenizadas, saláriomaternidade, valetransporte, valores recebidos a título de ganhos eventuais, os abonos expressamente desvinculados do salário e o auxílioalimentação. Já está pacificado no STJ o entendimento de que não incide contribuição previdenciária sobre o auxílio doença pago pelo empregador nos primeiros 15 (quinze) dias da licença, por constituir verba decorrente de inatividade, que não possui natureza salarial. O art. 28, §9°, “e”, “7”, da Lei n° 8.212/1991 exclui da base de cálculo da contribuição previdenciária os valores recebidos a título de ganhos eventuais e os abonos expressamente desvinculados do salário. O Pleno do egrégio STF, ao julgar o Recurso Extraordinário 478.410/SP em 10/03/2010, pacificou entendimento de que, mesmo quando pago em pecúnia, não há incidência de contribuição previdenciária sobre o valetransporte. Fl. 12504DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.437 28 No próprio Relatório Fiscal consta que a empresa forneceu auxílio alimentação in natura a seus empregados. O STJ já se manifestou no sentido de que o pagamento in natura do auxílioalimentação, ou seja, quando a própria alimentação é fornecida pela empresa, não sofre incidência da contribuição previdenciária, por não constituir verba de natureza salarial, esteja ou não o empregador inscrito no Programa de Alimentação do Trabalhador PAT. A União desistiu das ações que discutem o fornecimento in natura do auxílioalimentação, bem como do valor pago a título de valetransporte e seguro de vida. A AdvocaciaGeral da União AGU e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional – PGFN publicaram orientações para que os procuradores não recorram mais nessas situações. Há especificamente o Parecer PGFN/CRJ n° 2.117/2011 sobre o auxílioalimentação. INEXIGÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO AO SISTEMA “S A USÊNCIA DE VlNCULAÇÃO DA ARRECADAÇÃO As contribuições destinadas ao SESC, SENAC, SESI e SENAI são tributos vinculados, devendo haver uma contraprestação ao contribuinte por parte da entidade arrecadadora, o que não ocorre no caso das empresas de prestação de serviços. As entidades beneficiadas com a contribuição são aquelas destinadas aos comerciários, sendo o objetivo a melhoria das suas condições de trabalho e a promoção de cursos de qualificação. MULTA A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos não autoriza a qualificação da multa de ofício ou de rendimentos. A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos também não autoriza a qualificação da multa. Ademais, a impugnante não pode responder pela empresa e sequer tinha conhecimento do mandado de procedimento fiscal, não podendo serlhe infringido ato praticado por outrem, o que ofende os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Assim, a multa deve ser excluída, mesmo porque não se pode aplicar dupla penalidade: uma pelo arbitramento dos lucros e outra pela não entrega dos documentos, pois ambas decorrem do mesmo fato. Não foi comprovado o intuito de fraude. A multa tem caráter confiscatório e fere os princípios da razoabilidade e da capacidade contributiva, pois hodiernamente se admite pena em valor não superior a 2%, conforme Lei n° 9.298/1996. A proibição constitucional de confisco se estende às multas, não se restringindo somente aos tributos. A Administração não pode locupletarse em face dessa cobrança excessiva. O Tribunal Pleno do STF já entendeu que são abusivas as multas moratórias que superam os 100%. No caso, aplicouse duplamente a multa de 150%. O Min. Celso de Mello, em decisão monocrática no RE 754.554/GO reconhecer ser confiscatória multa de 25%. Não há prova de que foi concedido prazo razoável à contribuinte para apresentar os documentos, “até porque a Impugnante não foi intimada de nada disso”. Fl. 12505DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.438 29 Dessa forma, a multa deve ser excluída ou, eventualmente, reduzida para, no máximo, 10% (dez por cento). Caso não sejam acatados esses pedidos, pede que a multa seja reduzida de 150% para 75%. A impugnante não praticou nenhuma fraude ou omissão dolosa durante o processo fiscalizatório. Não houve fraude, nem sonegação, pois a empresa entregou todos os documentos solicitados, informando, inclusive, que os demais estavam em poder da Polícia Federal. Ademais, o CARF decidiu que, havendo o arbitramento, que já é uma penalidade, não cabe o agravamento da multa. Houve bis in idem, já que “utilizouse da infração à legislação previdenciária e da legislação do imposto de renda”. O Auditor Fiscal aplicou a multa prevista na legislação previdenciária e também a multa de 150% prevista na legislação tributária em geral, cumulando várias penalidades para o mesmo fato. TAXA SELIC É ilegal a aplicação da Taxa SELIC não deve ser aplicada para correção de créditos tributários. Essa taxa tem caráter estritamente remuneratório e embute os juros e a correção monetária, sendo elevada e onerosa para o contribuinte. Ademais, não foi estipulada em lei, havendo a sua estipulação pelo Banco Central contraria o art. 161, §1°, do Código Tributário Nacional, que exige a instituição da taxa de juros por lei ordinária. O Superior Tribunal de Justiça pacificou entendimento de que a aplicação da Taxa SELIC é ilegal e inconstitucional. Não há previsão legal para a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. Nesse sentido já se manifestaram o CARF e o Superior Tribunal de Justiça. Assim, a impugnante pleiteia seu afastamento do Auto de Infração. Além disso, os juros somente poderão incidir depois de decorrido o trâmite procedimental administrativo, a partir da intimação para pagamento depois do julgamento, caso seja mantida a condenação. PROVAS E IMPUGNAÇÃO Deve haver igualdade entre o contribuinte e a Receita Federal do Brasil no processo. Enquanto esta última teve mais de dois anos para analisar os documentos, o impugnante teve que se contentar com 30 dias, ainda sem acesso ao conteúdo dos autos, por problemas técnicos da própria Receita Federal. As provas são nulas porque os Auditores Fiscais consideraram provas ilícitas para justificar a caracterização de grupo econômico e arbitrar o faturamento, obtidas em locais que sequer possuem relação com a impugnante. Caso não seja considerada a nulidade de tais provas, o impugnante requer a realização de perícia e colheita de depoimentos, cujos quesitos e rol serão apresentados quando ela tiver acesso ao conteúdo integral do processo. O impugnante está impossibilitado de elaborar quesitos sem conhecimento prévio e amplo da acusação e da documentação em poder do Fisco, sob pena de violação ao devido processo legal. Fl. 12506DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.439 30 REQUERIMENTOS FINAIS Pede que sejam reconhecidas as nulidades apontadas e, no mérito, seja julgada improcedente a exigência fiscal, sendo reconhecida a ausência de responsabilidade. Requer a produção de provas pericial e oral e a juntada de documentos em ulterior fase, em razão do exíguo prazo que lhe foi concedido, bem como que seja intimada das decisões, reservandose o direito de complementar a defesa após ter acesso ao conteúdo integral do processo administrativo fiscal. Impugnação de Íris da Silva Tolardo Íris da Silva Tolardo foi intimada em seu endereço de Maringá/PR em 10/12/2014 e em seu endereço em São Paulo/SP na mesma data, conforme Avisos de Recebimento juntados aos autos. Em 07/01/2015, apresentou impugnação na qual, em essência, repete as alegações relatadas quando da descrição da impugnação de Rogério Márcio Tolardo. Os requerimentos finais também são idênticos. Impugnação de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore foi intimada em seu endereço de Curitiba/PR em 10/12/2014. A correspondência enviada para o seu endereço em São Caetano do Sul/SP foi devolvida com o motivo “Desconhecido”. Foram emitidos os seguintes editais eletrônicos: Edital Eletrônico emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Maringá/PR, com data de publicação 15/12/2014 e data de ciência em 30/12/2014; Edital Eletrônico emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil em Santo André/SP, com data de publicação 15/12/2014 e data de ciência em 30/12/2014. Em 07/01/2015, ela apresentou impugnação com as mesmas alegações dos demais membros da família Tolardo. Os requerimentos finais também são idênticos. Impugnação de Samuel Tolardo Júnior Samuel Tolardo Júnior foi intimado pelos Correios, com AR, em 12/12/2014, no mesmo endereço declarado por ele nas suas DIRPF do anocalendário 2013, exercício 2014, e anocalendário 2014, exercício 2015, situado no Rio de Janeiro/RJ. Foi intimado também em Curitiba/PR, pelos Correios com AR, em 10/12/2014. Em 07/01/2015, ela apresentou impugnação com as mesmas alegações dos demais membros da família Tolardo. Os requerimentos finais também são idênticos. Dos revéis A empresa PRV e Robson Marcelo Tolardo não apresentaram impugnação e foram declarados revéis. Fl. 12507DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.440 31 A DRJ Fortaleza julgou improcedente as impugnações apresentadas, cuja decisão restou consubstanciada na seguinte ementa: CONTRIBUIÇÕES PARA A SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. DOLO E FRAUDE. Para fins do cômputo do prazo de decadência, tendo ocorrido dolo e frade, aplicase a regra do art. 173, I, do CTN, contando se o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. IMPUGNAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO ALEGADO. A impugnação deve vir acompanhada de prova documental que ratifique as alegações apresentadas. Não deve ser deferida a oitiva de testemunhas, quando não foi especificado na impugnação o fato que seria provado, bem como sequer foi apresentado o rol. PRELIMINAR DE NULIDADE. PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. Não há violação dos princípios do contraditório e da ampla defesa se os fatos e a fundamentação legal foram minuciosamente descritos nos relatórios que compõem o Auto de Infração e o contribuinte e os responsáveis solidários foram devidamente intimados, tendolhes sido concedido o prazo legal para defesa e oportunizada a consulta aos autos do processo. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF. CIÊNCIA. TERMOS EMITIDOS PELA FISCALIZAÇÃO. VALIDADE DO LANÇAMENTO FISCAL. O Mandado de Procedimento Fiscal MPF é instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos fiscais efetuados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Mesmo se houver equívocos na formalização do MPF, tendo sido emitidos os termos previstos no art. 196 do Código Tributário Nacional e no art. 8° do Decreto n° 70.235/1972 nos moldes legais, não há que se falar em nulidade do procedimento fiscal. SOLIDARIEDADE. FRAUDE E DOLO. USO DE LARANJAS. EMPREENDIMENTO ÚNICO FORMALMENTE MASCARADO COMO VÁRIAS EMPRESAS PRETENSAMENTE INDEPENDENTES. Comprovado que houve fraude e dolo na ocultação dos verdadeiros sócios administradores de empreendimento único, apenas formalmente constituído por várias empresas, com o uso de laranjas, há infração à lei e ao contrato social, respondendo os verdadeiros sócios como responsáveis solidários pelo crédito tributário previdenciário, por previsão do CTN, art. 135, III. Se essas pessoas participarem dos atos que originaram os fatos Fl. 12508DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.441 32 geradores, também há enquadramento no art. 124, I, do mesmo código. UTILIZAÇÃO DE PROVAS COLHIDAS EM INQUÉRITO POLICIAL E EM PROCESSOS ADMINISTRATIVOS FISCAIS. A utilização, como base para o lançamento de crédito tributário, de provas colhidas em inquérito policial e processo administrativo fiscal diverso não é proibida, desde que sejam submetidas ao rito processual previsto em lei, com a abertura de prazo para defesa e possibilitação do exercício do direito ao contraditório. Não há ilegalidade na quebra de sigilo fiscal, bancário e de comunicações autorizada pelo Poder Judiciário. INTIMAÇÃO POR VIA POSTAL COM AVISO DE RECEBIMENTO. EDITAL. A intimação pessoal não tem precedência sobre a intimação por via postal, com aviso de recebimento, efetuada no domicílio fiscal eleito pelo sujeito passivo. Sendo improfícua essa intimação, é válida a intimação por edital. INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. DISCUSSÃO NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO. A Administração deve absterse de reconhecer ou declarar a inconstitucionalidade e, sobretudo, de aplicar tal reconhecimento ou declaração nos casos em concreto, de leis, dispositivos legais e atos normativos que não tenham sido assim expressamente declarados pelos órgãos jurisdicionais e políticos competentes. APLICAÇÃO DAS DECISÕES DO STF E STJ NOS ACÓRDÃOS DE JULGAMENTO ADMINISTRATIVO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. A tese exarada em decisão definitiva do STJ ou do STF, na forma dos arts. 543B (rito de repercussão geral) ou 543C (rito dos recursos repetitivos), deve ser reproduzida pelo órgão julgador da primeira instância administrativa apenas na hipótese da comunicação da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional PGFN de que, com base na Lei n° 10.522/2002, não mais contestará ou recorrerá sobre a matéria. CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A TERCEIROS. SALÁRIO EDUCAÇÃO. CONTRIBUINTE. A Lei n° 9.424/1996 não excepciona nenhuma empresa da obrigatoriedade do recolhimento do SalárioEducação, motivo pelo qual o art. 2° do Decreto n° 6.003/2006, estabelece que são contribuintes de tal contribuição as empresas em geral e as entidades públicas e privadas vinculadas ao Regime Geral da Previdência Social. Fl. 12509DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.442 33 CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A TERCEIROS. INCRA. EMPRESAS URBANAS. A contribuição destinada ao INCRA tem natureza de contribuição de intervenção no domínio econômico e é devida pelos empregadores em geral, inclusive por empresas urbanas. GILRAT. ALÍQUOTA CONFORME ATIVIDADE PREPONDERANTE DA EMPRESA. Para apuração da contribuição prevista no art. 22, II, da Lei n° 8.212/1991 (GILRAT), o enquadramento da empresa no correspondente grau de risco para fins de apuração a alíquota é objetivo, dependendo do tipo de atividade preponderantemente exercida pela empresa, de acordo com as atividades especificadas no anexo ao Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. BASE DE CÁLCULO. Tendo a Auditoria identificado os montantes que compuseram as bases de cálculo das contribuições previdenciárias, inclusive identificando cada segurado empregado, não basta alegar de forma genérica que há verbas que não sofrem incidência dessas contribuições, devendo ser apresentadas provas. CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A TERCEIROS. SESC E SENAC. São devidas as contribuições destinadas ao SESC e ao SENAC pelas empresas que exercem atividades comerciais. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. SONEGAÇÃO. MULTA QUALIFICADA. Restando configurada a sonegação definida no art. 71 da Lei n° 4.502/1964, a multa de ofício prevista no art. 44, I, da Lei n° 9.430/1996 deve ser aplicada em dobro, nos termos do art. 44, §1°, da Lei n° 9.430/1996. Irresignados, os sujeitos passivos apresentaram recursos voluntários, em face da decisão da DRJ, nos seguintes termos: Rogério Márcio Tolardo A nulidade da intimação da decisão recorrida, uma vez que enviada a endereço diverso, tendo o recorrente apresentado impugnação indicando o seu domicílio como sendo a cidade de Curitiba. Só foi possível tomar conhecimento da decisão em função do acompanhamento que fez do processo. A nulidade da decisão recorrida, uma que não houve análise de todas as questões abordadas na impugnação, como, também, não foi devidamente fundamentada e motivada, asseverando: Em que pese as várias matérias arguidas na impugnação administrativa, presumese pela cobrança enviada, houve uma Fl. 12510DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.443 34 decisão singular e simplista, sem analisar todas as questões invocadas, que provam a total inexigibilidade do crédito tributário indevidamente lançado. Ora, é de se imaginar a decisão como um resumo do relatório fiscal, baseado unicamente em provas indiciárias contidas em inquérito policial, sobre o qual não existe um julgamento de validade das provas coligidas e, como se sabe, muito menos o direito ao contraditório e à ampla defesa. Observe que embora demonstre a parte Recorrente que não tenha nenhum vínculo com os fatos, rebatendo as arguições realizadas pelo auditor no auto de infração, o ilustre julgador monocrático não se ateve às mesmas, simplesmente adotando como razões de decidir o relatório do auto de infração, em evidente afronta ao disposto no art. 31 do Decreto 70.235/1972. Francamente, não há como persistir a decisão e o lançamento, na medida em que se lastreiam, pelo relatório, em prova indiciária e em arquivos eletrônicos em poder de terceiros, os quais não podem ser considerados como suficientes ao lançamento tributário. Uma mera planilha eletrônica aliado a um trabalho de conclusão de curso referidos no relatório, foi suficiente para a auditoria fiscal entender que todas as lojas de auto peças do Brasil tinham vinculação com Samuel Tolardo, falecido, sem que fosse oportunizado acesso à tais documentos pela parte Recorrente e sem demonstrar um liame sequer com a parte Recorrente, a não ser o grau de parentesco (...) Alega, ainda, a nulidade da decisão recorrida por ter sido proferida por autoridade incompetente. No mais, renova os argumentos expendidos na peça impunatória. Íris da Silva Tolardo Aresentou as mesmas razões recursais de Rogério Márcio Tolardo. Samuel Tolardo Júnior Aresentou as mesmas razões recursais de Rogério Márcio Tolardo. Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore Aresentou as mesmas razões recursais de Rogério Márcio Tolardo. É o relatório. Voto Fl. 12511DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.444 35 Daniel Melo Mendes Bezerra, Conselheiro Relator Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche aos demais requisitos de admissibilidade, devendo, pois, ser conhecido. Admissibilidade Os recursos apresentados preenchem os requisitos de admissibilidade. Assim sendo, deles conheço. Preliminares Nulidade da intimação Os recorrentes alegam nulidade da intimação da decisão recorrida porque esta não respeitou as indicações de endereço feitas nas impugnação, bem como porque ela não teria sido acompanhada de cópia do Acórdão prolatado pela DRJ. O Decreto nº 70.235, de 1972, regulamenta a intimação no âmbito do Processo Administrativo Fiscal no seguinte dispositivo: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. § 1o Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: I no endereço da administração tributária na internet; II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. § 2° Considerase feita a intimação: Fl. 12512DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.445 36 I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; III se por meio eletrônico: a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea a; ou c) na data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo; IV 15 (quinze) dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado. § 3o Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência. § 4o Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. § 5o O endereço eletrônico de que trata este artigo somente será implementado com expresso consentimento do sujeito passivo, e a administração tributária informarlheá as normas e condições de sua utilização e manutenção. § 6o As alterações efetuadas por este artigo serão disciplinadas em ato da administração tributária. § 7o Os Procuradores da Fazenda Nacional serão intimados pessoalmente das decisões do Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda na sessão das respectivas câmaras subseqüente à formalização do acórdão. § 8o Se os Procuradores da Fazenda Nacional não tiverem sido intimados pessoalmente em até 40 (quarenta) dias contados da formalização do acórdão do Conselho de Contribuintes ou da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda, os respectivos autos serão remetidos e entregues, mediante protocolo, à Procuradoria da Fazenda Nacional, para fins de intimação. § 9o Os Procuradores da Fazenda Nacional serão considerados intimados pessoalmente das decisões do Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Fl. 12513DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.446 37 Ministério da Fazenda, com o término do prazo de 30 (trinta) dias contados da data em que os respectivos autos forem entregues à Procuradoria na forma do § 8o deste artigo. (grifou se) Conforme se extrai da literalidade do artigo transcrito a intimação por via postal será feita no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo e este domicílio é o endereço fornecido por ele para fins cadastrais. Portanto, não há qualquer indicação de que o endereço informado na identificação da impugnação possa servir como domicílio para fins de intimação. Aliás, verificandose as impugnações apresentadas, vêse que sequer existe pedido para que esse endereço seja considerado e os sujeitos passivos alegam expressamente nulidade da intimação do auto de infração por não ter sido observado o endereço constante da DIRPF (item 3.5 da impugnação). Neste caso, o fato de ter protocolado seu recurso em data que antecede em mais de dez dias o prazo de que dispunha evidencia a ausência de prejuízo na alegada falha de intimação. Em outro diapasão, há nota no processo, datada de 18/11/2015, dando conta de que o edital destinado a intimar Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore não chegou a ser publicado porque esta apresentou recurso voluntário antes que se adotassem as providências para tanto. Logo, sua ciência ocorreu na data do protocolo de seu recurso, não fazendo sentido a alegação de que não recebeu cópia da decisão, já que a correspondência que lhe foi enviada com esse documento foi integralmente devolvida ao remetente. Pelas razões expostas, rejeito a preliminar argüida. Nulidade da autuação por ofensa ao contraditório e à ampla defesa Os recorrentes alegam que não tiveram conhecimento da ação fiscal até a lavratura do auto de infração e dos termos de sujeição passiva solidária e que, após terem sido surpreendidos pela exigência que recaía sobre eles, solicitaram cópia dos documentos que justificariam a autuação, contudo ela não foi fornecida a tempo e no prazo da impugnação. Esta alegação é bastante séria e conduziria à reabertura do prazo para apresentação de defesa. Ocorre, porém, que não se faz acompanhar de qualquer comprovação. Neste caso, contrapondose à atuação de autoridade pública, que goza de presunção de legitimidade, faltalhe força para infirmar essa presunção legal. Além disso, entre às folhas 11.286/11.378 do processo eletrônico, estão juntadas uma série de intimações da ação fiscal que contrariam as afirmações dos recorrentes de que não tiveram conhecimento desta e de que foram surpreendidos pelo termo de sujeição passiva solidária. No mais, adoto como razões de decidir o seguinte excerto da decisão de piso: Ocorre que todos os documentos nos quais se basearam os Auditores Fiscais foram juntados ao processo administrativo Fl. 12514DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.447 38 fiscal, o qual foi formalizado em processo eletrônico. A Lei nº 11.196, de 2005, introduziu no Decreto nº 70.235, de 1972, a possibilidade da prática de atos processuais por meio eletrônico. Esse tipo de processo pode ser acessado diretamente pelo contribuinte, seus procuradores ou pessoas devidamente autorizadas, conforme instruções facilmente encontradas no sítio da RFB na internet. Mesmo se considerando que os demandantes não pudessem consultar os documentos dos processos por não quererem optar pelo Domicílio Tributário Eletrônico –DTE, é direito do contribuinte ou interessado a extração de cópias do processo, bem como a vista (Decreto nº 7.574/2011, art. 146, §§ 2º e 3º), procedimentos efetuados corriqueiramente na RFB, bastando o preenchimento do formulário adequado, também disponibilizado no sítio da RFB na internet, bem como a apresentação dos documentos necessários. Os impugnantes alegaram que lhes foi negada a vista ou cópia do processo, entretanto não apresentaram prova alguma desse fato. Há pedidos deferidos que comprovam o contrário. Consta nos autos solicitação de cópia do processo em meio digital efetuada em 22/12/2014 por Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Não há nenhum indício de que cabe à RFB e não a ela a responsabilidade por ter pego a mídia apenas em 09/02/2015, conforme atesta a sua assinatura, principalmente porque, ao invés do alegado, o seu pedido não foi negado, tendo a RFB se disposto a providenciar a cópia. O documento a que faz referência o excerto transcrito está à fl. 12.445 do processo. Preliminar de nulidade rejeitada. Nulidade da decisão recorrida É alegada também a nulidade da decisão de piso por não ter analisado todas as questões invocadas pela defesa. Quanto a esse aspecto, entendo que, embora a decisão deve ser fundamentada e levar em consideração os argumentos apresentados pelos impugnantes, pois isso consiste em uma das faces do contraditório (poder de influência), não há obrigatoriedade de análise de todos os argumentos de defesa. Com efeito, de acordo com o art. 489 do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 2015): Art. 489. São elementos essenciais da sentença: I o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; Fl. 12515DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.448 39 III o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem. § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...) IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; (...) Isso significa que a omissão que vicia a decisão é aquela relativa a ponto que poderia alterar a decisão tomada. Nesse sentido, destaco o seguinte precedentes do STF (Embargos Declaração no Agravo Regimental no Recurso Extraordinário 733.596MA): “[...] EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. CONTRATAÇÃO PRECÁRIA DURANTE PRAZO DE VALIDADE DO CERTAME. PRETERIÇÃO CARACTERIZADA. EXPECTATIVA DE DIREITO CONVOLADA EM DIREITO SUBJETIVO À NOMEAÇÃO. PRECEDENTE. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. EFEITOS INFRINGENTES. IMPOSSIBILIDADE. DESPROVIMENTO. 1. A omissão, contradição ou obscuridade, quando inocorrentes, tornam inviável a revisão em sede de embargos de declaração, em face dos estreitos limites do art. 535 do CPC. 2. O magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. (g.n.) 3. A revisão do julgado, com manifesto caráter infringente, revelase inadmissível, em sede de embargos. (Precedentes: AI n.799.509AgRED, Relator o Ministro Marco Aurélio, 1ª Turma, DJe de 8/9/2011; e RE n. 591.260AgRED, Relator o Ministro Celso de Mello, 2ª Turma, DJe de 9/9/2011). (...) 5. Embargos de declaração DESPROVIDOS. [...]” (Informativo 743/2014. EMB. DECL. NO AG. REG. NO RE N. 733.596MA. RELATOR: MIN. LUIZ FUX). No mesmo sentido, é a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.532.206 RJ (2015/01052895) relator o Ministro Marco Aurélio Bellizze: Ademais, não se exige do julgador examinar uma a uma as teses suscitadas pelo recorrente, tampouco a transcrição de fundamentos adotados per relationem à sentença, na esteira de Fl. 12516DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.449 40 precedentes desta Corte Superior (AgRg no AgRg no AREsp n. 630.003/SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, DJe 19/5/2015; HC n. 103.158/RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 8/6/2015; HC n. 315.106/SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, DJe 11/3/2015; entre outros). Na hipótese em questão, devese considerar ainda o fato de que a alegação de nulidade da decisão foi efetuada de forma genérica, sem demonstrar a efetiva omissão e o prejuízo sofrido. Em contraponto, analisandose a decisão recorrida, vertida em um Acórdão de 67 páginas com o enfrentamento consciencioso de questões que foram repetidas na fase recursal, não é possível identificar o vício que lhe é impingido. Rejeito também essa preliminar. Nulidade da decisão proferida por autoridade incompetente Os recorrentes alegam também nulidade da decisão recorrida por ter sido proferida por autoridade incompetente, auditorfiscal e não Delegado da Receita Federal, o que ofenderia o Decreto nº 70.235, de 1972, em seu art. 25, "a". Ocorre que o art. 64 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, deu nova redação a esse artigo 25, alterando o funcionamento das Delegacias da Receita Federal de Julgamento, pela instituição do julgamento colegiado: Art. 64. O art. 25 do Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 9 de dezembro de 1993, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: I em primeira instância, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento, órgãos de deliberação interna e natureza colegiada da Secretaria da Receita Federal; ................................................................ § 5o O Ministro de Estado da Fazenda expedirá os atos necessários à adequação do julgamento à forma referida no inciso I do caput." (NR) A regulamentação desse julgamento colegiado em 1ª instância dáse atualmente pela Portaria MF nº 341, de 12 de julho de 2011, de onde se extrai: Art. 2º As DRJ são constituídas por Turmas Ordinárias e Especiais de julgamento, cada uma delas integrada por 5 (cinco) julgadores, podendo funcionar com até 7 (sete) julgadores, titulares ou pro tempore. § 1º As Turmas Ordinárias podem ter até 2 (duas) Turmas Especiais a elas vinculadas, que serão instaladas pelo Secretário da Receita Federal do Brasil no ato de designação dos Fl. 12517DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.450 41 respectivos julgadores e terão a mesma competência para julgamento atribuída às Turmas Ordinárias a que se vinculam. § 2º As Turmas Ordinárias são dirigidas por um presidente nomeado entre os julgadores, sendo uma delas presidida pelo Delegado da Receita Federal do Brasil de Julgamento, que também exerce a função de julgador. § 3º As Turmas Especiais possuem caráter temporário, são integradas por julgadores pro tempore e dirigidas pelo Presidente da Turma Ordinária a que se vincula. § 4º A nomeação de Presidentes de Turmas e a designação de julgadores, titulares ou pro tempore, são de competência do Secretário da Receita Federal do Brasil. Art. 3º O julgador deve ser ocupante do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB), preferencialmente com experiência na área de tributação e julgamento ou habilitado em concurso público nessa área de especialização. (grifouse) Logo, improcedente a alegação de incompetência da autoridade que prolatou a decisão recorrida. Preliminar rejeitada. Nulidade por ausência de MPF Argumentam os recorrentes que o lançamento seria nulo por não terem sido cientificados da existência de processo de fiscalização contra eles. Inicialmente, deve ser registrada a reiterada jurisprudência deste colegiado no sentido expresso pelo Acórdão 2301004.168, relatado pelo Conselheiro Natanael Vieira dos Santos, de acordo com o qual eventuais deficiências do MPF não maculam o lançamento: 3. Ademais, o Mandado de Procedimento Fiscal é instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos fiscais relativos aos tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. 4. Consiste em uma ordem administrativa, emanada de dirigentes as unidades da Receita Federal para que seus auditores executem as atividades fiscais, tendente a verificar o cumprimento das obrigações tributárias por parte do sujeito passivo. Sendo, portanto, ato praticado por autoridade competente (Coordenador, Superintendente, Delegado ou Inspetor, conforme o caso) e dirigido ao Auditor Fiscal da Receita Federal (AFRF), eventuais irregularidades verificadas no seu trâmite, ou mesmo na sua emissão, não tem condão de invalidar o auto de infração decorrente do procedimento fiscal relacionado. 5. A necessidade de cientificar o contribuinte da existência do MPF prendese tão somente a questões relacionadas a sua segurança contra pseudoações fiscais que poderiam ocorrer. Fl. 12518DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.451 42 Assim, o contribuinte pode, por precaução, praticar as medidas que julgar pertinentes para sua segurança durante o procedimento de fiscalização, enquanto não lhe for apresentado o MPF correspondente. Por outro lado, no Termo de Intimação Fiscal nº 01 há a identificação do mandado de procedimento fiscal instaurado em face da empresa fiscalizada e do código de acesso para verificação de sua autenticidade. Inferese dos documentos constantes dos autos que os sujeitos passivos solidários foram cientificados do termo de início da ação fiscal em face de algumas empresas e dos Termos de Intimação Fiscal em relação a outras, estando a empresa fiscalizada entre elas. Cabe ressaltar que não há, nas normas que regulamentam esse procedimento, previsão de que seja emitido MPF específico para os sujeitos passivos solidários. Nesse sentido, extraise do Acórdão nº 2202003.852, de relatoria da Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio: NULIDADE DA IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA SEM A EMISSÃO DE MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL ESPECÍFICO. Improcedente a alegação de que a imputação de responsabilidade solidária demandaria a emissão de um Mandado de Procedimento Fiscal específico para esse fim, uma vez que a apuração de atos que conduzem à responsabilidade fiscal dos sócios só será detectada com o desenvolvimento do trabalho fiscal. Dessa forma, em relação ao MPF, não vejo qualquer mácula no procedimento adotado pela fiscalização que pudesse levar à nulidade do lançamento. Rejeito a nulidade argüida. Nulidade por ausência de intimação pessoal Esta questão já se encontra superada em função do enunciado nº 9 da Súmula de jurisprudência deste CARF: Súmula CARF nº 9: É válida a ciência da notificação por via postal realizada no domicílio fiscal eleito pelo contribuinte, confirmada com a assinatura do recebedor da correspondência, ainda que este não seja o representante legal do destinatário. Nulidade rejeitada. Nulidade por ilegitimidade passiva dos recorrentes Os recorrentes também alegam a existência de nulidade por ilegitimidade dos sujeitos passivos, pois não haveria prova que demonstre a existência de vínculo entre eles e a empresa autuada. Fl. 12519DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.452 43 Entendo que essa matéria poderia ser tratada como preliminar se houvesse um erro evidente de identificação do sujeito passivo, o que não é o caso. Em razão disso, a análise da legitimidade das pessoas apontadas como responsáveis solidários para integrar o pólo passivo da obrigação tributária deve ser tratada como matéria de mérito, o que será feito adiante. Rejeito a preliminar de nulidade por ilegitimidade passiva dos recorrentes. Nulidade por falta de motivação e fundamentação Segundo os recorrentes, a autoridade fiscal teria tipificado as exigências em dispositivos genéricos, sem especificar quais artigos motivaram a lavratura do auto de infração, o que caracterizaria falta de fundamentação para o ato. Ao contrário do que se alega, entretanto, o auto de infração, através de seus vários elementos integrantes, identifica não apenas os dispositivos legais aplicáveis à espécie (Relatório Fundamentos Legais do Débito), como faz uma exaustiva descrição dos fatos que ensejaram a responsabilidade de todos os sujeitos passivos (documentos intitulados Relatório Previdência IME Parte A, Relatório Previdência IME Parte B e Anexo Relatório Previdência). Portanto, não identifico a alegada ausência de motivação/fundamentação no lançamento. Rejeito. Nulidade por ilegitimidade da atuação do AuditorFiscal e por ilicitude das provas utilizadas Sob esse tópico, alegam os recorrentes que o AuditorFiscal teria extrapolado os limites de sua competência funcional ao desconsiderar a personalidade jurídica da empresa e atribuir responsabilidade objetiva e solidária aos recorrentes sem indicar os motivos para tanto. Asseveram que: A responsabilização capitulada pelo Auditor Fiscal, entretanto, escapa de sua competência, pois além de não estar prevista expressamente na lei de regência de sua atividade, compete exclusivamente ao Procurador da Fazenda Nacional, na esfera judicial, fazêlo e desde que presentes os requisitos. Mais uma vez, não lhes assiste razão. Com efeito, de acordo com o Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966): Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 12520DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.453 44 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Portanto, o lançamento fiscal é o momento adequado para a identificação do sujeito passivo da obrigação tributária e, segundo o mesmo código: Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. (grifouse) Por outro lado, a Lei nº 10.593, de 2002, não deixa margem à dúvida sobre quem é a autoridade administrativa de que trata o CTN: Art. 6º São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições; b) elaborar e proferir decisões ou delas participar em processo administrativofiscal, bem como em processos de consulta, restituição ou compensação de tributos e contribuições e de reconhecimento de benefícios fiscais; c) executar procedimentos de fiscalização, praticando os atos definidos na legislação específica, inclusive os relacionados com o controle aduaneiro, apreensão de mercadorias, livros, documentos, materiais, equipamentos e assemelhados; d) examinar a contabilidade de sociedades empresariais, empresários, órgãos, entidades, fundos e demais contribuintes, não se lhes aplicando as restrições previstas nos arts. 1.190 a 1.192 do Código Civil e observado o disposto no art. 1.193 do mesmo diploma legal; e) proceder à orientação do sujeito passivo no tocante à interpretação da legislação tributária; f) supervisionar as demais atividades de orientação ao contribuinte; (...) Fl. 12521DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.454 45 Cumpre registrar, ainda, que o STJ, no âmbito do REsp 1110925/SP, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, em Acórdão de lavra do Ministro Teori Albino Zavaski, assentou que: TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL SÓCIOGERENTE CUJO NOME CONSTA DA CDA. PRESUNÇÃO DE RESPONSABILIDADE. ILEGITIMIDADE PASSIVA ARGUIDA EM EXCEÇÃO DE PRÉEXECUTIVIDADE. INVIABILIDADE. PRECEDENTES. 1. A exceção de préexecutividade é cabível quando atendidos simultaneamente dois requisitos, um de ordem material e outro de ordem formal, ou seja: (a) é indispensável que a matéria invocada seja suscetível de conhecimento de ofício pelo juiz; e (b) é indispensável que a decisão possa ser tomada sem necessidade de dilação probatória. 2. Conforme assentado em precedentes da Seção, inclusive sob o regime do art. 543C do CPC (REsp 1104900, Min. Denise Arruda, sessão de 25.03.09), não cabe exceção de pré executividade em execução fiscal promovida contra sócio que figura como responsável na Certidão de Dívida Ativa CDA. É que a presunção de legitimidade assegurada à CDA impõe ao executado que figura no título executivo o ônus de demonstrar a inexistência de sua responsabilidade tributária, demonstração essa que, por demandar prova, deve ser promovida no âmbito dos embargos à execução. 3. Recurso Especial provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC. Essa decisão evidencia que a atribuição de responsabilidade tributária é questão afeta ao procedimento administrativo que dá origem à CDA. Ou seja, precede a instauração da execução fiscal. Embora seja possível o redirecionamento da execução a pessoas que não constem nesse título ou, ainda, que seja realizada a desconsideração da personalidade jurídica de que trata o novo Código de Processo Civil, esses procedimentos se tornam necessários quando não foi efetuada a atribuição da responsabilidade no processo de sua formação (da CDA). Ou seja, esses procedimentos tem caráter residual e não têm o condão de excluir a competência da autoridade fiscal, lastreada no Código Tributário Nacional, norma com força de Lei Complementar. Em tempo, as provas foram obtidas através de decisões judiciais (fls. 633/645) em relação às quais não se demonstrou qualquer irregularidade. Embora os recorrentes aleguem a incompetência do juízo que determinou a busca e apreensão, a quebra dos sigilos e o compartilhamentos das informações, não demonstra que esse fato tenha sido assentado em decisão judicial, único meio capaz de infirmar a presunção de legitimidade que carrega uma decisão judicial. Portanto, assim como são improcedentes as alegações de incompetência da autoridade fiscal, não há que se falar em provas ilícitas. Rejeito também estas preliminares de nulidade. Fl. 12522DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.455 46 Prejudicial de mérito necessidade de aguardar decisão do STF Em relação a essa matéria, deve ser registrado que não há mais previsão regimental para suspensão dos processos no âmbito do CARF para fins de se aguardar decisão dos tribunais superiores. A despeito disso, a constitucionalidade do comando que autoriza a fiscalização a obter informações bancárias dos contribuintes sem interferência do poder judiciário já foi decidida de forma favorável à Fazenda Nacional. Prejudicial de mérito rejeitada. Mérito Ausência de responsabilidade dos recorrentes No mérito, alegase ausência de responsabilidade dos recorrentes, por serem pessoas estranhas ao quadro societário da empresa autuada e por não haver prova de seu vínculo com ela e com o fato gerador do tributo. Quanto a essa alegação, em homenagem ao excelente trabalho realizado pela decisão de piso, transcrevo e adoto como razões de decidir o seguinte trecho do Acórdão em que consubstanciada: 8. Da Responsabilidade dos Envolvidos A solidariedade dos integrantes da família Tolardo não se baseou em presunções, mas em provas irrefutáveis de que eles administravam a sociedade, conforme se verá adiante. A solidariedade foi aplicada não porque eles são sócios de fato do empreendimento, mas porque agiram com infração à lei e ao contrato social das empresas (CTN, art. 135, III), a começar pela utilização de sócios laranjas, com o intuito evidente de escaparem de uma possível cobrança dos tributos devidos e sonegados. Quanto ao art. 124, I, do CTN, está presente, no caso, o interesse jurídico, não por as pessoas físicas serem da mesma família, mas por terem participado ativamente, ainda que de forma oculta, da administração das empresas e, por consequência, dos fatos geradores que originaram os Autos de Infração. A própria Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, no já mencionado Parecer PGFN/CRJ/CAT 55/2009, entendeu que a responsabilidade do administrador pode ser declarada quando da lavratura do auto de infração que formalizar o lançamento do crédito tributário em face da pessoa jurídica contribuinte, como também pode ser declarado em auto de infração e em momento distintos, independentemente de ter o ato ilícito sido praticado no momento da ocorrência do fato jurídico tributário que deu origem à obrigação tributária principal. A responsabilidade de cada administrador pode ser declarada ao mesmo tempo e ato ou em tempos e atos distintos. Não há ilegalidade alguma na imputação da responsabilidade pelos Auditores Fiscais, os quais eram competentes para efetuar tal ato no momento em que apuraram os fatos que o fundamentava. Fl. 12523DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.456 47 Diante da constatação da existência da REDE PRESIDENTE e de sua administração pela família Tolardo, a ausência da vinculação formal de seus membros à empresa não os exime da responsabilização, diante do seu envolvimento de fato na administração de todo o empreendimento. Constavam no banco de dados utilizado pelo Programa Caixa várias “contas” representativas de custos, despesas, pagamentos, recebimentos, etc., bem como vários “centros de custos”, tais como os relativos a cada uma das “filiais”. Dentre os centros de custo destacase o “020 – DIRETORES”. Entre as subcontas, sobressaem aquelas inerentes a cada um dos integrantes da família Tolardo. Filtrandose o centro de custos “20DIRETORES” e aplicandose outro filtro relativos às subcontas, foi possível filtrar os pagamentos efetuados a cada um deles. Ademais, a planilha “ACERTOS CELO MAR JR JI ALTERADOS.xls”, encontrada nos pendrives de Odete, operadora do esquema, e Samuel Tolardo Júnior, corroboram os valores encontrados na base de dados do Programa Caixa, comprovando a distribuição de valores entre os componentes da família Tolardo. 8.1. Íris da Silva Tolardo Constam no relato da Auditoria Fiscal várias provas da participação de Íris da Silva Tolardo no esquema fraudulento. Íris da Silva Tolardo é a administradora/responsável formal pela empresa Agropecuária Valparaíso Ltda., empresa registrada em nome dos irmãos Tolardo. Essa empresa é proprietária do imóvel utilizado pela REDE PRESIDENTE em Maringá/PR. No local temse o endereço de três empresas do esquema: a Napa Parts, conforme logomarca na fachada do prédio, a PRTS e a Administradora Confiança. No endereço residencial de Daniel de Oliveira Junior foi encontrado instrumento particular, com caráter de escritura pública de cessão onerosa de direitos e obrigações, datado de 09/05/2008, referente a esse imóvel. A cessionária é a Agropecuária Valparaíso, naquele ato representada por Íris da Silva Tolardo. O imóvel localizado no bunker da Rua das Camélias, 690, Maringá/PR, uma residência sem qualquer tipo de identificação, foi registrado no nome de Daniel de Oliveira Junior, importante operador do esquema. Ele passou uma procuração para a família Tolardo, inclusive para Íris da Silva Tolardo, em 22/06/2009, concedendo poderes par vender, ceder, prometer, transferir ou de qualquer forma alienar a quem quiser, pelo preço e condições que convenciarem. Sendo esse imóvel utilizado pelo esquema, a procuração é um inequívoco elemento que vincula Íris da Silva Tolardo à REDE PRESIDENTE. Íris da Silva Tolardo serve como caucionante (garantidora) do contrato de locação de um imóvel (galpão industrial) locado pela REDE PRESIDENTE em Barueri/SP, endereço de uma das empresas do esquema, SMA Auto Parts Indústria e Comércio de Peças Automotivas Ltda, responsabilizandose por todas as obrigações assumidas, entretanto o contrato foi feito em nome de Rosangela Maria Mantovani, sócia laranja da SMA. A locação do imóvel residencial situado na Av. Perseu, em São José dos Campos, para o período fevereiro/2008 a fevereiro/2011, foi garantida por Íris da Silva Tolardo, que ficou solidariamente responsável por todas as obrigações Fl. 12524DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.457 48 decorrentes do contrato. A locatária é a empresa PRS, então denominada Retificadora Presidente Prudente Peças para aVeículos Ltda. Íris da Silva Tolardo injetou recursos na REDE PRESIDENTE no final de 2011, depositando R$ 900.000,00 (novecentos mil reais) em conta da PRTS Distribuidora de Peças Ltda. Tratase pretensamente de um empréstimo, porém as condições são extremamente benéficas, com um prazo de cinco anos para pagamento com os juros da poupança, certamente motivadas por ser investimento em negócio próprio, já que, de fato, era uma das proprietárias da REDE PRESIDENTE. O cheque emitido para a efetivação do empréstimo é de uma conta conjunta de Íris da Silva Tolardo com Samuel Tolardo Júnior, outro membro da família e proprietário do esquema. Na residência de Robson Marcelo Tolardo foi encontrado outro depósito feito por Íris da Silva Tolardo em favor da PRTS Distribuidora de Peças Ltda., no valor de R$.990.000,00 (novecentos e noventa mil reais), efetuado em 14/07/2010. Ademais, Íris da Silva Tolardo é usuária de um cartão de crédito AMEX conjuntamente com os demais integrantes/proprietários do esquema e cujas faturas são pagas pela REDE PRESIDENTE. O caseiro de Íris da Silva Tolardo, Antônio Prudente Ferreira, depôs à Polícia Federal em 17/10/2012 e disse que nunca trabalhou para nenhuma empresa, entretanto os acertos relativos ao seu vínculo trabalhista eram feitos pela REDE PRESIDENTE, conforme quatro interceptações telefôncias entre Antônio e Fabiana, do Departamento Pessoal da rede, e “Nego”, outro funcionário do esquema. Ademais, ele consta na “Relação detalhada de valores” da REDE PRESIDENTE (MGA233.9) emitida em 16/02/2011, onde está escrito que ele teria sido admitido em 1º/08/1989 e seria Auxiliar de Serviços Gerais do Departamento Geral da Filial 98 – MTZ MGA. Outra evidência da ligação de Íris da Silva Tolardo com o esquema é a ligação telefônica de 05/05/2012 entre ela e uma amiga (Leda ou Hieda), quando fala com naturalidade sobre o comportamento de Odete Cardoso Berti, uma funcionária do esquema. Nesse telefonema ela disse: “pelo telefone não posso falar muita coisa, também. Entendeu?”. Esse fato demonstra não só a sua participação, mas também que ela tinha conhecimento da ilicitude do esquema. Em conversa telefônica de Íris da Silva Tolardo com sua filha, Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, de 22/05/2012, novamente ela demonstra pleno conhecimento das atividades do esquema. A conversa gira em torno das novas atribuições da família com a aquisição do Grupo Emprepar. Nessa conversa ela diz que da forma como está, o filho Robson Marcelo Tolardo tem muito poder em detrimento dos outros filhos e reclama da esposa e filha dele, Paula e Amanda, respectivamente. Acrescenta, ainda, que Paula bajula demais Liderci e que acha que isso se deve ao fato de Liderci saber de “tudo”. Edson Barbosa da Silva, irmão de Íris da Silva Tolardo, em depoimento à Polícia Federal, disse claramente que a REDE PRESIDENTE pertence à sua irmã. 8.2. Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore Fl. 12525DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.458 49 Há robustas provas de que Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore participava ativamente do esquema, especialmente como administradora do grupo de empresas adquirido, Embrepar. Foram, inclusive, interceptadas pela Polícia Federal ligações telefônicas entre ela e sua mãe e entre esta e Robson Marcelo Tolardo, as quais demonstram que a filha do exdono da Embrepar ensinou a Samuel Tolardo Júnior e Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore os procedimentos do negócio adquirido. Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore foi sócia da Administradora Confiança. Foram localizadas várias procurações dos sócios laranjas para ela: outorgada por Geraldo Richter com poderes para vender ou incorporar as quotas da REDE PRESIDENTE (07/11/2002); outorgada pela RPT (representada por Geraldo Richter) para representação perante bancos (07/11/2002); outorgada pela RPT com poderes amplos e gerais (07/11/2002), outorgada pela RPT para representá la em bancos com poderes amplos, gerais e ilimitados (12/11/2003); outorgada pela RPT com poderes amplos, gerais e ilimitados (12/11/2003); outorgada pela Nobre Participações Ltda. (representada pela sócia laranja Mirian Coutinho de Lima para ela e seu irmão, Samuel Tolardo Júnior, conferindo poderes amplos e gerais (25/08/2004). Para que Daniel de Oliveira Junior, funcionário do esquema, locasse um imóvel em Maringá/PR, foi necessário um fiador, papel exercido por Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore e seu marido. Outro imóvel cuja locação teve Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore como fiadora foi o do bunker da Rua Rui Barbosa, 1027, Maringá/PR (aluguel do período 10/03/2011 a 09/03/2014) cuja locatária era Ana Maria Gimenez de Souza é importante operadora do esquema. Há, ainda, o contrato de locação de um barracão comercial em Bauru/SP, usado pela REDE PRESIDENTE, Filial 18. O contrato tem como locatária Fernanda Cristina de Lima dos Santos, usada como laranja na RPFL Auto Peças Ltda., e como fiadora Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Além disso, existem imóveis de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore que são usados pela REDE PRESIDENTE: galpão situado em Londrina/PR locado à REDE PRESIDENTE – Filial 14 e imóvel utilizado pelo esquema no Rio de Janeiro/RJ; imóvel comercial em Petrolina/PE, com galpões de estocagem, avaliado por laudos em R$.750.000,00 (setecentos e cinquenta mil reais) e R$ 650.000,00 (seiscentos e cinquenta mil reais). O primeiro laudo aponta como solicitante e ocupante do imóvel a empresa Napa Parts Dist de Auto Peças Ltda. Distribuidora de Auto Peças e como proprietária Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Outro imóvel de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore utilizado pela REDE PRESIDENTE localizase em Imperatriz/MA, no endereço cadastral da IME Peças para Veículos Ltda. – ME. Foi encontrado laudo de avaliação datado de 23/03/2011, no qual ela consta como proprietária e Liderci Luriko Nagabe de Oliveira como solicitante. O imóvel foi avaliado em R$ 1.350.000,00 (um milhão, trezentos e cinquenta mil reais). O imóvel utilizado pela REDE PRESIDENTE em Feira de Santana/BA (Filial 74) também era de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, conforme laudos de avaliações realizadas em novembro/2011. As fotos que Fl. 12526DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.459 50 constam no laudo mostram que na fachada havia a logomarca da REDE PRESIDENTE. Esse imóvel foi avaliado em R$.1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais) por um laudo e em R$ 1.516.000,00 (um milhão, quinhentos e dezesseis reais) por outro. Também era de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore o imóvel utilizado pelo esquema em Piracicaba/SP (Filial 75), conforme laudos de avaliação feitos em 2011. O imóvel foi avaliado em R$ 1.524.705,05 (um milhão, quinhentos e vinte e quatro mil, setecentos e cinco reais e cinco centavos) e R$ 1.450.000,00 (um milhão, quatrocentos e cinquenta mil reais). Foi encontrado o registro desse imóvel. Constam também como de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore 3 (três) lotes de terrenos contíguos em Fos do Iguaçu/PR, cujo barracão ali instalado serve de extensão para a PRE Comércio e Distribuição de Peças Ltda. (Filial 44), conforme certidão de escritura pública de compra e venda. A compra desse imóvel foi feita por procuração, justamente por Robson Marcelo Tolardo. O imóvel usado pela REDE PRESIDENTE em Londrina/PR (Filial 14) também era de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, conforme contrato de locação de 02/01/2007. Há, ainda, o imóvel registrado no me da filha de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, a menor Julia Tolardo Dalle Ore, usado em Porto Alegre/RS pela REDE PRESIDENTE (Filial 60). Todos esses imóveis, com exceção dos de Foz do Iguaçu/PR e Imperatriz/MA, foram transferidos à empresa Zenith Administradora de Bens e Participações Ltda., a título de integralização do capital. Essa é uma das empresas criadas para administrar os bens da família Tolardo, tendo como sócia a própria Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore e suas filhas, Isabela Tolardo Dalle Ore e Julia Tolardo Dalle Ore. Os imóveis eram controlados pela REDE PRESIDENTE, segundo constatado em planilha encontrada por ocasião do cumprimento do Mandado de Busca e Apreensão. Nessa planilha foi, ainda, identificado um imóvel denominado “C.MOURÃO”, para o qual encontrouse um laudo de avaliação de 28/08/2012 para imóvel situado em Campo Mourão/PR, com valor estimado de R$.440.000,00, de propriedade de Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore. Quanto ao imóvel identificado na planilha como “SPINHAIS”, foram localizados os registros dos imóveis de matrículas 19.136, 19.139, 19.140, 19.141, 19.142 e 19.143 no Registro de Imóveis de São José dos Pinhais/PR, adquiridos por Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore em 25/08/1997. 8.3. Rogério Márcio Tolardo Foram relatadas várias provas da atuação de Rogério Márcio Tolardo, como: a. Procuração de 10/10/1996 da então Foramec Auto Peças Ltda. (atual RPT), representada por ele e por seu irmão Samuel Tolardo Júnior, constituindo um procurador para representar a empresa perante repartições públicas; Fl. 12527DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.460 51 b. Procuração outorgada a ele por Adanice Gonçalves de Jesus, conferindolhe poderes amplos, gerais e ilimitados, datada de 03/04/20000; c. Procuração outorgada a ele pela empresa Rede Presidente Ltda., conferindolhe amplos, gerais e ilimitados poderes, datada de 03/04/2000; d. Procuração outorgada a ele em 07/101/2002 por Geral Richter (então laranja da RPT), conferindolhe amplos e gerais poderes para vender ou incorporar as quotas da RPT ou assinar quaisquer contratos de compra e venda, inclusive alterações contratuais; e. Procuração datada de 07/11/2002, por meio da qual a Rede Presidente, representada por Geraldo Richter, concedelhe amplos e gerais poderes para representar a empresa perante quaisquer estabelecimentos bancários, públicos ou privados do país; f. Procuração de 07/11/2002, outorgada a ele pela Rede Presidente, representada por Geral Richter, conferindolhe amplos e gerais poderes para constituir advogados, com todos os poderes inerentes. Na época do cumprimento dos Mandados de Busca e Apreensão, Rogério Márcio Tolardo residia em Curitiba/PR, onde é sócio de uma loja de aparelhos eletrônicos para uso doméstico, W2X – Comércio e Serviços de Equipamentos. Apesar de essa empresa aparentemente não ter relação com o esquema REDE PRESIDENTE, no período de abril/2005 a janeiro/2010, era seu sócio Francisnei Paulo Ferrarini, mero funcionário do esquema. Fracisnei também foi usado como laranja da FEMAMAR Repres. Comerciais Ltda., empresa da REDE PRESIDENTE, que fica no mesmo endereço de uma das filiais da RPT. Em depoimento prestado à Polícia Federal em 17/10/2012, Francisnei afirma que figurou como sócio da W2X a pedido de Rogério Márcio Tolardo, porém jamais exerceu qualquer atividade nessa empresa, gerida exclusivamente por Rogério. Notese que Fransicnei diz que aceitou a proposta porque tinha uma relação de amizade ou seria alguém de confiança de Rogério Márcio Tolardo, o que, por óbvio, decorreu da atuação e posição deste último na REDE PRESIDENTE. A participação de Rogério Márcio Tolardo fica mais clara diante dos imóveis de sua propriedade controlados pela planilha já mencionada, onde se constata ser ele proprietário de 6 (seis) imóveis: a. Um galpão em Guarulhos/SP, pertencente também a Samuel Tolardo Júnior. Foi localizado um contrato de locação de 1º/01/2010, constando ambos os irmãos como locadores e a RPT como locatária. No bunker da Rua Rui Barbosa, 1027, Maringá/PR, foi encontrada uma avaliação do imóvel de maio/2011, no valor de R$ 25.758.128,00 (vinte e cinco milhões, setecentos e cinquenta e oito mil, cento e vinte e oito reais). Apesar de o valor para locação do imóvel ser R$.257.581,28 (duzentos e cinquenta e sete mil, quinhentos e oitenta e um reais e vinte e oito centavos), os irmãos o locam por R$ 20.000,00 (vinte mil reais). Em dezembro/2009, esse imóvel foi dado em caução como garantia de um contrato de locação não residencial celebrado pela Fort Lub Produtos Automotivos Ltda.; Fl. 12528DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.461 52 b. Dois terrenos contíguos onde está construído um barracão usado pela REDE PRESIDENTE em Foz do Iguaçu (empresa PRE, Filial 44); c. Um terreno localizado em Maringá/PR, área muito bem localizada pertencente ao esquema; d. Imóvel localizado em Cabuy, Presidente Prudente/SP, onde funciona a Filial 38. No contrato de locação encontrado, datado de 1º/01/2010, a locatária é a empresa Rolcar Auto Peças, do esquema REDE PRESIDENTE; e. Imóvel localizado em Uberlândia/MG (Filial 64). Foi encontrada cópia da matrícula do imóvel. Posteriormente, esses imóveis foram dados como integralização de capital de uma das empresas do esquema, Magno Administradora de Bens e Participações Ltda. O capital, que era de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) passou para R$ 1.039.765,00 (um milhão, trinta e nove mil, setecentos e sessenta e cinco reais). Outro indicativo da posição de Rogério Márcio Tolardo é dado em conversa telefônica entre sua mãe e Leda ou Hieda, que o compara a Robson Marcelo Tolardo e comenta que Rogério também é sócio. Em outras duas gravações efetuadas pela Polícia Federal, constatase a existência de repasses ou pagamentos mensais que a família Tolardo fazia ao sócio Rogério Márcio Tolardo. 8.4. Samuel Tolardo Júnior No apartamento de Samuel Tolardo Júnior em Curitiba/PR, foram encontrados vários documentos relativos ao esquema. Ele participa há bastante tempo, como comprova a procuração da RPT, então Foramec Auto Peças Ltda., datada de 10/10/1996. Nessa procuração, ao lado de seu irmão Rogério Márcio Tolardo, ele consta como sócio da empresa que, praticamente, inaugurou a REDE PRESIDENTE. Ademais, Samuel Tolardo Júnior (ou Júnior) foi diversas vezes mencionado na escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal, como, por exemplo, em conversa de 22/05/2012 entre sua mãe e sua irmã, Jeane Cristine Tolardo Dalle Ore, na qual fica clara a sua participação na empresa recém adquirida do Grupo Embrepar. Em outra interceptação telefônica, do dia 1º/08/2012, entre ele e Ana Maria Gimenez, resta evidente o seu envolvimento na análise de questões operacionais, como transferências dentre filiais e estoque negativo. Um imóvel onde se localizava um dos bunkers da REDE PRESIDENTE estava registrado no me de Daniel de Oliveira Júnior, constando uma procuração desse operador do esquema para a família Tolardo, inclusive para Samuel Tolardo Júnior, datada de 22/06/2009, concedendo poderes para vender, ceder, prometer, transferir ou de qualquer forma alienar esse imóvel. O endereço de Samuel Tolardo Júnior que consta nessa procuração é, na verdade, o endereço de uma filial da REDE PRESIDENTE, Filial 27, no Rio de Janeiro, apesar de constar nas suas DIRPF desde 2003 como sendo seu endereço residencial. Fl. 12529DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.462 53 Há outra procuração, outorgada por Genésio Bueno, laranja da A.P.E. Auto Peças Ltda. (dezembro/2004 a setembro/2013), conferindolhe amplos, gerais e ilimitados poderes. Idêntica procuração foi também concedida pela própria empresa, na época denominada A Presidente Auto Peças Ltda. Foi encontrado contrato de execução de construção por empreitada global entre Samuel Tolardo Júnior e Antonio Picoli Sobrinho, de 05/05/1992, para construção de barracão comercial em Curitiba/PR, provavelmente o mesmo imóvel da matrícula 51.835. Junto à cópia do registro da matrícula foi achado um recibo, no qual consta que o imóvel foi adquirido por Samuel Tolardo Júnior em 24/05/2005. Tratase de um barracão comercial utilizado pela Filial 23 da REDE PRESIDENTE. Foram encontradas duas avaliações do imóvel, uma delas solicitada por Samuel Tolardo Júnior. Outro imóvel adquirido por Samuel Tolardo Júnior é um barracão comercial em Cascavel/PR. Foram encontrados vários documentos referentes à obra, datados de final de 2011 e ano de 2012. A maioria dos emails tratando de assuntos da obra são assinados por Nilson Roberto da Silva, funcionário da REDE PRESIDENTE desde 09/06/2003. Há, ainda o imóvel de Guarulhos/SP, adquirido por Samuel Tolardo Júnior e Rogério Márcio Tolardo, conforme escritura pública de venda e compra de 28/06/2001. Também foi constatado serem de propriedade de Samuel Tolardo Júnior um apartamento em Curitiba/PR; um salão comercial em Londrina locado a Rogério José de Alencar e um terreno em Londrina. Desses imóveis, ao menos três deles (um em Curitiba/PR, o terreno de Londrina/PR e o de Cascavel/PR) foram transferidos em abril/2012 para a empresa Urbanos Administradora de Bens e Participações Ltda. como integralização de capital por parte de Samuel Tolardo Júnior. O capital da empresa passou de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para R$.563.280,00 (quinhentos e sessenta e três mil, duzentos e oitenta reais). O outro sócio fica apenas com R$ 1,00 (um real). Os elementos coligidos pelo Acórdão recorrido são suficientes para demonstrar a posição ocupada pelos membros da família Tolardo como reais proprietários e administradores da Rede Presidente. Além disso, são suficientes para afastar a alegação de ausência de responsabilidade dos recorrentes por inexistência de prova do seu benefício. Com efeito, basta lembrar que há comprovação de pagamentos de despesas pessoais feitos pela Rede Presidente, bem como de que os integrantes da família faziam retiradas de valores próximos a R$ 100.000,00 (cem mil reais) mensais cada, chegando, em alguns períodos, a R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) cada documentos de fls. 9751 e 9684 e itens 418 a 433 do Relatório de Atividade Fiscal. Por outro lado, a relação da empresa fiscalizada A.P.E. Autopeças Eireli com a Rede Presidente encontrase adequadamente configurada pelos fatos que são descritos nos itens 160 a 171 do "Anexo Relatório Rede Presidente Previdência" (fls. 11.928/12.130), onde se demonstra que esta empresa: era tratada como filial 63 Recife; sua razão social original era A PRESIDENTE AUTO PEÇAS LTDA.; foram utilizados "laranjas" para a composição de seu quadro societário e que as DIRPF desses laranjas foram transmitidas através de um dos bunkers Fl. 12530DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.463 54 da rede; a APE foi citada por fornecedores como estabelecimento ligado à Rede Presidente e havia carimbos e contratos sociais dela em outro dos bunkers identificados. Deve ser considerado também, que as provas trazidas aos autos revelam um "modus operandi", ou seja, um padrão de comportamento que se perpetua no tempo, de forma que a alegada ausência de sincronia temporal entre as constatações feitas e os períodos lançados não implicam qualquer nulidade ou mácula ao lançamento efetuado. Neste caso, caberia aos recorrentes a demonstração de que houve mudança na forma de proceder, o que não foi feito. Com base no exposto, afasto as alegações de ausência de prova do vínculo dos responsáveis solidários com os fatos geradores das obrigações tributárias, bem como de ausência de prova do seu benefício. Decadência e prescrição Alegam os recorrentes, de forma genérica, que o crédito tributário já estava extinto pela decadência e pela prescrição. As competências lançadas abrangem o período de 04/2009 a 09/2012 e o auto de infração e os termos de sujeição passiva solidária foram lavrados e cientificados em datas diversas do mês de dezembro de 2014. Neste caso, há nos autos robustas provas da ocorrência de conduta dolosa, fraudulenta e simulada, o que implica a contagem do prazo decadencial pela regra do art. 173, I, do CTN, de forma que o início do prazo para os fatos geradores mais antigos se dará no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, ou seja, 1º de janeiro de 2010. Sendo de cinco anos o prazo, o termo final seria em 31 de dezembro de 2014. Logo, improcedente a alegação de decadência. O prazo prescricional, por outro lado, terá sua contagem iniciada apenas com o encerramento deste PAF, não sendo possível se falar em prescrição durante o seu curso, conforme estabelece o seguinte enunciado: Súmula CARF nº 11: Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. Nego provimento ao recurso quanto às alegações de decadência e prescrição. Ausência da relação de empregados, avulsos e autônomos Os recorrentes alegam que a ausência da relação de empregados, avulsos e autônomos prejudicaria sua defesa e implicaria nulidade do auto de infração. Ocorre que a comprovação da existência dos pagamentos a esse título foi feita a partir de extrato da conta caixa que registrava a atividade de todas as "filiais" do grupo. Cabia às empresas e, por decorrência, aos responsáveis por ela, ter realizado o adequado controle dos beneficiários dos pagamentos e informado esses dados ao poder público. Com efeito, é o que determina o Decreto nº 3.048, de 1999: Fl. 12531DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.464 55 Art. 225. A empresa é também obrigada a: I preparar folha de pagamento da remuneração paga, devida ou creditada a todos os segurados a seu serviço, devendo manter, em cada estabelecimento, uma via da respectiva folha e recibos de pagamentos; II lançar mensalmente em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as contribuições, o montante das quantias descontadas, as contribuições da empresa e os totais recolhidos; III prestar ao Instituto Nacional do Seguro Social e à Secretaria da Receita Federal todas as informações cadastrais, financeiras e contábeis de interesse dos mesmos, na forma por eles estabelecida, bem como os esclarecimentos necessários à fiscalização; (...) Afastada qualquer alegação pertinente à ausência de vínculo e de responsabilidade dos recorrentes com os atos realizados pelas empresas integrantes da Rede Presidente, se não houve cumprimento de suas obrigações legais, não podem agora invocar esse fato em seu benefício. Com efeito, essa conclusão é decorrência de aplicação da máxima moralizante do venire contra factum proprio, cuja inteligência perpassa a aplicação de todas as regras do direito. Tanto isso é verdade, que a legislação previdenciária autoriza a fiscalização a utilizar o expediente da aferição indireta quando ficar comprovada a irregularidade no cumprimento de suas obrigações: Lei nº 8.212, de 1991 Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (...) § 6º Se, no exame da escrituração contábil e de qualquer outro documento da empresa, a fiscalização constatar que a contabilidade não registra o movimento real de remuneração dos segurados a seu serviço, do faturamento e do lucro, serão apuradas, por aferição indireta, as contribuições efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. Nesse sentido é a jurisprudência deste Colegiado conforme revela o Acórdão nº 2404005.672, cuja ementa é abaixo transcrita: CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. NÃO APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA ACERCA DOS SEGURADOS PRESTADORES DE SERVIÇOS. Fl. 12532DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.465 56 AFERIÇÃO INDIRETA. POSSIBILIDADE. COOPERATIVAS. EQUIPARAÇÃO A EMPRESAS. CONTRATADA PARA A PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. PERMISSÃO CONCEDIDA À COOPERATIVA. 1. Devidamente intimada, a contribuinte não apresentou os documentos que permitissem identificar (a) os segurados empregados; (b) os segurados contribuintes individuais eleitos para os cargos de direção e administração; (c) os segurados contribuintes individuais não associados; etc. 2. A contribuinte foi intimada sete vezes, mas não prestou os devidos esclarecimentos, tampouco apresentou a documentação comprobatória dos fatos relacionados à tributação. 3. A Lei 8.212/1991 e o Decreto 3.048/1999 prevêem o lançamento por aferição indireta. A despeito do que se afirmou acima, cumpre registrar que no documento juntado ao processo a fls. 11.819/11.252 estão identificados os beneficiários dos pagamentos realizados e que deram origem à autuação. Nego provimento também quanto a esse tópico do recurso. Inconstitucionalidade da base de cálculo estabelecida na Lei nº 8.212, de 1991, do salárioeducação e do SAT Este Colegiado não pode se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da lei tributária, conforme preceitua o seguinte enunciado da Súmula de jurisprudência do CARF: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Portanto, as alegações de inconstitucionalidade da base de cálculo estabelecida na Lei nº 8.212, de 1991, do salárioeducação e do SAT pela necessidade de lei complementar não podem ser conhecidas. Inexigência da contribuição ao INCRA A alegação de inexigência da contribuição ao INCRA também está calcada na inconstitucionalidade das normas de regência, o que implicaria a aplicação do enunciado da Súmula acima transcrito. Em que pese a incidência desse enunciado, que seria suficiente para afastar as pretensões dos recorrentes, adoto também como razões de decidir o trecho abaixo transcrito, retirado do Acórdão 2401004.218, do Conselheiro André Luís Mársico Lombardi: Portanto, no foro administrativo, não merece prosperar a argumentação da recorrente quanto à inconstitucionalidade da contribuição ao INCRA. Quanto aos aspectos da legalidade, temos que a investigação a respeito da natureza jurídica da contribuição para o INCRA já foi por demais tormentosa ao longo dos últimos anos, sendo que hoje os tribunais superiores pacificaram entendimento no Fl. 12533DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.466 57 sentido de que consubstancia contribuição de intervenção no domínio econômico: VIGÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO AO INCRA. NATUREZA DE INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO. LEIS Nº 7.787/89 e 8.212/91. DESTINAÇÃO DIVERSA. EMPRESAS URBANAS. ENQUADRAMENTO. I A Primeira Seção do STJ, na esteira de precedentes do STF, firmou entendimento no sentido de que não existe qualquer óbice para a cobrança da contribuição destinada ao INCRA também das empresas urbanas. Precedentes: EDcl no AgRg no REsp nº 716.387/CE, Rel. Min. HUMBERTO MARTINS, DJ de 31/08/06 e EDcl no REsp nº 780.280/MA, Rel. Min. JOSÉ DELGADO, DJ 25/05/06. II Este Superior Tribunal de Justiça, após diversos pronunciamentos, com base em ampla discussão, reviu a jurisprudência sobre o assunto, chegando à conclusão que a contribuição destinada ao INCRA não foi extinta, nem com a Lei nº 7.787/89, nem pela Lei nº 8.212/91, ainda estando em vigor. III Tal entendimento foi exarado com o julgamento proferido pela Colenda Primeira Seção, nos EREsp nº 770.451/SC, Rel. p/ac. Min. CASTRO MEIRA, Sessão de 27/09/2006. Naquele julgado, restou definido que a contribuição ao INCRA é uma contribuição especial de intervenção no domínio econômico, destinada aos programas e projetos vinculados à reforma agrária e suas atividades complementares. Assim, a supressão da exação para o FUNRURAL pela Lei nº 7.787/89 e a unificação do sistema de previdência através da Lei nº 8.212/91 não provocaram qualquer alteração na parcela destinada ao INCRA. IV Agravo regimental improvido. (STJ; AgRg no AgRg no REsp 894345 / SP; Rel. Min. FRANCISCO FALCÃO; T1 PRIMEIRA TURMA; DJ 24/05/2007, p. 331) (destaques nossos) Em aditamento ao voto proferido no EREsp 770.451/SC; a Min. Eliana Calmon sublinhou os traços fundamentais da espécie tributária em exame, rememorando magnífico trabalho doutrinário contido na tese apresentada pelo Dr. Luciano Dias Bicalho Camargo, em curso de doutorado da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, o qual pedimos venia para transcrevêlo. “As contribuições interventivas têm como principal traço característico a finalidade eleita e explicitada na consequência da norma de incidência tributária. (...) Assim, para a perfeita compreensão da norma de incidência tributária das contribuições de intervenção sobre o domínio econômico, especificamente aquelas que se prestam à arrecadação de recursos para o custeio dos atos interventivos, Fl. 12534DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.467 58 há de se prever uma circunstância intermediária a vincular a hipótese de incidência e a consequência tributária, sem a qual não há de se falar da existência de norma de incidência válida. Assim, nas contribuições de intervenção sobre o domínio econômico deverá coexistir, para a sua perfeita incidência, os dois núcleos da hipótese de incidência: o "fato do contribuinte", relacionado ao domínio econômico, e os atos interventivos implementados pela União. (...) Assim, no caso específico das contribuições para o INCRA, elas somente se mostram válidas na medida em que o INCRA, efetivamente, promove desapropriações para fins de reforma agrária (circunstância intermediária), visando alterar a estrutura fundiária anacrônica brasileira, conforme minudentemente visto no capítulo 3, aplicandose, assim, os recursos arrecadados na consecução dos objetivos constitucionalmente previstos: função social da propriedade e diminuição das desigualdades regionais. Salientese, por relevante, que as contribuições devidas ao INCRA, muito embora não beneficiem diretamente o sujeito ativo da exação (empresas urbanas e algumas agroindustriais), beneficiam toda a sociedade, por ter a sua arrecadação destinada a custear programas de colonização e reforma agrária, fomentam a atividade no campo, que é de interesse de toda a sociedade (e não só do meio rural), tendo em vista a redução das desigualdades e a fixação do homem na terra. Não há que se falar da existência de uma referibilidade direta, que procura condicionar o pagamento das contribuições às pessoas que estejam vinculadas diretamente a determinadas atividades e que venham a ser beneficiárias da arrecadação. Ora, o princípio da referibilidade direta, como defendido por vários autores, simplesmente não existe no ordenamento jurídico pátrio, especialmente no que se refere às contribuições de intervenção no domínio econômico. Tratase de mera criação teórica e doutrinária, sem respaldo no texto da Constituição Federal. (...) Com efeito, a exação em tela é destinada a fomentar atividade agropecuária, promovendo a fixação do homem no campo e reduzindo as desigualdades na distribuição fundiária. Consequentemente, reduzse o êxodo rural e grande parte dos problemas urbanos dele decorrentes. Não pode ser negado que a política nacional de reforma agrária é instrumento de intervenção no domínio econômico, uma vez que objetiva a erradicação da miséria, segundo o preceituado no §1º do art. 1º da Lei nº 4.504/64 Estatuto da Terra. Fl. 12535DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.468 59 Dessa forma, a referibilidade das contribuições devidas ao INCRA é indireta, beneficiando, de forma mediata, o sujeito passivo submetido a essa responsabilidade”. (destaques nossos) Se bem observados os julgados acima, resta claro que, além da definição de sua natureza jurídica, o STJ afastou todas as argumentações relativas à inconstitucionalidade ou à ilegalidade da contribuição ao INCRA, com base na “referibilidade” ou no “benefício direto”, de sorte a se considerar que as empresas urbanas não seriam contribuintes da contribuição ao INCRA. Com efeito, além dos julgados acima do STJ, cumpre mencionar ainda a orientação do STF destacada no AI 761.127AgR, Rel. Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, DJe de 14.05.2010). É verdade que ainda encontrase pendente de análise pela Suprema Corte a recepção da contribuição ao INCRA no período posterior ao advento da Emenda Constitucional n° 33/2001, que alterou o artigo 149 da Constituição Federal (Repercussão Geral no Recurso Extraordinário n° 630.898, Rel Min. Dias Toffoli, Dje de 28/06/2012). Todavia, mesmo neste aspecto particular, a chance de reconhecimento da inconstitucionalidade parece remota, pois a interpretação restritiva que se pretende atribuir ao § 2º, inciso II, alínea a, destoa da inteligência do próprio caput do art. 149, não alterado pela EC nº 33/2001, sendo certo que o próprio STF já fixou a constitucionalidade da contribuição devida ao SEBRAE, qualificada como contribuição de intervenção no domínio econômico (RE 396.266, Relator Min. Carlos Velloso), e da contribuição criada pela LC nº 110/2001, qualificada com contribuição social geral (ADIN 2.556, Relator Min. Moreira Alves), ambas incidentes sobre a folha de salário das empresas, já sob a égide da EC nº 33/2001. Sendo assim, deve ser mantida a exigência relativamente às contribuições ao INCRA. Logo, improcedente as alegações quanto à inexigência das contribuições ao INCRA. Ilegalidade da cobrança da contribuição previdenciária sobre verbas de caráter indenizatório Em relação a essa alegação, adoto, sem embargo, o seguinte excerto da decisão de piso: A impugnante faz referência a diversas verbas, dizendo não haver previsão legal para a sua cobrança. Não carreia aos autos, contudo, nenhum elemento probatório ou cálculo quantificando esses valores, o que contraria o art. 15 e o art. 16. III, do Decreto nº 70.235/1972. O abono de férias, as férias indenizadas, os ganhos eventuais e os abonos expressamente desvinculados do salário não compõem a base de cálculo das Fl. 12536DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.469 60 contribuições previdenciárias, nos termos do art. 28, §9º, “d”, “e.6”, “e.7”, da Lei nº 8.212/1991. Tratase de verbas que a norma legal excetua, excluindo da base de cálculo dessas contribuições. A impugnante apenas alega, de forma genérica, que essas importâncias não deveriam ter sido lançadas, sem comprovar que a Auditoria as lançou. Deve ser relembrado, ainda, que, sendo a atividade administrativa plenamente vinculada e sendo a tributação regida pelo princípio da legalidade, não pode a autoridade administrativa deixar de lançar contribuição prevista em lei em face de jurisprudência do Poder Judiciário, ainda que proveniente das cortes superiores, a não ser quando ocorrerem as exceções dantes explicitadas. A defendente alega que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça – STJ pacificou o entendimento de que a verba recebida pelo empregado a título de auxíliodoença nos primeiros 15 (quinze) dias de afastamento tem caráter previdenciário, não tendo, pois, natureza salarial. Dessa forma, não incidiria contribuição previdenciária sobre esse montante. Não colaciona aos autos, todavia, nenhuma prova de que dentre os valores lançados se encontra tal verba. Na verdade, no caso, seria estranho que houvesse esse tipo de verba, uma vez que os valores lançados não constaram nas folhas de pagamento da empresa. Além disso, mesmo que houvesse prova de que tais valores compõem a base de cálculo lançada, consta expressamente na Lei nº 8.213/1991, art. 43, §2º, que, durante os primeiros quinze dias de afastamento da atividade por motivo de invalidez, cabe à empresa pagar ao segurado empregado o salário. Da mesma forma, no art. 60, §3º, da mesma lei, consta que nesse período, incumbe à empresa pagar ao segurado empregado o seu salário integral. Segundo o art. 59 do mesmo diploma legal, o auxíliodoença somente é pago a partir do décimo sexto dia após o afastamento. Depreendese do texto legal que a verba paga ao segurado empregado nos 15 (quinze) primeiros dias consecutivos ao do afastamento da atividade por doença não é auxíliodoença, já que esse benefício somente é devido a contar do décimo sexto dia. Além disso, a lei foi clara ao considerar salário o valor pago nos 15 (quinze) primeiros dias. No que diz respeito ao terço constitucional de férias, a interpretação acatada pelo Regulamento da Previdência Social – RPS, no seu art. 214, §4º, é a de que essa verba integra o salário de contribuição. Esse entendimento se coaduna com a tese de que a remuneração que compõe o salário de contribuição é, na verdade, um complexo de verbas recebidas não somente em virtude da prestação do serviço em si, mas também daquelas recebidas em virtude do contrato de trabalho. Além de haver disposição regulamentar expressa, a vigente Instrução Normativa RFB nº 971/2009 dispõe: Art. 57. As bases de cálculo das contribuições sociais previdenciárias da empresa e do equiparado são as seguintes: ... § 8º A remuneração adicional de férias, de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal, integra a base de cálculo, no mês a que ela se referir, mesmo quando paga antecipadamente na forma da legislação trabalhista. Quanto à jurisprudência dos nossos tribunais judiciais, apesar de a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça – STJ se inclinar pela não incidência da contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias e a matéria ter Fl. 12537DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.470 61 sido submetida ao rito previsto no Código de Processo Civil, art. 543C (recursos repetitivos) juntamente com aviso prévio indenizado e valor pago nos primeiros quinze dias antes do auxíliodoença, no julgamento do Recurso Especial 1230957/RS, não houve ainda decisão sobre o assunto, estando os autos conclusos em razão de pedido de vista desde 17/06/2013. Mais importante, a não vinculação da RFB a esse entendimento resta evidente em face da existência da Nota PGFN/CRJ nº 640/2014, que expressamente determina que os procuradores devem continuar contestando e recorrendo das decisões emanadas do Poder Judiciário. Vale salientar, ainda, que a incidência de contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias está submetida ao julgamento pelo Supremo Tribunal Federal – STF por meio do RE 593068/SC pelo rito estabelecido no Código de Processo Civil, art. 543B (Repercussão Geral), porém não há ainda decisão definitiva sobre esses temas, tendo sido o processo concluso ao relator em 01/08/2013. Além disso, o acórdão recorrido trata da contribuição para o Plano de Previdência do Servidor Público, e não da contribuição relativa ao Regime Geral de Previdência Social. Quanto ao saláriomaternidade, em momento algum a Auditoria citou verba recebida a esse título em seu relatório, mesmo porque, como já se viu, o lançamento trata de verbas não declaradas que não constam nas folhas de pagamento, as quais foram pagas mediante ardil para escondêlas. Sendo o saláriomaternidade um benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, não cabe a alegação da impugnante, não estando entre os pagamentos verificados. Ademais, mesmo que estivesse, o saláriomaternidade é base de cálculo da contribuição previdenciária conforme expressamente determinado pelo art. 28, §2º, da Lei nº 8.212/1991. Com efeito, compulsandose a planilha de fls. 10.809/11.252, vêse que os pagamentos são identificados por rubricas genéricas como "Comissões nao Lanc. no Re", "Salários/Ordenados", "Ferias e 1/3 Ferias", não sendo possível identificar de modo individualizado o valor de cada verba. Neste caso, caberia aos recorrentes fazer prova do pagamento de parcelas que não compõem o salário de contribuição, para que esses valores pudessem ser excluídos da base de cálculo tributável. Em razão do exposto, nego provimento ao recurso com relação às supostas parcelas de caráter indenizatório. Inexigência da contribuição previdenciária sobre auxílioalimentação fornecido in natura por empresa não cadastrada no PAT Na planilha de fls. 10.809/11.252 estão listados os valores considerados pela fiscalização para fins de lançamento no levantamento PF Remunerações Pagas a Empregado, de onde foram excluídas as importâncias já declaradas em GFIP. Para os CNPJ 06.987.857/000123 (filial 63 RFE), 06.987.857/000557 (Filial 077 Cascavel) e 06.987.857/000638 (filial 074 Feira) há efetivamente a identificação de valores pagos a título de "Alimentação Copa e Cozinh" com o nome do empregado que o recebeu. Fl. 12538DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.471 62 Quanto ao auxílio alimentação, há jurisprudência recente da Câmara Superior de Recursos Fiscais no seguinte sentido: AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO. IN NATURA. AUSÊNCIA DE INSCRIÇÃO NO PAT. PARECER PGFN/CRJ/Nº2117/2011. NÃO INCIDÊNCIA. Com a edição do parecer PGFN n 2117/2011, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional reconheceu ser aplicável a jurisprudência já consolidada do STJ, no sentido de que não incidem contribuições previdenciárias sobre valores de alimentação in natura concedidas pelos empregadores a seus empregados. (Acórdão 9202005.193 de relatoria do Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos) Da fundamentação desse Acórdão extraise que: Entendo que o lançamento ora sob enfoque, se enquadra na exclusão prevista no Parecer PGFN/CRJ/Nº 2.117/2011 da Procuradoria da Fazenda Nacional, aprovado pelo Senhor Ministro de Estado da Fazenda que ensejou a publicação do Ato Declaratório 03/2011, posto que a alimentação mencionada no dito Parecer se coaduna apenas com a fornecida in natura, ou seja, sob a forma de utilidades. Transcrevo abaixo, o referido parecer para esclarecimentos da sua aplicabilidade. ATO DECLARATÓRIO Nº 03 /2011 A PROCURADORAGERAL DA FAZENDA NACIONAL, no uso da competência legal que lhe foi conferida, nos termos do inciso II do art. 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, e do art. 5º do Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997, tendo em vista a aprovação do Parecer PGFN/CRJ/Nº 2117 /2011, desta ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, pelo Senhor Ministro de Estado da Fazenda, conforme despacho publicado no DOU de 24.11.2011, DECLARA que fica autorizada a dispensa de apresentação de contestação e de interposição de recursos, bem como a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante: nas ações judiciais que visem obter a declaração de que sobre o pagamento in natura do auxílio alimentação não há incidência de contribuição previdenciária. JURISPRUDÊNCIA: Resp nº 1.119.787SP (DJe 13/05/2010), Resp nº 922.781/RS (DJe 18/11/2008), EREsp nº 476.194/PR (DJ 01.08.2005), Resp nº 719.714/PR (DJ 24/04/2006), Resp nº 333.001/RS (DJ 17/11/2008), Resp nº 977.238/RS (DJ 29/11/2007). Brasília, 20 de dezembro de 2011. ADRIANA QUEIROZ DE CARVALHO ProcuradoraGeral da Fazenda Nacional Portanto, com a edição do parecer PGFN2117/2011, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional reconheceu ser aplicável a jurisprudência já consolidada do STJ, no sentido de que não incidem contribuições previdenciárias sobre valores de Fl. 12539DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.472 63 alimentação in natura concedidas pelos empregadores a seus empregados. Daí decorre que a exceção à regra geral de tributação está adstrita ao auxílio alimentação pago in natura, o que não corresponde à situação dos autos, onde o pagamento ocorreu em moeda corrente. Ao contrário do que afirmam os recorrentes, o relatório fiscal evidencia, inclusive com cópia de depósitos realizados nas contas dos empregados (itens 690 e 691 do relatório fiscal), aquilo que já era sugerido pela conta caixa: que o auxílioalimentação foi prestado em pecúnia e não in natura. Neste caso, os valores assim despendidos devem ser incluídos na base de cálculo dos contribuições previdenciárias, razão pela qual nego provimento ao recurso no que diz respeito ao auxílioalimentação. Por outro lado, foram realizados também pagamentos a título de vale transporte e o relatório fiscal faz várias menções a eles. Para esta rubrica a solução é diferente, pois constitui matéria que já foi sumulada por este Colegiado, conforme evidencia o seguinte enunciado: Súmula CARF nº 89: A contribuição social previdenciária não incide sobre valores pagos a título de valetransporte, mesmo que em pecúnia. De acordo com o art. 72 do Regimento Interno deste órgão colegiado, as decisões reiteradas e uniformes do CARF serão consubstancias em súmula de observância obrigatória pelos seus membros. O art. 45 do mesmo regimento determina que perderá o mandato o conselheiro que deixar de observar enunciado de súmula ou de resolução do Pleno da CSRF. Na planilha de fls. 10.809/11.252 estão identificados para o CNPJ de raiz 06.987.857 pagamentos a título de vale transporte. Também há referência expressa a pagamentos realizados a esse título no relatório da atividade fiscal (tópico 7.3. Do Modus Operandi). Em razão de aplicação do enunciado acima transcrito da Súmula de Jurisprudência deste CARF, fazse necessário dar provimento ao recurso apresentado pelos responsáveis solidários para excluir da base de cálculo tributável os valores relativos a vale transporte. Inexigência de contribuição ao sistema "S" por ausência de vinculação da arrecadação Aqui também os recorrentes buscam negar validade às normas em vigor com argumentos de inconstitucionalidade, análise que esbarra no enunciado nº 2 da Súmula de jurisprudência do CARF. A despeito disso, adoto também como razões de decidir o seguinte excerto da decisão recorrida: Fl. 12540DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.473 64 As contribuições lançadas foram aquelas destinadas ao SESC e ao SENAC e a empresa é uma loja de revenda de autopeças e se ajusta ao Código Nacional de Atividades Econômicas – CNAE 4530701, correspondente a “Comércio por atacado de peças e acessórios novos para veículos automotores”. Esse CNAE foi informado pela própria empresa em suas GFIP e se coaduna com as atividades por ela desenvolvidas. Assim, a alegação da impugnante é totalmente descabida e dissociada dos fatos aqui sob julgamento. Vale ressaltar, ainda, que mesmo que ela fosse uma prestadora de serviços, caberia a cobrança de tais contribuições. Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Resp 1255433, efetivado no rito previsto no Código de Processo Civil – CPC, art. 543C (Recursos Repetitivos), são devidas as contribuições para o SESC e SENAC pelas empresas prestadoras de serviços. Segue a ementa dessa decisão: TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA N. 284/STF. Recurso Especial representativo de controvérsia (art. 543C, do CPC). CONTRIBUIÇÃO AO SESC E SENAC. EMPRESAS PRESTADORAS DE SERVIÇOS EDUCACIONAIS. INCIDÊNCIA. 1. Não merece conhecimento o recurso especial que aponta violação ao art. 535, do CPC, sem, na própria peça, individualizar o erro, a obscuridade, a contradição ou a omissão ocorridas no acórdão proferido pela Corte de Origem, bem como sua relevância para a solução da controvérsia apresentada nos autos. Incidência da Súmula n. 284/STF: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a deficiência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia". 2. As empresas prestadoras de serviço são aquelas enquadradas no rol relativo ao art. 577 da CLT, atinente ao plano sindical da Confederação Nacional do Comércio CNC e, portanto, estão sujeitas às contribuições destinadas ao SESC e SENAC. Precedentes: REsp. n. 431.347/SC, Primeira Seção, Rel. Min Luiz Fux, julgado em 23.10.2002; e AgRgRD no REsp 846.686/RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 16.9.2010. (GRIFEI) 3. O entendimento se aplica às empresas prestadoras de serviços educacionais, muito embora integrem a Confederação Nacional de Educação e Cultura, consoante os seguintes precedentes: Pela Primeira Turma: EDcl no REsp. 1.044.459/PR; AgRg no Ag 882.956/MG; REsp. 887.238/PR; REsp. 699.057/SE; Pela Segunda Turma: AgRg no Ag 1.347.220/SP; AgRgRD no REsp. 846.686/RS; REsp. 886.018/PR; AgRg no REsp. 1.041.574 PR; REsp. 1.049.228/PE; AgRg no REsp. 713.653/PR; REsp. 928.818/PE. Fl. 12541DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.474 65 4. A lógica em que assentados os precedentes é a de que os empregados das empresas prestadoras de serviços não podem ser excluídos dos benefícios sociais das entidades em questão (SESC e SENAC) quando inexistente entidade específica a amparar a categoria profissional a que pertencem. Na falta de entidade específica que forneça os mesmos benefícios sociais e para a qual sejam vertidas contribuições de mesma natureza e, em se tratando de empresa prestadora de serviços, há que se fazer o enquadramento correspondente à Confederação Nacional do Comércio CNC, ainda que submetida a atividade respectiva a outra Confederação, incidindo as contribuições ao SESC e SENAC que se encarregarão de fornecer os benefícios sociais correspondentes. (GRIFEI) 5. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C, do CPC, e da Resolução STJ n. 8/2008. Argumentos rejeitados. Multa Em relação à multa aplicada, os recorrentes iniciam por afirmar que não houve comprovação do intuito de fraude. Em seguida, requerem sua redução a 10% pela aplicação do princípio constitucional do não confisco e, invocando o princípio da eventualidade, requerem sua redução para 75% por ausência de fraude ou omissão dolosa e acabam por alegar a existência de "bis in idem". A multa aplicada tem previsão legal no art. 44, I c/c § 1º da Lei nº 9.430, de 1996, e a validade dessa norma não foi afastada por qualquer decisão da corte que poderia fazer um juízo de sua inadequação com eficácia erga omnes. Portanto, a lei permanece em vigor e deve ser respeitada pelos julgadores administrativos, conforme foi reiteradamente assentado neste voto. Por outro lado, o processo em análise contém provas indiscutíveis do comportamento artificioso dos recorrentes, com a criação de pessoas jurídicas constituídas por "laranjas", para o que foram falsificados documentos e assinaturas, incluindo Declarações de Imposto de Renda de Pessoa Física. Em razão disso, devese concordar com a autoridade fiscal quando atribui aos sujeitos passivos a prática de condutas condizentes com a sonegação e a fraude, até porque as exigências fiscais evidenciam que as obrigações tributárias não foram cumpridas e seus fatos geradores foram ocultados pelas práticas adotadas. No mais, embora façam menção ao "bis in idem", não demonstram a sua ocorrência, de forma que essa alegação é por demais genérica para ser enfrentada. Nego provimento ao recurso quanto à exclusão ou redução da multa de ofício. Inaplicabilidade da taxa Selic Fl. 12542DF CARF MF Processo nº 10166.728964/201491 Acórdão n.º 2201003.780 S2C2T1 Fl. 12.475 66 Essa matéria também se encontra pacificada no âmbito deste colegiado, conforme demonstra o seguinte enunciado: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Alegações rejeitadas. Realização de perícia e a colheita de depoimentos Em relação ao pedido de perícia, a recorrente protesta pela sua realização mas não apresenta nenhum argumento que evidencie a necessidade dela. A perícia é meio de prova a ser manejada quando houver insuficiência de informações no processo de modo a impossibilitar sua perfeita compreensão pelo julgador, mas não se presta a suprir omissões do sujeito passivo em comprovar o direito alegado. Não vejo neste processo nenhuma lacuna ou inconsistência que gere dúvida passível de ser esclarecida através de perícia. Nego provimento ao pedido de realização de perícia. Conclusão Diante de todo o exposto, voto por conhecer dos recurso voluntários, para, no mérito, darlhes parcial provimento para excluir do lançamento a rubrica relativa ao vale transporte pago em pecúnia. (Assinado digitalmente) Daniel Melo Mendes Bezerra Relator Fl. 12543DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.900706/2008-08
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 24/04/2008
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ENFRENTAMENTO DA FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. CONHECIMENTO.
O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal.
PROVAS DOCUMENTAIS NÃO CONHECIDAS. REVERSÃO DA DECISÃO NA INSTÂNCIA SUPERIOR. RETORNO DOS AUTOS PARA APRECIAÇÃO E PROLAÇÃO DE NOVA DECISÃO.
Considerado equivocado o acórdão recorrido ao entender pelo não conhecimento de provas documentais somente carreadas aos autos após o prazo para apresentação da impugnação, estes devem retornar à instância inferior para a sua apreciação e prolação de novo acórdão.
Recurso Especial do Contribuinte provido.
Numero da decisão: 9303-005.065
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Charles Mayer de Castro Souza (relator) e Júlio César Alves Ramos, que não conheceram do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem para análise de novos documentos juntados pelo sujeito passivo. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Vanessa Marini Cecconello.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
(assinado digitalmente)
Vanessa Marini Cecconello - Redatora designada
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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MOMENTO DE APRESENTAÇÃO Recorrente AUTOTRAC COMERCIO E TELECOMUNICAÇÕES S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 24/04/2008 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ENFRENTAMENTO DA FUNDAMENTAÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. CONHECIMENTO. O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal. PROVAS DOCUMENTAIS NÃO CONHECIDAS. REVERSÃO DA DECISÃO NA INSTÂNCIA SUPERIOR. RETORNO DOS AUTOS PARA APRECIAÇÃO E PROLAÇÃO DE NOVA DECISÃO. Considerado equivocado o acórdão recorrido ao entender pelo não conhecimento de provas documentais somente carreadas aos autos após o prazo para apresentação da impugnação, estes devem retornar à instância inferior para a sua apreciação e prolação de novo acórdão. Recurso Especial do Contribuinte provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 90 07 06 /2 00 8- 08 Fl. 623DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Charles Mayer de Castro Souza (relator) e Júlio César Alves Ramos, que não conheceram do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem para análise de novos documentos juntados pelo sujeito passivo. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Vanessa Marini Cecconello. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Redatora designada Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 380300.949, de 28/10/2008, proferido pela 3ª Turma Especial da Terceira Seção do CARF, que fora assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 24/04/2008 PROVA AUSÊNCIA DA ESCRITURAÇÃO A ausência nos autos de material comprobatório consistente na escrituração contábil e fiscal que justifique a redução da base de cálculo da contribuição na DCTF retificadora, impede formar convicção sobre as alegações de existência de crédito. Contra a decisão, a contribuinte apresentou embargos de declaração, que, acolhidos, mas sem modificação do julgamento, resultou no Acórdão nº 380302.749, de 24/04/2012 (fls. 483/486), assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 624DF CARF MF Processo nº 10166.900706/200808 Acórdão n.º 9303005.065 CSRFT3 Fl. 624 3 Data do fato gerador: 24/04/2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. REDISCUSSÃO DA MATÉRIA JULGADA. IMPOSSIBILIDADE. Os Embargos de Declaração são modalidade recursal de integração e objetivam, tão somente, sanar obscuridade, contradição ou omissão, de maneira a permitir o exato conhecimento do teor do julgado. ALEGAÇÕES E PROVAS APRESENTADAS SOMENTE NO RECURSO. PRECLUSÃO. Consideramse precluídos, não se tomando conhecimento, os argumentos e provas não submetidos ao julgamento de primeira instância, apresentados somente na fase recursal. Embargos Acolhidos Direito Creditório Não Reconhecido A contribuinte, então, apresentou novos embargos, aos quais, todavia, negou se seguimento (fls. 581/584). No Recurso Especial, por meio do qual pleiteou, ao final, a reforma do decisum, a Recorrente suscita divergência quanto à inadmissibilidade da prova apresentada pela Recorrente, apenas no recurso voluntário, tendo sido aplicado ao caso o princípio da preclusão, à luz do que reza o art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72. Alega divergência de entendimento em relação ao que decidido no Acórdão nº 902001.634. O exame de admissibilidade do Recurso Especial encontrase às fls. 616/618. Cientificada, a Procuradoria apresentou contrarrazões ao recurso especial (fls. 620/621). É o Relatório. Voto Vencido Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial não deve ser conhecido. Para demonstrálo, passamos a reproduzir excertos do Acórdão nº 3803 00.949, bem como do que o integrou, o Acórdão de nº 380302.749, que resultou do julgamento dos primeiros embargos, já que os segundos restaram não admitidos: Acórdão nº 380300.949 (Recurso Voluntário): Fl. 625DF CARF MF 4 No caso em análise, a manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte aponta para a possibilidade da contribuinte ter efetuado pagamento a maior através do DARF de R$ 441.873,45 recolhido em 15/04/2003 (valor devido de R$ 432.306,09), o que levaria a existência de um suposto crédito no montante R$ 9.567,36 em favor da Impugnante. Esse montante teria sido totalmente utilizado para pagamento complementar da Cofins dos meses de setembro de 2003 (R$ 7.294,68) e dezembro de 2003 (R$ 1.662,15), acrescido dos respectivos acréscimos legais. Encontramse anexados ao presente processo: • cópia da DIPJ 2004 com dados do cálculo da contribuição para a Cofins referentes a março de 2003 (fl. 81), que demonstra que a contribuição para a Cofins apurada no período, após as deduções, foi de R$ 432.306,09; • cópia da DCTF do 1o trimestre de 2003 (fls. 82/84), que demonstra a existência de um débito apurado no valor de R$ 441.873,45, referente ao mês de março de 2003, que se encontra vinculado a um pagamento efetuado por meio de DARF de mesmo valor; • planilha elaborada pela própria contribuinte (fl. 80) demonstrando as alegações feitas. No entanto, a contribuinte não trouxe aos Autos material probatório que comprovasse o erro cometido no preenchimento da DCTF, o que demonstraria a existência do crédito alegado referente ao DARF recolhido, bem como a possibilidade de utilizálo para quitar os débitos apurados em outros períodos. Apresentar apenas cópias da DIPJ, da DCTF e da planilha elaborada pela própria contribuinte, sem a devida escrituração, não é suficiente para comprovar as alegações da contribuinte, não sendo, portanto, capaz de "desconstituir o que foi constituído". (grifamos) Acórdão nº 380302.749 (primeiros embargos): Compulsando o voto condutor da decisão embargada, há que se dar razão à Embargante, já que, aparentemente, o relator limitouse a refutar o poder probante das provas acostadas aos autos até o momento processual da Manifestação de Inconformidade, sem nada acrescentar quanto aos documentos e esclarecimentos trazidos aos autos no recurso voluntário, no sentido de evidenciar o erro cometido nas informações prestadas em DCTF. Nesse sentido, portanto, entendo que a omissão deve ser sanada pela via dos presentes declaratórios. Talvez tal omissão expliquese pela preclusão temporal que se operou. É que, de acordo com as normas processuais, é na manifestação de inconformidade que a lide é demarcada e o processo administrativo propriamente dito tem início, com a Fl. 626DF CARF MF Processo nº 10166.900706/200808 Acórdão n.º 9303005.065 CSRFT3 Fl. 625 5 instauração do litígio, não se permitindo, a partir daí, a abertura de novas teses de defesa ou a apresentação de novas provas, a não ser nas situações legalmente excepcionadas. A este respeito, Marcos Vinícius Neder de Lima e Maria Tereza Martínez López1 asseveram que “a inicial e a impugnação fixam os limites da controvérsia, integrando o objeto da defesa as afirmações contidas na petição inicial e na documentação que a acompanha”. As alegações de defesa são faculdades do demandado, mas constituemse em verdadeiro ônus processual, porquanto, embora o ato seja instituído em seu favor, não sendo praticado no tempo certo, surgem para a parte conseqüências gravosas, dentre elas a perda do direito de fazêlo posteriormente, pois operase, nesta hipótese, o fenômeno da preclusão, isto porque o processo é um caminhar para a frente, não se admitindo, em regra, ressuscitar questões já ultrapassadas em fases anteriores. De acordo com o § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, só é lícito produzir novas provas quando: 1) relativas a direito superveniente; 2) competir ao julgador delas conhecer de ofício, a exemplo da decadência; ou 3) por expressa autorização legal. (...) Ainda que, por liberalidade injustificada, se conhecesse dos documentos aportados aos autos intempestivamente, o recorrente não se preocupou em identificar, inequivocamente, a ocorrência do fato gerador, a base de cálculo sujeita à tributação e o correspondente tributo devido, limitandose a apresentar planilha de demonstração do valor recolhido a maior de cálculo e demonstrativos outros, sem resguardo de qualquer formalidade e, principalmente, sem o necessário lastro na sua escrita contábil e em documentação idônea e hábil para atestar a liquidez e a certeza do crédito oposto na compensação declarada. (grifamos) Claro está não constituir a apresentação intempestiva de provas – as só apresentadas após a manifestação de inconformidade – o único fundamento da decisão recorrida, uma vez que o relator dos primeiros aclaratórios deixou assentado que, não fosse a preclusão temporal instituída na legislação processual, ainda restaria o fato de que os documentos só intempestivamente trazidos autos nada comprovavam, pois a Recorrente, disse, limitouse “a apresentar planilha de demonstração do valor recolhido a maior de cálculo e demonstrativos outros, sem resguardo de qualquer formalidade e, principalmente, sem o necessário lastro na sua escrita contábil e em documentação idônea e hábil para atestar a liquidez e a certeza do crédito oposto na compensação declarada”. A decisão recorrida, portanto, assentouse em dois fundamentos. Ao atacar apenas um deles o recurso especial, aquela, ainda que procedente a divergência quanto ao fundamento atacado, permaneceria incólume quanto ao segundo, já que independentes e suficientes para a sua manutenção, o que, a nosso juízo, impede o conhecimento do apelo. Fl. 627DF CARF MF 6 Em caso bastante semelhante, em que a decisão recorrida se sustenta em dois fundamentos (no caso, um constitucional e outro infraconstitucional), o Superior Tribunal de Justiça editou o verbete de nº 126, segundo o qual “É inadmissível recurso especial, quando o acordão recorrido assenta em fundamentos constitucional e infraconstitucional, qualquer deles suficiente, por si só, para mantêlo, e a parte vencida não manifesta recurso extraordinário”. E, nesta mesma Turma, confirase, ainda, a seguinte ementa de recente acórdão, também da nossa relatoria: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 08/02/2000 a 04/12/2000 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. MAIS DE UM FUNDAMENTO. É inadmissível o recurso especial, quando o acordão recorrido assenta em mais de um fundamento, qualquer deles suficiente, por si só, para mantêlo, e o recorrente não se manifesta contra todos. Recurso Especial do Contribuinte não conhecido. (Acórdão nº 9303004.591, de 24/01/2017) Todavia, como este não foi o entendimento da Turma, aderimos à tese prevalecente quanto ao mérito do litígio, uma vez que, no caso, a Recorrente sequer foi intimada a apresentar provas do direito que alegava seu antes de proferido o Despacho Decisório, em desconformidade com o que preceitua o art. 3º, III, da Lei nº 9.784, de 1999. Donde o necessário envio dos autos à Câmara baixa para apreciação das provas carreadas aos autos, ainda que em sede de recurso voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 628DF CARF MF Processo nº 10166.900706/200808 Acórdão n.º 9303005.065 CSRFT3 Fl. 626 7 Voto Vencedor Conselheira Vanessa Marini Cecconello, Redatora designada Com a devida vênia ao bem fundamento voto do Ilustre Conselheiro Relator, a maioria dos membros do Colegiado divergiu do seu entendimento quanto à admissibilidade do recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte, prevalecendo o entendimento pelo prosseguimento do apelo especial. O presente processo administrativo originouse de pedido de compensação transmitido pela Contribuinte, em 11/03/2004, de créditos de COFINS decorrentes de pagamento indevido ou a maior, para liquidação de débitos próprios. Sobreveio despacho decisório não homologando o pedido de compensação, sob o fundamento de inexistência de crédito disponível para compensação com os débitos informados. Tendose insurgido a Contribuinte por meio de manifestação de inconformidade, a DRJ entendeu por manter a não homologação da compensação em razão do saldo insuficiente para compensar e, ainda, acrescentou os seguintes argumentos: a Contribuinte não trouxe aos autos elemento de prova de erro material no preenchimento da DCTF; e a simples apresentação das cópias da DIPJ e da DCTF, bem como de planilha elaborada pelo Sujeito Passivo, sem a devida escrituração, não são suficientes para comprovar as suas alegações. Em sede de julgamento de recurso voluntário, sobreveio o acórdão nº 3803 00.949, ora recorrido, que lhe negou provimento em razão da ausência de provas nos autos, consistente na escrituração contábil e fiscal da empresa, que justificassem a redução da base de cálculo da contribuição na DCTF retificadora, conforme trecho destacado acima pelo nobre Relator, in verbis: [...] No entanto, a contribuinte não trouxe aos Autos material probatório que comprovasse o erro cometido no preenchimento da DCTF, o que demonstraria a existência do crédito alegado referente ao DARF recolhido, bem como a possibilidade de utilizálo para quitar os débitos apurados em outros períodos. Apresentar apenas cópias da DIPJ, da DCTF e da planilha elaborada pela própria contribuinte, sem a devida escrituração, não é suficiente para comprovar as alegações da contribuinte, não sendo, portanto, capaz de "desconstituir o que foi constituído". [...] Opostos embargos de declaração pela Contribuinte, a decisão de negativa de provimento ao recurso voluntário foi complementada, nos termos do acórdão nº xxx, para Fl. 629DF CARF MF 8 acrescentar considerações quanto aos documentos e esclarecimentos trazidos aos autos sobre o equívoco das informações prestadas em DCTF, in verbis: [...] Compulsando o voto condutor da decisão embargada, há que se dar razão à Embargante, já que, aparentemente, o relator limitouse a refutar o poder probante das provas acostadas aos autos até o momento processual da Manifestação de Inconformidade, sem nada acrescentar quanto aos documentos e esclarecimentos trazidos aos autos no recurso voluntário, no sentido de evidenciar o erro cometido nas informações prestadas em DCTF. [...] Talvez tal omissão expliquese pela preclusão temporal que se operou. É que, de acordo com as normas processuais, é na manifestação de inconformidade que a lide é demarcada e o processo administrativo propriamente dito tem início, com a instauração do litígio, não se permitindo, a partir daí, a abertura de novas teses de defesa ou a apresentação de novas provas, a não ser nas situações legalmente excepcionadas. A este respeito, Marcos Vinícius Neder de Lima e Maria Tereza Martínez López asseveram que “a inicial e a impugnação fixam os limites da controvérsia, integrando o objeto da defesa as afirmações contidas na petição inicial e na documentação que a acompanha”. As alegações de defesa são faculdades do demandado, mas constituemse em verdadeiro ônus processual, porquanto, embora o ato seja instituído em seu favor, não sendo praticado no tempo certo, surgem para a parte conseqüências gravosas, dentre elas a perda do direito de fazêlo posteriormente, pois operase, nesta hipótese, o fenômeno da preclusão, isto porque o processo é um caminhar para a frente, não se admitindo, em regra, ressuscitar questões já ultrapassadas em fases anteriores. [...] Este colegiado já teve oportunidade de manifestarse nesse sentido, por meio do Acórdão nº 380302.042, de 6 de outubro de 2011: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2003, 2004 ALEGAÇÕES E PROVAS APRESENTADAS SOMENTE NO RECURSO. PRECLUSÃO. Fl. 630DF CARF MF Processo nº 10166.900706/200808 Acórdão n.º 9303005.065 CSRFT3 Fl. 627 9 Consideramse precluídos, não se tomando conhecimento, os argumentos e provas não submetidos ao julgamento de primeira instância, apresentados somente na fase recursal. Ainda que, por liberalidade injustificada, se conhecesse dos documentos aportados aos autos intempestivamente, o recorrente o recorrente não se preocupou em identificar, inequivocamente, a ocorrência do fato gerador, a base de cálculo sujeita à tributação e o correspondente tributo devido, limitandose a apresentar planilha de demonstração do valor recolhido a maior de cálculo e demonstrativos outros, sem resguardo de qualquer formalidade e, principalmente, sem o necessário lastro na sua escrita contábil e em documentação idônea e hábil para atestar a liquidez e a certeza do crédito oposto na compensação declarada. [...] Conforme se depreende da fundamentação do acórdão que acolheu os embargos de declaração, não houve alteração do resultado do julgamento do recurso voluntário, nem mesmo acréscimo de argumentos à decisão, mas sim restou esmiuçado e detalhado o entendimento de que a não apresentação das provas do crédito tributário em momento oportuno implica na preclusão de o contribuinte fazêlo. Além disso, no acórdão de embargos de declaração não houve a apreciação dos documentos juntados com o recurso voluntário, conforme pretendia o Recorrente, mas simplesmente foram listados e concluiu o julgador, nos mesmos termos do acórdão então embargado, ser imprescindível a juntada de escrita fiscal e contábil para comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário pretendido compensar. A Contribuinte interpôs, ainda, novos embargos de declaração por entender que permanecia a omissão no julgado quanto à documentação apresentada, e a existência de contradição e obscuridade, tendo sido os mesmos rejeitados consoante despacho nº 3803 000.154, de 21/09/2012 (fls. 581 a 584), de cujo inteiro teor extraise que: [...] Inexiste no acórdão embargado qualquer omissão a reclamar o acolhimento dos presentes embargos, pois tanto os fatos quanto os fundamentos da decisão foram expostos de forma clara, concisa e nítida. Digno de nota, a decisão recorrida enfrentou expressamente a questão, ao declinar que os documentos apresentados na manifestação de inconformidade não eram hábeis e suficientes para atestar a liquidez e certeza dos créditos opostos em compensação e que a documentação aportada aos autos juntamente com o recurso voluntário, ainda insuficiente para o mesmo fim, não seria conhecida em razão de sua intempestividade. Fl. 631DF CARF MF 10 Inexiste vício a sanar na decisão embargada. [...] Portanto, com a devida vênia ao entendimento contrário, um único fundamento prevaleceu para negar provimento ao recurso voluntário: a não apresentação de documentos hábeis a comprovar a pretensão compensatória da empresa quando da apresentação da manifestação de inconformidade, nesses compreendidos a escrita fiscal e contábil, acarreta a preclusão e impede o julgador de formar convicção quanto ao direito creditório. Não há de se falar, assim, em fundamentos autônomos e suficientes, cada um por si só, para manutenção da decisão recorrida. O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte face à negativa de provimento ao recurso voluntário, atende aos pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 256/2009 e reproduzido na Portaria MF nº 343/2015, devendo ter prosseguimento. Ao invocar a existência de dissenso jurisprudencial quanto à "inadmissibilidade da prova apresentada pela Recorrente, apenas no recurso voluntário, tendo sido aplicado ao caso o princípio da preclusão", colacionou o acórdão paradigma nº 9020 01.634, comprovando a divergência de entendimentos, conforme se extrai da ementa do julgado paradigmático: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 1999 APRESENTAÇÃO DE PROVAS APÓS A IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO PROCESSUAL E PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. Nos processos de determinação e exigência de crédito tributário, a impugnação fixará os limites da controvérsia, sendo considerada como não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. No entanto, a noção de preclusão não pode ser levada às últimas conseqüências, devendo o julgador ponderar sua aplicação no caso concreto à luz dos elementos constantes dos autos e que conduzem à identificação plena da matéria tributável, em homenagem ao princípio da verdade material. Recurso especial negado. O recurso especial de divergência que combate a fundamentação do acórdão recorrido, demonstrando a comprovação do dissenso jurisprudencial, deve ser conhecido, consoante art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Além disso, mesmo após complementada a decisão ora recorrida com relação à ocorrência da preclusão para a produção Fl. 632DF CARF MF Processo nº 10166.900706/200808 Acórdão n.º 9303005.065 CSRFT3 Fl. 628 11 de provas, pela via dos embargos de declaração, não se caracterizou a hipótese de fundamentos autônomos suficientes, cada um por si só, para manutenção do julgado, estando correta a insurgência pela via especial enfrentando o argumento da possibilidade de apresentação e análise de documentos novos em sede recursal. Diante do exposto, entendeu a maioria do Colegiado por conhecer do recurso especial da Contribuinte, nos termos do voto que me coube redigir apenas quanto à admissibilidade do recurso. É o voto. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Fl. 633DF CARF MF
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Numero do processo: 10945.000076/2009-75
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES DE CABIMENTO.
Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se a turma.
Numero da decisão: 9303-005.487
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para, re-ratificando o Acórdão nº 9303-004.340, de 5/10/2016, sanar a omissão apontada, mantendo inalterado o resultado do julgamento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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HIPÓTESES DE CABIMENTO. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para, reratificando o Acórdão nº 9303004.340, de 5/10/2016, sanar a omissão apontada, mantendo inalterado o resultado do julgamento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 94 5. 00 00 76 /2 00 9- 75 Fl. 790DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Embargos de Declaração interpostos tempestivamente pela Delegacia da Receita Federal de Foz de Iguaçu/PR contra o Acórdão nº 9303004.340, de 5/10/2016, proferido pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que fora assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2006 ENTIDADE BENEFICENTE. CEBAS. CARÁTER DECLARATÓRIO. O Parecer PGFN/2132/2011, aprovado pelo Ato Declaratório PGFN nº 05/2011, declarou a inexigibilidade de contestação e recurso, determinando a desistência dos recursos interpostos, em relação às ações e decisões judiciais que fixam o entendimento de que o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social Cebas é meramente declaratório, produzindo efeito ex tunc, retroagindo à data de protocolo do respectivo requerimento. Recurso Especial da Procuradoria negado. Alega a Embargante que a decisão foi omissa quanto ao caráter contraprestacional das receitas, para os fins de incidência da Cofins. O exame de admissibilidade dos embargos encontrase às fls. 787/789. É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Com efeito, o acórdão embargado não apreciou o segundo tema proposto no recurso especial – o de que as receitas de cunho contraprestacional, decorrentes de prestação de serviços que constituem o objeto da entidade não constituem receita própria –, mas apenas o primeiro – a necessidade de apresentação de Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas). Caracterizada a omissão, hipótese que autoriza o manejo dos aclaratórios, nos termos do art. 65 do atual Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF/2015), passamos à apreciação do tema omisso. A questão é simples e não comporta maiores digressões. Restringese a saber se a isenção da Cofins para as entidades de educação e assistência social sem fins lucrativos compreende ou não as receitas obtidas na prestação de serviços com caráter contraprestacional. Conforme demonstrado no exame de sua admissibilidade, o recurso especial trouxe entendimentos divergentes adotados por Turmas diversas deste Conselho Administrativo, considerando a isenção referente a atividades próprias Fl. 791DF CARF MF Processo nº 10945.000076/200975 Acórdão n.º 9303005.487 CSRFT3 Fl. 791 3 exclusivamente àquelas referentes a contribuições, doações e recursos assemelhados sem qualquer caráter contraprestacional direto. Todavia, embora conhecido, é de se negar provimento ao recurso especial. No caso em exame, o objeto da FUNDAÇÃO DE SAÚDE ITAIGUAPY é a prestação de serviços de assistência médica e de proteção e preservação da saúde humana. Conforme art. 6º do seu Estatuto: Art. 6° A FUNDAÇÃO tem por finalidades especificas: I Manter e operar o Hospital Ministro Costa Cavalcanti, localizado em Foz do Iguaçu, Paraná, assegurando permanentemente o seu equilíbrio econômicofinanceiro; II Prestar á comunidade assistência médicohospitalar preventiva e curativa, em regime ambulatorial e de internamento; III Propiciar condições para a formação, aperfeiçoamento ou especialização de pessoal da área médicosanitária, de pesquisa, biossocial e de investigação cientifica; IV Prover condições para o desenvolvimento e aprimoramento das atividades hospitalares e da formação profissional de seus funcionários e colaboradores; VI instituir outros serviços na área de educação e assistência voltadas com previa anuência do Conselho de Curadores. Como se sabe, os recursos financeiros eventualmente auferidos em razão da realização de suas atividades próprias, ainda que se apresentem com caráter contraprestacional, não são tributados pela Cofins, A matéria já foi pacificada pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ, por meio de decisão submetida à sistemática dos recursos repetitivos, assim ementada: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. COFINS. CONCEITO DE RECEITAS RELATIVAS ÀS ATIVIDADES PRÓPRIAS DAS ENTIDADES SEM FINS LUCRATIVOS PARA FINS DE GOZO DA ISENÇÃO PREVISTA NO ART. 14, X, DA MP N. 2.15835/2001. ILEGALIDADE DO ART. 47, II E § 2º, DA INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF N. 247/2002. SOCIEDADE CIVIL EDUCACIONAL OU DE CARÁTER CULTURAL E CIENTÍFICO. MENSALIDADES DE ALUNOS. 1. A questão central dos autos se refere ao exame da isenção da COFINS, contida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.15835/2001), relativa às entidades sem fins lucrativos, a fim de verificar se abrange as mensalidades pagas pelos alunos de instituição de ensino como contraprestação desses serviços educacionais. O presente recurso representativo da controvérsia não discute quaisquer Fl. 792DF CARF MF 4 outras receitas que não as mensalidades, não havendo que se falar em receitas decorrentes de aplicações financeiras ou decorrentes de mercadorias e serviços outros (vg. estacionamentos pagos, lanchonetes, aluguel ou taxa cobrada pela utilização de salões, auditórios, quadras, campos esportivos, dependências e instalações, venda de ingressos para eventos promovidos pela entidade, receitas de formaturas, excursões, etc.) prestados por essas entidades que não sejam exclusivamente os de educação. 2. O parágrafo § 2º do art. 47 da IN 247/2002 da Secretaria da Receita Federal ofende o inciso X do art. 14 da MP n° 2.158 35/01 ao excluir do conceito de "receitas relativas às atividades próprias das entidades", as contraprestações pelos serviços próprios de educação, que são as mensalidades escolares recebidas de alunos. 3. Isto porque a entidade de ensino tem por finalidade precípua a prestação de serviços educacionais. Tratase da sua razão de existir, do núcleo de suas atividades, do próprio serviço para o qual foi instituída, na expressão dos artigos 12 e 15 da Lei n.º 9.532/97. Nessa toada, não há como compreender que as receitas auferidas nessa condição (mensalidades dos alunos) não sejam aquelas decorrentes de "atividades próprias da entidade", conforme o exige a isenção estabelecida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.158 35/2001). Sendo assim, é flagrante a ilicitude do art. 47, §2º, da IN/SRF n. 247/2002, nessa extensão. 4. Precedentes do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF: Processo n. 19515.002921/200639, Acórdão n. 203 12738, 3ª TURMA / CSRF / CARF / MF / DF, Rel. Cons. Rodrigo Cardozo Miranda, publicado em 11/03/2008; Processo n. 10580.009928/200461, Acórdão n. 3401002.233, 1ªTO / 4ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Emanuel Carlos Dantas de Assis, publicado em 16/08/2013; Processo n. 10680.003343/200591, Acórdão n. 3201001.457, 1ªTO / 2ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Mércia Helena Trajano Damorim, Rel. designado Cons. Daniel Mariz Gudiño, publicado em 04/02/2014; Processo n. 13839.001046/200558, Acórdão n. 3202000.904, 2ªTO / 2ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF. Rel. Cons. Thiago Moura de Albuquerque Alves, publicado em 18/11/2013; Processo n. 10183.003953/200414 acórdãos 930301.486 e 9303001.869, 3ª TURMA / CSRF, Rel. Cons. Nanci Gama, julgado em 30.05.2011; Processo n. 15504.019042/201009, Acórdão 3403002.280, 3ªTO / 4ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Ivan Allegretti, publicado em 01/08/2013; Processo: 10384.003726/200775, Acórdão 3302001.935, 2ªTO / 3ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Fabiola Cassiano Keramidas, publicado em 04/03/2013; Processo: 15504.019042/201009, Acórdão 3403 002.280, 3ªTO / 4ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Ivan Allegretti, julgado em 25.06.2013; Acórdão 9303 001.869, Processo: 19515.002662/200484, 3ª TURMA / CSRF / CARF / MF, Rel. Cons. Julio Cesar Alves Ramos, Sessão de 07/03/2012. Fl. 793DF CARF MF Processo nº 10945.000076/200975 Acórdão n.º 9303005.487 CSRFT3 Fl. 792 5 5. Precedentes em sentido contrário: AgRg no REsp 476246/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Humberto Martins, DJ 12/11/2007, p. 199; AgRg no REsp 1145172/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Humberto Martins, DJe 29/10/2009; Processo: 15504.011242/201013, Acórdão 3401002.021, 1ªTO / 4ª CÂMARA / 3ª SEJUL / CARF / MF, Rel. Cons. Odassi Guerzoin Filho, publicado em 28/11/2012; Súmula n. 107 do CARF: "A receita da atividade própria, objeto de isenção da COFINS prevista no art. 14, X, c/c art. 13, III, da MP n. 2.15835, de 2001, alcança as receitas obtidas em contraprestação de serviços educacionais prestados pelas entidades de educação sem fins lucrativos a que se refere o art. 12 da Lei n. 9.532, da 1997". 6. Tese julgada para efeito do art. 543C, do CPC: as receitas auferidas a título de mensalidades dos alunos de instituições de ensino sem fins lucrativos são decorrentes de "atividades próprias da entidade", conforme o exige a isenção estabelecida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.15835/2001), sendo flagrante a ilicitude do art. 47, §2º, da IN/SRF n. 247/2002, nessa extensão. 7. Recurso especial não provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1353111/RS, rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, DJe 18/12/2015). Em razão desta decisão judicial e de decisões administrativas adotando o mesmo entendimento, o CARF editou a Súmula nº 107, segundo a qual "A receita da atividade própria, objeto da isenção da Cofins prevista no art. 14, X, c/c art. 13, III, da MP nº 2.15835, de 2001, alcança as receitas obtidas em contraprestação de serviços educacionais prestados pelas entidades de educação sem fins lucrativos a que se refere o art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997". Muito embora a decisão do STJ e a Súmula CARF nº 107 refiramse a uma instituição de ensino sem fins lucrativos, aplicamse, pelos mesmos fundamentos, a todas aquelas que prestam, de forma gratuita, serviços de assistência social em sentido amplo (abrangem a educação e a saúde), ainda que não o façam exclusivamente desta forma (ou seja, recebam pagamento pelos serviços prestados). Ao apreciar idêntica controvérsia envolvendo a mesma contribuinte, mas com relação a períodos de apuração anteriores aos que são objeto da autuação, assim também entendeu esta mesma Turma de CSRF: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/02/1999 a 31/12/2001 COFINS. ISENÇÃO. São consideradas como receitas oriundas de atividades próprias de entidade médicohospitalar sem fins lucrativos, para fins da incidência da isenção da COFINS prevista no inciso X, do artigo Fl. 794DF CARF MF 6 14, da MP nº 215835/01 (que alterou a MP nº 1858/99), aquelas receitas que são oriundas da prestação de assistência médica e de proteção e preservação da saúde humana, desde que as mesmas se revertam em benefício da própria entidade, em consonância ao §3º, do artigo 12, da Lei nº 9.532/97, com redação dada pela Lei nº 9.718/98. Recurso Especial do Procurador Negado. (Acórdão nº 9303001.487, de 31 de maio de 2011) Ante o exposto, conheço e acolho os Embargos de Declaração sem efeitos infringentes. A ementa do acórdão embargado passa a ser a seguinte: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2006 ENTIDADE BENEFICENTE. CEBAS. CARÁTER DECLARATÓRIO. O Parecer PGFN/2132/2011, aprovado pelo Ato Declaratório PGFN nº 05/2011, declarou a inexigibilidade de contestação e recurso, determinando a desistência dos recursos interpostos, em relação às ações e decisões judiciais que fixam o entendimento de que o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social Cebas é meramente declaratório, produzindo efeito ex tunc, retroagindo à data de protocolo do respectivo requerimento. COFINS. ISENÇÃO. São consideradas como receitas oriundas de atividades próprias de entidade médicohospitalar sem fins lucrativos, para fins da incidência da isenção da COFINS prevista no inciso X, do artigo 14, da MP nº 215835/01 (que alterou a MP nº 1858/99), aquelas receitas que são oriundas da prestação de assistência médica e de proteção e preservação da saúde humana, desde que as mesmas se revertam em benefício da própria entidade, em consonância ao §3º, do artigo 12, da Lei nº 9.532/97, com redação dada pela Lei nº 9.718/98. Recurso Especial do Procurador negado. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 795DF CARF MF Processo nº 10945.000076/200975 Acórdão n.º 9303005.487 CSRFT3 Fl. 793 7 Fl. 796DF CARF MF
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