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Numero do processo: 10880.015963/91-87
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 1985, 1986
RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO.
Não se conhece do Recurso Especial quando não demonstrada a divergência de interpretação entre o acórdão recorrido e os acórdãos ofertados como paradigmas.
Numero da decisão: 9101-003.756
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
Rafael Vidal de Araújo - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Flávio Franco Corrêa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, momentaneamente, a conselheira Cristiane Silva Costa.
Nome do relator: FLAVIO FRANCO CORREA
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 1985, 1986 RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece do Recurso Especial quando não demonstrada a divergência de interpretação entre o acórdão recorrido e os acórdãos ofertados como paradigmas.
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AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE DIVERGÊNCIA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece do Recurso Especial quando não demonstrada a divergência de interpretação entre o acórdão recorrido e os acórdãos ofertados como paradigmas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. Rafael Vidal de Araújo Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, momentaneamente, a conselheira Cristiane Silva Costa. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 01 59 63 /9 1- 87 Fl. 124DF CARF MF Processo nº 10880.015963/9187 Acórdão n.º 9101003.756 CSRFT1 Fl. 125 2 Tratase de Recurso Especial Divergência interposto por CESAR BERTAZZONI & CIA LTDA, em face do acórdão no 1201001.663, assim ementado: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 1986, 1987 PIS. AUTO REFLEXO. O decidido, no mérito do IRPJ, repercute na tributação reflexa. PIS. REFLEXO IRPJ. 1991. DECADÊNCIA. Antes do advento da Lei n° 8.381, de 30/12/91, o imposto de renda estava sujeito ao lançamento por declaração, operandose o prazo decadencial a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, consoante o disposto no art. 173 do Código Tributário Nacional. A contagem do prazo de caducidade seria antecipada para o dia seguinte à data da notificação de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento ou da entrega da declaração de rendimentos (CTN, art. 173 e seu par. único). MUDANÇAS NO PADRÃO MONETÁRIO. FALTA DE OBSERVÂNCIA PELO FISCO. NÃO OCORRÊNCIA. Não procede o argumento de que a fiscalização teria deixado de observar as mudanças ocorridas nos índices monetários, quando existem tabelas e demonstrativos de apuração da contribuição, atualização monetária e juros, que detalham os valores envolvidos e que nunca foram objeto de contestação específica." De acordo com o voto condutor do acórdão recorrido, devese aplicar ao caso concreto a regra decadencial do artigo 173 do CTN, pois se está diante de lançamento reflexo de PIS/Faturamento relativo ao fato gerador do anocalendário de 1985, quando tal tributo não se sujeitava à disciplina do lançamento por homologação. Ciência da recorrente quanto à decisão recorrida no dia 17/07/2017, à efl. 92. Recurso Especial interposto no dia 31/07/2014, à efl. 94. Nessa oportunidade, alega divergência em relação aos acórdãos nº 19500038 e 10246045. No mérito, sustenta o que segue: 1) entre a data da constituição definitiva e a data de ocorrência do fato gerador, correspondente ao anocalendário de 1985, decorreu lapso superior a 5 (cinco) anos, havendo homologação tácita dos valores declarados e fulminação de eventuais diferenças apuradas pela decadência, nos termos do artigo 150, § 4º, CTN; 2) no presente caso, não há que se falar em aplicação do artigo 173, inciso I, do CTN, para contagem do lapso decadencial, eis que, relativamente aos tributos lançados por homologação, a apuração do “quantum debeatur” dáse com a declaração prestada pelo contribuinte, podendo o fisco imediatamente constituir o crédito, sendo irrelevante a existência, ou não, de pagamento parcial; 3) todos os acréscimos feitos no presente lançamento mostramse incabíveis em virtude da diferença do padrão monetário, de modo que os mesmos, de forma alguma, merecem prosperar, ou seja, devem ser excluídos três zeros referente ao “plano cruzado”, e mais três zeros referentes ao “plano cruzado novo”, para que, a partir de então, seja possível vislumbrar os supostos valores devidos; Fl. 125DF CARF MF Processo nº 10880.015963/9187 Acórdão n.º 9101003.756 CSRFT1 Fl. 126 3 4) dessa forma, resta clara a necessidade de diligencias de fiscal para aferir o corte dos zeros e adequar o padrão monetário, a fim de sanar qualquer eventual dúvida sobre o procedimento irregular que se adotou nos cálculos. Ao fim, requer seja o presente recurso conhecido e provido. Despacho de Encaminhamento à PGFN no dia 14/09/2017, à efl. 114. Contrarrazões apresentadas nesta data, à efl. 122. Nessa oportunidade, alega o seguinte: 1) antes do advento da Lei n° 8.381/1991, o imposto de renda estava sujeito ao lançamento por declaração, operandose o prazo decadencial a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, consoante o disposto no artigo 173 do CTN; 2) o decidido no mérito do IRPJ repercute na tributação reflexa do presente feito, justificandose a rejeição da tese de aplicação do artigo 150, § 4º, do CTN. Por derradeiro, requer seja negado provimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. É o relatório. Voto Conselheiro Flávio Franco Corrêa, Relator. O presente Recurso Especial é tempestivo. No entanto, convém averiguar se cumpre o requisito de demonstração de divergência, para fins de admissibilidade. De acordo com Fiscalização, a recorrente foi autuada, em 27/05/1991, pela prática de omissão de receitas, caracterizada por passivo fictício e por suprimento de numerários não comprovado, relativamente ao períodobase de 1985, e por suprimento de numerário não comprovado, relativamente ao períodobase de 1986. Como decorrência, lavrouse o auto de infração de Pis/Faturamento. Segundo a recorrente, a aludida contribuição estaria sujeita à sistemática do lançamento por homologação, devendose aplicar, na espécie, o artigo 150, § 4°, do CTN, que estabelece que a contagem do prazo decadencial se inicia a partir da ocorrência do fato gerador. Adotada esta premissa e considerando que a recorrente tomou ciência do lançamento em 27/05/1991, a decadência teria atingido o fato gerador ocorrido em 31/12/1985. Por sua vez, o voto condutor do acórdão recorrido afirmou que, até o advento da Lei nº 8.383/1991, o IRPJ estava sujeito à sistemática de apuração do lançamento por declaração. Nesse cenário, o crédito tributário de IRPJ a ser constituído por lançamento efetuado de ofício submetiase ao rigor do artigo 173 do CTN. A decisão recorrida ainda manifesta que os lançamentos reflexos do IRPJ também eram regidos pelas normas aplicáveis ao lançamento por declaração, ao tempo anterior à vigência da Lei nº 8.383/1991. Assim, na linha de raciocínio adotada pelo voto condutor do acórdão recorrido, o lançamento de Pis/Faturamento ora em foco, sendo reflexo do lançamento Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10880.015963/9187 Acórdão n.º 9101003.756 CSRFT1 Fl. 127 4 de IRPJ e decorrente de infração ocorrida antes da entrada em vigor da Lei nº 8.383/1991, deve submeterse à disciplina do artigo 173 do CTN, Em face do exposto, calha considerar relevante, para fins de demonstração de dissídio interpretativo, se os acórdãos ofertados como paradigmas retratam situações fáticas anteriores à entrada em vigor da Lei nº 8.383/1991. Esse corte é essencial, pois é preciso ter em conta se os acórdãos em cotejo estão retratando interpretações divergentes em âmbitos normativos idênticos. Quanto ao acórdão ofertado como paradigma nº 1950038, destacase que se refere a fatos acontecidos no anocalendário de 1996, posteriormente, portanto, à entrada em vigor da Lei nº 8.383/1991. Já o acórdão nº 10246045, também ofertado como paradigma, foi reformado pelo acórdão nº CSRF nº 04/887. Além disso, apreciouse situação relacionada à pessoa física, e não à pessoa jurídica. Por conseguinte, não é possível estabelecer o cotejo entre o acórdão recorrido e os acórdãos selecionados pela recorrente. Nesses termos, por falta de demonstração da divergência interpretativa, não se deve conhecer do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa. Fl. 127DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.003902/2010-94
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007
IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. BASE DE CÁLCULO. ARBITRAMENTO. NULIDADE.
Entendendo o Colegiado pela imprestabilidade da base de cálculo apurada em razão da aplicação do art. 148 do CTN, não se deve admitir a eleição de nova base que tenha como critério elemento expressamente rechaçado pela autoridade competente sob fundamento de ser ilegal.
Numero da decisão: 9202-007.180
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007 IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. BASE DE CÁLCULO. ARBITRAMENTO. NULIDADE. Entendendo o Colegiado pela imprestabilidade da base de cálculo apurada em razão da aplicação do art. 148 do CTN, não se deve admitir a eleição de nova base que tenha como critério elemento expressamente rechaçado pela autoridade competente sob fundamento de ser ilegal.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. ARRENDAMENTO DE IMÓVEL RURAL. BASE DE CÁLCULO. ARBITRAMENTO. NULIDADE. Entendendo o Colegiado pela imprestabilidade da base de cálculo apurada em razão da aplicação do art. 148 do CTN, não se deve admitir a eleição de nova base que tenha como critério elemento expressamente rechaçado pela autoridade competente sob fundamento de ser ilegal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 00 39 02 /2 01 0- 94 Fl. 1541DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.542 2 Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Contra o contribuinte foi lavrado auto de infração para cobrança de Imposto de Renda Pessoa Física, anoscalendário 2006, 2007 e 2008. Foram apuradas duas infrações: i) omissão de rendimentos de valores recebidos de pessoa jurídica a título de aluguéis/arrendamento rural, haja vista descaracterização de contrato de parceria agrícola e ii) ganho de capital decorrente das variações positivas entre o preço de alienação de grãos recebidos em função do arrendamento. Na parte que nos interessa, após o trâmite processual, a 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária deu provimento parcial ao Recurso Voluntário determinando a substituição da base de cálculo apurada pelo fisco por meio de arbitramento pela tributação com base nos valores das notas fiscais emitidas pelo contribuinte nas 'fictas' operações de venda de produção rural. O acórdão 2202002.267 recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006, 2007, 2008 PARCERIA RURAL x ARRENDAMENTO RURAL. DISTINÇÃO. FORMA DE TRIBUTAÇÃO A diferença intrínseca entre os contratos de parceira rural e de arrendamento rural é que os primeiros caracterizamse pelo fato de o proprietário da terra assumir os riscos inerentes à exploração da atividade e partilhar os frutos ou os lucros na proporção que houver sido previamente estipulada, enquanto que nos segundos não há assunção dos riscos por parte do arrendador que recebe um retribuição fixa pela arrendamento das terras. O pagamento em quantidade fixa de produto, por si só, não descaracteriza o arrendamento e, muito menos, permite enquadrar o contrato como parceria rural, visto que a essência da parceria rural está no compartilhamento do risco, que deve ser comprovado documental. No caso de contrato de arrendamento, o rendimento recebido pelo proprietário dos bens rurais cedidos é tributado como se fosse um aluguel comum, enquanto que no contrato de parceria, as duas partes são tributadas como atividade rural na proporção que couber a cada uma delas. ARRENDAMENTO. PAGAMENTO EM PRODUTOS AGRÍCOLAS. ARBITRAMENTO DO RENDIMENTO. Fl. 1542DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.543 3 Para que os valores dos produtos agrícolas recebidos em pagamento pelo contribuinte consignados nas Notas Fiscais do Produtor (venda) emitidas pela arrendatária coincidentes com as Notas Fiscais de Produtor (compra) emitidas pelo arrendador sejam desconsiderados para fins de tributação dos aluguéis recebidos deve a fiscalização demonstrar a imprestabilidade dos documentos fiscais. A diferença entre o preço informado pelo contribuinte e as tabelas consultadas pela fiscalização, por si só, não justifica o arbitramento, mormente quanto o valor consignado nos documentos fiscais é maior do que os preços mínimos estabelecidos pelo CONAB e a fiscalização utilizou dados de município diverso ao da propriedade rural. ALIENAÇÃO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS. GANHO DE CAPITAL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Na apuração do ganho de capital decorrente da alienação de produtos agrícolas, integram o custo de aquisição o valor do produto na data do seu recebimento acrescido das despesas relacionadas a conservação e reparo, assim como a comissão ou a corretagem, quando o ônus não for transferido ao adquirente do bem. ALIENAÇÃO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS. GANHO DE CAPITAL. CUSTO MÉDIO PONDERADO. O custo de aquisição dos produtos agrícolas deve ser apurado pela média ponderada dos custos unitários, por espécie. Ressaltese, contudo, que a utilização do custo médio ponderado não altera o resultado quando para toda entrada de produto existirem saídas subseqüentes até que o estoque seja zero, antes de um novo ingresso de produtos. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006, 2007, 2008 MULTA QUALIFICADA A simples omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, devendo a autoridade fiscal fundamentar a caracterização do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Cientificada do acórdão a Fazenda Nacional nos termos da petição de fls. 1.401 se manifesta pela não interposição de recurso. Intimado o Contribuinte apresentou embargos de declaração os quais foram rejeitados por meio do Acórdão 2202003.466. Ato contínuo, é interposto recurso especial de divergência visando a rediscussão da tese da "impossibilidade de o órgão julgador, após arbitramento pela Fiscalização, manter o lançamento com a adoção de nova base de cálculo". O exame de Fl. 1543DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.544 4 admissibilidade deu seguimento ao recurso admitindo como paradigma válido o acórdão de nº CSRF/0103.186. A divergência foi assim delimitada pelo Contribuinte: 9 O acórdão recorrido afastou o arbitramento nos seguintes termos (fls. 1393 e seguintes): "Ora, o fato de os valores consignados nas Notas Fiscais do Produtor serem inferiores às tabelas consultadas pelo fisco, por si só, não justifica o arbitramento, mormente quando os preços informados pelo contribuinte são superiores aos preços mínimos estabelecidos pelo CONAB (vide consulta ao site do órgão juntada à fl. 1361 a 1363). Salientese que os valores consignados nas Notas Fiscais de Produtor (venda) emitidas pela arrendatária coincidem com as Notas Fiscais de Produtor (compra) emitidas pelo contribuinte quando do recebimento dos produtos agrícolas em pagamento do arrendamento. (...) Caberia à fiscalização demonstrar imprestabilidade das Notas Fiscais do Produtor apresentadas pela contribuinte, o que não ocorreu. Entendo assim, que devem ser restabelecidos os valores informados pelo contribuinte nas Notas Fiscais do Produtor para fins de apuração da omissão de rendimentos recebidos a título de arrendamento." 10 Após o reconhecimento da ilegalidade do arbitramento nos termos realizados pela fiscalização, o acórdão indica nova forma de apuração da base de cálculo, determinando a exclusão da diferença entre os rendimentos demonstrados nas Notas Fiscais de Produtor Rural e os rendimentos arbitrados de ofício, nestes termos: ... 14 O agente notificante desprezou os rendimentos declarados pelo Contribuinte como resultantes de atividade rural e reclassificouos como decorrentes de aluguel. Além desta alteração da natureza das receitas, houve o total abandono de ofício dos rendimentos informados nas NFPs e o arbitramento da base de cálculo com base em pesquisa de preços de entidade privada, que nada guardou de relação com o fato gerador, nos termos do artigo 148 do CTN. Ou seja, existe apenas a base de cálculo arbitrada sob a qual foram tributados os recebimentos em grãos de soja. Uma vez afastada, não há outra remanescente, apurada de forma válida e que possa "substituir" aquela eleita indevidamente no lançamento fiscal. 15. Ao determinar nova forma de apuração da base de cálculo o Acórdão Recorrido invade claramente a competência fiscal exclusiva estabelecida pelo artigo 142 do CTN e diverge de entendimento já consolidado por esta Câmara Superior de Fl. 1544DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.545 5 Recursos Fiscais (CSRF), segundo o qual, afastado o arbitramento realizado nos termos do artigo 148 do CTN o auto de infração deverá ser cancelado e não refeito pelo órgão julgador na forma de apuração direta, conforme se verifica no Acórdão CSRF/0103.186 (Doe 01), adotado como paradigma no presente Recurso Especial. Contrarrazões da Fazenda Nacional pugnando pela manutenção do acórdão recorrido. É o relatório. Voto Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Relatora O recurso preenche os requisitos formais, razão pela qual, ratificando o despacho de admissibilidade, dele conheço. Conforme expresso, o recurso devolve a este Colegiado a discussão acerca da possibilidade da autoridade julgadora desconsiderar o critério de arbitramento utilizado pelo fiscal e adotar nova base de cálculo para o imposto lançado. No presente caso, embora as notas fiscais emitidas pelo Contribuinte tenham sido expressamente desconsideradas pela fiscalização, a Turma a quo entendeu que não havia razão para aplicação do art. 148 do CTN e manteve em parte o lançamento para reduzir o valor do imposto apurado. Foi adotada como base de calculo exatamente as citadas notas. Sabese que o art. 148 do CTN é norma geral que permite a utilização do arbitramento, entretanto tal dispositivo é expresso ao condicionar sua aplicação à comprovação da ocorrência dos requisitos autorizativos, quais sejam: deixar o contribuinte de apresentar declarações ou esclarecimentos, deixar de expedir documentos obrigatórios ou, uma vez apresentados os documentos, declarações e esclarecimentos, esses não mereçam fé. Vejamos o teor do dispositivo citado: Art. 148. Quando o cálculo do tributo tenha por base, ou tome em consideração, o valor ou o preço de bens, direitos, serviços ou atos jurídicos, a autoridade lançadora, mediante processo regular, arbitrará aquele valor ou preço, sempre que sejam omissos ou não mereçam fé as declarações ou os esclarecimentos prestados, ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo ou pelo terceiro legalmente obrigado, ressalvada, em caso de contestação, avaliação contraditória, administrativa ou judicial. Não se discute que revelase plenamente possível o arbitramento da base de cálculo do imposto pelo agente fazendário competente sempre que sejam omissos ou não mereçam fé os esclarecimentos, as declarações, os documentos ou os recolhimentos prestados, expedidos ou efetuados pelo sujeito passivo ou por terceiro legalmente obrigado, mediante Fl. 1545DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.546 6 procedimento regular, por meio do qual arbitrará o valor na forma e nas condições regulamentares, entretanto, tais condições demonstram que tratase de metodologia cuja aplicação é excepcional. O próprio princípio da verdade material inerente às demandas administrativas nos impõe concluir que o procedimento de arbitramento é realmente a última solução para o cálculo de um tributo, devendo ser adotado apenas depois de esgotados todos os outros meios de prova, quando não é possível, de nenhuma maneira, conhecer, ao menos aproximadamente, a efetiva realidade arbitrada. Maria Rita Ferragut, em sua obra intitula Presunções no Direito Tributário, ao definir o arbitramento nos traz exatamente esses esclarecimentos: Já a segunda hipótese de significado diz respeito à base de cálculo originalmente substitutiva. A substituição da base de cálculo originalmente prevista na legislação correspondente à perspectiva dimensível do critério material da regramatriz de incidência construído a partir do texto constitucional por outra subsidiária, dáse em virtude da inexistência de documentos fiscais, ou da impossibilidade dos mesmo fornecerem critérios seguros para mensuração do fato, casos em que a base de cálculo substitutiva visa possibilitar a prova indireta da riqueza manifestada no fato jurídico. ... Diante dessas características, verificase, primeiramente, que o arbitramento é dotado de caráter excepcional, e só deve ser exercido em casos extremos, já que a base de cálculo originária é a que deve ser utilizada por ser a prevista na regramatriz de incidência tributária e por guardar, a princípio, relação direta com as riquezas constitucionalmente previstas. Sendo o arbitramento um procedimento de aplicação condicionada, entendo ser imprescindível para validade do lançamento que a autoridade fiscal aponte e descreva os fundamentos legais, comprovando ainda os elementos ensejadores da sua aplicação sob pena de nulidade. No presente caso, embora isso não esteja mais em discussão, entendo que a autoridade fiscal até foi diligente ao justificar o arbitramento da base de incidência do imposto. Segundo o fiscal, por vedação expressa do parágrafo único do art. 18 do Decreto nº 59.566/66 as notas fiscais deveriam ser desconsideradas, explicando, considerando que contratos de arrendamento de imóvel rural não podem ter como base valores fixados em produtos ou seu equivalente em dinheiro, os valores das notas fiscais deveriam ser desconsiderados fundamentando a aplicação do art. 148 do CTN. Vejamos trechos do termo de verificação fiscal (fls. 274/276): A. quantidade discriminada no quadro acima, devese acrescentar a soja vendida em 05/08/08 (108.460 kg), cujo recebimento não foi acusado pelo contribuinte nos recibos de quitação. Além disso, devese também alterar o preço atribuído à saca de soja, nas datas de recebimento. Tal alteração se fundamenta na existência de vedação legal expressa ao ajuste do Fl. 1546DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.547 7 preço de arrendamento em quantidade fixa de frutos ou produtos, conforme será mencionado no tópico seguinte. ... Caracterizada, assim, existência do arrendamento rural, resta definir o preço, cuja forma de fixação (em sacas de soja por hectare cultivado), contraria o disposto na legislação. O artigo 18 do Decreto n° 59.566/66, que regulamenta as Seções I, II e III do Capitulo IV do Titulo III da Lei n° 4.504/64, veda expressamente "ajustar como preço de arrendamento quantidade fixa de frutos ou produtos, ou seu equivalente em dinheiro". Em consonância com o teor desse artigo, o Superior Tribunal de Justiça vem se manifestando reiteradamente contra a fixação do preço do arrendamento, em produtos. E ao determinar o afastamento de tal cláusula de preço, por nula, determina sua substituição pelo que for apurado em liquidação de sentença, mediante arbitramento. O arbitramento é autorizado pelo artigo 148 da Lei n° 5.172/66 (Código Tributário Nacional — CTN), quando a fixação do preço não obedece à legislação. A aplicação do artigo citado é cabível se, tendo sido prestadas declarações pelo sujeito passivo, e apresentados os documentos, estes não mereçam fé. A Fiscalização Fazendária pode, pois, concluir pela veracidade dos documentos fiscais do contribuinte e aceitálos, para o efeito de se determinar a base de cálculo do Imposto de Renda. Na hipótese de arbitramento, o artigo 994 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR199) assim determina: "Para os fins do imposto, os rendimentos em espécie serão avaliados em dinheiro, pelo valor que tiverem na data da percepção". Devese entender por preço na data de percepção o prego de mercado local (Decreto n° 59.566/66, artigo 18, parágrafo único). E é exatamente pela justificativa dada pelo fiscal que entendo pela impossibilidade de que, uma vez afastado o arbitramento, a Turma a quo eleja como nova base critério expressamente rechaçado pela própria autoridade competente pelo lançamento, até porque tratase de critério definido como ilegal e o qual motivou inclusive a reclassificação dos valores declarados pelo Contribuinte. Neste cenário, uma vez tendo havido a conclusão pela impropriedade da utilização do critério do arbitramento e inexistindo outra base conhecida, dou provimento ao recurso especial interposto pelo Contribuinte. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 1547DF CARF MF Processo nº 11516.003902/201094 Acórdão n.º 9202007.180 CSRFT2 Fl. 1.548 8 Fl. 1548DF CARF MF
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Numero do processo: 10530.720205/2010-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2005
DA DECADÊNCIA - ITR - LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO
Na modalidade do lançamento por homologação, o prazo quinquenal legalmente previsto para revisão do valor do ITR apurado e recolhido, integralmente ou de forma parcelada, pelo contribuinte, dentro do próprio exercício de referência do imposto, inicia-se na data da ocorrência do respectivo fato gerador. Cabe ser declarada a Decadência quando constatado que o crédito tributário foi constituído após o prazo quinquenal legalmente previsto.
Numero da decisão: 2401-005.658
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. Vencidos os conselheiros Cleberson Alex Friess e Miriam Denise Xavier que davam provimento ao recurso de ofício. Solicitou fazer declaração de voto o conselheiro Cleberson Alex Friess.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Matheus Soares Leite - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier (Presidente). Ausente a conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa.
Nome do relator: MATHEUS SOARES LEITE
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Cabe ser declarada a Decadência quando constatado que o crédito tributário foi constituído após o prazo quinquenal legalmente previsto. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. Vencidos os conselheiros Cleberson Alex Friess e Miriam Denise Xavier que davam provimento ao recurso de ofício. Solicitou fazer declaração de voto o conselheiro Cleberson Alex Friess. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Matheus Soares Leite Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 02 05 /2 01 0- 51 Fl. 366DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 367 2 Pinheiro, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier (Presidente). Ausente a conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa. Relatório Tratase de Notificação de Lançamento n° 05102/00123/2010 (fls. 02/08), contra o contribuinte acima qualificado, decorrente de procedimento de revisão de Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), relativo ao exercício de 2005, referente ao imóvel denominado “Fazenda Água Boa”, localizado no município de Barreiras (BA), com cadastro fiscal sob o n° 0.524.1618 (fls. 02). Segundo consta na “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal”, o contribuinte, após regularmente intimado, não teria comprovado: (i) a isenção da área declarada de preservação permanente; (b) a isenção da área declarada de reserva legal; (c) o valor da terra nua declarado, por meio de Laudo de Avaliação do imóvel, conforme estabelecido na NBR 14.6533 da ABNT; o que motivou a alteração do Documento de Informação e Apuração do ITR. A revisão de ofício imposta pela fiscalização ocasionou saldo suplementar a pagar no valor histórico de R$ 2.730.628,68, com fundamento no art. 10, § 1°, inciso II, alíneas “a” e inciso I c/c art. 14, todos da Lei n° 9.393/96, além da multa de 75% (setenta e cinco por cento), no montante histórico de R$ 2.047.971,51, capitulada no art. 44, inciso I, § 1° e 3° da Lei n° 9.430/96, com alterações introduzidas pelo art. 14 da Lei n° 11.488/07, além dos juros de mora, previstos no art. 61, § 3° da Lei n° 9.430/96. Após efetivada ciência da Notificação do Lançamento de ITR (fls. 179), no dia 28/01/2010, o contribuinte, tempestivamente, compareceu aos autos apresentando sua Impugnação (fls. 185/191), julgada pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DRJ/BSB), por meio do Acórdão nº 0351.184, de 13/03/2013, cujo dispositivo considerou procedente a Impugnação, com a exoneração do crédito tributário. É ver a ementa do julgado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL – ITR Exercício: 2005 DA DECADÊNCIA – ITR – LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO Na modalidade do lançamento por homologação, o prazo quinquenal legalmente previsto para revisão do valor do ITR apurado e recolhido, integralmente ou de forma parcelada, pelo contribuinte, dentro do próprio exercício de referência do imposto, iniciase na data da ocorrência do respectivo fato gerador. Cabe ser declarada a Decadência quando constatado que o crédito tributário foi constituído após o prazo quinquenal legalmente previsto. Impugnação Procedente Crédito Tributário Exonerado Fl. 367DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 368 3 Nesse sentido, cumpre repisar que a decisão a quo exarou os seguintes motivos e que delimitam o objeto do debate recursal: (a) No que diz respeito a decadência, temse que, a partir do exercício de 1997, atribuiuse ao ITR a natureza de tributo lançado por homologação, hipótese em que cabe ao sujeito passivo apurar o imposto e proceder ao seu pagamento, sem prévio exame da autoridade administrativa, nos termos do artigo 150 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966, que aprovou o Código Tributário Nacional (CTN), ressaltandose que, neste caso, o prazo decadencial iniciase a partir da ocorrência do fato gerador, conforme o § 4° do referido artigo. (b) É de se esclarecer que a homologação efetuada pela autoridade administrativa, seja expressa ou tácita, apenas recai sobre o pagamento efetuado pelo sujeito passivo, até porque não há que se falar em homologação de não pagamento. (b) No presente caso, o imposto apurado pelo contribuinte na sua DITR/2005, de R$ 696,00, foi pago em parcela única acrescida de multa e juros, mas, dentro do seu respectivo exercício, 30.11.2005, conforme tela digitalizada do sistema “Sinal 08” de fls. 354. (c) Considerando que até mesmo em caso de pagamento em atraso ou em parcelas, desde que realizado antes do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, a contagem do prazo decadencial, para fins de lançamento ex officio do ITR, iniciase na data da ocorrência do fato gerador, conforme o entendimento firmado na Solução de Consulta Interna n° 16, de 05/06/2003, editada pela CoordenaçãoGeral de Tributação (Cosit), inexistindo, desta forma, razão para descaracterizar o lançamento por homologação. (d) Assim sendo, comprovado o pagamento e sabendose que o termo inicial da contagem do prazo da decadência, em se tratando do ITR do exercício de 2005, ocorreu em 1° de janeiro de 2005, deveria a autoridade administrativa manifestarse, no sentido de expressamente homologar o pagamento feito ou constituir crédito tributário suplementar, até 31 de dezembro de 2009 – 05 anos a partir da ocorrência do fato gerador , sob pena de homologação tácita. (e) Em sendo caso de lançamento, é sabido que mesmo apenas se torna perfeito e acabado com a ciência, ao sujeito passivo, do seu instrumento materializador, qual seja, a Notificação de Lançamento. (e) Tendo em vista que no presente caso, o lançamento somente foi definitivamente concretizado, com a ciência postal do interessado, em 28 de janeiro de 2010, às fls. 170, ou seja, após o término do prazo referido anteriormente (31/12/2009), não restam dúvidas de que o direito de efetuar o lançamento já havia decaído. No caso, salientase que a própria lavratura da Notificação de Lançamento ocorreu, em 18/01/2010, após o término do prazo legalmente previsto, como visto. (f) Dessa forma, há que se reconhecer que o crédito tributário em questão foi constituído após o prazo decadencial legalmente previsto, de acordo com o § 4° do art. 150 do CTN, tornandose desnecessária a apreciação de qualquer questão de mérito. Em seguida, os autos foram remetidos a este Conselho para apreciação e julgamento do Recurso de Ofício. É o relatório. Fl. 368DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 369 4 Voto Conselheiro Matheus Soares Leite – Relator 1. Juízo de Admissibilidade. O Recurso de Ofício atende aos requisitos de admissibilidade previstos no art. 34 do Decreto n° 70.235/72, de modo que a decisão de piso exonerou o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), limite estipulado pela Portaria MF n° 63, de 09 de fevereiro de 2017. Portanto, dele tomo conhecimento. 2. Da decadência. Conforme relatado, o caso em questão discute lançamento referente ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), exercício de 2005, e que, nos termos do art. 1° da Lei n° 9.393/96, tratase de tributo de apuração anual, cujo fato gerador é a propriedade, o domínio útil ou a posse de imóvel por natureza, localizado fora da zona urbana do município, em 1° de janeiro de cada ano. A teor do disposto nos arts. 142 da Lei nº 5.172 de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN) e 10 e 14 da Lei nº 9.393, de 19 de dezembro de 1996, tem se que o ITR é tributo sujeito ao lançamento por homologação, ou seja, cabe ao contribuinte a apuração e o pagamento do imposto devido, “independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior” (art. 10 da Lei n° 9.393/96). É ver a redação do referido dispositivo legal: Art. 10. A apuração e o pagamento do ITR serão efetuados pelo contribuinte, independentemente de prévio procedimento da administração tributária, nos prazos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, sujeitandose a homologação posterior. (...) Consoante predica o § 4º, do art. 150, do CTN, a Fazenda dispõe do prazo de 5 (cinco) anos, contados da data do fato gerador, para realizar o controle da atividade praticada pelo sujeito passivo, verificando se o pagamento antecipado foi ou não suficiente para o cumprimento da obrigação tributária. A ausência de manifestação do Fisco no decurso do prazo implica na homologação tácita das atividades do contribuinte relativamente à antecipação do imposto, hipótese em que se considera definitivamente extinto o crédito tributário, ressalvados os casos em que o contribuinte tenha agido com dolo, fraude ou simulação (§ 4°, do art. 150, do CTN). Apenas nessas hipóteses, ou seja, em que o lançamento de ofício decorrente da não homologação dos procedimentos adotados pelo contribuinte constatar dolo, fraude ou simulação, é que o prazo decadencial previsto no artigo 150, § 4°, se desloca para o artigo 173, I, não havendo que se dizer que o referido prazo pode ser aplicado aos lançamentos por Fl. 369DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 370 5 homologação em que não tenha ocorrido pagamento. O simples inadimplemento do tributo não constitui prova de dolo, fraude ou simulação para fins de atrair a incidência do prazo decadencial previsto no art. 173, I, do CTN. Decerto, não é o pagamento antecipado do tributo que configura o lançamento por homologação, mas sim o dever legal de o contribuinte verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável e calcular o montante devido. Entendimento em sentido contrário não se compatibiliza com o ordenamento vigente, pois retira a força normativa da regra especial do art. 150, § 4º, do CTN, condicionando sua aplicação à existência de pagamento stricto sensu (e do valor que o Fisco entende devido), exigência essa, sem respaldo legal. Nesse mesmo sentido, o entendimento de José Souto Maior Borges1: Poderseia pretender que, se o sujeito passivo descumpre a obrigação, deixando de efetuar qualquer antecipação do pagamento, não caberia falarse em homologação, e, portanto, nessa hipótese não caberia a invocação do art. 150, parágrafo 4º, mesmo após o transcurso do prazo nele referido. Dessa omissão só decorreria para o Fisco a abertura da via do lançamento ex officio. Mas ainda nessa hipótese possível, até em consequência de desconhecimento do concreto estado das coisas pelo Fisco, venha a ser a atividade prévia homologada, precisamente porque a homologação não é somente referível ao pagamento. Por outro lado, em impostos como o IPI e o ICMS, sujeitos a conta corrente fiscal, pode o crédito, em certo período, superar o débito, e, nada obstante, deverá o obrigado apresentar ao Fisco uma guia ‘negativa’ para fim de controle. E essa atividade deverá ser objeto de homologação. Logo, o pagamento não é necessariamente levado em linha de conta para os efeitos do art. 150, § 4º. Também não discrepa o entendimento de Paulo de Barros Carvalho2: [...] o prazo decadencial prescrito pelo art. 150, § 4°, aplicase aos tributos sujeitos a lançamento por homologação, isto é, àqueles em que a legislação “atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa”. Em tal caso, ainda que o contribuinte deixe de antecipar o pagamento, o lapso temporal tem início na data da ocorrência do fato gerador. O lançamento por homologação não tem por pressuposto a realização do pagamento, mas o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa. [...]. Na mesma toada, segue o entendimento de Renata Elaine Silva3: 1 BORGES, José Souto Maior. Lançamento Tributário. 2ª ed. São Paulo: Malheiros, 1999, p. 397. 2 CARVALHO, Paulo de Barros. Decadência no Direito Tributário. In: CARVALHO, Aurora Tomazini de (Coord.) Decadência e prescrição em Direito Tributário. 2ª ed. São Paulo: MP Editora, 2010, p. 84. Fl. 370DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 371 6 7.7.3.1.1 Por que não aplicação do art. 173, I do CTN? Estamos afirmando diante da não constituição do crédito e do não pagamento realizado pelo contribuinte a autoridade administrativa tem que constituir o crédito de ofício. A dúvida seria: por que não aplicar então a regra do art. 173, I do CTN, uma vez que estamos diante de um lançamento de ofício? A hipótese em análise de não constituição do crédito, sem pagamento (total ou parcial), não se equipara àquela hipótese que analisamos na regra do direito n. 04, em que a contagem será deslocada para o art. 173, I do CTN, também não havia constituição do crédito e nem pagamento por parte do obrigado (contribuinte), mas necessariamente houve dolo, fraude ou simulação devidamente comprovado. A simples conduta de não constituição do crédito e de não pagamento, não pode, por si só, denotar um caso praticado mediante dolo, fraude ou simulação. Mesmo porque as figuras exigem vontade (livre e consciente) de praticar uma conduta ilícita, que só pode receber esta atribuição se for devidamente provada. Portanto, apenas nesses casos (dolo, fraude e simulação) que o prazo é deslocado ao art. 173, I, do CTN. Apenas com a prova em processo administrativo regularmente constituído que se pode atribuir a esse tipo de conduta ao contribuinte (não constituição e não pagamento) a modalidade de exceção aludida pela última parte do art. 150, § 4° do CTN (pelos motivos que mencionamos no item 7.6.1). Caso contrário, se entendêssemos que a simples não constituição do crédito permite o deslocamento da contagem do prazo de decadência para o art. 173, I do CTN, estaríamos equiparando a conduta da não constituição e do não pagamento à conduta dolosa, fraudulenta e simulada. Pode ocorrer, v.g, que o contribuinte não tenha constituído o crédito por meio de sua Declaração Mensal dos Débitos/Créditos de ICMS, mas mantém todo o controle por meio de seus livros de apuração, livro de notas fiscais etc., não há conduta dolosa apenas falta de entrega de dever instrumental de constituição de crédito (vide item 7.7.4.4). O artigo apenas excepciona a regra nos casos de conduta dolosa, fraudulenta e simulada, e uma simples falta de entrega de dever instrumental não pode assim ser interpretada. [...]. A despeito do posicionamento acima vesgartado, reconheço que o Superior Tribunal de Justiça, nos autos do REsp 973.733/SC, submetido à sistemática dos recursos especiais repetitivos representativos de controvérsia (art. 543C, do CPC/73), fixou o entendimento no sentido de que o prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário contase: a) Do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, quando a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando a lei 3 SILVA, Renata Elaine. Curso de decadência e de prescrição no direito tributário: regras do direito e segurança jurídica. São Paulo: Noeses, 2013, p. 228239. Fl. 371DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 372 7 prevê o pagamento antecipado, mas ele inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte; b) A partir da ocorrência do fato gerador, nos casos em que ocorre o pagamento antecipado previsto em lei. É conferir a ementa do julgado: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Fl. 372DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 373 8 Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) No mesmo sentido, em acórdão mais recente: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 1973. APLICABILIDADE. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. PRAZO DECADENCIAL DE TRIBUTO. TERMO INICIAL. PAGAMENTO PARCIAL. DECLARAÇÃO SEM O RESPECTIVO PAGAMENTO. CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PRESCRIÇÃO QUINQUENAL. (...) III Nos casos em que ocorre o pagamento parcial, o prazo decadencial para o lançamento suplementar do tributo sujeito a homologação é de cinco anos contados do fato gerador, conforme a regra prevista no art. 150, § 4º, do CTN. (...) (STJ AgRg no REsp: 1355722 PR 2012/02497227, Relator: Ministra REGINA HELENA COSTA, Data de Julgamento: 26/04/2016, T1 PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 11/05/2016) Podese sumariar as três condições postas pela Corte para aplicação do art. 150, § 4º, do CTN: i. O tributo deve ser sujeito a lançamento por homologação; ii. Deve ocorrer pagamento antecipado do crédito tributário (ainda que inferior ao efetivamente devido); iii. O contribuinte não pode ter incorrido em fraude, dolo ou simulação. Fl. 373DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 374 9 Não se pode, portanto, deixar de reconhecer a relevância da existência ou não de pagamento ou declaração/confissão (ainda que parciais) para fins de definição do critério para a contagem de prazo decadencial. Conforme determina o § 2º do art. 62 do Anexo II do atual Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, a interpretação adotada pelo Superior Tribunal de Justiça deve ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Assim, aplicando o entendimento do Superior Tribunal de Justiça ao caso em questão, que trata da exigência de ITR, referente ao exercício de 2005, verifico que as três condições legais aclaradas pela jurisprudência do STJ para a aplicação do § 4º do art. 150 do CTN, na contagem do lustro decadencial, foram clara e plenamente atendidas no caso concreto. ü O caso trata de ITR, tributo sujeito à sistemática do lançamento por homologação (art. 150, do CTN); ü O contribuinte recolheu o ITR que entendia devido, conforme fls. 354; ü A ocorrência de dolo, fraude ou simulação não foi sequer alegada pelo Fisco, não havendo nos autos qualquer prova ou indício de condutas dessa natureza. Não se pode confundir recolhimento a menor do imposto com falta de recolhimento. O pagamento antecipado de saldo devedor no exercício de referência – condição para aplicação do art. 150, § 4º, foi realizado, não se podendo alegar que não haveria o que o Fisco homologar. Dessa forma, o fato gerador do ITR, exercício 2005, ocorreu em 01/01/2005, sendo este o termo inicial para a contagem do prazo decadencial previsto no art. 150, § 4° do CTN. Dessa forma, a autoridade administrativa teria até o dia 31/12/2009 para expressamente homologar o pagamento feito ou constituir crédito tributário suplementar (05 anos a partir da ocorrência do fato gerador), sob pena de homologação tácita. Fl. 374DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 375 10 Assim, tendo em vista que o contribuinte autuado teve ciência da Notificação de Lançamento apenas em 28/01/2010 (fls. 179), não restam dúvidas de que o direito de efetuar o lançamento já havia decaído. Decerto, o lançamento considerase realizado e só se perfectibiliza com a intimação do sujeito passivo acerca do ato de lançamento, sendo indiferente eventuais intimações anteriores em sede de procedimento de apuração de regularidade fiscal, tais como as intimações para apresentação de documentos e/ou esclarecimentos, por serem são atos meramente preparatórios. Assim, compreendo que agiu com acerto a decisão proferida pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DRJ/BSB), pois há que se reconhecer que o crédito tributário em questão foi constituído após o prazo decadencial legalmente previsto, de acordo com o art. 150, § 4°, do CTN, tornandose desnecessária a apreciação de qualquer questão de mérito, inclusive nesta instância recursal. Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER do Recurso de Ofício para, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, tendo em vista a ocorrência do lustro do prazo decadencial previsto no art. 150, § 4°, do CTN. É como voto. (assinado digitalmente) Matheus Soares Leite Declaração de Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Nos tributos sujeitos ao denominado lançamento por homologação, tal como o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), o prazo que dispõe o Fisco para efetivar a constituição de crédito suplementar de diferenças apuradas, via de regra, regese pelo § 4º do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN), ou seja, o prazo de cinco anos é contado da data do fato gerador: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. Fl. 375DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 376 11 (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Como bem destacou o I. Relator, no lançamento por homologação o contribuinte tem o dever legal de verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável e calcular o montante devido, efetivando, ao final, o pagamento correspondente. Não menos verdade que o Superior Tribunal de Justiça (STJ), quando da apreciação do REsp nº 973.733/SC, na sistemática dos recursos repetitivos, fixou o entendimento de que o prazo decadencial contase a partir da ocorrência do fato gerador, nos termos do § 4º do art. 150 do CTN, desde que tenha ocorrido o pagamento antecipado pelo sujeito passivo. Acontece que pagamento antecipado, na interpretação possível na lógica do CTN, pressupõe a realização de algum pagamento pelo sujeito passivo até a data de vencimento da obrigação tributária. Em outras dizeres, a regra do § 4º do art. 150 do CTN é inaplicável nos casos em que o contribuinte não faz, até a data do vencimento, pagamento algum, passando a contagem do prazo decadencial à regra geral estabelecida no inciso I do art. 173 do CTN, isto é, a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. 4 Na falta de qualquer pagamento até a data de vencimento, não haverá objeto para homologação. A partir do dia seguinte, a Administração Tributária está autorizada a realizar o lançamento de ofício da diferença do tributo devido e não constituído pelo contribuinte mediante confissão em declaração fiscal. Em tal circunstância de inexistência de antecipação de pagamento, começará a fluir o prazo para o lançamento de ofício, cuja contagem, necessariamente, deverá respeitar o inciso I do art. 173 do CTN. Por óbvio, eventual pagamento efetuado pelo sujeito passivo em data posterior àquela do vencimento do tributo não poderá produzir efeito para alterar o termo inicial da contagem do prazo decadencial, em evidente prejuízo ao credor. Ainda que pagamento em atraso realizado no mesmo ano do fato gerador, antes do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, não poderá modificar a regra de contagem do prazo decadencial, uma vez que o termo inicial já se encontra perfeitamente delimitado tendo em conta a ausência de antecipação de qualquer valor até o dia do vencimento. Aparentemente, a única exceção prevista consta do parágrafo único do art. 173 do CTN, em que há uma regra de antecipação da contagem do prazo decadencial. Porém, 4 ALEXANDRE, Ricardo. Direito Tributário (2018). 12 ed. Editora Jus Podivm, p.550/551. PAULSEN, Leandro. Direito Tributário (2007). 9 ed. Livraria do Advogado, p. 964/965. Fl. 376DF CARF MF Processo nº 10530.720205/201051 Acórdão n.º 2401005.658 S2C4T1 Fl. 377 12 nesta hipótese, decorre de um ato da própria Administração Tributária, que deflagra um procedimento de fiscalização antes do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento de ofício pode ser efetuado. No caso em apreço, o lançamento diz respeito ao exercício de 2005, cujo fato gerador se deu no dia 01/01/2005. O recolhimento em atraso do imposto efetivouse no dia 30/11/2005, portanto após a data de vencimento fixada na legislação tributária em 30/09/2005 (fls. 354). Tendo em vista que o contribuinte autuado teve ciência da Notificação de Lançamento em 28/01/2010, não restam dúvidas de que o direito de efetuar o lançamento permanecia incólume segundo a contagem do prazo decadencial pelo inciso I do art. 173 do CTN (fls. 179). Desse modo, é cabível dar provimento ao recurso de ofício para afastar a decadência, com retorno dos autos à instância de origem para prolação de nova decisão mediante a apreciação do mérito do lançamento fiscal. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 377DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11444.001124/2010-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Período de apuração: 24/02/2005 a 24/10/2008
AUTO DE INFRAÇÃO. DESVIO DE MERCADORIAS DESTINADAS À EXPORTAÇÃO. CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO. IMPROCEDÊNCIA.
É improcedente o lançamento que não fundamenta, devidamente, em dispositivo normativo sancionatório pertinente ao caso, a conduta identificada.
Numero da decisão: 3401-005.359
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco acompanharam pelas conclusões. O Conselheiro Rosaldo Trevisan indicou a intenção de apresentar declaração de voto, com as conclusões que nortearam o voto dos demais conselheiros, exceto o relator, que deve, na forma regimental, agregar a seu voto as conclusões do colegiado.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente
(assinado digitalmente)
André Henrique Lemos - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marco Roberto da Silva (suplente convocado), André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco acompanharam pelas conclusões. O Conselheiro Rosaldo Trevisan indicou a intenção de apresentar declaração de voto, com as conclusões que nortearam o voto dos demais conselheiros, exceto o relator, que deve, na forma regimental, agregar a seu voto as conclusões do colegiado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Presidente (assinado digitalmente) André Henrique Lemos - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marco Roberto da Silva (suplente convocado), André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
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DESVIO DE MERCADORIAS DESTINADAS À EXPORTAÇÃO. CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DO LANÇAMENTO. IMPROCEDÊNCIA. É improcedente o lançamento que não fundamenta, devidamente, em dispositivo normativo sancionatório pertinente ao caso, a conduta identificada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. Os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco acompanharam pelas conclusões. O Conselheiro Rosaldo Trevisan indicou a intenção de apresentar declaração de voto, com as conclusões que nortearam o voto dos demais conselheiros, exceto o relator, que deve, na forma regimental, agregar a seu voto as conclusões do colegiado. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 44 4. 00 11 24 /2 01 0- 90 Fl. 3114DF CARF MF 2 André Henrique Lemos Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Marco Roberto da Silva (suplente convocado), André Henrique Lemos, Lázaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Relatório Adoto o Relatório do r. acórdão unânime, proferido à efl. 2.945 e ss., da lavra do e. conselheiro Rosaldo Trevisan, à época compondo a 3ª Turma, da 4ª Câmara da 3ª Seção, por bem retratar o que aconteceu no presente contencioso administrativo: Versa o presente sobre Auto de Infração (fls. 2 a 441), lavrado em 05/08/2010, para exigência de multa resultante de “conversão” da pena de perdimento, no valor original de R$ 15.524.715,68, tendo em vista não haver sido localizada a mercadoria, fundamentandose nos arts. 105, VI e VII do DecretoLei no 37/1966 (mercadoria nacional, na exportação, se qualquer documento necessário ao seu desembaraço tiver sido falsificado ou adulterado, e/ou possuída a qualquer título ou para qualquer fim em tais condições) e no art. 23, IV e §§ 1o e 3o do DecretoLei no 1.455/1976, este com a redação dada pela Lei no 10.637/2002 (“conversão” em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada). Narrase que em procedimentos de investigação conjunto com a Polícia Federal, com escutas telefônicas autorizadas e monitoramento de pessoas e veículos, foram revelados fortes indícios da existência de um esquema fraudulento que consistia no desvio para o mercado interno de pneus e câmaras de ar destinados à exportação. Os produtos eram declarados em despachos de exportação da Pirelli, com destino a duas empresas paraguaias: Mater Pneus SRL e Nacional Cubiertas SRL. Com a participação de intervenientes aduaneiros nomeados pelo exportador e, possivelmente, de servidores públicos, a carga permanecia no Brasil, apesar de constar como exportada nos documentos oficiais. As fraudes eram levadas a cabo com participação ativa incontestável do transportador (Transnardo Transportes LTDA) eleito pela Pirelli para o percurso nacional, até a fronteira terrestre, ou seja, sob a responsabilidade da Pirelli. Cabendo a aplicação da pena de perdimento às mercadorias das faturas relacionadas no Relatório Fiscal, e não tendo sido localizada a mercadoria, impõese a aplicação da multa de “conversão” do perdimento. No Relatório Fiscal anexo à autuação fls. 46 a 115 (que serviu de base também às autuações levadas a cabo mediante os processos no 11444.001129/201012 exigência de tributos incidentes na importação, no 11444.001126/201089 exigência Fl. 3115DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.115 3 das Contribuições para o PIS/PASEP e COFINS, e processos no 11444.001113/201018 e no 11444.001123/201045 de exigência de IPI), apontase que: (a) o procedimento fiscal foi iniciado em virtude de investigações da Polícia Federal em conjunto com Escritório de Pesquisa e Investigação da RFB Operação “Vulcano”, remontando a denúncia de que a Transportadora TRANSNARDO LTDA estaria desviando pneus destinados a exportação para o mercado interno; (b) após a obtenção de autorizações judiciais para escutas telefônicas (nos autos no 2006.61.25.0011030), expandiuse a investigação aos receptadores de pneus desviados, tendo sido cumpridos, na deflagração da Operação (em 07/11/2008), mandados de busca em 59 pessoas (entre as quais a autuada); (c) a separação entre pneus a serem exportados ou desviados ao mercado interno era feita pelo Sr. ADALBERTO Tavares de Almeida, sócio das empresas MATER PNEUS S/A e NACIONAL CUBIERTAS SRL, destinatárias das exportações da Pirelli; (d) o Sr. ADALBERTO recebia os valores repassados pelos clientes, via doleiros (com dólarcabo, cf. detalhado às fls. 47/48 e 59/60), e repassava à Pirelli por meio de suas empresas paraguaias, mediante fechamento de câmbio; (e) as carretas que saíam da Pirelli, conforme documentos apreendidos, não eram as mesmas que cruzavam a fronteira, na maioria dos casos, cf. planilha de fls. 51/52, havendo descarga no armazém da TRANSNARDO para possibilitar as manipulações e desvios; (f) confirmam as exportações fictícias os depoimentos da funcionária EDNA Maria Ferrari Rosa, da TRANSNARDO, além dos documentos apreendidos em sua residência, e que indicam as ordens de ADALBERTO quanto ao destino das cargas (v.g. documentos de fls. 53/56); (g) em vigilância realizada pela Polícia Federal na TRANSNARDO entre março e abril de 2008, foram constatadas diversas retiradas de pneus por caminhões de empresas que adquiriam os produtos de ADALBERTO no mercado interno, como documentado às fls. 57/59; (h) cotejando as exportações efetuadas da Pirelli para a MATER registradas no Brasil com as importações da MATER tendo como exportadora a Pirelli registradas no Paraguai, percebese (fls. 60/61) que apenas cerca de 25% do exportado nos anos de 2006 a 2008 chegava ao Paraguai, sendo que a Pirelli tinha conhecimento disso, cf. email apreendido na Pirelli de Santo André (fl. 62); (i) foram identificadas por meio de conversas no Skype e documentos esparsos detalhados às fls. 63 a 112, 191 faturas de exportação emitidas pela Pirelli (188 para a MATER e 3 para a NACIONAL CUBIERTAS) referentes a produtos desviados, totalizando US$ 7.967.371,27; (j) a exportação fictícia dá ensejo à exigência de IPI na saída dos estabelecimentos (filiais 0043 Barueri e 0044 Santo André), das contribuições (para o PIS/PASEP e COFINS) sobre o faturamento da matriz, e dos tributos devidos na importação de matériasprimas por drawback, além de ocasionar a aplicação de multa de 100% (em substituição ao perdimento); e (k) o presente processo trata do Auto de Infração para exigência da multa de 100% em substituição ao perdimento, contendo em anexo os documentos relacionados às fls. 113 a 115. Fl. 3116DF CARF MF 4 Cientificado da autuação em 16/08/2010 (fl. 4), a empresa apresenta impugnação em 15/09/2010 (fls. 2616 a 2677). Na peça impugnatória, narrase que: (a) a Polícia Federal, em seu inquérito, que analisou todas as escutas e mensagens, concluiu que a impugnante não concorreu para o crime; (b) a empresa não obteria qualquer vantagem com as exportações fictícias; (c) os registros do SISCOMEX comprovam que as exportações foram realizadas (desembaraçadas cerca de um terço em canais laranja ou vermelho e averbadas pela Receita Federal, havendo comprovante de exportação em todas as operações mencionadas pela fiscalização, registros esses que permanecem intactos no sistema informatizado), sendo insuficientes os indícios em contrário apresentados; (d) não se pode exigir tributo a partir de presunções hominis, tendo em vista a legalidade e a tipicidade cerrada que norteiam o direito tributário, como atestam a doutrina e a jurisprudência administrativa (e a fiscalização não faz prova cabal de que as mercadorias não cruzaram as fronteiras brasileiras); (e) há impossibilidade de aplicação da pena de perdimento à empresa porque ela não concorreu para a prática de nenhuma conduta tipificada na norma sancionatória; (f) há impossibilidade de aplicação da pena de perdimento porque se prevalecer a alegação do fisco, as mercadorias não foram exportadas mediante a utilização de documento falso, tendo em vista que sequer teriam sido exportadas; (g) a existência de autuação para exigência dos tributos internos devidos em decorrência da exportação inibe a aplicação do perdimento; (h) não houve conduta fraudulenta ou dolosa por parte da empresa que motivasse o perdimento (sendo que a própria fiscalização reconhece que a Pirelli agiu com culpa “in eligendo”/”in vigilando”); e (i) se houve infração, devem ser punidos os efetivos responsáveis (os representantes do importador e do transportador, os receptadores das mercadorias e os agentes do fisco), pois a Pirelli contratou a transportadora para entregar a mercadoria no exterior, e se essa agiu em descumprimento do contrato, deve responder pessoalmente. O julgamento de primeira instância ocorre em 13/01/2011 (fls. 829 a 2834), acordandose pela procedência da autuação, sob o argumento de que “caracteriza dano ao Erário punida com Pena de Perdimento a falsa declaração de exportação indicando mercadoria em quantidade superior à realmente exportada”, em refutação aos argumentos expostos na impugnação. Ciente da decisão de piso em 17/02/2011 (cf. AR de fl. 2844), a Pirelli apresenta Recurso Voluntário em 18/03/2011. Na peça (fls. 2845 a 2913), alegase que: (a) a decisão da DRJ é nula, por falta de análise do conjunto probatório e dos argumentos apresentados na impugnação, limitandose o julgador a reproduzir dados do Relatório Fiscal, não se manifestando sobre todas as razões apresentadas pelo impugnante; (b) a Polícia Federal, em seu inquérito, que analisou todas as escutas e mensagens, concluiu que a impugnante não concorreu para o crime, não tendo qualquer benefício econômico com a situação narrada na autuação; (c) os registros do SISCOMEX (ainda existentes e não retificados, inclusive para os canais laranja e vermelho, o que poderia ser verificado em sede de diligência) comprovam que as exportações foram realizadas, e não foram refutados a contento pelos indícios levantados na autuação (nem Fl. 3117DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.116 5 pelas alegações genéricas do julgador a quo); (d) a presunção simples não pode ensejar a exigência de tributos, sob pena de ofensa à legalidade e à tipicidade cerrada (e não há norma que permita à fiscalização presumir, a partir de conversas Skype, planilhas ou interrogatórios, que mercadorias não cruzaram as fronteiras brasileiras); (e) não há provas de que as mercadorias tenham permanecido em território brasileiro (pelo contrário, há registros oficiais de que saíram), e ainda que houvesse ocorrido o desvio, não há provas de que as mercadorias tenham sido desviadas dentro do território brasileiro (e se as mercadorias saíram do território brasileiro, o que seria igualmente presumível, houve exportação); e (f) há impossibilidade de aplicação da pena de perdimento, seja pela inexistência de declarações falsas ou adulteradas, seja pela ausência de intuito fraudulento nas operações, ou pelo fato de a responsabilidade ser exclusiva de terceiros; ou ainda porque tal penalidade não se aplica nos casos de desvio de mercadorias (como já decidido pelo CARF). O Recurso Voluntário é então encaminhado ao CARF em 14/04/2011, pelo documento de fl. 2936, tendo sido a mim distribuído, por sorteio, em 07/03/2013 (fl. 2944). A ementa do julgamento possui a seguinte redação: DANO AO ERÁRIO. PERDIMENTO. DISPOSIÇÃO LEGAL. Nos arts. 23 e 24 do DecretoLei no 1.455/1976 enumeramse as infrações que, por constituírem dano ao Erário, são punidas com a pena de perdimento das mercadorias. É inócua, assim, a discussão sobre a existência de dano ao Erário nos dispositivos citados, visto que o dano ao Erário decorre do texto da própria lei. PERDIMENTO. “CONVERSÃO”. INAPLICABILIDADE NA EXPORTAÇÃO. A multa resultante da “conversão” do perdimento, referida no § 3o do art. 23 do DecretoLei no 1.455/1976, com a redação dada pela Lei no 10.637/2002, é inaplicável à exportação, por trazer base imponível relacionada estritamente à importação (valor aduaneiro). A multa pela não localização de mercadoria à qual se aplique o perdimento passa a ser devida na exportação somente a partir de 28/07/2010, data de publicação da Medida Provisória no 497/2010, posteriormente convertida na Lei no 12.350/2010, que dá nova redação ao citado § 3o. Houve interposição de recurso especial por parte da Procuradoria, vindo à CSRF deste CARF, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, e no mérito, por maioria de votos, darlhe provimento com retorno dos autos à turma de origem para análise das demais questões trazidas pelo recurso voluntário, cuja ementa possui o seguinte teor: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 24/02/2005 a 24/10/2008 Fl. 3118DF CARF MF 6 MULTA DE CONVERSÃO DO PERDIMENTO. IRREGULARIDADE ASSOCIADA À EXPORTAÇÃO. APLICABILIDADE. Valor equivalente ao valor aduaneiro não se confunde com o valor aduaneiro propriamente dito. Assim, não havia, à época da vigência da primeira redação do § 3º do art. 23 do Decretolei nº 1455, de 1976, acrescido pela Lei nº 10.637/2002, qualquer obstáculo para a imposição de multa relativa à conversão do perdimento em pecúnia quando se identificasse irregularidade na exportação. Deveras, a mercadoria exportada, se considerada a origem, é a mesma importada, se considerado o destino. Da mesma forma, o contrato de compra e venda é uno, com dois pólos diversos. Consequentemente, é perfeitamente possível identificar o valor pelo qual a mercadoria foi comercializada (valor de transação) e definir o quantum da multa relativa à conversão da pena de perdimento. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 24/02/2005 a 24/10/2008 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. NECESSIDADE A matéria que não tenha sido alvo de análise pela instância recorrida não será enfrentada pela instância especial, salvo se apresentados embargos para efeito de prequestionamento. Recurso Especial do Procurador Provido Cumpre a este Colegiado, portanto, enfrentar as demais questões elencadas no recurso voluntário, assim dispostas pela recorrente: (a) a decisão da DRJ é nula, por falta de análise do conjunto probatório e dos argumentos apresentados na impugnação, limitandose o julgador a reproduzir dados do Relatório Fiscal, não se manifestando sobre todas as razões apresentadas pelo impugnante; (b) a Polícia Federal, em seu inquérito, que analisou todas as escutas e mensagens, concluiu que a impugnante não concorreu para o crime, não tendo qualquer benefício econômico com a situação narrada na autuação; (c) os registros do SISCOMEX (ainda existentes e não retificados, inclusive para os canais laranja e vermelho, o que poderia ser verificado em sede de diligência) comprovam que as exportações foram realizadas, e não foram refutadas a contento pelos indícios levantados na autuação (nem pelas alegações genéricas do julgador a quo); (d) a presunção simples não pode ensejar a exigência de tributos, sob pena de ofensa à legalidade e à tipicidade cerrada (e não há norma que permita à fiscalização presumir, a partir de conversas Skype, planilhas ou interrogatórios, que mercadorias não cruzaram as fronteiras brasileiras); (e) não há provas de que as mercadorias tenham permanecido em território brasileiro (pelo contrário, há registros oficiais de que saíram), e ainda que houvesse ocorrido o desvio, não há provas de que as mercadorias tenham sido desviadas dentro do território brasileiro (e se as mercadorias saíram do território brasileiro, o que seria igualmente presumível, houve exportação); e (f) há impossibilidade de aplicação da pena de perdimento, seja pela inexistência de declarações falsas ou adulteradas, seja pela ausência de intuito fraudulento nas Fl. 3119DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.117 7 operações, ou pelo fato de a responsabilidade ser exclusiva de terceiros; ou ainda porque tal penalidade não se aplica nos casos de desvio de mercadorias (como já decidido pelo CARF). É o relatório. Voto Conselheiro André Henrique Lemos, Relator O recurso voluntário é tempestivo, vez que a Recorrente tomou ciência da decisão recorrida em 17/02/2011 (fl. 2844), interpondo seu voluntário em 18/03/2011 (fl. 2845), logo, dele tomo conhecimento. Inicialmente, quanto à alegada nulidade da decisão de primeira instância, temse que não procede. Verificase que a decisão recorrida se encontra devidamente motivada, e que adotou suas conclusões justamente com base no conjunto probatório dos autos. Se avaliou adequadamente ou não as provas existentes, isto pode ser objeto de debate, mas não autoriza a anulação da decisão. À autoridade julgadora é facultado formar livremente a sua convicção com base nas provas dos autos (art. 29 do Decreto nº 70.235/72), o que de fato ocorreu, sendolhe igualmente facultada a avaliação da força probante das provas apresentadas. Ademais, constam na decisão todos os elementos exigidos pelo art. 31 do Decreto nº 70.235/72, havendo relatório, os fundamentos legais e sua conclusão. Para formar a sua convicção, a autoridade julgadora não precisa se manifestar expressamente a respeito de todas as alegações suscitadas pela parte e que são, implicitamente, rejeitadas a partir do momento em que a convicção formase em sentido contrário a estas. A propósito, ao contrário do que se defende em grau recursal, a autoridade julgadora concluiu que a recorrente tem responsabilidade tributária pela infração apontada. Em conclusão, a discordância ou inconformidade com a decisão de primeira instância não autoriza concluirse que a mesma padece de nulidade, sendo o caso, outrossim, da sua reforma – se for o caso –, e não da sua anulação. Adentrando no mérito da decisão recorrida propriamente dito, a recorrente repisa os argumentos lançados em sua impugnação, no sentido de que não há comprovação de que os produtos destinados à exportação teriam sido revendidos no mercado interno, não havendo prova da infração apontada no auto de infração. Fl. 3120DF CARF MF 8 A comprovação de que parte dos produtos constantes das declarações de exportação emitidas pela recorrente teria sido desviada e revendida no mercado nacional é farta e diversificada nos autos. Neste sentido, a Representação Criminal constante das fls. 1494 1686 faz referência a depoimentos, interceptações telefônicas, documentos, filmagens, apreensão de mercadorias, dentre outras provas. A evidenciar o desvio de parte dos produtos que seriam documentalmente destinados à exportação, citamos trechos do Relatório Fiscal anexo ao auto de infração: “26. No computador da Transnardo, matriz em Santa Cruz do Rio Pardo/SP, onde trabalhava a Edna, foram encontradas comunicações escritas pela internet (conversas impressas as fls. 1886/2040), no programa Skype, notadamente referente ao período de junho/2007 a fevereiro/2008, onde Adalberto ou Márcio (Antonio Marcio de França, funcionário de Adalberto na Mater Pneus) informavam o real destino das faturas de exportação da Pirelli.” (fl. 56) “27. Em tais conversas foram mencionadas 117 faturas de exportação, conforme demonstrativo de fls. 1253/1257, resumindose na seguinte destinação: 59 faturas efetivamente exportadas; 50 faturas desviadas para o mercado interno; e 8 faturas com destino não comentado. Em tal período, somente 13 faturas de exportação da Pirelli para a Mater no foram mencionadas nas conversas (115871, 115872, 115927, 115933, 115994, 116006, 116090, 116091, 116361, 116367, 116368, 116409e 116598).” (fl. 57) “41. No material apreendido na operação não foi encontrado documentos que indicasse o verdadeiro destino de todas as faturas de exportação da Pirelli para a Mater/Nacional Cubiertas no período fiscalizado, qual seja, nos anos de 2005 a 2008. Apenas no período de junho/2007 a fevereiro/2008, graças As conversas no Skype acima resumida (parágrafos 27 e 28), é que foi possível conhecer a real destinação das faturas de exportação da Pirelli para a Mater/Nacional Cubiertas.” (fl. 60) “42. Além das conversas no Skype, foram encontrados documentos esparsos ern diferentes alvos, bem como ligações telefônicas, além de relatórios de vigilância da Policia Federal, revelando desvios de exportação para o mercado interno.” (fl. 60) “50. Assim, identificamos as exportações fictícias através das conversas do Skype (parágrafo 26) e documentos esparsos, todos a seguir detalhados, envolvendo as 191 Faturas de Exportação (188 faturas para a Mater Pneus S.RL. e 3 faturas — 116116, 116436 e 166576 — para a Nacional Cubiertas S.R.L.), totalizando US$ 7.967.371,27 de desvios, abaixo especificadas:” (fl. 63) Em que pese no entender deste relator o efetivo desvio dos produtos destinados à exportação para revenda no mercado nacional, não é possível concluirse, contudo, que a autuada tenha participação no esquema criminoso engendrado, e que tenha, ao fim e ao cabo, responsabilidade tributária pela infração constatada. Fl. 3121DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.118 9 Com efeito, do conjunto probatório constante dos autos, não há elementos que permitam aferir que a recorrente tenha tido participação no esquema criminoso. As provas carreadas aos autos levam à conclusão de que ADALBERTO, sócio das importadoras Mater Pneus S.R.L. e Nacional Cubiertas S.R.L., e a transportadora dos produtos Transnardo Transportes Ltda. tinham participação ativa no esquema criminoso, que ainda contava com a participação de várias outras empresas e pessoas, como receptadores e facilitadores. Aliás, a própria descrição do esquema fraudulento no Relatório Fiscal informa como esquema funcionava e descreve quem seriam os partícipes do mesmo, como se vê a seguir: “DO ESQUEMA CONSTATADO. 5. A Transnardo retirava os pneus destinados a exportação nos armazéns da Pirelli (filial 0043 em Barueri e filial 0044 em Santo André) e os levava para seu armazém em São Paulo/SP (até março/2008) e Itapevi (a partir de março/2008), onde os pneus, via de regra, eram descarregados. Ali faziase a separação e arrumação da carga. 6. A separação (pneus que seriam efetivamente exportados dos pneus que seriam desviados para o mercado interno) era determinada por ADALBERTO TAVARES DE ALMEIDA, sócio das importadoras MATER PNEUS S/A e NACIONAL CUBIERTAS S.R.L., destinatárias das exportações da Pirelli. Os pneus que seriam desviados para o mercado interno eram retirados na Transnardo pelos próprios adquirentes que negociavam as compras com Adalberto, sendo que os adquirentes, as vezes, utilizavam notas fiscais frias para o transporte dos pneus. 7. Já a arrumação da carga, quando efetuada, consistia em colocar os pneus que seriam exportados próximos à tampa de abertura do banco, objetivandose dar aparéncia, numa eventual abertura da tampa pela fiscalização, de que o baú inteiro estaria carregado com pneus. Assim, a fração da carga era submetida a despacho de exportação na fronteira, com a documentação indicando a carga total, e, com a conivência ou não da fiscalização no desembaraço de exportação (a ser apurada em processos disciplinares), eram declaradas como totalmente exportadas. 8. Os adquirentes dos pneus desviados pagavam adiantado a Adalberto através de depósitos em contas de terceiros, contas estas indicadas por doleiros que operavam com dólarcabo(*). Ou seja, os doleiros dos quais Adalberto era cliente, recebiam os valores dos adquirentes por meio de contas bancárias por eles (doleiros) indicadas e disponibilizava o valor correspondente para Adalberto no Paraguai, sendo que este, através da Mater Pneus S/A e Nacional Cubiertas, pagava, também adiantadamente, oficialmente a Pirelli, com o conseqüente fechamento de cambio. Fl. 3122DF CARF MF 10 9. A Transnardo, além do frete que recebia regularmente da Pirelli, era remunerada também por Adalberto, no valor que variou de 1 a 3,5% do valor da carga, por sua participação no esquema, ou seja, a manipulação e armazenagem para o desvio das cargas.” O funcionamento do esquema criminoso foi assim descrito na Representação Criminal encaminhada ao juízo criminal da 1ª Vara Federal de Ourinhos/SP pela Delegacia de Polícia Federal em Marília (fl. 1514): “Dentro do contexto investigatório, tal esquema é sumariamente demonstrado abaixo, e pode ser resumido da seguinte forma: os pneus deixam as fábricas localizadas no Estado de Sao Paulo com destino importadora Paraguaia MATER PNEUS. O desembaraço aduaneiro é realizado na cidade de Guaira/PR ou Mundo Novo/MS, de modo previamente acertado com fiscais da Receita Federal lotados nessas localidades, uma vez que, segundo estimamos, aproximadamente metade das cargas permaneceriam no território nacional. Desse modo, é perfeitamente possível à TRANSNARDO TRANSPORTES LTDA manusear a carga dentro de 'seus galpões em São Paulo/SP e Santa Cruz do Rio Pardo/SP, sem que, com isso, infrinja qualquer disposição legal, uma vez que a carga sendo considerada "em trânsito" somente após receber o lacre da fiscalização, era Guaira/PR ou Mundo Novo/MS, com o desembaraço aduaneiro. Ocorre que tal transportadora não só manuseia a carga para efeitos logísticos, mas também possibilita aos interessados, os receptadores, a retirarem de seus depósitos, para venda no território nacional, os pneus que deveriam seguir com destino ao exterior. Todavia, o que a TRANSNARDO faz nada mais é do que a logística ilícita da situação, uma vez que não são eles que determinam quais as cargas que serão retiradas de seus depósitos, mas sim o próprio importador paraguaio diretamente com seus receptadores, através de números de faturas (provavelmente numeração das fábricas) previamente Comunicadas.” Enquanto a autoria e materialidade dos crimes estejam suficientemente claros com relação à importadora e à transportadora das mercadorias, bem como com relação aos receptadores e até mesmo fiscais da própria Receita Federal do Brasil, o mesmo não se observa com relação à autuada (exportadora). A participação da autuada no esquema criminoso não é clara e sequer é afirmada no curso da investigação criminal. Em determinado momento a Polícia Federal chega a afirmar justamente o contrário (efl. 1.506): “(...). Apesar do aparente envolvimento da empresa PIRELLI S.A. com os delitos sob apuração, não podemos afirmar que tal empresa esteja cometendo delito dessa espécie, nos parecendo mais lógico, ao Menos por enquanto, considerar que a mesma motivase apenas pela sonegação fiscal obtida com a isenção ilegal obtida nas importações de insumos para posterior exportação de produtos manufaturados (drawback). 0 mesmo não se pode afirmar em relação ao receptador e aos grandes intermediários investigados, porém, tal matéria somente poderá ser esclarecida quando da segunda fase das investigações, isto é, quando da análise das provas obtidas através dos futuros Fl. 3123DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.119 11 mandados de busca e apreensão a serem deferidos pela Justiça Federal, caso entendam cabíveis as razões expostas.’ Além de não haver nos autos nenhuma prova contra a AutuadaRecorrente, uma das degravações de escuta telefônica feitas demonstra que a Recorrente não tinha conhecimento de que as mercadorias saídas de seus estabelecimentos para o exterior acabavam sendo desviadas para o mercado interno. A interceptação telefônica consta do relatório fiscal (fls. 6970) e tem como interlocutores EDNA (funcionária da transportadora Transnardo) e ADALBERTO (sócio da Mater Pneus, uma das importadoras), que conversam a respeito de um roubo de uma carreta da Transnardo que transportava pneus da Pirelli: “Adalberto: "e aí como é que ficou o negócio da ocorrência". Edna: "foi fazer ontem ... o Zé Carlos o motorista e o cara que estava junto foram fazer ontem de manhã'' (Boletim de Ocorrência). Adalberto: "é duas notas que tinha?". Edna: "isso". Adalberto: "mas é duas notas e uma carga? Edna: "não, são cinco notas em duas cargas". Adalberto: "nossa senhora!! Como é que vai fazer a alegação disso ai?" Edna: "no boletim?". Adalberto: "é". Edna: "no boletim deixou como se fosse nacional... diz que não citou em momento nenhum que era exportação ... pelo menos foi o que eu ouvi ela dizendo". Adalberto: "e os números das notas como é que ela vai falar isso pra Pirelli?". Edna: "então eu achei que ela tivesse acertado com você". Adalberto: "não ela não falou nada aqui.. como que você sabe que que eu vou falar aqui ... ela é que sabe o procedimento nessas horas entendeu? ". Edna: "bom se a Pirelli puxar as notas fiscais ela vai ver que não é nacional né ... só por aí já dá para ver que não é mercado nacional ... agora se essas notas estiverem dentro do caminhão?. Adalberto: "fala que estava vindo em comboio e o outro ficou pra trás .. sei lá.. ". Edna: "não ... estou falando pra você que o cara falou que o cavalo ele ia deixar ali por perto então pode ser que essas notas estejam dentro do cavalo ... entendeu .... aí eu vou ter que falar com ela ... ver o que foi colocado lá ... pra poder ver o resto né!? Fl. 3124DF CARF MF 12 Adalberto: "é tem que ver o que vai colocar lá .... isso aí a Pirelli vai ter que emitir outra... cancelar essa e emitir outra." Em que pese tais constatações, a fiscalização optou por concluir que a autuada teria praticado exportação fraudulenta, presumindo que esta teria participado do esquema criminoso. A fiscalização entendeu que a autuada teria tomado parte no esquema fraudulento e assim o fez porque a mesma promoveu as operações de exportação, e, especificamente, porque concluiu que funcionários da exportadora tinham conhecimento da divergência entre os dados constantes do SISCOMEX e do sistema URUNET. Neste sentido, transcreve trecho do Relatório Fiscal anexo ao auto de infração (efl. 1.208): É de notar que o email em questão não permite afirmar que a Autuada Recorrente participava de esquema fraudulento de exportação. Permite aferir apenas que as pessoas que trocaram a mensagem tiveram ciência da discrepância quanto ao volume de produtos faturados para exportação e o volume de produtos que ingressara no Paraguai. Importante ressaltar que o referido email faz referência aos “dados da URUNET”. A URUNET seria um software desenvolvido por uma empresa do Uruguai, que disponibiliza aos seus assinantes informações sobre comercio exterior de alguns países, entre Fl. 3125DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.120 13 os quais, os países do Mercosul. O software disponibiliza dados obtidos a partir de informações da aduana, de institutos de estatísticas e de outras fontes não oficiais, conforme documento constante da efl. 2.746. Consta nos autos que, após o envio do email citado pela fiscalização, o Sr. Luiz Fernando Costa, funcionário da exportadora, questionou, por email, o fornecedor do Sistema URUNET sobre a veracidade de tais informações e recebeu a confirmação de que tais dados não eram oficiais, não podendo ser considerados como informações concretas da aduana do Paraguai sobre as mercadorias importadas (efl. 2.806): Logo, não sendo o software URUNET alimentado com informações fiscais, sequer a conclusão de que a autuada tinha ciência do esquema fraudulento não é válida, acrescentandose ainda que o SISCOMEX mostrava que as exportações foram 100% efetivadas. Ademais, a menção contida no relatório fiscal anexo ao auto de infração (efl. 60) quanto ao cotejo realizado entre o sistema SISCOMEX e ao sistema INDIRA Intercambio de Información de los Registros Aduaneros (Sistema de informações do comércio exterior entre os países integrantes do Mercosul a partir de 2006), o qual apontava a discrepância entre o volume de produtos registrados para exportação e o volume ingressado no Paraguai, não era acessível à contribuinte, mas apenas à Receita Federal do Brasil, conforme documento das efls. 28072811. Acrescentese que a fiscalização reconhece a existência falhas na alimentação do sistema INDIRA ou ate mesmo sonegação dos tributos incidentes na importação. Fl. 3126DF CARF MF 14 Cabe aqui uma consideração. Mesmo que se admitisse que a autuada recorrente teve ciência de tal discrepância, e que eventualmente até mesmo soubesse que os produtos que deveriam ter sido exportados foram desviados para o mercado interno, tal hipótese não autorizaria concluir que a mesma teve participação no esquema fraudulento. Sem prejuízo disto, não parece razoável fosse a autuada a “cabeça” do esquema fraudulento desvendado e em funcionamento durante anos, uma vez investigada a quadrilha em questão, não se tenha evidência de a autuada efetivamente ter laborado com o intuito de realizar operações de exportação fraudulentas com o objetivo de despejar as mercadorias no mercado nacional. Ao contrário, o que a Polícia Federal evidenciou na investigação que conduziu foi que os acertos davamse justamente entre a importadora, a transportadora, e inúmeros receptadores das mercadorias no mercado nacional. A propósito, consta no Relatório Fiscal anexo ao auto de infração (efl. 51): “15 Se todas as exportações da Pirelli para a Mater Pneus transportadas pela Transnardo fossem regulares, tais documentos (acerto de contas) não existiriam na forma elaborada porque não haveria razão para a cobrança da comissão sobre os valores das faturas da Pirelli, já que a Pirelli era quem pagava o frete da operação para a Transnardo, uma vez que integravam destacadamente o valor total das faturas de exportação.” O mencionado “acerto de contas” ocorria justamente entre a transportadora e o importador, como deixa claro o próprio Relatório Fiscal, quando afirma (fl. 50): “12. Tratase de correspondência encaminhada por facsímile da Edna (funcionária da Transnardo) para Adalberto (Mater Pneus), demonstrando o acerto de contas entre a Transnardo e Adalberto, referente ao mês de janeiro/2005. 13. Os créditos da Transnardo referemse à comissão (armazenagem e manipulação das cargas) gerada a partir dos valores das faturas de exportação da Pirelli (As fls. 2226/2233, juntamos demonstrativo das faturas emitidas pela Pirelli, cuja somatória dos itens são absolutamente coincidentes com os valores mencionados no acerto de contas). Verificase que a Transnardo auferiu 2% sobre o total das faturas de exportação, que convertidos em reais pelo câmbio de R$ 2,92, gerou o crédito de R$ 36.490,92.” Não há aqui, também, qualquer prova ou evidência de que a autuada participasse do mencionado “acerto de contas”, mas uma vez evidenciando a falta de participação da autuada no esquema fraudulento. Aliás, consta no Relatório Fiscal anexo ao auto de infração que, em ao menos uma situação de desvio de pneus para o mercado interno, ADALBERTO teria cobrado um sobrepreço de um possível receptador, onde teria acrescido aos produtos 50% do valor que ele próprio pagou à Pirelli, indicando que a fraude davase segundo os interesses de ADALBERTO, conforme trecho a seguir (efl. 63): “Fatura n° 112.553 DDEDeclaração de Despacho Aduaneiro n° 2050202505/0 — Notas Fiscais: 164886 e 164887— B (filial 0043 de Barueri); 91412 — S (filial 0044 de Santo André). Fl. 3127DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.121 15 Documento do Excel, denominado "PMA 112553.xls" impresso às fls. 1834, encontrado no computador de Paolo (caminho no HD: CIRCULO NEGRO Orig\BRAVO\B04 PAOLO\HDOI \DOCUMENTOS EXCEL), em Marilia. Tal documento foi elaborado por Adalberto que o transmitiu via email para seu cliente Paolo (PMA significa Paolo de Marília — Charanga Pneus). Os pneus discriminados em tal documento coincidem com os pneus discriminados na fatura de exportação da Pirelli n° 112.553 (fls. 134/135). Tratase de desvio parcial de 494 pneus, vez que a fatura totaliza 972 pneus e a planilha do Excel apenas 494 pneus. Os preços indicados na planilha (em dólares) indica o acréscimo de cerca de 50% do valor que Adalberto pagava para a Pirelli.” Finalmente, a Representação Criminal constante dos autos informa que, dentre os pneus identificados como ilicitamente desviados para o mercado nacional, encontravam da marca Pirelli, Goodyear e Continental. Neste sentido (efl. 1516): “1.1. ADALBERTO TAVARES DE ALMEIDA Tratase do cabeça da organização no referido esquema, amparado, ao que parece, por CELSO EDUARDO BORDI, funcionário de alto escalão do setor de exportações da PIRELLI S.A. em Santo André/SP. ADALBERTO TAVARES DE ALMEIDA é proprietário das empresas MATER PNEUS e MEGA AUTO CENTER, situadas, respectivamente, nas cidades paraguaias de Salto Del Guairá e Pedro Juan Caballero, além de outras naquele pais, e, segundo constatamos nas interceptações, seria a pessoa que detêm o "poder" de determinar a "quantidade" e "espécie" de produtos que permaneceriam no território nacional, apesar de se destinarem a exportação. Tratase de um importador de imensa quantidade cié pneus de diversas marcas, entre as quais se destaca PIRELLI, GOODYEAR e CONTINENTAL, cujo montante é difícil ,de ser consumido no mercado local fronteiriço paraguaio, ainda que notório que parte das mercadorias retorne ao território nacional em pequenas quantidades contrabandeadas, sem anuência "direta" do importador.” Assim, de acordo com o entendimento adotado no auto de infração de que a Pirelli fraudou documentos no intuito de efetuar exportações fictícias , seria coerente afirmar que também a Goodyear e a Continental teriam praticado o mesmo ilícito. Não parece factível que 3 (três) das maiores fabricantes de pneus praticassem exportações fictícias, nas mesmas circunstâncias de lugar, tempo, modus operandi e que ainda se utilizassem dos mesmos partícipes para tanto. Desvinculados os atos praticados pela autuada e, em momento posterior, pelos partícipes do esquema criminoso, só se pode chegar a uma conclusão: a exportadora agiu no sentido de efetivamente exportar as mercadorias, as quais posteriormente foram desviadas do seu destino para o mercado interno por terceiros. Convém destacar que a conclusão a que se chega neste voto é a mesma já encampada em outros 2 (dois) julgamentos proferidos por este Conselho Administrativo de Fl. 3128DF CARF MF 16 Recursos Fiscais a respeito dos mesmos fatos envolvendo a autuada, já que a mesma fiscalização resultou na lavratura de vários autos de infração contra a mesma. No julgamento do recurso voluntário no 11444.001113/201018, a 2ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento, em sessão realizada em 24/04/2012, restou proferido o acórdão 380200.923, assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/02/2005 a 28/02/2009 AUTO DE INFRAÇÃO. DESVIO DE MERCADORIAS DESTINADAS À EXPORTAÇÃO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. NULIDADE POR VÍCIO MATERIAL. Realidade em que, embora tendo sido demonstrada a existência de esquema fraudulento destinado a desviar, para o mercado interno, mercadorias destinadas para o exterior, nada ficou demonstrado concernente à participação da autuada, a exportadora dos produtos. Demonstrado o erro na identificação do sujeito passivo, deverá ser declarado nulo, por vício material, o lançamento objeto da lide. Recuso a que se dá provimento para declarar nulo o lançamento, por vício material. No mesmo sentido caminhou o julgamento do recurso voluntário no 11444.001129/201012 (acórdão 3401002.081), assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Anocalendário: 2004, 2005, 2006, 2008 FRAUDE EM OPERAÇÃO DE EXPORTAÇÃO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO DA AUTUADA. A Contribuinte não pode ser responsabilizada por fraudes cometidas por terceiros, quando seguidos os procedimento legais nas operações de exportação. Nos 2 (dois) precedentes concluiuse não estar comprovada a participação da autuada no esquema criminoso. É bem verdade que durante o inquérito policial, a Polícia Federal suspeitou da participação de CELSO EDUARDO BORDI, empregado do setor de comércio exterior da Pirelli em Santo André/SP, no esquema criminoso. Narra a Representação Criminal assinada pelo Delegado de Polícia Federal (fl. 1525): “1.2. CELSO EDUARDO BORDI tratase, provavelmente, de membro de alto escalão da empresa PIRELLI S/A, exercendo sues atividades no setor de exportação da companhia, em Santo André/SP. 0 nome de tal pessoa somente surgiu nas investigações nos últimos 15 dias, apesar de, há tempos, mencionarmos nos autos a existência de alguém de dentro da fábrica com o poder de determinar o montante das mercadorias destinadas à exportação para a MATER PNEUS. O relevo de Fl. 3129DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.122 17 sua atuação e posição na organização criminosa ainda é dúbia, porém, suspeitamos que, ao lado de ADALBERTO TAVARES DE ALMEIDA, possa ser o cabeça do esquema criminoso, haja vista o poder de "maleabilidade" que possui na determinação da quantidade de carga que deve permanecer e que deve deixar o território nacional. Além disso, em ligação telefônica mantida com ADALBERTO, este critica aquele por causa de preço de mercado mantido por concorrente, como se estivesse colocando o a par de uma situação que pudesse resolver. Aliás, CELSO deixou aberta justamente essa possibilidade, quando disse a ADALBERTO "que vai ficar ligado agora para cuidar do mercado". Vejase que a própria Polícia Federal manifesta dúvidas quanto à efetiva participação de CELSO EDUARDO BORDI no esquema criminoso quando afirma: “O relevo de sua atuação e posição na organização criminosa ainda é dúbia...”. Destacase que, na mesma Representação Criminal a Polícia Federal informa que, embora tivesse suspeitas acerca da possível ligação de ADALBERTO (sócio das importadoras das mercadorias) com membros da diretoria/presidência da Pirelli, ao final dos levantamentos teria identificado apenas um suspeito membro da empresa, justamente CELSO EDUARDO BORDI, dando a entender que ao fim das investigações, a possível participação no esquema criminoso limitavase ao referido suspeito. Neste sentido, colhese (fl. 1519): “As seguintes ligações demonstram a possível ligação de ADALBERTO com membros da Diretoria/Presidência da Pirelli, além de funcionários operacionais da empresa, o que, durante toda a investigação, fomentou nossas suspeitas acerca do envolvimento e conhecimento de pessoas de dentro das fabricas no esquema criminoso. Agora, já no final dos levantamentos, conseguimos .identificar um dos membros da empresa, responsável pela área de comércio exterior, que se mostrou suspeito de ser o verdadeiros "líder" do esquema criminoso. Segundo apuramos tratase de CELSO EDUARDO BORDI, cujo envolvimento com ADALBERTO será demonstrado abaixo:” O Delegado de Polícia Federal inclusive representou ao juízo criminal requerendo busca e apreensão de documentos na empresa Pirelli em Santo André/SP, no que restou atendido, tendo sido deferido mandado de busca e apreensão pelo juízo criminal, com a subsequente busca e apreensão de documentos, conforme mandado constante dos autos (fl. 1804): “MANDA a Autoridade Policial ou Agentes de Policia Federal que, em cumprimento deste, proceda à BUSCA E APREENSÃO de todos os meios de prova que se relacionam aos ilícitos sob apuração, tais corno documentos (papel e mídias informatizadas de armazenamento), computadores, cartas, pneus, numerário, etc, além de eventuais produtos adquiridos com os proventos da atividade criminosa, a ser realizada na Av. Capuava, 603, V. Homero Thon, Santo AndréSP, empresa PIRELLI PNEUS S.A, em poder de quem os detiver, conforme consta na decisão proferida nos autos do lnquérito Policial em epígrafe, cuja cópia segue anexa, observandose as cautelas dos artigos 245 a 249 do Código de Processo Penal. 0 Mandado deverá ser cumprido nos Fl. 3130DF CARF MF 18 setores de importação, exportação e financeiro/contábil, bem como demais locais que contenham documentos que demonstrem as exportações realizadas. As empresas de ADALBERTO TAVARES DE ALMEIDA, bem como nas instalações e objetos de uso de CELSO EDUARDO BORDI. Cumpra e, na forma e sob as penas da lei. Ourinhos, 3 de novembro de 2008. Eu, (Maria Roseli Mandolini), Analista Judiciário, digitei e conferi. E eu, (Sabrina Assanti), Diretora de Secretaria, reconferi.” Por este conjunto de provas, temse que não restou comprovado nestes autos a efetiva participação de Celso Bordi no esquema criminoso, embora haja suspeitas neste sentido. Porém, ainda que restasse incontestável a sua participação na fraude, tal fato não implicaria a responsabilização tributária da autuada pelas infrações apuradas pela Receita Federal do Brasil, pois se veja o que dispõe o artigo 137 do CTN: Art. 137. A responsabilidade é pessoal ao agente: I quanto às infrações conceituadas por lei como crimes ou contravenções, salvo quando praticadas no exercício regular de administração, mandato, função, cargo ou emprego, ou no cumprimento de ordem expressa emitida por quem de direito; Como se vê, o CTN atribui a responsabilidade pessoal ao agente quanto às infrações conceituadas como crimes, que é justamente o caso aqui tratado. Não há dúvida que as infrações em comento não foram praticadas no exercício regular de administração, mandato, função, cargo ou emprego, ao passo que nada consta nos autos que indique que a infração teria sido praticada no cumprimento de ordem expressa emitida por quem de direito. Inexistente qualquer fraude ou ilícito na conduta da autuadarecorrente, devidamente comprovada, não é possível atribuir à mesma a pena imposta no auto de infração. É um princípio do ordenamento jurídico que só pode haver aplicação de pena quando há conduta infracional. Não é o caso. Ademais, em caso semelhante já decidiu esta C. Turma, por meio do acórdão 3401003.960, em votação unânime: CONDUTA INFRACIONAL. PRÁTICA OU PARTICIPAÇÃO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. DEMONSTRAÇÃO. NECESSIDADE. A responsabilidade tributária solidária pelo crédito tributário decorrente de multa por infração à legislação exige a prática ou, pelo menos, a participação do sujeito passivo na conduta reprovada, não bastando a simples referência a fatos dos quais não participou ou para os quais não concorreu, como no caso de importações por encomenda, onde o encomendante cumpre regularmente suas obrigações, não podendo ser responsabilizado por atos realizados pelo importador contratado em conluio com terceiros, sem prova de seu envolvimento, descabendo, nessas hipóteses, a responsabilidade objetiva. Fl. 3131DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.123 19 Assim, temse que o lançamento tributário falhou na identificação do sujeito passivo da obrigação tributária, em infração ao art. 142 do Código Tributário Nacional, que prescreve: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. O ato administrativo do lançamento é ato plenamente vinculado, competindo à fiscalização não somente a identificação do sujeito passivo, mas a demonstração desta sujeição. Encontrase eivado de ilegalidade o lançamento tributário direcionado à contribuinte que não ostenta sujeição passiva em relação à obrigação tributária. Portanto, dou provimento ao recurso voluntário para cancelar o lançamento tributário. Conforme decidido pela maioria do colegiado, que acompanhou o detalhamento da declaração de voto do Conselheiro Rosaldo Trevisan, a seguir, e na forma do art. 63, parágrafo oitavo do RICARF, registrese, aqui com reflexo na ementa, que o provimento ao recurso voluntário se deu por carência de fundamentação da autuação em dispositivo normativo sancionatório pertinente ao caso. (assinado digitalmente) André Henrique Lemos Fl. 3132DF CARF MF 20 Declaração de Voto Rosaldo Trevisan, Conselheiro Por ter relatado originalmente o presente processo, no CARF, por ter relatado processo distinto gerado a partir do mesmo relatório fiscal (no XX), e por ter divergido do relator em relação à abordagem do tema (no que fui acompanhado por todo o restante do colegiado), embora tenha acordado com a conclusão externada pelo relator, pelo provimento do recurso, indiquei a intenção de apresentar declaração de voto, o que concretizo a seguir. O relatório fiscal (fls. 46 a 115) que ampara a autuação lavrada no presente processo, como relatado, serviu de base também às autuações levadas a cabo mediante os processos no 11444.001129/201012 (exigência de tributos incidentes na importação), no 11444.001126/201089 (exigência das Contribuições para o PIS/PASEP e COFINS), e no 11444.001113/201018 e no 11444.001123/201045 (ambos versando sobre exigência de IPI). O processo de no 11444.001129/201012 foi decidido, no CARF, por meio do Acórdão no 3401002.081, de 28/11/2012, que afastou, majoritariamente, a responsabilidade da “PIRELLI”, vencido o Conselheiro Júlio César Alves Ramos, não tendo participado de tal julgamento nenhum dos conselheiros que atualmente compõem a turma. O processo de no 11444.001126/201089, por seu turno, resultou no Acórdão no 3403002.210, de 22/05/2013, no qual se verificou ter ocorrido decadência, confirmandose a decisão de piso em sede de recurso de ofício. Ou seja, a matéria de mérito sequer chegou a ser analisada. O processo de no 11444.001113/201018, referente a lançamento de IPI (parte) foi julgado em Turma Especial, e resultou no Acórdão no 380200.923, de 24/04/2012, havendo também exclusão da empresa “PIRELLI” do polo passivo, o que resultou em nulidade do lançamento por vício material, tendo em conta que a empresa era a única autuada. Em relação a tal processo, o recurso da Fazenda, majoritariamente, não foi conhecido, por ausência de similitude fática entre o acórdão recorrido e os indicados como paradigma, vencidos os Conselheiros Júlio César Alves Ramos, Charles Mayer de Castro Souza e Rodrigo da Costa Pôssas. Por fim, o processo no 11444.001123/201045, também referente a IPI, mas de valor e amplitude mais significativos, foi por mim relatado na extinta Terceira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção do CARF, resultando no Acórdão no 3403 002.517, de 22/10/2013, no qual o colegiado, por maioria, deu provimento parcial ao recurso voluntário apenas em relação a quatro faturas comerciais (116.695, 116.696, 116.711, e 116.781), vencido o Conselheiro Domingos de Sá Filho. Tal processo está pautado para julgamento de recurso especial do contribuinte, na Câmara Superior de Recursos Fiscais. Quando relatei, originalmente, o presente processo, verifiquei impossibilidade de aplicação da penalidade imputada, no caso, por tratarse de exportação, no que fui unanimemente acompanhado pelo colegiado, tendo a decisão sido revertida por maioria, na Câmara Superior de Recursos Fiscais, por meio do Acórdão no 9303004.220, de 10/08/2016, o que ensejou o retorno do processo ao colegiado para análise das demais alegações recursais. Daí a presente análise. Fl. 3133DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.124 21 Pelo fato de todos os processos terem um relatório comum, passo aqui a endossar as conclusões que externei quando do exame do processo no 11444.001123/201045, no qual empreendi análise de mérito. Na ocasião, após discorrer sobre responsabilidade tributária, asseverei: Há que se aclarar inicialmente que, na autuação, não se nega o fato de que a recorrente teve todas as suas exportações desembaraçadas e averbadas (inclusive cerca um terço delas com participação ativa do fisco, nos canais de conferência laranja e vermelho para os quais se exige exame documental e verificação da mercadoria), e que foram emitidos os correspondentes comprovantes de exportação. E a análise a seguir empreendida partirá do pressuposto (facilmente verificável documentalmente) que efetivamente as exportações foram objeto de desembaraço (liberação, automática no canal verde, ou por AuditorFiscal da RFB nos canais vermelho e laranja) e averbação (confirmação, no sistema informatizado SISCOMEX, da transposição de fronteira). O comprovante de exportação (apesar do nome) é um documento dispensável, pois a averbação é que efetivamente comprova a operação (cf. arts. 50 e 51 da Instrução Normativa SRF no 28/1994). Há que se fazer apenas uma complementação, no sentido de que a averbação, na via terrestre (utilizada pela recorrente nas operações a que se refere este processo, sem trânsito aduaneiro), ocorre na data do próprio desembaraço, conforme arts. 39 e 46 da Instrução Normativa SRF no 28/1994: (...) Assim, é preciso destacar que não houve efetivamente um funcionário verificando se a mercadoria fisicamente cruzou a fronteira, como às vezes poderia imaginar o exegeta desavisado. E no tratamento de averbação automática, é possível a apuração posterior de eventuais erros ou fraudes, conforme se depreende do art. 48 da mesma Instrução Normativa: (...) Ou seja, o desembaraço e a averbação no SISCOMEX não impedem a apuração posterior, no caso de erros ou fraudes (inclusive nos canais vermelho e amarelo). Quando o artigo se refere à apuração e a aplicação, aos responsáveis, das sanções administrativas, fiscais, cambiais e penais, não está criando penalidade alguma, mas apenas dispondo que o desembaraço e a averbação não obstam a revisão do despacho (revisão essa que, digase, já era assegurada no art. 570 do Regulamento Aduaneiro de 2002, e mantida no art. 632 do atual Regulamento Aduaneiro). Fl. 3134DF CARF MF 22 No que se refere às sanções administrativas, o fato de eventualmente ter havido participação de funcionários da Receita Federal na fraude não é ignorado na autuação, conforme se depreende do seguinte excerto do Relatório Fiscal (fl. 19): (...) O que se está a analisar, no presente processo, contudo, é a matéria fiscal. Esta análise inicial da questão probatória se presta exclusivamente à evidenciação de que a existência de documentos que comprovam o desembaraço e a transposição da fronteira (registrados no sistema automaticamente ou, em um terço dos casos, por agentes do fisco), não constitui uma contraposição de argumentos à autuação, mas elemento que nela já estava implícito. Repitase, caso não houvesse tal registro de desembaraço ou averbação, sequer haveria necessidade de discutir se a mercadoria foi ou não desviada, e de que forma. E isso parece não ter sido bem compreendido no recurso voluntário, conforme excerto de fls. 2580 e: (...) Quando o fisco apurou que eventualmente teria havido desvio de mercadoria ainda antes da exportação, o fez obviamente já sabendo que tais documentos de exportação existiam. As provas constantes do Relatório Fiscal são justamente destinadas a refutar não formalmente, mas materialmente tais documentos. Tais documentos (e registros em sistema) existiram, existem e continuarão existindo (mesmo que não revelem a realidade da transação). Um dos escopos do presente contencioso é exatamente identificar se tais documentos revelam ou não a realidade da operação realizada. A recorrente, em sua argumentação, à fl. 2584, proporciona cristalina distinção entre os aspectos formais e materiais da operação: (...) Do excerto, resta concluir que formalmente as mercadorias foram exportadas. Mas a autuação, como exaustivamente exposto, questiona a realidade dos fatos, e não o aspecto formal dos registros no sistema. Contudo, o fato de o autuante questionar os próprios registros da RFB, negando materialmente seu conteúdo, lhe impõe um ônus, o de provar que tais registros não condizem com a realidade. E, provando, incumbiria à recorrente refutar a prova. É isso que se passa a analisar a seguir. O Relatório Fiscal anexo à autuação apresenta um tópico denominado “das provas do esquema” (fls. 20 a 32), no qual se encontram os itens 10 a 40, informando (em apertada síntese por nós elaborada), que: Fl. 3135DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.125 23 item 10: a funcionária Edna Maria Ferrari Rosa, funcionária da transportadora TRANSNARDO, em interrogatório, confirmou o esquema de exportação fictícia de pneus praticada pela TRANSNARDO, e que as cargas eram desviadas na própria transportadora, em São Paulo, citando nomes das pessoas responsáveis e que retiravam os pneus na TRANSNARDO; item 11: na residência de Edna, foram apreendidas centenas de documentos que demonstram o controle das operações, por fatura (os documentos originais encontramse na Polícia Federal, que providenciou a digitalização, permitindo que figurem em anexo no presente processo); itens 12 a 16: em facsimile da funcionária Edna, da TRANSNARDO, para o representante (Sr. Adalberto) do importador paraguaio (MATER Pneus), demonstrando o acerto de contas entre a TRANSNARDO e Adalberto no mês de janeiro de 2005 (como a Pirelli é quem pagava o frete das mercadorias, se as exportações fossem regulares, não haveria necessidade de remessa de valores entre a TRANSNARDO e representante do importador paraguaio; e como a TRANSNARDO era somente transportadora, devendo levar as cargas diretamente do estabelecimento da Pirelli para a fronteira, não haveria a necessidade de armazém intermediário na operação, nem descarga dos pneus adquiridos na TRANSNARDO); itens 17 e 18: as carretas que saiam da Pirelli com os pneus recorrentemente não eram as mesmas que chegavam à fronteira (conforme documentos de controle de carregamento de cargas elaborado pela Pirelli, e apreendidos pelo fisco): em amostra de 26 faturas, apenas 6 indicam a mesma carreta saindo da Pirelli e chegando à fronteira (verificandose a planilha de fls. 23/24, percebese ainda que entre a saída da Pirelli, em São Paulo, e a chegada à fronteira paranaense/matogrossense passavamse freqüentemente 10 dias ou mais); itens 19 a 23: na residência de Edna (funcionária da TRANSNARDO) foram ainda apreendidas centenas de documentos que indicam as ordens de Adalberto (MATER Pneus/paraguaia) no tocante ao destino das cargas (juntados ao processo), citandose como exemplo (a) uma ordem por facsimile (fl. 25) tratando do destino de algumas faturas de Adalberto: o mercado interno, mais precisamente PV Paulo Vizaco, comerciante de pneus em Pindamonhangaba/SP, e um dos maiores clientes de Adalberto, (b) uma ordem por email para desvio das mercadorias constantes das faturas 109411 a 19414 para o mercado interno; (c) uma ordem por email para desvio das mercadorias constantes das faturas 109817 a 109820 para o mercado interno (revelando que as cargas da fatura 109821 deveria ser exportada), e (d) planilha especificando quais os pneus a serem exportados e quais deveriam ser destinadas ao mercado interno, referente à fatura 114488; itens 26 e 27: foram identificadas nos computadores da TRANSNARDO, onde trabalhava Edna, diversas conversas no “Skype”, nas quais o Sr. Adalberto (e seu funcionário Márcio), no período de junho/2007 a fevereiro/2008, informavam o real destino das faturas de exportação da Pirelli (nas conversas, anexadas nos autos, são mencionadas 117 faturas de exportação da Pirelli, detalhandose que em 59 as mercadorias foram Fl. 3136DF CARF MF 24 exportadas e em 50 foram desviadas, não se comentando o destino das outras 8 cabendo destacar que apenas 13 faturas de exportação da Pirelli para a MATER Pneus, no período, ficaram de fora das mensagens trocadas); item 28: a Polícia Federal efetuou vigilância velada na TRANSNARDO, de março a abril de 2008, constatando a retirada de pneus por caminhões de empresas clientes de Adalberto, como a do grupo PV Paulo Vizaco (elaborando relatórios anexos aos autos); itens 29 a 34: nos computadores do grupo PV, em Pindamonhangaba/SP, foram encontrados: (a) arquivos denominados “acertos” (v.g. o de fl. 29), nos quais aparece, detalhado por fatura, o controle das negociações entre PV e Adalberto, envolvendo os pneus exportados pela Pirelli, e os pagamentos feitos pelas aquisições, (b) arquivos denominados “comprovantes”, referentes a recibos de depósitos bancários digitalizados (cabendo destacar que o total dos depósitos coincide com o da planilha “acerto”), e (c) conversas “Skype” entre funcionários de PV e Adalberto (na conversa transcrita à fl. 31, há uma tratativa de remessa, indicandose as taxas de câmbio, em valores que confirmam o conteúdo dos arquivos de “acertos”; itens 35 a 37: Adalberto buscava contas bancárias com doleiros de confiança, que operassem dólarcabo (espécie de “compensação entre valores a receber e a pagar em dólar”, cujo mecanismo é explicado na autuação e em documento juntado aos autos, originário da Polícia Federal): como exemplo, citase que o Sr. Silas Sanches, que vendeu imóvel a sua prima no exterior, em vez de receber o valor em um único lançamento em sua conta (de R$ 48.960,00), recebeu seis lançamentos totalizando tal valor, e na agência bancária verificou que um deles era referente a depósito de cheque de emissão de Charanga Pneus de Marília; e itens 38 a 40: a Charanga Pneus (PMA) era um dos clientes de Adalberto no desvio ao mercado interno de pneus exportados pela Pirelli, e nos computadores de tal empresa foram também encontradas conversas “Skype” de funcionários da Charanga Pneus com Adalberto, tratando de remessa de valores em dólar, via conta a ser obtida com operador de dólarcabo indicado pelo Sr. Adalberto (“RAFA”). No Recurso Voluntário, não é feita uma refutação individualizada aos elementos indicados como probatórios na autuação, alegandose, de início (fl. 2589), que: (...) Assim, à exceção de raríssimos casos em que a recorrente refuta pontualmente a autuação (e que serão aqui tratados), a argumentação do Recurso Voluntário é genérica, no sentido de que a documentação oficial não poderia ser afrontada por meros indícios, escutas, conversas Skype, presunções simples, etc. Há que se recordar que as mercadorias saídas do estabelecimento da Pirelli ainda não estavam exportadas, mas submetidas a regime suspensivo de IPI, no qual deveriam seguir para recintos alfandegados (e não para depósitos de transportadoras). A transportadora contratada pela Pirelli para levar as mercadorias até o recinto alfandegado fronteiriço de exportação (TRANSNARDO), comumente demorava mais de Fl. 3137DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.126 25 uma semana para seguir do estabelecimento da Pirelli até a fronteira com o Estado vizinho (Paraná ou Mato Grosso do Sul), e chegava ao destino, em regra, em carretas diferentes das que saíam do estabelecimento da Pirelli. E tal informação está nos autos, no Relatório Fiscal (itens 17 e 18 fls. 23/24) e não só era de conhecimento da recorrente, como reflete controle de cargas a partir de documentos apreendidos na própria Pirelli. E isso não é objeto de refutação específica. O fato gerador do IPI é a saída do estabelecimento produtor (Lei no 4.502, art. 2o, II), o que efetivamente ocorreu (e não se está aqui tratando de presunção). No caso, como os bens destinavam se a exportação, a saída se deu com suspensão do IPI, devendo as mercadorias serem transportadas pela empresa (Transnardo) contratada pela exportadora (Pirelli) até a fronteira, para exportação. Ocorre que a documentação carreada aos autos atesta que parte das mercadorias que consta nos documentos oficiais da RFB como exportada era vendida no mercado interno. Os elementos que a fiscalização apresenta no Relatório Fiscal dão conta de que parte das mercadorias não chegava sequer à fronteira (em que pese ter sido desembaraçada, seja com conivência de agentes aduaneiros, seja ludibriandose a Aduana), indicando inclusive para onde seguiam, por fatura e por cliente. Não há presunção de ocorrência do fato gerador. Há, sim, refutação dos documentos oficiais de exportação, que não atestam a realidade das operações. E tal refutação é amparada em interrogatórios (com reconhecimento do desvio pela própria partícipe do esquema), conversas Skype (nas quais são combinados os desvios e as remessas, vinculadas a faturas comerciais de exportação emitidas pela Pirelli), e documentos retidos na transportadora e no próprio estabelecimento da recorrente (cuja autenticidade e legal obtenção sequer são questionadas no Recurso Voluntário). Requer esforço incomum entender que tudo isso é fantasioso, e que as mercadorias efetivamente foram exportadas, e todas as vendas internas vinculadas a faturas de exportação da Pirelli, remessas, comunicações e confissões dos envolvidos são mera especulação. Mas requer um esforço ainda maior entender que esse desvio tenha sido feito após as exportações (tese alternativa da recorrente). Equivaleria a dizer que a Pirelli, em São Paulo, tenha enviado mercadorias à fronteira, para exportação, com uma transportadora que tinha forte contato com o importador paraguaio (o que está comprovado nos autos), e que trocava as mercadorias de carreta para levar à fronteira, tomando vários dias para o transporte (fatos também devidamente comprovados), e que tais mercadorias tenham sido efetivamente exportadas (como comprovam formalmente os documentos oficiais da RFB, posteriormente refutados pelo próprio fisco), Fl. 3138DF CARF MF 26 mas que tenham retornado clandestinamente ao Brasil, e que tenham sido remetidas pela mesma transportadora a clientes do Estado de São Paulo. Absolutamente desprovida de fundamento, assim, a afirmação da recorrente de que (fl. 2602), “enquanto a autoridade fiscal pretende valerse de elementos precários e frágeis para respaldar suas acusações, há documentos oficiais que apontam em sentido totalmente contrário, documentos estes cuja idoneidade jamais foi atacada pela autoridade fiscal”. É exatamente o oposto. A autoridade apresenta elementos que refutam o contido nos documentos oficiais. Não há que se falar, assim, que a exigência de tributos tem por base frágeis indícios. É ainda discutível que estejamos tratando de presunções simples (tese adotada pelo julgador a quo). A presunção (que admite prova em contrário) é a de validade material dos documentos oficiais da RFB, e que a nosso entender foi elidida a contento na autuação. Resta, contudo, um último tópico a analisar: a materialidade da autuação. Não basta que se esteja convicto de que houve desvio (convicção esta que formamos a partir do já exposto neste tópico). É preciso que se forme convicção de que cada uma das imputações da autuação se refere a uma mercadoria (fatura ou parte de fatura) que não foi exportada. Se a suspensão do IPI é vinculada à exportação, para que o tributo seja exigível é preciso concluir que não houve exportação em cada uma das operações lançadas. (...) A surrealidade da tese de que os produtos teriam sido desviados após a ida ao exterior já foi objeto de abordagem anterior neste voto, pelo que se segue tratando somente da questão referente ao detalhamento das operações que foram objeto de autuação (materialidade da autuação). No Relatório Fiscal, em tópico intitulado “da apuração das cargas desviadas” (itens 41 a 50 fls. 32 a 84), dedicamse os itens iniciais (41 a 49) à explicação sobre a coleta de documentos e a cotejamentos efetuados em sistemas informatizados brasileiros e paraguaios. O confronto das exportações brasileiras registradas no SISCOMEX com as importações paraguaias (viabilizado pela interface oficial MERCOSUL, o sistema INDIRA) demonstrou (tabela às fl. 33) que no período de 2006 a 2008, somente cerca de 25% em valor do que foi registrado como exportado no SISCOMEX pela Pirelli à Mater Pneus foi por esta importado no Paraguai. Apesar de assustadoramente romperse com o que chamamos de “terceira Lei de Newton aplicada ao comércio exterior”1, e de a Pirelli ter conhecimento da discrepância (no documento de fl. 34, 1 "A cada importação corresponde uma exportação de mesma intensidade, porém de sentido contrário" (TREVISAN, Rosaldo. Newton's third law and foreign trade: from computerization to development of service in Customs Law. XXVI World Congress of Phuilosophy of Law and Social Philosophy. Belo Horizonte: Forum, 2013, p. 390/391). Fl. 3139DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.127 27 apreendido na Pirelli, um funcionário escreve a outro informando que a “Mater pneus está internando muito pouco do faturado pela Pirelli e representa uma grande parcela do nosso faturamento”, e que a “Nacional Cubiertas, igualmente a Mater”), a autoridade fiscal opta por não utilizar como critério tais registros do INDIRA, assim justificando (fls. 34/35): (...) No entanto, não é necessária análise muito detida para perceber o conteúdo da frase. A fiscalização foi efetuada para todas as operações do período, mas só em algumas (exatamente as correspondentes às 191 faturas que foram lançadas na autuação) reuniuse elementos que indicariam os reais destinos das mercadorias pretensamente exportadas (e desviadas ao mercado interno). A leitura integral dos parágrafos seguintes de tal tópico impossibilita conclusão diversa. E, reiterese, nas operações referidas nas 191 faturas objeto de lançamento, a autoridade fiscal identifica individualizadamente a motivação (que, por óbvio, deve ser analisada à luz dos demais tópicos do Relatório Fiscal), no item 50 (fls. 35 a 84). No Recurso Voluntário, novamente não se refuta individualizadamente a argumentação do fisco. A recorrente defendese tomando somente 4 das 191 faturas, a título exemplificativo: a de no 116.695 (afirmando que em relação ao alegado pelo fisco em relação a tal caso “fica totalmente evidente a ausência de causalidade entre os indícios apresentados e o suposto desvio dos pneus antes que cruzassem as fronteiras do Brasil com o Paraguai” fl. 2603), a de no 112.553 (afirmando que “a partir de uma planilha apócrifa encontrada no computador de um terceiro, pretendese concluir que 494 pneus que a recorrente fabricou deixaram de ser exportados” fl. 2605), e as de no 116.569 (a recorrente digitou 116.669, fatura que sequer existe na autuação, pelo que estamos tomando como correto o número 116.569) e 116.583 (afirmando que “a partir de uma conversa no Skype em que se citam apenas números de faturas, sem fazer qualquer alusão ao suposto desvio de mercadorias para o mercado interno, a Fiscalização presume que as faturas 116.669 e 116.583 foram integralmente desviadas para o mercado interno” fl. 2605). A fatura de no 116.695 (cf. fls. 77/78) se refere à declaração de exportação (DDE) no 2080394812/3, que engloba as Notas Fiscais 569694 e 569695B, e deriva de vigilância efetuada pela Polícia Federal, na Transnardo, que constatou, em 25/03/2008, a entrada e a saída do cavalo mecânico de placas CPJ1753, com a carreta de placas BUS0833, de propriedade de PV. Os agentes seguiram o veículo até Pindamonhangaba/SP, sede das empresas PV. Cotejando com as três faturas emitidas pela Pirelli (e transportadas pela Transnardo) no período, e sabendose o destino das outras duas, chegouse à conclusão de que a carga se referia à fatura 116695. Fl. 3140DF CARF MF 28 Em relação a tal fatura, há duas inconsistências na autuação. A primeira é a de que mesmo lendo todo o relatório da vigilância (fls. 1622 a 1628), não se consegue alcançar as conclusões a que chegou o fisco: a polícia viu a carga saindo (estranhou que estava com escolta) e acompanhou até a PV, mas não detectou exatamente qual era a mercadoria. A segunda, que o fisco identifica a carga por exclusão (se a Pirelli emitiu 3 faturas no período, transportadas pela Transnardo, e, entre as outras duas, uma teria sido desviada e outra consta como importada na Aduana paraguaia, a carga que estava sendo transportada é a da fatura 116.695). Além de dar relevância ao registro da Aduana Paraguaia, em contradição com o que havia alegado no Relatório Fiscal, o fisco não apresenta nenhum elemento na autuação que leve a crer que a transportadora somente transportava cargas da Pirelli, ou somente cargas destinadas a exportação. Pode até ser que a carga que tenha saído para a PV seja irregular (e, por tudo o que foi exposto, há grande chance que o seja), mas daí a dizer que era exatamente a da fatura 116.695 há uma distância enorme. Improcedente, assim, a autuação no que se refere a tal fatura. A fatura de no 112.553 (cf. fl. 35) se refere à declaração de exportação (DDE) no 2050202505/0, que engloba as Notas Fiscais 164886, 164887B e 91412S, e deriva de planilha apreendida no computador de um dos grandes clientes de Adalberto, Paolo de Marília (PMA, da Charanga Pneus. Os pneus constantes da planilha coincidem com os da fatura de exportação da Pirelli (fls. ). A fiscalização indica que o desvio é parcial, de 494 pneus, pois a fatura totaliza 972 pneus e a planilha 494 pneus, e que os preços das planilhas indicam o acréscimos de cerca de 50% do valor que Adalberto pagava para a Pirelli. Neste caso, entendese que o documento regularmente apreendido, constante em computador de um dos principais clientes do representante do exportador paraguaio (reproduzido à fl. 1816), e que contém referência expressa a uma fatura comercial específica (de venda da Pirelli para a Mater, com transporte pela Transnardo), não pode ser descartado sob a rubrica de apócrifo. Deve, sim, ser lido à luz do contexto em que inserido. Por certo, é de se esperar que as transações de desvio de mercadorias não sejam registradas em documentos assinados, ou registrados em cartório. Procedente, assim, o lançamento efetuado com base em tal fatura. As faturas de no 116.569 e de no 116.583 (cf. fl. 75), referemse às declarações de exportação (DDE) no 2080162500/9 e no 2080162287/5, que englobam as Notas Fiscais 559935, 559936 B, 255101S, 560234B e 255325S, e derivam de conversa no Skype entre a funcionária Edna (da Transnardo, que explicou em interrogatório como funcionava o esquema de desvio) e o funcionário de Adalberto (Márcio). Edna pergunta a Adalberto, apontando 4 faturas da Pirelli para a Mater, quais seriam os “processos diretos”. O funcionário Márcio responde: 115683 Humberto GM; 116582Salto; 116584Salto. Edna pede então a confirmação se são duas HGM (575 e 583), obtendo um OK de Adalberto. Comunica então a Márcio o resultado: “nacional 115562; mater 116585, caronas 116569 e 116583”. Não é Fl. 3141DF CARF MF Processo nº 11444.001124/201090 Acórdão n.º 3401005.359 S3C4T1 Fl. 3.128 29 preciso muito esforço, no contexto, e sabendose como agia o grupo, para compreender o que significa “caronas”. Novamente registrese que seria utópico (ou ingênuo) imaginar que a comunicação entre os partícipes do desvio fosse do tipo “as cargas a serem desviadas para o mercado interno na segunda feira são as seguintes”. Também nesse tópico, procedente a autuação. Assim, a não ser na operação referente à fatura de no 116.695, na qual realmente não se identifica motivação para o lançamento, nos demais casos especificamente impugnados a autuação é procedente. Entretanto, a ausência de motivação em tal fatura nos leva a, em nome da verdade material, analisar as outras 187 (não especificamente questionadas), para verificar se a mesma mácula as afetaria. Empreendida a verificação, é de se destacar que também os lançamentos referentes às faturas de no 116.696, no 116.711, no 116.780, e no 116.781 (decorrentes de vigilância inconclusiva, e que resultaram em processo dedutivo por exclusão para identificação da carga alegadamente desviada) apresentam motivação insuficiente. E, diante da existência de documentos que formalmente atestam as exportações, é dever do fisco, para exigir tributos em função da não exportação, comprovar materialmente e detalhar quais as operações de exportação que na realidade não chegaram a se concretizar. E em relação às 5 faturas citadas (no 116.695, no 116.696, no 116.711, no 116.780, e no 116.781), tal tarefa não foi exitosamente cumprida. Pelo exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, cancelando o lançamento efetuado em relação às faturas de no 116.695, no 116.696, no 116.711, no 116.780, e no 116.781. Por um lado, endosso a integralidade das conclusões ali externadas, mas, por outro, reconheço que no presente processo não se está a tratar de responsabilidade tributária, ou por falta de recolhimento de IPI, mas de penalidade aduaneira (multa substitutiva da pena de perdimento), o que me faz retornar à imputação efetuada na autuação (fls. 9 e 10): Fl. 3142DF CARF MF 30 Entendeu a fiscalização, assim, que algum documento necessário ao embarque ou desembaraço, na exportação, foi falsificado ou adulterado. A fiscalização, a nosso ver, é bastante convincente na comprovação da ocorrência de uma fraude na exportação (desvio de mercadoria, que não chegava ao destino, no estrangeiro), mas o enquadramento utilizado na imputação fiscal demandaria, adicionalmente, a prova de que ao menos um documento necessário ao embarque ou desembaraço, na exportação, tenha sido falsificado ou adulterado. Ou ao menos a indicação expressa e enfática, justificada, de qual foi o documento adulterado ou falsificado e por quê/como. As normas infralegais que regem a documentação a apresentar em uma exportação (Regulamento Aduaneiro – no caso, o de 2002, veiculado pelo Decreto no 4.543/2002, art. 527, e a Instrução Normativa SRF no 28/1994, art. 16), fazem referência, basicamente, à nota fiscal (fatura) e aos documentos de transporte internacional (conhecimento e manifesto de carga). Os documentos de transporte sequer são emitidos pela autuada, pelo que se entende que deve ter a fiscalização (que autuou apenas a empresa emitente da fatura, e não a transportadora ao menos neste processo) se referido às faturas comerciais. Contudo, pelo modus operandi descrito no relatório fiscal, as faturas comerciais refletem, efetivamente, as saídas de mercadorias do estabelecimento da recorrente, e que teriam, posteriormente, sido desviadas na transportadora. Pelo visto, não foi o documento falsificado ou adulterado. A mercadoria descrita no documento é que foi deliberada e posteriormente desviada, tornando o enquadramento utilizado pela fiscalização, no caso, precário. Parece buscar a fiscalização punir o emitente da fatura, considerandoa falsa ou adulterada, pelo fato de a mercadoria ter sido desviada posteriormente à emissão da fatura, na transportadora, conforme descrito no relatório fiscal. O enquadramento seria tão equivocado quanto punir, na importação, por uso de documento falso, uma operação em que o contêiner chegue ao país com mercadoria a menos, que se verificou ter sido desviada no processo de importação. Isso não destoa, ao fim e ao cabo, da conclusão externada pelo relator, por culminar, igualmente, na improcedência do lançamento, e até endossa algumas de suas considerações, ainda que sem adentrar na análise individualizada da responsabilidade da empresa. Entendo, então, que a autuação é improcedente antes mesmo da análise da responsabilização da empresa, porque, diversamente da autuação tributária, não fundamenta a fiscalização, devidamente, em dispositivo normativo sancionatório pertinente ao caso, na legislação aduaneira, a conduta identificada. Essas as razões pelas quais acompanhei o relator apenas pelas conclusões, tendo recebido adesão do restante do colegiado, no sentido da improcedência do lançamento por carência de fundamentação em dispositivo normativo sancionatório pertinente ao caso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 3143DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.001312/2009-34
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 30/12/2008
MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PERÍODO DE APURAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
1. A PLR exercício 2005 estava calcada numa Convenção Coletiva de 2004 e a fiscalização poderia examiná-la, o que poderia fazer prova a favor do sujeito passivo.
2. O § 3º do art. 7º da Portaria vigente à época, a Portaria RFB 11.371/2007, esclarecia a possibilidade de verificação de documentos de outros períodos, com vista a verificar os fatos relacionados ao período de apuração correspondente.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA.
O lançamento foi realizado em 14/12/2009, quando ainda não havia transcorrido prazo superior a cinco anos nem do fato gerador da competência mais pretérita (01/2005), tampouco do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nem mesmo havendo necessidade de cogitar-se de qual seria o prazo decadencial aplicável (art. 150, § 4º, ou o art. 173, I, do CTN).
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. ABUSO DE FORMA OU SIMULAÇÃO. DESNECESSIDADE DE VERIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DA LEI 10101/2000.
1. Verificado, no mundo fenomênico, o fato gerador das contribuições, tendo em vista o pagamento de remuneração, e não de PLR, pode sim o agente autuante fazer o lançamento, o que prescinde de demonstração de abuso de forma, de simulação, etc.
2. A desvinculação da PLR da remuneração dos trabalhadores está incondicionalmente atrelada ao cumprimento dos requisitos legais, conforme determina o inc. XI do art. 7º da CF e a Lei 10101/00.
PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS SUPERIOR À PREVISÃO LEGAL.INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS.
Constatado ter sido pago PLR aos empregados em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil, em violação ao disposto no § 2º do artigo 3º da Lei 10.101/2000, incide a contribuição previdenciária sobre a totalidade da verba paga a esse título.
PLR. AUSÊNCIA DE PREVISÃO DE CONDUTAS INDIVIDUALIZADAS.
Os programas de participação nos lucros ou resultados não se sujeitam necessariamente à condição de ajuste prévio ao período de aferição, nos casos em que não estão, minimamente, vinculados à condutas individualizadas previstas e pré estabelecidas, a serem realizadas por parte dos beneficiários.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. REGRAS CLARAS E OBJETIVAS. CCT. OBSERVÂNCIA. ACORDO PRÓPRIO 2004. INOBSERVÂNCIA.
1. Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas.
2. As cláusulas das CCTs, as quais se repetiram no transcorrer dos anos, eram claras o suficiente para serem interpretadas e aplicadas pela empresa, sendo igualmente claras para serem interpretadas pela administração fiscal.
3. O plano próprio 2004 não contém regras claras e objetivas, o que infringe o disposto no § 1º do art. 2º da Lei, de forma a viabilizar a incidência das contribuições lançadas a seu respeito, negando-se provimento ao recurso neste particular.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO DE PARCELA FIXA MÍNIMA. POSSIBILIDADE.
O pagamento da participação estava atrelado ao auferimento de lucros pela empresa, sendo que a pré-determinação de um valor, sobretudo em valor irrisório (como o foi), não invalida o efetivo pagamento da participação.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. MONTANTE DOS VALORES PAGOS E FORMA DE PAGAMENTO. POSSIBILIDADE.
1. A grande lucratividade das instituições financeiras faz com que o montante dos lucros ou resultados a serem distribuídos seja igualmente grande, de forma a representar uma quantia considerável quando comparada com a remuneração normal do trabalhador. Sendo estabelecida em percentual, quanto maior a lucratividade da empresa, maior a participação a ser paga ao empregado, o que de forma alguma descaracteriza o benefício. Nessa hipótese, maior é a concretização do direito social e maior é a realização do princípio da isonomia, pois o empregado participa em maior medida da rubrica a que ele não teria direito por não ser o dono do capital.
2. Quanto maior o impacto de uma categoria na formação do lucro, maior pode ser a sua participação. A desproporção, por si só, não milita em desfavor da contribuinte, mas está de acordo com a sua finalidade primordial: a geração de lucros.
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO INTEGRAL ANTES NO PRÓPRIO PERÍODO AQUISITIVO. IMPOSSIBILIDADE.
O § 2º do art. 3º da Lei 10101/2000 permite, por via transversa, o pagamento de antecipação ou distribuição de valores, mas não a antecipação ou distribuição de todo o valor, mormente porque o lucro ou o resultado somente é calculado e apurado ao final do ano-base.
DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. PORTARIA CONJUNTA PGFN/RFB Nº 14/09. APLICAÇÃO.
1. Por unanimidade, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) vem aplicando, à presente discussão, as conclusões contidas na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/09.
2. Isto é, deverá haver comparação entre a soma das multas por descumprimento das obrigações principal e acessórias, de acordo com a redação anterior à Lei 11941/09, com a multa de ofício calculada na forma da atual redação do art. 35-A da Lei 8212/91.
JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. CABIMENTO.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal, entre os quais se incluem as contribuições devidas à seguridade social e as contribuições devidas a terceiros (Lei 11457/07, arts. 2º e 3º), são calculáveis, no período de inadimplência, de acordo com a SELIC. Súmula CARF nº 4.
Numero da decisão: 2402-006.431
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, no mérito, pelo voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores pagos a título de participação nos lucros ou resultados em relação às convenções coletivas de trabalho dos anos 2004 a 2008. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (relator), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior que deram provimentos parcial em maior extensão, e os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira e Luis Henrique Dias Lima que negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Denny Medeiros da Silveira.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 30/12/2008 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PERÍODO DE APURAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. 1. A PLR exercício 2005 estava calcada numa Convenção Coletiva de 2004 e a fiscalização poderia examiná-la, o que poderia fazer prova a favor do sujeito passivo. 2. O § 3º do art. 7º da Portaria vigente à época, a Portaria RFB 11.371/2007, esclarecia a possibilidade de verificação de documentos de outros períodos, com vista a verificar os fatos relacionados ao período de apuração correspondente. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA. O lançamento foi realizado em 14/12/2009, quando ainda não havia transcorrido prazo superior a cinco anos nem do fato gerador da competência mais pretérita (01/2005), tampouco do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nem mesmo havendo necessidade de cogitar-se de qual seria o prazo decadencial aplicável (art. 150, § 4º, ou o art. 173, I, do CTN). CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. ABUSO DE FORMA OU SIMULAÇÃO. DESNECESSIDADE DE VERIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DA LEI 10101/2000. 1. Verificado, no mundo fenomênico, o fato gerador das contribuições, tendo em vista o pagamento de remuneração, e não de PLR, pode sim o agente autuante fazer o lançamento, o que prescinde de demonstração de abuso de forma, de simulação, etc. 2. A desvinculação da PLR da remuneração dos trabalhadores está incondicionalmente atrelada ao cumprimento dos requisitos legais, conforme determina o inc. XI do art. 7º da CF e a Lei 10101/00. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS SUPERIOR À PREVISÃO LEGAL.INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. Constatado ter sido pago PLR aos empregados em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil, em violação ao disposto no § 2º do artigo 3º da Lei 10.101/2000, incide a contribuição previdenciária sobre a totalidade da verba paga a esse título. PLR. AUSÊNCIA DE PREVISÃO DE CONDUTAS INDIVIDUALIZADAS. Os programas de participação nos lucros ou resultados não se sujeitam necessariamente à condição de ajuste prévio ao período de aferição, nos casos em que não estão, minimamente, vinculados à condutas individualizadas previstas e pré estabelecidas, a serem realizadas por parte dos beneficiários. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. REGRAS CLARAS E OBJETIVAS. CCT. OBSERVÂNCIA. ACORDO PRÓPRIO 2004. INOBSERVÂNCIA. 1. Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas. 2. As cláusulas das CCTs, as quais se repetiram no transcorrer dos anos, eram claras o suficiente para serem interpretadas e aplicadas pela empresa, sendo igualmente claras para serem interpretadas pela administração fiscal. 3. O plano próprio 2004 não contém regras claras e objetivas, o que infringe o disposto no § 1º do art. 2º da Lei, de forma a viabilizar a incidência das contribuições lançadas a seu respeito, negando-se provimento ao recurso neste particular. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO DE PARCELA FIXA MÍNIMA. POSSIBILIDADE. O pagamento da participação estava atrelado ao auferimento de lucros pela empresa, sendo que a pré-determinação de um valor, sobretudo em valor irrisório (como o foi), não invalida o efetivo pagamento da participação. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. MONTANTE DOS VALORES PAGOS E FORMA DE PAGAMENTO. POSSIBILIDADE. 1. A grande lucratividade das instituições financeiras faz com que o montante dos lucros ou resultados a serem distribuídos seja igualmente grande, de forma a representar uma quantia considerável quando comparada com a remuneração normal do trabalhador. Sendo estabelecida em percentual, quanto maior a lucratividade da empresa, maior a participação a ser paga ao empregado, o que de forma alguma descaracteriza o benefício. Nessa hipótese, maior é a concretização do direito social e maior é a realização do princípio da isonomia, pois o empregado participa em maior medida da rubrica a que ele não teria direito por não ser o dono do capital. 2. Quanto maior o impacto de uma categoria na formação do lucro, maior pode ser a sua participação. A desproporção, por si só, não milita em desfavor da contribuinte, mas está de acordo com a sua finalidade primordial: a geração de lucros. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO INTEGRAL ANTES NO PRÓPRIO PERÍODO AQUISITIVO. IMPOSSIBILIDADE. O § 2º do art. 3º da Lei 10101/2000 permite, por via transversa, o pagamento de antecipação ou distribuição de valores, mas não a antecipação ou distribuição de todo o valor, mormente porque o lucro ou o resultado somente é calculado e apurado ao final do ano-base. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. PORTARIA CONJUNTA PGFN/RFB Nº 14/09. APLICAÇÃO. 1. Por unanimidade, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) vem aplicando, à presente discussão, as conclusões contidas na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/09. 2. Isto é, deverá haver comparação entre a soma das multas por descumprimento das obrigações principal e acessórias, de acordo com a redação anterior à Lei 11941/09, com a multa de ofício calculada na forma da atual redação do art. 35-A da Lei 8212/91. JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. CABIMENTO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal, entre os quais se incluem as contribuições devidas à seguridade social e as contribuições devidas a terceiros (Lei 11457/07, arts. 2º e 3º), são calculáveis, no período de inadimplência, de acordo com a SELIC. Súmula CARF nº 4.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 30/12/2008 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PERÍODO DE APURAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. 1. A PLR exercício 2005 estava calcada numa Convenção Coletiva de 2004 e a fiscalização poderia examinála, o que poderia fazer prova a favor do sujeito passivo. 2. O § 3º do art. 7º da Portaria vigente à época, a Portaria RFB 11.371/2007, esclarecia a possibilidade de verificação de documentos de outros períodos, com vista a verificar os fatos relacionados ao período de apuração correspondente. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. DECADÊNCIA. INEXISTÊNCIA. O lançamento foi realizado em 14/12/2009, quando ainda não havia transcorrido prazo superior a cinco anos nem do fato gerador da competência mais pretérita (01/2005), tampouco do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nem mesmo havendo necessidade de cogitarse de qual seria o prazo decadencial aplicável (art. 150, § 4º, ou o art. 173, I, do CTN). CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. ABUSO DE FORMA OU SIMULAÇÃO. DESNECESSIDADE DE VERIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DA LEI 10101/2000. 1. Verificado, no mundo fenomênico, o fato gerador das contribuições, tendo em vista o pagamento de remuneração, e não de PLR, pode sim o agente autuante fazer o lançamento, o que prescinde de demonstração de abuso de forma, de simulação, etc. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 13 12 /2 00 9- 34 Fl. 512DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 513 2 2. A desvinculação da PLR da remuneração dos trabalhadores está incondicionalmente atrelada ao cumprimento dos requisitos legais, conforme determina o inc. XI do art. 7º da CF e a Lei 10101/00. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS SUPERIOR À PREVISÃO LEGAL.INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. Constatado ter sido pago PLR aos empregados em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil, em violação ao disposto no § 2º do artigo 3º da Lei 10.101/2000, incide a contribuição previdenciária sobre a totalidade da verba paga a esse título. PLR. AUSÊNCIA DE PREVISÃO DE CONDUTAS INDIVIDUALIZADAS. Os programas de participação nos lucros ou resultados não se sujeitam necessariamente à condição de ajuste prévio ao período de aferição, nos casos em que não estão, minimamente, vinculados à condutas individualizadas previstas e pré estabelecidas, a serem realizadas por parte dos beneficiários. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. REGRAS CLARAS E OBJETIVAS. CCT. OBSERVÂNCIA. ACORDO PRÓPRIO 2004. INOBSERVÂNCIA. 1. Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas. 2. As cláusulas das CCTs, as quais se repetiram no transcorrer dos anos, eram claras o suficiente para serem interpretadas e aplicadas pela empresa, sendo igualmente claras para serem interpretadas pela administração fiscal. 3. O plano próprio 2004 não contém regras claras e objetivas, o que infringe o disposto no § 1º do art. 2º da Lei, de forma a viabilizar a incidência das contribuições lançadas a seu respeito, negandose provimento ao recurso neste particular. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO DE PARCELA FIXA MÍNIMA. POSSIBILIDADE. O pagamento da participação estava atrelado ao auferimento de lucros pela empresa, sendo que a prédeterminação de um valor, sobretudo em valor irrisório (como o foi), não invalida o efetivo pagamento da participação. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. MONTANTE DOS VALORES PAGOS E FORMA DE PAGAMENTO. POSSIBILIDADE. 1. A grande lucratividade das instituições financeiras faz com que o montante dos lucros ou resultados a serem distribuídos seja igualmente grande, de forma a representar uma quantia considerável quando comparada com a remuneração normal do trabalhador. Sendo estabelecida em percentual, quanto maior a lucratividade da empresa, maior a participação a ser paga ao empregado, o que de forma alguma descaracteriza o benefício. Nessa hipótese, maior é a concretização do direito social e maior é a realização do princípio da isonomia, pois o empregado participa em maior medida da rubrica a que ele não teria direito por não ser o dono do capital. Fl. 513DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 514 3 2. Quanto maior o impacto de uma categoria na formação do lucro, maior pode ser a sua participação. A desproporção, por si só, não milita em desfavor da contribuinte, mas está de acordo com a sua finalidade primordial: a geração de lucros. CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. PLR. PAGAMENTO INTEGRAL ANTES NO PRÓPRIO PERÍODO AQUISITIVO. IMPOSSIBILIDADE. O § 2º do art. 3º da Lei 10101/2000 permite, por via transversa, o pagamento de antecipação ou distribuição de valores, mas não a antecipação ou distribuição de todo o valor, mormente porque o lucro ou o resultado somente é calculado e apurado ao final do anobase. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. PORTARIA CONJUNTA PGFN/RFB Nº 14/09. APLICAÇÃO. 1. Por unanimidade, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) vem aplicando, à presente discussão, as conclusões contidas na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/09. 2. Isto é, deverá haver comparação entre a soma das multas por descumprimento das obrigações principal e acessórias, de acordo com a redação anterior à Lei 11941/09, com a multa de ofício calculada na forma da atual redação do art. 35A da Lei 8212/91. JUROS MORATÓRIOS. SELIC. SÚMULA CARF Nº 4. CABIMENTO. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal, entre os quais se incluem as contribuições devidas à seguridade social e as contribuições devidas a terceiros (Lei 11457/07, arts. 2º e 3º), são calculáveis, no período de inadimplência, de acordo com a SELIC. Súmula CARF nº 4. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares e, no mérito, pelo voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores pagos a título de participação nos lucros ou resultados em relação às convenções coletivas de trabalho dos anos 2004 a 2008. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (relator), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior que deram provimentos parcial em maior extensão, e os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira e Luis Henrique Dias Lima que negaram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto o conselheiro Denny Medeiros da Silveira. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente Fl. 514DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 515 4 (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Redator Designado Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório A DRJ/SP1 fez um relato preciso do lançamento e da impugnação, que passa a integrar, em parte, o presente relatório: DA AUTUAÇÃO Tratase de crédito debcad n° 37.235.8098, lançado pela fiscalização em 06.12.2009, contra o contribuinte acima identificado, que de acordo com o Relatório Fiscal de fls. 39/78, referese a contribuições destinadas a outras entidades e fundos (TERCEIROS), decorrentes de pagamentos efetuados pela empresa a seus segurados a título de Participação nos Lucros ou Resultados. O crédito lançado corresponde a R$ 8.470.622,11 (oito milhões, quatrocentos e setenta mil, seiscentos e vinte e dois reais e onze centavos), consolidado em 06.12.2009, abrangendo o periodo de janeiro, julho a novembro de 2005; janeiro a agosto e outubro de 2006; janeiro a fevereiro, maio a julho e outubro de 2007, janeiro a maio, julho, setembro a outubro e dezembro de 2008. O Relatório Fiscal informa ainda que: A empresa ajuizou em 21.12.2001, mandado de segurança (MS n° 2001.61.00.0292958) junto à 3”. Vara da Justiça Federal em São Paulo buscando afastar a cobrança do adicional de 2,5 (dois e meio por cento), instituído pelo disposto no parágrafo 1° art. 22, da Lei 8.212, de 24.07.1991 e, também a compensação dos valores indevidamente recolhidos. O pedido de liminar foi indeferido e em 24.05.2006 expedida sentença julgando improcedente o pedido e extinguindo o processo com julgamento do mérito. A impugnante interpôs recurso de apelação que também foi negado pelo Tribunal Regional Federal da 3” Região. Em 20.06.2008 foi interposto pela empresa recurso extraordinário, encontrandose este pendente de julgamento em 27 de outubro de 2009. Fl. 515DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 516 5 Foram examinados durante a ação fiscal os seguintes documentos: Livros Diário e Razão, Folhas de Pagamento, Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP, Guias da Previdência Social GPS, Convenções Coletivas, Regulamentos de Distribuição da Participação nos Lucros ou Resultados, Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica DIPJ e Declarações do Imposto de Renda Retido na Fonte DIRF, ocasião em que se constatou o não recolhimento das contribuições sociais sobre as rubricas relacionadas à “Participação nos Lucros ou Resultados” pagas aos empregados em desacordo com a legislação vigente. Constituem fatos geradores das contribuições lançadas as remunerações pagas aos segurados empregados a título de “Participação nos Lucros ou Resultados”, nos períodos acima discriminados, sobre as quais não foram recolhidas as devidas contribuições sociais, sendo que os valores apurados foram obtidos de dados constantes em planilha formato “excel” fornecida pela empresa notificada por meio de arquivo em meio magnético (CD), entregue em 13 de novembro de 2009 e que foram extraídos e confirmados a partir da contabilidade e das folhas de pagamento do sujeito passivo, entregues, na mesma data, no formato de arquivos magnéticos com leiaute previsto no Manual Normativo de Arquivos Digitais MANAD. Conforme se depreende da legislação de regência: art. 7°, XI da Constituição Federal, art. 28 e parágrafo 9° da Lei 8.212/91, art. 214 do Decreto 3.048/99 e também do contido no art. 150, parágrafo 6° da Constituição Federal, verificase que a participação nos lucros, como prevista constitucionalmente, é desvinculada da remuneração, não possuindo natureza jurídica salarial e não integrando o salário de contribuição, desde que paga em conformidade com lei específica. A regulamentação da matéria deuse com a edição da Medida Provisória n° 794, de 29.12.1994, e as que se lhe seguiram reeditando a matéria, as quais foram finalmente convertidas na Lei n° 10.101 de 19.12.2000, que disciplina a participação dos trabalhadores nos lucros e resultados da empresa, estabelecendo os requisitos necessários para que a desvinculação da participação da remuneração ocorra. Assim, há necessidade de serem analisadas as condições em que esta verba é ajustada e paga, a fim de que se possa concluir se a mesma corresponde ou não à citada norma de regência. No presente caso, a Participação nos Lucros ou Resultados aos segurados da impugnante foi paga durante os exercícios de 2005 a 2008 e regida por diferentes instrumentos a saber: (i) Convenções Coletivas de Trabalho (CCT) de 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008; (ii) Acordo decorrente de negociação entre a impugnante e seus empregados, com vigência por prazo indeterminado a partir de 1° de janeiro de 2001; Fl. 516DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 517 6 (iii) Plano de Participação nos Lucros ou Resultados, celebrado entre a impugnante e o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, com vigência entre 01.01.2005 e 31.12.2006; (iv) Plano de Participação nos Resultados, celebrado entre a impugnante e o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, com vigência entre 01.01.2007 e 31.12.2007; (v) Plano de Participação nos Resultados, celebrado entre o Banco Merrill Lynch e o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, com vigência entre 01.01.2008 e 31.12.2008. Foram encontrados na contabilidade da empresa nas contas patrimoniais 4.4.3.15.00.0023, 4.9.3.l5.00.0042, 4.9.3.l5.00.0043, 4.9.3.l5.00.0044 e nas contas de resultado 8.l.7.33.00.0028, 0052, 0060, 0080, 0081 e 0083, bem como em suas folhas de pagamento (rubricas 0007, 0030 e 0018), remunerações a título de PLR nas competências de janeiro, julho, agosto, setembro, outubro e novembro de 2005; janeiro a agosto e outubro de 2006; janeiro, fevereiro, maio a julho e outubro de 2007; janeiro a maio, julho, setembro, outubro e dezembro de 2008. Das Convenções Coletivas de Trabalho Pactuação prévia Foram celebradas Convenções Coletivas de Trabalho sobre Participação dos Empregados nos Lucros ou Resultados dos bancos para os exercícios de 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008, das quais participaram a Federação Nacional dos Bancos e os diversos Sindicatos dos Empregados em estabelecimentos bancários. Tais convenções foram assinadas nas seguintes datas: Ano base 2004 (pagamento em 2005): 11 de novembro de 2004; Ano base 2005 (pagamento em 2006): 17 de outubro de 2005 Ano base 2006 (pagamento em 2007): 18 de outubro de 2006 Ano base 2007 (pagamento em 2008); 18 de outubro de 2007; e Ano base 2008 (pagamento em 2008): 03 de novembro de 2008 Observa o auditor fiscal notificante que os instrumentos utilizados para o adimplemento do beneficio em questão foram todos assinados retroativamente ao inicio de seus anos base. O dispositivo legal de regência determina que a participação será objeto de negociação prévia e que suas regras serão previstas no instrumento decorrente dessa negociação. O pagamento de PLR tem como essência uma retribuição pela colaboração do empregado na obtenção de um lucro ou realização de um resultado previamente pactuado. Assim, deve Fl. 517DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 518 7 haver negociação entre as partes, concedendo a empresa o pagamento àqueles segurados que atingirem a meta pré' estabelecida. Obviamente, esses objetivos ou metas devem ser pactuados previamente, com um tempo razoável entre o acordo, o conhecimento das regras e o pagamento. Assim, cada um dos instrumentos de negociação deve ser prévio, ou seja, deve ser elaborado antes do início do período a que se referem os lucros ou resultados, pois é relativo exatamente a esse período pactuado. No caso presente, todas as convenções coletivas apresentadas foram celebradas no último trimestre de seus anos calendário. Devem constar também dos instrumentos decorrentes das negociações, de forma clara e objetiva, as metas, os resultados, prazos, critérios e condições que, se implementados, darão aos empregados o direito de receber a verba desvinculada da remuneração. A assinatura do acordo e o consequente conhecimento das regras por parte dos empregados ocorreram muito após o inicio de vigência dos mesmos e, desta forma, já haviam ocorrido diversos fatores que poderiam ou não contribuir para o atingimento das metas, sem que ficasse constatada, expressamente, a participação dos empregados na obtenção do resultado positivo alcançado pela empresa. Conclui que os instrumentos de acordo em tela não objetivaram incentivar a produtividade, uma vez que o citado resultado já havia sido definido. Das regras claras e objetivas Da análise das convenções coletivas apresentadas, constatase que nenhuma se coaduna com as exigências legais, uma vez que não restaram identificadas as regras objetivas, os mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado ou qualquer tipo de programa de metas, resultados e prazos pactuados previamente, ou seja, não se aponta a forma como será alcançado o objetivo para que os empregados façam jus a tal beneficio, contrariando o real propósito do instituto e em total afronta à legislação. Somente foram estipulados o montante e o prazo de pagamento da PLR, não existindo nexo entre os valores ganhos pelo empregado e os resultados da empresa. O único critério existente é a admissão do empregado antes do inicio do ano base. Da parcela fixa Também não cumpre a finalidade da lei a previsão de pagamento em parcela fixa. Lucro ou resultado é um superávit verificado no final do exercício financeiro, em face do movimento empresarial do ano findo. É a partir deste que se apura aquele, que não se pode prever antes do fechamento contábil e, seguindose as regras do PLR, distribuise então uma Fl. 518DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 519 8 parcela sua para os empregados, sendo esta não tributável. No entanto, prever, já antes da apuração do lucro ou resultado, quanto será devido a título de participação neste lucro ou resultado é subverter a norma de benefício ao trabalhador. Os instrumentos de acordo apresentados não possuem qualquer objetivo a ser cumprido, nem critério de aferição. A participação nos lucros já aparece como um fato consumado, inclusive em termos de valores, o que afasta qualquer possibilidade de cumprimento e aferição de objetivos. Independentemente de qualquer atitude tomada pelo empregado após a assinatura do acordo, ele receberia a participação nos lucros. Os valores recebidos não dependiam da obtenção de quaisquer resultados, haja vista que as determinações citadas nas convenções determinam um valor fixo independentemente do alcance de índices de produtividade, qualidade ou lucratividade, sendo regras que afastam o objeto da Lei. O pagamento de um valor previamente fixado, sem qualquer condição, ainda que a título de participação nos lucros ou resultados, consiste, na verdade, no pagamento de uma espécie de prêmio ou gratificação, uma mera liberalidade da empresa. O pagamento em questão afastouse do objetivo da lei, de integrar capital e trabalho e incentivar a produtividade, mediante um ajuste prévio entre empresa e empregados, para definir os resultados a serem alcançados, a forma de participação, os direitos substantivos e demais regras adjetivas. Afastouse, portanto, o contribuinte dos requisitos legais que fazem com que a participação nos lucros não integre o salário de contribuição. Conclui que as convenções coletivas de trabalho sobre participação nos lucros ou resultados dos bancos não cumprem as disposições legais para afastarem a natureza salarial dessa parcela, tendo em vista que: (i) foram negociadas e assinadas somente ao final dos anos base, sendo retroativas aos períodos de participação; e (ii) não contam com regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação. Do Acordo Próprio de Participação nos Lucros e Resultados em 2004 Da comissão escolhida entre as partes e do representante sindical Em 07 de março de 2001 foi celebrado um “Acordo Decorrente da Negociação entre Banco e Empregados para a Participação nos Lucros e Resultados”, tendo como partes, de um lado o Banco Merrill Lynch e de outro seus empregados, com vigência retroativa a 1° de janeiro de 2001 por prazo indeterminado. Fl. 519DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 520 9 Da análise da cláusula 2 do acordo acima citado, verificase que o Banco Merril Lynch deveria ser representado por uma comissão quando, no entanto, em nome deste temse a presença somente do Sr. Paulo César Pimental Raffaelli, que além disso na função de procurador, não possuía poderes para individualmente representar a empresa em atos que importassem em responsabilidade ou obrigações à impugnante. De outro modo, a mesma cláusula 2 determina que os empregados serão representados por uma comissão escolhida por eles e integrada por um representante indicado pelo Sindicato dos Bancários em São Paulo. Ocorre que não houve participação de um representante sindical nessas negociações, o que se constata da própria “Ata da Reunião para Exame e Aprovação do Instrumento (Acordo) para Participação dos Trabalhadores nos Lucros e/ou Resultados”, assinada em 07.03.2001. Foi apresentada, durante a ação fiscal, carta datada de 01 de março de 2001, dirigida ao Sindicato dos Bancários e Funcionários de São Paulo, Osasco e Região, na qual a empresa solicita a indicação de um representante do sindicato para integrar a comissão de empregados a fim de alterar o acordo de PLR de 26 de novembro de 1998, avisando a data, horário e local da futura reunião. O contribuinte apresentou também cópia do jornal Gazeta Mercantil, de 2, 3 e 4 de março de 2001, onde fez publicar uma convocação ao sindicato visando a indicação de um representante para integrar a comissão de empregados em reunião, que seria realizada em 07 de março de 2001, para acordo de PLR. Ressaltou que tal convocação estava sendo feita pela imprensa, tendo em vista a recusa do Sindicato em receber carta do mesmo teor. Em expediente de 31 de agosto de 2009 a empresa informa que o sindicato se recusou a receber tal correspondência. No entanto, ao ser solicitada uma prova de tal recusa, a empresa disse não possuir. Em outra carta de 16 de junho de 2009, o contribuinte admite que o plano em tela não teve a participação de um representante sindical e alega que o sindicato se recusou a participar. Nessa mesma ocasião assevera não possuir o registro e arquivamento do plano de PLR na entidade sindical por idêntico motivo. Ainda, numa terceira carta de esclarecimentos, de 07.08.2009, a empresa informa que quando tentou protocolar o plano no sindicato, este teria se recusado a aceitar o protocolo, não tendo fornecido um documento dessa recusa. Assim, temse que o Acordo de PLR para o período de 2004 foi negociado entre o Banco (por um procurador que não tinha plenos poderes para o fazer individualmente) e os empregados, sem a devida participação do sindicato e, ainda, esse acordo não se encontra registrado e arquivado na competente entidade sindical. Desta forma, verif1case que não foram cumpridos os requisitos da Lei l0.l0l/00. Fl. 520DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 521 10 No presente caso a negociação foi realizada sem a participação de um representante sindical e o acordo não está devidamente registrado e arquivado no sindicato, o que retira a possibilidade de adequação à legislação específica. Lembra ainda, o Auditor autuante, que a empresa já havia sido autuada anteriormente pelo mesmo acordo próprio de PLR em diversos exercícios. Reproduz trecho do voto vencedor (Acórdão 206.00.853 da Sexta Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, de 09 de maio de 2008). Destaca ainda o contido no Acórdão 1616.249 da 12a Turma da DR]/SPOl, de 30.01.2008. Das regras claras e objetivas No acordo de PLR em vigência em 2004 não foram estipuladas regras claras e objetivas para avaliação do desempenho individual dos trabalhadores, assim como não é nem descrito o processo de avaliação. É apenas citado um Processo de Avaliação que não integra o acordo firmado. Ademais, não pode fazer parte do Acordo de PLR, o Sistema de Avaliação de Desempenho Profissional e Programa de Metas utilizado pela empresa, por este se caracteriza pela imposição e não pela negociação, como determinado no parágrafo 2° da Lei n° 10.101/00. Não foi possível identificar nos instrumentos decorrentes da negociação as regras claras e objetivas pertinentes à fixação e cumprimento do acordado. Não foi possível identificar, inclusive, qual o valor deveria ser pago aos empregados a título do PLR, caso as metas e objetivos fossem atingidos, desobedecendo, por consequência, o estabelecido na Lei 10.101/00. A escolha de critérios subjetivos aplicados na determinação do cumprimento das metas, impossíveis de aferição a posteriori por critérios objetivos, conforme preconiza o parágrafo 1°, do art. 2° da Lei n° 10.l0l/00, também descaracteriza a natureza não remuneratória das verbas pagas a título de participação nos lucros ou resultados. O quantum a ser distribuído a cada empregado deve comportar a possibilidade de aferição objetiva, sem depender de critérios subjetivos de avaliação. Como pode haver clareza e objetividade no que se refere aos direitos substantivos estabelecidos num acordo que diz que os valores estabelecidos no anexo representam um mínimo, sendo facultado, possível e legal o pagamento superior, a título de P. L. R., nos casos em que o desempenho individual ultrapasse o esperado ou negociado? No que tange às avaliações de desempenho apresentadas pela empresa, temse que elas não demonstram como cada resultado obtido se converte em valor, cabendo observar, ainda, que não foi verificado qualquer documento que componha e explique os valores pagos a título de PLR com relação à fixação de direitos previstos nos instrumentos de negociação. Fl. 521DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 522 11 Mais um fato a ressaltar é o mecanismo de compensações e substituições, constantes da cláusula 6 do instrumento, que traz a afirmação de tal acordo compensa e substitui eventuais programas existentes anteriormente, que tenham a mesma causa de concessão, inclusive bônus, e/ou produtividade. Uma estipulação nesse sentido demonstra que a empresa entende que os valores aqui analisados como tendo a mesma causa de concessão de bônus, ou seja, como uma substituição desses. Sabese, contudo, que os bônus possuem natureza salarial e devem integrar o salário de contribuição dos segurados. Ora, se a chamada “participação nos lucros” substitui e tem a mesma causa de concessão dos bônus, independentemente a que título seja paga, deve igualmente fazer parte do salário de contribuição de quem a recebe. Eventuais programas de bônus de incentivo vinculados a metas de desempenho individual não podem ser confundidos com a Participação nos Lucros ou Resultados paga de acordo com a lei. Observase ainda que quanto ao conhecimento das regras, estas não foram previamente informadas aos empregados, embora tenha se constatado que não eram claras, nem tampouco objetivas. A empresa apresentou expediente, datado de 31 de agosto de 2009, para explicar o plano de PLR, histórico das negociações, os “direitos substantivos” e as “regras adjetivas” utilizadas. Através de relatórios pretendia demonstrar, por amostragem de 14 empregados, a base de composição de cálculo dos valores pagos a título de PLR, bem como os demonstrativos gerenciais de avaliação da empresa e dos empregados. Através desta amostragem foi constatado que os “objetivos” a serem cumpridos individualmente não eram aprovados previamente. Exemplos: Marcos Honda (n° 4 do expediente) teve seus objetivos aprovados em 09 de dezembro de 2004; Oswaldo T. Lopes (n° 8) em 28 de dezembro de 2004; Robert Kozmann Júnior (n° 12) em 16 de dezembro de 2004 e Silvia Wulkan Halperin (n° 13) em 07 de dezembro de 2004. A estipulação de objetivos ao final do ano base retira desse pagamento qualquer possibilidade de adequação à legislação específica. Afinal, datas como as mencionadas no item precedente possibilitavam pouca ou nenhuma ação por parte dos destinatários para o cumprimento das metas. Ademais, sabese que a regulamentação dessa matéria dáse no sentido de proteger o trabalhador para que sua participação seja justa. Um dos dispositivos legais mais importantes nesse tema é aquele que determina que a participação nos lucros e resultados não substitui ou complementa a remuneração devida a qualquer empregado, o que demonstra a preocupação do legislador em não permitir que o PLR fosse utilizado em substituição de parcela salarial. Nesse sentido, foram retirados do Demonstrativo Pagamento de PLR por Beneficiário alguns Fl. 522DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 523 12 exemplos apontados no Comparativo Salário Anual x PLR Anual, anexos ao AI principal. Dessa amostragem verificase a existência de duas “castas” de empregados no que tange ao recebimento da PLR. A primeira delas é constituída de funcionários que trabalham na área administrativa, cujas PLR representaram entre 10% e 45% de seus salários anuais (PLR/Salário Anual). Em contrapartida, a segunda “casta” é composta dos empregados da área de negócios, que receberam como PLR entre 100% e 775 %. Mesmo tomandose como base a empresa de forma global, constatase que no exercício de 2005 (pagamento do ano calendário de 2004), enquanto o total de PLR foi de R$ 19.296.986,12, o da remuneração sem PLR foi de R$ 18.414.988,75 (informação constante da GFIP), o que resulta numa PLR de 105% (cento e cinco por cento) do total dos salários pagos durante o exercício, ou seja, a empresa remunerou seus funcionários, sendo mais da metade na forma de PLR, apesar de se saber que tal participação não deve substituir ou complementar a remuneração dos empregados. Quando a participação nos lucros ou resultados paga pela empresa aos seus funcionários sobrepuja e é tão ou mais relevante de que o próprio salário contratado com a empresa, resta evidenciada a existência de substituição de parcela salarial. E, assim, percebese claramente que as verbas pagas pela empresa a título de participação nos lucros ou resultados, nada mais são do que instrumento de premiação, gratificação, ou bonificação, qualquer que seja a sua nomenclatura, travestido de PLR, com o nítido caráter retributivo em substituição salarial. No presente caso, a maior parte do valor total distribuído foi destinada a um grupo seleto e reduzido de empregados. Não se evidencia aqui base legal que justifique o pagamento de valores tão altos de PLR, nem para uma distribuição de forma tão desigual entre os empregados, sendo que tais discrepâncias indicam que os valores referemse de fato a um tipo de premiação, bonificação ou gratificação ajustada por desempenho individual, descaracterizando completamente o instituto da Participação nos Lucros ou Resultados. Ressalta que a Participação nos Lucros ou Resultados não admite critérios subjetivos de distribuição, haja vista que não visa premiar determinados empregados em detrimento de outros, a não ser por critérios objetivos de aferição. Conclui acerca da legalidade do plano próprio de Participação nos Lucros em 2004: (i) a comissão do banco foi integrada somente por uma pessoa, a qual, como procurador, não detinha poderes para representar sozinho a empresa e atos dessa monta; Fl. 523DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 524 13 (ii) não houve a participação de um representante do sindicato nas negociações; (iii) o plano não foi registrado e arquivado na entidade sindical; (iv) o acordo não conta com regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação; (v) os valores pagos substituem os bônus; (vi) não houve conhecimento prévio das metas (ainda que não claras e objetivas); e (vii) o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição desnaturam a natureza e intenção do beneficio da PLR. Do Acordo Próprio de Participação nos Lucros ou Resultados em 2005 Em 07 de março de 2001 foi celebrado um “Acordo Decorrente da Negociação entre Banco e Empregados para a Participação nos Lucros e Resultados”, tendo como partes, de um lado o Banco Merril Lynch e de outro seus empregados, com vigência retroativa a 1° de janeiro de 2001 por prazo indeterminado, estando ainda em vigor no ano base de 2005. Tal acordo apresenta diversas irregularidades, como pode sr visto na extensa análise conforme acima exposto. Mesmo na vigência do acordo tratado nos itens precedentes, em 19 de maio de 2006, o banco celebrou com o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo um novo “Plano de Participação nos Lucros ou Resultados”, o qual, segundo sua cláusula sexta, possuía vigência de dois anos retroativa a 01 de janeiro de 2005. Da análise do citado plano conclui o Auditor Fiscal que: (i) o acordo assinado em 07 de março de 2001, ainda em vigor em 2005, apresenta diversas irregularidades descritas ao tratar do acordo de 2004; (ii) o novo plano, negociado com o sindicato somente em 19 de maio de 2006, e retroativo ao período base da participação; (iii) não houve conhecimento prévio das metas; (iv) o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição desnaturam a natureza e intenção do benefício do PLR. Do Acordo Próprio de Participação nos Lucros ou Resultados em 2006 O acordo para o ano base de 2006 foi firmando somente em l9 de maio desse ano. Portanto, somente nesse momento houve certeza de que regras seriam utilizadas para esse ano calendário. Tal data contraria frontalmente o próprio acordo que prevê em sua cláusula quarta, item 2, que as metas Fl. 524DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 525 14 individuais, locais e globais sejam divulgadas até o final do primeiro trimestre de cada ano, bem como a própria legislação específica que determina o conhecimento prévio por negociação. O acordo foi celebrado quase na metade do ano base a que se refere o que impossibilitou o pleno conhecimento prévio de todas as regras que deveriam ser cumpridas para que o empregado fizesse jus à participação. Conclui acerca do Plano Próprio de Participação nos Lucros em 2006: (i) o plano, negociado com o sindicato somente em 19 de maio de 2006, é retroativo ao período base da participação; e (ii) o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição desnaturam a natureza e intenção do beneficio da PLR. Do Acordo Próprio de Participação nos Lucros ou Resultados em 2007 Em 31 de agosto de 2007, o banco celebrou, com o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo, um “Plano de Participação nos Resultados”, o qual, segundo sua cláusula sexta, possua vigência de um ano, retroativo a 01 de janeiro de 2007. Tal plano possui a mesma redação do anteriormente assinado em 19 de maio de 2006 e que regia os anos calendário de 2005 e 2006. Para o ano base de 2007, o acordo foi firmado ainda mais tarde, ou seja, no segundo semestre de 2007, ao final do mês de agosto. Somente nesta época é que os empregados tomaram conhecimento da vigência de um plano de resultados e suas regras. Logo, somente a partir de então sabiam como seriam avaliados para o recebimento desse beneficio. Verificase do Demonstrativo dos Pagamentos de PLR realizados em 2007, anexo ao AI principal, que o contribuinte efetuou pagamentos em janeiro, fevereiro, julho e outubro de 2007, em desobediência à vedação de qualquer antecipação ou distribuição de PLR em periodicidade inferior a um semestre civil ou mais de duas vezes no mesmo ano civil. Conclui acerca do Plano Próprio de Participação nos Lucros de 2007: (i) o plano, negociado com o sindicato somente em 31 de agosto de 2007, é retroativo ao período base da participação; (ii) O montante dos valores pagos e sua forma de distribuição desnaturam a natureza e intenção do beneficio da PLR; e (iii) ocorreram mais de dois pagamentos durante o mesmo ano civil. Do Acordo Próprio de Participação nos Lucros ou Resultados em 2008 Fl. 525DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 526 15 Em 09 de dezembro de 2008, o banco celebrou com o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo um “Plano de Participação nos Resultados”, o qual, segundo sua cláusula 6ª, possuía vigência de um ano, retroativa a 01 de janeiro de 2008. Tal plano possui a mesma redação do anteriormente assinado em 19 de maio de 2006 e que regia os anos calendário de 2005 a 2007. Para o ano base de 2008, o acordo foi firmado ainda mais tarde, pois somente em dezembro é que os empregados tomaram conhecimento da vigência de um plano de resultados e suas regras. Também nesse ano houve o aparecimento de valores extremamente vultosos, tendo a empresa contratado altos executivos e para eles desembolsou uma PLR em montante bastante expressivo. Tais valores foram tão expressivos que foram objeto de observação acurada da imprensa, por intermédio de uma notícia publicada no Wall Street Joumal. A empresa pagou valores a titulo de PLR nos meses de julho, outubro e dezembro, ou seja, antes do final do ano base, sem a prévia apuração dos resultados com relação ao cumprimento ou não das supostas metas fixadas. Se tais concessões foram feitas antes da apuração de resultados fica claro que esses valores em nada se relacionam com os pagamentos que deveriam ser efetuados em razão do acordo de PLR. Verificase do Demonstrativo dos Pagamentos de PLR realizados em 2008, anexo ao AI principal, que o contribuinte efetuou pagamentos em janeiro, julho, outubro e dezembro, em desobediência à vedação de qualquer antecipação ou distribuição de PLR em periodicidade inferior a um semestre civil ou mais de duas vezes no mesmo ano civil. Conclui quanto ao Plano de 2008: (i) o plano, negociado com o sindicato somente em 09 de dezembro de 2008, é retroativo ao período base da participação; (ii) o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição desnaturam a natureza e intenção do benefício da PLR; (iii) o pagamento ocorreu integralmente dentro do ano base e, portanto, antes da apuração dos resultados; e (iv) ocorreram três pagamentos durante o mesmo ano civil. Do Cálculo da Multa A partir da edição da Medida Provisória n° 449, de 03 de dezembro de 2008, convertida em 27 de maio de 2009, na Lei n° 11.941, a multa em lançamento de ofício sobre a totalidade ou diferença das contribuições previdenciárias e para outras entidades e fundos (terceiros), simultaneamente nos casos de falta de recolhimento, de falta de declaração e no de declaração Fl. 526DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 527 16 inexata, passou a ser regida pelo art. 44 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996. A multa prevista no inciso I do citado art. 44, é única, de 75% (setenta e cinco por cento) e visa apenar de forma conjunta, tanto o não pagamento seja ele parcial ou total do tributo devido, quanto a não apresentação da declaração ou sua apresentação de forma inexata. Assim, citada multa, a partir da competência dezembro 2008, não pode conviver com outra penalidade da mesma natureza e sobre o mesmo fato, ou seja, para a conduta de não pagar e não declarar os valores relativos às contribuições previdenciárias e de terceiros, ou de declará los de forma inexata. Para os fatos geradores até novembro de 2008, devese obedecer ao disposto no artigo 106 do Código Tributário Nacional, o qual prevê a aplicação de nova lei a um fato pretérito quanto lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo de sua prática. Assim, a partir da vigência da MP 449/2008, convertida na Lei 11.941/2009, no que se refere aos fatos geradores até novembro 2008, a lavratura em casos de falta de recolhimento e de declaração inexata, como no presente caso, deve ser realizada com a penalidade menos severa resultante da comparação entre a aplicação da multa de oficio estabelecida pelo inciso I do art. 44 da Lei n° 9.430/96 e a soma da multa de mora prevista pela alínea “a”, do inciso II, do art. 35 da Lei n° 8.212/91 (24%) com a multa prevista no inciso IV, parágrafo 5° do art. 32 do mesmo diploma legal, aplicandose a que for mais benéfica ao sujeito passivo. Os valores autuados não foram declarados em GFIP (competências até 11/2008), originando a lavratura do Auto de Infração de Obrigações Acessórias n° 37.235.8101, por esta omissão. Para determinação da multa mais benigna a ser aplicada utilizouse a comparação apresentada no Demonstrativo da Multa Final Aplicada, anexo ao AI principal. Salienta que para as competências 01, 07 e 10/2005, 01, 07 e 10/2006, 01, 02, 07 e 10/2007; 01, 07 e 10/2008, a penalidade anterior à publicação da MP n° 449/2008 mostrouse menos severa que a utilização da multa de lançamento de oficio (75%), sendo assim, utilizada no AIOA acima citado nessas competências. Nas demais competências, quais sejam: 08, 09 e 11/2005; 02 a 06/2006, 08/2006, 05 a 06/2007, 02 a 05/2008 e 09/2008, nas quais ocorreu a mesma infração, a multa mais benéfica resultou ser a multa de oflcio (75%), cobrada neste AIOP. O presente lançamento constituise dos seguintes levantamentos: PL1 Valores pagos aos empregados a título de Participação nos Lucros ou Resultados multa anterior à Lei n° 11.941/2009 mais benéfica; Fl. 527DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 528 17 Z2 Valores pagos aos empregados a título de Participação nos Lucros ou Resultados multa de oficio da Lei n° 11.941/2009 mais benéfica; e Z1 Valores pagos aos empregados a titulo de Participação nos Lucros ou Resultados após 11/2008 multa de ofício da Lei n° 11.941/2009. Foram lavrados Autos de Infração de obrigações principais distintos para cada gênero de contribuições sociais, relativos à Participação nos Lucros ou Resultados: AI n° 37.235.8080 AI relacionado à contribuição de 2,5%, objeto de ação judicial; AI n° 37.235.8071 relativo às contribuições da parte da empresa (20%) e as destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho RAT; AI n° 37.235.8098 relativo às contribuições destinadas ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE (Salário Educação) e ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INCRA. Como os valores autuados não foram declarados em GFIP, foi lavrado o Auto de Infração de Obrigações Acessórias n° 37.235.8101. Por se tratarem do mesmo fato gerador em relação ao mesmo sujeito passivo, os atos constitutivos e respectivas alterações, bem como os documentos comprobatórios do crédito, foram incluídos somente na 1ª via do AI n° 37.235.807. DA IMPUGNAÇÃO A empresa foi cientificada do lançamento fiscal em 14.12.2009, fls. 389 e apresentou defesa tempestiva em 13/01/2010, através do instrumento de fls. 524/615, alegando em síntese que: [...]. Do Mandado de Procedimento Fiscal e da Autuação Fiscal Empreendida. A auditoria fiscal foi embasada pelo Mandado de Procedimento Fiscal Fiscalização (MPFF) n° 08.1.66002009000139, cujo objeto era a fiscalização de contribuições previdenciárias do período de 01/2005 a 01/2007. Diversas alterações foram promovidas pela autoridade administrativa resultando na extensão do objeto e do período fiscalizado (contribuições previdenciárias, IRPJ, PIS e COFINS período de 01/2005 a 12/2008). No entanto, o procedimento adotado pela fiscalização que resultou na lavratura do auto de infração ora impugnado, Fl. 528DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 529 18 extrapolou seus limites quando exigiu o recolhimento de contribuições previdenciárias do ano de 2005. Embora tenha prestado todas as informações solicitadas, inclusive aquelas relativas aos planos de PLR negociados e celebrados em 2004 e que ensejaram os pagamentos realizados em 2005, entende que a auditoria empreendida não tinha autorização para fiscalizar documentos relativos ao ano de 2004 com o condão de exigir o recolhimento de tributos. Afirma que o fato gerador dos pagamentos realizados em 2005 foram os Planos de PLR negociados e celebrados no ano de 2004, período não albergado pelo Mandado de Procedimento Fiscal. Logo, a fiscalização descuidou do limite temporal previsto no Mandado de Procedimento Fiscal, eivando de vício a presente autuação. Na verdade, o procedimento adotado pela fiscalização buscou salvar o pretenso crédito tributário já alcançado pela decadência, conforme determina a Súmula Vinculante n° 8 do Supremo Tribunal Federal. Reafirma tratarse de vicio insanável, que macula a atuação fiscal como um todo, não podendo esta subsistir, devendo ser declarada a nulidade do presente Auto de Infração, em obediência aos princípios fundamentais que regem o ato administrativo e a tributação em nosso ordenamento jurídico. Da injustificada descontextualizarão negocial dos Planos de Participação nos Lucros Fiscalizados Afastamento do Princípio da Legalidade e da Finalidade do Ato Administrativo Atendeu a todas as solicitações de entrega de documentos feitas durante procedimento de auditoria de fiscalização extrapolando, inclusive, aquilo que lhe foi solicitado; tudo no intuito de devidamente esclarecer os acordos de participação nos lucros e resultados firmados com seus empregados ou com o Sindicato representativo da categoria. Em se tratando de planos de participação de empregados nos lucros e resultados da empresa, tão ou mais importante do que esclarecer seu funcionamento, é dar a conhecer ao fiscal o contexto negocial no qual eles se inserem. Esclarece que é um banco de investimentos que atua no mercado de capitais, de acordo com as regras previstas na Resolução CMN n° 2.624/99, que não possui contas correntes. Assim, sua atividade primordial é realizada por aquilo que denomina área de negócios, que congrega aqueles empregados encarregados de identificar, trazer clientes e negócios ao banco. São eles os encarregados e responsáveis por desenvolver as atividades do banco. Ao lado dessa área, está aquela que lhe dá suporte, incumbida de providenciar com a segurança e eficiência necessária todo o aparato técnico de suporte para os negócios que serão trazidos e desenvolvidos pela área de negócios. Fl. 529DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 530 19 Há, pois, uma diferença marcante entre essas duas áreas, um enorme degrau entre elas em matéria de responsabilidade e de riscos. Deste modo, os empregados e o sindicato da categoria, sabedores dessas características, negociaram acordos de participação nos lucros e resultados que possibilitem a repartição do eventual lucro que será produzido pelo esforço comum de todos. Sendo o lucro o objetivo comum do Impugnante e de seus empregados, que se fizeram representar por seu sindicato, a repartição do lucro que produzirem deve observar as regras que eles estabeleceram. Assim, não deve causar nenhuma estranheza o fato de que os acordos coletivos previram como se deve gerar o lucro a ser repartido, e as regras de distribuição, atribuindose pesos e respectivos valores de acordo com as respectivas áreas de atuação: negócios e apoio, havendo uma enorme diferença entre os valores percebidos pelos empregados. No entanto, a d. fiscalização, mesmo esclarecida sobre as características do ambiente de negócios de um banco de investimento, com os sucessivos esclarecimentos prestados, de dossiê cuidadosamente preparado pelo Impugnante para esclarecer e documentar o funcionamento e o contexto dos acordos de PLR por ela adotados, surpreendeuse com a lavratura do presente auto de infração, fundamentado em fatos e argumentos absolutamente fora do contexto negocial do Impugnante. Interpretar um negócio jurídico fora de seu contexto, tal como ocorreu no caso presente, equivale a afastarse da finalidade da lei e do ato administrativo, maculando o resultado por inteiro, como ocorreu no caso presente. Deveras, a autuação fiscal levada a efeito entendeu que não se configuraria divisão de participação nos lucros e resultados os valores distribuídos debaixo das Convenções Coletivas dos bancários, por serem fixos. E também entendeu que haveria vícios nos acordos coletivos firmados. A Sra. Agente Fiscal desconsiderou a natureza dos pagamentos realizados pelo Impugnante em virtude do seu valor, ou ainda em virtude da discrepância dos valores distribuídos entre os trabalhadores, sem fazer qualquer menção ao fato de que tais pagamentos observam as regras e os limites previamente estabelecidos para a sua realização. Ignorou, outrossim, que o impugnante é uma instituição financeira, e por isso, submetida às negociações coletivas que envolvem os empregadores e os empregados da categoria, assim como o sindicato representativo de classe, que decidiram que o pagamento de um percentual do lucro líquido do banco, dividido em valores fixos iguais para cada empregado, corresponderia ao anseio da categoria para cumprimento do direito social previsto pelo art. 7, XI, da CF. Fl. 530DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 531 20 A extensa documentação apresentada à Sra. Agente Fiscal comprova as negociações realizadas no transcorrer do tempo, cuja finalidade era a de unir os interesses do Banco e de seus empregados. Teria, inclusive, esclarecido que as negociações com Sindicatos de categorias tão expressivas, como são os bancários e os metalúrgicos, podem até levar a greves por melhorias dos direitos. Devido à grande dificuldade das negociações, elas perduram por longos períodos durante o ano, podendo ser resolvidas ao final dos períodos, não havendo que se estranhar, pois, que convenções e acordos coletivos sejam datados de épocas finais do ano. Ora, se as Convenções Coletivas de Trabalho, que dependem de negociações ocorridas entre empregador e sindicato de classe dos seus empregados, possuem trâmites burocráticos que inviabilizam a sua assinatura nos primeiros meses do ano, porque um Acordo de PLR que conta com a participação do empregador, dos seus empregados e do respectivo sindicato de classe poderia/deveria ser assinado em prazo inferior? Esperar (ou pior, exigir) que Acordos de PLR sejam assinados nos primeiros meses do ano é fruto do pleno desconhecimento de como ocorrem as negociações, de como elas são importantes e complexas. Reafirma que independente do momento em que as Convenções Coletivas ou os Acordos de PLR foram assinados, os seus termos foram previamente negociados entre as partes, em conformidade com o que exige a Lei n° 10.101/2000. Ademais, em face da teoria hoje dominante no sentido de que os negócios jurídicos devem ser escrutinados para verificar se possuem propósito negocial, se possuem substância, requer do intérprete aqui incluída a fiscalização o esforço de compreender o contexto no qual os negócios foram e são realizados pelo contribuinte, para que se conclua de maneira fundamentada a respeito da sua essência. Tratase, pois, de uma maneira aprofundada de se buscar a aplicação daquilo que é o espírito da lei, que dela não se dissocia. E a expressão mais aprofundada do principio da legalidade. No caso presente, se está diante de um direito social constitucionalmente garantido aos trabalhadores, que se incorpora ao patrimônio desses, e que impõe aos empregadores a correspectiva responsabilidade por cumprimento, como uma das expressões de solidariedade social. A Constituição Federal, em manifesto incentivo do cumprimento do direito social instituído, dispõe que a lei apoiará e estimulará as empresas que pratiquem sistemas de remuneração que assegurem ao empregado a participação nos ganhos econômicos resultantes da produtividade de seu trabalho, repetindose aqui o alerta contido no art. 7, XI da CF: desvinculada do salário. Fl. 531DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 532 21 Assim é que o Impugnante pratica a participação de seus empregados nos lucros desde 1998, observando tanto o que resulta das negociações coletivas, quanto os acordos firmados com seus empregados. Todos os seus empregados estão cientes de que participam de lucros gerados por uma instituição financeira que tem características próprias. E a ciência a respeito da dificuldade das negociações entre empregadores e empregados está no dia a dia dessas pessoas, que recebem em suas mesas a "folha bancária", que noticia o andamento das diversas negociações que se estabelecem ao longo do ano. Não existe, pois, espaço para nada "imposto" no que pertine a PLR. Não há espaço para a pura discricionariedade do empregador, como entendeu a fiscalização, em seu equivocado arrazoado em prol da desconsideração das distribuições feitas a título de PLR. Não se tratam de pagamentos de bônus, ou premiações sem a correspondente carga fiscal, NÃO! Tal interpretação decorre, certamente, de desavisada interpretação acerca do segmento no qual se encontra inserido o Impugnante, com afastamento do ato administrativo do espírito da lei, maculando, pois, a autuação, de manifesta ilegalidade e ausência de finalidade. A essência do negócio jurídico praticado pelo Impugnante com seus empregados foi desprezada, dado que interpretada em desprezo ao contexto negocial, o que não se pode admitir. O afastamento da finalidade do ato administrativo e da legalidade é facilmente depreendida da contraditória justificativa da autuação fiscal, em que se verifica a ausência de compreensão de conceitos de direito, do que se entende por PLR, de institutos próprios do direito do trabalho (exemplo: confusão entre PLR por comissão e PLR por acordo coletivo, que abaixo será descrita), bem como de toda a extensa fundamentação de fatos levada ao conhecimento da fiscalização pelo Impugnante. Diante desse quadro, o Impugnante requer o acolhimento das presentes razões, para desconstituir integralmente o auto de infração, o que ora se requer. Da insegurança jurídica inerente à imotivada modificação dos critérios utilizados na desconstituição dos planos de participação nos lucros fiscalizados Especificamente no que concerne à autuação dos valores distribuídos por meio de Convenções Coletivas, a d. fiscalização cometeu novamente o erro que foi objeto de reforma na autuação fiscal anteriormente lavrada, conforme se verifica da decisão notificação n° 21.003.0/0394/2006, proferida nos autos da NFLD n° 35.842.42l6 (transcreve o item 6.3.7). Questiona acerca de quantas vezes haverá de sofrer autuação fiscal por interpretação individual e equivocada sobre um mesmo fato. Ressalta que na autuação fiscal lavrada no ano de Fl. 532DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 533 22 2005 (NFLD 35.842.4216), por intermédio da qual se exige o recolhimento de contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a título de PLR no período de 1999 até 2004, o principal problema apontado pela fiscalização foi a ausência de participação de um representante do Sindicato dos Bancários nas negociações. Aduz que, questões como (i) a suposta ausência de negociação da PLR em razão da data de assinatura das Convenções Coletivas e dos Planos Próprios e (ii) a suposta natureza remuneratória dos pagamentos de PLR, decorrente da comparação entre o montante distribuído de PLR e a remuneração distribuída no mesmo período, JAMAIS foram apontadas como ensejadores da desconsideração da natureza dos pagamentos realizados pelo Impugnante. Afirma que tal fato sempre foi de conhecimento da Sra. Agente Fiscal, que inclusive citou no Relatório do Auto de Infração a decisão proferida pelo então Conselho de Contribuintes nos autos da NFLD n° 35.842.4216 (a qual, aliás, pende de julgamento perante o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e, por isso, jamais poderia ser utilizada como fundamento ou paradigma para a autuação fiscal impugnada). Assim, ao inovar o entendimento recentemente exarado pela fiscalização previdenciária, em caso análogo ao presente, a Sra. Agente Fiscal afastou a segurança jurídica que deveria permear o ato administrativo, conforme previsto no artigo 20 da Lei n° 9.784/1999. Como pode o Impugnante saber qual é o tratamento legal que será dispensado ao seu negócio jurídico celebração de acordos de PLR se a Administração Pública o interpreta em cada momento de uma maneira? Se os novos critérios jurídicos de apuração apresentados pela Sra. Agente Fiscal decorressem de alteração legislativa (o que não ocorreu), nada poderia ser contestado pelo Impugnante. No entanto, tal expediente decorreu única e exclusivamente do fato de que os "problemas" evidenciados nos planos de PLR objeto da autuação não se repetiram nos planos celebrados entre 1999 e 2004. Os novos apontamentos da Sra. Agente Fiscal, na verdade, foram o único meio por ela encontrado para justificar mais uma cobrança de contribuições previdenciárias sobre os pagamentos de PLR realizados pelo Impugnante. E, não bastasse a plena insegurança jurídica do lançamento fiscal para justificar o julgamento de sua total improcedência, há que ressaltar que o entendimento exarado pela Administração em procedimento de fiscalização anterior (que resultou na lavratura de autuações fiscais, dentre elas a NFLD n° 35.842.4216) foi estritamente observado pelo Impugnante (mesmo que sem a sua concordância), razão pela qual, nos termos do artigo 100, incisos I e Il e parágrafo único do Código Tributário Nacional, impedem a imposição de penalidades e a cobrança de juros de mora. Fl. 533DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 534 23 Sem embargo do exposto, o Impugnante deduz abaixo, novamente, todas as razões que motivaram a adoção de acordos de participação nos lucros e resultados, conforme já havia feito à saciedade no curso da fiscalização, esperando que, desta feita, seja compreendido que não paga remuneração a seus empregados, não paga bônus, não comete fraude alguma para evitar a incidência de contribuições previdenciárias, mas pratica, isso sim, aquilo que a Constituição Federal e a legislação ordinária prevê. Da motivação do impugnante para implantação dos planos de Participação nos Lucros fiscalizados. A realidade em detrimento da presunção. Faz um breve relato acerca das relações de trabalho buscando determinar o papel da Participação nos Lucros ou Resultados, diante da constatação da separação entre o capital e o trabalho, na aproximação dos interesses dos empregadores e empregados com intuito de se obter os desejados resultados empresariais, que podem ser vinculados a lucratividade ou a outros critérios desejados pelas partes. Nesse sentido, conceitua a participação nos lucros ou resultados como um modalidade negocial na qual um empregador (quer diretamente, quer por meio de seu sindicato) negocia junto a seus empregados (representados por comissão ou por seu próprio sindicato) a distribuição de valores atrelados ao atingimento de metas empresariais, e não à execução dos contratos de trabalho propriamente ditos. Argumenta que essa é a diferença entre salário (ou remuneração) e participação nos lucros ou resultados: enquanto o salário (ou remuneração) é a contraprestação devida ao trabalhador pela execução do objeto de seu contrato de trabalho, a participação nos lucros ou resultados é uma parcela distribuída aos trabalhadores em razão do atingimento de metas empresariais, decorrente de um contrato "sui generis", celebrado entre empregador e comissão de trabalhadores ou sindicato. E, compreendendose essa diferença essencial entre remuneração e participação nos lucros ou resultados, resta natural e evidente a desvinculação estabelecida na legislação. A participação nos lucros ou resultados não integra a remuneração dos trabalhadores porque não trata de contraprestação pelo trabalho prestado, sua natureza é outra, é de fomento à integração entre capital e trabalho. Dentro deste cenário se ajustam os acordos de participação nos lucros ou resultados celebrados e observados pelo Impugnante, haja vista a sua finalidade ser o envolvimento dos trabalhadores com o sucesso de seus pares de área, com as demais áreas da empresa e, consequentemente, com o sucesso da empresa propriamente dita. Fl. 534DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 535 24 Os planos de PLR não se assemelham, equiparam ou confundem com as obrigações decorrentes do contrato de trabalho. Enquanto o pagamento de PLR depende de prévias negociações e de fatores adicionais ao desempenho individual de cada trabalhador e da vigência do contrato de trabalho, o salário depende unicamente da vigência do contrato de trabalho. Sendo assim, não há espaço para se permitir a incidência de contribuições previdenciárias sobre um fato jurídico (PLR) não adequado ou mesmo adequável àqueles previstos na legislação (artigos 22 e 28 da Lei n° 8.212/91) como ensejadores de tal expediente, mesmo que, como no presente caso, tenha a sua natureza desconsiderada. Nesse diapasão, nunca é demais lembrar que a desconsideração dos planos de PLR do Impugnante, por si só, jamais denotaria a realização de pagamentos com natureza remuneratória. Reproduz jurisprudência. Ademais, a desconsideração de determinado ato jurídico (tal qual os planos de PLR do Impugnante) dependia da comprovação da sua prática com abuso de forma (ou finalidade evasiva) e mediante simulação, conforme descrito no parágrafo único, do artigo 116 do Código Tributário Nacional (com a redação dada pela Lei Complementar n° 104/2001). Contudo, a Sra. Agente Fiscal não se atentou para os fatos de que (i) não há lei regulamentando a previsão legal acima citada (o que basta para impedir a tributação dos valores pagos a título de PLR) e (ii) jamais comprovou que os pagamentos realizados se tratam de remuneração, apenas presumiu nesse sentido. Por tudo isso, as expressões utilizadas pela Sra. Agente Fiscal para descrever os planos de PLR do Impugnante, que também traduzem o seu convencimento sobre a questão, são, além de presunçosos e tendenciosos, desprovidos de finalidade e motivação jurídicas. Noutro passo, verificarseá que a desconsideração dos planos de PLR do Impugnante, levada a efeito pela Sra. Agente Fiscal, carece de validade. Impossibilidade de desconsideração do negócio jurídico de Participação nos Lucros ou Resultados Alega a Sra. Agente Fiscal que, no presente caso, a forma jurídica adotada (Participação nos Lucros ou Resultados PLR) não estaria em conformidade com o "objetivo da lei", motivo pelo qual as verbas pagas teriam natureza salarial, tais como a premiação, a gratificação ou a bonificação. Reproduz trechos do Relatório Fiscal. Afirma que as alegações transcritas demonstram a nítida tentativa da Sra. Agente Fiscal de desqualificar a forma jurídica adotada pelo Impugnante (PLR), em face de uma suposta substância econômica dos referidos pagamentos (verbas Fl. 535DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 536 25 salariais, tais como premiação, gratificação ou bonificação). Tratase, portanto, de uma tentativa de qualificação do negócio jurídico realizado no presente caso (PLR) como sendo um abuso de forma jurídica. Ou seja, a forma jurídica adotada para os pagamentos realizados no presente caso (PLR) não possui natureza salarial e não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias previstas no artigo 195 da CF/88. Contudo, desconsiderandose a forma jurídica adotada, chegase a uma suposta substância econômica (verba salarial), esta sim sendo fato gerador das referidas contribuições. Contudo, referido entendimento não poderá prosperar, motivo pelo qual essa E. Turma Julgadora deverá cancelar integralmente o presente auto de infração. lsto porque, o abuso de formas jurídicas só ocorre nos casos de (i) adoção de estruturas negociais que (ii) não são adequadas à substância econômica dos atos praticados. Portanto, no abuso de formas jurídicas, os agentes adotam e realizam determinada forma jurídica prevista em lei (como no presente caso), mas essa forma jurídica não é adequada aos pressupostos econômicos para os quais ela foi adotada (o que não se aplica ao Impugnante). Com efeito, nas hipóteses de abuso de formas, verificase que a forma jurídica adotada existiu efetivamente, não foi uma mera hipótese de simulação. O abuso de formas trata da adoção de formas jurídicas válidas, mas que não são as mais adequadas à substância econômica dos atos praticados. Inicialmente, é importante destacar que não haveria que se falar em abuso de formas no direito brasileiro. Conforme bem observa Luis Eduardo Schoueri, o abuso de formas seria de antemão vedado em nosso ordenamento jurídico, uma vez o seu controle se daria por meio da tributação por analogia. Ocorre que o Código Tributário Nacional, em seu artigo 108 veda expressamente o uso da analogia gravosa para fins de tributação. Portanto, o abuso de formas logo de plano deveria ser afastado, por não ser passível de aplicação em nosso ordenamento jurídico. No presente caso, pretendese a tributação do PLR (que não é fato gerador das contribuições previdenciárias) à sua suposta substância econômica de verbas salariais, as quais são fato gerador das referidas contribuições. Contudo, mesmo que se admita a aplicabilidade do abuso de formas no direito brasileiro para fins de tributação, o que se admite apenas a título argumentativo, ressaltese que referido instituto não é aplicável ao presente caso concreto. Isto porque, conforme demonstrado nesta impugnação, todos os atos praticados pelo Impugnante (substância econômica) estão em total conformidade com a forma jurídica adotada (PLR). Fl. 536DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 537 26 Esclarece ainda que: (i) A PLR é um negócio jurídico típico, regulamentado pela Lei n° 10.101/00, que tem como objeto a participação nos lucros ou resultados da empresa, sem natureza salarial (desvinculada da remuneração, nos termos do inciso XI do artigo 7º da CF/88). Esta natureza jurídica distinta tem como consequência, por exemplo, a inaplicabilidade das rígidas regras decorrentes da legislação do trabalho (CLT); (ii) As verbas salariais, por outro lado, são a remuneração decorrente do negócio jurídico de contrato do trabalho, regido pela CLT. Essas verbas salariais são rigidamente regulamentadas pela legislação trabalhista e consubstanciam direitos ao trabalhador, na qualidade de hipossuficiente na relação de emprego. Tais regras de proteção não são aplicáveis a outras modalidades de pagamento feitas pela empresa. De fato, poderia haver casos de abuso na utilização do instituto do PLR, que poderia dar ensejo à desconsideração do negócio jurídico (como nos casos em que há simulação). Isto ocorreria, por exemplo, na hipótese em que uma determinada empresa contratasse seus funcionários com o salário oficial de um salário mínimo, e um PLR de R$ 130.000,00 ao ano, independentemente de sua lucratividade, e pagos em 12 prestações mensais de R$ 10.000,00 e urna prestação adicional de R$ 10.000,00 em dezembro. Neste caso, verificase que os pagamentos a título de PLR não decorrem efetivamente da participação nos lucros decorrente de um programa de incentivo à produtividade. Tratase, sim, de uma remuneração mensal fixa que não guarda qualquer relação com o negócio jurídico de PLR, conforme já demonstrado (pagamento de salário de forma simulada). Este, contudo, não é o caso dos autos. No presente caso, conforme já demonstrado, os pagamentos efetuados estão em total conformidade com a legislação de regência, com nítido caráter de um "instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade”. Portanto, ante o exposto, verificase que não há subsídios no presente caso para que a Sra. Agente Fiscal pudesse ter desconsiderado a forma adotada pelo Impugnante para os pagamentos feitos a seus empregados (PLR), para considerálos como uma suposta substância econômica de verba salarial, sujeita à incidência das contribuições previdenciárias previstas no artigo 195 da CF/88, motivo pelo qual deverá essa E. Turma Julgadora cancelar integralmente o presente auto de infração. Contudo, sem prejuízo do até aqui exposto (que deve ser considerado apto e suficiente para embasar o julgamento de total improcedência do auto de infração impugnado), o Impugnante refutará cada um dos aspectos apresentados pela Sra. Agente Fiscal para a invalidação dos seus planos de PLR. Da insubsistência dos argumentos apresentados pela sra. Agente Fiscal em relação aos Planos celebrados sob a forma de convenções coletivas de trabalho. Fl. 537DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 538 27 A Lei 10.101/2000 veio dar seqüência às Medidas Provisórias que, desde 1994, regulamentavam o disposto no artigo 7°, XI da Constituição Federal. O artigo 1° da Lei 10.101/2000, em continuidade ao conceito aportado pela Constituição Federal, disciplina a participação nos lucros ou resultados um instrumento de integração entre o capital e o trabalho, além de forma de incentivo à produtividade. Quanto a esse aspecto, importa esclarecer que o incentivo a produtividade mencionado na Lei 10.101/2000 deve ser compreendido dentro do conceito próprio de participação nos lucros ou resultados, isto é, de integração entre capital e trabalho: ao aproximar os interesses do empregador aos dos empregados, gerase um natural ganho de produtividade, ainda que a participação não contenha meta específica de produtividade. O artigo 2° da Lei 10.101/2000 estabelece as formalidades para implementação da participação nos lucros ou resultados, incluindo tanto os aspectos formais quanto os aspectos materiais dessa modalidade negocial. Do ponto de vista formal, a participação é sempre objeto de negociação entre empresa e seus empregados, a qual pode ocorrer de forma direta (entre empresa e comissão escolhida pelas partes e integrada também por um representante indicado pelo sindicato) ou de forma indireta (por meio de acordo ou convenção coletiva de trabalho). Do ponto de vista material, o instrumento decorrente da negociação (acordo de comissão, acordo coletivo de trabalho ou convenção coletiva de trabalho) deve conter regras claras e objetivas que possibilitem às partes o conhecimento e o acompanhamento de seu conteúdo. De fato, a letra de lei demanda o seguinte conteúdo obrigatório nos instrumentos decorrentes da negociação para participação nos lucros ou resultados: a) regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação; b) regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo. Adicionalmente, e de modo meramente exemplificativo, o § l° do artigo 2° da Lei 10.101/2000 apresenta alguns critérios que podem ser considerados, dentre outros, para a elaboração dos instrumentos decorrentes da negociação: (a) índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; Fl. 538DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 539 28 b) programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. Vejase, a esse respeito, que a norma legal estabelece, quanto aos itens inseridos no texto do §1°, a obrigatoriedade de sua previsão no instrumento (conteúdo obrigatório), utilizando~se para tanto do verbo "dever" ('Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas). Diferentemente, ao tratar dos incisos ao § l°, a norma se utiliza do verbo "poder" ('podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições, deixando clara sua natureza eletiva, isto é, não obrigatória. Em uma análise mais detalhada do texto legal, portanto, conclui se que o incentivo à produtividade deve ser considerado de formal geral, Isto é, como reflexo natural da integração entre capital e trabalho, e não como um critério obrigatório a ser inserido em acordos de participação nos lucros ou resultados. E, uma vez celebrado o acordo, o instrumento dele decorrente será arquivado na entidade sindical representativa dos trabalhadores. Apresenta a seguir quadro com os elementos para formalização da participação nos lucros e resultados. Reafirma que negociação de participação nos lucros ou resultados pode se dar através dos seguintes procedimentos: negociação com comissão, convenção coletiva ou acordo coletivo. Negociação com comissão Na negociação com comissão, a norma exige apenas que exista uma "comissão escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria ". No tocante à formação da comissão de negociação, o texto legal apenas exige o adimplemento aos seguintes critérios: (a) escolha pelas partes, e (b) integração por representante indicado pelo sindicato. Na prática, a maior parte das empresas que elabora PLR por comissão de negociação opta pela formação de comissão paritária, com igual número de representantes indicados pela empresa e eleitos por seus empregados. No entanto, não há exigência legal nesse sentido. Não há, sequer, necessidade de representantes exclusivos dos empregadores, de forma que o requisito legal estaria integralmente cumprido caso a empresa simplesmente concordasse com a formação de comissão exclusivamente pelos eleitos por seus empregados. De novo, o texto legal apenas diz que a comissão deve ser "escolhida pelas partes", não exigindo representantes de um e outro lado, necessariamente, nem que o número desses representantes seja idêntico. Fl. 539DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 540 29 Quanto a seu conteúdo, a participação nos lucros ou resultados estabelecida por meio de negociação com comissão de trabalhadores tem a peculiaridade de se adequar mais precisamente à realidade econômica do grupo específico. Ninguém melhor que os trabalhadores e o empregador para, conjuntamente, definirem quais os aspectos da vida empresarial e da realidade laboral podem acarretar a desejada integração entre capital e trabalho. Assim, em casos nos quais a negociação de participação nos lucros ou resultados é realizada por meio de comissão de trabalhadores, as regras e as metas a serem definidas poderão ser concretas, abrangendo a especificidade do trabalho realizado pelos diferentes segmentos de trabalhadores. Acordo coletivo de trabalho Já na negociação por acordo coletivo de trabalho exigese a presença do sindicato representativo dos trabalhadores em substituição à comissão. As formalidades para estabelecimento de acordo coletivo de trabalho são integralmente exigíveis, inclusive a existência de edital de convocação, a realização de assembléia e o arquivamento perante a Delegacia Regional do Trabalho. No tocante a seu conteúdo, em razão da participação do sindicato representativo dos trabalhadores, a participação nos lucros ou resultados formalizada por meio de acordo coletivo de trabalho tende a ser mais abrangente, e consequentemente mais genérica, que aquela resultante de negociação com comissão de trabalhadores. Isso porque o sindicato representativo dos trabalhadores representa toda uma categoria profissional, e a consistência nas relações coletivas de trabalho por vezes demanda a inserção ou exclusão de determinadas cláusulas negociais. Assim, muitos sindicatos adotam posicionamento no sentido de exigir a inserção de certas cláusulas ou de não aceitar a inserção de outras, limitando o conteúdo negocial. Ainda que naturalmente vinculada à especificidade de determinada empresa, a negociação realizada perante o sindicato representativo dos trabalhadores tende a resultar em conteúdo menos específico que aquele decorrente de negociação por comissão. Convenção Coletiva de Trabalho Por fim, a negociação por convenção coletiva de trabalho segue também as regras próprias referentes à modalidade negocial, sendo nesse aspecto similar ao acordo coletivo de trabalho. Diferentemente do que ocorre quando negociada por meio de acordo coletivo de trabalho, entretanto, a participação nos lucros ou resultados negociada em convenção coletiva de Fl. 540DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 541 30 trabalho tem como característica primordial a ausência de especificidade em seu conteúdo. A convenção coletiva de trabalho, tal como preconizado no artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho, é o "acordo de caráter normativo pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profissionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho". Na categoria bancária, a convenção coletiva de trabalho é firmada por nada menos que 111 sindicatos, 6 federações e 1 confederação, representativos de trabalhadores em todo o Brasil, além de 1 federação e 7 sindicatos representativos de empregadores espalhados também por todo o Brasil. Tais entidades representam empresas e trabalhadores do segmento financeiro, bancário de varejo e bancário de investimento, cada qual com suas peculiaridades. É simples constatar, da vastidão do documento mencionado acima, que a participação a ser formalizada por tal documento não poderá em termos práticos veicular metas individualizadas por trabalhador. A imensa gama de situações fáticas abrangidas pelo acordo impossibilita essa modalidade de métrica. Em razão de tal característica, verificase uma tendência, em situações de definição de participação por meio de convenção coletiva de trabalho, do estabelecimento de métricas meramente financeiras, como por exemplo lucratividade. Tais métricas, aplicáveis a qualquer empresa, são adequadas ao caráter genérico de que se revestem as convenções coletivas de trabalho. Ao mesmo tempo, a métrica de lucratividade reflete, ainda que indiretamente, o fruto do trabalho do empregado, a produtividade, visto que ela é um fator essencial para o lucro, o resultado financeiro. Ante o exposto, constatase que, se a prática mais comum em situações de negociação com comissão é de estabelecimento de participação nos resultados (isto é, participação distribuída em razão de metas individualizadas por trabalhador ou segmento de atividade), o oposto ocorre em situações de convenção coletiva de trabalho, na qual a praxe é pelo estabelecimento de participação nos lucros. Da autuação referente à Participação paga em razão de Convenções Coletivas de Trabalho. O Banco Merrill Lynch foi autuado em razão do pagamento de PLR a seus empregados na forma do disposto nas convenções coletivas de trabalho dos anos de 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008. Os fundamentos apresentados para tanto são: Fl. 541DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 542 31 (a) assinatura ao final do anobase, de forma retroativa; (b) ausência de regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação. Especificamente, o Sr. AuditorFiscal entendeu que a assinatura de Convenção Coletiva de Trabalho no último trimestre do ano excluiria dos trabalhadores a possibilidade de conhecimento prévio das metas e seu comprometimento para atingimento, como incentivo à produtividade. E, ao entender dessa forma, o Sr. AuditorFiscal violou a Constituição Federal e a legislação ordinária, desde o reconhecimento aos acordos firmados com sindicatos até as regras específicas aplicáveis às convenções coletivas de trabalho e o conteúdo da Lei 10.101/2000. A Constituição Federal, em seu artigo 7º, XXVI, estabelece o princípio do reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho, pelo qual conferese validade tanto aos instrumentos firmados mediante negociação com o sindicato representativo dos trabalhadores quanto ao conteúdo veiculado nesses instrumentos. Transcreve decisão judicial. Por sua vez, a própria Lei 10.101/2000 estabelece a possibilidade de fixação de participação nos lucros ou resultados por meio de convenção coletiva de trabalho (art. 20, II), sendo, portanto, válida e eficaz essa modalidade negocial. Ocorre que a natureza da convenção coletiva de trabalho é significativamente diferente daquela dos acordos coletivos de trabalho: enquanto os acordos coletivos de trabalho têm abrangência restrita a uma empresa podendo, portanto, estabelecer regras e critérios específicos para a realidade daquela empresa ou setor negocial as convenções coletivas de trabalho têm abrangência ampla, incluindo uma pluralidade de empresas realidades negociais. Nesse sentido, vale especificar que a convenção coletiva de trabalho referente aos bancários é aplicável a uma vasta gama de empreendimentos, incluindo bancos de varejo, bancos de investimento e outros em todo o Brasil. Recordese aqui o impressionante número de envolvidos na convenção coletiva de trabalho para PLR bancária: 111 sindicatos, 6 federações e 1 confederação, representativos de trabalhadores em todo o Brasil, além de 1 federação e 7 sindicatos representativos de empregadores espalhados também por todo o Brasil. Não se duvida, por óbvio, que as realidades experimentadas por trabalhadores e empregadores em todas essas localidades e segmentos de negócios sejam extremamente díspares. Quaisquer metas e critérios adotados para um banco de varejo na região Norte do Brasil não poderão ser simplesmente reproduzidos por um banco de investimentos na região Sul: as realidades de trabalho são tão profundamente diferentes que um acordo assim estabelecido jamais poderia subsistir. Fl. 542DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 543 32 É por esse motivo, decorrente da natureza específica das convenções coletivas de trabalho, que os acordos de participação em lucros ou resultados assim firmados têm como característica primordial o estabelecimento de metas ligadas ao único ponto de conexão entre as realidades negociais: a lucratividade setorial. Repisese esse ponto por relevante: as metas inseridas em um acordo de participação nos lucros ou resultados devem ser similares para todos os envolvidos, garantindose assim a consistência do acordo. E, ante a ampla abrangência das convenções coletivas de trabalho (tal como insculpido no artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho), o único critério possível de utilização é a lucratividade. E esse, justamente, é o critério reconhecido nas convenções coletivas de trabalho referentes aos bancários: a lucratividade do setor econômico. O valor a ser distribuído depende exclusivamente do percentual de lucratividade do banco, com variações decorrentes das métricas de 0 e 15% do lucro liquido do banco em cada exercício financeiro, bem como do percentual de crescimento do lucro líquido em comparação com o exercício anterior. Transcreve diversas cláusulas das convenções coletivas de trabalho, relativas ao estabelecimento de participação nos lucros ou resultados dos anos de 2004 a 2008 e apresenta sumários de métrica, na forma constante das citadas convenções. Conclui que se trata de convenção para participação nos lucros, pautada exclusivamente em critérios de lucratividade. Em sendo assim, não há que se falar, como pretende a autoridade fiscal, em inserção de metas individualizadas. Também o argumento da autoridade fiscal no sentido de inexistência de metas, resultados e prazos, ou ainda de critérios passíveis de aferição cai por terra ao se analisar as planilhas apresentadas. As sucessivas convenções coletivas de trabalho trazem, pormenorizadamente, metas, métricas, critérios e regras absolutamente objetivos e que permitem aferição mediante simples consulta aos balanços do Banco Merrill Lynch, balanços esses auditados e publicados, na forma das sociedades por ações. Mais ainda, periodicamente o Banco Merrill Lynch informava a seus empregados sua situação financeira, os ganhos e o nível de lucratividade atingidos, de forma a permitir a todos o acompanhamento dos níveis de atingimento de metas (vide exemplificativamente os documentos juntados). Trimestralmente, inclusive, havia reunião de todos os empregados do Banco Merrill Lynch na qual as lideranças internacionais comunicavam os resultados alcançados em todos os âmbitos e linhas de negócios. Dessa reunião todos os empregados do Banco Merrill Lynch eram convidados a participar. Fl. 543DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 544 33 Com base no exposto, concluise que os motivos apresentados pela autoridade fiscal para decidir pela invalidade das convenções coletivas e, consequentemente, fazer incidir natureza salarial sobre as parcelas pagas a título de participação nos lucros ou resultados não coadunam com a lei e com a realidade fática. Motivo (i): segundo a autoridade fiscal, as convençoes coletivas de trabalho "foram negociadas e assinadas somente ao final dos anos base sendo retroativas aos periodos de participação". Primeiramente, devese considerar que as convenções coletivas de trabalho seguem as regras próprias contidas nos artigos 611 e seguintes da Consolidação das Leis do Trabalho, inclusive época de negociação e garantias ao período anterior à sua conclusão (garantia de database). O argumento de invalidação do conteúdo do acordo em razão de a database ser no segundo semestre simplesmente vai contra toda a regulamentação pertinente às convenções coletivas de trabalho, inclusive a Consolidação das Leis do Trabalho (artigos 611 e seguintes) e a Constituição Federal (artigo 7°, XXVI). Mais ainda, e ao contrário do aludido pela autoridade fiscal, as convenções coletivas de trabalho não são negociadas ao final do ano, quando de sua assinatura. A data de assinatura corresponde, apenas, ao momento de conveniência das várias entidades sindicais considerandose inclusive a dificuldade de viabilização de um documento com quase 200 assinaturas não correspondendo à finalização da negociação. Vejase, inclusive, que as metas e critérios para concessão da participação nos lucros estabelecida nas sucessivas convenções coletivas de trabalho são conhecidas previamente por todos os trabalhadores da categoria. Tal conclusão salta aos olhos ao se avaliar que, em todo o período fiscalizado, não houve a menor alteração em tais critérios (lucro liquido anual). Assim, não há que se falar em invalidação do conteúdo das convenções coletivas de trabalho em razão de sua assinatura por ocasião da finalização das negociações de database. Motivo (ii): segundo a autoridade fiscal. as convenções coletivas de trabalho “não contam com regras claras e objetivas quanto à fixacão dos direitos subjetivos e adjetivos de participação" Este motivo apresentado pela autoridade fiscal é simplesmente alheio àquilo que está inserido nas convenções coletivas de trabalho. As regras quanto aos direitos subjetivos e adjetivos de participação estão ali inseridas de forma clara e objetiva, ou melhor, de forma matemática, vinculando todos os trabalhadores e empresas. Evidentemente, por se tratar de convenção coletiva de trabalho com abrangência nacional, não existem metas individualizadas. Mas tratase de acordo de participação nos lucros e, consoante Fl. 544DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 545 34 autorizado pela Lei 10.101/2000, tal modalidade negocial demanda apenas métricas de lucratividade e não metas individualizadas. Dessa forma, também este motivo apresentado pela autoridade fiscal não se sustenta antes urna análise jurídica mais detida, devendo, portanto, ser reconhecida a validade do conteúdo das convenções coletivas de trabalho e a natureza não salarial das verbas pagas em seu cumprimento. Da autuação referente à Participação paga em razão de Plano Próprio (2004). O Banco Merrill Lynch foi autuado em razão do pagamento de PLR a seus empregados na forma do disposto no acordo de participação nos lucros ou resultados firmado com comissão de trabalhadores. Os fundamentos apresentados para tanto são os que seguem: (i) a comissão do Banco Merrill Lynch teria sido integrada somente por uma pessoa, a qual, como procurador, não detinha poderes para representar sozinho a empresa e atos dessa monta; (ii) não teria havido participação de representante do sindicato nas negociações; iii) o plano não teria sido registrado e arquivado na entidade sindical; (iv) o acordo não contaria com regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação; (v) os valores pagos substituiriam os bônus; (vi) não teria havido conhecimento prévio das metas pelos trabalhadores; e (vii) montante dos valores pagos e sua forma de distribuição descaracterizariam a natureza e intenção da PLR. Consoante abordado acima, os acordos de participação em lucros ou resultados são procedimentos formais, que demandam o atendimento ao conteúdo determinado em lei quanto à forma e conteúdo. E o acordo referente ao ano de 2004, com pagamento em 2005, atende a todos esses requisitos, senão vejamos. No tocante a seu conteúdo, o acordo mencionado atende integralmente à finalidade legal, na medida em que proporciona efetiva integração entre capital e trabalho. De fato, o plano está pautado em metas individuais de produtividade e performance, as quais são previamente estabelecidas, por escrito, para cada empregado e área, sendo ao final do exercício avaliadas também por escrito. Adicionalmente metas de negócios (lucratividade) Fl. 545DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 546 35 definem o total a ser distribuído, vinculando assim o plano a lucros e resultados do Banco Merrill Lynch. As regras referentes a direitos substantivos constantes do acordo de participação nos lucros ou resultados são claras e objetivas, com pisos e tetos claramente delineados, bem como métricas matemáticas para cálculo das participações individuais (cláusula 4 do plano). Também as regras adjetivas, relacionadas à aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordo, são estabelecidas de forma clara e objetiva no plano (cláusula 5), autorizando a todos os trabalhadores o acompanhamento de seu atingimento. Quanto ao acompanhamento, vale lembrar, o Banco Merrill Lynch divulga periodicamente a todos os seus trabalhadores os níveis de atingimento financeiro, tanto por emails quanto em reunião trimestral consoante anteriormente abordado, de modo que é a todos franqueada a aferição periódica do cumprimento ou não das metas inseridas no plano. Do ponto de vista formal, também o plano atende a todos os requisitos legais. A forma adotada é de negociação com comissão de empregados consoante abordado anteriormente, a Lei 10.101/2000 não exige a formação de comissão paritária, mas, unicamente, de comissão escolhida pelas partes. E é essa a forma adotada pelo plano: um representante indicado pelo Banco e outros eleitos por seus empregados. Quanto à participação sindical, este foi devidamente convidado a integrar a comissão de negociação, recusandose, entretanto, à solicitação de tal convocação, especificando que "durante a auditoria o sujeito passivo apresentou uma carta, datada de 01 de março de 2001, dirigida ao Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, na qual informa que pretende alterar o acordo de PLR aprovado e assinado pelas comissões (Banco e empregados) em 26 de novembro de 1998 e para tanto, solicita a indicação de um representante do sindicato para integrar a comissão de empregados. Avisa ainda a data, horário e local da futura reunião para discussão e aprovação do acordo. O contribuinte apresentou, ademais, cópia do jornal Gazeta Mercantil, de 2, 3 e 4 de março de 2001, onde fez publicar uma convocação ao sindicato visando a indicação de um representante para integrar a comissão de empregados em reunião, que seria realizada em 07 de março de 2001, para acordo de PLR. Ressalta nesta que a convocação estava sendo feita pela imprensa tendose em vista a recusa do Sindicato em receber carta do mesmo teor, encaminhada diretamente à entidade sindical ". De fato, conforme comprovam os documentos exemplificativamente juntados aos autos, o sindicato Fl. 546DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 547 36 representativo dos trabalhadores do Banco Merrill Lynch adotou, historicamente, entendimento no sentido da não realização de acordos de participação nos lucros ou resultados que não por meio de acordos coletivos de trabalho e convenções coletivas de trabalho. E, como conseqüência de sua postura ideológica, negouse repetidas vezes a integrar comissões de negociação. A negativa incluía também qualquer formalização, desde o recebimento da cartaconvite até o recebimento do plano negociado e seu arquivamento. Tratase de um impasse anterior a qualquer negociação. Ocorre que a Lei 10.101/2000 apenas aporta mecanismos de resolução para situações de impasse em negociação (artigo 4°), não tratando da situação de simples recusa sindical. E não o faz porque, de fato, as partes envolvidas no estabelecimento de participação nos lucros ou resultados são empresa e seus empregados. Estes são os legítimos titulares do direito aqui debatido. Nesse sentido é claro o artigo 2° da Lei 10.101/2000: participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados. Ocorre que, não apenas a Lei 10.101/2000 é silente quanto a meios para solução do impasse prénegociação por meio de comissão, mas também a Consolidação das Leis do Trabalho o é. O texto consolidado apenas aporta critérios para solução de impasse ou recusa à negociação coletiva (isto é, à participação em convenções ou acordos coletivos de trabalho). Para a situação específica de recusa sindical à integração de comissão de trabalhadores não há previsão legal. Mas, evidentemente, os trabalhadores não podem ter seu direito ao recebimento de participação nos lucros ou resultados eliminado pelo posicionamento sindical de não integrar comissão de negociação. Tal direito é constitucionalmente assegurado e deve ser respeitado. Ante o impasse formado, não reconhecido nem solucionado pela legislação vigente, optou o Banco Merrill Lynch por atender a finalidade do texto legal e, reconhecendo o direito constitucionalmente garantido a seus empregados, realizar diretamente a negociação com a comissão. Assim, devidamente comprovada a recusa sindical (carta enviada e publicação no jornal Gazeta Mercantil consoante reconhecimento da autoridade fiscal), bem como a legitimidade do procedimento adotado para garantia do direito constitucionalmente assegurado, e o cumprimento aos critérios de conteúdo do acordo firmado, têmse por integralmente cumpridas as exigências legais, devendo, portanto, ser reconhecida a validade do acordo e a natureza não salarial do pagamento efetuado. Fl. 547DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 548 37 No tocante especificamente aos motivos apresentados pela autoridade fiscal para a autuação referente a este acordo, nenhum deles apresenta fundamento na norma ou na realidade aplicável. Motivo (i): a comissão do Banco Merrill Lynch teria sido integrada somente por uma pessoa, a qual, como procurador, não detinha poderes para representar sozinho a empresa e atos dessa monta. A Lei 10.101/2000 não demanda a existência de comissão paritária, muito menos de comissão formada por idêntico número de representantes de empresa e empregados. Apenas exigese que a comissão seja escolhida pelas partes, o que de fato ocorreu. Quanto à existência de procuração e à exigência societária de dupla assinatura, o artigo 653 do Código Civil prevê que o mandato pode ser inclusive verbal, consistente na determinação, por parte do outorgante, de que determinada pessoa o represente em certo negócio jurídico. Mas, ainda que o empregado mencionado pela autoridade fiscal não possuísse, originalmente, poderes em extensão suficiente para a assinatura do acordo o que consoante parágrafo acima não reflete a realidade , seus atos seriam regidos pelo teor do artigo 662 do Código Civil, o qual claramente especifica a possibilidade de ratificação por ato inequívoco, a qual retroage à data do ato. Ou seja, ao dar cumprimento ao acordo firmado mediante negociação com comissão de trabalhadores, o Banco Merrill Lynch ratificou os atos praticados pelo procurador, sendo que tal ratificação retroagiu para conferir validade a tais atos. Portanto, o motivo (i) apresentado pela autoridade fiscal não se sustenta juridicamente. Motivo (ii): entendeu a autoridade fiscal que não teria havido participação de representante do sindicato nas negociações e Motivo (iii): entendeu a autoridade fiscal que o plano não teria sido registrado e arquivado na entidade sindical. Tal como explicitado acima, a negativa sindical à indicação de representante em comissão de negociação não pode ser de forma a excluir aos trabalhadores o direito constitucionalmente assegurado de recebimento de participação nos lucros ou resultados. Mais ainda, em se considerando que os titulares da negociação, consoante o caput do artigo 2° da Lei 10.101/2000 são empresa e empregados, bem como que nenhuma norma aparta procedimentos para solução desse tipo de impasse, o procedimento adotado pelo Banco Merrill Lynch é juridicamente Fl. 548DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 549 38 embasado, não havendo que se falar em qualquer irregularidade. Motivo (iv): entendeu a autoridade fiscal que o acordo não contaria com regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação. Ao contrário do entendimento apresentado pela autoridade fiscal, o acordo de participação nos lucros e resultados referente ao ano 2004 possuía regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos subjetivos e adjetivos de participação. Tais regras foram estabelecidas no plano e em seu anexo de forma matemática, com pisos de pagamento e vinculação a resultados financeiros. A estrutura básica do plano foi delineada junto aos trabalhadores em negociação direta, resultando nos seguintes critérios: a) Montante para distribuição: no mínimo 5% do lucro liquido contábil. O valor efetivo a ser distribuído depende do desempenho global, do desempenho na América latina, do desempenho no Brasil e do desempenho das áreas específicas de atuação do Banco Merrill Lynch; b) Valores individuais: os valores a serem individualmente distribuídos variam em razão dos segmentos de negócios em que os trabalhadores atuam e em razão do atingimento de metas de desempenho individual em decorrência do processo de avaliação vigente. Os segmentos de negócios são divididos em três categorias, em razão das funções desempenhadas: (i) operacionais e administrativas; (ii) funções de média gerência; (iii) funções de direção. As categorias de desempenho individual observam a seguinte gradação: (i) metas parcialmente cumpridas; (ii) metas cumpridas; e (iii) metas excedidas e são formalizadas em avaliações periódicas. O montante para distribuição, definido consoante índices de desempenho acima, é estabelecido no plano como um mínimo de 5% do lucro líquido contábil. Consoante demonstração financeira juntada, o lucro líquido contábil no ano de 2004 foi de US$ 16.054.000,00. O valor distribuído pelo Banco Merrill Lynch no período foi de R$ 18.126.293,87, ou seja, dentro do patamar estabelecido no acordo. Junta planilhas. Com relação aos montantes mínimos anuais a serem recebidos individualmente por cada trabalhador, com relação a este plano, estes são calculados de acordo com a tabela anexa ao instrumento. Fl. 549DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 550 39 Vale esclarecer que, na forma do plano de participação nos lucros e resultados vigente, não existe teto de valor a ser distribuído nos termos da cláusula 4 do plano. De forma a auxiliar na compreensão do funcionamento das metas e critérios acima indicados, apresentase abaixo uma listagem exemplificativa de trabalhadores ocupantes de funções das três categorias antes descritas com os cálculos das participações recebidas, comprovandose o exato cumprimento do teor do acordo vigente. Em razão de problemas de sistema, especialmente de arquivos de avaliação que foram corrompidos em determinado momento, apresenta amostragem que representa uma população de 14 pessoas que trabalham em áreas de apoio e de negócios, preferencialmente que tenham recebido participação durante o período fiscalizado. Verificase da análise das regras e valores acima especificados que, com relação ao ano de 2004, não apenas foram estabelecidos critérios objetivos para definição e acompanhamento de metas, mas ainda houve integral cumprimento do conteúdo do acordo: (a) o valor mínimo de distribuição geral foi observado; (b) os valores mínimos de distribuição individual foram observados, pelo que a motivação apresentada pela autoridade fiscal não se sustenta. Motivo (v): entendeu a autoridade fiscal que não teria havido conhecimento prévio das metas pelos trabalhadores. Ao contrário do que defende a autoridade fiscal, as metas eram de conhecimento prévio por todos os trabalhadores do Banco Merrill Lynch. Quanto às metas financeiras existentes no plano, estas foram negociadas e definidas já em 2001, muito antes do anobase aqui tratado. Recordese que o plano foi mantido integralmente desde essa data. Quanto às metas individuais, conforme comprovam os documentos juntados, estas fazem parte do programa de desenvolvimento humano do Banco Merrill Lynch sendo discutidas e definidas conjuntamente pelo empregado e seu gestor antes do início do anobase. Todas essas métricas, repisese, são objeto de acompanhamento e avaliação conjunta. As métricas financeiras são de acompanhamento periódico durante o ano e as métricas de desenvolvimento individual são objeto de reavaliação, conjuntamente realizada entre empregado e gestor. Dessa forma, não há que se falar em desconhecimento de metas por parte dos trabalhadores. Motivo (vi): entendeu a autoridade fiscal que os valores pagos substituiriam os bônus e Motivo (vii): o montante dos valores Fl. 550DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 551 40 pagos e sua forma de distribuição descaracterizariam a natureza e intenção da PLR. Novamente incorre em erro a autoridade fiscal ao apresentar entendimento no sentido de que a participação distribuída substituiria um bônus anual, justificandoo em uma alegada desproporção entre saláriobase e PLR e no fato de que nem todos os empregados recebem o mesmo múltiplo de salários. Inicialmente devese considerar que nem a Constituição Federal nem a Lei 10.101/2000 estabelecem limite para a participação dos trabalhadores em lucros ou resultados das empresas. Referidas normas tampouco exigem que todos os trabalhadores recebam idênticos valores, ou, menos ainda, que a participação seja calculada como um número determinado de salários. E, ante o princípio da legalidade, onde a norma não estabelece limite, não cabe ao fiscal fazêlo. Um segundo elemento de evidente relevância é a diferença gritante existente entre os conceitos de participação nos lucros ou resultados e de remuneração. A remuneração tem por finalidade compensar o trabalhador pelo serviço prestado a seu empregador, a participação nos lucros ou resultados tem como finalidade diminuir a distância entre essas partes, integrando capital e trabalho. Analisando o plano referente ao ano 2004, constatase que nenhum empregado da impugnante possuía, como objeto de seu contrato de trabalho, a geração de determinado patamar de lucro. Também as metas individuais diziam respeito unicamente ao desenvolvimento humano e, em se tratando de metas meramente comportamentais, estas não poderiam ser consideradas objeto dos contratos de trabalho. Em suma, o próprio teor do plano e as metas nele inseridos demonstram que os valores distribuídos a título de participação nos lucros ou resultados não eram gerados com base em produção ou em qualquer item relacionado à execução dos contratos de trabalho. Ao contrário, eram metas pautadas em lucratividade geral e desenvolvimento pessoal, não correspondendo, sequer de longe, às obrigações nos contratos de trabalho. Quanto à alegada desproporção entre salários anuais e participação distribuída, devese considerar, primeiramente, que o banco paga e sempre pagou a seus empregados salários compatíveis com a média de mercado. Se o salário pago pela impugnante é compatível com aquele pago por seus pares, resta evidente a inocorrência da alegada substituição de salário por participação nos lucros e resultados. Ao contrário, em suas análises estatísticas, a autoridade fiscal esqueceuse de comparar os elementos justificadores dos valores distribuídos: os resultados financeiros do Banco no período. Fl. 551DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 552 41 Em sendo a finalidade da participação nos lucros ou resultados a integração entre capital e trabalho, como justificar que, em um ano de excelente resultado financeiro, os empregados do banco não recebessem participação também significativa? Lembrando apenas que o lucro liquido contábil no ano de 2004 foi de US$ 16.054.000,00. Por fim, alega ainda a autoridade fiscal que haveria desproporção entre o número de múltiplos de salários recebidos pelos diferentes segmentos do banco, o que, em seu entendimento, descaracterizaria a natureza de participação nos lucros ou resultados. Mais uma vez sem razão a autoridade fiscal, pois o acordo de 2004 é permeado pela firme crença no sentido de que somente a integração do colaborador ao negócio é que pode trazer a satisfação indivíduo, mas não a via inversa. Dentro deste contexto, de política global de integração entre capital e trabalho, que a comissão de negociação definiu métricas específicas com a finalidade de tornar cada um dos empregados em um participante do negócio, promovendo sua contribuição individual e coletiva no empreendimento. O Banco Merrill Lynch é um banco de investimentos. Em razão disto, o exercício de sua atividade empresarial se dá por meio da atuação de suas áreas de negócios, as quais são: renda fixa, renda variável, investimentos diretos, banco de investimentos (IBK) e pesquisas econômicas (área híbrida). São essas as áreas que trarão os negócios para o banco, prospectarão novos clientes, e é nelas que estão concentradas as metas mais agressivas a serem atingidas por seus integrantes. É deles que se cobrará mais, pois eles é que poderão influenciar de maneira efetiva no sucesso do empreendimento. Entretanto, para a realização de suas atividades, as áreas de negócios não são suficientes. São as áreas de suporte que garantem a possibilidade de as áreas de negócios realizarem seus trabalhos. As áreas de suporte são, entre outras: processamento de operações, controladoria, tecnologia de sistemas, auditoria, crédito de mercado, risco de crédito, risco operacional, serviços corporativos, jurídico, gerenciamento de projetos e recursos humanos. Essas áreas estão obrigadas a fornecer o suporte para as áreas de negócios, permitindo o melhor e mais eficiente funcionamento do banco, para atingimento das metas das áreas de negócios. Aqui os colaboradores possuem as metas menos agressivas do negócio, posto que a potencialidade de sua contribuição para a formação do resultado desejado é infinitamente menor do que aquela dos integrantes das áreas de negócios. Assim, a comissão de negociação, ao definir os critérios para o acordo de PLR do ano 2004, optou por estabelecer diferentes múltiplos para as diversas áreas de atuação. E esses múltiplos, Fl. 552DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 553 42 negociados e definidos pela comissão de negociação, são os diretos geradores dos valores distribuídos aos empregados. Apresenta quadro comparativo. De todo o exposto, conclui que o PLR 2004, firmado por meio de negociação com comissão de trabalhadores, encontrase totalmente inserido nos critérios legais, de forma que a natureza não salarial das parcelas pagas há de prevalecer. Da autuação referente à Participação paga em 2005 e em 2006, sob a forma de Plano Próprio O Banco Merrill Lynch foi autuado em razão do pagamento de PLR a seus empregados na forma do disposto no acordo de participação nos lucros ou resultados firmado com comissão de trabalhadores. Os fundamentos apresentados para tanto são os que seguem: (i) com relação ao pagamento realizado em 2006 (referente ao acordo de 2005), entende a autoridade fiscal estar ele atrelado ao plano anterior, firmado por negociação com comissão de trabalhadores, motivo pelo qual apresentaria as mesmas irregularidades mencionadas no tópico acima; (ii) ainda com relação ao pagamento realizado em 2006 (referente ao acordo de 2005), entende a autoridade fiscal não ter havido conhecimento prévio das metas por parte dos trabalhadores; (iii) com relação aos pagamentos realizados em 2006 e 2007, a autoridade fiscal entende que como o plano foi negociado com o sindicato somente em 19 de maio de 2006, ele seria retroativo ao período base da participação; e (iv) com relação aos pagamentos realizados em 2006 e 2007, o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição descaracterizariam a natureza e intenção do beneficio da PLR. Consoante abordado acima, os acordos de participação em lucros ou resultados são procedimentos formais, que demandam o atendimento ao conteúdo determinado em lei quanto à forma e conteúdo. E o acordo referente aos anos de 2005 e 2006, com pagamentos em 2007 e 2008, respectivamente, atende a todos esses requisitos. Primeiramente, há que se consignar a incorreção na análise da Sra. Agente Fiscal, o qual considerou que o teor do acordo firmado em 2001 fora aplicado para os fins da participação referente ao anobase 2005. Ao contrário, com o início das negociações com o sindicato, o que ocorrera já em 2005, referido plano não mais foi aplicado, não tendo sido base de qualquer participação a partir dessa data. Fl. 553DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 554 43 De fato, o plano aplicado para o anobase 2005, com pagamento em 2006, foi aquele firmado juntamente com a entidade sindical, o qual abrange os anosbase 2005 e 2006. Esclarecido esse ponto, passase à analise dos requisitos de validade do plano firmado. No tocante aos aspectos formais, retomando o conteúdo da tabela inserida às fls. 21 desta defesa, entendemse como elementos obrigatórios: (a) a modalidade legal de negociação, seja por comissão, seja por acordo coletivo ou convenção coletiva de trabalho; e (b) o arquivamento do instrumento no sindicato representativo dos trabalhadores. Ambos os elementos foram cumpridos no plano de participação nos lucros ou resultados dos anosbase 2005 e 2006. Mais ainda, mesmo não se tratando de exigência da Lei 10.101/2000, o sindicato representativo dos empregados do Banco Merrill Lynch levou o acordo coletivo de trabalho a registro perante o Ministério do Trabalho e Emprego. Assim, todas as formalidades legais para o estabelecimento de participação nos lucros ou resultados foram cumpridas pelo acordo aqui tratado. No tocante aos aspectos materiais, isto é, relacionados ao conteúdo do plano, as exigências legais são de: (a) objeto de integração entre capital e trabalho, não correspondente a uma contraprestação pelo serviço prestado; (b) existência de regras claras e objetivas quanto à fixação do objeto da participação (“direitos substantivos da participação"); (c) existência de regras claras e objetivas quanto à fixação das regras para distribuição do montante entre trabalhadores regras adjetivas da participação"), incluindo mecanismos para aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo. Todos esses requisitos também foram cumpridos pelo plano. Da mesma forma como ocorreu com relação ao acordo de 2004, mas de modo muito mais abrangente e significativo, as partes envolvidas na negociação, neste caso o Banco Merrill Lynch e o sindicato representativo de seus empregados, definiram métricas específicas com a finalidade de tornar cada um dos empregados um participante do negócio, promovendo sua contribuição individual e coletiva ao empreendimento. Especificamente com relação às regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos e das regras adjetivas, estas estão discriminadas no plano e em seus anexos de forma matemática, inserindose ali todas as variáveis que permitem o cálculo exato do montante a ser distribuído, individualmente, a cada empregado mínimos e máximos. Fl. 554DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 555 44 Nesse sentido, vale analisar o conteúdo do Anexo I ao Plano de Participação nos Resultados Metas e Critérios de Apuração. Referido anexo aparta todos os conceitos e metas, descritos individualizadamente, bem como a fórmula de cálculo da participação. O Anexo II ao Plano de Participação nos Resultados Critérios de Apuração Área de suporte e o Anexo III ao Plano de Participação nos Resultados Critérios de Apuração Área de Negócios trazem as regras adjetivas para avaliação individual e múltiplos a serem pagos a cada trabalhador. Também discriminam, esses anexos, as categorias de avaliação de desempenho e as metas de performance individual utilizadas para a realização dessa avaliação de desempenho. De fato, o plano de participação nos lucros ou resultados dos anos 2005 e 2006 aprimorou as regras anteriormente existentes relativas à participação dos empregados em lucros e resultados de forma a contemplar as diferenças entre duas grandes áreas do Banco Merrill Lynch, a saber, as áreas de suporte e de negócios, as quais possuem características bastante distintas, com potencialidade de influenciar o resultado final local proporcional às suas atribuições. Nesse sentido, o novo Acordo Coletivo de Trabalho prevê a necessidade de divulgação das metas locais, regionais e globais no primeiro trimestre de cada ano, prevê valores mínimos e máximos a serem recebidos, prevê a fórmula de cálculo das respectivas participações, bem como a maneira pela qual serão aferidas as colaborações de cada indivíduo, vide plano anexo. Os valores mínimos a serem recebidos são aqueles constantes da Convenção Coletiva de Trabalho acrescidos de R$ 200,00 (Anexo I, Cláusula 2). Os valores máximos a serem recebidos individualmente pelos trabalhadores do Banco Merrill Lynch são determinados pela aplicação da fórmula abaixo: Assim, 50% da participação devida aos trabalhadores ficam vinculados ao alcance de metas globais (uma vez atingidas as metas, abrese a possibilidade de recebimento dessa parcela de participação), sendo que os 50% restantes estão vinculados ao alcance de metas locais. Alcançadas as metas globais e locais, a participação de cada trabalhador é calculada com base na multiplicação do nível de Fl. 555DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 556 45 alcance de metas individuais com seu salário "anualizado", ou seja, 13 vezes o saláriobase bruto do empregado. Adicionalmente, situações excepcionais são tratadas diferenciadamente no acordo de participação nos resultados, podendo acarretar incremento na participação individual, são as chamadas "regras especiais". Essas regras foram inseridas no acordo para autorizar a correção de eventuais desvios e distorções que a aplicação da regra geral poderia acarretar. Exemplificativamente, como a participação individual é calculada com base no valor de salário em 31 de dezembro do ano de referência do acordo, juntamente com o nível hierárquico de cada trabalhador, eventuais promoções no correr no ano poderiam acarretar, não fossem as regras especiais, injustiças para trabalhadores envolvidos. Por esse motivo, e para permitir o ajuste desse tipo de situação e a acomodação do trabalhador à sua nova função, é que se prevê na "Regra Especial 1” na possibilidade de incremento excepcional da participação para empregados promovidos. Quanto à “Regra Especial 2”, esta contempla a população de empregados que possui atribuições não apenas locais, mas também regionais. Essas pessoas têm seu tempo dividido entre diferentes locais, de modo que a simples avaliação consoante a regra geral poderia levar a situação de injustiça, comparandose com os trabalhadores focados em uma única região. O mesmo ocorre com a "Regra Especial 3", a qual contempla população que divide suas atribuições regional e globalmente, também estando sujeitas a potenciais necessidades de acomodação. A título exemplificativo, apresenta alguns cálculos de participações distribuídas em relação aos anosbase 2005 e 2006. Conclui que da demonstração apresentada os valores pagos individualmente aos trabalhadores do Banco encontram se discriminados e justificados pelo conteúdo do Acordo Coletivo de Trabalho e, portanto, todas as regras legais atinentes a tais planos de participação nos lucros ou resultados foram devidamente cumpridas. Especificamente em relação aos motivos apresentados pela Sra. Agente Fiscal, estes não devem prosperar: Motivo (i) entendeu a autoridade fiscal, com relação aos pagamentos realizado em 2006 (referente ao acordo de 2005), que ele estaria atrelado ao plano anterior, firmado por negociação com comissão de trabalhadores. motivo pelo qual apresentaria as mesmas irregularidades mencionadas no tópico acima. Diferentemente do entendimento adotado pela autoridade fiscal, a PLR ano base 2005 foi estabelecida, calculada, apurada e paga consoante Acordo Coletivo de Trabalho firmado com a entidade sindical representativa dos trabalhadores envolvidos. Fl. 556DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 557 46 Assim, não há que se falar em aplicação ou extensão das alegadas mas inexistentes, consoante já comprovado irregularidades do plano anterior. Motivo (ii) entendeu a autoridade fiscal, com relação ao pagamento realizado em 2006 (referente ao acordo de 2005) que não teria havido conhecimento prévio das metas por parte dos trabalhadores. A contrário do entendimento apresentado pela autoridade fiscal, as metas foram previamente comunicadas aos trabalhadores, os quais possuíam, ainda, métodos para aferição de seu atingimento. As metas individuais são aquelas utilizadas ordinariamente pelo banco para avaliação de seus trabalhadores. Essas metas são discutidas e definidas conjuntamente pelos empregados e seus gestores, antes do início de cada ano, sendo que os empregados tomam ciência de suas metas e as aprovam no sistema informatizado do banco. As metas de lucratividade são divulgadas por emails aos empregados, os quais recebem, ainda, relatórios periódicos da evolução da lucratividade do banco, de forma a poderem atuar no sentido de seu atingimento. Portanto, não há que se falar em ausência de conhecimento de metas. Motivo (iii): entendeu a autoridade fiscal, com relação aos pagamentos realizados em 2006 e 2007, que como o plano foi negociado com o sindicato somente em 19 de maio de 2006, ele seria retroativo ao período base da participação. Motivo (iv): entendeu a autoridade fiscal. com relacão aos pagamentos realizados em 2006 e 2007. que o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição descaracterizam a natureza e intenção do benefício da PLR. Novamente arvorase em erro a autoridade fiscal ao apresentar entendimentos pautados em requisitos que a legislação não exige para fins de PLR. Com relação à data de assinatura do acordo, tratase apenas da ocorrência da formalização do documento, o qual já fora negociado e informado aos empregados anteriormente. A assinatura de acordo coletivo de trabalho com vigência retroativa, inclusive, é praxe decorrente do próprio conceito de database, em que as panes negociam cláusulas e condições e estabelecem sua vigência para a mesma data todos os anos, independentemente da demora na negociação. A demora na negociação e a vigência retroativa de cláusulas de cunho econômico são realidade inerente aos acordos e convenções coletivas de trabalho. Negar sua aplicação às situações em que esses acordos e convenções tratam de PLR Fl. 557DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 558 47 seria recusar validade aos dispositivos da própria Lei n° 10.l01/2000. Com relação ao argumento da autoridade fiscal no sentido de que a participação distribuída substituiria um bônus anual, o qual justificaria, em sua interpretação, numa alegada desproporção entre saláriobase e PLR, devese considerar que nem a Constituição Federal, nem a Lei 10.101/2000 estabelecem limite para a participação dos trabalhadores em lucros ou resultados da empresa. Também, citadas normas tampouco exigem que todos os trabalhadores recebam idênticos valores, ou, mesmo ainda, que a participação seja calculada com um número determinado de salários. E, ante o princípio da legalidade, onde a norma não estabelece limite, não cabe ao fiscal fazêlo. Portanto, a argumentação da autoridade não deve prosperar. Da autuação referente à Participação Paga em 2007 e em 2008, sob a forma de Plano Próprio O banco foi autuado em razão do pagamento de PLR a seus empregados na forma do disposto nos acordos de participação nos lucros ou resultados firmado com o sindicado representativo de seus trabalhadores, sob os seguintes argumentos: (i) os planos, firmados na segunda metade de cada ano base (31/08/2007 e 09/ 12/2008, respectivamente), seriam retroativos ao período base da participação. (ii) os valores pagos e sua forma de distribuição descaracterizariam a natureza e intenção do beneficio da PLR. (iii) quanto ao acordo referente ao ano base 2008, os valores ali previstos teriam sido pagos integralmente dentro do ano base e, portanto, antes da apuração dos resultados; e (iv) quanto ao acordo referente ao ano base 2008, teria havido três pagamentos durante o ano civil. Assevera que os acordos referentes aos anos base 2007 e 2008 atendem integralmente os requisitos legais, apresentando a seguir os argumentos já trazidos em sua impugnação em relação aos aspectos formais, materiais e às regras claras e objetivas. Argumenta que os motivos apresentados pelo Sr. Auditor Fiscal para a autuação realizada não merecem prosperar. Motivo (i): entendeu a autoridade fiscal que os planos firmados na segunda metade de cada ano base (31/08/2007 e 09/12/2008, respectivamente), seriam retroativos ao período base de participação. Motivo (ii): entendeu a autoridade fiscal, com relação aos pagamentos realizados em 2008 e 2009, que o montante dos valores pagos e sua forma de distribuição descaracterizariam a natureza e intenção do benefício da PLR. Fl. 558DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 559 48 [...]. Reportase às alegações acerca do assunto trazidas em sua impugnação, para a vigência retroativa e também quanto ao argumento da autoridade fiscal no sentido de que a participação distribuída substituiria um bônus anual. Motivo (iii): entendeu a autoridade fiscal, quanto ao acordo referente ao ano base 2008, que os valores ali previstos teriam sido pagos integralmente dentro do ano base e, portanto, antes da apuração dos resultados. Motivo (iv): entendeu a autoridade fiscal, quanto ao acordo referente ao ano base 2008, que teria havido três pagamentos durante o mesmo ano civil. Relativamente ao motivo (iii), o pagamento de valores dentro do ano base e antes da apuração de resultados, devese considerar que a Lei 10.101/2000 autoriza a antecipação do pagamento da PLR, desde que as partes constatem a realidade de que, ao final do plano, haverá o efetivo atingimento das metas e desde que realizada em periodicidade superior a um semestre civil, ou em até duas vezes no mesmo ano civil. Assim, não existe vedação legal à realização de antecipação, desde que entre a antecipação e o efetivo pagamento respeitese a regra da semestralidade. Quanto à constatação de efetivo atingimento das metas, essa é facilmente atingível mediante os instrumentos de aferição do cumprimento de metas, estes já exaustivamente tratados nesta defesa. O motivo (iv) também diz respeito à regra da semestralidade. Com relação a esta regra, temse que ela é estabelecida para garantir que o empregador não se utilize da figura da PLR para manter seus empregados. Em outras palavras, para que não haja substituição de remuneração por participação o que não é o caso presente impedese o pagamento mensal de participação, impossibilitando assim sua utilização para manutenção do “fluxo de caixa” dos trabalhadores. Logo, a regra da semestralidade diz respeito aos efetivos pagamentos de participação recebidos por trabalhadores, e não aos desembolsos realizados pelo empregador. Apenas considerase violadora de regra da semestralidade a hipótese de determinado empregado receber mais de um pagamento de PLR em um semestre civil ou mais de dois durante o ano civil. Aduz que nenhuma das situações mencionadas pelo agente fiscal diz respeito a essa hipótese. Com relação aos anos de 2007 e 2008, devese constatar que cada um os empregados do banco apenas recebeu um pagamento a título de PLR própria de cada um desses anos. Fl. 559DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 560 49 As divergências alegadas pela autoridade fiscal dizem respeito ao pagamento da proporcionalidade a desligados (rescisão), o que está embasado nos respectivos planos e na melhor jurisprudência trabalhistas. Também ocorreram divergências de data de pagamento quanto a“ana1istas de negócios”. Esses profissionais recebem a PLR própria no mês de julho, mas ainda em um único pagamento anual. Em relação aos supostos três pagamentos durante o ano civil, afirma que não houve tal prática quanto a nenhum dos beneficiários: a PLR própria foi sempre paga em uma única parcela anual (quer janeiro, julho, dezembro, sendo este último apenas relativo ao ano de 2008). Quanto à PLR sindical, nos anos de 2007 e 2008 há obrigação de pagamento de parcela adicional até o mês de março (paga em fevereiro), justificandose assim todos os pagamentos encontrados pela autoridade fiscal. Subsidiariamente, entretanto, vale tratar que acaso tivesse ocorrido, quanto a algum beneficiário, o pagamento incorreto de mais de duas parcelas de PLR em determinado ano civil, esse erro não seria de forma a invalida: todo plano de PLR. Ao contrário, apenas a parcela violadora da norma, isto é, o terceiro pagamento efetuado para aquele beneficiário durante o ano civil é que estaria a descoberto do texto legal. Apresenta julgados relativos ao PLR para corroborar seus argumentos trazidos em sua defesa. Da necessidade de revisão do valor da multa aplicada Não há motivo legal que permita que a cobrança da multa de mora aplicada no lançamento ocorra nos moldes pretendidos pela sra. Agente fiscal. [...], a sra. Agente Fiscal levou em consideração, para apuração do valor da multa “mais benéfica” a ser aplicada, os valores vinculados às obrigações principais somandoos aos valores vinculados às obrigações acessórias. [...] Reforça o entendimento do impugnante o fato de que as multas vinculadas ao descumprimento de obrigações principais e acessórias são totalmente distintas e não se comunicam (em hipótese alguma). [...] Logo, o procedimento adotado pela Sra. Agente Fiscal é ilegal e, portanto, o valor da multa aplicada (acaso seja julgada procedente, o que se admite apenas a título de argumentação) deve ser calculado de acordo com as antigas disposições do Fl. 560DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 561 50 artigo 35 da Lei n° 8.212/91, desconsiderandose o valor das multas relacionadas a obrigações acessórias. Da ilegalidade da majoração da multa pelo decurso do tempo Não há motivo legal que permita que a cobrança de multa de mora seja majorada no tempo. Isso porque, ao determinar a progressão do percentual da multa de mora lastreada em fatores diversos da gravidade da ilicitude in casu , a mora e a prática de atos administrativos ao longo do tempo (tais quais a apresentação de defesa ou recurso administrativo, o pagamento parcial ou integral do tributo, a inscrição em dívida ativa, o ajuizamento de execução fiscal e etc.) o artigo 35 da Lei n. 8.212/91 acabou por fazer com que a multa de ofício assumisse a função compensatória que é própria exclusiva dos juros de mora, o que acaba por configurar o malfadado “bis in idem”. [...] E, nem se alegue que a aplicação do artigo 35 da Lei n. 8212/91 se justificaria pelo fato de se tratar de ato vinculado da Administração (oriundo do princípio da legalidade), pois a aplicação de um princípio (no caso, o da legalidade) deve ser ponderado em relação à aplicação de princípios como o da razoabilidade, e, principalmente, o da proporcionalidade. Apresenta doutrina. Aponta que a cobrança de multa de mora progressiva no tempo (tal como estava prevista no artigo 35 da Lei n. 8.212/91) restou revogada com a edição da MP 449/08. Reproduz o artigo 24 da citada medida provisória. No mesmo sentido, reproduz o artigo 61 da Lei n. 9430/96 argumentando que tais disposições, atreladas à norma contida no artigo 106, inciso II, alínea “c” do Código Tributário Nacional, conduz à conclusão de que a multa de mora exigida no presente caso não pode ser superior ao 20% (vinte por cento), sob pena de ilegalidade. Do descabimento da Taxa Selic Insurgese quanto a aplicação da Taxa Selic considerandose a sua natureza remuneratória, sua inconstitucionalidade, bem como a ilegalidade em sua aplicação, com a natureza de juros de mora. Reproduz doutrina e jurisprudência. Da ilegal imputação de responsabilidade tributária Refuta a imputação de responsabilidade solidária aos seus sócios e administrador, com fundamento nos artigos 134 e 135 do Código Tributário Nacional, uma vez que não ocorreram as hipóteses previstas nesses dispositivos legais. Reproduz jurisprudência. Insurgese também quanto a possível alegação de que a falta de recolhimento de contribuições previdenciárias poderia Fl. 561DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 562 51 configurar infração à legislação para fins de imputação de responsabilidade tributária. Reproduz jurisprudência. Ressalta ainda que de acordo com o artigo 13, parágrafo único da Lei n. 8.620/93, a responsabilidade solidária dos sócios ou gerentes darseá somente quando provado pelo fisco o inadimplemento das obrigações para com a seguridade social, por dolo ou culpa, sendo que tanto um como a outra jamais restaram configurados. Reproduz jurisprudências. Conclui que jamais poderão ser exigidos quaisquer valores por parte de pessoas distintas da impugnante, sob pena de ilegalidade, motivo pelo qual deverão ser excluídos do presente processo administrativo. Pedidos (i) seja julgado integramente improcedente o Auto de Infração, com a consequente extinção do crédito tributário nele consubstanciado, para os devidos fins de direito, e; (ii) independentemente do acolhimento do pedido acima, sejam imediatamente excluídas as pessoas arroladas no “Relatório de Vínculos” do pólo passivo da autuação fiscal. A DRJ/SP1 julgou a impugnação improcedente, conforme decisão assim ementada: TERCEIROS. RECOLHIMENTO. OBRIGATORIEDADE. As contribuições destinadas aos Terceiros devem ser recolhidas juntamente com as contribuições previdenciárias, cabendo à Secretaria da Receita Federal do Brasil efetuar sua cobrança. PROGRAMA DE PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. Integra a remuneração a parcela recebida a título de participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada em desacordo com lei específica MULTA DE MORA. LEGALIDADE. Não há que se falar em ilegalidade da cobrança da multa de mora quando aplicada nos estritos termos da legislação vigente. CONSTITUCIONALIDADE/LEGALIDADE. Não cabe em sede de processo administrativo a discussão sobre legalidade ou constitucionalidade de lei. TAXA SELIC. É lícita a aplicação da taxa SELIC para as contribuições sociais e outras importâncias arrecadadas pela Receita Federal, em atraso, incluidas em Auto de Infração. RELATÓRIO DE CORESPONSÁVEIS. FINALIDADE. O relatório denominado “Vínculos” tem por finalidade tão somente listar as pessoas físicas e jurídicas representantes legais do sujeito passivo que, eventualmente, poderão ser responsabilizadas pelo pagamento do crédito lançado, nas hipóteses previstas em lei, por ocasião de sua execução judicial. Fl. 562DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 563 52 Intimado da decisão em 30/08/2010, através de aviso de recebimento, o sujeito passivo interpôs recurso voluntário em 27/09/2010, no qual basicamente reafirmou os mesmos fundamentos da sua impugnação, com exceção do ponto atinente aos coresponsáveis, que não foi objeto de recurso. Sem manifestação ou contrarrazões pela Procuradoria. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2 Do Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) Como o MPF tinha como objeto a fiscalização das contribuições relativas ao período de apuração de 01/2005 a 01/2007, a recorrente entende que não poderiam ter sido analisados os documentos relativos ao ano de 2004. Ela ainda entende que houve decadência parcial. Sem razão o sujeito passivo. Das informações constantes dos autos, depreendese, exemplificativamente, que a PLR exercício 2005 estava calcada numa Convenção Coletiva de 2004 (CCT), de tal maneira que é óbvio que a fiscalização poderia examinála. Tal convenção, a propósito, poderia fazer prova a favor do sujeito passivo e não faria o menor sentido impedir a sua averiguação. A par disso, e como bem pontuado pela DRJ, o § 3º do art. 7º da Portaria vigente à época, a Portaria RFB 11.371/2007, contemplava expressamente a situação, para esclarecer a possibilidade de verificação de documentos de outros períodos, com vista a verificar os fatos relacionados ao período de apuração correspondente. A alegação de decadência deve ser igualmente rejeitada, pois o lançamento foi realizado em 14/12/2009, quando ainda não havia transcorrido prazo superior a cinco anos nem do fato gerador da competência mais pretérita (01/2005), tampouco do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nem mesmo havendo necessidade de cogitarse de qual seria o prazo decadencial aplicável (se a homologação tácita de que cuida o art. 150, § 4º, ou o prazo de lançamento de ofício de que trata o art. 173, I, do CTN). Passase, portanto, à análise de mérito. Fl. 563DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 564 53 3 Dos esclarecimentos iniciais Com exceção do ponto relativo ao MPF, o qual tem natureza preliminar e está relacionado à nulidade da autuação, e abstraindose a questão da decadência, a qual já foi rejeitada, o mérito e o controvertido dos autos residem em saber se a recorrente descumpriu a legislação da PLR, para efeito de viabilizar ou não a incidência das contribuições lançadas pela autoridade fiscal. Verificado, no mundo fenomênico, o fato gerador das contribuições, tendo em vista o pagamento de remuneração, e não de PLR, pode sim o agente autuante fazer o lançamento, o que prescinde de demonstração de abuso de forma, de simulação, etc. A verificação da ocorrência do fato gerador dispensa o exame da validade ou invalidade dos negócios jurídicos celebrados pela recorrente e o inc. I do art. 118 do Código Tributário Nacional preleciona que a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo se da validade jurídica dos atos praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Em comentário ao citado preceito legal, o prof. Hugo de Brito Machado afirma, com precisão, que "ao Direito Tributário importa a realidade. Não a forma jurídica"1, significando dizer que basta a existência do fato, e "não se há de indagar a respeito da validade do ato ou negócio jurídico"2. À autoridade administrativa compete verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, ex vi do art. 142 do Código, o qual, a propósito, não contém qualquer disposição atinente à licitude ou ilicitude do fato que consubstancia a hipótese de incidência. Ao tratar da jurisprudência administrativa deste Conselho, em tópico atinente à elisão e evasão tributárias, a prof. Maria Rita Ferragut menciona a existência de "negócios lícitos mas não oponíveis ao Fisco"3, corroborando a importância da substância do fato, em detrimento de sua forma de exteriorização. Logo, o que importa para o direito tributário é a realidade, e não a aparente verdade resultante dos negócios jurídicos celebrados pela recorrente. É irrelevante a nomenclatura do instrumento negocial ou mesmo a eventual fatura, importando, sim, identificar a materialidade da hipótese de incidência e sua efetiva ocorrência no mundo real. O princípio da realidade sobrepõese ao aspecto formal, considerados os elementos tributários, conforme jurisprudência do Supremo Tribunal Federal4. De outro modo, a desvinculação da PLR da remuneração dos trabalhadores está incondicionalmente atrelada ao cumprimento dos requisitos legais, conforme determina o inc. XI do art. 7º da CF e a Lei 10101/00. 1 MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao código tributário nacional, volume II. São Paulo: Atlas, 2004, p. 396. 2 MACHADO, Hugo de Brito. Obra citada, p. 388. 3 FERRAGUT, Maria Rita. As provas e o direito tributário: teoria e prática como instrumentos para a construção da verdade jurídica. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 115. 4 STF, RE 346084 / PR. Fl. 564DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 565 54 Feitos esses esclarecimentos, passase à análise das matérias suscitadas em grau recursal, não necessariamente observando a ordem das matérias colocadas no recurso e nem mesmo na acusação fiscal. 4 Dos planos Diante da grande quantidade de planos, vale transcrever a tabela abaixo, para fins de facilitar o presente julgamento: Planos Período Aquisitivo Assinatura Pagamento Acusações CCT 2004 novembro de 2004 2005 (i) assinatura ao final do período; (ii) inexistência de regras claras e objetivas; (iii) pagamento de parcela fixa CCT 2005 outubro de 2005 2006 (i) assinatura ao final do período; (ii) inexistência de regras claras e objetivas; (iii) pagamento de parcela fixa CCT 2006 outubro de 2006 2006 (i) assinatura ao final do período; (ii) inexistência de regras claras e objetivas; (iii) pagamento de parcela fixa CCT 2007 outubro de 2007 2008 (i) assinatura ao final do período; (ii) inexistência de regras claras e objetivas; (iii) pagamento de parcela fixa CCT 2008 novembro de 2008 2008 (i) assinatura ao final do período; (ii) inexistência de regras claras e objetivas; (iii) pagamento de parcela fixa Acordo Próprio 2004 março de 2001 (i) inexistência de comissão da empresa; (ii) não participação no representante sindical; (iii) falta de registro de arquivamento do plano no sindicato; (iv) inexistência de regras claras e objetivas; (v) valores pagos substituem bônus; (vi) não houve conhecimento prévio das metas Acordo Próprio* 2005 março de 2001 ou maio de 2006** Idem ao item anterior , pois seria o mesmo plano Acordo Próprio* 2006 maio de 2006 (i) assinatura ao final do período; (ii) montante dos valores pagos e forma de distribuição desnaturam o benefício Acordo Próprio* 2007 agosto de 2007 (i) assinatura ao final do período; (ii) montante dos valores pagos e forma de distribuição desnaturam o benefício; (iii) mais de dois pagamentos durante o ano Fl. 565DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 566 55 Acordo Próprio* 2008 dezembro de 2008 2008 (i) assinatura ao final do período; (ii) montante dos valores pagos e forma de distribuição desnaturam o benefício; (iii) pagamento integral antes da apuração do lucro; (iv) três pagamentos durante o ano civil * Ao contrário do que afirma a acusação, tratase de acordos coletivos, e não de planos próprios. ** Segundo a recorrente, o pagamento teria sido feito com base no plano assinado em maio de 2006. 5 Da data de assinatura dos planos Com exceção dos acordos próprios relativos aos períodos de aquisição de 2004 e 2005, uma acusação comum a todos os demais é que eles foram assinados somente no término do período aquisitivo a que se refeririam. Pois bem. A não incidência das contribuições sobre a PLR é uma imunidade, vez que é uma norma de não tributação prevista na Constituição Federal. Ao estabelecer que tal verba está desvinculada da remuneração, a Lei Maior criou uma norma negativa de competência, impedindo o próprio exercício de atividade legislativa para criar imposição fiscal a ela atinente: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XI participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; E diferentemente do que costumeiramente se afirma, a PLR não é apenas um instrumento de integração entre o capital e o trabalho, visando a incrementar a produtividade, mas sobretudo um direito social do trabalhador. Tanto o caput do artigo, como o capítulo no qual ele está inserido, não deixam margem para dúvidas. Essa circunstância tem passado despercebida, mormente porque a lei regulamentadora parece têla deixado em segundo plano, nem mesmo fazendo menção à expressão direitos sociais. Por outro lado, a norma constitucional é de eficácia limitada, pois atribuiu à lei a competência para estabelecer os pressupostos dessa não vinculação. No plano infraconstitucional, a regulamentação foi feita pela Lei nº 10.101/2000, que “dispõe sobre a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa e dá outras providências”. Em seu art. 2º, a lei prevê que a PLR será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, através, conforme o caso, de comissão paritária escolhida pelas partes, convenção coletiva ou acordo coletivo. É inquestionável, assim, que a lei prevê que essa partipação será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados: Art.2º. A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um Fl. 566DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 567 56 dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: Todavia, a lei realmente não estabeleceu uma data limite para a formalização dessa negociação. É compreensível que não o tenha feito, pois as normas de experiência comum demonstram que tais negociações não raramente levam meses para serem concluídas, sendo por vezes acirradas e conflituosas e envolvendo diversos sindicatos de diversas categorias. É óbvio, contudo, que os trabalhadores têm conhecimento das diretrizes gerais dos planos, pois participam direta ou indiretamente das negociações via comissão paritária ou sindicatos. Como bem pontuado em sede de impugnação e recurso, no ponto atinente às CCTs, o que igualmente se aplica aos planos próprios e às convenções coletivas, "a data de assinatura corresponde, apenas, ao momento de conveniência das várias entidades sindicais considerandose inclusive a dificuldade de viabilização de um documento com quase 200 assinaturas não correspondendo à finalização da negociação". E mais (v. fl. 868): [...] as metas e critérios para concessão da participação nos lucros estabelecida nas sucessivas convenções coletivas de trabalho são conhecidas previamente por todos os trabalhadores da categoria. Tal conclusão salta aos olhos ao se avaliar que, em todo o período fiscalizado, não houve a menor alteração em tais critérios (lucro líquido anual). Não compete ao aplicador da lei criar prérequisito não previsto na norma, sobretudo para reduzir a eficácia de regra jurídica constitucional. A lei prevê que a participação será objeto de negociação, e não que a formalização tenha que ocorrer previamente ao período de aquisição. A interpretação criativa é vedada pela tripartição dos poderesdeveres prevista no art. 2º da Lei Maior, que se constitui em um verdadeiro princípio fundamental da República. Uma interpretação restritiva, com a criação de exigências não previstas legalmente, apenas tem o condão de dificultar a efetiva concretização do direito social do trabalhador à participação nos lucros ou resultados da empresa, inibindo a concessão dos planos, em conflito com as finalidades constitucionais. Muito embora a lei regulamentadora pareça ter negligenciado a participação nos lucros ou resultados como um direito social, pois nem mesmo faz qualquer menção a esse respeito, fato é que a Constituição a outorgou como um efetivo direito daquela natureza, o que deve ser levado em consideração pelo aplicador da lei, na busca da máxima eficácia da norma constitucional. Os direitos sociais visam a criar as condições materiais necessárias ao alcance da igualdade real entre o dono do capital e o trabalhador. Segundo José Afonso da Silva, "são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais" (Curso de Direito Constitucional Positivo, 12ª ed., rev., Malheiros Editores, 1996, p. 277). Buscando igualar o empregador e o trabalhador, a Constituição lhe outorgou o direito à participação nos lucros ou resultados e na própria gestão da empresa. Não fosse a Constituição e a consequente regra imunizante, o trabalhador não teria as condições materiais Fl. 567DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 568 57 necessárias para participar dos lucros ou resultados, os quais, por consectário lógico, decorrem do capital do qual ele não é dono. Toda interpretação, portanto, deve ter como norte os direitos sociais. E diante de interpretações plausíveis e alternativas, o exegeta deve adotar aquela que se amolda à Lei Maior. O ministro Luís Roberto Barroso decompõe o princípio da interpretação conforme a Constituição nos seguintes termos: 1) Tratase da escolha de uma interpretação da norma legal que a mantenha em harmonia com a Constituição, em meio a outra ou outras possibilidades interpretativas que o preceito admita. 2) Tal interpretação busca encontrar um sentido possível para a norma, que não é o que mais evidentemente resulta da leitura de seu texto. 3) Além da eleição de uma linha de interpretação, procedese à exclusão expressa de outra ou outras interpretações possíveis, que conduziriam a resultado contrastante com a Constituição. 4) Por via de conseqüência, a interpretação conforme a Constituição não é mero preceito hermenêutico, mas, também, um mecanismo de controle de constitucionalidade pelo qual se declara ilegítima uma determinada leitura da norma legal." (Interpretação e aplicação da constituição : fundamentos de uma dogmática constitucional transformadora. 3. ed. Saraiva, p. 181 182) Deve ser abandonado, pois, o eventual rigor interpretativo, para compatibilizar a leitura da Lei nº 10.101/2000 com a Constituição, a qual, lembrese, visou a igualar materialmente o trabalhador e o empregador. Ainda que a primeira e rápida compreensão da lei infraconstitucional pudesse sugerir que o plano devesse ser formalizado antes do início do período aquisitivo, como forma de incentivar a produtividade e o comprometimento dos trabalhadores, fato é que a Constituição trouxe como critério preponderante o direito social do lado mais fraco da relação empregatícia, e não o incremento da produtividade e o seu comprometimento. A interpretação de que o acordo deve ser formalizado antes do início do período aquisitivo, cria, no entender deste relator, um requisito formal não previsto (pois a lei menciona apenas a necessidade de negociação – “será objeto de negociação”) e que está em descompasso com a realidade negocial, podendo até mesmo desestimular a concessão da PLR e, por conseguinte, a realização dos direitos sociais. Como se vê, não se está declarando qualquer inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, mas sim, dentre as várias interpretações possíveis, elegendose aquela mais adequada ao texto constitucional. A Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), antes da atual composição, vinha adotando entendimento semelhante, conforme se infere do acórdão nº 9202003.370: PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS DA EMPRESA PLR. IMUNIDADE. OBSERVÂNCIA À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA. ACORDO PRÉVIO AO ANO BASE. DESNECESSIDADE. A Participação nos Lucros e Fl. 568DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 569 58 Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trabalho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7º, inciso XI, da CF, sobretudo por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho. Somente nas hipóteses em que o pagamento da verba intitulada de PLR não observar os requisitos legais insculpidos na legislação específica, notadamente artigo 28, § 9º, alínea j, da Lei nº 8.212/91, bem como MP nº 794/1994 e reedições, c/c Lei nº 10.101/2000, é que incidirão contribuições previdenciárias sobre tais importâncias, em face de sua descaracterização como Participação nos Lucros e Resultados. A exigência de outros pressupostos, não inscritos objetivamente/literalmente na legislação de regência, como a necessidade de formalização de acordo prévio ao ano base, é de cunho subjetivo do aplicador/intérprete da lei, extrapolando os limites das normas específicas em total afronta à própria essência do benefício, o qual, na condição de verdadeira imunidade, deve ser interpretado de maneira ampla e não restritiva. Recurso especial negado. (CSRF, 2ª Turma, Relator(a) RYCARDO HENRIQUE MAGALHAES DE OLIVEIRA, sessão de 17 de setembro de 2014) Esta 2ª Turma/4ª Câmara/2ª Seção do CARF também vinha trilhando esse mesmo caminho, conforme se vê no acórdão nº 2402005.262, de minha relatoria. Não pode passar despercebido, ainda, no tocante às CCTs, o fato incontroverso de que elas foram firmadas por 111 sindicatos, 6 federações e 1 confederação, representativos de trabalhadores em todo o Brasil, além de 1 federação e 7 sindicatos, representativos de empregadores, sendo obviamente precedidas de acirradas e acaloradas negociações, como demonstram (i) as regras de experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e (ii) os fatos públicos e notórios anualmente noticiados na imprensa nacional. Outro ponto relevante a ser destacado é que, enquanto a remuneração é devida pela mera execução do contrato de trabalho, aí pouco ou nada importando os lucros ou resultados da empresa, a PLR deve ser considerada como um pacto acessório, por meio do qual se negociam, a par daquele contrato, questões relativas à produtividade, qualidade, lucratividade, metas, resultados, etc. Ou seja, a remuneração é devida em função do contrato laboral, enquanto que a participação é devida em decorrência de um contrato acessório, que não se constitui, por expressa disposição legal, em pagamento de remuneração. Tal contrato acessório, ademais, viabiliza a partipação do trabalhador em rubricas a que ele não teria direito, por serem decorrentes do capital do qual ele não é dono. Diante do exposto, concluise que o fato isolado de a formalização ter ocorrido no próprio período aquisitivo da PLR não desnatura o plano, devendo serem sopesados e analisados os demais requisitos legais e as circunstâncias e peculiaridades de cada plano. Fl. 569DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 570 59 6 Da inexistência de regras claras e objetivas Com exceção dos acordos relativos aos períodos de aquisição 2006, 2007 e 2008, uma acusação comum a todos os demais é que eles não teriam regras claras e objetivas. 6.1 DAS CCTS Iniciandose o julgamento pelas CCTs (e todos os instrumentos possuem os mesmos termos), observase que a partipação dos trabalhadores estava atrelada à lucratividade da empresa, possibilidade esta expressamente constante do inc. I do § 1º do art. 2º da Lei, segundo o qual podem ser considerados os critérios e condições de lucratividade. Vejase com destaques: Art. 2º A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria;(Redação dada pela Lei nº 12.832, de 2013)(Produção de efeito) II convenção ou acordo coletivo. § 1º Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; A lei é expressa e textual ao afirmar que dos instrumentos decorrentes da negociação (CCTs, planos próprios ou acordos coletivos) podem constar critérios de lucros, o que, no entender deste relator, é bastante óbvio, pois a lei está regulamentando exatamente a participação dos trabalhadores nos lucros ou nos resultados, conforme o caso. Como constam das CCTs, e como bem pontuado pela recorrente, o valor distribuído aos seus trabalhadores dependia do seu percentual de lucratividade e havia variações em função do lucro líquido de cada exercício e também do percentual de seu crescimento em comparação com o exercício anterior. Havia, ainda, uma disposição bem importante e de inegável clareza: a eventual existência de prejuízo implicava o não pagamento da partipação, corroborandose, assim, a existência de um pacto acessório ao pacto de remuneração e afastandose a acusação de que a participação estaria substituindo o pagamento de salários. Quer dizer, se a participação fosse realmente substitutiva da remuneração, ela seria paga independentemente da obtenção de lucros ou resultados pela empresa, o que não ocorreu no caso concreto. Fl. 570DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 571 60 Nesse contexto, entendese que as cláusulas das CCTs, as quais se repetiram no transcorrer dos anos, eram claras o suficiente para serem interpretadas e aplicadas pela empresa, sendo igualmente claras para serem interpretadas pela administração fiscal. 6.2 DO ACORDO PRÓPRIO PERÍODO DE AQUISIÇÃO 2004 Neste ponto, sem razão o sujeito passivo. O plano, em si, não contém nenhuma meta em suas doze cláusulas. Já o anexo de fls. 200/203, PAF 16327.001310/200945, embora preveja o percentual mínimo de lucro líquido a ser distribuído em função do desempenho do banco em diversas localidades e do desempenho individual dos seus profissionais em três categorias (v. quadro II REGRAS BÁSICAS), não estabelece quais seriam as metas a serem cumpridas. Diferentemente do que alegou o sujeito passivo em sua impugnação e em seu recurso, não há qualquer precisão matemática nas metas que sequer foram prédefinidas. Trazendose à colação a tabela abaixo, extraída do anexo ao citado plano vigente para o período de aquisição 2004, o que se visualiza é que não é possível determinar se, nem mesmo subjetivamente, o que se poderia compreender por metas parcialmente cumpridas, cumpridas e excedidas, tendo em vista a total inexistência de qualquer conceituação a esse respeito. Realmente, portanto, tal plano não contém regras claras e objetivas, o que infringe o disposto no § 1º do art. 2º da Lei, de forma a viabilizar a incidência das contribuições lançadas a seu respeito, negandose provimento ao recurso neste particular. Como esta infringência é suficiente para manter a autuação, e como esta matéria é exclusivamente de mérito, e não de natureza preliminar, deixase de analisar as demais acusações fiscais relativas à inexistência de comissão da empresa; à falta de participação do representante sindical; à falta de registro de arquivamento do plano no sindicato; a valores pagos que substituiriam bônus; e à falta de conhecimento prévio das metas por parte dos trabalhadores. Fl. 571DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 572 61 7 Do pagamento de parcela fixa Acusação comum a todas as CCTs é que teria havido o pagamento de parcela fixa. O recurso voluntário não traz maiores digressões a esse respeito, mas a inexistência de controvérsia fática não dispensa este órgão recursal de analisar a matéria, mormente porque este ponto foi decidido pela DRJ e porque a recorrente defende a legalidade dos planos. Realmente, as CCTs previam o pagamento de um valor fixo. No entanto, e conforme já explicitado em tópico precedente, o pagamento da participação estava atrelado ao auferimento de lucros pela empresa, sendo que a prédeterminação de um valor, sobretudo em valor irrisório (como o foi), não invalida o efetivo pagamento da participação. Exemplificativamente, vejase que em relação à CCT de 2004, a parcela fixa acrescida à participação era de apenas R$ 705,00, o que obviamente não descaracteriza a distribuição dos lucros. 8 Conclusão parcial 1 Do que foi exposto até o momento, já se conclui que os pagamentos realizados com base nas CCTs foi totalmente regular e conforme a lei e a Constituição, de tal maneira que o lançamento deve ser cancelado neste tocante. Também se conclui que os pagamentos realizados com base no plano próprio relativo ao período aquisitivo 2004 foram irregulares e em desacordo com a lei, o que conduz à manutenção do lançamento neste particular. Cabe analisar, assim, os "acordos próprios" (ou acordos coletivos) atinentes aos períodos de aquisição 2005, 2006, 2007 e 2008. 9 Do Acordo Coletivo Período de Aquisição 2005 Como visto nos tópicos anteriores, este relator organizou seu voto iniciando se pelas acusações (ex.: data de formalização dos acordos, existência ou não de regras claras e objetivas, etc) para então analisar os planos em si (ex.: CCTs, acordos próprios, etc). Este plano, todavia, será analisado em tópico próprio, diante das peculiaridades envolvendo a acusação fiscal e o recurso voluntário. A recorrente vem reiteradamente pontuando que o acordo próprio firmado em 2001 não serviu de base para o pagamento atinente ao período de 2005. Vejase (v. fl. 884 do PAF 16327.001310/200945): Primeiramente, há que se consignar a incorreção na análise da d. fiscalização, o qual considerou que o teor do acordo firmado em 2001 fora aplicado para os fins da participação referente ao anobase 2005. Ao contrário, com o início das negociações com o sindicato, o que ocorrera já em 2005, referido plano não mais foi aplicado, não tendo sido base de qualquer participação a partir dessa data. De fato, o plano aplicado para o anobase 2005, com pagamento em 2006, foi aquele firmado juntamente com a entidade sindical, o qual abrange os anosbase 2005 e 2006. Fl. 572DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 573 62 De fato, o instrumento de fls. 218/221 do PAF 16327.001310/200945, firmado em 19 de maio de 2006, expressamente prevê sua vigência para 01/01/2005 a 31/12/2006, o que passou despercebido à autoridade autuante e à própria DRJ. Vejase: Ademais, os planos de 2005, 2006, 2007 e 2008 foram formalizados através de acordos coletivos, não se tratando, portanto, de planos próprios negociados através de comissão paritária. Com efeito, tais acordos foram celebrados entre o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de São Paulo e o próprio banco, e não por comissão escolhida pelas partes, na qual a citada entidade sindical tenha figurado como mera representante. Ou seja, a fiscalização equivocouse quando desconstituiu a legalidade dos pagamentos relativos ao período de aquisição 2005 com base na análise do plano firmado em março de 2001, pois este plano não deu origem àqueles pagamentos. Devem ser sopesadas, portanto, as acusações pertinentes ao instrumento datado de maio de 2006, mais precisamente as seguintes: (i) assinatura ao final do período; e (ii) o montante dos valores pagos e a forma de distribuição desnaturariam o benefício. Quanto à data de assinatura do instrumento, o que se observa é que o pagamento relativo ao período de aquisição 2005 foi realizado com base num documento firmado apenas em maio do ano seguinte (maio de 2006). Quer dizer, no ano de 2005, sequer havia um documento que desse base à aferição dos valores da PLR, ainda que o adimplemento tenha ocorrido somente em 2006, como alega a recorrente. O que foi exposto no tópico 5 sobre a data da assinatura dos planos está de acordo com uma interpretação razoável, mas a inexistência total de um plano dentro do período de aquisição não tem qualquer razoabilidade e ademais afasta qualquer possibilidade de aferição e de previsibilidade por parte do trabalhador e da própria empresa. Tratase, enfim, de uma evidente ilegalidade que impede a caracterização dos pagamentos como distribuição efetiva de lucros ou resultados ao trabalhador. De outro vértice, e até porque a formalização somente ocorreu quase que no segundo semestre do ano seguinte ao período de aquisição, a recorrente não se dignou de demonstrar que tal participação realmente tenha sido objeto de negociação dentro do período a que se referiria, em evidente violação ao art. 2º da Lei. Para que se tivesse um pacto acessório ao contrato de trabalho, com validade e legalidade, seria necessário um mínimo de previsibilidade às partes envolvidas, até para se concretizar não apenas os direitos sociais, mas também para incentivar a produtividade do trabalhador e tornar justificável tal pacto adjunto. Fl. 573DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 574 63 Nesse contexto, deve ser negado provimento ao recurso neste particular. Como tal infringência é suficiente para manter a autuação, e como esta matéria é exclusivamente de mérito, e não de natureza preliminar, deixase de analisar a acusação segundo a qual o montante dos valores pagos e a forma de distribuição desnaturariam o benefício (acusação última, de toda forma, que se repetiu no tocante aos anos seguintes, conforme adiante será julgado). 10 Do montante dos valores pagos e da forma de distribuição Acusação que se repetiu acerca dos acordos coletivos de 2006 a 2008 é que o montante dos valores pagos e a forma de distribuição desnaturariam o benefício. Neste particular, sem razão o agente autuante. A grande lucratividade das instituições financeiras faz com que o montante dos lucros ou resultados a serem distribuídos seja igualmente grande, de forma a representar uma quantia considerável quando comparada com a remuneração normal do trabalhador. Sendo estabelecida em percentual, quanto maior a lucratividade da empresa, maior a participação a ser paga ao empregado, o que de forma alguma descaracteriza o benefício. A contrario sensu, nessa hipótese, maior é a concretização do direito social e maior é a realização do princípio da isonomia, pois o empregado participa em maior medida da rubrica a que ele não teria direito por não ser o dono do capital. O que a legislação determina é que a participação não pode substituir ou complementar a remuneração (art. 3º), mas a autoridade autuante não demonstrou que a recorrente estivesse pagando salários inferiores à média de mercado e complementandoos ou substituindoos por intermédio de lucros ou resultados. Quer dizer, não há qualquer demonstração nos autos de efetiva substituição de remuneração por participação. Quanto à desproporção entre os valores pagos entre as diversas categorias de trabalhadores, parece intuitivo que, quanto maior o impacto de uma categoria na formação do lucro, maior pode ser a sua participação. Portanto, a desproporção, por si só, não milita em desfavor da contribuinte, mas está de acordo com a sua finalidade primordial: a geração de lucros. A Constituição e a lei regulamentadora também não vedam o pagamento de valores diferentes entre as diversas categorias de empregados, o que exalta a aplicação do princípio da autonomia da vontade das partes, que consiste justamente "no poder de estipular livremente, como melhor lhes convier, mediante acordo de vontades, a disciplina dos seus interesses, suscitando efeitos tutelados pela ordem jurídica"5. Em sendo assim, são válidas as seguintes justificativas trazidas em sede de impugnação: O Banco Merrill Lynch é um banco de investimentos. Em razão disto, o exercício de sua atividade empresarial se dá por meio da atuação de suas áreas de negócios, as quais são: renda fixa, renda variável, investimentos diretos, banco de investimentos 5 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro Teoria das Obrigações Contratuais e Extracontratuais. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 32. Fl. 574DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 575 64 (IBK) e pesquisas econômicas (área híbrida). São essas as áreas que trarão os negócios para o banco, prospectarão novos clientes, e é nelas que estão concentradas as metas mais agressivas a serem atingidas por seus integrantes. É deles que se cobrará mais, pois eles é que poderão influenciar de maneira efetiva no sucesso do empreendimento. Entretanto, para a realização de suas atividades, as áreas de negócios não são suficientes. São as áreas de suporte que garantem a possibilidade de as áreas de negócios realizarem seus trabalhos. As áreas de suporte são, entre outras: processamento de operações, controladoria, tecnologia de sistemas, auditoria, crédito de mercado, risco de crédito, risco operacional, serviços corporativos, jurídico, gerenciamento de projetos e recursos humanos. Essas áreas estão obrigadas a fornecer o suporte para as áreas de negócios, permitindo o melhor e mais eficiente funcionamento do banco, para atingimento das metas das áreas de negócios. Aqui os colaboradores possuem as metas menos agressivas do negócio, posto que a potencialidade de sua contribuição para a formação do resultado desejado é infinitamente menor do que aquela dos integrantes das áreas de negócios. Assim, a comissão de negociação, ao definir os critérios para o acordo de PLR do ano 2004, optou por estabelecer diferentes múltiplos para as diversas áreas de atuação. E esses múltiplos, negociados e definidos pela comissão de negociação, são os diretos geradores dos valores distribuídos aos empregados. Apresenta quadro comparativo. 11 Conclusão parcial 2 Do que foi exposto até o momento, observase que também os pagamentos efetuados com base no acordo coletivo do período aquisitivo de 2006 estão em conformidade com a lei, a par das participações distribuídas com base nas CCTs, conforme já retratado na conclusão parcial 1. 12 Da periodicidade dos pagamentos Sobre os acordos coletivos de 2007 e 2008, ainda resta analisar a acusação sobre a periodicidade dos pagamentos. Quanto ao acordo de 2007, afirmou a acusação que ocorreram de três a quatro pagamentos durante o ano, ao passo que em relação ao acordo de 2008, pontuou que houve três pagamentos e que o valor foi integralmente pago antes da apuração do lucro. Na impugnação e no recurso, a contribuinte afirmou que cada um de seus empregados recebeu apenas um pagamento a título de PLR em cada um desses anos e que as divergências apontadas diriam respeito ao pagamento da proporcionalidade devida a rescisões (v. fl. 917 do PAF 16327.001310/200945) e que os analistas de negócios teriam recebido a PLR própria no mês de julho, diferentemente dos demais, mas ainda assim em um único pagamento anual e em respeito à semestralidade. Fl. 575DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 576 65 12.1 DO ACORDO COLETIVO PERÍODO DE AQUISIÇÃO 2007 Vejase que o relatório fiscal arvorase no Anexo IV do lançamento, o qual demonstraria que o contribuinte teria pago antecipações de PLR em janeiro, fevereiro, julho e outubro de 2007. Para ilustrar, vale trazer à colação uma parte do citado anexo: Pois bem. Nem a impugnação e nem o recurso estão instruídos com os documentos que comprovariam a veracidade das alegações do contribuinte acerca das rescisões e dos analistas de negócios, embora, quanto a estes últimos, realmente nem todos os seus empregados tenham sido contemplados com pagamentos em julho de 2007 (vejase acima). Mas mesmo aqueles contemplados com pagamentos em tal mês também receberam pagamentos em janeiro, julho e outubro, o que, de qualquer forma, implica o descumprimento da regra legal. Daí se depreende que a contribuinte infringiu o disposto no § 2º do art. 3º da Lei (§ 2º vigente à época), segundo o qual era vedado o pagamento de qualquer antecipação ou distribuição de valores a título de participação nos lucros ou resultados da empresa em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil. A norma, entretanto, em nenhum momento dispôs que o descumprimento da periodicidade permitiria a descaracterização de todo o plano, nem mesmo por empregado. Ademais, o que se disse em tópico anterior, quanto à máxima eficácia da norma constitucional, é igualmente aplicável nesse contexto. Em sendo assim, apenas as parcelas tidas por irregulares, por empregado, devem sofrer a tributação, e não todas as parcelas. O STJ já enfrentou essa matéria, tendoo feito nos seguintes termos: TRIBUTÁRIO. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. PERIODICIDADE MÍNIMA DE SEIS MESES. ART. 3º, § 2º, da Lei 10.101/2000 (CONVERSÃO DA MP 860/1995) C/C O ART. 28, § 9º, "j", DA LEI 8.212/1991. REDUÇÃO DA MULTA MORATÓRIA. ART. 27, § 2º, DA LEI 9.711/1998. EXIGÊNCIA DE PAGAMENTO INTEGRAL. ART. 35 DA LEI 8.212/1991. REDAÇÃO DADA PELA LEI Fl. 576DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 577 66 9.528/1997. DISCUSSÃO ACERCA DA CONSTITUCIONALIDADE. NÃOCONHECIMENTO. [...] 7. O Banco realizou pagamentos aos empregados de modo absolutamente contínuo durante nove meses, de outubro de 1995 a junho de 1996, o que implica submissão à contribuição previdenciária, nos termos do art. 3º, § 2º, da Lei 10.101/2000 (conversão da MP 860/1995) c/c o art. 28, § 9º, "j", da Lei 8.212/1991. [...] 12. Escapam da tributação apenas os pagamentos que guardem, entre si, pelo menos seis meses de distância. Vale dizer, apenas os valores recebidos pelos empregados em outubro de 1995 e abril de 1996 não sofrem a incidência da contribuição previdenciária, já que somente esses observaram a periodicidade mínima prevista no art. 3º, § 2º, da Lei 10.101/2000 (conversão da MP 860/1995). (REsp 496.949/PR, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 25/08/2009, DJe 31/08/2009) Deste Colegiado, podem ser citados os seguintes precedente: [...] PLR. PERIODICIDADE. DESCUMPRIMENTO DA LEI DE REGÊNCIA. TRIBUTAÇÃO DAS PARCELAS EXCEDENTES. Quando se observa que o sujeito passivo não cumpriu a periodicidade legal para pagamento da PLR, devese tributar apenas as parcelas pagas em desconformidade com a Lei n. 10.101/2000. [...] (CARF, PAF 16327.721264/201208, Acórdão 2402005.011, sessão de 17 de fevereiro de 2016, Relator Kleber Ferreira de Araújo). ......................................................................................................... [...] PLR. COMISSÃO PARITÁRIA. AUSÊNCIA DE PARTICIPAÇÃO DO SINDICATO. RECUSA SEM MOTIVOS PLAUSÍVEIS. 1. O Sindicato foi intransigente e, mesmo após cientificado e intimado, simplesmente se recusou a indicar um representante para participar da comissão paritária. Fl. 577DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 578 67 2. A recusa jamais poderia obstaculizar os direitos dos trabalhadores ao recebimento da PLR e, por consequência, servir de fundamento para a tributação. PLR. PERIODICIDADE. DESCUMPRIMENTO. TRIBUTAÇÃO DAS PARCELAS EXCEDENTES. Quando se observa que o sujeito passivo não cumpriu a periodicidade legal para pagamento da PLR, devese tributar apenas as parcelas pagas em desconformidade com a Lei 10101/00. [...] JUROS DE MORA E MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. CTN E LEGISLAÇÃO FEDERAL. PRECEDENTES STJ. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício encontra fulcro legal em diversos dispositivos do CTN e da legislação tributária federal, sendo acolhida também nas decisões do STJ a respeito do tema. [...] (PAF16327.720237/201552, BANCO ABC BRASIL S.A., Sessão de 07/06/2017, Relator RONNIE SOARES ANDERSON, Acórdão 2402005.872) Expressandose de outra forma, neste caso concreto devem ser excluídos da autuação os primeiros pagamentos efetuados em cada semestre civil. 12.2 DO ACORDO COLETIVO PERÍODO DE AQUISIÇÃO 2008 O relatório fiscal assevera que ocorreram três antecipações de pagamentos (julho, outubro e dezembro v. fl. 509 do PAF 16327.001310/200945) e que o total da participação foi integralmente adimplido dentro do próprio período aquisitivo. Como foi feito no tópico anterior, vale colacionar a tabela demonstrativa dos pagamentos realizados em 2008 Anexo VI: Fl. 578DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 579 68 Aí se observa que foi descumprida a regra da periodicidade, o que conduziria à aplicação do entendimento exposto no tópico anterior. Todavia, é fato expressamente admitido pela recorrente que a participação foi integralmente paga dentro do próprio período aquisitivo. No seu entender, não haveria óbice legal a essa prática e a lei teria previsão acerca da possibilidade de antecipação. Ocorre que o § 2º encimado permite, por via transversa (ao vedar o pagamento de antecipação dentro das condições que especifica, o dispositivo permite o pagamento em outras condições), o pagamento de antecipação ou distribuição de valores, mas não, obviamente, a antecipação ou distribuição de todo o valor, mormente porque o lucro ou o resultado somente é calculado e apurado ao final do anobase. Isto é, não se pode afirmar que tenha havido a distribuição de lucros ou resultados aos trabalhadores, porque a empresa sequer tinha como apurálos antes do término do período base, negandose, pois, provimento ao recurso neste ponto. 13 Da multa e da ilegalidade de sua majoração pelo decurso do tempo A recorrente questiona o comparativo da multa mais benéfica elaborado pela fiscalização, que somou as multas devidas pelo descumprimento das obrigações principais e Fl. 579DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 580 69 acessórias, conforme legislação vigente à época dos fatos geradores, e comparou com a multa de ofício vigente à época do lançamento. Ela também questiona a majoração da multa de mora pelo decurso do tempo. Pois bem. Este relator vinha manifestando o entendimento segundo o qual a sanção pelo descumprimento da obrigação principal e a sanção pelo descumprimento da obrigação acessória têm naturezas totalmente diferentes e que a comparação, para efeito de aferição da legislação mais benéfica, deveria ser feita entre sanções de igual natureza; e que a metodologia utilizada pela fiscalização partiria do pressuposto equivocado de que o art. 35A da Lei 8.212/1991 sempre sanciona o descumprimento de obrigação acessória, o que não é verdade, pois o descumprimento isolado de tal obrigação é apenado pelo art. 32A. Expressandose de outra forma, adimplida a obrigação principal, mas não a acessória, é cabível a aplicação deste último dispositivo. Exemplificativamente, reportome ao acórdão 2402005.450, de 17 de agosto de 2016, ocasião em que meu voto, neste tocante, foi vencido pelo voto dos demais conselheiros. Desde então, a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) vem aplicando à presente discussão as conclusões contidas na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14/09, segundo a qual: Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Isto é, no entender da CSRF, deveria haver comparação entre a soma das multas por descumprimento das obrigações principal e acessórias, de acordo com a redação anterior à Lei 11941/09, com a multa de ofício calculada na forma da atual redação do art. 35 A da Lei 8212/91. Vejase: APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza Fl. 580DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 581 70 material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. (CSRF, Recurso Especial do Procurador, PAF 19647.019537/200831, acórdão 9202005.667, relatora Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, julgado em 26/07/2017, por unanimidade) Como as decisões da CSRF têm sido tomadas por unanimidade, não havendo, por outro lado, nenhuma decisão do STJ proferida em sede de recurso repetitivo, e como tem se notícia de que as próprias Turmas Ordinárias do CARF vêm igualmente aplicando a Portaria, este Conselheiro, para evitar insegurança jurídica e até mesmo a lavratura de votos vencedores numa questão que parece consolidada ao menos no âmbito administrativo, nega provimento ao recurso voluntário quanto à multa. 14 Da ilegalidade da Selic A insurgência do sujeito passivo acerca da ilegalidade da taxa Selic é rechaçada pela Súmula CARF nº 4. Desde 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal, entre os quais se incluem as contribuições devidas à seguridade social e as contribuições devidas a terceiros (Lei 11457/07, arts. 2º e 3º), são calculáveis, no período de inadimplência, de acordo com a SELIC: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. 15 Conclusão final Diante do exposto, votase no sentido de conhecer e dar parcial provimento ao recurso voluntário para excluir da autuação (a) os valores pagos com base nas CCTs 2004 a 2008; (b) os valores pagos com base no acordo coletivo 2006; (c) os primeiros pagamentos efetuados em cada semestre civil com base no acordo coletivo 2007. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Voto Vencedor Mauricio Nogueira Righetti Redator Designado. Não obstante as, como de praxe, muito bem articuladas razões do Relator, delas ouso a dissentir, como a diante abordado. No que toca à assinatura do acordo ao longo do período aquisitivo, penso, alinhandome, até então, as razões do voto condutor e voto divergente da lavra do I. Fl. 581DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 582 71 Conselheiro Ronnie Soares Anderson nos acórdãos, respectivamente, 2402006.026 e 2402 006.068, de 04.10.2017 e 03.04.2018, em função de julgados desta turma, que para aqueles acordos onde não consta minimamente o estabelecimento/previsão de uma conduta individualizada, ou por departamento/setor, não assoma como requisito imprescindível que os termos negociados sejam estabelecidos previamente ao período de aferição. Confirase do excerto a seguir, extraído dos votos acima citados. (...) Não acompanho esse entendimento, contudo, no tocante aos planos de PLR nos quais os pagamentos acordados estão desvinculados de um comportamento volitivo comprometido com o alcance de determinados objetivos. Por exemplo, quando se estabelece que os empregados de uma empresa perceberão dado PLR se aquela atingir determinados índices de lucratividade. Vejase que não há como estabelecer um liame minimamente concreto entre a prestação de serviço realizada pelo trabalhador e a lucratividade alcançada pela pessoa jurídica, tanto mais quando se trata de uma instituição financeira com milhares de funcionários. Vale dizer que nesses casos, em geral, são conduzidas negociações ao nível de convenção ou acordo coletiva, tem em vista a amplitude dos agentes envolvidos e potenciais beneficiários. Em outras palavras, não assoma como requisito imprescindível que os termos negociados sejam estabelecidos previamente ao período de aferição. Notase da fundamentação acima, que há, in casu, uma interpretação literal do dispositivo, já que o texto da Lei, ao dispor sobre a necessidade de que houvesse um "ajuste prévio", fez menção apenas aos programas de metas, seus resultados e prazos. Confirase, novamente. Não por acaso, a própria Lei 10.101/000, quando se refere objetivamente à necessidade de ajuste prévio, o faz com referência aos programas de meta, resultados e prazos especificados no inciso II do artigo, de maneira apartada, assim, da menção aos índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa, referidos no seu inciso I. Nesse rumo, abraçando e adotando, por ora, o entendimento exporto naqueles votos encimados e ao considerar que, à exceção das Convenções Coletivas de Trabalho, todos os demais instrumentos de acordos previam, ainda que en passant, a existência de metas/avaliação individual ou por setor/departamento, tenho que a assinatura desses acordos, quando já iniciado o período de aquisição, desnaturaria a PLR tal como prevista na Lei 10.101/00, fazendose necessária sua inclusão na base imponível da exação. Fl. 582DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 583 72 Por sua vez, no que tange à existência de valor fixo, tenho que tal circunstância, por si só, não descaracterizaria a PLR paga, quando o instrumento de acordo traz uma meta a ser atingida, sem a qual o pagamento não seria realizado, consoante assentou o Relator no trecho a seguir colacionado: Realmente, as CCTs previam o pagamento de um valor fixo. No entanto, e conforme já explicitado em tópico precedente, o pagamento da participação estava atrelado ao auferimento de lucros pela empresa ...(destaquei). Isso porque, no caso das CCT, a fixação de valor a ser recebido, conforme denotado pelo Relator, estaria atrelado à aferição de lucro pela empresa, presente, portanto, o incentivo à produtividade preconizado pela Lei. A seu turno, no que diz respeito à periodicidade de pagamentos, tenho que, nos casos identificados e apontados pelo Fisco exemplificados pelo Relator em seu voto em que houve pagamentos em desacordo com o § 2º do artigo 3º da Lei 10.101/2000, com a redação da época dos fatos geradores, toda a PLR paga ao respectivo trabalhador deve ser levada à tributação, independentemente do motivo e/ou instrumento de acordo que teria amparado referidos pagamentos. É esse o entendimento posto no voto condutor daquele acórdão 2402 006.026, de 04.10.2017, com o qual me filio e adoto como razões de decidir neste voto. Vejase: Pois bem, de pronto, há que se ressaltar que, na aferição do cumprimentos das regras de periodicidade, devem ser examinados todos os pagamentos efetuados a título de PLR, como bem firmado no § 2º mais acima transcrito, ainda que se verifique não possuam efetivamente tal natureza, como dantes foi constatado com relação aos pagamentos vinculados aos programas próprios/específicos e similares do contribuinte. A partir dessa premissa, deve ser apurado se houve pagamentos com base nos instrumentos coletivos em descumprimento do § 2º do art. 3º da Lei nº 10.101/00. Diante de tais situações, e com a devida vênia dos entendimentos em sentido diverso, devese aplicar dito critério legal, claro e objetivo, segundo o qual, efetuados mais de dois pagamentos de PLR em dado ano civil, ou com espaçamento inferior a um trimestre, não há falar em aplicação da norma em tela, com relação ao empregado beneficiado. Como bem observado nos seguinte trecho de recente decisão da CSRF, Acórdão nº 9202004.342 (j. 24/8/2016): (...) não estamos tratando de limite de verba não tributada, mas sim de condição para fixação de sua natureza. Ora, o pagamento em menor periodicidade do que aquela definida Fl. 583DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 584 73 em lei, tem o condão de dar natureza de complementação salarial à verba pretensamente paga a título de PLR. Ante o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso e DARLHE parcial provimento para excluir do lançamento, com relação a cada trabalhador, os valores pagos em observância à periodicidade que dispunha o § 2º do artigo 3º da Lei 10.101/2000 e que tenham se dado ao amparo das Convenções Coletivas de Trabalhado. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Declaração de Voto Conselheiro Denny Medeiros da Silveira. Com a maxima venia, divirjo quanto à possibilidade de pactuação do acordo de PLR após iniciada a sua execução e quanto ao seu pagamento em valor fixo. Da negociação prévia Antes de considerações outras, vejamos, primeiramente, o que dispõe a Lei 10.101, de 19/12/2000: Art. 1o Esta Lei regula a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7o, inciso XI, da Constituição. Art. 2o A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: [...] § 1o Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. Fl. 584DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 585 74 Segundo se extrai dos dispositivos transcritos acima, a PLR se constitui não só em um instrumento de integração entre capital e trabalho, mas também um incentivo à produtividade. Dessa forma, seu pagamento deve estar sujeito a mecanismos de aferição da produtividade, da qualidade e da lucratividade da empresa, mediante programas de metas e resultados. Nesse contexto, temse por condição necessária a avaliação do desempenho da empresa e de seus empregados, e o comprometimento destes com o atingimento das metas. Ora, se o pagamento da PLR está sujeito ao atingimento de metas e a Lei 10.101/00 estabelece, expressamente, em seu art. 2º, § 1º, inciso II, que os “programas de metas, resultados e prazos” devem ser “pactuados previamente”, por decorrência lógica, o acordo tem que ser definido e assinado antes de começar a execução do programa, ou seja, antes de iniciar do período de avaliação, o que não ocorreu no presente caso. Ademais, não se trata de “interpretação criativa” ou de “rigor interpretativo”, segundo as palavras do Relator, mas sim de interpretação literal, que é a interpretação que deve ser empreendida no caso em análise, segundo dispõe o art. 111 do Código Tributário Nacional (CTN), Lei 5.172, de 25/10/66, pois o que está em jogo é a outorga de isenção. Vejase: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: [...] II outorga de isenção; Nesse particular, trazemos à baila a seguinte lição de Hugo de Brito Machado6: Quem interpreta literalmente por certo não amplia o alcance do texto, mas com certeza também não o restringe. Fica no exato alcance que a expressão literal da norma permite. Nem mais, nem menos. Tanto é incorreta a ampliação do alcance, como sua restrição. Sendo assim, não cabe nem a interpretação teleológica e nem a interpretação axiológica, com “norte” nos “direitos sociais”, segundo pretende o Relator, mas apenas a aplicação pura do texto legal. Até por que, seguindo esse caminho hermenêutico, daremos mais segurança aos direitos sociais, pois, se aceitarmos, contra legem, que determinado acordo possa ser assinado após iniciado o período de avaliação, na expectativa de que os trabalhadores tenham tido ciência do acordo que seria assinado futuramente, poderemos, sim, estar colocando em risco os direitos sociais, uma vez que estaremos abrindo mão de uma regra clara e objetiva da lei para decidirmos com base nas subjetividades afetas ao quadro fático que envolve a PLR. Por outro lado, se o acordo for assinado previamente à execução do programa de PLR, ou seja, antes do início do período de avaliação, estará em perfeita consonância com o art. 2º, § 1º, inciso II, da Lei 10.101/00, no aspecto temporal, o que reduzirá, enormemente, a possibilidade de desconhecimento, por parte dos empregados, das regras referentes ao plano, quando da sua execução. 6 MACHADO, Hugo de Brito, Curso de Direito Tributário, 32ª edição, Malheiros, São Paulo, 2011, p. 114. Fl. 585DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 586 75 Nessa perspectiva, se conclui, portanto, que a pactuação prévia produz duplo efeito protetivo: (a) protege o crédito previdenciário contra o gozo de isenções indevidas e (b) protege o trabalhador quanto à possibilidade de ser surpreendido, durante a execução do programa, por uma regra decidida unilateralmente pelo empregador. Se a Administração Tributária não se curvar à flexibilização dessa regra tão importante, as empresas que adotam programas de PLR passarão a pactuar previamente à execução desses programas, o que dará maior garantia aos tão aclamados direitos sociais dos trabalhadores. No caso em tela, as convenções foram assinadas no final do período avaliativo, segundo se observa no seguinte excerto do relatório fiscal, fl. 48: Logo, como os acordos referentes às Convenções Coletivas de Trabalho de 2004 a 2008 não foram assinados previamente à execução dos programas de PLR, voto por manter o lançamento, na forma como operado pela fiscalização. Do pagamento em valor fixo Quanto ao pagamento da PLR em valor fixo, vejamos, de início, o que restou consignado no relatório fiscal, fl. 53: 7.22 Os instrumentos de acordo apresentados não possuem qualquer objetivo a ser cumprido, nem critério de aferição. Ao contrário, a participação nos lucros já aparece como um fato consumado, inclusive em termos de valores, o que afasta qualquer possibilidade de cumprimento e aferição de objetivos. Independentemente de qualquer atitude tomada pelo empregado após a assinatura do acordo, ele receberia a participação nos lucros. 7.23 Os valores recebidos não dependiam da obtenção de quaisquer resultados, haja vista que as determinações citadas nas convenções determinam um valor fixo independentemente do alcance de índices de produtividade, qualidade ou lucratividade, assim são regras que afastam o objeto da Lei. O pagamento de um valor previamente fixado, sem qualquer condição, ainda que a título de participação nos lucros ou resultados, consiste, na verdade, no pagamento de uma espécie de prêmio ou gratificação, uma mera liberalidade da empresa. A desnecessidade de se atingir índices de produtividade ou metas previamente estabelecidas afasta qualquer possibilidade de se vislumbrar na parcela paga a qualificação que lhe outorgou a autuada. 7.24 Em suma, o pagamento em estudo afastouse do objetivo da lei, qual seja, o de integrar capital e trabalho e incentivar a Fl. 586DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 587 76 produtividade, mediante um ajuste prévio entre empresa e empregados, para definir os resultados a serem alcançados, a forma de participação, os direitos substantivos e demais regras adjetivas. Afastouse, portanto, o contribuinte dos requisitos legais que fazem com que a participação nos lucros não integre o saláriodecontribuição. Como se vê, o pagamento de valor fixo de PLR, mesmo que a empresa tenha tido lucro, desnatura a função precípua do programa que é integrar capital e trabalho e incentivar a produtividade. Convém trazermos à baila, também, as considerações do julgado de primeiro grau, a esse respeito, fls. 302 e 303: Conforme estabelecido no § 1° do art. 2° da Lei n° 10.101/00, nos instrumentos de negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado. Porém, não foi o que se verificou na Auditoria Fiscal, não podendo a impugnante sob a alegação da natureza de abrangência ampla da Convenção Coletiva, usar como único critério para pagamento da PLR a lucratividade do setor econômico, deixando de observar todos os requisitos contidos na Lei 10.101/00. A própria impugnante em sua defesa afirma: “o valor a ser distribuído depende exclusivamente do percentual de lucratividade do banco, com variações decorrentes das métricas de 0 a 15% do lucro líquido do banco em cada exercício financeiro, bem como do percentual de crescimento do lucro líquido em comparação com o exercício anterior”. E, ainda, ao estabelecer o montante a que cada empregado teria direito sobre o lucro obtido pela instituição financeira, o fez fixando percentual sobre o salário base mais verbas fixas de natureza salarial, acrescido de um valor fixo em reais, para cada um dos anos, ou seja, 2.004, 2005, 2006, 2007 e 2008, como se verifica das próprias cláusulas transcritas pela impugnante em sua defesa. Ora, o valor da PLR a ser pago foi estabelecido previamente, consubstanciandose num valor fixo, utilizandose como único critério para tanto a obtenção de lucro pelo banco, sem que nenhuma meta tenha sido estabelecida para que o empregado tivesse direito a seu recebimento, o pagamento a título de PLR feito desta forma, não se coaduna ao espirito da Lei 10.101/00 que a instituiu, consistindo em prêmio ou gratificação, sofrendo, pois, incidência de contribuições previdenciárias. Como se nota, a decisão recorrida demonstra, de forma acertada, que uma vez tendo sido estabelecido um valor fixo, o único critério adotado para a distribuição da PLR foi a obtenção de lucro pelo banco, sem o estabelecimento de nenhuma meta que devesse ser atingida para que o empregado tivesse direito ao recebimento, o que afasta a PLR, em análise, dos reais objetivo da Lei 10.101/00. Fl. 587DF CARF MF Processo nº 16327.001312/200934 Acórdão n.º 2402006.431 S2C4T2 Fl. 588 77 Conclusão Isso posto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Fl. 588DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10840.904897/2009-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.950
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10840.902858/2010-52, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10840.902858/201052, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Winderley Morais Pereira Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório por suposto pagamento indevido ou a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. Por despacho decisório, não foi reconhecido direito creditório a favor da contribuinte e, por conseguinte, não homologada a compensação declarada no presente processo, tendo por base as constatações seguintes: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 40 .9 04 89 7/ 20 09 -5 1 Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10840.904897/200951 Resolução nº 3301000.950 S3C3T1 Fl. 3 2 a) a empresa foi intimada a esclarecer os valores mensais consignados a título de Faturamento/Receita Bruta em sua DIPJ retificadora, tendo em vista que o valor dessa rubrica foi sistematicamente reduzido nas suas DIPJ retificadoras dos anoscalendário de 2001 e 2002. Em resposta, a empresa esclarece a redução de seu Faturamento/Receita Bruta como sendo decorrente da exclusão de receitas financeiras, as quais teriam sido indevidamente incluídas na base de cálculo da contribuição; b) para o anocalendário a que se refere o presente processo não há previsão legal para exclusão, da base de cálculo do PIS e da COFINS das receitas financeiras informadas na resposta à intimação, sendo certo, portanto, que elas devem compor a base de cálculo da COFINS. Cientificada, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade postulando, em suma, para julgála integralmente procedente, com vistas à reforma do despacho decisório exarado nos autos, reconhecendose a existência do aludido crédito da empresa ora manifestante e, ato contínuo, homologandose a compensação outrora requerida, tendo em vista que é inadmissível a inclusão de receitas financeiras na base de cálculo do PIS e da COFINS, haja vista que, por força da Interpretação estabelecida tanto pelo Supremo Tribunal Federal como pelo Superior Tribunal de Justiça á Lei Federal n° 9.718, de 1998, apenas o faturamento (resultado da venda de mercadorias e serviços) poderá ser objeto de incidência daquela exação. excluídas, assim, as receitas financeiras, que não se encaixam nesse conceito: A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, em que repete os argumentos contidos na manifestação de inconformidade e adiciona os seguintes: a) deve ser aplicada o entendimento pacificado nos tribunais superiores de que é inconstitucional o alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS promovido pelo §1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98; e b) as cópias autenticadas dos livros contábeis carreadas aos autos devem ser aceitas como prova, pois foram consideradas idôneas pelo SEORT (Serviço de Orientação e Análise Tributária). É o relatório. Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10840.904897/200951 Resolução nº 3301000.950 S3C3T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.941, de 25 de setembro de 2018, proferido no julgamento do processo 10840.902858/201052, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.941): "O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade e deve ser conhecido. Reproduzo trecho do Despacho Decisório (fls. 37) que sumaria a demanda: "O presente processo trata do PerDcomp nº 13426.84222.120107.1.3.040093, de fls. 02/06, referente a suposto pagamento indevido ou a maior de Cofins – código 2172, do período de apuração – PA de dezembro de 2001, recolhido em 15/01/2002, cujo valor do crédito original na data da transmissão é R$ 3.845,02, com o qual se pretende compensar débito do IRPJ – código 2362, vencido em 28/02/2005. É o relatório. Da análise das suas DIPJ – do exercício 2002 – anocalendário 2001, original (004369110) e retificadora (126303512), juntadas às fls. 11/16, verificamos que a contribuinte retificou os valores consignados a título de “Faturamento/Receita Bruta”, no mês de dezembro de 2001, que foram alterados de R$ 3.063.856,82, para R$ 2.935.689,13, reduzindo a Cofins a pagar de R$ 87.536,02, para R$ 83.690,99. Visando verificar a regularidade do crédito ora pleiteado, através da intimação fiscal nº 481/2011/DRF/RPO/Seort, de fls.22/23, a empresa foi intimada a esclarecer os valores mensais consignados a título de Faturamento/Receita Bruta em sua DIPJ retificadora, tendo em vista que os valores dessas rubricas foram sistematicamente reduzidos nas suas DIPJ dos anoscalendário de 2001 e 2002. Em resposta apresentada em 24/05/2011, juntada às fls. 28/32, a empresa informa que a redução de seu Faturamento/Receita Bruta, no PA de dezembro de 2001, é decorrente da exclusão das receitas abaixo discriminadas e valoradas, as quais, segundo ela, teriam sido indevidamente incluídas na base de cálculo da Cofins. Rubrica R$ Comissões CDCI 11.370,29 Descontos obtidos 15.649,57 Juros recebidos 70.968,11 Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10840.904897/200951 Resolução nº 3301000.950 S3C3T1 Fl. 5 4 Receita Aplicação Financeira 5,62 Variação monetária ativa 1.169,35 Comissões de intermediação de financiamentos 29.004,44 Total 128.167,69 No entanto, para o anocalendário de 2001, não há previsão legal para exclusão da base de cálculo da Cofins das receitas acima relacionadas, sendo certo, portanto, que elas devem compor sua base de cálculo. (. . .)" Nas peças de defesa, a recorrente sustenta que são receitas financeiras, não componentes da base de cálculo da COFINS, nos termos do caput do art. 3° da Lei n° 9.718/98. A tributação de tais receitas pela COFINS foi afastada pelos tribunais superiores, notadamente pelo STF, em sede do RE 390.840/MG. E carreou cópias autenticadas do livro razão, em que figuram as contas contábeis apresentadas no quadro acima. A DRJ ratificou o posicionamento da unidade de origem, sob o argumento de que, de acordo com o art. 21 da Lei nº 12.844/13, as decisões do STF, em sede de repercussão geral, e do STJ, de recursos repetitivos, somente vinculam aquele órgão, após pronunciamento formal da PGFN. Examino a contenda. Conforme entendimento assentado, em sede de repercussão geral, pelo Supremo Tribunal Federal (Recurso Extraordinário nº 585.235), o conflagrado alargamento da base de cálculo promovido pela Lei 9.718/98 foi considerado inconstitucional. À luz do entendimento manifesto pela Suprema Corte, apenas o faturamento decorrente das atividades típicas da pessoa jurídica estão sujeitos à incidência da Cofins no sistema cumulativo de apuração da Contribuição. E o §2º do artigo 62 do Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF n° 343/2015 e alterações, determina que as matérias de Repercussão Geral sejam reproduzidas nos julgamentos dos recursos. Isto posto, resta apenas examinar a natureza das contas contábeis indicadas pelo contribuinte. O faturamento do mês foi declarado na DIPJ do anocalendário de 2002 entregue à RFB. Da leitura das cópias autenticadas dos razões contábeis, verifica se que os históricos dos lançamentos se coadunam com os títulos das contas. E alguns valores selecionados aleatoriamente para averiguação conferem com os indicados na tabela acima. Contudo, isto é não suficiente para reconhecermos o direito creditório. De acordo com o § 1° do art. 9° do Decretolei n° 1.598/77 "§ 1º A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais." Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10840.904897/200951 Resolução nº 3301000.950 S3C3T1 Fl. 6 5 Em sua defesa, a recorrente alegou que as cópias dos razões das contas seriam suficientes para comprovar a natureza das contas contábeis, pois o SEORT (Serviço de Orientação e Análise Tributária) teria "considerado idôneas as receitas financeiras alocadas ao livro razão". Entretanto, não há evidência alguma desta afirmação. Ademais, apesar de não ter negado provimento à manifestação de inconformidade por este motivo, a insuficiência das provas apresentadas também foi destacada pela DRJ. A meu ver, há indícios fortes de que a recorrente é detentora de créditos da COFINS paga a maior, mas ainda há carência de informação. Assim sendo, em respeito ao Princípio da Verdade Material, e com o objetivo de assegurar o possível direito do contribuinte à compensação de tributos pagos a maior, porém salvaguardando os interesses da Fazenda Pública, proponho a conversão do julgamento em diligência, para que o contribuinte seja intimado a apresentar à unidade de origem para validação: i) as vias originais de sua escrituração contábil; ii) a documentação suporte dos lançamentos contábeis das receitas financeiras indevidamente incluídas na base de cálculo da COFINS; iii) conciliação dos lançamentos contábeis com as bases de cálculo da COFINS, original e ajustada pela exclusão das receitas financeiras; e iv) demonstração do cálculo dos valor pago a maior, a partir da comparação entre o valor devido inicialmente apurado e o calculado após a exclusão das receitas financeiras. Deve ser elaborado relatório conclusivo e aberto prazo de trinta dias para manifestação das partes. Findo o prazo, os autos devem retornar conclusos para julgamento. É como voto." Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência para que o contribuinte seja intimado a apresentar à unidade de origem para validação: i) as vias originais de sua escrituração contábil; ii) a documentação suporte dos lançamentos contábeis das receitas financeiras indevidamente incluídas na base de cálculo do PIS e da COFINS; iii) conciliação dos lançamentos contábeis com as bases de cálculo do PIS e da COFINS, original e ajustada pela exclusão das receitas financeiras; e Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10840.904897/200951 Resolução nº 3301000.950 S3C3T1 Fl. 7 6 iv) demonstração do cálculo dos valor pago a maior, a partir da comparação entre o valor devido inicialmente apurado e o calculado após a exclusão das receitas financeiras. Deve ser elaborado relatório conclusivo e aberto prazo de trinta dias para manifestação das partes. Findo o prazo, os autos devem retornar conclusos para julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 152DF CARF MF
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Numero do processo: 11762.720126/2013-21
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Período de apuração: 17/09/2011 a 31/12/2011
MULTA POR INFORMAÇÃO OMISSA, INEXATA OU INCOMPLETA. DANO AO ERÁRIO. DESNECESSIDADE DE DEMONSTRAR.
Não há obrigação para a fiscalização de demonstrar prejuízo ao Fisco, enquanto Erário. O § 1º do artigo 69 da Lei nº 10.833/03 não faz tal exigência. Basta que o beneficiário de regime aduaneiro omita ou preste, de forma inexata, informação de natureza administrativo-tributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado.
REPETRO. INDEFERIMENTO. RECOLHIMENTO PROPORCIONAL DE TRIBUTOS.
O sujeito passivo não realizou o recolhimento proporcional de tributos, referente ao período em que o bem permaneceu em utilização econômica no País, após o indeferimento do regime do Repetro.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.776
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS DA COSTA CAVALCANTI FILHO
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DANO AO ERÁRIO. DESNECESSIDADE DE DEMONSTRAR. Não há obrigação para a fiscalização de demonstrar prejuízo ao Fisco, enquanto Erário. O § 1º do artigo 69 da Lei nº 10.833/03 não faz tal exigência. Basta que o beneficiário de regime aduaneiro omita ou preste, de forma inexata, informação de natureza administrativotributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado. REPETRO. INDEFERIMENTO. RECOLHIMENTO PROPORCIONAL DE TRIBUTOS. O sujeito passivo não realizou o recolhimento proporcional de tributos, referente ao período em que o bem permaneceu em utilização econômica no País, após o indeferimento do regime do Repetro. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 76 2. 72 01 26 /2 01 3- 21 Fl. 6649DF CARF MF 2 Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Cândido Brandão Júnior, Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 1675.179, proferido pela 21ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido, em parte: Trata o presente processo de auto de infração, lavrado em 14/10/2013, em face do contribuinte em epígrafe, formalizando a exigência de Imposto de Importação, Imposto sobre Produtos Industrializados e Contribuição PIS/COFINS, acrescidos de multa e juros de mora, além de multa equivalente ao valor aduaneiro, no valor de [...] em virtude dos fatos a seguir descritos. Bens importados com suspensão de tributos ao amparo do regime aduaneiro especial de exportação e importação de bens destinados às atividades de pesquisa e de lavra das jazidas de petróleo e de gás natural (REPETRO). A fiscalização concluiu que são devidos os tributos pelo período em que os bens permaneceram no território aduaneiro ao desabrigo do Ato Declaratório Executivo (ADE) de habilitação (em razão de indeferimento definitivo de prorrogação da habilitação e do qual não cabia mais recurso), que garantiria a suspensão total dos tributos aduaneiros. O Relatório Fiscal deixa claro que o foco da discussão não é a medida administrativa, mas a medida tributária a ser adotada em relação ao período em que o bem permaneceu no País sem amparo do Repetro, uma vez que a suspensão total do Repetro para o período nunca retroagiu com o indeferimento definitivo da habilitação. Cientificado do auto de infração, por via eletrônica, em 09/11/2013 (fls. 6.179), o contribuinte, protocolizou impugnação, tempestivamente em 02/12/2013, na forma do artigo 56 do Decreto nº 7.574/2011, de fls. 6.180 à 6.200, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante alegou que: Fl. 6650DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.650 3 PRELIMINAR LIMITES DO DIREITO À REVISÃO ADUANEIRA. A “COISA JULGADA” ADMINISTRATIVA, COROLÁRIO DO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. [...] NO MÉRITO QUANTO AO MÉRITO DAS ALEGADAS “DESCONFORMIDADES” EFEITOS [...] A "INFORMAÇÃO INEXATA” NÃO ERA NECESSÁRIA E NÃO AFETOUO “PROCEDIMENTO DE CONTROLE ADUANEIRO” [...] AS DISCREPÂNCIAS APONTADAS PELA FISCALIZAÇÃO, [...] [...] Em 25 de junho de 2014, através do Acórdão n° 16058.886, a 23ª Turma da DRJ/SPO por unanimidade de votos julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. A empresa autuada ingressou com Recurso Voluntário junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Em 19 de maio de 2016, no Acórdão n° 3302003.219, a 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara, por unanimidade de votos, DECIDIU anular a decisão de primeira instância. Assim se pronunciou o Relator, às folhas 05 do referido Acórdão: Assim, entendo que as razões deduzidas pela recorrente em sua impugnação relativas à constituição de crédito tributário de tributos proporcionais ao tempo de permanência da embarcação MAJESTIC TIDE no país, conforme excerto da impugnação de efls. 6196 a 6197, é ponto relevante e autônomo para o deslinde do litígio e sua falta de enfrentamento ensejou a alegação feita no recurso voluntário acima transcrito. Destarte, com o objetivo de garantir o contraditório e a ampla defesa, e em consonância com os artigos 31 e 59, II do Decreto n° 70.235/19721, é necessário que a DRJ se pronuncie expressamente sobre as alegações deduzidas relativas à embarcação MAJESTIC TIDE. Por fim, assim decidiu, às folhas 05 do referido Acórdão: Fl. 6651DF CARF MF 4 Diante do exposto, voto para anular o acórdão de primeira instância, para que a autoridade julgadora de primeira instância profira novo acórdão, enfrentando as razões esposadas na impugnação relativas à embarcação MAJESTIC TIDE. O citado novo acórdão da DRJ, nº 1675.179, mais uma vez, decidiu pela improcedência da impugnação, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 09/11/2004 Regime Aduaneiro Especial de Admissão Temporária. Em diversas Declarações de Importação foram omitidos ou informados elementos de forma inexata. Relação existente entre o exportador estrangeiro e o sujeito passivo, também não informada. O sujeito passivo não realizou o recolhimento proporcional de tributos, referente ao período em que o bem permaneceu em utilização econômica no País. Por ser o lançamento um procedimento vinculado, o Fisco não pode abrir mão do pagamento dos tributos proporcionais enquanto os bens permaneceram no País ao desemparo de ADE de habilitação ao Repetro em razão do indeferimento. Não se trata de punição, porque não há nenhuma espécie de sanção ou multa. Tratase apenas do pagamento dos tributos devidos. Inconformada com decisão de primeira instância, a contribuinte apresentou recurso voluntário (em substituição ao anteriormente apresentado, antes da primeira decisão da DRJ), no qual, em síntese, defende: preliminarmente; a improcedência da autuação em função da aplicação do princípio da coisa julgada administrativa e da vedação à alteração do critério jurídico; e, no mérito; aduz o não prejuízo ao Fisco pelas informações dadas como omissas ou inexatas e insurgese contra aspectos do lançamento proporcional de tributos. Foime distribuído o presente processo para relatar e pautar. É o relatório. Fl. 6652DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.651 5 Voto Conselheiro Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Relator. O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade 1. Preliminares Preliminarmente, a recorrente aduz a improcedência da autuação, ao defender os princípios: a) Limites do direito à revisão aduaneira. – A “coisa julgada administrativa, corolário do princípio da segurança jurídica” (itens 6 a 26 da Impugnação). b) Alteração do critério jurídico. (itens 27 a 32 da Impugnação). (Grifos do original). A recorrente se insurge contra a decisão recorrida, quando esta aduz que: “O procedimento da conferência física da mercadoria não se confunde, em absoluto, com o da revisão aduaneira. Possuem finalidade dispare e objetos de análise distintos.” (...) “(...) a Declaração de Importação é aquilo que o próprio nome diz: uma declaração do importador. E o desembaraço é o mero ato de liberar a mercadoria, sem homologar qualquer tipo de lançamento (...) “(...) A conferência física da mercadoria não fez coisa julgada administrativa.” A contribuinte traz julgados administrativos e doutrina que delineiam a coisa julgada administrativa: Nos dizeres de Hely Lopes Meirelles, "é sua imodificabilidade na via administrativa, para estabilidade das relações entre as partes". 1 Ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ, 1ª Seção, EDcl no MS 21.315DF, julgado de 8/6/2016, rel. Min. Diva Malerbi). Fl. 6653DF CARF MF 6 É, pois, postulado fundamental decorrente do princípio da segurança jurídica, para implicar que matérias submetidas e decididas pela administração não podem mais ser reexaminadas nesta esfera. Diferencia o procedimento aduaneiro, no sentido de que neste: a “constatação do fato gerador” é realizada pelo importador/exportador no qual fornecerá por um “lançamento” no sistema da operação (ex: Siscomex, siscoserv, sisbacen, etc) os dados da operação a fim de cadastrar no sistema e ser liberado a operação, na conclusão com o desembaraço aduaneiro. E prossegue: 14 Conforme explicitado pelo Relator da DRJ: “(...)quem conhece as atividades aduaneiras, obviamente nem sonharia em cogitar que o desembaraço aduaneiro consiste em homologação de lançamento ou, muito menos, em reconhecimento de critérios jurídicos declarados em uma DI. Até porque não há nenhum despacho decisório, orientação normativa ou parecer jurídico dentro do despacho aduaneiro(...)”. 15 Contudo, o princípio da coisa julgada não deve ser rechaçado pelo fato do desembaraço aduaneiro não “consiste em homologação de lançamento”. 16 O sujeito passivo, importador ou exportador, não pode ficar à análise eterna da autoridade fazendária, diante da agilidade do comércio exterior, cria uma instabilidade jurídica, não só nacional, mas entre operações internacionais. 17 Desta maneira, conforme preconiza o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais a coisa julgada administrativa (ou preclusão administrativa) está intimamente ligada à necessidade de estabilização da relação jurídica. 18 Devendo a coisa julgada ser reconhecida no presente caso, tendo em vista que o desembaraço aduaneiro representa o ato final no procedimento aduaneiro, salvo exceções. Em sua impugnação, a contribuinte aduz que O artigo 51, do Decretolei 37/1966, também transcrito no Relatório de Fiscalização, pg. 9, indica, sim, que o desembaraço aduaneiro faz coisa julgada administrativa (salvo o erro grosseiro ou a fraude, que quebram a coisa julgada, administrativa, em revisão aduaneira, à semelhança da Ação Rescisória em juizo), desde que tenha sido realizada a “conferência aduaneira”, o que ocorre na hipótese de despacho no “canal vermelho". Diz o tal dispositivo que: Art.51 Concluída a conferência aduaneira, sem exigência fiscal relativamente a valor aduaneiro, classificação ou outros elementos do Fl. 6654DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.652 7 despacho, a mercadoria será desembaraçada e posta à disposição do importador. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) [...] Aduz também violação do artigo 141 do Código Tributário Nacional (CTN): Art. 141. O crédito tributário regularmente constituído somente se modifica ou extingue, ou tem sua exigibilidade suspensa ou excluída, nos casos previstos nesta Lei, fora dos quais não podem ser dispensadas, sob pena de responsabilidade funcional na forma da lei, a sua efetivação ou as respectivas garantias. Depois, referese ao art. 146 do CTN, aquele que veda a alteração do critério jurídico. Nesse ponto, insurgese contra a decisão de piso alegando que esta se ampara incorretamente na “indisponibilidade do crédito tributário”. E aqui este trata, em verdade, da vinculação da atividade fiscalizatória, esculpida na parte final nos art. 141 do CTN: Funcionários do Estado, como os AFRF, não dispõem da necessária legitimidade para dispensar qualquer crédito tributário, pelo contrário, estão expressamente obrigados a exigilo, conforme se depreende dos arts. 141 e parágrafo único do art. 142 do CTN [...]. Em apertada síntese, o acórdão recorrido conclui que a conferência física da mercadoria no despacho aduaneiro não se confunde com a revisão aduaneira e que o desembaraço não homologa qualquer lançamento. Já a recorrente defende transgressão ao princípio da coisa julgada administrativa, pelo qual matérias submetidas e decididas pela administração não podem mais ser reexaminadas nesta esfera. Aduz ainda haver lançamento com o desembaraço. Diz que o “importador ou exportador, não pode ficar à análise eterna da autoridade fazendária”, surgindo a coisa julgada com o desembaraço, como forma de protegê lo desta instabilidade jurídica. Alega ainda desrespeito aos artigos 141 e 146 do CTN. Não assiste razão à contribuinte. A homologação prevista art. 150 do CTN é do lançamento e não do despacho. E só há lançamento no despacho aduaneiro, quando a autoridade administrativa lavra auto de infração no curso deste. É o que se conclui em artigo da autoria deste relator2: O art. 150 do CTN (BRASIL, 1966) define que “O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa”. Tal dispositivo divide o instituto do lançamento por homologação em duas partes: a antecipação do pagamento e o lançamento operado por ato expresso da autoridade administrativa. É pacífico na doutrina e na jurisprudência ser o lançamento por homologação a modalidade adequada aos tributos incidentes sobre as operações de 2 CAVALCANTI FILHO, A. C. C. Reclassificação Fiscal em Sede de Revisão Aduaneira. Revista da Receita Federal: Estudos Tributários e Aduaneiros, BrasíliaDF, v.01, n.01, p. 260276, ago./dez. 2014. Fl. 6655DF CARF MF 8 comércio exterior. No desembaraço, não há expressa homologação. Nem a norma a estabelece, nem a autoridade administrativa a declara. Ainda que se verifiquem a mercadoria e as respectivas informações, inclusive a classificação fiscal, não ocorre o requisito legal para que se opere esta modalidade de lançamento: a expressa homologação. Ao contrário, a lei prevê a possibilidade de revisão aduaneira, a fim de apurar as informações prestadas pelo importador, no prazo de cinco anos, mesmo as já verificadas. O parágrafo 4º do mesmo artigo afirma que a outra forma pela qual se opera o lançamento é pela via tácita: “Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação“. No caso dos tributos incidentes na importação, considerase ocorrido o fato gerador no momento do registro da Declaração de Importação (DI), como determina o art. 23, caput, do DecretoLei nº 37, de 1966, [...] e o prazo de cinco anos é evidentemente distante do desembaraço. Como não se opera o lançamento com o desembaraço, via de regra aquele se dá de forma tácita, no prazo quinquenal. [...] Em sentido estrito, só há lançamento no despacho aduaneiro, quando a autoridade administrativa lavra auto de infração no curso desse; o que ocorre, por exemplo, quando há exigência da autoridade administrativa, contra a qual se insurge o contribuinte, como previsto no art. 570, § 3º, do RA (BRASIL, 2009c). O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) endossa essa posição, conforme se percebe no excerto transcrito a seguir: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 30/11/1999 Ementa: IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. INEXISTÊNCIA. O Auto de Infração não contém qualquer ilegalidade, não restando configurada ausência de fundamentação legal a ensejar a nulidade daquele. HOMOLOGAÇÃO DE LANÇAMENTO. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. Não constitui homologação de lançamento o ato de desembaraço aduaneiro, salvo se a autoridade fiscal expressamente assim o declarar. REVISÃO ADUANEIRA. PRAZO. A verificação da regularidade da importação, em sede de revisão aduaneira, pode ocorrer no prazo de cinco anos, contado da data de registro da declaração de importação. [...]. (BRASIL, 2006b, grifo nosso). Fl. 6656DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.653 9 E mais, o 51 do Decretolei 37/1966, não dá ao desembaraço o poder de fazer coisa julgada. Ao contrário, o trecho " Concluída a conferência aduaneira, sem exigência fiscal" só corrobora o raciocínio anteriormente exposto. Também não há que se falar em mudança de critério jurídico em função do despacho para ingresso no regime em foco, aplicável o instituto a situação diversa, como se depreende de trecho do mesmo artigo: E continua o doutrinador, esclarecendo que, se dá a mudança de critério jurídico quando a “autoridade administrativa [...] simplesmente substitui uma interpretação por outra, sem que se possa dizer que qualquer das duas seja incorreta”, ou ainda “quando em face da situação de fato sobre a qual incidiu a norma se atribua a esta um significado, quando outro podia ser atribuído” (MACHADO, 2005, p. 128 e 163)3. Sobre o assunto, cita Kelsen: “a interpretação de uma lei não deve necessariamente conduzir a uma única solução como sendo a única correta, mas possivelmente a várias soluções que na medida em que apenas são aferidas pela lei a aplicar têm igual valor, se bem que apenas uma delas se torne Direito positivo no acto do órgão aplicador” (1998 apud MACHADO, 2005, p. 128). Finalmente traz a lume o seguinte exemplo: No DecretoLei nº 406, de 1968, determinado artigo traz a expressão “valor do produto ...”, inicialmente interpretado como custo de produção. Depois como preço de venda do produto. Ambas as interpretações constaram de atos normativos expedidos por autoridades competentes (MACHADO, 2005, p. 171). Citação do hoje Desembargador Federal Leandro Paulsen sobre dito art. 146, "abarcando, de um lado, a impossibilidade de retratação de atos administrativos concretos, que implique em prejuízo relativamente a situação consolidada à luz de critérios anteriormente adotados e, de outro, a irretroatividade dos atos administrativos normativos, quando o contribuinte confiou nas normas anteriores", deixa claro não se tratar do caso em pauta: não havia qualquer investigação sobre a questão estar o regime vigente ou não, muito menos situação consolidada à respeito, tampouco aplicação de nova norma distinta da aplicada anteriormente. Nesse tem decidido este CARF: DESEMBARAÇO ADUANEIRO. HOMOLOGAÇÃO DE LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. "REVISÃO ADUANEIRA". POSSIBILIDADE. É possível a "revisão aduaneira", não constituindo necessariamente tal ato “mudança de critério jurídico”. O desembaraço aduaneiro não homologa, nem tem por objetivo central homologar integralmente o pagamento efetuado pelo sujeito passivo. Tal homologação ocorre apenas com a "revisão aduaneira" (homologação expressa), ou com o decurso de prazo (homologação tácita). 3 MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao Código Tributário Nacional, volume III. São Paulo: Atlas, 2005. Fl. 6657DF CARF MF 10 (CARF, 3ª Seção, 4ª Câmara, 1ª Turma Ordinária, Ac. 3401003.199, de 23/08/2016, rel. Conselheiro Rosaldo Trevisan). A revisão aduaneira, esta que se dá em cinco anos do registro da declaração, nos termos do art. 54 do DecretoLei 37/66, em momento pós despacho. Não tendo ocorrido o lançamento sob análise no despacho aduaneiro, não foi a matéria trazida pela presente autuação sido examinada nesse momento. E assim, não há que se falar em coisa julgada administrativa, esta que só advirá quando não houverem mais recursos na esfera administrativa a serem decididos no curso do presente contencioso administrativo. Assim, nessas questões preliminares, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Mérito Segundo o Relatório de Fiscalização (fls 40 e seguintes), esta teve origem quando a Pesquisa e Seleção da Inspetoria autuante: [...] iniciou linha de pesquisa em sua jurisdição para apurar se houve: a) a correta informação de dados nas Declarações de Importação registradas sob os regimes aduaneiros especiais suspensivos de utilização econômica previstos na “Seção II – Da Admissão Temporária para Utilização Econômica”, [...]in casu, os regimes previstos no artigo 373 e na alínea “a” do inciso I do artigo 376 do Decreto nº 6.759/09; e b) recolhimento de tributos aduaneiros no período em que as embarcações do sujeito passivo permaneceram no País ao desamparo de ADE de habilitação ao Repetro, nos termos do artigo 5º da IN RFB nº 844, de 9 de maio de 2008, tendo em vista que o pedido de prorrogação ao Repetro foi indeferido. A solicitação da presente apuração foi oriunda das próprias unidades de despacho (que concedem o regime) para a SRRF07/Diana, a qual, por sua vez, centralizou, por questões de otimização de fluxo de trabalho, toda a apuração de possíveis não recolhimentos de tributos nesta Inspetoria. Nessa toada, a contribuinte, ora recorrente, foi então fiscalizada, resultando na autuação sob recurso, tendo em vista que: a) em diversas Declarações de Importação (DI) registradas pela fiscalizada, foram omitidos ou informados de forma inexata (DOC3A): 1. os dados do Fabricante/Produtor dos bens importados nessas operações (constantes da Ficha Adição), porque não condizem com os elementos apresentados pelo sujeito passivo; 2. a relação existente entre o exportador estrangeiro e o sujeito passivo, uma vez que ambos possuem um controlador estrangeiro comum, a empresa estrangeira TIDE WEATER INC.; Fl. 6658DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.654 11 3. o Método de Valoração: “Método 1 – Art. 1º do Acordo de Valoração Aduaneira (Decreto 92.930/86)”, porque as importações foram realizadas sob o regime de admissão temporária, portanto, não houve uma operação de compra e venda (1º método do AVA); e 4. o valor aduaneiro do bem, pois estes eram incompatíveis com os valores efetivamente segurados para as embarcações. b) o sujeito passivo não realizou o recolhimento proporcional de tributos, nos termos do artigo 373 do Regulamento Aduaneiro de 2009, referente ao período em que o bem permaneceu em utilização econômica no País nas hipóteses em que houve decisão definitiva de indeferimento de habilitação ao Repetro (DOC20A a 20D) pela Divisão de Administração Aduaneira da 7ª Região Fiscal (SRRF07/Diana). A conduta do item “a”, que será oportunamente detalhada em tópico posterior, enseja, em desfavor do sujeito passivo beneficiário do regime aduaneiro, a aplicação da multa de 1% sobre o valor aduaneiro, pela infringência do disposto nos §§ 1º e 2º do artigo 69 da Lei nº 10.833, 29 de dezembro de 2003, e do disposto no artigo 4o da IN SRF nº 680, de 2 de outubro de 2006, inclusive quando se tratar de mercadoria admitida em regime especial aduaneiro, consoante o disposto no inciso II do artigo 2º da IN SRF nº 680/06. De outra mão, em relação ao item “b” retro, o período em que o bem permaneceu no País ao desamparo do Repetro (em razão do indeferimento da habilitação ao regime em decisão definitiva administrativa) em ininterrupta utilização econômica enseja a cobrança de tributos proporcionais calculados “pela aplicação do percentual de um por cento, relativamente a cada mês compreendido no prazo de concessão do regime, sobre o montante dos tributos originalmente devidos” (§ 2º do artigo 373 do Regulamento Aduaneiro). Nos casos aqui apurados, o pedido de prorrogação de habilitação ao regime foi indeferido pela SRRF07/Diana e, em alguns casos, o sujeito passivo ingressou com recurso voluntário, o qual não foi provido ou não conhecido pelo Sr. Secretário da Receita Federal do Brasil. As hipóteses em que os ADEs de habilitação foram concedidos (ou cujo recurso foi provido, no caso de indeferimento), foram excluídos do presente relatório e, portanto, não foram objeto de autuação. Frisese que não se trata de punição, posto que apenas se cobra apenas os tributos proporcionais devidos ao Erário. E tributo não é penalidade. Informações omissas ou inexatas A recorrente afirma que a autuação aborda, inicialmente, “a ausência de informações detalhadas dos dados do fabricante”, mas que tal ausência “não causa prejuízo ao ente público”, em termos de arrecadação. É bem a linha exposta nos itens abaixo de sua impugnação: Fl. 6659DF CARF MF 12 Não há obrigação para a fiscalização de demonstrar prejuízo ao Erário. O § 1º do artigo 69 da Lei nº 10.833/03 não faz tal exigência. Basta que o beneficiário de regime aduaneiro omita ou preste, de forma inexata ou incompleta, informação de natureza administrativotributária, cambial ou comercial necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado, o que ocorre no caso em pauta. Como bem coloca o acórdão recorrido, “não se trata apenas de prejuízo ao erário público e sim a importância das informações para o desempenho do controle aduaneiro”. E acrescenta: Por serem os Imposto de Importação e de Exportação tributos com caráter extrafiscal, o dano ao Erário não se relaciona apenas a questão de “quanto de tributo deixou de ser recolhido”. Querer restringir à atividade aduaneira a uma função de mera coletora de tributos é desconsiderar sua precípua função de proteção ao mercado interno e as implicações que permeiam o desempenho dos controles aduaneiros. Entende a recorrente que “a autoridade fiscalizadora possui para revisão aduaneira, prazo este de 5 anos, é suficiente para uma análise de qualquer ação ilícita ou que tenha potencial de ser”. Traz o princípio de cooperação entre o administrado e o administrador”, concluindo que “O erro a fim de ser ajustado deve ser corrigido e não coagido por aplicação de penalidade. Os dispositivos legais que determinaram a autuação não prevêm uma tal colaboração, mas sim a aplicação das penalidades objeto da autuação. A revisão aduaneira é instrumento de verificação de apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames e da exatidão das informações prestadas pelo importador e foi realizada em tempo. Aduz a recorrente que o STJ e o TRF4 têm trazido o entendimento de que “o preenchimento equivocado da guia de importação quando da descrição ou detalhamento da mercadoria ou integrantes na operação são insuficientes para caracterizar infração administrativa quando foi recolhido o tributo e não houve prejuízo para a Administração”. Não está este CARF adstrito a decisões judiciais de caso concreto. Ademais, há de prevalecer a proteção ao controle aduaneiro que objetiva a penalidade em foco. Sobre a ausência de informação da vinculação entre exportador e importador, diz que, de fato, “as empresas são pertencentes ao mesmo grupo econômico”, “o que segundo a lei tributária, não é suficiente para considerar a existência de vinculo para fins tributários”. Afirma que tendo juntado toda a documentação referente as empresas, demostra “que não visa nenhuma fraude ou impedimento ao controle aduaneiro”. Novamente, a proteção ao controle aduaneiro deve prevalecer. A norma penalizadora não exige prova de intenção, como aliás é a regra da responsabilidade na esfera aduaneira tributária, nos termos do art. 136 do Código Tributário Nacional. Fl. 6660DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.655 13 Quanto à acusação sobre o método de valoração, diz a recorrente que a fiscalização não lhe oportunizou apresentar explicações da ausência de informação da vinculação entre exportador e importador, nos termos dos artigos 15 e 16 do Decreto 2.498/98. Alega também que não houve prejuízo ao erário. Novamente, devese privilegiar a proteção ao controle aduaneiro. Ademais, tais dispositivos se referem ao procedimento de controle de valor, no contexto da revisão aduaneira, distinto da penalidade por informação omissa ou inexata. Falta de recolhimento proporcional de tributos Relativamente à “falta de recolhimento proporcional de tributos referente ao período em que o bem permaneceu em utilização econômica no país”, insurgese a recorrente. O acórdão recorrido descreve a "instrução processual da habilitação à concessão do regime" e suas prorrogações, para todas as embarcações (texto reproduzido no recurso voluntário, salvo pelos dois últimos parágrafos): ▪ O sujeito passivo foi contratado por uma Operadora para a prestação de serviços na área de petróleo e gás no território aduaneiro; ▪ Em seguida, solicitou sua habilitação ao Repetro e, por atender aos requisitos normativos estabelecidos na IN RFB n° 844/08, obteve um Ato Declaratório Executivo (ADE) de habilitação; ▪ De posse desse ADE, importou temporariamente o bem estrangeiro contratado (embarcação) e solicitou a concessão inicial da admissão temporária para utilização econômica (Repetro) em uma unidade de despacho local da RFB, a qual fixou o prazo de permanência do bem com base nos elementos apresentados; ▪ Antes de findo o vencimento do contrato de prestação de serviços, o sujeito passivo e a Operadora assinaram um aditivo ao contrato, dilatando assim o lapso temporal dos serviços a serem prestados (sem que houvesse qualquer tipo de interrupção); ▪ De posse do aditivo contratual e antes de expirado o prazo fixado no ADE, o sujeito passivo protocolizou pedido de prorrogação da habilitação ao Repetro na SRRF07/Diana; ▪ Em seguida, também antes de findo o prazo fixado para a admissão temporária, o sujeito passivo protocolizou pedido de prorrogação do Repetro, mas instruiu o procedimento com o protocolo do requerimento de habilitação que apresentou na SRRF07/Diana E NÃO COM O ADE VIGENTE, CONSOANTE DETERMINA O COMANDO DO INCISO II DO § 1° DO ARTIGO 21 DA IN RFB N° 844/08; Fl. 6661DF CARF MF 14 ▪ Algum tempo depois, o pedido de prorrogação da habilitação ao Repetro foi indeferido pela SRRF07/Diana, porque o sujeito passivo deixou de atender a determinados requisitos essenciais para obtenção da prorrogação da habilitação; e ▪ Inconformado, o sujeito passivo apresentou recurso voluntário ou desistiu do recurso. Os recursos julgados findaram administrativamente. Ao longo de todo esse período (do protocolo do pedido até o indeferimento da prorrogação da habilitação e mais a fase recursal, quando foi o caso), não houve desvio de finalidade, pois os bens permaneceram no País em utilização econômica atendendo aos serviços constantes do objeto pelo qual o sujeito passivo foi contratado. É importante destacar que a nenhum dos recursos foi dado o efeito suspensivo a que se refere o artigo 61 da Lei n° 9.784/99. E que apenas os pedidos indeferidos de prorrogação da habilitação ao Repetro, cuja decisão final foi desfavorável ao sujeito passivo, são objeto da presente ação fiscal, ora em análise. A recorrente então afirma: 48 Em uma breve tradução, o autuado requereu todos os pedidos antes dos prazos de validades dos respectivos documentos expirarem. 49 Ressalta que o autuado no pedido de prorrogação do Repetro anexou a habilitação com ADE vigente na época, mas que se encontrava próximo de expirar, e ainda o protocolo do pedido de prorrogação de habilitação para emissão de novo ADE. 50 Logo, a autuada não pode ser penalizada pela morosidade administrativa, neste aspecto temos o entendimento do jurista Paulo Hoffman: [...] 50 Desta forma, como aduzido incialmente pelo Relator da DRJ, os tributos proporcionais são devidos pelo tempo de permanência em território nacional e não pelo tempo de permanência no regime. O autuado estava sob regime aduaneiro especial, não lhe enquadrando aos tributos proporcionais, logo não sendo devidos pelo tempo de permanência em território nacional e sim pelo tempo de permanência ao regime. 51 Sendo que após o tempo concedido do regime aduaneiro especial, a autuada permaneceu com as embarcações em reparo sem atividade econômica, restando em manutenção, aspecto este permitido pela legislação da época e a vigente. Não assiste razão à recorrente. Não foi penalizado por qualquer morosidade administrativa, ainda que conforme descrito na autuação, "Os julgamentos dos recursos voluntários levaram muitos meses em análise na Coana até que a decisão do Sr. Secretário fosse proferida". A Solução de Consulta Interna n° 1 SRRF07/Disit, de 17 de julho de 2013, ressalta que "apenas o deferimento do Fl. 6662DF CARF MF Processo nº 11762.720126/201321 Acórdão n.º 3301004.776 S3C3T1 Fl. 6.656 15 pedido de habilitação ao Repetro gera efeitos tributários" suspensivos "ex tunc", o que não ocorre, a contrario sensu, no caso presente de indeferimento. Vale dizer, se tivesse, ao final e ao cabo do processamento do pedido de prorrogação da habilitação obtido o deferimento de seu pedido, nada teria a recolher. Como o pedido lhe fora negado, o tributo é devido desde a vigência anterior do regime. Se, após o "tempo concedido do regime aduaneiro especial", as embarcações permaneceram "em reparo sem atividade econômica", nada significa para o regime de admissão temporária para utilização econômica, ao qual ficaram submetidas, ao saírem do abrigo do Repetro: pela regra do art. 373 do Decreto 6.759/09 (Regulamento Aduaneiro então vigente) os tributos incidem sobre "Os bens admitidos temporariamente no País para utilização econômica" "proporcionalmente ao seu tempo de permanência no território aduaneiro", independentemente da efetiva utilização econômica, como bem apontou o acórdão recorrido. A DRJ distingue, em seu voto, "tempo de permanência em território nacional" de "tempo de permanência no regime" e, em seu relatório, destaca que "A fiscalização concluiu que são devidos os tributos pelo período em que os bens permaneceram no território aduaneiro ao desabrigo do Ato Declaratório Executivo (ADE) de habilitação (em razão de indeferimento definitivo de prorrogação da habilitação e do qual não cabia mais recurso)" e que "a medida tributária a ser adotada em relação ao período em que o bem permaneceu no País sem amparo do Repetro, uma vez que a suspensão total do Repetro para o período nunca retroagiu com o indeferimento definitivo da habilitação". No restante, faço minhas as conclusões do acórdão ora recorrido. Portanto, nas questões de mérito, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Conclusão Assim, por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Fl. 6663DF CARF MF 16 Fl. 6664DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.908553/2011-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 30/06/2001
BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. SUBVENÇÃO LEI N° 9.479/97 PIS. BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/1998. FATURAMENTO. RECEITA OPERACIONAL. Entende-se por faturamento, para fins de identificação da base de cálculo do PIS e da COFINS, o somatório das receitas oriundas da atividade operacional da pessoa jurídica, ou seja, aquelas decorrentes da prática das operações típicas previstas no seu objeto social.
RECEITA DE SUBVENÇÃO DA LEI N° 9.479/1997. SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO. A receita da subvenção concedida pela Lei n° 9.479/1997 às usinas beneficiadoras de borracha integra a base de cálculo do PIS e da COFINS, por se tratar de subvenção para custeio.
PIS/COFINS. RECEITAS DAS ATIVIDADES-FIM
Estão sujeitas à incidência do PIS e da COFINS apenas as receitas derivadas das atividades-fim. Desta forma, não compõem a base tributável as receitas financeiras, descontos obtidos e despesas recuperadas.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3301-005.036
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento para afastar a exigência sobre descontos obtidos, receitas financeiras e despesas recuperadas. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10850.908549/2011-58, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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RESTITUIÇÃO. ALARGAMENTO DA BC. Recorrente BRASLATEX INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE BORRACHAS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 30/06/2001 BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. SUBVENÇÃO LEI N° 9.479/97 PIS. BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/1998. FATURAMENTO. RECEITA OPERACIONAL. Entendese por faturamento, para fins de identificação da base de cálculo do PIS e da COFINS, o somatório das receitas oriundas da atividade operacional da pessoa jurídica, ou seja, aquelas decorrentes da prática das operações típicas previstas no seu objeto social. RECEITA DE SUBVENÇÃO DA LEI N° 9.479/1997. SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO. A receita da subvenção concedida pela Lei n° 9.479/1997 às usinas beneficiadoras de borracha integra a base de cálculo do PIS e da COFINS, por se tratar de subvenção para custeio. PIS/COFINS. RECEITAS DAS ATIVIDADESFIM Estão sujeitas à incidência do PIS e da COFINS apenas as receitas derivadas das atividadesfim. Desta forma, não compõem a base tributável as receitas financeiras, descontos obtidos e despesas recuperadas. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento para afastar a exigência sobre descontos obtidos, receitas financeiras e despesas recuperadas. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10850.908549/201158, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 85 53 /2 01 1- 16 Fl. 203DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 3 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). Relatório Trata o presente processo de Pedido Eletrônico de Restituição de crédito da Contribuição para o PIS/Pasep. A DRF de São José do Rio Preto (SP), por meio do despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte. Cientificada do despacho, a empresa apresentou a manifestação de inconformidade, nesses termos: · Preliminarmente, requer a reunião deste processo com outros que tratam da mesma matéria e têm os mesmos fundamentos; · No mérito, defende que o recolhimento indevido decorre da inconstitucionalidade do art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/1998, já declarada pelo STF em sede de repercussão geral; · Alega que a autoridade administrativa não analisou a causa do recolhimento indevido (a inconstitucional ampliação da base de cálculo pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718); · Sustenta que a decisão do STF, no RE nº 585.235, deve ser observada, obrigatoriamente, pela autoridade administrativa; · Reiterou que é devido o crédito pleiteado no PER/DCOMP, por se tratar de PIS/COFINS calculado sobre receita que não integra o seu faturamento. Anexou à sua manifestação de inconformidade: planilha demonstrativa do pagamento indevido de PIS/COFINS sobre receitas financeiras, cópia de parte do livro diário e termos de abertura e encerramento. A DRJ indeferiu a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 14042.478. A DRJ rejeitou a reunião de processos solicitada, por dois motivos: para pedidos de restituição, a reunião de processos em um só deve ser realizada apenas quando tenham por base o mesmo crédito, o que não é o caso dos processos relacionados pela interessada, pois cada um se refere a um determinado período de apuração, implicando em créditos distintos e os elementos de prova são distintos para cada fato gerador, ou seja, as provas de um processo não aproveitam aos demais. Fl. 204DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 4 3 Quanto ao mérito, a negativa do reconhecimento do crédito se deu em virtude da ausência de prova do pagamento indevido; da nãovinculação da autoridade administrativa ao RE nº 585.235; da ausência de DCTF retificadora e da cópia parcial do livro diário apresentada, que não permitiria apurar a base de cálculo com as exclusões pretendidas, para se chegar ao valor devido e comparálo com o valor recolhido. Em seu recurso voluntário, a empresa: · Reitera o pedido de reunião deste processo com outros 38 processos que tratam da mesma matéria: recolhimentos indevidos de PIS e COFINS, apurados em diversos meses, decorrentes da majoração da base de cálculo pelo art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. · Alega que é inconteste que a DCTF não é o único meio de prova da existência de crédito passível de restituição, nem o art. 165 do CTN nem o art. 74 da Lei nº 9.430/96 condicionam o reconhecimento do crédito à retificação de declarações. · Faz a juntada do seu livro razão, que entende ser suficiente para comprovar o recolhimento indevido. · Sustenta que a base de cálculo do PIS e da COFINS deveria ter sido composta por valores correspondentes ao seu faturamento, ou seja, os ingressos que correspondem às suas receitas de vendas de mercadorias e prestação de serviços e não por suas receitas financeiras. Esta Turma de Julgamento converteu o julgamento em diligência, Resolução n° 3301000.383, de 28 de junho de 2017, para verificar os argumentos da Recorrente no tocante à inclusão das receitas financeiras na base de cálculo do PIS e da COFINS. Nessa oportunidade, foi solicitado à Unidade de Origem que: examinasse a escrita fiscal da Recorrente, para identificar a indevida inclusão das receitas financeiras indicadas no Livro Diário, na base de cálculo do PIS e da COFINS, em decorrência da aplicação do cálculo do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98 e apontasse a exatidão do valor pleiteado pelo Recorrente, bem como se a utilização deste foi efetivamente realizada. Na informação fiscal resultante da diligência, a autoridade fiscal concluiu que, das contas contábeis de receita apontadas pela recorrente como indevidamente computadas na base de cálculo do PIS e da COFINS, somente a de "receita de subvenção" era realmente tributável e cuja contribuição incidente, por conseguinte, não poderia ser considerado como crédito a compensar. Cientificado do encerramento da diligência, não houve manifestação da empresa. É o relatório. Fl. 205DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301005.027, de 28 de agosto de 2018, proferido no julgamento do processo 10850.908549/201158, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301005.027): "De acordo com a Resolução n° 3301000.379, o julgamento deste processo deve seguir a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF n° 343, de 09 de junho de 2015. E, desta forma, adotar a decisão proferida por meio do Acórdão n° 3301004.594, em sede do processo 10850.906106/201122, da lavra da i. Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. O citado Acórdão n° 3301004.594 soluciona a questão nuclear deste processo a incidência ou não de PIS sobre a subvenção prevista na Lei n° 9.479/97 , pelo que, para tanto, adotáloei como razão de decidir. Contudo, antes de reproduzilo, enfrento as preliminares e a parte do mérito da causa que diz respeito ao cômputo na base de cálculo do PIS de outros tipos de receitas. Destaco que as soluções das questões de mérito foram instruídas pela conclusão do trabalho de diligência ("Informação Fiscal" nas fls. 191 a 196). Preliminares Reunião de processos A recorrente pede a reunião de 29 processos administrativos que teriam o mesmo objeto do presente, fundada no princípio da economia processual. Dos PAs listados, alguns já foram julgados por esta turma, outros aguardam retorno de diligência e dez estão em pauta para julgamento por outra turma do CARF. Desta forma, não há qualquer providência a ser tomada por esta turma. Falta de aprofundamento da investigação dos fatos falta de retificação da DCTF Insuficiência de provas Preclusão da produção das provas Fl. 206DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 6 5 Alega que o Despacho Decisório foi emitido, sem que fossem requeridos documentos para fazer prova da higidez dos créditos que pleiteou, contrariando o art. 142 do CTN. Que a alegação da DRJ de que a DCTF não foi retificada não é legítima e afronta o princípio da verdade material. Que juntou aos autos planilha de cálculo, guias de pagamento e livro diário. Contudo, a DRJ julgou ser insuficiente para a confirmação dos créditos. Com base nos artigos 258 e 923 do RIR/99, aduz que os livros contábeis constituem prova das operações. Assim, terseia como precário o julgamento realizado pela DRJ. E, por fim, que a DRJ antecipouse aos atos processuais seguintes, declarando que qualquer prova que a partir de então fosse apresentada seria tida como preclusa. Os pleitos já haviam sido atendidos, na medida em que esta turma converteu o julgamento em diligência, para que fosse efetuado o cotejo entre as bases de cálculo e os livros contábeis. Mérito Reitera que as receitas que originaram os pagamentos indevidos de PIS não devem compor a base de cálculo do PIS, por força da inconstitucionalidade do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98, reconhecida pelo STF. Enfrenta a alegação da DRJ de que decisões do STF acerca da inconstitucionalidade do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98 não vinculam os órgão de julgamento administrativo, trazendo decisões administrativas e judiciais no sentido de que, por se tratar de posicionamento exarado em sessão plenária e já pacificado naquela corte, deve ser seguido pelas esferas administrativas de julgamento. O processo foi convertido em diligência, para que fossem fossem respondidos os seguintes quesitos (fl. 148): ”a) Examine a escrita fiscal da Recorrente, para identificar a indevida inclusão das receitas financeiras indicadas no Livro Diário, na base de cálculo do PIS e da COFINS, em decorrência da aplicação do cálculo do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98; b) Aponte a exatidão do valor pleiteado pelo Recorrente, bem como se a utilização deste foi efetivamente realizada; c) Requeira ao sujeito passivo a apresentação de documentos ou esclarecimento complementares; d) Cientifique a interessada do resultado da diligência, abrindo prazo para manifestação; e) Após, retornar o processo ao CARF para julgamento." A diligência foi realizada e a "Informação Fiscal" (fls. 191 a 196) encontrase nos autos. O auditor relatou que a recorrente não atendeu às intimações e, por isto, limitouse às informações presentes nos autos. Fl. 207DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 7 6 Então, revisou as bases de cálculo anexadas à manifestação de inconformidade, Diário e Razão e verificou que o contribuinte considerou como indevidamente computadas na base de cálculo do PIS de fevereiro de 2001 as seguintes contas contábeis (fl. 192): "DESCONTOS OBTIDOS CONTA 3.6.1.1.002: R$ 24,94 RECEITA DE APLICAÇÃO FINANCEIRA CONTA 3.6.1.1.004: R$ 170,17 RECUPERAÇÃO DE DESPESAS CONTA 3.6.1.3.001: R$ 100,00 RECEITA DE SUBVENÇÃO CONTA 3.7.1.2.001: R$ 91.622,69" E assim concluiu seu exame (fl. 195): "11. Das receitas alegadas indevidamente tributadas podese considerar “aportes financeiros estranhos à atividade desenvolvida pela empresa” todas, exceto a Receita de Subvenção da Lei 9.479/1997. 12. A subvenção, concedida pela Lei nº 9.479, de 12 de agosto de 1997 (fls. 183 a 185) e regulamentada pelo Decreto nº 2.348, de 13 de outubro de 1997 (fls. 186 a 189), tratavase de subsídio pago pelo Ministério da Agricultura aos seguintes beneficiários: i) extrativistas, ii) cultivadores ou iii) beneficiadores de borracha natural no país. Era calculada com base na quantidade (em Kg) do coágulo de látex vendido pelos extrativistas ou cultivadores ou na quantidade de borracha beneficiada pelas usinas, vendidas ao comprador final ou exportadas, vide REGULAMENTO PARA CONCESSÃO DESUBVENÇÃO ECONÔMICA À COMERCIALIZAÇÃO DA BORRACHA NATURAL Nº 001/99, às fls 162 a 182. Correspondia à diferença entre os preços de referência da borracha nacional e os preços dos produtos congêneres no mercado asíático, como forma de enfrentar, no mercado nacional, a concorrência da borracha produzida na Ásia, facilitando o escoamento da produção nacional. 13. A atividade do contribuinte, conforme cláusula quarta de seu contrato social, é a indústria de latex e produtos de borracha, comércio, importação e exportação de produtos de borracha. A subvenção recebida por kg de borracha beneficiada vendida, tendo que ser requerida mediante apresentação de comprovantes de compra de borracha natural bruta e das notas fiscais de venda da borracha beneficiada emitidas pelo beneficiário (fls. 162 a 182) não é receita financeira e sim receita da operação da empresa. Tal receita decorre do exercício do objeto social da empresa, e compõe o seu faturamento. A Receita de Subvenção da Lei 9.479 de 12 de agosto de 1997, no valor de R$91.622,69, recebida em Fevereiro/2001 na qualidade de usina beneficiadora credenciada é receita operacional da BRASLATEX, e mesmo antes da vigência da lei 9.718/98 já integraria seu faturamento nos termos da LC nº 7, de 1970, posteriormente regulada pela Medida Provisória no 1.212, de 1995 (e reedições), e pela Lei no 9.715, de 1998 sendo tributada pelo PIS." (g.a.) Fl. 208DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 8 7 Concordo plenamente com a conclusão da diligência. As receitas com descontos obtidos (conta 3.6.1.1.002), aplicação financeira (conta 3.6.1.1.004) e recuperação de despesas (conta 3.6.1.3.001) não derivam das atividades típicas da recorrente, pelo que não se incluem no conceito de faturamento, base de cálculo do PIS e da COFINS, prevista no art. 3° da Lei n° 9.718/98. No tocante à "receita de subvenção" da Lei n° 9.479/97, verificase o contrário, isto é, tratase de receita tributável pelo PIS e COFINS. Como fundamento deste entendimento, transcrevo o Acórdão n° 3301004.594 (paradigma), do qual faço minha razão de decidir (§ 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/98): "Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. No tocante à reunião dos processos, entendo que não há nada a se deferir, pois 20 (vinte) dos processos listados foram convertidos em diligência (publ. 21/07/2014) e julgados em acórdãos de procedência para a Recorrente (publ. 27/03/2015), tendo em vista a confirmação dos créditos. Os demais processos citados pela Recorrente em seu recurso são repetitivos, que estão vinculados ao julgamento deste presente processo (paradigma), em decorrência do § 2º do art. 47 do anexo II da Portaria MF nº 343/2015. MÉRITO Inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98 O alcance do termo faturamento abarcando a atividade empresarial típica restou assente no RE nº 585.235/MG, no qual se reconheceu a repercussão geral do tema concernente ao alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, reafirmando a jurisprudência consolidada pelo STF: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ DE 1º.9.2006; REs nº 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006). Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/98. No voto, o Ministro Cezar Peluso consignou: O recurso extraordinário está submetido ao regime de repercussão geral e versa sobre tema cuja jurisprudência é consolidada nesta Corte, qual seja, a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, violando, assim, a noção de faturamento pressuposta na Fl. 209DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 9 8 redação original do art. 195, I, b, da Constituição da República, e cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais... Observese outros precedentes da Corte Suprema: RE 683.334 AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Segunda Turma, DJ 13/08/2012, RE 390.840, Rel. Min. Marco Aurelio, DJ 15/08/2006 e ainda, no mesmo sentido: RE 608.830AgR; RE 621.652AgR; RE 371.258AgR; AI 716.675AgRAgR; AI 799.578AgR; RE 656.284; ARE 643.823/PR; AI 776; ARE 645.618; RE 630.728; 621.675; RE 390.840; RE 654.840 e RE 641.052. Dessa forma, considerase receita bruta ou faturamento o que decorre da venda de mercadorias, da venda de serviços ou de mercadorias e serviços, não se considerando receita de natureza diversa. É o resultado econômico da atividade empresarial estatutária (operacional), que constitui a base de cálculo do PIS. O art. 62, § 1º, I, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343 de 9 de junho de 2015, dispõe que: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos detratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; Logo, o entendimento do STF deve ser aplicado no presente caso, para afastar a tributação do PIS e da COFINS exigida com base no disposto no art. 3º, §1º, da Lei n.º 9.718/1998. Nesse contexto, esta Turma converteu o julgamento em diligência para verificar a indevida inclusão das receitas não operacionais na base de cálculo do PIS, conforme reclamado pela Recorrente. Todavia, a diligência demonstrou que a receita supostamente não integrante do faturamento é Receita de Subvenção da Lei n° 9.479/1997. Dessa forma, entendo que não assiste razão ao apelo, porquanto considero tal receita operacional, logo integrante do faturamento da Recorrente. É do que trato a seguir. Receita de Subvenção da Lei n° 9.479/1997 Afirmou a Recorrente que o valor de R$ 30.705,00 foi recebido em maio de 1999 na qualidade de usina beneficiadora credenciada, nos termos da Lei n° 9.479/1997. Fl. 210DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 10 9 A Lei nº 9.479/1997 concedeu subvenção econômica a produtores de borracha natural. Confirase: Art. 1º Fica o Poder Executivo autorizado a conceder subvenção econômica aos produtores nacionais de borracha natural, com o objetivo de incentivar a comercialização da produção nacional. § 1º A subvenção corresponderá à diferença entre os preços de referência das borrachas nacionais e os dos produtos congêneres no mercado internacional, acrescidos das despesas de nacionalização. § 2º Os preços de referência das borrachas nacionais, para efeito de cálculo da subvenção econômica, serão aqueles fixados pelo Poder Executivo e em vigor na data da publicação desta Lei, podendo ser revistos periodicamente. § 3º Os preços dos produtos congêneres no mercado internacional serão apurados e divulgados periodicamente pelo Poder Executivo, com base nas cotações das principais bolsas de mercadorias internacionais. Art. 2º A subvenção econômica de que trata o artigo anterior: I terá a duração de oito anos; II será de até R$ 0,90 (noventa centavos de real) por quilograma de borracha do tipo Granulado Escuro Brasileiro nº 1 (GEB1), sendo que, para os demais tipos de borracha, este teto sofrerá os ágios e deságios correspondentes; III sofrerá rebates, respectivamente, de vinte por cento, quarenta por cento, sessenta por cento e oitenta por cento, a partir do final do quarto, do quinto, do sexto e do sétimo anos de vigência desta Lei, sobre o teto de que trata o inciso anterior. Parágrafo único. Os rebates referidos no inciso III deste artigo só poderão ser aplicados à subvenção incidente sobre a borracha oriunda de seringais nativos da região amazônica na medida em que forem implantados pelo Poder Executivo os programas de que trata o art. 7º. As condições operacionais para pagamento e controle da subvenção foram dispostas pelo Decreto n° 2.348/1997: Art. 1º A subvenção econômica de que trata a Lei nº 9.479, de 12 de agosto de 1997, corresponderá à diferença entre: I os preços de referência das borrachas nacionais fixados na Portaria nº 187, de 29 de junho de 1995, do Ministério da Fazenda, publicada no Diário Oficial da União em 30 de junho de 1995; e II os preços dos produtos congêneres no mercado internacional, tomandose como base referencial o da borracha tipo Standard Malaysian Rubber nº 10 (SMR 10), acrescidos das despesas de nacionalização. Fl. 211DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 11 10 § 1º O Ministério da Agricultura e do Abastecimento, responsável pelo pagamento da subvenção econômica, publicará o valor da subvenção devida por quilograma de cada um dos tipos de borracha constantes da Portaria de que trata o inciso I deste artigo, tendo em conta: a) a média aritmética das cotações médias diárias da borracha natural do tipo Standard Malaysian Rubber nº 10 (SMR10), equivalente ao tipo Granulado Escuro Brasileiro nº 1º (GEB1), nas bolsas de mercadorias de Singapura, Kuala Lumpur e Londres nos quinze dias anteriores ao da publicação dos preços, com as respectivas cotações das moedas de negociação em dólar americano; b) que a conversão cambial do dólar americano de que trata a alínea anterior, para a moeda brasileira, deverá ser realizada com base na cotação daquela moeda na véspera da publicação dos preços; c) as despesas de nacionalização relativas a impostos, encargos sociais, seguros, frete, adicional de frete, armazenagem e outras prevalentes à época de apuração e publicação dos preços. § 2º Os valores das subvenções publicados pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento prevalecerão até a véspera da publicação dos novos valores. Art. 2º A subvenção econômica de que trata o artigo anterior: I terá a duração de oito anos; II será de até R$0,90 (noventa centavos de real) por quilograma de borracha do tipo Granulado Escuro Brasileiro nº 1 (GEB1), sendo que, para os demais tipos de borracha, este teto sofrerá os ágios e deságios correspondentes; III sofrerá rebates, respectivamente, de vinte por cento, quarenta por cento, sessenta por cento e oitenta por cento, a partir do final do quarto, do quinto, do sexto e do sétimo anos de vigência da Lei nº 9.479, de 1997, sobre o teto de que trata o inciso anterior, observado o que dispõe o parágrafo único do art. 2º da mencionada Lei; IV para efeito de cálculo dos ágios e deságios e dos correspondentes rebates nos preços dos demais tipos de borracha, conforme estabelecem os incisos I e Il anteriores, será tomado como referencial o preço da borracha tipo GEB 1 eguardada a correlação de preços constantes da Portaria de que trata o inciso I do art. 1º deste Decreto. Art. 3º São beneficiárias da subvenção econômica de que trata este Decreto os extrativistas, cultivadores ou beneficiadores, sejam pessoas físicas ou jurídicas, dedicados à produção de borracha natural no País. Parágrafo único. A fruição do benefício a pessoas jurídicas fica condicionada à comprovação, junto ao Ministério da Agricultura Fl. 212DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 12 11 e do Abastecimento, de sua capacidade jurídica e regularidade fiscal. Art. 4º O pagamento da subvenção econômica aos beneficiários será feito por intermédio das usinas beneficiadoras credenciadas pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento, mediante: I apresentação do pedido de ressarcimento da subvenção ao Ministério da Agricultura e do Abastecimento, acompanhado de relação contendo o nome do produtor, seu Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou Cadastro Geral de Contribuinte CGC, local de produção ou de extração, tipo da borracha natural correspondente, quantidade do produto adquirido, em quilogramas, o preço respectivo pago ao produtor, os números e as datas das notas fiscais representativas das transações efetivadas; II cópia das notas fiscais de venda da borracha beneficiada às indústrias consumidoras do produto, acompanhada da comprovação do aceite e da certificação do tipo de borracha comercializado, fornecida pela compradora final. § 1º O pagamento de que trata este artigo será efetivado pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento no prazo de dez dias, contados a partir da data de recebimento do pedido, respeitados os limites por tipo de borracha comercializado prevalentes na data de efetivação da transação, considerada para esse efeito a data constante da nota fiscal respectiva. § 2º O pagamento de subvenção relativa à compra de borracha de pessoas jurídicas produtoras estará condicionado à satisfação da condição estabelecida no parágrafo único do artigo anterior. Art. 5º As usinas beneficiadoras, credenciadas pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento, manterão em seus arquivos uma via das notas fiscais emitidas pelos produtores de borracha natural, ou documento legal equivalente, contendo no verso o atestado do beneficiário de recebimento da subvenção econômica correspondente. Parágrafo único. Os documentos comprobatórios de que trata este artigo serão conservados pelas usinas beneficiadoras em boa ordem, no próprio lugar onde forem contabilizadas as operações, à disposição dos agentes incumbidos do controle interno e externo e dos órgãos ou entidades responsáveis pela subvenção. Art. 6º O Ministério da Agricultura e do Abastecimento: I estabelecerá, em ato normativo, as condições para credenciamento das usinas beneficiadoras de borracha; II orientará as pessoas jurídicas sobre a forma de apresentação da comprovação de que trata o parágrafo único do art. 3º deste Decreto; III registrará e controlará os pagamentos efetuados e gerenciará o provimento dos recursos necessários à concessão da subvenção; Fl. 213DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 13 12 IV estabelecerá normas complementares de controle, visando a boa e regular aplicação dos recursos. Parágrafo único. Dentre as condições para credenciamento das usinas beneficiadoras constará a de comprovação de sua capacidade jurídica e regularidade fiscal. A subvenção era paga ao beneficiador de borracha natural, pessoa física ou jurídica, cadastrado junto à Secretaria de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, que comprovasse a compra da borracha natural bruta do produtor e posterior exportação ou venda da borracha beneficiada para empresas da indústria consumidora final. E quanto ao pagamento da subvenção, o montante correspondia à quantidade de produto comercializado e comprovado, multiplicado pelo valor unitário da subvenção definida pelo Ministério da Agricultura. Nos termos da Resolução CFC nº 1.305, de 25 de novembro de 2010, por meio da qual o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) aprovou a NBC TG 07 (R1), “Subvenção governamental é uma assistência governamental geralmente na forma de contribuição de natureza pecuniária, mas não só restrita a ela, concedida a uma entidade normalmente em troca do cumprimento passado ou futuro de certas condições relacionadas às atividades operacionais da entidade”. A subvenção deve ser tratada como receita pela entidade beneficiada: 12. Uma subvenção governamental deve ser reconhecida como receita ao longo do período e confrontada com as despesas que pretende compensar, em base sistemática, desde que atendidas as condições desta Norma. A subvenção governamental não pode ser creditada diretamente no patrimônio líquido. Entendo que apenas as subvenções para investimento podem ser consideradas não operacionais. É o dispõe o art. 44 da Lei n° 4.506/64: Art. 44. Integram a receita bruta operacional: I O produto da venda dos bens e serviços nas transações ou operações de conta própria; II O resultado auferido nas operações de conta alheia; III As recuperações ou devoluções de custos, deduções ou provisões; IV As subvenções correntes, para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais. Fl. 214DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 14 13 Por sua vez, o Parecer Normativo CST nº 112, de 29 de dezembro de 1978 (DOU de 11/01/1979), distingue subvenção de custeio e subvenção para investimento: 2.11 – Uma das fontes para se pesquisar o adequado conceito de SUBVENÇÕES PARA INVESTIMENTO é o Parecer Normativo CST nº 2/78 (DOU de 16.01.78). No item 5.1 do Parecer encontramos, por exemplo, menção de que a SUBVENÇÃO para INVESTIMENTO seria a destinada à aplicação em bens ou direitos. Já no item 7, subentendese um confronto entre as SUBVENÇÕES PARA CUSTEIO ou OPERAÇÃO e as SUBVENÇÕES PARA INVESTIMENTO, tendo sido caracterizadas as primeiras pela não vinculação a aplicações específicas. Já o Parecer Normativo CST nº 143/73 (DOU de 16.10.73), sempre que se refere a investimento complementao com a expressão em ativo fixo. Desses subsídios podemos inferir que SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO é a transferência de recursos para uma pessoa jurídica com a finalidade de auxiliála, não nas suas despesas, mas sim, na aplicação específica em bens ou direitos para implantar ou expandir empreendimentos econômicos. Essa concepção está inteiramente de acordo com o próprio § 2º do art. 38 do DL 1.598/77. 2.12 – Observase que a SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO apresenta características bem marcantes, exigindo até mesmo perfeita sincronia da intenção do subvencionador com a ação do subvencionado. Não basta apenas o “animus” de subvencionar para investimento. Impõese, também, a efetiva e específica aplicação da subvenção, por parte do beneficiário, nos investimentos previstos na implantação ou expansão do empreendimento econômico projetado. Por outro lado, a simples aplicação dos recursos decorrentes da subvenção em investimento não autoriza a sua classificação como SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. (...) 3.6 Há, também, uma modalidade de redução do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias (ICM), utilizada por vários Estados da Federação como incentivo fiscal, que preenche todos os requisitos para ser considerada como SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. A mecânica do benefício fiscal consiste no depósito, em conta vinculada, de parte do ICM devido em cada mês. Os depósitos mensais, obedecidas as condições estabelecidas, retornam à empresa para serem aplicados na implantação ou expansão de empreendimento econômico. Em alguns casos que tivemos oportunidade de examinar, esse tipo de subvenção é sempre previsto em lei, da qual consta expressamente a sua destinação para o investimento; o retorno das parcelas depositadas só se efetiva após comprovadas as Fl. 215DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 15 14 aplicações no empreendimento econômico; e o titular do empreendimento é o beneficiário da subvenção. (...) I – As SUBVENÇÕES CORRENTES PARA CUSTEIO OU OPERAÇÃO integram a resultado operacional da pessoa jurídica; as SUBVENÇÕES PARA INVESTIMENTO, o resultado não operacional. Do exposto, concluise que a subvenção da Lei n° 9.479/1997 é de custeio, porquanto a Recorrente recebeu em dinheiro, por kg de borracha beneficiada vendida. A atividade do contribuinte, conforme cláusula quarta de seu contrato social, é a indústria de látex e produtos de borracha, comércio, importação e exportação de produtos de borracha. Ao contrário do que alega, tal receita não pode ser classificada como receita financeira, porque não decorre da aplicação de recursos financeiros. Isso porque o Decreto nº 3.000/1999, no art. 373 c/c art. 375, parágrafo único, elenca como “receitas financeiras” os juros, o desconto, o lucro na operação de reporte e os rendimentos de aplicações financeiras de renda fixa, além das variações monetárias, em função da taxa de câmbio ou de índices ou coeficientes aplicáveis, por disposição legal ou contratual. Em suma, na qualidade de usina beneficiadora credenciada, a receita da subvenção concedida pela Lei n° 9.479/1997 é receita operacional tributável pelo PIS. Conclusão Do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário" Conclusão Dou provimento parcial ao recurso voluntário, para acatar créditos relativos ao PIS sobre descontos obtidos, receitas financeiras e despesas recuperadas. É como voto." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado tanto à COFINS quanto à Contribuição para o PIS/Pasep, sendo que na informação fiscal resultante da diligência, a autoridade fiscal concluiu que "Das receitas alegadas indevidamente tributadas podese considerar “aportes financeiros estranhos à atividade desenvolvida pela empresa” todas, exceto a Receita de Subvenção da Lei 9.479/1997". Fl. 216DF CARF MF Processo nº 10850.908553/201116 Acórdão n.º 3301005.036 S3C3T1 Fl. 16 15 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu dar provimento parcial ao recurso voluntário, para acatar créditos relativos ao PIS e a COFINS sobre descontos obtidos, receitas financeiras e despesas recuperadas. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 217DF CARF MF
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Numero do processo: 12268.000079/2009-63
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
AUTO DE INFRAÇÃO. DEIXAR DE ARRECADAR AS CONTRIBUIÇÕES DOS SEGURADOS
Constitui infração à legislação deixar a empresa de arrecadar, mediante desconto nas remunerações, as contribuições dos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço, sujeitanto-se a pena administrativa de multa.
Numero da decisão: 2202-004.780
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson- Presidente.
(Assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Júnia Roberta Gouveia e Dilson Jatahy Fonseca Neto
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson- Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Júnia Roberta Gouveia e Dilson Jatahy Fonseca Neto
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DEIXAR DE ARRECADAR AS CONTRIBUIÇÕES DOS SEGURADOS Constitui infração à legislação deixar a empresa de arrecadar, mediante desconto nas remunerações, as contribuições dos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço, sujeitantose a pena administrativa de multa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Júnia Roberta Gouveia e Dilson Jatahy Fonseca Neto AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 26 8. 00 00 79 /2 00 9- 63 Fl. 80DF CARF MF 2 Relatório Conforme descrito no Relatório fiscal (fls.08) tratase de lançamento de multa isolada por descumprimento de obrigação acessória por ter deixado a empresa de arrecadar, mediante desconto nas remunerações, as contribuições dos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço. O contribuinte apresentou a Impugnação de fls. 22/33, na qual alegou, resumidamente, que: a) Ausência de fundamentação legal; b) Necessidade de sobrestamento do julgamento deste Auto de Infração A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba negou provimento à Impugnação, em decisão cuja ementa é a seguinte (fls. 50): Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 AUTO DE INFRAÇÃO. DEIXAR DE ARRECADAR AS CONTRIBUIÇÕES DOS SEGURADOS Constitui infração à legislação deixar a empresa de arrecadar, mediante desconto nas remunerações, as contribuições dos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço, sujeitantose a pena administrativa de multa. Cientificado da referida decisão (AR fls. 53) o contribuinte apresentou o recurso voluntário de fls. 55/66 no qual reitera as alegações já suscitadas. É o relatório. Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual, dele conheço Alega o Recorrente que o presente lançamento é nulo em razão da ausência da competente fundamentação legal e que a referida ausência teria sido reconhecida pela própria decisão recorrida. Sem razão o Recorrente. Conforme se verifica pela leitura do relatório fiscal como pela decisão da DRJ o presente lançamento encontrase devidamente motivado, conforme se constata pelo trecho abaixo transcrito: Fl. 81DF CARF MF Processo nº 12268.000079/200963 Acórdão n.º 2202004.780 S2C2T2 Fl. 81 3 Conforme relatado, o presente Auto de Infração foi lavrado em razão da empresa deixar arrecadar, mediante desconto nas remunerações, as contribuições dos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço, referentes ao período de 01/2004 a 12/2004. Vejamos, pois o que diz a Lei 8.212/91 a respeito dessa obrigação acessória: Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas: I a empresa é obrigada a: a) arrecadar as contribuições dos segurados empregados e trabalhadores avulsos a seu serviço, descontandoas da respectiva remuneração: Portanto, temse por afastada a alegação de ausência de fundamento legal e cerceamento do direito de defesa. (grifos no original) Em relação ao pedido de sobrestamento do presente lançamento em razão do lançamento da obrigação principal é importante esclarecer que, além da ausência de previsão regimental nesse sentido, os processos estão sendo apensados e serão julgados conjuntamente. Assim, eventual decisão favorável ao processo principal acabará por refletir na decisão proferida no presente processo. Em face do exposto, nego provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 82DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.902222/2009-37
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2005
PER/DCOMP. RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. SALDO NEGATIVO. DIREITO CREDITÓRIO. PERDA DO OBJETO.
Verificado nos autos que o recurso voluntário informa do pagamento em Darf do débito pleiteado a ser compensado em Per/Dcomp, e a desistência do processo, caracteriza da perda de objeto da peça recursal e o respectivo não conhecimento.
Numero da decisão: 1402-003.450
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário por perda de objeto. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado) e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2005 PER/DCOMP. RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. SALDO NEGATIVO. DIREITO CREDITÓRIO. PERDA DO OBJETO. Verificado nos autos que o recurso voluntário informa do pagamento em Darf do débito pleiteado a ser compensado em Per/Dcomp, e a desistência do processo, caracteriza da perda de objeto da peça recursal e o respectivo não conhecimento.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário por perda de objeto. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado) e Paulo Mateus Ciccone.
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RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. SALDO NEGATIVO. DIREITO CREDITÓRIO. PERDA DO OBJETO. Verificado nos autos que o recurso voluntário informa do pagamento em Darf do débito pleiteado a ser compensado em Per/Dcomp, e a desistência do processo, caracteriza da perda de objeto da peça recursal e o respectivo não conhecimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso voluntário por perda de objeto. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni (suplente convocado), Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado) e Paulo Mateus Ciccone. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 90 22 22 /2 00 9- 37 Fl. 54DF CARF MF Processo nº 10925.902222/200937 Acórdão n.º 1402003.450 S1C4T2 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis SC, em primeira instância administrativa, que julgou IMPROCEDENTE, a manifestação de inconformidade do contribuinte em epígrafe, agora recorrente. Do Despacho Decisório: Trata o presente processo da Declaração de Compensação, na qual a recorrente alega possuir crédito contra a Fazenda Pública, decorrente de pagamento a maior ou indevido de antecipações por estimativa, buscando extinguir por compensação de débito próprio, conforme detalhamento que consta no Despacho Decisório acostado aos autos. Transmitida, o PER/Dcomp recebeu da DRF de origem o Despacho Decisório de "não homologação da compensação", cujas razões de negação se fundam no fato de que o pagamento a título de estimativa mensal somente pode ser utilizado na dedução do IRPJ ou da CSLL ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Da Manifestação de Inconformidade: Inconformada com o despacho decisório, a recorrente interpôs a manifestação de inconformidade, na qual alega que tem direito à restituição/compensação do valor pago a maior, seja qual for a modalidade de pagamento. Aduz ainda que a matéria não pode ser regulada por meio de instrução normativa, e sim por lei. E por fim, afirma a liquidez e certeza de seu crédito. Da decisão da DRJ Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento: A DRJ, em seu julgamento, por unanimidade considerou improcedente a manifestação de inconformidade, e não reconheceu o direito creditório pleiteado, e consequente não homologação da compensação do PER/Dcomp objeto do presente processo. Do Recurso Voluntário: A recorrente, na sua peça recursal, pede anulação dos valores cobrados no presente processo, pois quitou os débitos em discussão na per/dcomp, através de DARFs especificados como anexo. É o relatório. Fl. 55DF CARF MF Processo nº 10925.902222/200937 Acórdão n.º 1402003.450 S1C4T2 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.441, de 20/09/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10925.902212/2009 00, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.441): "Antes de adentrar no mérito, cabe informar que o julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, sendo o paradigma. Verificase nos autos que o recurso voluntário informa do pagamento em Darf do débito pleiteado a ser compensado em Per/Dcomp, e a desistência do processo, caracteriza da perda de objeto da peça recursal. Destarte, não se conhece do recurso voluntário por perda do objeto. É como voto." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por não conhecer do recurso voluntário por perda de objeto. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 56DF CARF MF
score : 1.0
