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Numero do processo: 11070.721963/2015-28
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012
Súmula CARF nº 108
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
GLOSA DE CRÉDITOS ILEGÍTIMOS TOMADOS PELO ADQUIRENTE EM RAZÃO DE ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL COMETIDO PELO FORNECEDOR.
Constatado pela fiscalização que a classificação fiscal de insumos no fabricante estava errada, reduzindo a zero o IPI destacado nas notas fiscais de saída, legítima a glosa do IPI creditado a maior no comprador.
Recurso Especial do Procurador provido e Recurso Especial do Contribuinte negado.
Numero da decisão: 9303-007.869
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente
(Assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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Interessado FAZENDA NACIONAL e VONPAR REFRESCOS S.A. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. GLOSA DE CRÉDITOS ILEGÍTIMOS TOMADOS PELO ADQUIRENTE EM RAZÃO DE ERRO DE CLASSIFICAÇÃO FISCAL COMETIDO PELO FORNECEDOR. Constatado pela fiscalização que a classificação fiscal de insumos no fabricante estava errada, reduzindo a zero o IPI destacado nas notas fiscais de saída, legítima a glosa do IPI creditado a maior no comprador. Recurso Especial do Procurador provido e Recurso Especial do Contribuinte negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente (Assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 07 0. 72 19 63 /2 01 5- 28 Fl. 2100DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 3 2 Jorge Olmiro Lock Freire – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de recurso especial de divergência oposto pela Fazenda Nacional (fls. 1632/1646), admitido pelo despacho de fls. 1648/1650, insurgindose contra parte do acórdão 3402003.800, de 26/01/2017, que deu provimento ao recurso voluntário para afastar os juros de mora sobre a multa de ofício. Nessa parte, eis a ementa: JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A literalidade do artigo 61, caput e §3º da Lei n. 9.430, de 1996, separa os débitos tributários das penalidades (multas de ofício), determinando a incidência dos juros só sobre os primeiros, e não sobre as segundas. Assim falta previsão legal para a incidência da Selic sobre a multa de ofício imposta nos autos de infração lavrados pela RFB. O contribuinte contraarrazoou o recurso fazendário (fls. 1690/1706), postulando, em suma, que seja negado provimento àquele. Igualmente, o contribuinte interpôs recurso especial de divergência (fls. 1752/1819) requerendo o cancelamento integral do auto de infração. O despacho de admissibilidade de fls. 1996/2006, de 14/03/2018, admitiu parcialmente o recurso exclusivamente em relação à possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Agravado esse despacho pelo contribuinte (fls. 2049/2058), o mesmo foi rejeitado (fls. 2061/2066) pela Presidente da CSRF. A ementa do recorrido não fez menção expressa quanto à esta matéria, mas foi objeto de análise expressa. Na parte admitida, sustenta que deve prevalecer o entendimento dos acórdãos paradigmas (3401003.751 e CSRF/0202.895), pois, afirma, agiu licitamente ao aceitar a classificação fiscal dos produtos fornecidos pela RECOFARMA, constante de nota fiscal idônea. Alega não mais existir previsão regulamentar no sentido de que o adquirente deveria verificar a classificação fiscal do produto indicada pelo fornecedor. Por tal, entende que não pode o crédito ser glosado nem aplicada multa de ofício. De fls. 2073/2090, contrarrazões da PGFN. Inicialmente, alega a procuradoria que o recurso não deve ser conhecido porque os paradigmas tratam de crédito básico de IPI, enquanto o recorrido versa sobre crédito incentivado de IPI. Reportase ao TVF que articula esse fato em seu item 100. Acresce que "a sistemática do crédito presumido e a do crédito escritural são completamente diversas, não havendo como se comparar duas situações distintas". Em relação ao paragonado nº CSRF/0202.895, assevera que nesse julgado o que Fl. 2101DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 4 3 estava em discussão era a exigência de multa regulamentar por erro de classificação fiscal, situação que não se confunde com a destes autos em que não está sob análise a responsabilidade por infração. Quanto ao mérito, em resumo, consigna que o cerne da demanda é o descumprimento dos requisitos legais para o aproveitamento do crédito de IPI e não, propriamente, a regularidade formal do preenchimento da nota fiscal, o que conduziria à rejeição da tese no particular. Entende que constatado o erro de classificação fiscal, impõese o lançamento do tributo pela autoridade fiscal nos termos do art. 142 do CTN. Alfim, pede a Fazenda que seja negado provimento ao recurso especial de divergência interposto pelo contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire Relator I RECURSO DA FAZENDA NACIONAL Conheço do recurso nos termos e fundamentos do despacho que o admitiu. Acerca do recurso especial fazendário, descabe maiores digressões ante o teor da Súmula 108 do CARF, aprovado em setembro deste ano, cujo enunciado dispõe: Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Assim, é de ser provido o especial do Procurador para que sobre a multa de ofício aplicada ao lançamento incida a taxa SELIC. II RECURSO DO CONTRIBUINTE CONHECIMENTO O recurso especial do contribuinte foi admitido unicamente quanto à possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Ao contrário do que pondera a Fazenda, entendo que a questão de fundo travada no paradigma 3401003.751 é a mesma, independentemente de tratarse de crédito básico ou ficto, posto que o mérito é a possibilidade de glosarse crédito escritural indevido em função de reclassificação fiscal dos produtos adquiridos. Mas com razão a Fazenda ao alegar que o outro paragonado é imprestável por falta de similitude fática, vez que naquele a matéria referiase à penalidade que então constava no RIPI pela falta de comunicação ao adquirente quando constatado pelo comprador erro na nota fiscal quanto às suas formalidades, inclusive erro na classificação fiscal das mercadoria adquiridas. Fl. 2102DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 5 4 O seguimento do despacho pelo Presidente da Quarta Câmara desta Terceira Seção, concluiu da seguinte forma: Com fundamento nos artigos 18, III, 67 e 68, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, DOU SEGUIMENTO PARCIAL ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo, admitindo a rediscussão da matéria possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Portanto, ao contrário do afirmado na motivação do despacho de admissibilidade, apenas essa questão pode ser conhecida. Em consequência, descabido o argumento do subscritor do despacho quando assevera em relação à matéria admitida, o seguinte: A admissão desta divergência devolve à CSRF o conhecimento das seguintes matérias alegadas como divergentes, mas que na verdade são argumentos do contribuinte para infirmar a tese fazendária: a) se houve ou não houve mudança de critério jurídico no lançamento; e b) competência da Suframa para aprovar projetos de concessão de benefícios fiscais e validade do Ato Administrativo emitido pela Suframa. Essas duas divergências alegadas pelo contribuinte nada mais são do que argumentos utilizados para contestar a glosa dos créditos efetuada pela fiscalização. Não é necessário apresentar paradigmas contra argumentos. Admitida a tese divergente, a CSRF escolherá qual tese irá prevalecer e os argumentos que a sustentarão. Ora, as questões de alteração de critério jurídico e a competência da SUFRAMA são argumentos autônomos e assim foram articulados pela recorrente, devendo claramente ser cotejadas com algum paradigma com a devida similitude fática. Portanto, estreme de dúvida, demandariam motivação e análise particular, o que não foi feito, pelo que, inclusive, não constam do despacho do Sr. Presidente da Quarta Câmara. Assim, o que subiu para nossa análise foi o determinado especificamente ao final pela autoridade competente quanto ao teor das matérias admitidas. E esta foi transcrita acima, qual seja, possibilidade de efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo adquirente em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Em suma, somente em relação a essa questão é que conheço do recurso, porém exclusivamente com arrimo no aresto paradigma 3401003.751, vez que o CSRF/02 02.895 trata de matéria em que não há similitude fática. III RESUMO DOS FATOS Consta dos autos, que a empresa VONPAR Refrescos S/A, CNPJ n° 91.235.549/000978, tem como ramo de atividade a fabricação de refrigerantes. No período de janeiro de 2011 a dezembro de 2012, o estabelecimento produziu os seguintes refrigerantes: CocaCola, CocaCola Zero, CocaCola Light, Fanta Laranja, Fanta Uva, Sprite, Guaraná Kuat, Guaraná Kuat Light e Guaraná Taí. Fl. 2103DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 6 5 No referido período, a maior parte dos créditos do IPI escriturados pela autuada foram oriundos de insumos adquiridos da empresa RECOFARMA, esta situada na Zona Franca de Manaus (ZFM), a qual elabora produtos destinados à fabricação de bebidas não alcoólicas da posição 22.02 da Tabela de Incidência do IPI (TIPI). Tais produtos são constituídos de até seis componentes, sendo que cada componente sai do estabelecimento industrial em embalagem individual. Esses produtos são distribuídos para diversas fábricas engarrafadoras espalhadas no território nacional, que atuam em regime de franquia. A VONPAR é uma dessas franqueadas. No presente processo, o Fisco revisou sua posição sobre o RE nº 212.484RS, no qual a autuada foi autora, tendo o julgado transitado em julgado em seu favor, concordando com o entendimento de que ele continua com efeitos válidos entre as partes. Assim, admite que a empresa autuada tem o direito de aproveitar créditos do IPI correspondentes ao valor do tributo incidente sobre produtos procedentes da Zona Franca de Manaus, mesmo que os bens recebidos somente façam jus à isenção do artigo 81, inciso II, do RIPI/2010 (artigo 69, inciso II, do RIPI/2002). Nas notas fiscais de saída emitidas até o final de 2010, a RECOFARMA identificou esses produtos como "concentrados contendo kits", formados por "partes". Ressaltase que nas notas fiscais de saída emitidas pela RECOFARMA não há destaque de IPI, tendo sido registrado que os produtos estariam isentos do IPI com base nos artigo 69, inciso II, e artigo 82, inciso III, do Decreto n° 4.544, de 2002 (RIPI). Verificouse que nas notas fiscais de saída emitidas até o final do ano de 2010, a RECOFARMA registrou que os “concentrados” se classificariam no código 2106.90.10 (Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas). Gizese que os produtos enquadrados neste código são tributados à alíquota zero. A partir de janeiro de 2011, passou a constar nas notas a indicação do "Ex 01" do código 2106.90.10 (Preparações compostas, não alcoólicas extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Em janeiro de 2011, a RECOFARMA emitiu cartas de correção relativas à ausência da indicação do "Ex 01" nas notas emitidas nos anos anteriores. Até 30/09/2012, os produtos enquadrados no "Ex 01" do código 2106.90.10 eram tributados à alíquota de 27% (Decreto nº 6.006, de 28/12/2006, e Decreto nº 7.660, de 23/12/2011). A partir de 01/10/2012, os produtos enquadrados no "Ex 01" do código 2106.90.10, passaram a ser tributados à alíquota de 20%. Ao final, a fiscalização demonstra em seu Relatório de Ação Fiscal, que apesar de a VONPAR, por força do o RE nº 212.484RS, ter direito a se creditar do valor do tributo incidente sobre insumos adquiridos sob o regime de isenção, permanece plenamente justificada a glosa total dos créditos oriundos de "kits para refrigerantes", por ser igual a zero o valor do IPI calculado, como se devido fosse, sobre os produtos em questão. IV DELIMITAÇÃO DA LIDE Como dito alhures, o que foi devolvido ao nosso conhecimento foi a questão acerca da possibilidade do Fisco efetuar a glosa de créditos ilegítimos tomados pelo Fl. 2104DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 7 6 adquirente, no caso a autuada, em razão de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor. Portanto, desde já afastase a discussão sobre o mérito quanto à classificação fiscal dos produtos que saíram da RECOFARMA isoladamente e que, desta forma, foram reclassificados pelo Fisco. Para que dúvida não paire, vejase o teor do despacho de admissibilidade do recurso de divergência do contribuinte sobre qual a correta classificação fiscal. Para que reste caracterizado o dissídio jurisprudencial, na forma exigida pelo regimento, é necessário que os Acórdãos confrontados tenham interpretado a mesma norma jurídica quando aplicada a fatos iguais ou semelhantes, implicando a adoção de entendimentos distintos. No caso concreto, nenhum dos paradigmas apresentados decidiu se os diversos componentes dos "kits" devem ser classificados como uma mercadoria única ou separadamente. Analisando o inteiro teor do Acórdão 3201001.873, verificase que a questão da classificação fiscal dos "kits" nem sequer foi levantada pela fiscalização. O colegiado tratou os "kits" como mercadoria única porque a fiscalização não questionou a classificação adotada pelo contribuinte. O recurso voluntário foi parcialmente provido neste paradigma porque o colegiado entendeu que o contribuinte tinha direito à manutenção do crédito com base no art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75. Analisando o inteiro teor dos paradigmas 20301.939 e CSRF/0303.335, verificase que eles versaram sobre a classificação fiscal de cosméticos, tendo restado decidido que os certificados de registro expedidos pelo Ministério da Saúde deveriam ser considerados, pois se trata de órgão técnico que analisa a composição química de cada produto. A situação fática versada nesses paradigmas é totalmente distinta da do caso concreto, pois a Suframa não analisa a composição dos produtos, como ocorre com outros órgãos técnicos da Administração Pública, como o Ministério da Agricultura, Ciência e Tecnologia, Vigilância Sanitária e etc. A Suframa se limita a aprovar o projeto acolhendo as informações prestadas pelos interessados em se instalar em Manaus. Os Atos Administrativos expedidos pela Suframa não analisaram a composição química dos concentrados e nem se eles se enquadram na posição X ou Y da tabela. Portanto, inexistindo divergência entre a tese fixada no Acórdão recorrido e os paradigmas acima analisados, o recurso especial não pode ter seguimento quanto à questão da classificação fiscal dos chamados "kits para produção de refrigerantes". ... Uma vez fixada a premissa de que a classificação fiscal adotada pela fornecedora dos concentrados está errada, resta a Fl. 2105DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 8 7 conclusão de que o insumo é classificado em uma outra posição da tabela, cuja alíquota, segundo o fisco, é zero. Se a alíquota é zero, então o crédito é zero. Se o crédito é zero e o contribuinte se apropriou de um crédito maior do que zero, o excesso deve ser glosado da escrita. E, segundo a tese de mérito adotada no Acórdão recorrido, essa glosa pode ser feita porque a coisa julgada formada no RE 212.484 só ampara o crédito ficto em relação a produtos isentos. ... Portanto, está perfeitamente caracterizado o dissídio jurisprudencial, pois enquanto no caso concreto o colegiado prolator do acórdão recorrido decidiu que é possível glosar créditos tomados em excesso pelo adquirente, em virtude de erro de classificação fiscal cometido pelo fornecedor dos insumos; no paradigma colacionado a tese adotada foi diametralmente oposta, no sentido de que não é possível efetuar essa glosa, resultando no cancelamento do crédito tributário correspondente. V A LEGITIMIDADE DA FISCALIZAÇÃO EM GLOSAR CRÉDITOS DO ADQUIRENTE, AUTUADO, EM FUNÇÃO DA RECLASSIFICAÇÃO DOS PRODUTOS ADQUIRIDOS DA RECOFARMA, FORNECEDOR. Alega a recorrente que não tinha a obrigação de verificar a regularidade da classificação fiscal indicada na Nota Fiscal para o "concentrado" e que os créditos de IPI objeto do auto de infração em julgamento, foram apurados sob a vigência de Lei e do RIPI, que não impõem a obrigação de o adquirente examinar a classificação fiscal do produto. E como a classificação dos concentrados na posição 2106.90.10 "Ex. 01", foi definida pela RECOFARMA (fornecedora do concentrado), não há qualquer infração praticada por ela ao aceitar tal classificação fiscal e utilizar a respectiva alíquota para calcular o crédito de IPI isento, sendo esse procedimento um ato lícito. Em suma, entende que não pode o Fisco glosar a alíquota do crédito de IPI decorrente da aquisição do concentrado pela recorrente, fundado em suposto erro da classificação fiscal efetuada pela fornecedora RECOFARMA. No caso, há que se ressaltar uma questão de fato que foi ignorado pela autuada. Conforme consta em Termos e Relatórios elaborados pelo Fisco, nas Notas Fiscais de saída emitidas pela VONPAR até o final do ano de 2010, a RECOFARMA registrou que os “concentrados” se classificariam no código 2106.90.10 (Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas), sem o "Ex 01", cuja alíquota do IPI é zero. Ademais, a recorrente, conforme TVF, tinha ciência que o Fisco com base em MPF nacional estava executando trabalho no estabelecimento da RECOFARMA em Manaus, tendo sido analisado o direito creditório ao aproveitamento de créditos de IPI por parte dos adquirentes da RECOFARMA localizados em todo território nacional. Inclusive, consta no item 33 do TVF, que por meio de Termos lavrados pela DRF de Porto Alegre em 12/11/2013 e em 20/12/2013, a matriz da Vonpar foi cientificada de que o trabalho na RECOFARMA estava em andamento. Em 29/12/2014, em termo lavrado no estabelecimento da Vonpar, esta tomou ciência da conclusão do trabalho realizado na RECOFARMA. Portanto, a autuada estava ciente Fl. 2106DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 9 8 de que os créditos que vinha aproveitando estavam, antes da ciência do lançamento, no entender da fiscalização, errados, pois a alíquota, para o Fisco, seria zero. O TVF acresce: "(...) 70) Em Impugnação ao Auto de Infração lavrado por meio do processo nº 11080.733630/201441, Vonpar alegou que as notas fiscais emitidas pela Recofarma atendiam a todos os requisitos legais, tendo declarado que “conforme referência expressa contida nas notas fiscais emitidas pela RECOFARMA”, a empresa adquiriu concentrados isentos, amparados pela isenção prevista no art. 82, III, do RIPI/02 e classificados na posição 2106.90.10 Ex. 01 da TIPI/2006. 70.1 Na realidade, por muitos anos constou nas notas fiscais emitidas por Recofarma apenas o registro do código de classificação fiscal 2106.90.10, cuja alíquota é zero, sem a indicação do Ex 01". O Fisco também relatou que somente nas notas fiscais emitidas a partir de janeiro de 2011, passou a constar a indicação do "Ex 01" do código 2106.90.10, e que em janeiro de 2011 a RECOFARMA emitiu as respectivas cartas de correção relativas à ausência da indicação do "Ex 01" para as notas emitidas nos anos anteriores. Tal procedimento, também foi informado pela própria Recorrente, conforme consta em seu recurso voluntário. Vejase: "Com efeito, a RECOFARMA emitiu cartas de correção, na qual explicitou o enquadramento no Ex 01 que tem, inclusive, alíquota inferior a do Ex 02, qual seja, 27%". Salientese que nestes autos estão sendo analisados fatos geradores de IPI ocorridos até o mês de dezembro ano de 2010. Portanto, neste processo a autuada efetuou o cálculo dos créditos de IPI com a utilização de alíquota que não correspondia ao código indicado nas notas fiscais. Alega a recorrente que as notas fiscais emitidas pela RECOFARMA atendem a todos os requisitos, de forma que, na qualidade de adquirente de boafé teria direito à manutenção do referido crédito de IPI. Mesmo que a recorrente não tivesse como saber que o código de classificação fiscal estava incorreto, o que não é o caso dos autos, cabível a glosa, pois não existe previsão legal para a manutenção de créditos indevidos/ilegítimos, quando constatado pela Fazenda, seu poderdever fazer a glosa nessas hipóteses. Para a Fazenda é uma questão inter alios. Ademais, entendo que aplicase ao caso o art. 3271 do RIPI/2010, que nada mais faz do que reproduzir o art. 62 da Lei 4.502/67, quando determina que o recebedor da 1 Art. 327. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprego ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se eles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao selo de controle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62 ). Fl. 2107DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 10 9 mercadoria tem o dever legal de verificar se as mercadoria recebidas em seu estabelecimento "estão acompanhadas dos documentos exigidos e se estes satisfazem a todas as prescrições deste Regulamento". Quisesse eximirse da presente cobrança, vez que sabia de antemão o posicionamento da RFB, devia valerse do previsto no § 1º do art. 62 da Lei 4.502, que dispõe: § 1º Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se êste se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria. Dessarte, entendo legítima a glosa ante a constatação do Fisco que os insumos recebidos pela recorrente estavam com classificação fiscal incorreta. DISPOSITIVO Forte no exposto, conheço de ambos recurso e: 1 Dou provimento ao recurso fazendário para que sobre a multa aplicada incida a taxa SELIC, nos termos da Súmula CARF 108, e: 2 Nego provimento ao recurso do contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) § 1o Verificada qualquer irregularidade, os interessados comunicarão por escrito o fato ao remetente da mercadoria, dentro de oito dias, contados do seu recebimento, ou antes do início do seu consumo, ou venda, se o início se verificar em prazo menor, conservando em seu arquivo cópia do documento com prova de seu recebimento (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ). § 2o A comunicação feita com as formalidades previstas no § 1o exime de responsabilidade os recebedores ou adquirentes da mercadoria pela irregularidade verificada (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 1º ). § 3o No caso de falta do documento fiscal que comprove a procedência do produto e identifique o remetente pelo nome e endereço, ou de produto que não se encontre selado, rotulado ou marcado, quando exigido o selo de controle, a rotulagem ou a marcação, não poderá o destinatário recebêlo, sob pena de ficar responsável pelo pagamento do imposto, se exigível, e sujeito às sanções cabíveis (Lei nº 4.502, de 1964, art. 62, § 2º, e Lei no 9.532, de 1997, art. 37, inciso V ). § 4o A declaração, na nota fiscal, da data da entrada da mercadoria no estabelecimento será feita no mesmo dia da entrada. Fl. 2108DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 11 10 Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 2109DF CARF MF Processo nº 11070.721963/201528 Acórdão n.º 9303007.869 CSRFT3 Fl. 12 11 Fl. 2110DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16007.000045/2009-09
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3401-001.665
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora da RFB analise a documentação carreada aos autos pela recorrente, e se manifeste conclusivamente quanto à existência do crédito, detalhando-o.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza, Carlos Henrique Seixas Pantarolli Soares, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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(assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza, Carlos Henrique Seixas Pantarolli Soares, Cássio Schappo, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 60 07 .0 00 04 5/ 20 09 -0 9 Fl. 694DF CARF MF Processo nº 16007.000045/200909 Resolução nº 3401001.665 S3C4T1 Fl. 3 2 Relatório Cuidase de Recurso Voluntário contra decisão da DRJ/POR, que considerou improcedentes as razões da Recorrente sobre a reforma do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição e não homologou as compensações dos débitos pleiteados. A contribuinte pleiteou o ressarcimento e compensação de créditos tributários decorrentes de supostos pagamentos indevidos ou a maior de PIS/Cofins. Em Despacho Decisório, os pedidos foram indeferidos e as compensações não homologadas em razão de não ter sido comprovado o direito creditório, dado que grande parte dos pagamentos restava inteiramente vinculada a débito declarado em DCTF, e, quanto aos pagamentos que evidenciaram recolhimento a maior, o respectivo valor fora previamente utilizado em outras compensações. A Contribuinte interpôs Manifestação de Inconformidade, alegando, em síntese, que tem direito aos valores pagos indevidamente em relação à PIS/COFINS, que fora calculada sobre receitas financeiras, e estranhas ao conceito de faturamento, diante da inconstitucionalidade do art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718, de 1998, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal, e já reconhecida pela jurisprudência administrativa. Apresentou balancetes de verificação, DCTF´s, planilhas de apuração e guias de recolhimento e declarações de compensação para comprovação de suas alegações e dos valores pleiteados. Sobreveio Acórdão da Delegacia de Julgamento, através do qual não foi reconhecido o direito creditório requerido. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3401001.588, de 26 de novembro de 2018, proferida no julgamento do processo 16007.000043/200910, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu na Resolução 3401001.588: "O Recurso é tempestivo, e, reunindo os demais requisitos de admissibilidade, tomo seu conhecimento. Fl. 695DF CARF MF Processo nº 16007.000045/200909 Resolução nº 3401001.665 S3C4T1 Fl. 4 3 Como se aduz da leitura do relatório, restam pendente de análise por esse Colegiado a incidência de COFINS Cumulativa sobre a rubrica "receitas financeiras". Ora, nos termos do julgamento do RE 585235/MG, julgado sob efeito de repercussão geral, o artigo 3º, §1º, da Lei Federal 9.718/1998, foi considerado inconstitucional, de modo que, para fins de determinação da base de cálculo das contribuições sociais, no caso de empresas que não exercem atividade de instituições financeiras, não cabe a inclusão de receitas financeiras ou outras alheias ao seu objeto social. Desta feita, é de se afastar a glosa com base no artigo 62, §1º, inciso II, b, do RICARF. Contudo, como até o presente momento, a Receita Federal não se pronunciou sobre os documentos juntados desde a impugnação pela Recorrente, é de se converter o julgamento em diligência para que a unidade preparadora da RFB analise a documentação e se manifeste conclusivamente quanto à existência do crédito, detalhandoo. Em seguida, intimese a Recorrente para, desejando se manifestar, façao no em prazo de 30 dias. Após, os autos devem retornar ao CARF para prosseguir o julgamento." Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado decidiu por converter o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora da RFB analise a documentação e se manifeste conclusivamente quanto à existência do crédito, detalhandoo. Em seguida, intimese a Recorrente para, desejando se manifestar, façao no em prazo de 30 dias. Após, os autos devem retornar ao CARF para prosseguir o julgamento." (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 696DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11128.000045/2011-25
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Data do fato gerador:13/06/2008
RESTITUIÇÃO. ARTIGO 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE.
Os tributos incidentes na importação por conta própria não comportam transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo dos tributos não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido.
Recurso Voluntário Provido
Numero da decisão: 3302-006.208
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ARTIGO 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE. Os tributos incidentes na importação por conta própria não comportam transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo dos tributos não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido. Recurso Voluntário Provido Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 00 00 45 /2 01 1- 25 Fl. 164DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de indeferimento da restituição relativa a PIS/Pasep importação e Cofinsimportação recolhidos quando do registro da Declaração de Importação posteriormente retificada, por falta de apresentação de documentação contábil e fiscal apta a comprovar a assunção do encargo financeiro recolhido indevidamente, consoante o art. 166 do Código Tributário Nacional – CTN. Segundo a Fiscalização, o referido crédito tributário recolhido quando do registro da DI poderia ter sido compensado pelo importador, nos termos da legislação de regência, independentemente de autorização da Receita Federal RFB. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte argumentou que o crédito apurado não podia ser objeto de compensação por ser devido no registro de Declaração de Importação, conforme o artigo 74, § 3º, II, da Lei nº 9.430/1996, tratandose de uma exceção legal que não proporcionava segurança jurídica para se requerer a compensação sem prévia concordância do Fisco, tendo em vista o entendimento da Fiscalização quanto à necessidade de comprovação da assunção econômica do encargo. Segundo o então Manifestante, não havendo previsão legal de transferência do encargo financeiro, bem como existindo lei que previa o importador como contribuinte, não era cabível a alegação do Auditor Fiscal de que seria devida a comprovação de assunção do encargo financeiro do tributo recolhido. Ainda segundo ele, mesmo que se entendesse válida a discussão acerca da assunção do encargo financeiro, essa só se justificaria em relação ao montante pago referente à mercadoria desembaraçada, inexistindo fato gerador de PIS/Pasep e Cofins relativos a uma importação não ocorrida. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 07033.580, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, fundamentandose também na necessidade de prova de assunção do encargo financeiro dos tributos, com apresentação de documentos, informações e lançamentos contábeis que demonstrassem de forma inequívoca o efetivo suporte desse encargo. Inconformado, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário e requereu o reconhecimento do seu direito, reproduzindo seus argumentos apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Fl. 165DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 4 3 Voto Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão nº 3302006.205, de 27/11/2018, proferida no julgamento do processo nº 11128.000042/201191, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3302006.205): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Inicialmente é imperioso destacar que a solução do litígio envolve apenas a comprovação quanto a assunção do encargo financeiro referente ao PIS e COFINS recolhido indevidamente, inexistindo discussão sobre as fatos que geraram o pagamento indevido ou a maior, é o que se extrai do despacho decisório de fls. 5153 e da decisão recorrida, a saber: Despacho decisório Os pleitos referemse a importação de mercadoria a granel onde foi constatada falta em relação às quantidades manifestadas, conforme os Laudos Periciais em anexo aos processos supracitados. Todas as DIs foram objeto de retificação após o desembaraço. Cópias dos respectivos pedidos de retificação (PCI) estão anexadas aos processos. As retificações acima referidas, tendo em vista apuração de falta de mercadoria, demonstram que houve pagamento a maior dos tributos em questão, conforme valores discriminados na relação acima. Ocorre que não foi acostada aos processos acima relacionados documentação contábil e fiscal apta a comprovar a assunção do encargo financeiro referente ao PIS e COFINS recolhido indevidamente, consoante o Art. 166 do Código Tributário Nacional – CTN. Por outro lado, o crédito tributário referente ao PIS e COFINS recolhido quando do registro da DI poderá ser utilizado pelo importador, conforme a legislação que rege os tributos em questão. Este procedimento independe de autorização da RFB. Tendo em vista o acima exposto, proponho o indeferimento dos pedidos de restituição do PIS e COFINS referentes aos processos acima discriminados. Decisão recorrida Cumpre deixar claro que o requisito obrigatório previsto no artigo 6º da Instrução Normativa RFB nº 900/2008, em consonância com o artigo Fl. 166DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 5 4 166 do CTN, referente à prova de assunção do encargo financeiro do imposto, é exigência imperativa, posto que decorrente de lei. Não se trata de eventual dúvida sobre ter ou não ter havido o pagamento indevido dos tributos. E sim da prova de assunção do encargo a que se refere o artigo 6º da Instrução Normativa RFB nº 900/2008 e artigo 166 do CTN. O objetivo da norma é dar certeza às administrações fazendárias sobre quem efetivamente suportou o ônus financeiro, de forma a evitar que, além do contribuinte de direito, os contribuintes de fato também venham pleitear a restituição do imposto pago indevidamente ou a maior. E o ônus dessa demonstração não cabe ao Fisco. Os sistemas contábeis e respectivos planos de contas são de livre escolha das empresas e, no caso de pedido que envolva a prova prevista no artigo 166 do CTN, devem os requerentes fazer as devidas e satisfatórias demonstrações à vista de suas opções contábeis. E tais demonstrações, no caso das pessoas jurídicas, está, por vezes, associada a uma conciliação entre registros contábeis e documentos que respaldem tais registros. Em regra, portanto, cumpre ao contribuinte vincular registros contábeis a documentos fiscais, estabelecendo com clareza a natureza das operações por eles instrumentadas. Se a interessada, em sua escrituração fiscal, utilizou, em seu favor, de crédito correspondente ao valor de que agora pretende verse ressarcida, referente a PIS/Pasepimportação e Cofinsimportação, resta impossibilitado o deferimento de seu pedido, em decorrência do duplo aproveitamento de um só crédito de tributo. No presente caso, não há comprovação de que o requisito da norma esteja perfeitamente atendido. Ou seja, não se discute a ocorrência de fatos que ensejaram o pagamento indevido ou maior, mas tão e somente a comprovação quanto a assunção do encargo financeiro referente ao PIS e COFINS recolhido indevidamente, previsto no artigo 166, do CTN, outrora utilizado pela fiscalização para indeferir o pedido de Restituição da Recorrente. A respeito disso, verificase que a decisão recorrida manteve o despacho decisório nos seguintes termos: Em primeiro lugar, cumpre mencionar que a restrição legal imposta à solicitação de restituição, compensação ou ressarcimento de créditos decorrentes de pagamento indevido ou maior que o devido de tributos, cujo encargo financeiro tenha sido suportado por outro, encontrase prevista no art. 166 do Código Tributário Nacional CTN, nos seguintes termos: “Art. 166. A restituição de tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente será feita a quem prove haver assumido o referido encargo, ou, no caso de têlo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebêla.” No mesmo sentido dispõe a Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008, em seu art. 6º, nos seguintes termos: Fl. 167DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 6 5 “Art. 6º A restituição de quantia recolhida a título de tributo administrado pela RFB que comporte, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente poderá ser efetuada a quem prove haver assumido referido encargo, ou, no caso de têlo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebêla.” Das disposições legais transcritas surge o entendimento de que essas alcançam apenas aqueles tributos que comportam a transferência de seu ônus financeiro a terceiros, mediante o registro contábil em conta corrente de débitos e créditos; aqueles cujo contribuinte de fato é o consumidor final, jamais o contribuinte de direito que, embora onerado pelo dever de pagar, não pode, pela própria concepção jurídica desses tributos, suportar economicamente seus encargos. É entendimento que somente os indébitos tributários relacionados a tributos indiretos é que são alcançados pelas disposições contidas no art. 166 do CTN. Assim, o PIS/Pasepimportação e Cofinsimportação são regidos pela nãocumulatividade, estando incluídos no rol dos tributos indiretos, conforme dispõe o art. 15 da Lei n° 10.865, de 30 de abril de 2004. Estas contribuições possuem natureza jurídica que comporta a transferência do respectivo encargo financeiro. Art. 15. As pessoas jurídicas sujeitas à apuração da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, nos termos dos arts. 2º e 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, poderão descontar crédito, para fins de determinação dessas contribuições, em relação às importações sujeitas ao pagamento das contribuições de que trata o art. 1º desta Lei, nas seguintes hipóteses: I bens adquiridos para revenda; II bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustível e lubrificantes; III energia elétrica consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV aluguéis e contraprestações de arrendamento mercantil de prédios, máquinas e equipamentos, embarcações e aeronaves, utilizados na atividade da empresa; V máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. ( Redação dada pela Lei nº 11.196, de 21/11/2005 ) 1º O direito ao crédito de que trata este artigo e o art. 17 desta Lei aplicase em relação às contribuições efetivamente pagas na importação de bens e serviços a partir da produção dos efeitos desta Lei. § 2º O crédito não aproveitado em determinado mês poderá sêlo nos meses subseqüentes. (...) Cumpre deixar claro que o requisito obrigatório previsto no artigo 6º da Instrução Normativa RFB nº 900/2008, em consonância com o artigo Fl. 168DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 7 6 166 do CTN, referente à prova de assunção do encargo financeiro do imposto, é exigência imperativa, posto que decorrente de lei. Não se trata de eventual dúvida sobre ter ou não ter havido o pagamento indevido dos tributos. E sim da prova de assunção do encargo a que se refere o artigo 6º da Instrução Normativa RFB nº 900/2008 e artigo 166 do CTN. O objetivo da norma é dar certeza às administrações fazendárias sobre quem efetivamente suportou o ônus financeiro, de forma a evitar que, além do contribuinte de direito, os contribuintes de fato também venham pleitear a restituição do imposto pago indevidamente ou a maior. Contudo, entendo que a decisão recorrida merece reforma, posto que os tributos incidentes da importação por conta própria não comportam transferência do respectivo encargo financeiro, sendo que o sujeito passivo dos tributos não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do tributo pago indevidamente ou em valor maior que o devido. Essa questão inclusive foi analisada nos autos do PA nº 10909.005708/200842 (acórdão nº 3302004.439), que contou com a participação deste relator, a saber: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 02/09/2005 a 06/09/2005 RESTITUIÇÃO. IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ARTIGO 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE. O Imposto de Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo do Imposto de Importação não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEPIMPORTAÇÃO E COFINS IMPORTAÇÃO. PERDIMENTO DA MERCADORIA IMPORTADA POR CONTA E ORDEM ANTES DO DESEMBARAÇO ADUANEIRO. RESTITUIÇÃO DO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES INDEVIDAS. LEGITIMIDADE ATIVA DO IMPORTADOR. POSSIBILIDADE. Por não comportar a transferência do encargo financeiro, o importador tem legitimidade ativa para pleitear a restituição dos valores indevidos da Contribuição para o PIS/Pasep Importação e da CofinsImportação pagos no âmbito da operação de importação por conta e ordem simulada, em que as mercadorias importadas foram objeto de pena de perdimento antes do desembarco aduaneiro e da transferência ao real adquirente. Embargos Rejeitados. Direito Creditório Reconhecido. Neste cenário, deve ser reconhecido o crédito apurado pela Recorrente referente ao PIS/Pasepimportação e a Cofinsimportação recolhidos quando do registro da Declaração de Importação objeto dos autos, posteriormente retificada. Fl. 169DF CARF MF Processo nº 11128.000045/201125 Acórdão n.º 3302006.208 S3C3T2 Fl. 8 7 Diante do exposto, voto por dar provimento ao recuso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu dar provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o crédito apurado referente ao PIS/Pasep importação e à Cofinsimportação recolhidos quando do registro da Declaração de Importação objeto dos autos, posteriormente retificada. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 170DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.660278/2011-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 15/08/2002
RECEITAS DE VENDAS À ZONA FRANCA DE MANAUS. PIS E COFINS. TRIBUTAÇÃO.
A partir de 18/12/2000, as receitas de vendas à Zona Franca de Manaus isentas da exigência do PIS e da Cofins são apenas as elencadas nos incisos IV, VI, VIII e IX do art. 14 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-004.038
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 15/08/2002 RECEITAS DE VENDAS À ZONA FRANCA DE MANAUS. PIS E COFINS. TRIBUTAÇÃO. A partir de 18/12/2000, as receitas de vendas à Zona Franca de Manaus isentas da exigência do PIS e da Cofins são apenas as elencadas nos incisos IV, VI, VIII e IX do art. 14 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os conselheiros Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 66 02 78 /2 01 1- 97 Fl. 160DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de indeferir o Pedido de Restituição de créditos da contribuição (Cofins/PIS), decisão essa lastreada na ausência de direito creditório disponível, uma vez que os pagamentos declarados já haviam sido integralmente utilizados na quitação de débitos do contribuinte. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte havia alegado que o crédito pleiteado decorrera da apuração equivocada da contribuição sobre receitas auferidas em operações de venda à Zona Franca de Manual (ZFM), que em hipótese alguma deviam ser tributadas, tendo em vista que o art. 4º do Decreto nº 288/1967 equiparara as vendas de mercadorias para a Zona Franca de Manaus àquelas destinadas à exportação, imunes às contribuições por força do art. 149 da Constituição Federal. Alegou, ainda, que, mesmo diante da ausência de retificação das declarações (DCTF e DIPJ), o crédito deveria ser reconhecido, pois, uma vez constatada a existência de erro de fato conforme demonstrativo e documentos apresentados , era dever da Administração Pública proceder à revisão de ofício, em conformidade com os princípios da verdade material, da moralidade administrativa e da vedação ao enriquecimento ilícito. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 14053.254, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, sob o fundamento de que a isenção das contribuições, a partir de 18 de dezembro de 2000, alcançava exclusivamente as receitas de vendas efetuadas para as empresas comerciais exportadoras de que trata o Decretolei nº 1.248, de 1972, com fim específico de exportação, e para as empresas comerciais exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, estabelecidas na Zona Franca de Manaus. Segundo a DRJ, as vendas efetuadas às demais pessoas jurídicas, mesmo que localizadas na Zona Franca de Manaus, deviam ser tributadas normalmente. Afastou a DRJ o pedido alternativo de realização de diligência e as arguições de nulidade e de afronta a princípios constitucionais. Em seu Recurso Voluntário, o contribuinte requereu o reconhecimento do direito creditório, a realização de diligência (caso necessária) e a intimação de seus advogados no endereço profissional deles, repisando os mesmos argumentos de defesa. É o relatório. Fl. 161DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão 3201004.013, de 23/07/2018, proferido no julgamento do processo nº 10880.660222/201132, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201004.013): O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. A Recorrente apresentou PER/DCOMP por meio do qual requereu a restituição da Cofins apurada em março de 2003. Indeferido o pleito ao argumento de que o crédito vindicado estava integralmente utilizado para quitação de débitos do próprio contribuinte, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade, por meio da qual alegou ter incluído, na base de cálculo da contribuição, receitas auferidas em operações de venda à Zona Franca de Manaus – ZFM, que, no seu entendimento, não deviam ter sido tributadas. A Recorrente, contudo, não se atentou para o fato – devidamente explicitado no acórdão recorrido – de que a razão para o indeferimento do pedido repousou na utilização integral do crédito para pagamento de débito da mesma contribuição. Noutras palavras, a Recorrente sequer apresentou, antes ou após a ciência do Despacho Decisório, DCTF retificadora para permitir a liberação do valor requerido, se fosse o caso, e a sua restituição em pecúnia ou a sua compensação com outros tributos (sequer no recurso voluntário a apresentou). Ainda que eventualmente seja procedente o argumento que fundamenta o pedido (isso não significa que concordemos com a tese), a Administração Tributária não podia e não pode restituir valor já alocado para quitação do tributo. Quem deve fazêlo é o próprio contribuinte, de ordinário antes de apresentar o pedido eletrônico de restituição. É como, aliás, entende a própria RFB, como indica o Parecer Normativo Cosit nº 2, de 28 de agosto de 2015: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das Fl. 162DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 5 4 informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. O procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9ºA da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/nãohomologação do PER/DCOMP. A não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazêla em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. O valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Retificada a DCTF e sendo intempestiva a manifestação de inconformidade, a análise do pedido de revisão de ofício do PER/DCOMP compete à autoridade administrativa de jurisdição do sujeito passivo, observadas as restrições do Parecer Normativo nº 8, de 3 de setembro de 2014, itens 46 a 53. Dispositivos Legais. arts. 147, 150, 165 170 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN); arts. 348 e 353 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 – Código de Processo Civil (CPC); art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984; art. 18 da MP nº 2.18949, de 23 de agosto de 2001; arts. 73 e 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996; Instrução Normativa RFB nº 1.110, de 24 de dezembro de 2010; Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 20 de novembro de 2012; Parecer Normativo RFB nº 8, de 3 de setembro de 2014. eprocesso 11170.720001/201442 Portanto, para que haja a possibilidade de restituição, o crédito respectivo deve estar liberado, mediante a entrega de DCTF retificadora, exceto quanto às hipóteses de impedimento à sua apresentação, não Fl. 163DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 6 5 verificadas, aliás, no caso ora em exame, como, por exemplo, quando o saldo a pagar já tenha sido enviado à Procuradoria da Fazenda Nacional PFN para inscrição em Dívida Ativa. Não cabe, ademais, à RFB fazer a retificação de ofício. Como consignado nos fundamentos do referido PN, "enquanto não retificada a DCTF, o débito ali espontaneamente confessado é devido, logo, valor utilizado para quitálo não se constitui formalmente em indébito, sem que a recorrente promova a prévia retificação da declaração. (Acórdão nº 1302001.571, Rel. Cons. Alberto Pinto Souza Júnior, 25 de novembro de 2014)". A situação aqui enfrentada é, como se percebe, diferente da que comumente se vê no Contencioso Administrativo, em que o interessado costuma apresentar DCTF retificadora, mas não apresenta, na manifestação de inconformidade, documentos contábeis/fiscais comprovando o erro cometido na original, ou os apresenta neste recurso, mas o só fato de a DCTF retificadora ter sido apresentada após a ciência do Despacho Decisório leva a DRJ a manter, por esse só motivo, o indeferimento do pedido de restituição. Não tendo sido apresentada DCTF retificadora, o crédito reclamado continua vinculado ao pagamento confessado na DCTF enviada à RFB, de modo que, nesse contexto, não há como restituílo. Por fim, o pedido para que Recorrente seja intimada no endereço profissional de seus advogados deve ser indeferido, uma vez que as intimações, por via postal, devem ser enviadas ao domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo, em conformidade com o disposto no art. 23, inciso II, do Decreto nº 70.235, de 1972. Cabe registrar, no entanto, que o entendimento que vimos de expor e consideramos suficiente para o deslinde do litígio não foi o mesmo adotado pelos demais integrantes da Turma, para os quais o indeferimento do pleito deve assentarse unicamente no fato de que as receitas de vendas à ZFM que estão isentas da exigência do PIS/Cofins são apenas as elencadas nos incisos IV, VI, VIII e IX, do art. 14 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Daí que passamos a reproduzir e adotar como razão de decidir, porque sobre o tema nada inovou o recurso voluntário, os fundamentos utilizados no acórdão recorrido: Quanto ao mérito verificase que a contestação do interessado se resume em alegar que o crédito existe e é oriundo de receitas de vendas destinadas à Zona Franca de Manaus e as mesmas são isentas ou não tributadas do PIS e COFINS, por força do artigo 4º do Decretolei nº 228, de 28 de fevereiro de 1967, nos seguintes termos: Art 4º A exportação de mercadorias de origem nacional para consumo ou industrialização na Zona Franca de Manaus, ou reexportação para o estrangeiro, será para todos os efeitos fiscais, constantes da legislação em vigor, equivalente a uma exportação brasileira para o estrangeiro. As normas dispondo sobre matéria de isenção das contribuições sociais – PIS/Pasep e Cofins – na época do fato gerador, estavam sintetizadas no art. 14 e seus parágrafos, da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Todavia, a evolução histórica dos dispositivos legais e regulamentares Fl. 164DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 7 6 anteriores, em relação à matéria de isenção das contribuições sociais incidentes sobre o faturamento, pode ser observada, conforme apresentado a seguir. Inicialmente, em relação à contribuição para o PIS/Pasep, verificase que com a edição da Lei nº 7.714, de 29 de dezembro de 1988 (art.5º), ficou autorizada a exclusão de receitas de exportação de produtos manufaturados nacionais da base de cálculo do PIS/Pasep, como segue: “Art. 5º Para efeito de cálculo da contribuição para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público PASEP e para o Programa de Integração Social PIS, de que trata o Decretolei nº 2.445, de 29 de junho de 1988, o valor da receita de exportação de produtos manufaturados nacionais poderá ser excluído da receita operacional bruta” A Lei nº 9.004, de 16 de março de 1995, resultante da conversão da Medida Provisória nº 622, de 22 de setembro de 1994, e reedições, deu nova redação ao art. 5º da Lei nº 7.714, de 1988, adotandose restrições quanto às vendas efetuadas às empresas estabelecidas na Zona Franca de Manaus, e em outras localidades, assim dispondo: “Art. 1º O art. 5º da Lei nº 7.714, de 29 de dezembro de 1986, acrescido dos §§ 1º e 2º, passa a vigorar com a seguinte alteração: Art. 5º Para efeito de determinação da base de cálculo das contribuições para o Programa de Integração Social (PIS) e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep), instituídas pelas Leis Complementares nºs 7, de 7 de setembro de 1970, e 8, de 3 de dezembro de 1970, respectivamente, o valor da receita de exportação de mercadorias nacionais poderá ser excluído da receita operacional bruta. § 1º Serão consideradas exportadas, para efeito do disposto no caput deste artigo, as mercadorias vendidas a empresa comercial exportadora, de que trata o art. 1º do Decretolei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972. § 2º A exclusão prevista neste artigo não alcança as vendas efetuadas: (Grifouse) a) a empresa estabelecida na Zona Franca de Manaus, na Amazônia Ocidental ou em Área de Livre Comércio; (Grifouse) b) a empresa estabelecida em Zona de Processamento de Exportação; c) a estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados a exportação, ao amparo do art. 3º da Lei nº 8.402, de 8 de janeiro de 1992; d) no mercado interno, às quais sejam atribuídos incentivos concedidos à exportação.” A Medida Provisória nº 1.212, de 29 de novembro de 1995, e reedições, convertida na Lei nº 9.715, de 25 de novembro de 1998, dispondo sobre a contribuição para o PIS/Pasep, de forma mais ampla, manteve o tratamento restritivo previsto na Lei nº 9.004, de 1995, ao tratar da matéria em seu art. 4º: “Art. 4º Observado o disposto na Lei nº 9.004, de 16 de março de 1995, na determinação da base de calculo da contribuição serão também excluídas as receitas correspondentes: (Grifouse) I aos serviços prestados a pessoa jurídica domiciliada no exterior, desde que não autorizada a funcionar no Brasil, cujo pagamento represente ingresso de divisas; II ao fornecimento de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em trafego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível; III ao transporte internacional de cargas ou passageiros.” No que se refere à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), em relação às receitas de exportação, a Lei Complementar nº 70, de 30 de dezembro de 1991, estabeleceu em seu art. 7º: “Art. 7º É ainda isenta da contribuição a venda de mercadorias ou serviços destinados ao exterior, nas condições estabelecidas pelo Poder Executivo.” Fl. 165DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 8 7 O Decreto nº 1.030, de 29 de dezembro de 1993, que regulamentou o disposto no art. 7º da Lei Complementar nº 70, de 1991, restringiu o tratamento isentivo para as empresas estabelecidas nas referidas localidades, assim disciplinando: “Art. 1º Na determinação da base de cálculo da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), instituída pelo art. 1º da Lei Complementar nº 70, de 30 de dezembro de 1991, serão excluídas as receitas decorrentes da exportação de mercadorias ou serviços, assim entendidas: I vendas de mercadorias ou serviços para o exterior, realizadas diretamente pelo exportador; II exportações realizadas por intermédio de cooperativas, consórcios ou entidades semelhantes; III vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras, nos termos do Decretolei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; IV vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo; e V fornecimentos de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível. Parágrafo único. A exclusão de que trata este artigo não alcança as vendas efetuadas: (Grifouse) a) a empresa estabelecida na Zona Franca de Manaus, na Amazônia Ocidental ou em Área de Livre Comércio; (Grifouse) b) a empresa estabelecida em Zona de Processamento de Exportação; c) a estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados a exportação, ao amparo do art. 3º da Lei nº 8.402, de 8 de janeiro de 1992; d) no mercado interno, às quais sejam atribuídos incentivos concedidos à exportação. (Grifouse) (...).”Por sua vez, a Lei Complementar nº 85, de 15 de fevereiro de 1996, alterando a redação do art. 7º da Lei Complementar nº 70, de 1991, não tratou da restrição: “Art. 1º O art. 7º da Lei Complementar nº 70, de 30 de dezembro de 1991, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 7º São também isentas da contribuição as receitas decorrentes: I de vendas de mercadorias ou serviços para o exterior, realizadas diretamente pelo exportador; II de exportações realizadas por intermédio de cooperativas, consórcios ou entidades semelhantes; III de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras, nos termos do Decretolei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; IV de vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo; V de fornecimentos de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações ou aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível; VI das demais vendas de mercadorias ou serviços para o exterior, nas condições estabelecidas pelo Poder Executivo." Art. 2º Esta Lei Complementar entra em vigor na data de sua publicação, retroagindo seus efeitos a 1º de abril de 1992.” (Grifouse) A Lei nº 9.718, de 27 de novembro de 1998, que teve por finalidade ampliar a base de cálculo das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins, também não fez qualquer referência à exclusão de receitas de exportações ou à isenção das contribuições sobre tais receitas. Daí a necessidade de editarse novo dispositivo legal contemplando com isenção as receitas de exportação. Fl. 166DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 9 8 Diante da lacuna existente na Lei nº 9.718, de 1998, a Medida Provisória nº 1.8586, de 1999, atual Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, em seu art. 14 e seus parágrafos, adiante transcritos, redefiniu as regras de desoneração das contribuições em tela nas hipóteses especificadas e revogou todos os dispositivos legais relativos a exclusão de base de cálculo e isenção, existentes em 30 de junho de 1999: “Art. 14. Em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de 1º de fevereiro de 1999, são isentas da Cofins as receitas: (Grifouse) I dos recursos recebidos a título de repasse, oriundos do Orçamento Geral da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, pelas empresas públicas e sociedades de economia mista; II da exportação de mercadorias para o exterior; (Grifouse) III dos serviços prestados a pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; IV do fornecimento de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível; V do transporte internacional de cargas ou passageiros; VI auferidas pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação modernização, conversão e reparo de embarcações préregistradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro REB, instituído pela Lei nº 9.432, de 8 de janeiro de 1997; VII de frete de mercadorias transportadas entre o País e o exterior pelas embarcações registradas no REB, de que trata o art. 11 da Lei nº 9.432, de 1997; VIII de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras nos termos do Decretolei nº 1.248, de 29 de novembro de 1972, e alterações posteriores, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; (Grifouse) IX de vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; (grifouse) (...) § 1º São isentas da contribuição para o PIS/PASEP as receitas referidas nos incisos I a IX do caput. § 2º As isenções previstas no caput e no parágrafo anterior não alcançam as receitas de vendas efetuadas: (Grifouse) I a empresa estabelecida na Amazônia Ocidental ou em área de livre comércio; II a empresa estabelecida em zona de processamento de exportação; III a estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados à exportação, ao amparo do art. 3º da Lei nº 8.402, de 8 de janeiro de 1992.” Entretanto, cabe esclarecer que, somente, a partir da publicação no Diário Oficial da União da Medida Provisória nº 2.03725, em 22 de dezembro de 2000, ficou suprimida a expressão "na Zona Franca de Manaus" do inciso I do § 2º do art. 14, acima citado. Pela legislação mencionada nos itens 3, 4 e 5 acima, fica evidente que a intenção do legislador ao longo do tempo sempre foi a de não contemplar com isenção do PIS/Pasep e da Cofins, as receitas decorrentes das vendas realizadas para consumo, industrialização ou comercialização no mercado interno às empresas estabelecidas na Zona Franca de Manaus, bem assim as receitas provenientes das vendas efetuadas para as empresas comerciais exportadoras localizadas na Zona Franca de Manaus, na Amazônia Ocidental, em área de livre comércio, zona de processamento de exportação, como também para estabelecimento industrial, para industrialização de produtos destinados à exportação. O argumento no sentido de se admitir, para fins de isenção do PIS/Pasep e da Cofins, que o art. 4º do Decretolei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, "equiparou a venda de mercadorias de origem nacional para consumo ou industrialização na Zona Franca de Manaus, ou reexportação para o estrangeiro à Fl. 167DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 10 9 exportação brasileira para o exterior", não deve prosperar, de acordo com a inteligência do próprio dispositivo. Sobre essa questão a CoordenaçãoGeral de do Sistema de Tributação (Cosit) já se posicionou por meio da Solução de Divergência Cosit no 22, de 19 de agosto de 2002, publicada no Diário Oficial da União em 22/08/2002, da qual abaixo se transcreve trechos de sua fundamentação e conclusão final: 15. A argumentação no sentido de que, para fins de isenção do PIS/Pasep e da Cofins, teria o art. 4º do Decretolei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, equiparado a venda de mercadorias de origem nacional para consumo ou industrialização na Zona Franca de Manaus, ou reexportação para o estrangeiro à exportação brasileira para o exterior, não prospera, de acordo com a inteligência do próprio dispositivo, como pode ser observado de sua transcrição a seguir: “Art. 4º A exportação de mercadorias de origem nacional para consumo ou industrialização na Zona Franca de Manaus, ou reexportação para o estrangeiro, será para todos os efeitos fiscais, constantes da legislação em vigor, equivalente a uma exportação brasileira para o estrangeiro.” (Grifouse) 16. Ressaltese que a expressão "constante da legislação em vigor" contida no texto do art. 4º do Decretolei nº 288, de 1967, pela sua incontestável clareza, já é suficiente para afastar qualquer dúvida quanto ao seu alcance no sentido temporal. Não se pode afirmar, portanto, que o referido dispositivo teria o condão de modificar a legislação superveniente que tenha instituído qualquer tributo ou contribuição social. Ao contrário, não resiste à menor análise, a afirmação de que as contribuições sociais – PIS/Pasep e Cofins instituídas em 1970 e 1991, teriam sido alcançadas pelos efeitos da citada equiparação. 16.1. Por outro lado, se o legislador pretendesse contemplar, indistintamente, com a isenção dessas contribuições, todas as receitas de vendas efetuadas para quaisquer empresas estabelecidas na Zona Franca de Manaus, teria feito constar expressamente na legislação específica do PIS/Pasep e da Cofins. 16.2. Logo, é correto concluir que o próprio dispositivo legal (art. 4º do Decreto lei nº 288, de 1967) restringiu a aplicabilidade da equiparação mencionada, para os efeitos dos impostos e contribuições constantes da legislação vigente em 28 de fevereiro de 1967. Até porque não poderia projetar os efeitos da legislação isencional para o futuro indiscriminadamente. 16.3. A propósito das conclusões mencionadas nos itens anteriores sobre o alcance do dispositivo referido, deve ser ressaltada a restrição procedida pelo legislador ordinário, ao tratar inclusive de impostos já existentes à data de edição daquele Decretolei, evidenciando a intenção, no sentido de evitar que se acumulasse outras formas de incentivos, além da nele efetivamente prevista, nos termos constantes do art. 7º do Decretolei nº 1.435, de 17 de dezembro de 1975, in verbis: “Art. 7o A equiparação de que trata o artigo 4o do Decretolei no 288, de 28 de fevereiro de 1967, não compreende os incentivos fiscais previstos nos Decretos leis no s 491, de 5 de março de 1969; 1.158, de 16 de março de 1971; 1.189, de 24 de setembro de 1971; 1.219, de 15 de maio de 1972, e 1.248, de 29 de novembro de 1972, nem os decorrentes do regime de “draw back”.” 17. Por meio da Nota/Cosit/Cotex nº151, de 14 de maio de 2002, a Secretaria da Receita Federal (SRF) submeteu ao exame da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN), o seu entendimento sobre essa matéria, para que fosse ratificado ou retificado. A PGFN, por intermédio do PARECER/PGFN/CAT/Nº 1.769, de 23 de maio de 2002, ratificou o entendimento da SRF referente ao assunto, inclusive quanto à manutenção da proibição das isenções para as receitas de vendas efetuadas a empresas estabelecidas nas localidades e Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 11 10 estabelecimentos listados nos incisos I, II e III do § 2º do art. 14 da Medida Provisória no 2.15835, de 2001, mesmo que as receitas de vendas se enquadrem nas hipóteses previstas nos incisos IV, VI, VIII e IX do art. 14, da citada Medida Provisória. Neste particular, a PGFN diz que é sabido que as pessoas jurídicas situadas nas áreas mencionadas, tradicionalmente, vêm sendo contempladas com toda a sorte de benefícios de natureza fiscal, há algumas décadas, o que faz crer ter sido a vontade do legislador deixálas de fora de mais esse benefício fiscal. CONCLUSÃO 18. Diante do exposto, solucionase a presente divergência respondendo à recorrente que a isenção da Cofins prevista no art. 14 da Medida Provisória nº 2.03725, de 2000, atual Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e considerada a medida liminar deferida pelo STF, na ADIn nº 2.3489, publicada no Diário da Justiça e no Diário Oficial da União de 18 de dezembro de 2000, suspendendo ex nunc a eficácia da expressão “na Zona Franca de Manaus” do inciso I do § 2º do artigo 14 da Medida Provisória nº 2.03724, de 2000, quando se tratar de vendas realizadas para empresas estabelecidas na Zona Franca de Manaus, aplicase, exclusivamente, para as receitas de vendas enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos IV, VI, VIII e IX, do referido artigo 14, ou seja: a) receitas do fornecimento de mercadorias ou serviços para uso ou consumo de bordo em embarcações e aeronaves em tráfego internacional, quando o pagamento for efetuado em moeda conversível; b) receitas auferidas pelos estaleiros navais brasileiros nas atividades de construção, conservação modernização, conversão e reparo de embarcações pré registradas ou registradas no Registro Especial Brasileiro REB, instituído pela Lei no 9.432, de 8 de janeiro de 1997; c) receitas de vendas realizadas pelo produtorvendedor às empresas comerciais exportadoras de que trata o Decretolei no 1.248, de 1972, destinada ao fim específico de exportação; e d) receitas de vendas efetuadas com fim específico de exportação para o exterior, às empresas comerciais exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. (realcei) 18.1. A isenção da Cofins não alcança os fatos geradores ocorridos entre 1º de fevereiro de 1999 e 17 de dezembro de 2000, período em que produziu efeitos a vedação contida no inciso I do § 2º do art. 14 da Medida Provisória nº 1.8586, de 1999, e reedições, até a Medida Provisória nº 2.03724, de 2000. 19. Somente a partir de 18 de dezembro de 2000, estão isentas do PIS/Pasep , as receitas de vendas relacionadas nas alíneas “a”, “b”, “c” e “d” do item 18, tendo em vista a medida liminar concedida pelo STF, na ADI no 2.3489, publicada no Diário da Justiça e no Diário Oficial da União de 18 de dezembro de 2000, e edição da Medida Provisória no2.03725, de 2000, e reedições, atual Medida Provisória n o2.15835, de 2001. 20. Ressalvadas as hipóteses previstas nos itens 18 e 19, sujeitamse à incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, sem o benefício da isenção, todas as demais receitas de vendas efetuadas às pessoas jurídicas, mesmo que estabelecidas na Zona Franca de Manaus, independentemente de sua destinação ou finalidade. (destaques do original) Pela leitura dessa Solução de Divergência, concluise que, a partir de 18/12/2000, as receitas de vendas à Zona Franca de Manaus estão isentas da exigência do PIS e da Cofins, mas apenas em relação às receitas discriminadas nos incisos IV, VI, VIII e IX, do art. 14 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10880.660278/201197 Acórdão n.º 3201004.038 S3C2T1 Fl. 12 11 Como nos autos não há evidências de que as receitas lançadas correspondem àquelas citadas no ato, forçoso reconhecer que a pretensão da impugnante não pode prosperar,(...) Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir unicamente à Cofins, a decisão ali prolatada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Importa registrar, ainda, que, nos presentes autos, as situações fática e jurídica encontram correspondência com as verificadas no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 170DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13830.002043/2005-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 18 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira - CPMF
Período de apuração: 11/08/1999 a 30/01/2002
CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA - CPMF
Numero da decisão: 3301-005.577
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário, para excluir da exigência os fatos geradores ocorridos no período de 11/08/1999 a 22/12/1999.
assinado digitalmente
Winderley Morais Pereira - Presidente.
assinado digitalmente
Ari Vendramini - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderely Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Marco Antonio Marinho Nunes e Ari Vendramini (Relator)
Nome do relator: ARI VENDRAMINI
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário, para excluir da exigência os fatos geradores ocorridos no período de 11/08/1999 a 22/12/1999. assinado digitalmente Winderley Morais Pereira - Presidente. assinado digitalmente Ari Vendramini - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderely Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Marco Antonio Marinho Nunes e Ari Vendramini (Relator)
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FALTA DE RETENÇÃO/RECOLHIMENTO. PRAZO DECADENCIAL. A CPMF caracterizase pelo lançamento por homologação. Se não houver antecipação do pagamento, não há falarse em lançamento por homologação, mas em lançamento de ofício, portanto, o crédito tributário deve ser constituído mediante lançamento de ofício. O prazo decadencial a ser aplicado ao caso é o determinado pelo inciso I do artigo 173 do Código Tributário Nacional, qual seja, cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. FALTA DE RECOLHIMENTO. Constatada a falta de retenção/recolhimento da contribuição, no caso a CPMF, correta a exigência de ofício do tributo não recolhido, com os devidos acréscimos legais Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário, para excluir da exigência os fatos geradores ocorridos no período de 11/08/1999 a 22/12/1999. assinado digitalmente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 00 20 43 /2 00 5- 11 Fl. 277DF CARF MF 2 Winderley Morais Pereira Presidente. assinado digitalmente Ari Vendramini Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderely Morais Pereira (Presidente), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Salvador Cândido Brandão Junior, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen, Marco Antonio Marinho Nunes e Ari Vendramini (Relator) Relatório 1. Tratase de auto de infração que formalizou a constituição de crédito tributário referente á Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão Financeira – CPMF. 2. Adotamos o relatório do Acórdão DRJ/RIBEIRÃO PRETO por descrever de forma precisa a autuação e as razões de impugnação. Tratase de Auto de Infração da Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão Financeira — CPMF, fls. 03/30, que constituiu o crédito tributário total de R$ 2.981,92, somados o principal, multa de oficio e juros de mora calculados até 31/10/2005. Como se verifica pela leitura da descrição dos fatos que integra o auto de infração, a atuação fiscal decorre da análise das informações referentes A CPMF não retida e não recolhida por força de provimento judicial, posteriormente revogado, prestadas pelas instituições financeiras junto As quais a contribuinte foi titular de conta corrente. Cientificado do lançamento em 10/11/2005, o sujeito passivo apresentou impugnação em 09/12/2005, fls. 43/48, alegando, em síntese, que obteve liminar em ação coletiva suspendendo a exigibilidade da CPMF. No entanto, a liminar foi cassada e a segurança negada, decisão confirmada no Tribunal Regional Federal da 3a Regido. Prossegue o impugnante: Com a cassação da medida liminar, ocorrida em 08 de outubro de 1999, o impugnante perdeu a proteção judicial da qual era beneficiário e a sua situação de imunidade face à Contribuição Provisória em apreço. A Impugnante, por força do disposto na Medida Provisória 2.037, deveria ter adotado uma série de providencias, para cuja adoção,inclusive, a Medida Provisória fixou prazos peremptórios. Dessa forma, a instituição responsável pela retenção e pelo recolhimento da CPMF, deveria ter procedido a retenção dos valores não retidos do impugnante no dia 29 de setembro de 2000, haja vista que a liminar foi cassada no dia 08 de outubro de 1999. Todavia quedouse inerte e não fez a retenção dos valores não recolhidos durante a vigência da medida liminar, dentro do prazo de estabelecido nas Medidas Provisórias acima transcritas ocorrendo dessa forma, Decadência do Direito. Fl. 278DF CARF MF Processo nº 13830.002043/200511 Acórdão n.º 3301005.577 S3C3T1 Fl. 278 3 3. Decidindo a matéria impugnada ,assim ementou a DRJ/RIBEIRÃO PRETO : ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 11/08/1999 a 30/01/2002 CPMF. DECADÊNCIA. 0 prazo decadencial das contribuições destinadas seguridade social é de dez anos a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. FALTA DE RECOLHIMENTO. Constatada a falta de retenção/recolhimento da contribuição, correta a exigência de oficio do tributo não recolhido. Lançamento Procedente 4. Inconformado com tal decisão, o autuado apresentou Recurso Voluntário. 5. Apreciando as razões, a 1ª Turma Especial da 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento deste CARF assim relatou : Trata o presente de recurso voluntário contra o Acórdão de n° 05 21.401, de 10 de março de 2008, da DRJ/Campinas/SP, fls. 100 a 101, que, em face da manifestação de inconformidade apresentada, fls. 43 a 48, julgou o lançamento procedente. Cientificada da decisão em 31 de março de 2008, irresignada, apresenta recurso voluntário, fls. 108 a 110, em 28 de abril de 2007, por meio o qual nada acrescenta, em substância, aos argumentos da manifestação de inconformidade como segue. Em seu recurso, a Defesa pugna pela prescrição dos créditos tributários, pelo fato de ter sido intimada para pagamento em 26 .de março de 2008, "06 (seis) anos após o último mês de cobrança da CPMF". Ao final, alega não ser devedora do que lhe é cobrado. É o relatório. 6. Ao final, decidindo a questão, assim restou ementado o Acórdão CARF : ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 11/08/1999 a 30/01/2002 CPMF. Decadência. Não cumprida a exigência do art. 150, caput, e § 1°, o prazo decadencial das contribuições destinadas à seguridade social é de cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte Aquele em que o crédito poderia ter sido constituído. Lançamento de Oficio. Falta de Recolhimento. Constatada a falta de retenção/recolhimento da contribuição, correta a exigência de oficio do tributo não recolhido. Fl. 279DF CARF MF 4 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os Membros da PRIMEIRA TURMA ESPECIAL da PRIMEIRA CÂMARA da SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO do CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso para reconhecer a decadência dos fatos geradores ocorridos antes de 10/11/2000. 7. Esta decisão foi objeto de Embargos de Declaração, por parte da Procuradoria da Fazenda Nacional, que verificou ter ocorrido contradição e omissão. 8. Os Embargos foram acolhidos, com efeitos infringentes, como se vê no Acórdão exarado por esta 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento : ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 04/08/1999 a 09/01/2002 EMBARGOS DECLARATÓRIOS. CONTRADIÇÕES E OMISSÕES CONSTATADAS. NULIDADE DA DECISÃO EMBARGADA. Nos termos do art. 59, inciso II, do Decreto 70.235/1972, as constatadas contradições e omissões do julgado embargado levam ao necessário reconhecimento da sua nulidade por contradição e incompletude. Em razão das particularidades do caso concreto aqui analisado, resta forçoso reconhecer que a existência de contradições entre a decisão recorrida e os seus fundamentos e a ausência de fundamentação quanto a tópicos essenciais à solução da lide levam a uma verdadeira insegurança quando ao conteúdo do julgamento outrora proferido, em especial quando se verifica que o Recurso fora conhecido apenas em parte, quando deveria ter sido conhecido em sua integralidade. Embargos acolhidos Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em acolher os embargos declaratórios opostos, com efeitos infringentes, para, diante da impossibilidade fática de se sanar o julgado realizado naquela oportunidade, deliberar pela anulação da decisão embargada, determinandose a redistribuição do feito, para que o Recurso Voluntário seja novamente julgado, respeitandose os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. 9. Por descrever com precisão toda a situação fática e processual, adoto os dizeres do relatório e voto da Ilustre Conselheira Relatora Liziane Angelotti Meira : Relatório Por bem relatar os fatos, adoto parte do relatório constante da decisão de fls. 248 e seguintes dos autos: Trata o presente de recurso voluntário contra o Acórdão de n° 0521.401, de 10 de março de 2008, da DRJ/Campinas/SP, fls. 100 a 101, que, em face da manifestação de inconformidade apresentada, fls. 43 a 48, julgou o lançamento procedente. Cientificada da decisão em 31 de março de 2008, irresignada, apresenta recurso voluntário, fls. 108 a 110, em 28 de abril de 2007, por meio o qual nada acrescenta, em substância, aos argumentos da manifestação de inconformidade como segue. Em seu recurso, a Defesa pugna pela prescrição dos créditos tributários, pelo fato de ter sido intimada para pagamento em 26 .de março de 2008, "06 (seis) anos após o último mês de cobrança da CPMF". Ao final, alega não ser devedora do que lhe é cobrado. Fl. 280DF CARF MF Processo nº 13830.002043/200511 Acórdão n.º 3301005.577 S3C3T1 Fl. 279 5 A 1a Turma Especial da Segunda Seção de Julgamento deste CARF deu provimento parcial ao Recurso Voluntário, com a seguinte Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 11/08/1999 a 30/01/2002 CPMF. Decadência. Não cumprida a exigência do art. 150, caput, e § 1°, o prazo decadencial das contribuições destinadas à seguridade social é de cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte Aquele em que o crédito poderia ter sido constituído. Lançamento de Oficio. Falta de Recolhimento. Constatada a falta de retenção/recolhimento da contribuição, correta a exigência de oficio do tributo não recolhido. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou embargos de declaração, alegando contradição, obscuridade e omissão, nos seguintes termos: No dispositivo do acórdão, embora não haja menção expressa, infere se que o colegiado decidiu aplicar o art. 150, § 4° do CTN na contagem do quinquênio decadencial, tendo em vista a ciência da autuação pelo sujeito passivo em 10/11/2005. Logo, para declarar a decadência do período até 10/11/2000, o órgão julgador somente pode ter considerado o fato gerador corno termo inicial do prazo para a constituição do crédito tributário, assim como preceitua a retrocitada norma. Esta conclusão, contudo, não é a da ementa, cujo teor é reproduzido nas linhas abaixo: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE A MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCAIRA CPMF Período de Apuração:11/08/1999 a 30/01/2002. CPMF. Decadência. Não cumprida a exigência do art. 150, caput, e § 1°, o prazo decadencial das contribuições destinadas à seguridade social é de cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído. Lançamento de Oficio. Falta de Recolhimento. Constatada a falta de retenção/recolhimento da contribuição, correta a exigência de oficio do tributo não recolhido." Como se vê, na ementa, afastouse a aplicação do art. 150 do CTN na contagem do prazo decadencial, para fixar o termo inicial no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido lançado, disciplina do art. 173, I do CTN. Fl. 281DF CARF MF 6 Sendo assim, a ementa e a parte dispositiva do acórdão embargado se revelam contraditórias quanto à norma aplicada ao caso para declarar a decadência parcial do crédito tributário em discussão. Além da contradição apontada acima, o acórdão também incorre em obscuridade e omissão, pois, embora a decisão tenha sido tomada pela maioria dos conselheiros, o aresto embargado somente apresenta o voto do Relator, Belchior Melo de Souza, que seria justamente o conselheiro vencido, conforme consignado na parte dispositiva. Assim, o acórdão se apresenta também incompleto por não trazer o voto que consagrou a tese vencedora no julgado, fazendose necessária a integração do aresto para indicar expressamente o dispositivo legal aplicado ao caso na contagem do prazo decadencial. Ante o exposto, requer a União (Fazenda Nacional) sejam conhecidos e providos os presentes embargos de declaração, para sanar os vícios acima apontados. Voto Conselheira Liziane Angelotti Meira. Os Embargos Declaratórios opostos são tempestivos e reúnem os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. Na ementa da decisão embargada, realmente se verifica que se determinou o prazo decadencial a partir do primeiro dia do exercício seguinte, afastando se a aplicação do art. 150, § 4°,do CTN, conforme trecho que colacionamos: CPMF. Decadência. Não cumprida a exigência do art. 150, caput, e § 1°, o prazo decadencial das contribuições destinadas à seguridade social é de cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído. Na parte dispositiva do voto, informase que o relator foi voto vencido e que o voto vencedor deu provimento parcial ao recurso para reconhecer a decadência dos fatos geradores ocorridos antes de 10/11/2000; informase ainda que o relator reconheceu a decadência apenas para os fatos geradores ocorridos no ano de 1999. Não consta do Acórdão o voto vencedor, apenas o voto vencido. Nesse contexto, é de se concluir que a decisão recorrida está eivada de vício em razão de contradição e omissão, faltandolhe elementos fundamentais, como o voto vencedor, suas razões, bem como a correta ementa. Diante das razões acima expostas, entendo que deverão ser acolhidos os embargos declaratórios opostos pelo Fazenda Nacional. Porém, diante da impossibilidade de se concluir quanto ao que fora o efetivo conteúdo do julgado proferido naquela oportunidade, entendo que não resta alternativa a este Colegiado senão determinar a anulação da decisão proferida naquela oportunidade, determinandose que o processo seja novamente distribuído para fins de julgamento do Recurso Voluntário interposto, para que uma nova decisão seja proferida, respeitandose os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. Voto, portanto, no sentido acolher os embargos declaratórios opostos, com efeitos infringentes, para, diante da impossibilidade fática de se sanar o julgado realizado naquela oportunidade, deliberar pela anulação da decisão embargada, determinandose a redistribuição do feito, para que o Recurso Voluntário seja novamente julgado, respeitandose os princípios constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. Fl. 282DF CARF MF Processo nº 13830.002043/200511 Acórdão n.º 3301005.577 S3C3T1 Fl. 280 7 10. Os autos foram então a mim distribuídos. É o relatório Voto Conselheiro Ari Vendramini 11. O cerne da questão no presente caso se resume na definição do prazo decadencial para formalização do crédito tributário, por lançamento. 12. A CPMF é, por claro, um lançamento por homologação, uma vez que se trata de um tributo que adota atécnica de retenção na fonte, sendo que as instituições financeiras foram designadas como responsáveis tributárias para a retenção e o recolhimento do tributo em nome do sujeito passivo, qual seja, o titular da contacorrente bancária onde ocorreu a movimentação financeira. 13. Entretanto, no caso em exame, não houve a retenção nem o recolhimento do tributo, fato que afasta o disposto no artigo 150, § 1º do Código Tributário Nacional, e, por consequência, o prazo decadencial estabelecido no seu § 4º, que dispõe : Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação ao lançamento. § 2º Não influem sobre a obrigação tributária quaisquer atos anteriores à homologação, praticados pelo sujeito passivo ou por terceiro, visando à extinção total ou parcial do crédito. § 3º Os atos a que se refere o parágrafo anterior serão, porém, considerados na apuração do saldo porventura devido e, sendo o caso, na imposição de penalidade, ou sua graduação. § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Fl. 283DF CARF MF 8 14. Portanto, tratase de lançamento de ofício, que formaliza a constituição do crédito tributário e, nesse diapasão, aplicase o prazo decadencial estabelecido no artigo 173, I do mesmo Códex Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento. (grifos nossos) 15. Disse bem o relator do Acórdão anterior, Conselheiro Belchior Melo de Sousa, quando assim se pronuncia : A CPMF é contribuição, por natureza, sujeita a lançamento por homologação, cuja contagem do prazo para decadência, em regra, se dá com base no art. 150, § 4°, porém excepcionalmente, no art. 173, I, do CTN. No primeiro caso, quando ha qualquer iniciativa do contribuinte de informar à Administração Tributária da ocorrência do fato gerador, pagamento antecipado ou compensação, correndo contra esta o prazo a contar do fato gerador, para homologar o procedimento levado a efeito pelo contribuinte, como ali previsto. No segundo, ausente qualquer participação do contribuinte, dilatase o prazo para a ação da Fazenda, contandose a partir do exercício seguinte em que o tributo poderia ter sido lançado. 16. Quanto ao prazo de 10 (dez) anos, defendido pela decisão de piso, da DRJ/CAMPINAS, estabelecido no artigo 45 da lei nº 8.212/1991, este já não mais subsiste, depois da sua apreciação pelos Tribunais Superiores e a publicação da Súmula nº 08, do STF, que assim estabeleceu definitivamente : São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decretolei nº 1.569/77 e os artigos 45 e 46 da lei nº 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência do crédito tributário. 17. Desta forma, há que reger o lançamento objeto destes autos o prazo decadencial definido no artigo 173, I do Código Tributário Nacional, ou seja, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. 18. Corroborando tal entendimento, citamos o seguinte julgado do Superior Tribunal de Justiça : Se não houver antecipação do pagamento, não há falarse em lançamento por homologação, mas em lançamento de ofício, hipótese em que o prazo de decadência corre a partir do primeiro dia do exercício seguinte 'aquele em Fl. 284DF CARF MF Processo nº 13830.002043/200511 Acórdão n.º 3301005.577 S3C3T1 Fl. 281 9 que o lançamento poderia ser realizado ( STJ 2ª T., REsp 23706/RS, rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro, j. 08/08/1996, DJU 14/10/1996, pag. 38.978). 19. Com relação ao início da contagem do prazo decadencial a que4 se refere o inciso I do artigo 173 do CTN, assim ensina Manoel Álvares, ao comentar tal dispositivo legal, in Código Tributário Nacional Comentado (Doutrina e Jurisprudência, artigo por artigo), Coordenador Vladimir Passos de Freitas, Ed. Revista dos Tribunais, 3ª edição, 2005, pags.717 : Para o caso de lançamento de ofício ou por declaração, é regra geral que o início do quinquênio decadencial se dá no primeiro dia do exercício seguinte 'aquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos termos do disposto no inciso I do art. 173. O primeiro dia do exercício seguinte é o dia 1º de janeiro e não o primeiro dia útil do ano, vez que o ano civil coincide com o exercício financeiro e o prazo de decadência não se interrompe, nem se suspende. 20. Nesse sentido vai a jurisprudência : TRIBUTÁRIO.DECADÊNCIA.ART.173, CTN. 1. O fenômeno da decadência em nosso sistema tributário deve ser entendido com a conjugação dos arts. 173, I e 150, § 4º, do CTN. 2. O termo inicial da contagem do prazo para se operar a decadência prevista no art. 173, I, do CTN, não é a data em que ocorreu o fato gerador. 3. O prazo decadencial em questão tem seu termo inicial contado do primeiro dia do exercício seguinte em que ocorreu o fato gerador, consumandose cinco anos após. STJ,, 1ª T., REsp 160738/SP, rel. Min. José Delgado, j. 12/03/1998, DJU 04/05/1998, pags. 113). 21. Aplicandose tais regras ao caso presente, verificase que, para os fatos geradores ocorridos em 11/08/1999, 08/09/1999, 22/09/1999, 13/10/1999, 10/11/1999, 08/12/1999 e 22/12/1999 (fls. 12 dos autos digitais – folha de continuação do auto de infração), o prazo decadencial se iniciou em 1º/01/2000 (primeiro dia do exercício seguinte 'aquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado) e teve seu termo final em 1º/01/2005 (cinco anos contados de 1º/01/2000), assim . 22. O sujeito passivo foi intimado do lançamento em 10/11/2005, conforme atesta o AR – Aviso de Recebimento dos CORREIOS, ás fls. 86 dos autos digitais, após, portanto, ao término do prazo decadencial. 23. Desta forma, para estes fatos geradores houve a ocorrência do lustro decadencial, fatal para a constituição, pela Fazenda Pública, do crédito tributário. 24. Para os fatos geradores ocorridos no período de 2000 a 2002, não ocorreu o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário pelo lançamento de ofício. 25. No caso presente, devem ser excluídos da exigência os fatos geradores ocorridos no período de 11/08/1999 a 22/12/1999. Conclusão Fl. 285DF CARF MF 10 26. De todo o exposto, voto por excluir da exigência os fatos geradores ocorridos no período de 11/08/1999 a 22/12/1999, por terem sido atingidos pelo prazo decadencial estabelecido no inciso I do artigo 173 do CTN, mantendo os lançamentos referentes ao fatos geradores ocorridos no período de 2000 a 2002, portanto, dando parcial provimento ao recurso voluntário. É o meu voto. assinado digitalmente Ari Vendramini Relator Fl. 286DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10907.720586/2013-03
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 19 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Mar 01 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2009
PRELIMINAR. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
O julgador não está obrigado a refutar expressamente todos os argumentos declinados pelas partes na defesa de suas posições processuais, desde que pela motivação apresentada seja possível aferir as razões pelas quais acolheu ou rejeitou as pretensões deduzidas.
INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA Nº 2.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA Nº 126. APLICABILIDADE.
A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento dos deveres instrumentais decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do Decreto-Lei nº 37, de 1966, dada pelo art. 40 da Lei nº 12.350, de 2010.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3002-000.602
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, não conhecendo do argumento de inconstitucionalidade, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar suscitada e, por unanimidade de votos, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os conselheiros Alan Tavora Nem (relator) e Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, que acolheram a preliminar de nulidade. Designado para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar, o conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves.
(assinado digitalmente).
Larissa Nunes Girard - Presidente.
(assinado digitalmente).
Alan Tavora Nem - Relator.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto da Silva Esteves - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem (Relator).
Nome do relator: ALAN TAVORA NEM
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2009 PRELIMINAR. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O julgador não está obrigado a refutar expressamente todos os argumentos declinados pelas partes na defesa de suas posições processuais, desde que pela motivação apresentada seja possível aferir as razões pelas quais acolheu ou rejeitou as pretensões deduzidas. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA Nº 126. APLICABILIDADE. A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento dos deveres instrumentais decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do Decreto-Lei nº 37, de 1966, dada pelo art. 40 da Lei nº 12.350, de 2010. Recurso Voluntário Negado.
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NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O julgador não está obrigado a refutar expressamente todos os argumentos declinados pelas partes na defesa de suas posições processuais, desde que pela motivação apresentada seja possível aferir as razões pelas quais acolheu ou rejeitou as pretensões deduzidas. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA Nº 126. APLICABILIDADE. A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento dos deveres instrumentais decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do DecretoLei nº 37, de 1966, dada pelo art. 40 da Lei nº 12.350, de 2010. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, não conhecendo do argumento de inconstitucionalidade, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar suscitada e, por unanimidade de votos, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os conselheiros Alan Tavora Nem (relator) e Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, que acolheram a preliminar de nulidade. Designado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 7. 72 05 86 /2 01 3- 03 Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 149 2 para redigir o voto vencedor, em relação à preliminar, o conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves. (assinado digitalmente). Larissa Nunes Girard Presidente. (assinado digitalmente). Alan Tavora Nem Relator. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem (Relator). Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra o Acórdão nº 1294.832 da DRJ/RJO, que manteve integralmente o Crédito Tributário lançado pelo Auto de Infração, que exige do contribuinte a multa pelo atraso na prestação de informações sobre carga transportada, penalidade prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DecretoLei nº 37, de 1966, cuja redação foi dada pelo art. 77 da Lei nº 10.833, de 2003, conforme relatório da 4ª Turma da DRJ/RJO (fls. 115/119), exarado nos seguintes termos: "Versa o processo sobre a controvérsia instaurada em razão da lavratura pelo fisco de auto de infração para exigência de penalidade prevista no artigo 107, inciso IV, alínea “e” do Decretolei nº 37/1966, com a redação dada pela Lei nº 10.833/2003. Os fundamentos para esse tipo de autuação nesse conjunto de processos administrativos fiscais são os seguintes: As empresas responsáveis pela desconsolidação da carga lançaram a destempo o conhecimento eletrônico, pois segundo a IN SRF nº 800/2007 (artigo 22), o prazo mínimo para a prestação de informação acerca da conclusão da desconsolidação é de 48 horas antes da chegada da embarcação no porto de destino do conhecimento genérico. Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 150 3 Caso não se concluindo nesse prazo é aplicável a multa. Devidamente cientificada, a interessada traz como alegações, além das preliminares de praxe, acerca de infringência a princípios constitucionais, prática de denúncia espontânea, ilegitimidade passiva, ausência de motivação, tipicidade, e que tragam ao auto de infração a ineficiência e a desconstrução do verdadeiro cerne da autuação que foi o descumprimento dos prazos estabelecidos em legislação norteadora acerca do controle das importações, a argumentação de que de fato as informações constam do sistema, mesmo que inseridas, independente da motivação, após o momento estabelecido no diploma legal pautado pela autoridade aduaneira." Analisando os argumentos do contribuinte, a DRJ/RJO julgou improcedente a Impugnação (fls. 22/45), bem como, seu aditamento (fls. 92/98) deixando "de acolher as preliminares trazidas pela interessada, eis que as argüições de inconstitucionalidade ou ilegalidade não estão afetas ao julgador administrativo", por considerar que o Agente Marítimo é o legitimo representante do transportador estrangeiro no País, ou seja, "alegação acerca de ausência de tipicidade e motivação também devem cair por terra, ou mesmo sobre ilegitimidade passiva" portanto responde pela a infração, que deve ser mantida a multa prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DecretoLei nº 37, de 1966, cuja redação foi dada pelo art. 77 da Lei nº 10.833, de 2003 e, por fim, não pode ser aplicado o instituto da denúncia espontânea, por Acórdão dispensado de ementa, de acordo com a Portaria RFB nº 2.724/2017. O contribuinte cientificado da decisão, ingressou com Recurso Voluntário (fls. 130/145) requerendo a reforma do Acórdão recorrido, tendo em vista: a) Configuração de confisco pela "onerosidade na aplicação da penalidade" "princípio da vedação ao confisco está intimamente ligado ao princípio constitucional da proporcionalidade" e b) "que a r. decisão NÃO se manifestou expressamente sobre a questão de DENÚNCIA ESPONTÂNEA" É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Alan Tavora Nem Relator O Recurso Voluntário é tempestivo, preenche os requisitos formais de admissibilidade, inclusive quanto à competência das Turmas Extraordinárias e, portanto, dele tomo conhecimento. A discussão em análise consiste em saber se o contribuinte poderia sofrer a penalidade aplicada pela fiscalização de acordo com o art. 107, inciso IV, alínea "e", do DecretoLei nº 37, de 1966. Nulidade da Decisão de Primeira Instância O Acórdão da DRJ aduz que "de outra feita, qualquer alegação acerca de ausência de tipicidade e motivação também devem cair por terra, ou mesmo sobre ilegitimidade passiva, inexistência de responsabilidade ou mesmo de requerimento de Fl. 150DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 151 4 relevação de penalidade, pois em nenhum dos casos há coaduação com o que se verifica dos autos" Ao analisar o caso, entendo que assiste razão ao contribuinte quanto ao seu pleito preliminar. Isso porque, da leitura do acórdão recorrido, verificase que este, de fato, deixou de analisar as particularidades do caso concreto, tendo proferido decisão genérica, cujos fundamentos não se adequam à hipótese sob análise. Ou seja, verificase que o acórdão recorrido, de fato, julgou a presente contenda de forma genérica, sem que tivesse feito qualquer consideração acerca da ilegitimidade passiva alegada pelo contribuinte neste caso concreto, restandose discorrer uma única frase, qual seja, "... de outra feita, qualquer alegação acerca de ausência de tipicidade e motivação também devem cair por terra, ou mesmo sobre ilegitimidade passiva". No meu entender, portanto, a decisão recorrida revestese de vício intransponível de motivação, apta a configurar a preterição do direito de defesa do contribuinte, nos moldes do art. 59 do Decreto nº 70.235/1972, in verbis: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993). (grifado). Dessa forma, vencido na preliminar de nulidade passo à analise do mérito. Mérito Requer o contribuinte a aplicação da denúncia espontânea considerando que "em que pese a denúncia espontânea e a correção ser efetuada poucas horas do nascimento do fato gerador, não há razão para a aplicação de penalidades, justamente pelo fato da utilização do instituto da denúncia espontânea, ainda assim o Órgão Fiscalizador, decorridos tantos anos lavra o auto de infração". Entendo que não assiste razão ao contribuinte em seu pleito, senão vejamos. O instituto da denúncia espontânea prevista no art. 138 do CTN, muito menos, a norma específica relativa à infração à legislação aduaneira, conforme expressamente determina o art. 102 do Decretolei nº 37/1966, a seguir reproduzido: Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 152 5 Art. 102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º (...) § 2º A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010)." (grifado). O objetivo da denúncia espontânea, evidentemente, é estimular que o infrator informe espontaneamente à Administração aduaneira a prática das infrações de natureza tributária e administrativa instituídas na legislação aduaneira. Nesta última, incluída todas as obrigações acessórias que tenham por objeto as prestações positivas (fazer ou tolerar) ou negativas (não fazer) instituídas no interesse fiscalização das operações de comércio exterior. Importante ressaltar que, para aplicação do instituto da denúncia espontânea, é condição necessária que a infração de natureza tributária ou administrativa seja passível de denunciação à fiscalização pelo infrator. Sendo assim, a denúncia espontânea, não tem o condão de desfazer ou paralisar o fluxo inevitável do tempo, para as infrações que têm por objeto as condutas extemporâneas do sujeito passivo, caracterizadas pelo cumprimento da obrigação após o prazo estabelecido na legislação. No mesmo sentido, tem se firmado a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), conforme enunciados das ementas a seguir transcritas: "TRIBUTÁRIO. PRÁTICA DE ATO MERAMENTE FORMAL. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DCTF. MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. A inobservância da prática de ato formal não pode ser considerada como infração de natureza tributária. De acordo com a moldura fática delineada no acórdão recorrido, deixou a agravante de cumprir obrigação acessória, razão pela qual não se aplica o benefício da denúncia espontânea e não se exclui a multa moratória. "As responsabilidades acessórias autônomas, sem qualquer vínculo direto com a existência do fato gerador do tributo, não estão alcançadas pelo art. 138, do CTN. (AgRg no AG nº 490.441/PR, Relator Ministro LUIZ FUX, DJ de 21/06/2004, p. 164) Agravo regimental improvido. (STJ, ADRESP 885259/ MG, Primeira Turma, Rel. Min Francisco Falcão, pub. no DJU de 12/04/2007) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO. SUBMISSÃO À REGRA PREVISTA NO ENUNCIADO ADMINISTRATIVO 03/STJ. SUPOSTA OFENSA AO ART. 535 DO CPC/73. AUSÊNCIA DE VÍCIOS NO ACÓRDÃO. EXECUÇÃO FISCAL. IMPOSTO DE RENDA. MULTA.ATRASO NA ENTREGA. LEGALIDADE. REQUISITOS DE VALIDADE Fl. 152DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 153 6 DA CDA. ÓBICE DA SÚMULA 7/STJ. ARESTO ATACADO QUE CONTÉM FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS SUFICIENTES PARA MANTÊLO. ÓBICE DA SÚMULA 126/STJ. 1. (...) 2 (...) 3 (...) 4. É cediço o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no sentido da legalidade da cobrança de multa pelo atraso na entrega da declaração de rendimentos, inclusive quando há denúncia espontânea, pois esta "não tem o condão de afastar a multa decorrente do atraso na entrega da declaração de rendimentos, uma vez que os efeitos do artigo 138 do CTN não se estendem às obrigações acessórias autônomas". (AgRg no AREsp 1022862/SP, Rel. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES SEGUNDA TURMA, julgado em 13/06/2017, DJe 21/06/2017)." Portanto, segundo o entendimento do STJ (1ª e 2ª Turma), o cumprimento extemporânea de qualquer tipo de obrigação acessória configura infração formal, não passível do benefício do instituto da denúncia espontânea da infração, previsto no art. 138 do CTN. Por fim, em face das disposições do art. 72 do Regimento Interno do CARF de observância obrigatória aplico a Súmula nº 126 "A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento dos deveres instrumentais decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do DecretoLei nº 37, de 1966, dada pelo art. 40 da Lei nº 12.350, de 2010.". Princípio da Razoabilidade e da Proporcionalidade Quanto ao afastamento da legislação aplicada por ferimento ao Princípio da Razoabilidade e da Proporcionalidade, deixo de apreciar, em razão da Súmula nº 2, do CARF, que assim dispõe: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente). Alan Tavora Nem Fl. 153DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 154 7 Voto Vencedor Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves Redator Em que pese o voto proferido pelo eminente Relator, data venia, divirjo quanto a sua interpretação sobre a nulidade do Acórdão recorrido. Dessa forma, o ponto de discordância restringese quanto a esta matéria, portanto, havendo convergência quanto aos demais pontos do seu voto em relação aos outros argumentos aventados pela ora recorrente em seu Voluntário. Ao contrário da conclusão chegada pelo I. Relator, penso que todos os pontos de defesa levantados pela contribuinte em sua Impugnação foram tratados, ainda que de forma genérica, pela instância a quo, por conseqüência, não se vislumbra nenhum cerceamento aos seus Direitos à Ampla de Defesa e ao Contraditório. Ademais, verificase, ao compulsar o Recurso Voluntário, que nem mesmo a contribuinte aduziu tal argumentação em sua peça recursal. Por outro lado, repiso meu entendimento, já manifestado em outros julgados desta Turma, que os julgadores não estão obrigados a examinar todos os argumentos levantados pela defesa, bastando que as decisões proferidas estejam devida e coerentemente fundamentadas. Não há que se falar em nulidade da decisão de primeira instância, quando esta atende aos requisitos formais previstos no art. 31 do Decreto nº. 70.235, de 1972, como no caso dos presentes autos. Nesse mesmo sentido é a jurisprudência consolidada no âmbito no Superior Tribunal de Justiça – STJ. Como exemplo, cito decisão proferida, em 08/03/2012, no AgRg no AREsp 57508/RN: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. ART. 535 DO CPC. VIOLAÇÃO. INOCORRÊNCIA. 1. De acordo com os precedentes desta Corte, "(...) é de se destacar que os órgãos julgadores não estão obrigados a examinar todas as teses levantadas pelo jurisdicionado durante um processo judicial, bastando que as decisões proferidas estejam devida e coerentemente fundamentadas, em obediência ao que determina o art. 93, inc. IX, da Constituição da República vigente. Isto não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC." (REsp 1.283.425/MG, Rel. Min. MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 6/12/2011, DJe 13/12/2011). 2. O fato de a Corte Regional haver decidido a lide de forma contrária à defendida pelo recorrente, elegendo fundamentos diversos daqueles por ele propostos, não configura omissão ou Fl. 154DF CARF MF Processo nº 10907.720586/201303 Acórdão n.º 3002000.602 S3C0T2 Fl. 155 8 qualquer outra causa de embargabilidade, pelo que se tem por afastada a tese de violação do disposto no art. 535 do CPC. 3. Agravo regimental a que se nega provimento. (grifo nosso) Ainda sobre o mesmo tema, não tem sido outro o entendimento esposado pelas Turmas Julgadoras deste Tribunal, inclusive, na Câmara Superior de Recursos Fiscais, como no Acórdão nº 9303004.331, que reproduzse a ementa na parte de interesse da presente lide: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 04/04/2002 a 16/12/2004 NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU. INEXISTÊNCIA. O julgador administrativo, a exemplo do julgador judicial, não está obrigado a refutar uma por uma das alegações propostas pela parte; está sim obrigado a enfrentar as questões importantes da lide, e seguir uma ordem lógica de fundamentação que possibilite aferir as razões pelas quais decidiu o contencioso. Dessa maneira, por entender que o Acórdão recorrido supre as necessidades lógicojurídicas para a sua validade, julgo por afastar a preliminar de nulidade suscitada, de ofício, pela conselheira relatora e, no mérito, nego provimento ao Recurso Voluntário É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Fl. 155DF CARF MF
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Numero do processo: 10783.916368/2009-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004
INCONSTITUCIONALIDADE.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Recurso Voluntário Não Conhecido
Numero da decisão: 3302-006.163
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 INCONSTITUCIONALIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Não Conhecido
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 INCONSTITUCIONALIDADE. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Não Conhecido Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Déroulède (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 78 3. 91 63 68 /2 00 9- 21 Fl. 41DF CARF MF Processo nº 10783.916368/200921 Acórdão n.º 3302006.163 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de não homologação da compensação declarada, por não restar crédito disponível para a compensação dos débitos informados, em virtude do fato de que o pagamento informado já havia sido utilizado para quitar débitos do contribuinte. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte argumentou que, considerando a alteração do regime constitucional das contribuições (PIS/Cofins) por meio da Emenda Constitucional nº 20, de 1998, eram inconstitucionais as Medidas Provisórias n° 66/2002 e nº 135/2003 que alteraram as suas base de cálculo e alíquota, carecendo de validade, por conseguinte, as Leis nº 10.637/2002 e n° 10.833/2003 delas decorrentes. Arguiu, também, o então Manifestante a inexigência da multa moratória, em razão da denúncia espontânea. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 1332.420, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, sob o fundamento de não comprovação do indébito fiscal e da incompetência da autoridade administrativa para apreciar arguições de inconstitucionalidade de norma legitimamente inserida no ordenamento jurídico. Inconformado, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário e requereu o reconhecimento do seu direito, reproduzindo seus argumentos apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Voto Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão nº 3302006.147, de 27/11/2018, proferida no julgamento do processo nº 10783.912698/200948, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3302006.147): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Fl. 42DF CARF MF Processo nº 10783.916368/200921 Acórdão n.º 3302006.163 S3C3T2 Fl. 4 3 Conforme exposto anteriormente, as alegações da Recorrente se restringem a inconstitucionalidade da MP 135/2003, a saber: l. Considerando que o regime constitucional da COFINS foi alterado pela Emenda Constitucional n” 20, de 15 de dezembro de 1998, concluise ser inconstitucional a Medida Provisória n° 135/2003 que alterou a base de cálculo e alíquota da COFINS; 2. Nesse sentido, carece de validade a Lei n° 10.833/2003, pois decorre de medida provisória inconstitucionalmente editada; 3. Sendo assim, restam indevidos recolhimentos efetuados pela contribuinte com à alíquota majorada de 7,6%, pois deveria ter sido aplicada à alíquota de 3,0%. Neste cenário, impõese observar e aplicar a Súmula CARF nº 2: "O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária." Diante do exposto, voto por não conhecer do recurso voluntário. Destaquese que, não obstante o processo paradigma se referir apenas à Cofins, à Medida Provisória nº 135/2003 e à Lei nº 10.833/2003, a decisão ali tomada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS, à Medida Provisória nº 66/2002 e à Lei nº 10.637/2002. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 43DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.918492/2006-81
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1001-000.972
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Volutário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e Jose Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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score : 1.0
Numero do processo: 16561.720117/2015-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2010
VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO.
Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação.
Numero da decisão: 1401-003.012
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. No mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa.
Luiz Augusto de Souza Gonçalvez - Presidente.
Letícia Domingues Costa Braga - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga
Nome do relator: LETICIA DOMINGUES COSTA BRAGA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Exercício: 2010 VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO. Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2010 VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA RECEBIDA PELOS SÓCIOS APÓS OPERAÇÃO DE REDUÇÃO DE CAPITAL. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO. PLANEJAMENTO LEGÍTIMO. Restando comprovado que a negociação da participação societária foi de fato e de direito realizada pelas pessoas físicas (ausência de simulação), bem como que a redução de capital com entrega de participação aos sócios produziu as consequências jurídicas normalmente esperadas para este tipo de operação (negócio dotado de "causa"), não há base para que o fisco desconsidere os efeitos tributários a pretexto de tributar os atos segundo o seu entendimento apenas para majorar a tributação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, superar as arguições de nulidade. No mérito, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa. Luiz Augusto de Souza Gonçalvez Presidente. Letícia Domingues Costa Braga Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Lizandro Rodrigues de Sousa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 17 /2 01 5- 82 Fl. 3156DF CARF MF 2 (Suplente Convocado), Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e Letícia Domingues Costa Braga Relatório Adoto como relatório, aquele da decisão de primeira instância, complementando a seguir: Em ação fiscal levada a efeito no contribuinte acima identificado, abrangendo o ano calendário de 2010, a Autoridade identificou a fuga da tributação quanto ao ganho de capital, que incidiria com a alíquota de 34% sobre a pessoa jurídica (autuada), fazendoa incidir em 15% no ganho de capital obtido nas operações pelas pessoas físicas (sócios) de acordo com o Termo de Verificação Fiscal (TVF, fls. 1054 e ss.). O fator determinante para a abertura desse procedimento fiscal foi a aquisição de 100% da participação acionária na Rodovias Integradas do Oeste S/A (Rodovias), pela Companhia de Participações em Concessões S/A (CPC), ocorrida em 2010. Do total dessa participação, 22,16% pertenciam à Holding G4 Participações S.P.E. Ltda. (Holding G4), da qual a N.F. MOTTA CONSTRUÇÕES E COMERCIO LTDA detinha 25% das quotas. A Autoridade Fiscal afirma que a negociação foi concluída em 03/08/2010, conforme contrato de compra e venda (DOC 39 e 40, fls. 562 e ss.), quando a CPC, adquiriu a participação acionária da empresa HOLDING G4, que detinha 20,16% de participação acionária na empresa RODOVIA INTEGRADAS DO OESTE S/A – Rodovias (SPVIAS). Transcrevo abaixo trecho do Termo de Verificação Fiscal que trata do valor da alienação, custo contábil e da apuração do ganho de capital (fls 1068 e ss., grifo nosso): [...] 61. Como o registro das participações não foi individualizado, utilizouse para identificar o valor do investimento da NF Motta na Holding G4 o balancete de verificação analítico de 31/07/2010, levantado pela Holding G4 em 13/08/2010 e apresentado pela CPC em procedimento de diligência. O valor do patrimônio líquido da Holding G4 foi avaliado em R$ 17.737.636,00, conta contábil 2.3.01 (DOC 20). Sendo a NF Motta detentora de 25% das quotas da Holding G4, seu investimento correspondia a R$ 4.434.409,00. 62. De acordo com a cláusula 3.1.1 do Contrato de Compra e Venda (DOC 39 E 40) assinado em 03/08/2010, o preço de venda foi avaliado de R$ 1.289.548.372,0, em 18/03/2010, o qual deveria ser corrigido por 100% do CDI até a efetivação do negócio. Corrigindose o valor até a data do fato gerador para fins de cálculo do ganho de capital, apurase o resultado abaixo: Fl. 3157DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.157 3 63. A Holding G4 detinha 22,16% das ações da Rodovias, em decorrência, o valor do preço de venda que lhe coube foi R$ 295.706.384,07. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 73.926.596,02. 64. O ajuste previsto nas cláusulas 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3 do Contrato de Compra e Venda de 03/08/2010, referese a pagamentos diversos efetuados pela Rodovias no período de 01/01/2010 a 31/05/2010, sendo calculado em R$ 28.863.819,85 (DOC 34). Este ajuste deve ser dividido proporcionalmente à participação dos vendedores constantes no referido contrato e que possui como objeto a compra de 73,45% das ações da Rodovias. Desta forma, 30,17% (22,16 X 100 / 73,45) deste ajuste, no valor de R$ 8.708.267,50 coube à Holding G4. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 2.177.066,87. 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos Vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o seguinte ganho de capital: 67. Os valores efetivamente pagos pela CPC em 22/10/2010 (DOC 32) de acordo com os comprovantes apresentados foram: 68. Desta forma, a parcela de R$ 62.826.592,20 referente ao ganho de capital foi reconhecida em 22/10/2010 e o restante, no valor de R$ 5.250.282,09, no dia 31/12/2010, conforme dispõe a IN 343/03. A apuração do ganho de capital em 02 momentos distintos decorreu da opção do contribuinte pelo regime de caixa e por ter ultrapassado o limite da receita que lhe permitiria optar pelo lucro presumido no AC 2011. 69. A diferença entre o preço de venda informado pela CPC no total de R$ 1.364.711.014,20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de R$ 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de R$ 30.295.923, coube à NF Motta, R$ 1.678.394,17. Concluiu a Autoridade Fiscal que a transferência da participação societária da NF Motta na Holding G4 para seus sócios, Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva, faz parte de um planejamento tributário abusivo que almejava, como único objetivo, reduzir a tributação sobre o ganho de capital, significando uma economia tributária indevida. Esta economia tributária se dá pela aplicação da alíquota de 15%, pelo qual é tributado o ganho de capital auferido por pessoa física (IRPF), em detrimento das alíquotas de IRPJ e da CSLL a que estão sujeitas as pessoas jurídicas e que totalizam 34%. Fl. 3158DF CARF MF 4 No Termo de Verificação Fiscal (fls. 1054 e ss.) a autoridade lançadora descreve minuciosamente os fatos que levaram à autuação. Tempestivamente a autuada apresentou a peça impugnatória, conforme transcrito abaixo: II O DIREITO II. a) A precariedade do trabalho fiscal Ofensa ao art. 142 do Código Tributário Nacional CTN Antes de tudo, é preciso dizer que os lançamentos de ofício ofendem ao art. 142 do CTN, já que o AFRFB, mesmo ao desqualificar arbitrariamente atos legais, perfeitos e acabados, não logrou comprovar que (i) a alienação da participação societária da Rodovias teria sido feita na pessoa jurídica da Requerente e (ii) muito menos que o fruto da venda feita pelas pessoas físicas teria voltado, de forma integral, ao seu próprio caixa. Deveras, desde a fiscalização o AFRFB insistiu, com ameaças de imposição de multa por embaraço à Fiscalização, na obtenção de documentos que sustentariam a sua presunção de que a alienação da participação indireta da Rodovias feita pelas pessoas físicas teria sido feita, na realidade, pela Requerente como pessoa jurídica (fls. 44/55 e 145/146). Ainda na fase inquisitória o AFRFB fez assertivas de que a Requerente teria participado formalmente de negociações com a CPC, mas nos termos de intimações deixou de apresentar os referidos documentos, em menoscabo ao direito de manifestação da Requerente (fls. 46/50). Finalizada a fiscalização e perpetrados os lançamentos de ofício, o AFRFB não trouxe aos autos 1 (um) documento sequer que comprove sua tese de que o negócio entre as pessoas físicas (sócias) e a CPC teria sido realizado, na realidade, pela Requerente. A tese fiscal é pautada em documentos apresentados pela CPC (propostas, laudos e contratação de banco intermediário) que, simplesmente, retratam o interesse dela na compra da Rodovias ao longo dos anos, sem qualquer formalização ou ato praticado pela Requerente. Na realidade, os documentos acostados aos autos demonstram que as pessoas físicas realizaram o negócio de venda e compra (562/899) e os ajustes da operação, como se nota do apontamento de recolhimento de IRPF feitos pela própria fiscalização (fls. 1071). Da mesma forma, o AFRFB não logrou demonstrar e comprovar que o preço (da venda feita pelas pessoas físicas, sócias da Requerente) teria voltado, na integralidade, para a Requerente (a suposta vendedora na concepção fiscal). Para afirmar tal fato, o AFRFB apresentou apenas cópia dos aportes realizados na Requerente por seus sócios (fls. 131/151), deduzindo, sem apresentar qualquer outro elemento probatório adicional, que tais comprovantes demonstrariam o retorno do preço praticado pelas pessoas físicas em razão da alienação de sua participação na Holding G4. Nesse peculiar aspecto, a própria fiscalização revela que os sócios da Requerente fizeram aporte de valor correspondente à apenas uma parte do preço. Se, é parte, e pequena, digase de passagem, não se pode dizer que houve "retorno de investimento”, como sugeriu o AFRFB. Fl. 3159DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.158 5 Aliás, como será esmiuçado adiante, não se tem como atrelar uma redução de capital iniciada em 12/2008 a uma venda de participação fechada apenas 11/2010 e os posteriores pequenos aportes feitos pelos sócios da Requerente, como se fosse uma ação prevista. Ora, não é crível que os sócios da Requerente, já em 2008, pensassem numa venda e depois num reduzido aporte em 2010. E não se trata só de uma questão temporal. A fiscalização fechou os olhos para as condições suspensivas para a redução de capital e não notou aquelas previstas para efetivação do negócio pelas pessoas físicas (fls. 562/599 e doc. 10). Mais do que isso. o AFRFB fez um trabalho superficial, pois deixou de verificar, como se notará à frente, que os sócios da Requerente tinham patrimônio para realização de aporte em 2010 e que esse tipo de ação era costumeiro, sendo feito em anos anteriores (2008 e 2009). O AFRFB, apesar de dizer que os aportes foram parciais, deixou de apontar que eles, em dados numéricos, representaram valor ínfimo frente ao valor do preço da operação de alienação realizada pelas pessoas físicas. O fato é que ponto relevante da construção dos lançamentos de ofício deixou de ser comprovado nos autos. O fundamento do lançamento, neste particular, é a suposição do AFRFB, nada mais! Por tais razões, os 2 (dois) pontos tidos como relevantes pelo AFRFB para desqualificar a operação de venda e compra entre as pessoas físicas (sócias da Requerente) e a CPC, sob o manto da suposta ocorrência de “planejamento tributário abusivo" ou “simulação objetiva”, não foram comprovados nos autos. Quer dizer, a verificação do fato jurídico tributário que suporta a exigência do IRPJ e reflexos na situação em tela deixou de ser, efetivamente, evidenciada, maculando o lançamento de ofício e, consequentemente, prejudicando a defesa da Requerente. Rememorese, neste pormenor, que o art. 142, do CTN, determina que o fato jurídico tributário deve ser constatado e comprovado de maneira clara pela fiscalização, sem o qual o lançamento de ofício não se aperfeiçoa: [...] Igualmente, o art. 10, do Decreto 70.235/72 dispõe que o fato jurídico deve ser efetivamente descrito e comprovado, sem o qual torna o lançamento de ofício nulo: [...] Isso significa que o fato jurídico tributário deve ser efetivamente VERIFICADO, para que se possa ser exigido o IRPJ e reflexos; ou seja, a fiscalização não poderia agir de forma superficial, sem fazer a prova cabal de suas presunções. Para que o resultado da atividade e da Administração Pública seja equivalente a um ato de lançamento, mister que se verifique uma “sucessão de formalidades’ (atos jurídicos, prazos, mera execução material de tarefas burocráticas) que objetiva constituir o crédito tributário, isto é, investigar todas as circunstâncias que envolvem a identificação do dever jurídico de pagar um tributo: desde a verificação da ocorrência do fato tributável, até o quanto a pagar, passando pela individuação do sujeito obrigado. ” (Edvaldo Brito, in Revista de Direito Tributário vol. 42. pág. 187, “Lançamento”, grifouse). Fl. 3160DF CARF MF 6 Nesse particular, são precisas as palavras de Paulo Celso B. Bonilha, de cuja leitura tornase clara a importância da produção da prova da ocorrência do fato jurídico tributário: “Bem de ver, neste particular, que a prova da existência dos pressupostos que legitimam a pretensão do Fisco já foi produzida (ou deveria ter sido) ao ensejo do procedimento de lançamento. O ato administrativo pressupõe a comprovação da ocorrência do fato jurídico tributário. Tratase, como ensina Francesco Tesauro, da ‘instrução primária’ do processo, pois a instrução probatória, efetuada na fase processual, não se destina a substituíla, mas, em verdade, servir de ponto de referência para a sua confirmação ou rejeição." O procedimento tendente a constatar a ocorrência do fato jurídico tributário de IRPJ é muito distante do que ocorreu no caso concreto. Isso porque não houve prova de que o negócio teria sido feito pela pessoa jurídica e nem de que o fruto da alienação da participação dos sócios da Requerente teria voltado à Requerente em sua totalidade. A situação se torna ainda mais grave na situação em apreço porque essas suposições redundaram na desqualificação de atos jurídicos perfeitos e acabados, ou seja, a prova deveria ser muito mais do que robusta. A esse respeito, é clara a jurisprudência da egrégia Câmara Superior do CARF e das Câmaras Ordinárias também, que não permite a falta de descrição dos contornos do fato jurídico tributário e caracterização geral de relações jurídicas, como foi feito pelo AFRFB: “NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO DECLARADO NULO. (...) No presente caso a nulidade do primeiro lançamento foi declarada em face da ausência da perfeita descrição do fato gerador do tributo, em virtude da não caracterização da existência da cessão de mão de obra, o que caracteriza violação ao art. 142 do CTN. (...) Com efeito, sob o pretexto de corrigir o vício formal detectado, não pode o Fisco intimar o contribuinte para apresentar informações, esclarecimentos, documentos, etc. tendentes a apurar a matéria tributável. Se tais providências forem efetivamente necessárias para o novo lançamento, significa que a obrigação tributária não estava definida e o vício apurado não seria apenas de forma, mas, sim, de estrutura ou da essência do ato praticado. (...) Recurso especial provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF ACÓRDÃO: 9202002.727 Data de decisão: 11/06/2013; Data de publicação: 24/07/2013 — grifouse) “A determinação exata da matéria tributável, em relação a valor e a data de sua ocorrência é dever da autoridade administrativa. A dúvida quanto a quaisquer dos requisitos contidos no artigo 142 do CTN vicia o lançamento tornandoo imprestável. Salvo os casos especificados na lei, o ônus da prova cabe à autoridade Fl. 3161DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.159 7 administrativa que realizar o lançamento. (Ac. n° 10706773, I Conselho de Contribuintes, Ac. 10706773, j. 17.09.2002 grifouse). Destarte, por ter deixado de comprovar as presunções que levaram à desqualificação de atos jurídicos perfeitos e acabados feitos pela Requerente e seus sócios e, por conseguinte, a composição do fato jurídico tributário, os autos de infração devem ser integralmente cancelados. II. b) Erro na determinação do período de apuração Ofensa aos art. 31 do Decretolei n° 1.598/77 (art. 421, do RIR/99) e 142 do CTN • O Regime de Competência Adotado pelo AFRFB Erro Além da precariedade do trabalho fiscal, os lançamentos de ofício devem ser cancelados, dado que, em razão do pagamento do preço ter sido feita de forma parcelada por pendência de cumprimento de cláusulas suspensivas, os períodos de apuração do IRPJ e da CSLL deveriam ter sido segregados pelo regime de caixa do lucro presumido (2010 e 2012) e diferimento do lucro real em 2011 (caixa). Depreendese do TVF que o AFRFB alocou os seguintes valores tidos como decorrentes de omissão de receita na apuração do lucro presumido do IRPJ (fls.1.029/ 1.032 doc. 2) e da CSLL: O AFRFB para o valor de R$ 62.826.592.20 usou o regime de caixa do lucro presumido, com base nos recebimentos das pessoas físicas (fls. 1.067). Embora tenha usado o regime de caixa, incluiu, indistintamente, o valor de R$ 1.678.394,176 7, que não foi recebido pelos sócios da Requerente, em acréscimo ao montante inicial, e nem comprovado pela fiscalização. Já para o valor de R$ 5.250.282,09, correspondentes aos recebimentos de 2011 (R$ 2.33.04.63 — fls. 494/496/501502) e 2012 (R$ 2.541.034,63 fls. 493/497/500/503), o AFRFB alocou tudo no último período base de 2010, com base no disposto no art. 1º da IN 345/2003: estouro de lucro presumido e reconhecimento de “receitas auferidas e não recebidas” (lucro real). Temse duas situações: (i) os recebimentos percebidos em 2010 foram apurados e lançados pelo lucro presumido e (ii) os pagamentos realizados em 2011 e 2012 ensejaram lançamento fiscal efetivado também com base no lucro presumido, mas com fundamento na regra do lucro real (competência) pelo estouro de receita havido em 2010 (IN 345/2003) — fls. 1068. Foi tudo errado e confuso (fls. 1068); tudo somado como lucro presumido do período de 4o trimestre de 2010, ora por caixa, ora por competência, conforme o demonstrativo de apuração do IRPJ e da CSLL (doc. 2). Fl. 3162DF CARF MF 8 Na verdade, em 2010, o valor de R$ 62.826.592,20 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro presumido, sem inclusão do R$ 1.678.394,17, que está nele inserido. Em 2011 somente o valor de R$ 2.333.04,63 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro real. E, em 2012, apenas o valor R$ 2.541.034,63 deveria ser reconhecido pelo regime de caixa do lucro presumido. Tudo isso porque as parcelas recebidas pelos sócios da Requerente decorreram do cumprimento de cláusulas suspensivas. Por tal razão, em 2011 deveria ser preservado o regime de caixa, nos termos do art. 421 do RIR, e em 2012 o regime do lucro presumido escolhido pela Requerente e não excedido, pelo necessário regime de caixa, nos moldes do DecretoLei 1.598/77 e a IN 84/79. Apesar de ter estipulado a data da celebração do contrato inicial (08/2010) como o momento segundo o qual a Requerente teria auferido receita, mas não recebido (IN 345/2003), para justificar a delimitação do período de 2011 e 2012 como sendo o 4o trimestre de 2010 (31/12), não se atentou o AFRFB de que o pagamento do preço determinado no contrato foi efetivado em 3 parcelas advindas de cumprimento de cláusulas suspensivas. Deveras, o contrato de venda e compra foi assinado em 03/08/2010, mas o negócio jurídico só se efetivou em 22/10/2010, depois do cumprimento das condições suspensivas determinadas no acordo. Vejase, por oportuno, o seguinte trecho do contrato (fls. 602/603 e doc. 171): “5.1. Condições Precedentes às Obrigações do Comprador. O Comprador somente estará obrigado a consumar o Fechamento se forem implementadas ou verificadas, conforme o caso, antes ou no Fechamento, as seguintes condições precedentes (sem prejuízo do direito do Comprador de renunciar a qualquer das referidas condições, exceto no tocante à Aprovação da ARTESP e à condição estabelecida na alínea “b” desta Cláusula 5.1V (a) a obtenção da Aprovação da ARTESP até o 90° (nonagésimo) dia contado da data de assinatura deste Contrato; (b) a efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, na Data de Fechamento, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passe a deter, direta e indiretamente, 100% (cem por cento) das Ações Rodovias; e (c) o cumprimento, pelos Vendedores, até ou na Data de Fechamento, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.3 (a), 6.3 (b), 6.3 (c), 6.3 (g), 6.3 (h), 6.3 (i), 6.3 (1), 6.3 (m)." "‘5.2. Condições Precedentes às Obrigações dos Vendedores. Os Vendedores somente estarão obrigados a consumar o Fechamento se forem implementadas ou verificadas, conforme o caso, antes ou no Fechamento, as seguintes condições precedentes (sem prejuízo do direito dos Vendedores de renunciar a qualquer das referidas condições, exceto no tocante à Aprovação da ARTESP e à condição estabelecida na alínea *‘b” desta Cláusula 5.2): (a) a obtenção da Aprovação da ARTESP até o 90° (nonagésimo) dia contado da data de assinatura deste Contrato; (b) a efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, na Data de Fechamento, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Fl. 3163DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.160 9 Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passe a deter, direta e indiretamente, 100% (cem por cento) das Ações Rodovias; e (c) o cumprimento, pelos Vendedores, até ou na Data de Fechamento, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.2 (a), 6.2 (b), 6.2 (e). ” Como se nota, tanto para o comprador (CPC), como para os vendedores (sócios da Requerente e outros), o negócio só se consumaria com (i) a provação da ARTESP no tocante à substituição do direito à concessão decorrente da alienação E (ii) com a aquisição da participação de grupo formado por outros acionistas (26,55% do capital), para efeito de aquisição de 100% da participação da Rodovias. Nesse aspecto, aliás, vale trazer à colação às cláusulas que deixam patente que, se não tivessem sido cumpridas as condições suspensivas acima, o negócio não seria consumado e as partes não teriam o dever de indenizar, já que eram fatos alheios à vontade dos contratantes: “11.3. Não Consumação do Fechamento por Razões Alheias à Vontade das Partes. O presente Contrato será rescindido de `pleno direito, por meio de notificação com efeitos rescisórios imediatos entregue pelo Comprador aos Vendedores ou por um Vendedor ao Comprador e demais Vendedores, na forma da Seção 12, conforme for o caso, sem que seja devida por/para qualquer das Partes quaisquer penalidades ou indenizações, a qualquer tempo e a qualquer título, na hipótese de não obtenção da Aprovação na ARTESP até o término do prazo estabelecido na Cláusula 5.1 (a) e 5.2(a), desde que a não obtenção da Aprovação da ARTESP não tenha decorrido de culpa ou dolo de qualquer uma das Partes (caso em que se aplicará o disposto na Cláusula 11.2). Na hipótese de que trata a presente Cláusula 11.3, a data da rescisão, para todos os fins e efeitos deste Contrato, será estabelecida em conformidade com o disposto na Cláusula 11.2.1.” (fls. 637e doc. 17 grifouse). “6.4. Inadimplemento da Obrigação de Consumar o Fechamento. Sem prejuízo da irrevogabilidade e da irretratabilidade prevista na Cláusula 13.3, caso o Fechamento deixe de ocorrer, por ato ou omissão de qualquer das Partes, que tenha resultado no descumprimento de obrigações específicas para a realização do Fechamento ou para a verificação de condições precedentes que esteiam sob sua responsabilidade, o presente Contrato poderá ser rescindido nos termos da Seção 1 1 deste Contrato, (fls. 608 e doc. 17 — grifouse) E somente quando consumadas as condições suspensivas é que ocorreria a venda, para todos os fins e efeitos de direito, ou seja, o acordo inicial de 03/08/2010 não era definitivo, como pensou o AFRFB: 6.5. Execução Específica da Obrigação de Consumar o Fechamento. (...) de forma que o Fechamento, quando consumado, resulte na venda para o Comprador da TOTALIDADE das Participações e, direta ou indiretamente, das Ações Rodovias, (fls. 608 grifouse). Tanto essas condições suspensivas eram necessárias para conclusão do negócio que só em 22/10/2010, depois de elas terem sido cumpridas, é que nos termos da cláusula 6.5 acima mencionada foi celebrado o fechamento e autorizado o pagamento do preço da 1ª Parcela, como se nota do anexo termo de fechamento (doc. 8). Não foi só a primeira parcela que foi paga em função do cumprimento de cláusulas suspensivas, mas as 2a e 3a parcelas também. Fl. 3164DF CARF MF 10 Para demonstrar às cláusulas suspensivas para pagamento da diferença do preço, a Requerente colaciona abaixo o texto da condição do 1º ano (2011 fls. 631/632), similar à do 2o ano (2012 fls. 632/633), de molde a ficar claro que esses montantes poderiam, se não cumpridas as condições, não ser pagos aos sócios da Requerente: “10.8.2 . (...) (c) Lançamentos de Encerramento do Primeiro Ano: se no dia do encerramento do Primeiro Ano, (x) o valor dos créditos realizados na Conta Gráfica menos o valor dos débitos menos os valores Vinculados, conforme item (b) desta Cláusula 10.8.2, atualizados conforme o disposto na Cláusula 10,8.1(a), e observado o disposto na 10.8.5 abaixo ("Saldo da Conta Gráfica no Primeiro Ano"), for maior do que (y) R$ 141.600.000,00 (cento e quarenta e um milhões e seiscentos mil Reais), atualizado pro rala die por 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010 até o último dia do Primeiro Ano, multiplicado pela Participação Individual Indireta do Vendedor, então o valor da diferença entre (x) e (y), atualizado até o dia de seu efetivo pagamento, será pago pelo Comprador ao Vendedor em questão, conforme Cláusula 4.3 ("Pagamento ao Vendedor no Primeiro Ano". Se, ao contrário, no dia do encerramento do Primeiro Ano, (x) não for maior do que (y), não será efetuado qualquer pagamento pelo Comprador ao Vendedor em questão. Se houver, por parte de qualquer Vendedor, uma Notificação de Oposição à Notificação Anual apresentada pelo Comprador na forma da Cláusula 10.8.9, o Comprador realizará o Pagamento ao Vendedor no Primeiro Ano da parcela incontroversa, conforme a Cláusula 4.3, e o valor controverso será pago, se devido, mediante a celebração de acordo entre tal Vendedor e o Comprador ou conforme a Decisão Final, na forma da Cláusula 10.8.9. (grifouse). Bem se vê que os pagamentos das 1a, 2a e 3a parcelas aos sócios da Requerente, pessoas físicas, pela CPC, foram feitos segregadamente de acordo com o cumprimento de cláusulas suspensivas, sendo, pois, equivocada e ilegal a aplicação da IN 345/2003, pois as receitas ainda não tinham sido auferidas. Como as receitas não tinham sido auferidas, o total do lançamento não poderia ser indicado no 4o trimestre de 2010. O AFRFB deveria ter diferenciado os valores, os períodos de apuração em trimestres e anos distintos e, ainda, usar o regime necessário de caixa em todos os anos. É bom salientar, nesse pormenor, que o AFRFB tinha ciência das cláusulas suspensivas (fls. 1.061 e fls. 562/899) e também do recebimento efetivo das parcelas pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 1.070). Para o ano de 2011 (2a parcela) deveria ser aplicado o art. 31 do DecretoLei 1.598/77, uma vez que, na hipótese de a alienação de ativo não circulante em parcelas (caso dos autos), há ordem dizendo que o lucro deve ser reconhecido na data de recebimento de cada parcela: ‘'Art. 421. Nas vendas de bens do ativo permanente para recebimento do preço, no todo ou em parte, após o término do anocalendário seguinte ao da contratação, o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, reconhecer o lucro na proporção da parcela do preço recebida em cada período de apuração (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 31, § 2° ).’’ Já para o ano de 2012, deveria ser aplicado o art. 27, do DecretoLei 1.598/77, dada a existência de previsão de que o recebimento de parcela com cláusula suspensiva deve ser apurada pelo regime de caixa do lucro presumido: “Art. 27 (...) Fl. 3165DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.161 11 § 1º O lucro bruto na venda de cada unidade será apurado e reconhecido quando, contratada a venda, ainda que mediante instrumento de promessa, ou quando implementada a condição suspensiva a que estiver sujeita a venda. Decorrência basilar dessa ilação é que o AFRFB errou os períodos de apuração do IRPJ e da CSLL: lançou tudo no 4o trimestre de 2010, sem distinguir os períodos corretos (inicial e demais parcelas) e os regimes de apuração apropriados. A jurisprudência do CARF, em situação idêntica à tratada aqui, retrata que, na hipótese de condição suspensiva, só depois do cumprimento dela terá havido o ganho de capital e, por conseguinte, a correta adequação do período de apuração do IRPJ e da CSLL no regime de competência: [...] Logo, pelo erro contundente na imputação do período de apuração do IRPJ e da CSLL, sob o prisma da competência em ganho de capital e pelo regime do lucro presumido, os lançamentos de ofício devem ser integralmente cancelados. O Regime de Caixa Erro do AFRFB Como adiantado acima, não só houve o erro nos períodos de apuração, como também o AFRFB deixou de lançar os valores, com base nos regimes de caixa, do lucro real em 2011 do lucro presumido em 2012, em relação às datas dos efetivos recebimentos das parcelas pelas pessoas físicas (caixa). De fato, como assentado linhas atrás, o preço foi recebido, até então, em 3 (três) parcelas que só foram pagas depois de ter havido cumprimento das condições suspensivas, como se nota do contrato de venda e compra (fls. 562/599); do termo de fechamento (doc. 8); e da verificação fiscal sobre os recebimentos efetivos pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 493/503) Vejase, a título exemplificativo, as datas de efetivo recebimento das parcelas (2010, 2011 e 2012) pelo sócio Nelson (fls. 493/503), que foram as mesmas daquelas percebidas pelo sócio Ivan: Como se nota, os sócios da Requerente receberam uma parcela de fechamento em 2010 e mais duas parcelas a título de diferença do preço de fechamento nos anos subsequentes, 2011 e 2012. As cláusulas suspensivas destacadas da 1º parcela (5.1, 6.4, 6.5 e 11.3 — fls. 602, 608, 639 e doc. 17), da 2ª parcela (10.8.2 fls. 632) e da 3ª parcela (10.8.3 fls. 633), além do termo de fechamento (doc. 8) e a verificação fiscal do recebimento líquidos delas pelas pessoas físicas, não dão margem à dúvida quanto ao erro do AFRFB na eleição dos regimes de apuração. A evidência, todos os valores recebidos pelos sócios da Requerente decorreram de cumprimento de condições suspensivas: (i) o negócio e o pagamento Fl. 3166DF CARF MF 12 do preço de fechamento foi subordinado, dentre outros aspectos, a aprovação da ARTESP e a venda da participação de outros acionistas da Rodovias; e (ii) as parcelas da diferença em 2011 e 2012, dependentes do cumprimento de metas referentes à utilização da conta de garantia. Como não havia certeza do negócio e do pagamento do preço de fechamento e também das parcelas de diferença, era dever de o AFRFB efetuar o lançamento com base nos regimes de caixa, pelo lucro real em 2011 e pelo lucro presumido em 2012, nos termos do art. 117, do CTN. Diante dos detalhes de acerto do negócio e do pagamento do preço, tornase incabível a apropriação dos valores no regime de competência previsto na IN 343/2003 (estouro do regime do lucro presumido), dado que não só a venda e compra, como o adimplemento de todas às parcelas pela CPC aos sócios da Requerente, dependiam de eventos futuros e incertos. Trazendo o trabalho fiscal à própria realidade criada pelo AFRFB, se fosse verídica a posição fiscal de que a alienação da participação societária teria sido feita pela Requerente e não pelos sócios, o que se admite só para argumentar, ela não teria como reconhecer os valores recebidos de 2011 e de 2012 como se já tivessem sido auferidos (IN 343/2003). É, pois, de rigor, que, pela falta de disponibilidades jurídica e econômica, os lançamentos dessas parcelas seguissem o regime de caixa em cada ano. Em 2011, em função do estouro de receita em 2010, pelo lucro real com reconhecimento na data do recebimento. E em 2012, em função da escolha da Requerente, pelo lucro presumido e, da mesma forma, na data de recebimento. Tal como já acima indicado, o Decretolei 1.598/77, o RIR/99 (art. 421) e a IN 104/98 (art. 1º), determinam que deveriam ser aplicados o regime do lucro real e do lucro presumido, respectivamente, com reconhecimento da receita da data do recebimento efetivo. A jurisprudência do CARF, aliás, corrobora o entendimento da Requerente de que o lançamento de ofício, nessa situação de pagamento parcelado com condições suspensivas, deve ser feito pelo regime de caixa, com comprovação dos pagamentos para inclusão no ganho de capital: “GANHO DE CAPITAL. AQUISIÇÃO DE DISPONIBILIDADE ECONÔMICA OU JURÍDICA DE RENDA. AUSÊNCIA. Considerados os elementos reunidos ao processo, restando evidenciada a ausência de disponibilidade econômica, eis que os recursos financeiros efetivamente não foram transferidos para a contribuinte, e, ausente também a disponibilidade jurídica em face da existência de cláusula contratual de garantia, descabe computar na apuração do ganho de capital a quantia retida pelo comprador para fins de eventual indenização futura.” (Acórdão n° 1301001.802, Processo n° 10580.728929/201138, Recurso n° De Ofício e Voluntário, 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da 1ª Secção Sessão de 05 de março de 2015 grifouse). Na situação em apreço não havia disponibilidade jurídica e nem econômica porque sem o cumprimento das condições não haveria o negócio e nem o recebimento do preço, inclusive das parcelas que eram atreladas à movimentação da Fl. 3167DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.162 13 conta de garantia. A única medida viável, pois, seria a adoção do regime de caixa pela fiscalização. Assim, pelo erro na indicação do regime de apuração para efeito do computo do IRPJ e da CSLL lucro real por caixa em 2001 e presumido por caixa em 2012, com tudo totalizado em 2010 pelo presumido: misturando caixa e competência — os lançamentos de ofício devem ser integralmente cancelados. II. c) O erro na delimitação da base de cálculo Ofensa ao art. 142 do CTN e art. 25, II, da Lei 9.430/96 Decorrência da precariedade do lançamento é o equívoco da quantificação da base de cálculo, o que, da mesma maneira, gera a nulidade dos lançamentos de ofício, porque (i) foi feito com base em informação que não consta dos autos e incluído o montante de R$ 1.678.394,17 que já fazia parte da 1ª parcela recebida pelas pessoas físicas; (ii) não foram abatidas as despesas e custos da alienação, sendo que o AFRFB tinha em mãos os valores líquidos recebidos pelas pessoas físicas; (iii) em 2011 não houve apuração do lucro real; e (iv) em 2012 não foi apurado o lucro presumido com base no efetivo recebimento. Indispensável realçar, primeiramente, que a determinação da base de cálculo pelo AFRFB se baseia em informações alheias aos autos, apesar de a fiscalização ter ciência quanto ao real valor recebido pelas pessoas físicas. Vejase no TVF como tal vício fica claro (fl. 1.070): 69. A diferença entre o preço de venda informado nela CPC no total de RS 1.364.711.014.20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de RS 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de RS 30.295.923, coube à NF Motta. RS 1.678.394,17. 60. Diante de todo o exposto, lavrase os Autos de Infração anexos, do qual esse Termo é parte integrante e inseparável, cujos montantes incluem os juros e multa, conforme demonstrado a seguir:" (grifouse). O AFRFB expressamente admite que determinou a base de cálculo nesse caso pela aferição de diferença baseada em suposto documento obtido com a CPC, o qual, até agora, é desconhecido pela Requerente, pois não se encontra nos autos. Esse valor de R $ 1.678.394,17 na verdade, está englobado no recebimento do preço de fechamento. Isso reflete a precariedade do trabalho fiscal e o menoscabo ao disposto no art. 142, do CTN, citado linhas atrás, que prevê ser o lançamento ato específico a registrar o fato, a base de cálculo e a multa, o que implica no cancelamento do lançamento fiscal. Além da precariedade que, por si só, já gera o cancelamento dos lançamentos, é curial consignar que se torna impossível aceitar como válida a base de cálculo determinada, não só para o IRPJ e para a CSLL, mas também para o PIS e a COFINS, pelo AFRFB. Em relação ao PIS e COFINS, a base de cálculo foi eleita, arbitrariamente, no valor de R$ 1.678.394,17, como sendo receita financeira. Não há prova disso, como dito. A correta base de cálculo do IRPJ e da CSLL retratam que, na verdade, todas as bases imponíveis estão equivocadas. Fl. 3168DF CARF MF 14 Para melhor elucidar o raciocínio desenvolvido pelo AFRFB, a Requerente passa a transcrever trecho do TVF, in verbis (fls.1.036/1.070): ”62. De acordo com a cláusula 3.1.1 do Contrato de Compra e Venda (DOC 39 E 40) assinado em 03/08/2010, o preço de venda foi avaliado de RS 1.289.548.372,0, em 18/03/2010, o qual deveria ser corrigido por 100% do CD1 até a efetivação do negócio. Corrigindose o valor até a data do fato gerador para fins de cálculo do ganho de capital, apurase o resultado seguinte: 63. A Holding G4 detinha 22,16% das ações da Rodovias, em decorrência, o valor do preço de venda que lhe coube foi R$ 295.706.384.07. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 73.926.596,02. 64. O ajuste previsto nas cláusulas 3.2.1, 3.2.2 e 3.2.3 do Contrato de Compra e Venda de 03/08/2010, referese a pagamentos diversos efetuados pela Rodovias no período de 01/01/2010 a 31/05/2010, sendo calculado em R$ 28.863.819.85 (DOC 34). Este ajuste deve ser dividido proporcionalmente à participação dos vendedores constantes no referido contrato e que possui como objeto a compra de 73,45% das ações da Rodovias. Desta forma, 30,17% (22,16 X 100 / 73,45) deste ajuste, no valor de R$ 8.708.267,50 coube à Holding G4. Como detentora de 25% das quotas da Holding G4, coube à NF Motta o valor de R$ 2.177.066.87. 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de RS 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Por conseguinte, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado: " (grifouse) Depreendese dos trechos acima citados que foi levando em conta o valor atribuído à participação da Rodovias e informado no contrato de compra e venda (fls. 562/899) que o AFRFB determinou as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ora, o regime era de caixa e não havia motivo para presumir valor com base no contrato, ainda mais porque ele não era definitivo. O preço do termo de fechamento era o correto e, com base nele, as pessoas físicas receberam os valores líquidos. Ao determinar a base de cálculo dessa forma, não se atentou o AFRFB que os pagamentos efetuados em razão da alienação da participação da Rodovias foram feitos de forma parcelada, impondo, portanto, a adoção, para todos os períodos, do regime de caixa com base nos recebimentos realizados, conforme os recibos das pessoas físicas acostados aos autos (fls. 493/503). Como já dito acima, houve a assinatura do contrato de compra e venda e o pagamento do preço foi vinculado ao cumprimento de condições suspensivas: (i) termo de fechamento; (ii) parcela do primeiro ano e (iii) parcela do segundo ano, Fl. 3169DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.163 15 como se vê dos recibos anexos (fls.493/503). Vejase o recebimento de cada parcela vinculada ao cumprimento das condições acima indicadas: Notase que o ganho de capital, diversamente do que consigna o AFRFB, não foi recebido integralmente em 2010. Pelo contrário, ele foi recebido em parcelas em 2010 (cumprimento das condições de fechamento), 2011 e 2012 (ambas pelo cumprimento de metas e recebimento da conta de garantia). É bom frisar que a quantia de R$ 1.678.394,17, diferença entre o contrato e o valor recebido é inexistente. Não se trata de regime de competência, como pensou o AFRFB. Ora, as pessoas físicas receberam a 1ª parcela com base já no preço de fechamento de 22/10/2010 e, por isso, naquele valor líquido verificado pelo AFRFB e recebido na mesma data, essa quantia já estava embutida. Tanto é assim que o pagamento pelos sócios, pessoas físicas, do IRPF foi realizado de acordo com o momento do cumprimento das condições e, por conseguinte, do recebimento de tais parcelas, ou seja, em 2010, 2011 e 2012 (fls. 493/503). As bases de cálculo adotadas pelo AFRFB encontramse incorretas. Ao contrário da segregação aleatória e a exigência do preço, deveria refletir a realidade e assim expressar os valores das parcelas de acordo com o seu recebimento, pelo regime de caixa e em função do cumprimento das condições suspensivas. Nada disso foi observado. Fl. 3170DF CARF MF 16 Vejase que, em situações semelhantes, envolvendo ganho de capital em parcelas, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais determina a necessidade de a base de cálculo refletir tal realidade, sob pena de cancelamento, como se vê da ementa abaixo transcrita a título exemplificativo: “(...) LUCRO PRESUMIDO GANHO DE CAPITAL CESSÃO DE DIREITOS PATRIMONIAIS — DIFERIMENTO a base de cálculo do IRPJ sobre o lucro presumido deve ser acrescida do valor correspondente à diferença positiva entre a valor de alienação e o do respectivo custo. Como a contratação da alienação do direito previu o seu pagamento em parcelas, o imposto sobre o ganho de capital deverá ser lançado nos meses em que foram contratados os pagamentos de tais parcelas, em vista de só nestas datas ter ocorrido a disponibilidade da renda. Recurso voluntário provido. (Acórdão 10194765, 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de 10/11/2004) Reluzente, assim, que as bases de cálculo elegidas pela fiscalização (preço total segregado em parte por receita financeira) estão erradas, dado que, em função das condições suspensivas, o preço foi '‘parcelado” por decorrência de eventos futuros e incertos, cujo montante, efetivamente recebido pelas pessoas físicas era de conhecimento do AFRFB, sendo completamente nulos os autos de infração. E não é só por isso que as bases de cálculo estão incorretas. Além de não refletirem o recebimento do ganho de capital em parcelas por decorrência de cumprimento de condições suspensivas, o valor considerado pelo AFRFB não reflete o montante de acréscimo patrimonial efetivamente recebido pelas pessoas físicas. O AFRFB desprezou a realidade, por completo, ao se basear tão somente no contrato de compra e venda para determinar como ganho de capital o valor da avaliação da Rodovias, desprezando, mesmo ciente, que tal valor não foi o efetivamente o recebido pelas pessoas físicas. O AFRFB elegeu como ganho de capital o preço estipulado em contrato desprezando, aí, todos os custos havidos com a negociação, não apurando, com isso, o ganho de capital efetivo auferido pelas pessoas físicas, que deveria, ao menos, refletir na Requerente, em vistas da ilegal desconsideração da real operação. Neste cerne, é importante destacar que, apesar de não excluir os valores das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, o AFRFB reconheceu expressamente a existência dos custos com o Banco Itaú, como se depreende do TVF (fl. 1.070): 65. A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos Vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado: Da mesma forma, os demais custos havidos na operação também não foram deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Isso porque o AFRFB apurou, Fl. 3171DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.164 17 exatamente, os valores líquidos recebidos pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 493/503). Se o AFRFB tinha em seu poder os valores líquidos recebidos pelos sócios e o regime era de caixa, o montante das bases de cálculo deveria refletir apenas essas quantias. Ao revés disso, as despesas na operação foram simplesmente ignoradas pelo AFRFB sem motivação alguma, em menoscabo ao real sentido do termo “ganho de capital’', que corresponde ao acréscimo da renda líquida — verificada em números exatos pela fiscalização (fls. 493/503). Constatase, por isso, que a base de cálculo determinada pelo AFRFB é equivocada, vez que é fictícia e não leva em conta o efetivo recebimento pelas pessoas físicas, sendo, pois o lançamento completamente imprestável. Mas não para por aqui. Como o valor recebido em 2011 deveria ser computado pelo lucro real e a quantia percebida em 2012 pelo lucro presumido, ambos com base na efetiva entrada de numerário aos sócios, observase, também, que as bases de cálculo estão todas erradas. Para apuração do lucro real em 2011, o AFRFB deveria apurar o lucro líquido,ajustado pelas adições ou compensações, além de reconhecer despesas e custos, nos termos da legislação de regência. Apesar da determinação legal, o AFRFB somou um valor de competência e reconheceu no 4o trimestre de 2010 em menoscabo aos mais basilares elementos de apuração do IRPJ e da CSLL. Da mesma forma, o valor recebido pelos sócios em 2012 deveria, pela tese fiscal, ser computada na base de cálculo do lucro presumido pelo regime de caixa, nos termos da legislação que o próprio AFRFB citou (doc. 2). Mesmo ciente disso e ignorando as cláusulas suspensivas, o AFRFB também alocou esse montante do preço recebido pelas pessoas físicas no 4° trimestre de 2010, sem realizar a apuração apartada. Assim, esses vícios em relação aos anos de 2011 e 2012 contaminam todas as bases de cálculo formadas no 4° trimestre de 2010, que é superficial e não reflete, ainda que baseada na tese fiscal, o ganho líquido percebido pelas pessoas físicas em períodos distintos, depois do cumprimento de cada condição suspensiva prevista em contrato. A jurisprudência do CARF é clara ao delimitar que equivocado a base de cálculo, o lançamento de ofício deve ruir. E o caso dos autos: “NULIDADE VÍCIO MATERIAL ERRO NA CONSTRUÇÃO DO LANÇAMENTO Comprovado, em grau de recurso, a existência de erro material na base de cálculo do imposto lançado, resta nulo o Auto de Infração". (Acórdão n° 192 00.015, 1º Conselho de Contribuintes, j. 08.09.2008) “ERRO NA VERIFICAÇÃO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. NULIDADE DO LANÇAMENTO. Fl. 3172DF CARF MF 18 É nulo o lançamento que apura crédito tributário utilizando como parâmetro aspecto temporal e base de cálculo diferente da estabelecida pela regramatriz de incidência tributária. Não pode prosperar o lançamento que contém erro na apuração do crédito tributário por não respeitar a forma semanal de apuração prevista na regramatriz de exigência do crédito tributário. Tendo o fisco apurado que as infrações ocorreram em diversas datas, mas considerado o fato gerador ocorrido no último dia de cada mês, resta cancelar a exigência em face do erro material em sua constituição". (Acórdão 10248.935,1° Conselho de Contribuintes, j. 05.03.08). Logo, por todos os equívocos acima retratados, consistentes na falta de prova para conformação das bases de cálculo; na imputação de valor total, segregado em inicial e receita financeira inexistente, com desconsideração das parcelas advindas do cumprimento das cláusulas suspensivas; na falta utilização de determinação do real ganho de capital; e o erro de regime de apuração das parcelas de 2011 e 2012, é inegável que os lançamentos de ofício devem ser, integralmente, cancelados por equívoco na mensuração da base imponível. II. d) A ilegalidade do lançamento por suposto “planejamento tributário abusivo” Ofensa ao art. 37 e 150 da CF/88, art. 97 e 197 do CTN e art. 2° da Lei 9.784/99 Como se disse acima, o ponto fulcral dos lançamentos de ofício foi a indicação de suposto "‘planejamento tributário abusivo” (fls. 1.062) e, por tal razão, o ato do AFRFB é ilegal, dado que inexiste no sistema jurídico pátrio norma que permita o desfazimento de atos perfeitos e acabados para substituição de outros presumidos ao bel prazer da fiscalização por tais motivos. Com efeito, pela linha de raciocínio da acusação, o “ planejamento tributário abusivo” foi promovido pela Requerente com o propósito de diminuir a arrecadação do erário federal (fls. 1.062). Partindo dessa perspectiva, o AFRFB desqualificou a venda da participação societária da Rodovias pelas pessoas físicas à CPC e realocou o valor recebido a título de preço como sendo omissão de receita da ora Requerente, que, no seu entender, teria sido a real beneficiária da transação. Essencial destacar, desde já, que, mesmo alicerçando os lançamentos de ofício em hipotético “planejamento tributário abusivo”, todos os atos societários praticados pela Requerente foram legais, sem que houvesse registro de nenhuma ilicitude ou vício de vontade pela fiscalização. Apesar de sustentar todo o lançamento nesse único e peculiar aspecto, é certo dizer que inexiste no ordenamento jurídico pátrio dispositivo legal que (i) caracterize qualquer traço da hipótese de “planejamento tributário abusivo” e (ii) indique quais são os elementos que, com a desconstituição dos atos, darão as diretrizes da nova realidade. Quer dizer, o lançamento de ofício é totalmente ilegal e — portanto — nulo, vez que não há no sistema legal pátrio texto de Fl. 3173DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.165 19 lei que preveja a hipótese de “planejamento tributário abusivo” para efeito tributário e muito menos que descreva a consequência de sua efetiva ocorrência no contexto social. Tanto é assim que no bojo do lançamento fiscal o AFRFB deixa de indicar qual seria o fundamento legal do “planejamento tributário abusivo”, que foi o motivo primordial da autuação. E não registra, o AFRFB, o fundamento legal por um simples motivo: a norma que revelaria a hipótese e a consequência decorrente do aventado “planejamento tributário abusivo" não existe no Brasil! É sabido que, nos termos da Constituição Federal de 1988 CF/88, do Código Tributário Nacional CTN e da Lei, a Administração Pública está sujeita ao primado da legalidade estrita, sobretudo em se tratando de matéria tributária. Por outras palavras, a Administração Pública, aí incluído o AFRFB que autuou a Requerente, deve respeitar os estritos termos legais, sem qualquer margem para discricionariedade ou invenção, sob pena de enveredar na produção de ato nulo, como, de fato, se verifica na situação em apreço. Se inexiste previsão legal do que seria o '‘planejamento tributário abusivo” e a consequência de sua ocorrência no ordenamento jurídico brasileiro, evidentemente que o AFRFB, ao efetuar o lançamento baseado nessa única presunção interpretativa, praticou ato à margem da Lei. Vale lembrar, nesse pormenor, a consagrada lição de Hely Lopes Meirelles acerca do primado da legalidade e o modo de autuação da Administração Pública: "(...) no direito público, o que há de menos relevante é a vontade da administração. Seus desejos, suas ambições, seus programas, seus atos, não têm eficácia administrativa, nem validade jurídica, se não estiverem alicerçados no direito e na lei. Não é a chancela da autoridade que valida o ato e o torna respeitável e obrigatório. É a legalidade a pedra de toque de todo ato administrativo." Especificamente em relação à desqualificação de atos por “planejamento tributário abusivo”, utilizado pelo AFRFB de forma discricionária para sustentar o lançamento fiscal, a doutrina pátria também é unânime acerca de sua inexistência legal no plano do sistema normativo pátrio, corroborando a ilegalidade do ato de lançamento aqui guerreado: "Com o objetivo de coibir supostos abusos de formas jurídicas, o legislador pode utilizar a técnica de estabelecer presunções legais, criando novas hipóteses de incidência, inclusive, podendo reputar atos e negócios fraudulentos e inoponíveis ao Fisco. A realidade das infrações e crimes tributários é construída do próprio direito. "Portanto, para que as pactuacões dos particulares sejam caracterizadas como abusivas, no tocante à Fl. 3174DF CARF MF 20 forma jurídica, é imprescindível que elas sejam capturadas e incluídas como tal em expressa previsão legal’’ “Se o legislador quiser tributar a forma alternativa, basta fazê lo de modo expresso, sem deixar para o intérprete a tarefa (ilegal) de estender o tributo para situações não previstas. (...) na ausência de disciplina legal especifica, não cabe ao intérprete ou ao aplicador da lei ignorar a forma ou a estrutura jurídica e substituíla por outra, fiscalmente mais onerosa (...)" “A teoria do abuso de formas jurídicas não foi recepcionada no sistema brasileiro, em virtude da proibição do emprego da analogia gravosa em matéria tributária”. Notase que, tanto na interpretação geral do primado da legalidade, como de maneira específica sobre a inexistente previsão do que seria “planejamento tributário abusivo”, é proibida a desconstituição de atos jurídicos lícitos, como ocorre nessa situação concreta, sem Lei que estabeleça as diretrizes para tanto. Há muito, a jurisprudência do Conselho de Contribuintes, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, revela que o lançamento fundado em “planejamento tributário abusivo”, sem fundamento legal, fere a legalidade e é completamente nulo, como se infere do trecho do seguinte voto em caso que tratava de operações de compra e venda de ORTN, citado na obra de Luis Eduardo Schoueri: “ (...)Nessas condições, no nosso sistema jurídico o problema resolverseá segundo o princípio da legalidade, das teorias do fato gerador e da tipicidade legal. Se o fato gerador, no sentido da hipótese de incidência, for mera situação de fato, só quando concretamente ocorrer a situação prevista em lei, com todos os seus elementos, haverá incidência do tributo." “Se a hipótese de incidência for uma situação jurídica, estabelecerseá a relação jurídica’" (Acórdão 61.269, Segundo Conselho de Contribuintes, Res. ABDF n° 5/2.5.2 — grifouse) Recentemente, inclusive, a jurisprudência do CARF reafirmou o fato de que no ordenamento jurídico pátrio não há dispositivo legal que autorize a desqualificação de atos por “planejamento tributário abusivo”, “abuso de forma”, “abuso de direito” ou qualquer outro termo usado pelo fisco para formatar a desconsideração de atos por presunção: “DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. AFASTAMENTO DA NÃO INCIDÊNCIA PELA AUTORIDADE FISCAL. LANÇAMENTO. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. Não há base no sistema jurídico brasileiro para a autoridade fiscal afastar a não incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. O conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão legal para autoridade fiscal utilizar tal Fl. 3175DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.166 21 conceito para efetuar lançamentos de oficio. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. (Acórdão n° 2202002.187, Processo n° 10680.726772/201188, 2a Turma Ordinária da 2a Câmara da Segunda Seção de Julgamento, Rel. Conselheiro Newton Cardoso, Sessão de 20/02/2013 grifouse). “IMPOSSIBILIDADE DE DESCONSIDERAÇÃO DOS ATOS PRATICADOS SOBRE O FUNDAMENTO DE INEXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL OU ABUSO DE FORMAS. (...) “A aplicação da teoria do abuso de formas ao direito tributário, em razão da ausência de positivação, viola a segurança jurídica e a estrita legalidade.” (Acórdão n° 1 103001.123, Processo n° 16327.720576/201 1 13, Iª Câmara, da 3ª Turma Ordinária da Primeira Seção de Julgamento, Relator Breno Ferreira Martins de Vasconcelos Sessão de 21 de outubro de 2014 grifouse). Essa ilegalidade, como frisado, abala toda a segurança jurídica e a certeza do direito, pois retira da Requerente a possibilidade de agir preventivamente diante dos desígnios legais e. o pior, deixaa a mercê da discricionária nova reconstrução de fato e de direito realizada pelo AFRFB. Ao tratar do que chama de "sobre princípio” da segurança jurídica, Paulo de Barros Carvalho é enfático quanto à necessidade de haver previsão positiva no sistema legal, antes de qualquer especificação de fato jurídico pela Autoridade Administrativa e da consequência dela advinda: “O princípio da certeza do direito traduz as pretensões do primado da segurança jurídica no momento em que, de um lado, (i) exige do enunciado normativo a especificação do fato e da conduta regrada, bem como, de outro, (ii) requer previsibilidade do conteúdo da coatividade da norma. Ambos apontam para a certeza da mensagem jurídica, permitindo a compreensão do conteúdo, nos planos concretos e abstratos." Cintilante, desse modo, que, por falta de previsão legal, não há como sustentar o lançamento baseado na única acusação de “planejamento tributário abusivo”, sendo, pois, de rigor o cancelamento dos autos de infração. II. e) A inexistência de previsão legal de “omissão de receita” em relação ao caso concreto Ofensa aos arts. 281 a 288 do RIR/99 (DecretoLei n° 1.598/77 e Lei n° 9430/96) Não é só. É de suma relevância dizer que, em nenhum momento, foi registrado pelo AFRFB que houve escrituração à margem da contabilidade e, por tal razão, a fundamentação legal sobre a suposta omissão de receita é incabível e os lançamento de ofício são ilegais. Na realidade, o AFRF baseia a omissão de receita num único pressuposto: na suposta ocorrência do por ela denominado “planejamento tributário abusivo”. Fl. 3176DF CARF MF 22 Nada mais. Sem desconsiderar os atos legais praticados pela Requerente não se chega a nenhuma possibilidade de lançamento de ofício. Como dito anteriormente, inexiste texto legal que regule a ocorrência de “planejamento tributário abusivo” e, do mesmo modo, não há hipótese legal que preveja a ocorrência de omissão de receita por desqualificação de ato jurídico lícito. Partindo da desconstituição da alienação feita pelas pessoas físicas, sócias da Requerente, pelo aventado “planejamento tributário abusivo”, o AFRFB entendeu ter havido omissão da receita. Afora a motivação legal geral sobre base de cálculo e alíquota, para os (i) valores de R$ 62.826.592,20 (22/10/2010) e R$ 5.250.282,09 (31/12/2010) foram utilizado como parâmetro da determinação do fato jurídico tributário do IRPJ e da CSLL os arts. 521, 522 e 528 do RIR/99, enquanto que para o montante de (ii) R$ 1.678.394,17 (22/10/2010) os art. 521 e 528, do RIR/99 (fls. 1.032) Entretanto, observase que, também sob o prisma da omissão de receita, as hipóteses legais registradas pelo AFRFB não se coadunam com esse referido e suposto “fato” que ensejou o lançamento de ofício, em menoscabo aos princípios da legalidade e da tipificação tributária. Com efeito, os arts. 521 e 522, do RIR/99, tratam da apuração do ganho de capital, inclusive no que tange ao custo de aquisição. Já o art. 528, do RIR/99 estabelece de forma geral que, observada a omissão de receita, o montante deverá ser computado na apuração do IRPJ e da CSLL pelo lucro presumido. Diante desses dispositivos temse que para (i) os valores de R$ 62.826.592,20 e 5.250.282.90 foram indicadas uma hipótese geral de omissão de receita, sem qualificação da hipótese e para (ii) a quantia de R$ 1.678.394,17 nem sequer foi registrada tal situação, já que o fundamento legal trata apenas da apuração do ganho de capital. Quer dizer, até mesmo para enquadramento da suposta omissão de capital, o AFRFB agiu na ilegalidade, pois nenhum dos dispositivos legais por ele citados assemelhase aos fatos verificados no lançamento de ofício. Lembrese, nesse pormenor, que o art. 288, do RIR/99 determina o tratamento tributário a ser seguido na hipótese de constatação de omissão de receita, isto é, o regime (lucro real, presumido ou arbitrado) que deverá ser imposto e obedecido pelo contribuinte. É essencial salientar, nesse ponto, que o mencionado comando normativo revela a consequência decorrente da omissão de receita e não cuida das hipóteses nas quais ela se verifica, que, repisese, não foram fundamentadas nem qualificadas pelo AFRFB. Essas hipóteses de omissão de receita, que tratam da conduta do contribuinte, são previstas nos textos legais antecedentes (arts. 281 a 287 do RIR/99), que, de forma exaustiva, preveem as situações que ensejam a sua ocorrência. Há omissão de receita quando a fiscalização verifica a existência de saldo credor de caixa, de falta de escrituração de pagamento, de suprimento de caixa, de falta de emissão de nota fiscal etc, ou presume a existência de depósitos bancários. Nem de longe, essas hipóteses se subsumem ao suposto fato indicado no lançamento fiscal: omissão por “planejamento tributário abusivo". Fl. 3177DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.167 23 Verificase que os dispositivos legais que sustentam a acusação da suposta omissão de receita não se coadunam com os fatos apurados pelo AFRFB no lançamento fiscal. Ora, é notório que, em se tratando de omissão de receita, é preciso que haja previsão legal expressa e específica em relação ao fato de possível ocorrência que leve a essa constatação, como, por exemplo, na hipótese de manutenção de passivo de obrigações já pagas (art. 282, III, do RIR/99). Constatase que o lançamento fiscal padece de outra nulidade por ofensa à legalidade e pela inexistência de tipificação tributária, uma vez que as hipóteses de omissão de receita são exaustivas, fechadas em numerus clausus, e elas não se subsumem ao fato apontado no lançamento de ofício. Maria Rita Ferragut realça que, em matéria tributária, a tipificação é fechada, o que significa dizer que, para haver incidência e obrigação de pagamento de valor a título de tributo, a hipótese legal deve corresponder exatamente com o fato apurado; caso contrário não haverá tipificação: “O tipo tributário é, segundo nosso entendimento, fechado. A limitação é precisa, e corresponde a um tipo específico, veiculado por enunciado jurídico que descreva de forma completa todos os critérios necessários à identificação do fato relevante, o que, em outras palavras, significa que apenas deverão ser considerados para fins de tributação aqueles fatos resultantes da relação de identidade entre os enunciados denotativo e conotativo. ” Rememorese, nessa esteira, que o primado da legalidade é o pilar máximo vislumbrado pela Constituição Federal de 1988 para consolidar o Estado Democrático de Direito, não podendo ser vilipendiado, como efetivamente está sendo pelo AFRFB. À evidência, inexiste correspondência do fato às normas de omissão de receita assentadas pela AFRFB. Mister apontar, nesse sentido, a acertada lição de Paulo de Barros Carvalho, que pontifica: "Em matéria tributária, terreno sobremodo delicado, por tocar em direitos fundamentais dos administrados, quais sejam o direito de propriedade e o de liberdade, as normas que disciplinam a atividade administrativa são especialmente rígidas, com seus momentos capitais regulados por expedientes que devem guardar cabal aderência aos mandamentos que o direito positivo institui. Nenhum ato pode ser praticado sem autorização expressa da lei e o funcionário não dispõe de liberdade de ação para inovar o quadro das providências legalmente possíveis." A jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF é pacífica quanto à impossibilidade de caracterização de omissão de receita sem que haja hipótese específica na legislação de regência para tanto: “IRPJ OMISSÃO DE RECEITA PASSIVO NÃO COMPROVADO PRESUNÇÃO LEGAL Somente a partir da vigência do art. 40 da Lei 9.430/96 a presunção de tributação baseada na figura do chamado "passivo não comprovado" adquire foros e legitimidade assim invertendo o ônus da contraprova do ilícito relativo a uma suposta omissão de receita para o sujeito passivo. Fl. 3178DF CARF MF 24 Recurso especial denegado. ” (Processo n°: 10880.007717/00 88, Recurso n°: RD/107123.123, Sessão de: 11/08/2003, Acórdão n°: CSRF/0104.590) Do julgado em destaque percebese que, antes da Lei n° 9.430/96, a presunção de omissão de receita, advinda de passivo não comprovado, era inaplicável por falta de previsão legal. Se até a edição da referida norma não existia regra de lançamento para passivo não comprovado, da mesma maneira não se pode permitir a omissão de receita por desconstituição de atos lícitos, já que inexiste hipótese legal para tanto. A situação aqui é a mesma do citado julgado: inexiste norma legal que revele a hipótese de omissão de receita por desconstituição de ato jurídico lícito, especialmente de operação legal de redução de capital seguida por venda e compra de participação societária. A jurisprudência do CARF é farta e corrobora os fundamentos jurídicos da Requerente, de que, sem previsão específica de omissão de receita, há clara ilegalidade no lançamento por falta de tipificação legal: “OMISSÃO DE RECEITA SUPRIMENTO DE CAIXA ART. 229 DO RIR/94 SUPRIDOR ESTRANHO AO QUADRO SOCIETÁRIO INAPLICABILIDADE A aplicação da presunção de omissão de receita do art. 229 do RIR/94 somente é possível quando o suprimento do caixa é realizado "por administradores, sócios da sociedade não anônima, titular da empresa individual, ou pelo acionista controlador da companhia". Sendo o supridor estranho ao quadro societário da contribuinte, sociedade limitada, é inviável a aplicação do dispositivo. (...)” (Número do Recurso:140107. Câmara: QUINTA CÂMARA, Número do Processo: 13839.004260/0007, Tipo do Recurso: VOLUNTÁRIO. Data da Sessão: 10/11/2004, Relator: Eduardo da Rocha Schmidt, Decisão: Acórdão 105 14800 grifouse) “OMISSÃO DE RECEITAS SUPRIMENTO DE NUMERÁRIO. Conforme o disposto no art. 229 do RIR/94, para a caracterização da infração de omissão de receitas por suprimento de numerário não comprovado é necessário que a contribuinte tenha sido formalmente intimada para fazer a comprovação e que o suprimento tenha sido realizado pelas pessoas indicadas no referido artigo. (...)" (Número do Recurso: 149750. Câmara: SÉTIMA CÂMARA, Número do Processo: 15374.000554/0055, Tipo do Recurso: VOLUNTÁRIO. Data da Sessão:18/10/2006 Relator: Albertina Silva Santos de Lima, Decisão: Acórdão 10708787 – grifouse) A jurisprudência nesse ponto é tão pacífica, que o CARF sumulou a matéria em relação ao “passivo não comprovado”, retratando que, somente depois da edição de Lei específica, é que se tornou válido o lançamento por omissão de receita nessa referida hipótese: Súmula CARF n° 54: “A constatação de existência de "passivo não com provado" autoriza o lançamento com base em presunção legal de omissão de receitas somente a partir do anocalendário de 1997.” Fl. 3179DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.168 25 Da mesma forma dos casos acima, temse que, como não há hipótese específica de omissão de receita por desconstituição de ato lícito, a jurisprudência do CARF ratifica o fundamento de ilegalidade ora suscitado pela Requerente. Logo, pela falta de amparo normativo, a omissão de receita e o consequente lançamento de IRPJ e reflexos são ilegais (R$ 62.826.592,20 e 5.250.282,09), sobretudo quanto ao valor de R$ 1.678.394,17 que nem sequer foi enquadrado como tal, os autos de infração, também por esses motivos, devem ser cancelados. II. f) O descabimento da desconsideração da alienação feita pelas pessoas físicas (motivação, substância e realidade) — Ofensa à Legalidade e à Tipicidade Nada obstante os erros incorrigíveis dos lançamentos de ofício, não há como manter a desqualificação fiscal dos atos praticados pela Requerente e seus sócios, baseado na ideia de que houve “planejamento tributário abusivo”, dado que foi seguida à Lei e não houve qualquer tipo de manipulação da real intenção na operação. Demonstrase. • Os atos jurídicos, perfeitos e acabados da Requerente, pautados em fatos reais e motivados Antes de tudo, é bom grifar que, desde 2008, havia o interesse dos sócios da Requerente de realizar a redução de capital, com o objetivo de isolar sua participação da Rodovias, para diminuir os possíveis riscos incidentes sobre tal investimento considerando a sua própria operação, além de formar bloco de acionistas minoritários na referida concessionária pública. Lembrese, nesse aspecto, que a Requerente é empresa de forte natureza operacional, como se nota de seu contrato social (doc. 6) e sua DIPJ acostadas aos autos (fls. 2/43), que revela a receita apurada por essa natureza de atividade. Rememorese, da mesma forma, que a Requerente possuía diversas participações em empresa operacionais, o que também eleva o risco de suas atividades, que era e ainda é diversificada. A Requerente trás à colação, a propósito disso, os anexos atos societários de 07 (sete) empresas distintas, tais como, Capuan Agrícola S/A, Bioenergética Vale do Paracatu S/A, Sagres S/A, entre outras (doc. 3), que demonstram ser ela mantenedora de participação em outras empresas operacionais. De outro lado, a manutenção simultânea de diversos investimentos societários paralelos, além de representar boas expectativas de ganho, também multiplica os riscos a que a Requerente estava sujeita, no exercício de suas atividades. Por estar envolvida em outras operações societárias, das quais a Requerente constitui elo comum, havia efetivo interesse por parte de seus sócios de isolar os investimentos na Rodovias, em razão de sua solidez e credibilidade. Com essa intenção em mente, os sócios da Requerente, em 12/11/2008 (quase 2 anos antes da venda do investimento pelas pessoas físicas), diante do excesso de capital, decidiram por realizar publicação de ata visando a redução do seu capital, tudo para isolála do restante de sua operação (doc. 4). Tal ato observou o disposto no § 1º, do art. 1082, do Código Civil, o que reforça a licitude do ato, que, em momento algum, foi contestado pela fiscalização (docs. 2 e 4). Fl. 3180DF CARF MF 26 Para fazer essa transição plenamente, a Requerente não podia efetivála de imediato, haja vista que, segundo as regras da ARTESP (doc. 9), pessoas físicas não poderiam deter participação na Rodovias, e, havia, ainda, a projeção da formação do bloco na referida concessionária. Diante disso e também para formar bloco político de minoritários na Rodovias, a Requerente, juntamente com outras empresas parceiras, formaram a Holding G4 em 20/12/2008 (doc. 5), cujo objetivo era justamente a administração conjunta da referida participação na concessionária pública. Nesse ponto, vale realçar que, por terem conhecimento das constantes atividades negociais praticadas pela Requerente, as demais componentes do quadro societário da Holding G4 exigiram que a inclusão da Requerente deveria ser feita com o isolamento da participação da Rodovias das demais operações. O motivo dessa exigência é claro e simples: a inclusão das pessoas físicas na Holding G4, com a titularidade da participação da Rodovias, iria mitigar eventuais riscos decorrentes da inclusão da operação da Requerente. Esse pleito era feito pelas demais empresas da Holding G4 e, paralelamente, pela própria Requerente em relação a elas. Isto é, os demais membros da Holding G4 não almejam correr os riscos da operação da Requerente, do mesmo modo que ela não queria ter a sua participação contaminada pelos referidos terceiros. O objetivo era formar bloco político e melhor administrar, mas minimizando ao máximo qualquer prejuízo com a contaminação de negócios entre as partes. Quer dizer, desde 2008 a Requerente praticou atos visando a redução de capital para isolar a participação da Rodovias de sua operação e depois das demais empresas do grupo formado pela Holding G4, como condição de existência de criação do bloco político e administração conjugada das ações da referida concessionária pública. Apesar de o AFRFB tratar todos os atos como advindos, de um grande e maquiavélico plano contra o fisco, a Requerente, desde 2008 (2 anos antes da venda da participação à CPC pelos sócios), já tinha definido e formalizado a sua vontade de entregar a participação da Rodovias às pessoas físicas. Vale ressaltar, nesse aspecto, que a participação da Rodovias, de um modo geral,sempre foi alvo de propostas e especulações sobre vendas de participação, como se nota do anexo prospecto de 2008, no qual consta, dentre a CPC, citada pela fiscalização, mais 28 empresas interessadas (doc. 10). Aliás, nada obstante o AFRFB dizer que "as negociações foram iniciadas em 2006 e interrompidas em 2008” (fls. 1058 com a CPC, o fato é que a Rodovias (e não a Requerente) não recebeu propostas apenas da referida empresa, mas de outras também (doc. 10), sem que houvesse nenhuma relação efetiva e conjugada. Já em 05/01/2009, ainda sem nenhuma proposta efetiva de venda e compra, muito menos da CPC, a Requerente integralizou a participação que detinha na Rodovias na Holding G4, para realizar a ideia de formar grupo político de minoritários (doc. 5). É bom salientar que a efetivação da participação se deu mediante cláusula suspensiva, pois, como dito acima, era necessária a aprovação da ARTESP, da CEF e do BNDES (docs. 5 e 12). Nesse passo, é curial desde já destacar que as condições tiram a presunção fiscal de que tudo foi feito visando a venda pelas pessoas físicas em 2010, vez que Fl. 3181DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.169 27 esse ato poderia não se confirmar e vedar a existência da própria Holding G4 na Rodovias, tendo sido realizado muito tempo antes da efetivação do negócio. Da mesma maneira, fica fora da realidade acreditar que, com o ato de 2008 e as condições suspensivas para efetivação da participação na Holding G4, os sócios, pessoas físicas, pudessem vislumbrar vender a participação indireta para a CPC e usar parte do preço para fazer aporte na Requerente. Evidentemente que esse não era o intuito e nem poderia ser previsto. Como se constata, outrossim, os sócios e a Requerente estavam buscando concretizar, diante do excesso de capital, seu ideal de 2008: conseguiram formar o bloco político, mas ainda não podiam executar seu desejo de separar as operações, dado que, por questões condicionais e formais, eram necessárias as citadas aprovações. Em 15/07/2009, a Rodovias, a pedido da Requerente e do grupo formado pela Holding G4, enviou carta à ARTESP pleiteando a substituição formal dela e das demais empresas na participação da referida concessionária (doc. 12). A autorização formal da ARTESP veio em 29/10/2009 (doc. 12). Aqui vale uma ressalva. O AFRFB diz ser relevante a ata de Assembléia Geral Extraordinária AGE da Rodovias (fls. 350/351), realizada em 31/08/2009. na qual são acertados (i) o fornecimento de fiança e garantias pelo Banco Itaú BBA S/A, doravante “Itaú”, e (ii) a reserva de assessoria em futura estruturação, de forma marginal. Como foi esclarecido na fase inquisitória, o acerto entre a Rodovias e o Itaú foi feito pela diretoria da referida concessionária, como consta, inclusive da ata, sem qualquer participação da Requerente e confirmado pela fiscalização (fls. 1058 item 10), que descartou a apresentação de tal documento. E, ainda, bem antes e sem qualquer vinculação com o negócio que seria feito em 2010 por meio das pessoas físicas com a CPC, tenho como objeto a participação da Holding G4. Conforme a AGE (fls. 350/351), tal assessoria financeira teria como principal objetivo a obtenção de financiamento e de fiança bancária. A contratação para eventual e futura estruturação societária foi ribeirinha; uma clara moeda de troca para que a Rodovias pudesse, na realidade, obter as garantias que necessitava, o que é comum e evidente em negociações com instituições financeiras. Não se trata, à evidência, de afirmativa improcedente, como indica o AFRFB (fls. 1058). É notório que as instituições financeiras se aproveitam do poder de barganha, dar crédito, no caso, para obter alguma vantagem futura em termos de prestação de serviço. Além disso, esse acerto da diretoria da Rodovias (e não da Requerente) era geral, sem qualquer vinculação específica com a venda e compra realizada pelas pessoas físicas, sócias da Requerente, em 2010. Na sequência de atendimento das condições e de posse da autorização mais emblemática da ARTESP, a Rodovias, uma vez mais a pedido do referido grupo, enviou cartas às seguintes instituições financeiras pedindo a substituição da Requerente e das aludidas empresas pela Holding G4, na condição de devedora dos empréstimos e das fianças até então por elas avalizadas como acionistas: (i) 29/10/2009 para o BNDES e (ii) 23/11/2009 para a CEF (doc. 12). Essencial dizer que, tal como no passado, a Rodovias era alvo de especulação de venda e compra, mas, sem nada que formalizasse e vinculasse à Requerente e Fl. 3182DF CARF MF 28 nem ela a qualquer negócio, que seguiu atendendo e caminhando em direção ao seu objetivo. Com a autorização da ARTESP e com a ciência de que as instituições financeiras não se oporiam ao pedido de substituição da Rodovias, já que procederam às autorizações posteriormente (doc. 12), a Requerente pode, desde logo, dar andamento no seu objetivo de isolamento da participação na mencionada concessionária. Essa medida, como dito linhas atrás, visou separar a participação da Rodovias em face das demais operações da Requerente, como forma de isolar risco e segregar resultados, como, repisese, pensado e iniciado em 2008. Curial frisar, nesse pormenor, que tudo isso se deu antes da presunção fiscal de que havia "negociação em 2009" com a Requerente, que, repitase, não foi comprovada. Ou seja, tudo o que foi projetado pela Requerente até aqui só teve repercussão formal em 2010. Por isso, é despiciendo o pensamento, com todo respeito, criativo do AFRFB, de que tudo se deu com a finalidade de uma venda e compra (com suposta concretude em 03/08/2010), mas finalizada, de fato, em 22/10/2010 pelas pessoas físicas. Para formalizar tudo isso, as aprovações da ARTESP, CEF e BNDES, em 22/04/2010, a Holding G4, por meio de alteração de contrato social, (i) confirmou a integralização de capital em 05/01/2009 e (ii) a entrega a transferência da participação da Rodovias aos sócios da Requerente (doc. 5). Em seguida, por meio de alteração de contrato social e expressa alusão à ata publicada em 12/11/2008, a Requerente, depois de cumpridas todas as condições e formalidades acima, ratificou a redução de capital em 03/05/2010, com entrega da participação da Rodovias para uma participação das pessoas físicas na Holding G4. Um dia depois desse ato, em 04/05/2010, que, repisese, só não foi concluído em 2008 por questões condicionais adstritas a aprovações de terceiros (ARTESP, BNDES e CEF), foi formalizada a transferência da participação da Rodovias na Holding G4 para os sócios pessoas físicas. Vêse, assim, que toda projeção e anseio da Requerente em 2008 só teve repercussão formal em 05/2010, sendo, pois, despiciendo o pensamento, com todo respeito, criativo do AFRFB, de que teria havido (i) negociação em nome da Requerente em 12/2009 e (ii) todos os atos tiveram a finalidade de uma venda e compra simulada pelas pessoas físicas, inclusive com volta de capital na pessoa jurídica. Do histórico acima, na realidade, se vê o contrário. A Requerente e seus sócios não poderiam, como pretendiam, realizar todos os atos em 2008. Havia condições de terceiros e formalidades que impediam tal situação, de sorte que levar a efeito a presunção fiscal é ignorar esses fatos, pois o AFRFB trata como se tudo tivesse sido calculado para efetivar a venda à CPC em 22/10/2010 (data do fechamento doc. 8). Evidentemente, não foi. Sob esse enfoque, é essencial dizer que assertiva fiscal de que seria coerente a formação de bloco na Holding G4, mas incoerente a transferência da participação da Rodovias às pessoas físicas não se sustenta, vez que embasada apenas na ideia fixa de desconstituição dos atos perfeitos e acabados em vista de arrecadar por meio de uma tese imaginária. Com o cumprimento das condições e dessas formalidades, a Requerente e as demais empresas da Holding G4 conseguiram mitigar os riscos decorrentes de outros negócios e, concomitantemente, segregar os resultados de cada uma delas. Fl. 3183DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.170 29 Rememorese, nesse aspecto, que esse era o anseio da Requerente desde 2008: separar os negócios, sobretudo o referente a Rodovias. Primeiro em relação à própria operação e depois em defesa das operações das demais empresas que formavam a Holding G4. Além desses objetivos peculiares da Requerente, desde o início e pela própria natureza de uma empresa holding, o objetivo principal da Holding G4 era reunir e administrar, da melhor forma possível, a participação de todos do grupo na Rodovias, como bem frisou o AFRFB (fls. 1.059). Desnecessário dizer que administrar um ativo, à evidência, significa minimizar riscos e prejuízos, ampliar o investimento, se possível, e resguardálo de qualquer situação que pode deteriorálo, notadamente na constância de diversidade de sócios com interesse comum. Com a criação da Holding G4 a medida de segregação de negócios se tornou uma necessidade, pois, com as conjunções de participação na Rodovias, o risco de contaminação de passivo com as demais empresas operacionais foi multiplicado por 4 (quatro), dado serem pessoas jurídicas distintas. Tal fato fica ainda mais evidente diante da constatação de que a Requerente é empresa fortemente operacional e participa de diversos outros negócios envolvendo empresas terceiras, assim como as demais empresas da Holding G4. Não se tratou, assim, de nenhuma incoerência, como pensou o AFRFB. Com essas ações a Requerente e o grupo preservaram o bloco político na Rodovias e eliminaram a possibilidade de sofrer prejuízos com isolamento das participações, sem influências negativas de outras operações das empresas, que poderiam inviabilizar e rachar o grupo. Igualmente não houve qualquer tipo de alteração da verdade dos fatos. A projeção pensada pela Requerente teve substância e finalidade. A Alienação da participação da Holding G4 pelas pessoas físicas foi legal e legítima, baseada em dados reais que resultaram em pagamento de IRPF à União Federal. E a construção, por períodos e obrigações, demonstra que não havia a menor possibilidade de a redução de capital (iniciada em 2008) estar vinculada a uma ideia de venda e aportes de 2010. Enfim, de 11/2008 a 05/2010, ANTES do início da alienação pelas pessoas físicas, a Requerente atuou de forma ordenada, com atendimento à legalidade e com substância, objetivando a organização de sua participação societária na Rodovias, com redução de riscos e buscando uma participação de minoritários, em grupo. Vejase, a propósito, a linha do tempo, resumida, de ações da Requerente e da Holding G 4, que, por condições de terceiros, de atendimento fiel a legislação de regência e a burocracia, foram, por isso, somente concretizadas em 2010 e não em 2008, como era o plano inicial: Fl. 3184DF CARF MF 30 Fl. 3185DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.171 31 Bem se vê que todos os atos jurídicos, perfeitos, acabados e motivados foram praticados ANTES da venda (contrato de 03/08/2010 e fechamento efetivo em 22/10/2010) efetuada pelas pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 562/899 e doc. 16), à CPC, de sorte que a presunção fiscal não encontra qualquer guarida no contexto da realidade. De fato, se vê do contrato de venda de 03/08/2010 (fls. 562/899) com cláusulas suspensivas, do termo de fechamento de 22/10/2010 (fls. 560/561 e doc. 8) momento pelo qual se deu efetivamente a alienação, e nos demais documentos sobre o negócio, que, refletindo a realidade legal e material, quem praticou os atos foram as pessoas físicas, sócias da Requerente (fls. 562/899 e doc. 13). Como, de fato, foram as pessoas físicas que praticaram a alienação da participação indireta da Rodovias, foi corretamente recolhido o IRPF sobre o ganho de capital de cada um mais uma vez em obediência à legislação de regência (doc. 13). Diante de toda essa explanação, que dão motivação e substância aos atos da Requerente, não há como subsistir a ampla presunção fiscal, que vincula todos esses acontecimentos à venda da participação da Holding G4 à CPC pelas pessoas físicas, como se a Requerente tivesse, com todo respeito, poderes para prever o futuro. Cita vasta jurisprudência: Fl. 3186DF CARF MF 32 Portanto, todos os atos praticados pela Requerente foram legais (como atestado pela fiscalização), além de terem substância, motivação e finalidade, como comprovado acima, motivo pelo qual os autos de infração devem ser cancelados. • O equívoco da presunção fiscal Venda efetiva pelas Pessoas Físicas, sócias da Requerente — Inexistência de retorno de investimento Além de todos os atos acima demonstrados serem motivados e representarem a realidade vivenciada no mundo real, a presunção fiscal de que teria havido venda disfarçada pelas pessoas físicas em razão da suposta volta do preço para a Requerente não deve prevalecer. Como dito e redito acima, apesar do esforço do AFRFB na fiscalização, não há nenhuma prova de que a Rodovias e a Requerente tivessem celebrado qualquer acordo formal de venda e compra antes da redução de capital e da entrega da participação às pessoas físicas. O AFRFB se apoia em propostas para a Rodovias e não para a Requerente, que não possuem relevância jurídica alguma para comprovar a existência de negócio formalizado com a CPC quando ela ainda detinha a participação societária na referida concessionária, inclusive por meio da Holding G4. Como atestado acima, aliás, sempre foram muitas as propostas endereçadas à Rodovias com intenção de compra de participação. Em 24/03/2010, como se nota da carta anexa, ainda havia discussão da cúpula da Rodovias sobre possível venda à companhia Atostrade Per I ' Itália (doc. 11). Quer dizer, a CPC não era a única interessada na compra da Rodovias, inclusive em 2010, sendo, pois, corriqueiras as inúmeras propostas havidas no período e irrelevantes as suposições do AFRFB de que teria existido algum negócio formal com a CPC antes da transferência da participação da Requerente para as pessoas físicas. É notório que uma empresa do porte da Rodovias, como qualquer outra, trata de propostas de venda e compra entre os principais acionistas. Se esses consentirem com algo, somente depois serão envolvidos os minoritários. O AFRFB trata da questão, com todo acatamento, num mundo desconexo da realidade, no qual minoritário tem o mesmo poder de majoritário. O alvo dos compradores sempre foi a Rodovias e não a Requerente de maneira isolada, ainda mais se levada em conta sua participação inexpressiva frente ao todo. Deveras, como ressaltado desde a fase inquisitória, a Requerente era minoritária, ainda que considerado o grupo formado pela Holding G4 e, ao contrário do que pensa o AFRFB, não participava de tomada de decisões, não recebia propostas e muito menos efetivava negociações com eventuais compradores. Nesse ponto, ainda, vale dizer que o AFRFB, ao citar o sócio da Requerente, Ivan, como '‘Conselheiro de Administração” da Rodovias em 2009 (fls. 1.059), nada altera o fato de ela ser minoritária e não participar de decisões importantes, como é uma alienação. Ora, Ivan era conselheiro e não está entre as competências de titular ou suplente de conselho de administração deliberação sobre alienação das ações da companhia. E mais, ele não era diretor e, desse modo, não assinava nada em nome da Rodovias, inclusive sobre matéria de alienação. Tanto é assim que o AFRFB faz essa assertiva, com todo respeito, leviana, mas não traz à baila nenhum documento que ele tenha assinado em nome da Rodovias. E não traz porque não existe, especialmente no tocante à CPC. Fl. 3187DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.172 33 Por outro lado, os documentos fornecidos (contrato com banco intermediário, propostas e laudos de auditoria) pela CPC traduzem o seu interesse, mas, de nenhuma forma, revelam pré ou acordo formal para venda e compra de participação da Rodovias e. muito menos da pequena parcela que se pretende atinente à Requerente. Ora, qual vínculo teria a Requerente com a contratação de instituição financeira (Banco BTG Pactual S/A) para atender aos interesses da compradora, CPC, num negócio futuro? Nenhum! Qual seria a relação da Requerente e o levantamento em auditoria, feito pela compradora, CPC, para formar estimativa de valor de uma empresa que ela tinha interesse em comprar? Nenhum. O AFRFB, com o devido respeito, colaciona informações desconexas no TVF e argumenta que todo e qualquer ato teve o objetivo de realizar um “planejamento tributário abusivo", sem fazer o exercício normal de análise do passado, do contexto incerto, duvidoso e não definitivo. Na realidade, não houve qualquer acerto formal com a pessoa jurídica da Requerente. Se houvesse qualquer préacordo antes da realização do negócio (assinado em 03/08/2010 e fechado em 22/10/2010), a própria compradora incorreria em grave ofensa às normas de livre negociação e seria duramente punida pelo Conselho de Administração de Defesa Econômica CADE e a Comissão de Valores Mobiliários CVM. Como o “Grupo CCR” era e ainda é controlador da CPC, além das disposições da Lei 6.404/76, ela estava obrigada a observar as normas regulatórias da CVM (doc. 14). Em virtude disso e nos termos do art. 157, §4° da Lei 6.404/76, era dever da CPC informar à bolsa de valores e a divulgar pela imprensa qualquer fato relevante que pudesse influir, de modo considerável, nas decisões dos investidores da companhia, como foi o caso da compra da participação da Rodovias. Da mesma forma, a CVM por meio da Instrução CVM n° 358/2002, dispõe sobre a divulgação e uso de informações sobre ato ou fato relevante relativo às companhias de capital aberto. A informação sobre qualquer ato formal e negociai, fechado entre as partes, sobre a compra da Rodovias pela CPC, consistente no ato para lá de relevante, não era mera prerrogativa da CPC, mas, sim, dever, em respeito ao livre comércio e à legalidade. Com o CADE a situação não é diferente. De acordo com o disposto nos art. 88 e seguintes da Lei n° 12.529/2011, a CPC deveria comunicar o referido órgão, se houvesse qualquer formalização de compra da Rodovias, para submissão do ato de concentração, com previsão de duras penas na hipótese de omissão. Nada foi informado a esses entes públicos antes da assinatura do contrato entre a CPC e as pessoas físicas contrato este, como adiante se mostrará, era um misto de précontrato, pois possuía importantes cláusulas suspensivas , o que leva a ilação de que inexistiu qualquer negociação formal entre a Rodovias (e muito menos com a Requerente) com a CPC antes da formalização da alienação. As publicações feitas pela CPC, inclusive, confirmam que inexistiu qualquer negócio antes de 03/08/2010, como se verifica das seguintes publicações para atendimento da CVM e do CADE (doc. 14): Fl. 3188DF CARF MF 34 “Comunicado ao mercado São Paulo, 22 de outubro de 2010. A COMPANHIA DE CONCESSÕES RODOVIÁRIAS (CCR) (Bovespa: CCR03; Bloomberg: CCR03BZ; Reuters: CCR03.SA) comunica aos seus acionistas e ao mercado em geral que nesta data, sua controlada Companhia de Participações em Concessões, concluiu as negociações anunciadas nos Fatos Relevantes divulgados em 03 e 25 de agosto de 2010, passando a deter, a partir de então, direta e indiretamente, 100,00% (cem por cento) das ações representativas do capital social da Rodovias Integradas do Oeste S.A ("RODOVIAS"), da seguinte forma: (...)” (doc. 27A grifouse) “Comunicado à imprensa Grupo CCR conclui aquisição de 100% do capital social da concessionária Rodovias Integradas do Oeste S/A O Grupo CCR, um dos maiores grupos privados de concessões de infraestrutura da América Latina, anunciou hoje ao mercado que finalizou as etapas previstas nos contratos de compra e venda assinados em agosto, adquirindo, direta e indiretamente, a totalidade do capital social da concessionária Rodovias Integradas do Oeste S.A. O investimento da companhia no negócio será de R$1.335.847.194,35 (valores atualizados). (...) São Paulo, 22 de outubro de 2010. Assessoria de imprensa Grupo CCR: (...)” (doc. 27B grifou se) “Comunicado Relações com Investidores Grupo CCR conclui a aquisição direta e indireta da Rodovias Integradas do Oeste S.A O Grupo CCR, o maior grupo privado de concessões de infra estrutura do País e um dos cinco mais representativos do mundo, comunica que finalizou em 22 de outubro de 2010 as etapas que foram previstas no Contrato de Compra e Venda de Ações e Quotas celebrado em 3 de agosto de 2010, (...) doc. 27C grifouse. A própria fiscalização atestou que o CADE foi comunicado apenas depois da assinatura do contrato, nos termos do processo administrativo n° 08012.009031/201089, iniciado em 24/08/2010 e finalizado em 03/10/2010, com aprovação pelo CADE, sem quaisquer restrições. De um lado estão os fatos, com os documentos dos sócios da Requerente, da CPC (terceira) e de órgãos públicos reguladores que demonstram a inexistência de préacordo ou negócio antes de 03/08/20210 e, de outro, está a presunção fiscal pautada, com o devido respeito, numa tese imaginária do AFRFB. Por outras palavras, a presunção fiscal de que teria havido qualquer tipo de negociação formal com a Requerente antes da venda participação societária indireta na Rodovias, de propriedade das pessoas físicas, realizada com CPC, é completamente inverídica e desprovida de qualquer prova material. Fl. 3189DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.173 35 E não é só. A fiscalização ficou tão preocupada em buscar uma “carta de intenção", sem lograr êxito, digase de passagem, que não percebeu que o próprio contrato de venda em compra, assinado em 03/08/2010 (fls. 562/899) era uma mistura de carta de intenção e contrato, vez que submetido a inúmeras cláusulas suspensivas definidoras do negócio. Tanto errou na análise do contrato, que, como demonstrado acima, fez o lançamento com equívocos do período de apuração, do regime de tributação do IRPJ e da CSLL e da base de cálculo dos aludidos tributos. De fato, como adiantado linhas atrás com reprodução das cláusulas, o contrato de venda e compra assinado pelas pessoas físicas da Requerente tinham condições que, se não fossem cumpridas, não efetivariam a venda de participação na Rodovias pelas pessoas físicas (fls. 562/899 e docs. 17 e 8). O contrato de 03/08/2010 não era efetivo (fls. 562/899 e doc. 17), como pensou o AFRFB, que repete a todo tempo e equivocadamente o suposto curto prazo para "fechamento da alienação”, que não se deu naquela data. Prazo esse, aliás, desprezível, se considerado que em 12/2008 (quase dois antes) começaram os atos, que foram efetivados em 05/2010 (três meses antes do primeiro acordo e cinco meses do fechamento). Dentre outras condições, a venda e compra só se realizaria se (i) houvesse a autorização da ARTESP e se (ii) outros acionistas da Rodovias resolvessem, também, vender as suas partes (fls. 637, fls. 560/561 e doc. 8) Notese, a propósito, que, apesar de não fazer menção, a própria fiscalização acostou aos autos cópia de carta enviada, em 09/08/2010, pela diretoria da Rodovias à ARTESP informando sobre a “possível alienação de participação" e registrando ser necessário para efetivação, além da autorização da referida estatal, a compra por terceiros e o acerto de garantias (fls. 560/561): “Essa operação está sujeita à observância de condições precedentes, dentre outras, (i) aprovação dessa Agência Reguladora: (ii) obtenção prévia de autorização para liberação das garantias prestadas, direta ou indiretamente pelos Vendedores e/ou seus afiliados, em favor da RODOVIAS; e (iii) aquisição, pela CPC, das ações representativas do percentual de 26,55% (vinte e seis e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social da RODOVIAS, em condições a serem acordadas oportunamente. Considerando que a condição precedente relativa à aquisição da parcela restante do capital social da RODOVIAS (26.55% do capital social) ainda não se concretizou, não é oportuno requererse a análise da transferência parcial do controle societário da RODOVIAS ou darse ciência da transferência do controle das acionistas da concessionária, (...) Não está sendo apresentado qualquer documento, nesta oportunidade, uma vez que ainda pende condição precedente." Bem se constata que a fiscalização, mesmo ciente e diante de documentos que contam a verdade dos fatos, insistiu em descrever, com todo o respeito, uma história fantasiosa sobre uma prénegociação com a Requerente somente para dar azo à desqualificação de atos jurídicos perfeitos é aumentar a arrecadação federal. Essa incerteza, em contrariedade à posição do AFRFB, torna ainda mais claro que não houve nenhuma articulação para que a venda da participação da Rodovias Fl. 3190DF CARF MF 36 fosse nas pessoas físicas de maneira irreal. Ora, o negócio poderia ou não sair, dependendo do interesse de terceiros não vinculados à Requerente, motivo pelo qual os atos praticados pela Requerente não podem ser descaracterizados. Olhando para trás, o que se tem, ao revés do que faz parecer a fiscalização, é uma formalização negocial de intenção de venda em 03/08/2010, sem qualquer perspectiva definitiva do real acontecimento do negócio. Essa falta de certeza, por si só, abala toda a presunção fiscal de que tudo foi maquiavelicamente feito para “disfarçar uma venda pelas pessoas físicas”. E se as condições suspensivas não fossem cumpridas? Não existiria venda. E o que seria? A participação da Holding G4 permaneceria nas pessoas físicas, mas isoladas, longe de riscos operacionais de empresas, com manutenção do planejamento de isolamento de riscos dos sócios, como explicado detalhadamente acima. Na verdade, a venda e compra só foi concretizada em 22/10/2010, com o cumprimento geral das condições suspensivas e, consequentemente, com a assinatura do termo de fechamento de alienação da participação da Rodovias pelas pessoas físicas, proprietárias desse bem, sócias da Requerente (doc. 8). Depreendese do contrato de fechamento que, dentre outras condições cumpridas no acordo inicial, a ARTESP aprovou a substituição de todos os acionistas diretos e indiretos da Rodovias (doc. 8) pela CPC, e os sócios da Holding G4 venderam seu investimento: “ 1. Fechamento 1.1 Condições Precedentes. Nos termos e para os fins do Contrato, as Partes, o Garantidor, a Companhia. G4 Participações, Latinoamericana e Vialco reconhecem e declaram que as condições precedentes previstas na Seção 5 do Contrato foram devidamente cumpridas pelas Partes, conforme abaixo especificado, quitandose ampla irrevogável, irretratável e reciprocamente em relação às obrigações a elas relacionadas, para nada mais reclamarem a este título, a qualquer tempo, consignando ainda, para todos os fins do Contrato, que a Data de Fechamento foi de comum acordo estabelecida como a presente data: a) A Aprovação da ARTESP foi obtida, conforme publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo em 16 de setembro de 2010, no caderno Executivo I, Seção I, página 34; b) A efetiva e concomitante aquisição, direta ou indireta, nesta data, das ações de emissão da Companhia não detidas por G4 Participações, Latinoamericana, Vialco e Planova, representativas de cerca de 26,55% (vinte e seis inteiros e cinquenta e cinco centésimos por cento) do capital social total e votante da Companhia, de forma que, com a consumação do Fechamento, o Comprador passa a deter, direta e indiretamente. 100% (cem por cento) das Ações Rodovias. c) O cumprimento, pelos Vendedores, nesta data, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.3(a), 6.3(b), 6.3(c), 6.3(g), 6.3(h), 6.3(i), 6.3(1) e 6.3(m) do Contrato; e d) O cumprimento, pelo Comprador, nesta data, das obrigações previstas nas Cláusulas 6.2(a), 6.2(b) e 6.2(e) do Contrato.” Fl. 3191DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.174 37 Vêse que, bem distante do que fez parecer o AFRFB, a venda e compra só se realizou em 22/10/2010, com a assinatura feita pelos vendedores, pessoas físicas, sócias da Requerente, proprietárias do bem, e os demais acionistas da Rodovias, e pela compradora, a CPC, do ‘termo de fechamento ' (doc. 8 e fls. 560/561). Afastadas as presunções fiscais de que os atos da Requerente não teriam substância e ela teria participado previamente do negócio no lugar das pessoas físicas, é mister deixar claro que o produto da venda feito pelas pessoas físicas não retornou para a Requerente, como, com todo respeito, maliciosamente indicou o AFRFB (fls. 1.066/1.062). Vejase, nesse ponto, a conclusão fiscal contida no TVF quanto à suposta “volta” do preço recebido pelas pessoas físicas à Requerente, sem que houvesse juntada de documentos, como citado acima, para comprovar essa “presunção”: “Este aumento de capital revela o verdadeiro alienante, vez que parte do produto da alienação retorna a sua origem. NF Motta, que era a real detentora da participação na Rodovias, de forma direta ou indireta, desde o AC 2000.”(fls. 1.065 grifouse). A assertiva fiscal é, com todo acatamento, inverídica e maliciosa, uma vez que, como será visto adiante, (i) não há como vincular atos iniciados em 2008 com os aportes parciais feitos pelas pessoas físicas em 2010; (ii) era comum os sócios fazerem investimento na Requerente, que foram realizados em 2008 e 2009,também; (iii) independentemente do produto da venda da participação à CPC, as pessoas físicas tinham patrimônio e capital para aportar; e, de qualquer forma, (iv) o montante do AFAC é irrisório frente ao valor da alienação efetivada pelos sócios. Como pisado e repisado acima, os atos praticados pela Requerente e seus sócios, especialmente em relação à redução de capital foram iniciados em 2008 e concluídos em 2010. Diante desses fatos, não há como vincular o recebimento do preço pelas pessoas físicas e o ulterior aporte parcial (reduzido, digase, de passagem) na Requerente, como um ato previsto, articulado e conexo, sugerido pelo AFRFB. Deveras, os atos da Requerente e do negócio feito pelas pessoas físicas eram todos dependentes de condições suspensivas, de modo que não poderiam ter sido perpetrados de imediato, motivo pelo qual inexiste ligação entre eles e os ulteriores aportes, sendo equivocada a presunção fiscal nesse sentido. Não é só. A presunção fiscal não deve prevalecer também, porque, desde 2008 e muito antes de receber qualquer valor pela venda da participação societária indireta da Rodovias, os sócios da Requerente estavam realizando aportes na empresa, que é operacional (fls. 04/44). Como se verifica dos documentos contábeis anexos, os sócios da Requerente fizeram aportes em 2008 e 2009 e. por isso, não se pode dar margem à posição fiscal de que aqueles realizados em 2010 só ocorreram em razão da venda perpetrada pelas pessoas físicas (doc. 15). Os sócios, Nelson e Ivan desde 2008 realizaram aportes na Requerente, isto é, a ação de investimento à referida empresa operacional era costumeira e, distante do que faz crer a fiscalização, não foi motivada pela venda da participação da Rodovias pelas pessoas físicas em 2010. Fl. 3192DF CARF MF 38 Sendo, pois, comum e corriqueiro os aportes em anos anteriores ficam despicienda a presunção do AFRFB de que só houve investimento ainda que parcial pelos sócios na Requerente por causa da alienação perpetrada com a CPC. Da mesma forma, essa presunção fiscal é elidida pelo fato de os sócios da Requerente terem patrimônio e caixa para realizar os aportes de 2010, sem que fosse necessário o valor do preço recebido pela alienação feita pelas pessoas físicas à CPC. Depreendese da DIRPF do anobase de 2009 de Nelson e Ivan tinham, respectivamente, o patrimônio de R$ 11.503.893,21 e R$ 9.987.842,92, isto é, eles poderiam aportar na Requerente sem a necessidade do produto da venda da participação indireta na Rodovias para a CPC (doc. 16). Mais do que isso, em termos de distribuição de lucro em 2009, os sócios Nelson e Ivan, receberam, em ordem seguida, os valores de R$ 831.360,00 e de R$ 802.800,00 (doc. 16). Logo, as pessoas físicas detinham recursos patrimoniais suficientes para investir na Requerente antes da alienação da participação indireta da Rodovias via Holding G4, sem precisar realizar qualquer movimento de volta de investimento da participação indireta na Rodovias por eles alienadas. E, por fim, como o próprio AFRFB disse, os aportes em 2010 se referem, em quantidade, em valores parciais do preço recebido pelas pessoas físicas, que, em percentual, são irrisórios. Além de os sócios da Requerente possuírem patrimônio, a verdade é que, de qualquer forma, em termos numéricos, não se pode dizer que houve retorno do capital, como se a alienação das pessoas físicas fosse disfarçada. Denotase do demonstrativo abaixo que, comparando o preço total da alienação indicada pelo AFRFB e os totais dos aportes constantes no TVF, o percentual é, aproximadamente, de 12,86%: Observase, que os aportes de 2010, em comparação com o preço da alienação indicada pelo AFRFB, representam por volta de 12,86% do total do montante da venda e compra feita entre as pessoas físicas e a CPC, o que, por si só, abala toda a presunção fiscal de que teria havido “retorno de capital” para a Requerente. Como bem frisou o AFRFB, os aportes representavam valores parciais, se comparados com o preço total da alienação pelas pessoas físicas. Apesar disso, deixou a acusação, tão cuidadosa com os números e gráficos dos lançamentos de ofício, de registrar que esse montante é ínfimo: 12,86%. É bom frisar, outrossim, que tal percentual é feito sem a dedução do patrimônio e dos valores que os sócios detinham em caixa, o que, ainda mais, realça o despropósito de falarse em retorno de investimento. Se houvesse retorno, o total deveria representar 100% ou quase isso. Com um percentual tão baixo, está presente a normalidade e afastadas a presunção fiscal. Aliás, dentro do histórico de aportes antes de 2010, a atitude dos sócios, pessoas físicas, com o investimento criticado pelo AFRFB, se mostra razoável e Fl. 3193DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.175 39 proporcional, sem qualquer vinculação com a alienação da participação indireta na Rodovias. E bom dizer, igualmente, que o fato de a Requerente não ter alterado seu contrato social, como dito pelo AFRFB (fls. 1061), em nada abala a lisura do procedimento. Ora, a Requerente sempre foi operacional e os aportes foram feitos em anos anteriores, sendo, irrelevante tal presunção. Em resposta a posição fiscal, ainda, é válido grafar que, como dito e redito acima, a redução de capital decorreu de excesso de capital, isolamento da participação da Rodovias e formação de bloco político. Não foi, a toda evidência, um ato isolado visando uma menor arrecadação, como pensou o AFRFB. E, ainda, assim, a economia fiscal, como salientado acima, não torna nem um ato jurídico perfeito e acabado inexistente ou nulo. Constatase, desse modo, que a presunção fiscal sobre o “retorno de capital” do valor do preço recebido pela CPC, com o devido respeito, é fraca, inverídica e fantasiosa, sem qualquer margem para suportar sua ilação ilegítima de que teria havido uma alienação disfarçada para efeito de economia fiscal. Frente aos fatos, isso é inconcebível! A consequência basilar disso é que não houve uso indevido do direito e das formas para simular uma determinada situação. A venda e compra foi, de fato, realizada, regular e legalmente, pelas pessoas físicas; o valor do preço foi recebido por elas da CPC; e essa quantia não “retornou” (foi um montante ínfimo), de maneira alguma, para a Requerente, em forma de aportes. A realidade dos documentos demonstra a verdade dos fatos, sem qualquer espaço para sustentar o suposto “planejamento tributário abusivo” indicado pelo AFRFB, já que: a redução de capital existiu, a venda efetiva foi feita na data de fechamento pelas pessoas físicas, tudo antes da ocorrência do fato jurídico tributário do IRPJ e da CSLL, sem que houvesse volta do valor total à Requerente. Comprovada, portanto, a (i) legalidade dos atos da Requerente e de seus sócios;(ii) a motivação, substância e finalidade de todos eles; (iii) a inexistência de negócio firmado pela pessoa jurídica antes do fechamento da venda e compra com a CPC; e (iv) a inverídica assertiva de que o valor do preço teria “retornado” à Requerente, todas as presunções fiscais foram afastadas, razão pela qual os lançamentos de ofício devem ser cancelados. II. g) A licitude dos atos O livre exercício de atividade A economia fiscal Não para por aqui. Além de todos os atos da Requerente e de seus sócios observarem a Lei e terem motivação e substância, sem objetivo único de pagar menos imposto a qualquer custo, é mister afastar a posição do AFRFB de que a “economia fiscal” seria, por si só, um indicativo de “planejamento tributário abusivo”. Como se demonstrou à saciedade, a finalidade dos atos societários foi, desde 2008, realizar, em linhas gerais, (i) a sucessão da Requerente; (ii) formar grupo político na Rodovias; (iii) isolar a participação de outras operações, sobretudo depois do advento da Holding G4, para manter a segregação de ativo e passivo; (v) administrar o ativo, sem interferência exterior; mantendose, assim, a participação nas pessoas físicas. Fl. 3194DF CARF MF 40 Por outro lado, embora o AFRFB ignore e deixe de lado a tributação das pessoas físicas, é certo que elas apuraram ganho de capital e pagaram generosa quantia a título de IRPF ao fisco federal (doc. 13). Sendo, assim, não há que se falar que o intento principal da Requerente foi obter “economia fiscal”, pois todos os atos foram lícitos, tiveram uma razão de ser no contexto social e, ainda, houve recolhimento do IRPF ao erário federal. Não obstante isso, nenhum contribuinte está obrigado, por nenhuma norma legal, a se esforçar para uma maior arrecadação e uma tributação excessiva, ao contrário do que faz parecer o AFRFB. Nesse aspecto, a Requerente consigna que efetuou a redução de capital, em função de seu excesso e pelos motivos acima alinhavados, nos termos do art. 1082 do Código Civil, e do art. 173 da Lei n° 6.404/76, este último aplicado subsidiariamente, atendendo aos requisitos legais. Mais do que isso, a redução de capital com a transferência da participação aos sócios pelo valor de custo encontra guarida no art. 22 da Lei n° 9.249/95, cuja hipótese foi devidamente obedecida pela Requerente. Nesse diapasão, não é exagero repetir que o próprio AFRFB atestou que a Requerente se atentou, para todos os seus atos, aos dispositivos legais cabíveis, notadamente para a redução de capital e a transferência de participação às pessoas físicas: “18. Em 03/05/2010, conforme Sexta Alteração e Consolidação do Contrato Social (DOC 1 1), a NF Motta reduziu seu Capital Social em R$ 4.434.409,00. As cotas canceladas foram pagas aos sócios Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva com conferência de quotas de emissão da Holding.”(fl. 1.060). Se a Requerente respeitou a Lei, como de fato respeitou, não há como desconsiderar atos, sem base legal, por causa do aventado motivo de economia fiscal. Desde que respeitado o primado da legalidade, o dever do contribuinte é adimplir aquilo que a Lei, em sentido estrito, impõe como sendo obrigação de pagamento de montante a título de tributo. Observese o que diz a doutrina: “Se assim não fosse, logicamente se teria de concluir pelo absurdo de que o contribuinte seria sempre obrigado a escolher o caminho de maior onerosidade fiscal. ” “Em nenhum momento o nosso ordenamento exige do contribuinte a busca da via negocial mais custosa em termos tributários." (...) “A liberdade de ação das pessoas, reconhecida e tutelada pela Constituição Federal, legitima o direito à economia de tributos, pela garantia de liberdade para desenvolver atividades econômicas, inclusive a liberdade contratual. ” “Ora, ninguém é obrigado a adotar o procedimento mais oneroso de ponto de vista fiscal. Essa nãoobrigação à referida conduta implica, obviamente, a permissão de omitila, que é a liberdade à qual já nos referimos; e, dentro dessa liberdade, a pessoa que almeja redução de impacto fiscal deve promover o Fl. 3195DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.176 41 comportamento em que a obrigação correspondente seja a mais interessante. ’' “O contribuinte tem plena liberdade de escolha dos meios legais formais para estruturar seus negócios, suas operações isoladas ou complexas, se a lei não exigir uma forma específica.” A ilação fiscal consistente na sugerida busca pela economia fiscal não é fundamento válido para manter a acusação de “planejamento tributário abusivo”, especial e ironicamente porque, como demonstrado acima, ao agir assim, quem ofende ao princípio da legalidade é a fiscalização. A Constituição Federal de 1988 sobreleva a um patamar de destaque os primados da legalidade e do livre exercício de atividade econômica, como bens fundamentais ao desenvolvimento do país. Diferente da ordem emanada pelo princípio da legalidade à Administração Pública, que só pode agir rigorosamente de acordo com a Lei, salvo raras exceções de prática discricionária, a Magna Carta retrata que há liberdade nas ações privadas, desde que observados os limites legais. Corolário do primado da livre iniciativa é o direito de desenvolver qualquer atividade e também de contratar, aí incluída a redução de capital, como se nota das palavras de José Afonso da Silva: “(•••) a liberdade de iniciativa envolve a liberdade de indústria e comércio ou liberdade de empresa e a liberdade de contrato." A posição fiscal demonstra que a Requerente, ao reduzir o capital, agiu com respeito aos limites legais, afinal deixou claro o cumprimento a todos os requisitos normativos na operação como um todo. É essa, inclusive, a orientação do CARF, que confirmou o entendimento da Requerente acerca da insubsistência do fundamento, como se vê do seguinte trecho do voto do ilustre Conselheiro Relator Paulo Jacinto do Nascimento: “O argumento de que o desmembramento das atividades operacionais teve por único escopo obter economia tributária não é suficiente, por si só, para a desconsideração dos atos e negócios jurídicos realizados com amparo legal." “Diante disso, tenho por ilegítima a reunião das receitas das duas empresas para serem tributadas em conjunto como se auferidas pela recorrente, e, de consequência, por erro na quantificação da base de cálculo e na identificação do sujeito passivo, dou pela nulidade do lançamento, provendo o recurso.” (1º Conselho de Contribuintes/3a. Câmara/ACÓRDÃO 103 23.357 em 23.01.2008 1RPJ E OUTROS Ex(s): 2002, Publicado no DOU em: 25.03.2008 — grifouse). Assim, a indicação fiscal de que o Estado teria arrecadado menos do que poderia, em função da escolha legal e lícita da Requerente na realização de sua Fl. 3196DF CARF MF 42 atividade e administração de seus negócios, é subsídio precário, ilegal e ilegítimo para manter os lançamentos de ofício, que devem ser cancelados. II. h) A necessidade de abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas Caso não sejam cancelados os lançamentos de ofício pelas razões acima destacadas, o que somente se admite por amor à argumentação é preciso que, ao menos, os valores, recolhidos pelas pessoas físicas, a título de Imposto de Renda de Pessoa Física IRPF, sejam abatidos da exigência fiscal ora impugnada. Como se depreende do TVF (fls. 1.071), o AFRFB reconheceu expressamente a existência de quantia, a título de IRPF, no importe de R$ 8.941.562,87, comprovadamente recolhida por Nelson e Ivan (doc. 13), deixando, todavia, de abatêla da exigência fiscal por entender impossível tal procedimento: “71. Cumprenos consignar que os sócios da NF Motta, Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva recolheram a quantia total de R$ 8.941.562,87 a título de IRPF sobre o ganho relativo à alienação das participações na Holding G4. Em razão da natureza jurídica diversa do tributo recolhido e daqueles que deveriam ter sido apurados, bem como da distinção também existente entre os seus regimes jurídicos, o montante pago de IRPF pelos senhores Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva não puderam ser empregados por esta fiscalização para reduzir o crédito tributário a ser lançado a título de IRPJ e CSLL. ” (fls. 1.071 — o destaque não é do original). Ocorre que, diversamente do que acredita o AFRFB, o abatimento dos valores recolhidos a título de IRPF é. além de possível, a única medida que se coaduna com o procedimento adotado por ele, sem afetar à moralidade administrativa, ocasionar à duplicidade de exigência e o enriquecimento ilícito do Estado. Demonstrase. O abatimento do IRPF quitado pelas pessoas físicas aludidas acima é medida que se impõe por respeito à própria legislação tributária, mais especificamente, a Portaria n° 2284/2010 emitida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, in verbis: “Art. 1º Os processos de determinação e exigência de créditos tributários relativos aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, nas hipóteses em que houver pluralidade de sujeitos passivos, serão disciplinados conforme o disposto nesta Portaria. (...) Art. 4 O pagamento efetuado por um dos autuados aproveita aos demais." Constatase que, ao regular os procedimentos a serem adotados quando da existência de mais de um sujeito passivo da obrigação tributária, a Receita Federal do Brasil exigiu, de forma expressa e irrestrita, que o pagamento realizado por um desses sujeitos fosse aproveitado pelos demais. É exatamente esse aproveitamento que foi vedado nesse caso, pois, embora o AFRFB tenha atribuído responsabilidade tributária solidária às pessoas físicas elencadas acima, impossibilita que a Requerente aproprie o pagamento por elas realizado em face da exigência tributária em discussão. Logo, em respeito à Portaria nº 2284/2010, norma regulamentar e interna da própria Receita Federal, é evidente que o pagamento realizado pelas pessoas físicas, Fl. 3197DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.177 43 independente da rubrica utilizada, deve ser considerado e abatido da exigência fiscal ora impugnada, já que foi imputada responsabilidade tributária a elas. Não é só. É preciso dizer que a atitude de deixar de abater o valor a título de IRPF recolhido pelas pessoas físicas caracterizadas como responsáveis é desarrazoado e desproporcional frente ao procedimento realizado pelo AFRFB no caso. Como dito acima, à margem da lei, o AFRFB desconstituiu diversos atos jurídicos lícitos realizados pela Requerente e seus sócios. O esperado, diante da desconstituição realizada, seria a recomposição do status a quo ante e o abatimento dos pagamentos efetuados a título de IRPF. Se o AFRFB, de um lado, constrói uma nova realidade para exigir o IRPJ e reflexos da Requerente, de outro, ele deveria, em respeito à igualdade, abater o IRPF recolhido na operação. E, com a devida vênia, maligno exigir o tributo nessa situação e, ao mesmo tempo, se negar a abater o que já havia sido recolhido pelas pessoas físicas. O AFRFB anula, sem previsão legal, diversos atos jurídicos e, ao seu bel prazer, com o único escopo de engordar os cofres públicos, deixa de recompor a situação inicial em pé de igualdade. É desproporcional e irrazoável, anular atos, repaginar a realidade, mas só exigir, sem abater o que já foi pago. Como o AFRFB entendeu que a venda teria sido feita pela Requerente, mesmo não sendo, ele também deveria qualificar que o IRPF foi, na verdade, pago pela pessoa jurídica, para se ter o mínimo de justiça tributária. A atitude da fiscalização, à evidência, só confirma a arguição da Requerente de que o lançamento é ilegal. O AFRFB desconsidera atos sem base legal e no instante de reconstruir a realidade se utiliza da Lei como forma de se escusar ao abatimento do IRPF. E uma contradição que confirma a ilegalidade do lançamento do AFRFB, que age ao seu talante para fazer uma exigência superior ao razoável. Assim, o ato de não abater o IRPF do montante exigido nos lançamentos de ofício, fere à simetria, a razoabilidade, a proporcionalidade e o sentido mais raso de justiça tributária. E mais, a vedação ao abatimento dos valores quitados pelas pessoas físicas nesse caso deve ser afastada, pois, além das máculas acima, impõe dupla carga tributária sobre o mesmo fato jurídico tributário, o que também não pode ser admitido. O fato jurídico tributário que deu origem à exigência fiscal impugnada é a percepção de ganho de capital decorrente da alienação da participação societária indireta da Rodovias à CPC. Independentemente de quem tenha praticado o aludido fato jurídico tributário foram as pessoas físicas, mas o AFRFB entende que foi a Requerente o valor recolhido por conta da ocorrência dele, nesse caso, como expressamente admitido pelo AFRFB, no importe de R$ 8.941.562,87 é único e deve ser considerado nesse caso, sob pena de duplicidade de exigência. Dessarte, o tributo foi recolhido sobre o ganho de capital, prevalecendo ou não a posição do AFRFB quanto a quem realizou o fato, não se pode deixar de abater o tributo devido, haja vista que incidiu e foi recolhido relativamente à mesma alienação de participação societária. Fl. 3198DF CARF MF 44 Por outro giro verbal, é indispensável realçar que o Imposto de Renda é um tributo sem destinação específica e, assim, o produto arrecadado é remetido, independentemente de ser esse recolhido por pessoa física ou jurídica, ao Tesouro Nacional. Tal fato inegável enaltece a duplicidade da exigência existente nesse caso e, por outro lado, afasta a alegação do AFRFB de impossibilidade de abatimento do valor. O valor do tributo, independentemente de ter sido recolhido sob a rubrica de IRPF ou IRPJ está igualmente à disposição da União Federal e, assim, pode ser, sim, por ela utilizada para abatimento da exigência fiscal ora impugnada. Tanto é possível tal utilização pela União Federal que a própria Lei 9.430/96, quando trata da compensação tributária, possibilita que tal encontro de contas seja realizado com quaisquer tributos, desde que administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil: “Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão”. Destarte, pela natureza única do Imposto de Renda, a inexistência de destinação específica e, ainda, pela gama enorme para compensação de tributos federais, não há como manter, na pior das hipóteses, o abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas da exigência em comento. Não bastassem todos esses aspectos, a falta abatimento do IRPF, a toda vista, implica no enriquecimento ilícito do Estado e macula a moralidade administrativa, que devem reinar no âmbito da Administração Pública Federal. Um dos argumentos contidos no TVF é a “economia” de 19% sobre o ganho de capital, que corresponde à diferença entre a carga tributária de IRPJ que a Requerente estaria sujeita (34%) se a venda tivesse sido realizada por ela e a que os sócios pessoas físicas se submeteram de IRPF (15%). Se o argumento do “planejamento tributário abusivo” é a tal economia, e se o AFRFB tivesse razão, o que se admite apenas para argumentar, então somente poderia ser exigida exatamente o valor a menor que adentrou aos cofres públicos. A pretensão de se exigir 34%, sem abater os 15% recolhidos, corresponde a uma carga tributária total de 49%. Ao remanescer o lançamento fiscal ora impugnado, estarseia possibilitando que o Estado receba duas vezes, já que decorrente do mesmo fato jurídico tributário, o que representa verdadeiro enriquecimento ilícito do Estado. Por outro lado, estarseia também maltratando o primado da moralidade administrativa ao validar, como quer o AFRFB, a desconsideração dos valores pagos pelas pessoas físicas, eis que não se mostra moral exigirse novamente quantia que já se encontra nos Cofres Públicos. Vejase, a propósito, como a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais se posiciona acerca da necessidade de se abater os valores que decorram do mesmo fato jurídico tributário, mesmo que se trate de IRPF a ser deduzido de exigência de IRPJ: Fl. 3199DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.178 45 Cita várias jurisprudências. É de se salientar, que nos casos acima citados a discussão girava em torno da mesma situação fática ora verificada: suscitação de que houve "planejamento tributário abusivo" pela alienação de bens ter se dado pela pessoa física dos sócios e não pela pessoa jurídica, supostamente para economizar tributo. Quer dizer, havendo pagamento de IRPF pelos sócios, essa quantia deve ser, necessária e obrigatoriamente, abatida do IRPJ eventualmente devido. Em situação diametralmente oposta, ou seja, o valor exigido é relativo ao IRPF e o que será aproveitado é o IRPJ, o CARF também entende válido o abatimento, tal como sustentado pela Requerente: Cita jurisprudência de DRJ´s e desse Conselho, tanto das turmas ordinárias quanto da Câmara Superior. Cintilante, assim, que deve o valor quitado a título de IRPF pelas pessoas físicas, acima descritas, ser abatido da exigência fiscal ora impugnada a título de IRPJ e reflexos. II. i) A Inexigibilidade do PIS e COFINS Receita decorrente da venda do ativo não circulante Ofensa ao art. 3°, §1° e §2°, IV da Lei 9.718/98 Ainda que o lançamento principal de IRPJ seja mantido, o que se admite apenas para argumentar, é mister expor que, como a receita tributada decorre de venda das ações da Holding G4 não há incidência de PIS e COFINS, devendo o lançamento relativo a essas contribuições ser, de qualquer forma, cancelado. Como é cediço, o art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98 vigente à época do fato jurídico tributário (2010 e fundamento legal dos lançamentos das contribuições) veda a inclusão de certas receitas na base de cálculos do PIS e da COFINS Cumulativa, dentre elas se encontrando as receitas decorrentes da venda de bens do ativo permanente: “Art. 3º O faturamento a que se refere o artigo anterior corresponde à receita bruta da pessoa jurídica. § 1º Entendese por receita bruta a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevantes o tipo de aividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. § 2 ° Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2o, excluem se da receita bruta: (...) IV a receita decorrente da venda de bens do ativo permanente." O que se vê, assim, é que por determinação legal, as receitas que decorrem da venda de bens do ativo permanente, atual, não circulante, dentre os quais se encontram, como visto acima, as ações da Rodovias, não podem ser inclusas na base de cálculo das aludidas contribuições. Pois bem. Como se depreende do Termo de Verificação Fiscal e dos autos de infração (fls. 1029/1074). o AFRFB considera que o valor de R$ 68.076.874,29 é receita decorrente da venda das ações da Rodovias pela Requerente: Fl. 3200DF CARF MF 46 “65 A quantia de R$ 13.750.074,68 referente a comissão devida pelos vendedores ao Itaú BBA, foi paga diretamente pela CPC ao Itaú BBA, por conta e ordem dos vendedores engloba o preço de venda. Desta forma, acrescentamos o valor de R$ 761.754,14 que caberia à NF Motta. 66. Desta forma, apurouse o ganho de capital abaixo discriminado:" Por conta disso, deixa, por bem, de incluir na base de cálculo do PIS e da COFINS o valor acima mencionado, respeitando, assim, o disposto no art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98 vigente à época do fato jurídico tributário (2010). Por outro lado, o AFRFB, de forma totalmente discricionária e sem respaldo algum, como já dito acima, caracterizou o valor de R$ 1.678.394,17 como tendo natureza de receita financeira: “69. A diferença entre o preço de venda informado pela CPC no total de R$ 1.364.711.014,20 (22/10/2010) e o preço calculado na data da assinatura do contrato no total de R$ 1.334.415.090,58 será tributada como receita financeira em 22/10/2010. Da diferença total de R$ 30.295.923, coube à NF Motta, R$ 1.678.394,17. 70. Diante de todo o exposto, lavrase os Autos de Infração anexos, do qual esse Termo é parte integrante e inseparável, cujos montantes incluem os juros e multa, conforme demonstrado a seguir:" (fls. 1.070 grifouse). Por conta dessa conclusão, incluiu, o AFRFB, na base de cálculo do PIS e da COFINS, o valor acima citado, como se receita financeira fosse, mas tal quantia, à evidência, não pode assim ser classificada. Isso, pois, pelo prisma fiscal, o valor de R$ 1.678.394,17 decorre da verificação da diferença entre os valores de avaliação da companhia informados no: (i) contrato de compra e venda de R$ 1.334.415.090,58 (fls. 562/899) e (ii) Termo de Fechamento de R$ 1.364.711.014,20, ora juntado (doc. 10). Se isso for verdade, pois, como dito acima, o AFRFB não explicou como apurou a quantia em questão e nem sequer provou a natureza desse valor, a presunção absoluta de receita financeira é totalmente despropositada. Como dito acima, embora o contrato de compra e venda (fls. 562/899) tenha sido assinado em meados de 08/2010, a negociação dependida do implemento da condição suspensiva, sendo certo que a concretização da alienação só se deu em 10/2010 com o termo de fechamento (doc. 10). O valor, então, de avaliação da Rodovias informado no contrato de compra e venda (fls. 562/899) era meramente estimado, até porque ainda era necessário o implemento das condições suspensivas para que a negociação se efetivasse. Somente no momento do fechamento efetivo da contratação, em 10/2010, com o cumprimento das condições suspensivas, é que o negócio foi realmente firmado e, nada mais esperado, que, pelo transcurso do tempo, fosse informado novo valor da Holding G4. Vejase que tanto no contrato de compra e venda (fls. 562/899), como no termo de fechamento (doc. 10) já havia previsão expressa de correção do valor da companhia: Fl. 3201DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.179 47 Contrato de Compra e Venda (fls. 592): “3.1.1. O Valor da Companhia será corrigido pela variação pro rata die de 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010, inclusive, e até a data de seu efetivo pagamento. ” Termo de encerramento: “2.1 Variação do CDI. Para fins de cálculo do Valor da Companhia, do Preço de Compra Alocado, devido a cada um dos Vendedores, e da Parte Contingente do Preço, as Partes acordam que, não obstante o disposto na Cláusula 3.1.1 do Contrato, foi adotada, de mútuo e comum acordo, a correção pela variação pro rata die de 100% (cem por cento) do CDI, a partir de 18 de março de 2010, inclusive, até 21 de outubro de 2010, inclusive, acrescido da variação de 100% (cem por cento) do CDI de 21 de outubro de 2010. (...) 2.2.1. Em razão do disposto na Cláusula 2.1 acima, as Partes concordam que: (a) o Valor da Companhia corresponde, nesta data, a R$ 1.364.711.014,20 (um bilhão, trezentos e sessenta e quatro milhões, setecentos e onze mil, catorze reais e vinte centavos); (b) o Valor do Ajuste (...) corresponde, nesta data, a R$ 28.863.819,85 (vinte e oito milhões, oitocentos e sessenta e três mil, oitocentos e dezenove reais e oitenta e cinco centavos); ” A diferença apurada pelo AFRFB na verdade decorre somente de diferença entre o valor estimado e o valor de fechamento, realizado, inicialmente, em 03/2010, até a data do cumprimento das condições suspensivas, ou seja, 10/2010. Dessarte, como se trata de uma diferença de preço e não de receita financeira, essa parte do preço de fechamento é insuscetível de ser inclusa na base de cálculo do PIS e da COFINS por expressa vedação legal (art. 3º, §2°, da Lei 9.718/98), devendo o lançamento relativo a tais contribuições ser cancelado. Além disso, e como demonstrado acima, o lançamento se deu pelo regime de caixa em 2010. Naquele montante recebido pelos sócios da Requerente em 22/10/2010, essa suposta diferença financeira já estava inclusa na 1ª parcela recebida por eles, que era de preço, motivo pelo qual, de qualquer forma, ela não pode ser exigida. E mesmo que se considere como receita financeira o valor de R$ 1.678.394,17, o que somente se admite por força de argumentação, o lançamento relativo à contribuição ao PIS e à COFINS continua tendo de ser cancelado, vez que tal dispositivo legal foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Deveras, há muito, o Supremo Tribunal Federal já reconheceu a inconstitucionalidade do art. 3º, §1°, da Lei 9.718/98, não havendo, por isso, como subsistir o lançamento em comento: •PIS E COFINS LEI N° 9.718/98 ENQUADRAMENTO NO INCISO I DO ARTIGO 195 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NA REDAÇÃO PRIMITIVA. Fl. 3202DF CARF MF 48 Enquadrado o tributo no inciso I do artigo 195 da Constituição Federal, é dispensável a disciplina mediante lei complementar. RECEITA BRUTA E FATURAMENTO A sinonímia dos vocábulos Ação Declaratória n° 1, Pleno, relator Ministro Moreira Alves conduz à exclusão de aportes financeiros estranhos à atividade desenvolvida Recurso Extraordinário n° 357.9509/RS, Pleno, de minha relatoria. ” (RE 527602, Relator(a): Min. EROS GRAU, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 05/08/2009, DJe213 DIVULG 12112009 PUBLIC 13112009 EMENT VOL0238205 PP 00928 LEXSTF v. 31, n. 372, 2009, p. 209226). Ademais, a Corte Suprema já declarou também a repercussão geral da questão, momento em que reafirmou o posicionamento firmado no RE 346.084/PR e outros que declaravam inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS: “RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, §1º, da Lei n° 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE n° 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º/9/2006; REs n°s 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei n° 9.718/98.”(RE 585235 QORG, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 10/09/2008, REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe227 DIVULG 27112008 PUBLIC 28112008 EMENT VOL02343 10 PP02009 RTJ VOL 00208 02 PP00871 ). Ancorado no posicionamento acima e em respeito ao art. 62, de seu Regimento Interno, o CARF é pacífico ao cancelar as autuações relativas ao PIS e à COFINS sobre receita financeira: “PIS e COFINS. Base de Cálculo. Receitas Financeiras. Inconstitucionalidade Reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Declarada a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do art. 3º da Lei n° 9.718, de 1998, em acórdão transitado em julgado e exarado em sessão plenária pelo Supremo Tribunal Federal, que, inclusive, reconheceu a repercussão geral da matéria em questão, impõese, em observância ao art. 26A, parágrafo 6°, inciso I, do Decreto 70.235, de 1972, afastar a exigência de Pis e Cofins sobre receitas que a própria fiscalização identifica como financeiras e distintas daquelas decorrentes da prestação de serviços.” (Acórdão 1401001.111 de 04/12/2013, 1ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) “IRPJ. PIS E COFINS. FATURAMENTO X RECEITAS FINANCEIRAS. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. Fl. 3203DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.180 49 Tendo em vista a declaração de inconstitucionalidade do § 1ºdo art. 3º da Lei n° 9.718/91, pelo pleno do STF, cancelamse as exigências de PIS e Cofins sobre as receitas financeiras apuradas. ” (Acórdão 1103000.286, de 30/08/2010, 3ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF) E, por fim, o dispositivo legal §1°, do art. 3°, da Lei 9.718/98 que possibilitava a tributação da receita financeira pelo PIS e pela COFINS já foi extirpado do ordenamento jurídico pela Lei 11.941/2009: Lei 11.941/2009: “Art.79.Ficam revogados: (...) XII o § 1° do art. 3° da Lei nº 9.718. de 27 de novembro de 1998;” Com a revogação do dispositivo acima citado, somente é passível de se exigir PIS e COFINS Cumulativo, a partir de 2009, sobre o faturamento, assim entendido a receita bruta das vendas de mercadorias ou de serviços vinculados à atividade social da Requerente. Evidentemente, o produto de venda de capital de ativo não circulante não se enquadra no conceito. Assim, por qualquer ângulo que se verifique, a questão só há uma conclusão viável: o cancelamento, de qualquer forma, do lançamento de ofício de PIS e COFINS. II. j) O descabimento da imposição da multa qualificada • A Inexistência de Fraude, Dolo e Simulação Neste estádio da impugnação, é fácil concluir que a Requerente agiu nos estritos limites da legalidade e com substância, inexistindo qualquer irregularidade em seu procedimento, sendo, pois, inconsistente a presunção de legal, indicada no TVF, de que teria havido, dolo, simulação declaração falsa, motivo pelo qual a multa agravada de 150%, aplicada com fundamento no art. 44, inciso I e § 1º, da Lei n° 9.430/96, art. 72, da Lei 4.502/64 e art. 2º, I, da Lei 8.137/90, deve ser, quando menos, cancelada. Além disso, a multa qualificada, irregularmente prevista no TVF, deve ser cancelada porque o AFRFB (i) não provou a suposta “fraude” (art. 72) e nem qualquer tipo de “declaração falsa” (art. 2º), com ação dolosa; (ii) não individualizou a pena (Requerente e os solidários); e, por fim, (iii) agiu em contrariedade à legalidade, à tipicidade e à tipificação, já que os fatos não se subsumem às hipóteses legais, que nem sequer foram elegidas especificamente pela fiscalização. Com efeito, os arts. 72 e 73 da Lei n° 4.502/64 definem o conceito de sonegação, fraude e conluio, conceitos estes que sustentam a aplicação de multa qualificada em caso de lançamento de ofício. O fundamento, aliás, do AFRFB foi de suposto "planejamento tributário abusivo”, mas ressalvada a observância a Lei. Em decorrência da interpretação dos comandos legais supracitados, a aplicação da multa em análise apenas seria possível nos casos de evidente intuito de fraude pelo contribuinte, com comprovação. Isso não ocorreu, já que o lançamento é, com todo respeito, superficial, padrão e genérico. Fl. 3204DF CARF MF 50 Estes conceitos estão postos nos dispositivos acima mencionados, onde está dito que a (i) sonegação é toda ação destinada a impedir ou retardar o conhecimento do fato gerador pela autoridade administrativa, a (ii) fraude é a ação destinada a impedir ou retardar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária e o (iii) conluio uma associação em vistas a enganar terceiros. E o elemento específico que caracteriza tais figuras é comprovação da presença do dolo, que é a vontade consciente do sujeito de alcançar um fim ilícito, que, no caso seria a fraude, a sonegação ou conluio, com a utilização, para tanto, de subterfúgios e artifícios. Para a caracterização do dolo é necessário a verificação e comprovação dos seguintes requisitos, a saber: (i) âmbito de prejudicar ou fraudar; (ii) que a manobra ou artifício tenha sido a causa da feitura do ato ou do consentimento da parte prejudicada; (iii) a existência de nexo causal entre o artifício usado e o benefício por ele conseguido e, por fim; (iv) a participação intencional de uma das partes no dolo. Sem que exista a efetiva verificação dos quesitos acima indicados, com a comprovação do evidente intuído de fraudar, não será possível aplicação da multa qualificada. Pois bem. Feitos tais esclarecimentos, cabe relembrar que a autuação fiscal em tela está fundamentada em lançamento fiscal precário e que não obedeceu aos ditames estabelecidos no art. 142, do CTN. Isso porque, a infração que foi imputada à Requerente está fundamentada na suposta ocorrência em "planejamento tributário abusivo”, sem que houvesse, no entanto, a efetiva comprovação da prática dolosa de tais atos, afinal não existe lei que preveja tal situação. O AFRB apenas supôs que a redução do capital da Requerente foi feita com o único objetivo de se obter economia tributária. Não foi o que ocorreu, mas, mesmo, assim, fica evidente que inexistiu qualquer ato doloso com vício de vontade por parte da Requerente e seus sócios. Ao discorrer sobre os fatos que, em tese, dariam suporte à presente autuação fiscal, o AFRB não trouxe os necessários elementos probatórios capazes de comprovar a efetiva ocorrência dessa suposta “simulação subjetiva”. Apesar de concluir de forma diversa, o AFRB não comprovou que a alienação da participação societária indireta da Rodovias teria sido pela Requerente, em ato de fraude. Ao revés, todas as alegações fiscais foram consubstanciadas apenas nos documentos relacionados à operação de venda e compra da Holding G4 apresentados pela CPC que demonstram, justamente, que este negócio foi realizado pelas pessoas físicas e não pela Requerente. Tampouco existe a comprovação efetiva que o valor recebido pelos sócios, em razão da venda de sua participação na Rodovias, teria sido restituído à Recorrente, capaz de fundamentar a suposta ocorrência de "planejamento fiscal abusivo". A verdade é que as suposições veiculadas pelo AFRFB no lançamento fiscal não se sustentam, pois, em nenhum momento há a comprovação da prática de atos capazes de ensejar a aplicação da multa qualificada prevista no art. 44, inciso I e § 1º, da Lei n° 9.430/96. De outro lado, é de se observar que a redução de capital da Requerente foi realizada de forma absolutamente regular, fato este que jamais foi contestado pelo AFRFB. Fl. 3205DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.181 51 A legalidade do procedimento do Requerente, por si só, estanca a presunção da ''simulação” ou "planejamento tributário abusivo” apontada pelo AFRFB, mas vale também consignar que a Requerente apresentou toda a documentação à fiscalização. Ainda no TVF, existe menção expressa ao fato que a Requerente respondeu a todas das intimações fiscais que lhe foram enviadas, com a apresentação dos documentos tidos por necessários pelo AFRFB. O fato de a Requerente não ter fornecido documentos que comprovariam ocorrência de "planejamento tributário abusivo” — e se não o fez, é por não existir documentação emitida nesses termos — não significa que esta se omitiu a prestar os esclarecimentos solicitados pelo AFRB ou, ainda, que tenha cometido atos fraudulentos capazes de fundamentar a aplicação da multa ora atacada. Ao revés, a farta documentação e informações apresentada pela Requerente, durante todo o período da fiscalização, é que possibilitaram a lavratura do lançamento fiscal, o que reforça, mais uma vez, a regularidade de sua conduta antes e durante o início do termo de fiscalização que culminou na presente autuação. Tais fatos demonstram, novamente, que a Requerente não incorreu na prática de qualquer uma das condutas tipificadas no art. 44, inciso I e § I°, da Lei n° 9.460/96, capazes de validar a aplicação da multa qualificada no caso presente. Para tanto, não basta, apenas, alegar, de forma genérica e abstrata, a ocorrência de ato fraudulento. O AFRB deverá especificar no lançamento fiscal a exata conduta subjetiva que ensejou a qualificação da multa, dentre aquelas previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei n° 4.502/64. A simples leitura dos autos de infração releva que não houve a devida indicação pelo AFRB da suposta conduta fraudulenta praticada pela Requerente. E a ausência desta indicação se justifica por um simples motivo: não houve a comprovação da ‘‘simulação" imputada à Requerente, motivo pelo qual as condutas de sonegação, fraude e conluio previstas na Lei n° 4.502/64 não se aplicam ao caso presente. A jurisprudência reforça a efetiva necessidade de que, para a aplicação da multa qualificada, a fraude, o dolo ou a simulação devem ser minuciosamente comprovadas e mensurados no lançamento fiscal: “Sobre o tema, esse Eg. Conselho de Contribuintes já assentou o entendimento de que não caracteriza evidente intuito de fraude para fins de agravamento da multa de ofício a não apresentação ou apresentação de declaração de rendimentos que informe com incorreção as receitas auferidas pelo contribuinte (declaração inexata), especialmente quando a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária pode ser facilmente constatada pelo Fisco mediante exame dos livros fiscais e demais documentos contábeis do contribuinte, tal como ocorre no caso dos autos” . (Acórdão 10323028, j. 23.05.07, 3ª C. do 1º CC) “COFINS. MULTA DE OFÍCIO. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. SONEGAÇÃO, FRAUDE E CONLUIO. PROVA. Não basta, para configurar a sonegação, a fraude ou o conluio, a Fl. 3206DF CARF MF 52 insustentável presunção da ocorrência de evidente intuito de fraude. Para a imposição da penalidade sob tal rubrica é inafastável existir a evidência, na forma da devida e inequívoca prova de sua ocorrência." “As simples diferenças constatadas pela autoridade autuante entre os valores recolhidos e os potencialmente devidos apurados no trabalho fiscal, bem como a inexistência de DCTF, não constituem prova em desfavor do contribuinte para amparar a mencionada exigência. (...) (20177608, Rel. Rogério Gustavo Dreyer, de 11/05/2004, 1ª Câmara do 2° CC) “IRPF RESULTADO DE DILIGÊNCIA CORREÇÃO DA BASE DE CALCULO. Corrigida a base de cálculo do imposto em diligência fiscal, deve ser reduzido o valor do imposto lançado. MULTA DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUALIFICADA FRAUDE JUSTIFICATIVA PARA APLICAÇÃO DA MULTA Qualquer circunstância que autorize a exasperação da multa de lançamento de ofício de 75%, prevista como regra geral, deverá ser minuciosamente justificada e comprovada nos autos. Além disso, para que a multa de 150% seja aplicada, exigese que o contribuinte tenha procedido com evidente intuito de fraude, nos casos definidos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n°4.502, de 1964. A falta de inclusão, como rendimentos tributáveis, na Declaração de Imposto de Renda, de valores que transitaram a crédito em conta corrente bancária pertencente ao contribuinte, caracteriza falta simples de omissão de rendimentos, porém, não caracteriza evidente intuito de fraude, nos termos do art. 992, inciso II, do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto n° (10418640, Rel. Nelsom Mallmann, 19/03/2002, 2ª Câmara 2a Seção de Julgamento). “A Recorrente não arquitetou procedimento no intuito de fraudar, sonegar ou até mesmo simular a não existência de receitas, não há comprovação de dolo nos autos, o que há é mero inadimplemento”. (Acórdão I 10 100.041, j. 12.05.09, Iª Câmara da Ia Turma Ordinária da Ia Seção de Julgamento) Cita jurisprudência. Destarte, tendo em vista (i) que a redução de capital praticada pela Requerente foi realizada de forma regular e dentro dos estritos ditames legais, (ii) que houve a apresentação de todos os documentos e informações solicitados pelo ARFB durante o procedimento fiscalizatório e, por fim, (iii) a inexistência da comprovação da prática fraudulenta que está sendo atribuída à Requerente, a aplicação da multa qualificada nos termos do art. 44, inciso I e §1º, da Lei n° 9.460/96 deverá ser afastada. II. 1) A não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício Cita doutrina e jurisprudência sobre a matéria. III O PEDIDO Fl. 3207DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.182 53 Diante de todo exposto, requerse, seja recebida e julgada a impugnação, para o fim de que: (i) Sejam cancelados integralmente os lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, além de todas as condenações dele advindas, em razão das razões acima expostas, ou, quando menos, (ii) Seja abatido da exigência de IRPJ e reflexos os valores de IRPF recolhidos pelas pessoas físicas, devidamente corrigidos pela SELIC, na operação desconstituída ilegalmente pela fiscalização e.por conseguinte,cancelados em parte os lançamentos de ofício; e/ou (iii) Sejam cancelados os lançamentos de PIS e COFINS e seus respectivos consectários legais, dada à inexistência de receita financeira e, de qualquer forma, a inconstitucionalidade da exigência das referidas contribuições sobre valores dessa natureza reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e pelo CARF; e/ou (iv) Seja cancelada a aplicação da multa qualificada de 150% e determinado que a Taxa Selic não seja aplicada sobre a multa de ofício. Os responsáveis solidários Jose Pinheiro Baracho, Ivan Lopes Da Silva e Nelson Floduardo da Motta apresentaram impugnação, cujas alegações transcrevo abaixo (fls. 1909 e ss.): [...] II O DIREITO Antes de tudo, o Requerente passa primeira e especificamente a afastar a imposição da responsabilidade solidária a ele imputada com base nos arts. 121 e 135. III. do CTN para, posteriormente, (ii) ratificar e resumir os argumentos apresentados pela NF MOTTA também no dia de hoje, que deixam de ser replicados por economia processual e para não tumultuar o processo, mas que justificam a impropriedade dos lançamentos fiscais na sua pessoa. II. 1) A inexistência de fiscalização em relação ao Requerente Lançamento Precário Cerceamento de Defesa A responsabilidade tributária atribuída ao Requerente deve ser cancelada, antes de tudo, pela inexistência de fiscalização contra ele, a precariedade do trabalho fiscal nesse aspecto e o cerceamento do seu direito de defesa. Depreendese do TVF que o mote principal da fiscalização para realizar os lançamentos foi o tal do "planejamento tributário abusivo", com desconsideração de atos lícitos e uma ilegal suposição de omissão de receitas pela N F Motta. Como base nisso, foi desconstituída (i) a redução de capital; (ii) a venda da Holding G4 (participação indireta da Rodovias) pelos sócios e não o Requerente; (iii) o recebimento do preço pelas pessoas físicas com participação; e (iv) a apuração e o pagamento do IRPF. Afora a redução de capital, todos os demais atos desqualificados por presunção do AFRFB dizem respeito às pessoas físicas na figura dos sócios e não ao Requerente (gerente, apenas), que alienaram a participação da Holding G4. Fl. 3208DF CARF MF 54 Mesmo havendo essa absurda imposição de responsabilidade solidária ao Requerente, que, repitase, não é sócio, era obrigatório que ele fosse fiscalizado e participasse da fase inquisitória. Ora, o AFRFB anulou atos praticados pelos solidários e não pela NF MOTTA e incluiu o Requerente indistintamente como responsável solidário. Sem que ela tenha participado de nada (não era sócio), não teve a possibilidade de apresentar esclarecimentos e documentos de forma preventiva. Evidente, nesse aspecto, que a falta de fiscalização do Requerente reduziu o seu direito de defesa, razão pela qual a responsabilidade solidária imposta pelo AFRFB, à revelia da ampla defesa e do contraditório, deve ser afastada de plano. Não é só. Os lançamentos de ofício foram fundamentados em suposta omissão de receita que, embora ilegais e desconexos da realidade, como amplamente demonstrado na Impugnação da N F Motta, revelam que o Requerente não deveria ser incluído como responsável solidário, mas como foi, deveria, necessariamente, participar da fase inquisitória. E certo que a famigerada omissão de receita, presumida pelo AFRFB, não decorre de averiguação de conta bancária fora da contabilidade e nem de receita escriturada à margem dela. De qualquer forma, é obrigatório, como nas mesmas hipóteses citadas, que o Requerente fosse intimado na fase de fiscalização e participasse do procedimento inquisitório, já que nem sócio ele é e era. Com efeito, é sabido e ressabido que, em caso de omissão de receita por conta bancária fora da escrituração, é indispensável que, se a conta for conjunta, os titulares devem ser intimados na fase inquisitória, caso contrário haverá nulidade. A ideia dessa jurisprudência, consolidada em súmula pelo CARF, é a de que as pessoas que conjugam do mesmo interesse e podem dar, em esclarecimentos e provas, azo a desqualificação da omissão de receita sejam ouvidas antes do lançamento de ofício. Embora o caso aqui, repitase, não seja de escrituração à margem da contabilidade, ao motivar os lançamentos em suposta omissão de receita e atribuir a responsabilidade solidária ao Requerente apenas como gerente (sem participação) pautada, também, em atos desqualificados das pessoas físicas dos sócios, era indispensável que o AFRFB o intimasse a participar do processo inquisitório. Como esse direito foi tolhido, como o próprio o AFRFB atestou, a imputação de responsabilidade solidária é descabida e deve ser cancelada, em homenagem aos primados da ampla defesa e do contraditório. Na verdade, essa falta do AFRFB não só gerou as incorreções nos lançamentos, como também, sob o prisma da defesa do Requerente, reduziu o seu campo de atuação e tornou o trabalho fiscal, em relação à sua suposta responsabilidade solidária de gerente não sócio, imprestável. Para se ter uma idéia da precariedade do trabalho fiscal e da supressão do direito de defesa em relação ao Requerente, trazse à baila o seguinte julgado do CARF que, por muito menos, cancelou o lançamento: “IRPJ ARBITRAMENTO DE LUCROS APRESENTAÇÃO DE LIVROS E DOCUMENTOS CONCESSÃO DE PRAZO Incabível o arbitramento do lucro tributável motivado pela falta de apresentação de livros, documentos e demonstrativos contábeis e fiscais, base para a tributação pelo lucro real, Fl. 3209DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.183 55 quando o Fisco não concede prazo razoável para o atendimento à intimação que exigia tais elementos. " (Número do recurso: 155938 Câmara: Oitava Câmara Primeiro Conselho de Contribuintes. Relator: Nelson Lósso Filho: Publicado no DOU em 07/11/2008, Acórdão n° 108.09.574 grifouse). É óbvio que qualquer lançamento contra o Requerente só poderia ser feito mediante regular procedimento administrativo contra ela instaurado (CF, art. 5°, L1V e LV), especialmente porque, repitase, ele não era sócio, mas tão somente gerente. Neste pormenor, é curial assentar que, nos termos do art. 142. do CTN, o fato jurídico tributário deve ser efetivamente verificado, para que se exija o valor correspondente a título de tributo. Deve, dessa maneira, ser acatada essa arguição de precariedade do trabalho fiscal e cerceamento de defesa, para que se proceda ao cancelamento da imputação de responsabilidade tributária ao Requerente. II. 2 O Descabimento da Aplicação do art. 121, do CTN Os equívocos da presunção fiscal. Além do cerceamento de defesa, o lançamento em relação ao Requerente por responsabilidade solidária, com base no art. 121, do CTN. deve ser afastada completamente, vez que não houve prova da ocorrência das situações previstas no referido dispositivo, nem escolha de uma delas, em menoscabo a tipificação e. mesmo que houvesse, as hipóteses previstas na referida norma não são aplicáveis ao caso. Com efeito, sobre a responsabilidade tributária que está sendo atribuída ao Requerente (gerente não sócio) e aos demais sócios da N F Motta. é de se verificar que o AFRFB se fundamentou, primeiramente, nas disposições contidas no art. 121. incisos I e II. do CTN. de forma genérica, cujo texto é o seguinte: ““Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador: II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei.'"' O comando normativo em destaque prevê que o sujeito passivo da obrigação tributária principal poderá ser (i) o próprio contribuinte, quanto este mantiver relação direta com o respectivo fato gerador ou, ainda, (ii) o responsável, nos casos em que sua obrigação decorra de lei. Ainda que exista uma clara distinção sobre os possíveis sujeitos passivos da obrigação tributária principal contribuinte ou responsável — o AFRFB não indicou qual das duas situações legais se enquadraria ao caso em tela. Fl. 3210DF CARF MF 56 Ao revés, o AFRFB transcreveu a íntegra do art. 121. do CTN (fls. 1.073), sem indicar, contudo, se a obrigação tributária imposta ao Requerente decorreria do inciso 1 (contribuinte) ou II (responsável). Vejase: O Requerente era só gerente! E, sem que tenha ocorrido a descrição exata da norma que enseja a responsabilidade que está sendo imposta ao Requerente, é de se concluir pela precariedade do lançamento fiscal ora atacado, por ser superficial e genérico. Como é cediço, o lançamento fiscal deverá conter todos os elementos capazes de identificar a conduta supostamente praticada pelo sujeito passivo, assim como preconizado no art. 142, do CTN. Ao fundamentar a responsabilidade que está sendo atribuída ao Requerente, o AFRFB indicou, de forma superficial e genérica, as disposições contidas no art. 121, do CTN, sem indicar, ao menos, qual seria a hipótese supostamente aplicável ao caso concreto inciso I ou II. A inexistência da indicação expressa do inciso I ou II, do art. 121, do CTN. para motivar a responsabilidade tributária ora atacada, macula a validade do próprio lançamento fiscal, nos termos do art. 142, do CTN. além de implicar em verdadeiro cerceamento do direito de defesa do Requerente. Há, pois, superficialidade no lançamento, falta de prova e. o pior, ofensa à legalidade, à tipicidade e à tipicidade tributária, o que macula essa extensão da exigência ao Requerente. Esse erro fica ainda mais grave, diante da constatação de que o Requerente não pode ser enquadrado em qualquer uma das situações descrita no art. 121, do CTN, seja aquela indicada no inciso I, seja aquela do inciso II. Ao analisar a situação sob a ótica inciso I, do art. 121. do CTN, verificase que, ao desconsiderar a alienação da participação societária da Holding G4 efetivada pelos sócios da N F Motta, o AFRFB jamais poderia ter enquadrado aquelas pessoas físicas supostamente envolvidas nessa operação como contribuintes e muito menos o Requerente, que era só gerente. E tal ocorre, pois, considerando os fatos construídos pela AFRFB, a venda desta participação societária teria sido feita e arquitetada pela N F Motta, tida por ele, como a supostamente a real beneficiária dessa operação de alienação de ativo não circulante. A obrigação tributária estabelecida pelo AFRFB, se prevalecesse a presunção fiscal, o que se admite só para argumentar, seria única: a obrigação da NF MOTTA efetuar o recolhimento do IRPJ e reflexos sobre o ganho de capital por ela auferido ao Fisco, como o sujeito passivo, sem qualquer espaço para indicação de outra pessoa. Não existem terceiros envolvidos, dado que os sócios e o Requerente na condição de gerente sem participação, nessa situação presumida pelo o AFRFB, não estariam relacionados pessoal e diretamente com o fato jurídico tributário:auferimento de ganho de capital na alienação de participação societária. Ora, o Requerente nem alienou participação, simplesmente porque não tinha nenhuma. Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, o Requerente jamais poderia ter sido enquadrado como contribuinte responsável da obrigação tributária, nos termos do inciso I. do art. 121, do CTN e sob a presunção construída pelo AFRFB, uma vez que, nessa situação, o contribuinte seria tão somente a N F Motta. Fl. 3211DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.184 57 De outro lado, ao se considerar a realidade dos fatos por meio da qual a alienação da participação societária da Holding G 4 foi realizada pelos sócios da NF MOTTA a obrigação tributária constituída entre as pessoas físicas e o fisco federal foi integralmente cumprida em razão dos recolhimentos realizados aos cofres públicos a título de IRPF. Nessa segunda hipótese, ainda referente ao inciso I, do art. 121, do CTN. a relação tributária estabelecida entre as pessoas físicas (sócias) e o fisco é direta, mas foi completamente cumprida com o pagamento do IRPF. O Requerente nem aí pode ser enquadrado, dado que não tinha participação alguma! Isto é, não há margem para aplicação do referido dispositivo legal. Assim, a imposição da responsabilidade solidária com base na hipótese do inciso I, do art. 121, do CTN não poderia jamais se enquadrar aos fatos vivenciados nos autos, ainda que fosse tida como correta, o que se admite só para arguir, a presunção fiscal de que a venda teria sido feita pela N F Motta. Igualmente, não se faz possível a aplicação da disposição contida no inciso II, do art. 121, do CTN. De sua leitura, é possível extrair que será considerado como responsável pela obrigação tributária principal aquele cuja obrigação decorra de lei. Mesmo sendo a indicação genérica, não se pode imputar essa responsabilidade, haja vista que ela se preza a terceiro não envolvido com o fato jurídico tributário, mas indicado expressamente pela Lei para participar de obrigação determinada por Lei. O artigo 121, inciso II, trata, claramente, de situações de responsabilidade solidária, que são atribuídas a pessoas que não guardam correlação com o fato gerador da obrigação principal, em decorrência de lei editada nesse sentido. É o caso, por exemplo, da obrigação legal imposta às pessoas jurídicas tomadoras de serviços prestados por pessoas jurídicas de direito privado e que estão sujeitas ao recolhimento do Imposto de Renda Retido na Fonte, à alíquota de 1.5% (art. 647, do RIR/99). Evidentemente não é o caso. Na situação em apreço o IRPF era devido pelos sócios c por eles foi recolhido. O Requerente nem participou disso. Na presunção legal, a relação seria entre a NF MOTTA e a União Federal, sem qualquer Lei que atribua obrigação desconexa ao fato jurídico tributário a terceira pessoa. Logo, a hipótese do inciso II, do art. 121, do CTN. mesmo diante da generalidade da imposição fiscal nesse aspecto, também não aplicável ao caso, devendo, assim, ser afastado. E. nem se diga, por outro lado, que a disposição do art. 121, do CTN pode ser vinculada com o disposto no art. 135, do CTN, com faz parecer furtivamente o AFRFB. sem. mais uma vez, fazer a subsunção do fato à norma. Com o intuito de embasar o cabimento legal da regra contida no art. 121, inciso II, do CTN, de forma superficial, repitase, o AFRFB indicou que a responsabilidade do Requerente e demais sócio da NF MOTTA decorreria das disposições trazidas no art. 135, inciso II, do CTN (fls. 1.073): "87. Sendo assim, c de acordo com a previsão legal contida no inc. III, no art. 135, da Lei n° 5.172/66 (CTN), constatase a SUJEIÇÃO PASSIVA POR RESPONSABILIDADE PESSOAL dos sócios com poderes de administração Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva e do Diretor Gerente. José Fl. 3212DF CARF MF 58 Pinheiro Baracho, pelos valores lançados em nome da empresa NF MOTTA, relativos ao período fiscalizado de 01/01/2010 a 31/12/2010." Tal como será doravante demonstrado, o art. 135, inciso III, do CTN não se aplica ao caso presente: ele trata de responsabilidade por ato de administração e não uma obrigação de terceiro como previsto no art. 121, do CTN. cm relação ao sujeito passivo. Inexiste, portanto, qualquer previsão legal que valide a responsabilização atribuída ao Requerente pela obrigação tributária descrita pela AFRFB no TVF. E ainda que assim não fosse o que se admite apenas por amor ao debate não seria possível a aplicação conjunta das disposições contidas no art. 121, inciso II, do CTN. com as hipóteses de responsabilidade previstas no art. 135, do CTN. Isso porque a responsabilidade descrita no art. 135, do CTN é classificada como responsabilidade de terceiros e não se confunde com aquela inicialmente prevista no art. 121, inciso II, do CTN: é pessoal, direta e depende da atuação com o fato jurídico tributário ou da participação de terceiro indicado por Lei para assumir a obrigação. Trata de sujeição passiva e dever de recolher tributo, mas não de responsabilidade solidária. Para a configuração da responsabilidade prevista no art. 135, inciso III, do CTN. é necessária a confirmação de que os administradores/gerentes de pessoa jurídica de direito privado tenham agido em nome desta, visando obter benefício econômico, por meio da prática de atos com excesso de poderes, infração a lei ou atos societários. O Requerente, como gerente não sócio, não se encaixa nisso de nenhuma forma. Tratase de uma forma de responsabilização pessoal e diversa daquela prevista no art. 121, do CTN. As hipóteses não se confundem e nem sequer podem ser aplicadas conjuntamente ao caso concreto. A norma do art. 121 do CTN trata de incidência direta, da regra matriz de incidência do tributo e os fatos a ela correspondentes. Já a norma do art. 135 do CTN cuida de responsabilidade pessoal, por ato ilícito do administrador. São normas completamente distintas e não podem ser aplicadas cm conjunto. Por esse motivo, a aplicação agregada do art. 121, inciso II e art. 135, inciso III, ambos do CTN, está equivocada, por tratar de conceitos diferentes e que não podem se confundir e ser vinculados, como fez o AFRFB. A jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, por diversas vezes, já asseverou (cita várias julgados) Aliás, essa confusão, com o devido respeito, feita pelo AFRFB, só atesta que a responsabilidade solidária foi imputada de forma genérica e superficial, com indicação de dispositivos legais que não se complementam e tratam de situações extremamente diferentes. Assim, sob qualquer ângulo que se analise o precário trabalho fiscal, é de se concluir que os atos em apreço não alcançam as situações previstas no art. 121, incisos I e 11 do CTN e. por isso, a responsabilidade tributária deve ser afastada pela generalidade da imputação, falta de tipificação e. de qualquer forma, pela inexistência de aderência entre o fato e à norma. II. 3 A inexistência de responsabilidade solidária Inaplicação do art. 135 do Código Tributário Nacional – CTN Não é só a indicação do art. 121, do CTN que é errônea, arbitrária e ofende os primados da legalidade e seus corolários. A pretendida responsabilidade tributária Fl. 3213DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.185 59 prevista no art. 135, do CTN é descabida e ilegal, visto que (i) o Requerente era gerente não sócio e não poderia, de forma, alguma ter cometido qualquer ato infracional: (ii) o AFRFB não provou a existência de excesso de poderes, infração de lei ou de contrato social e de ato doloso, realizando lançamento superficial: e. ainda, (iii) ele feriu à legalidade, à tipicidade e à tipificação, já que os fatos não se subsumem à hipótese legal, que não foi elegida especificamente. Demonstrase. • A inexistência de responsabilidade tributária inexistência de nexo causal entre o ato infrator e os poderes de gerência conferidos ao Requerente Art. 135 do CTN. Antes de tudo, é preciso dizer que o Requerente, na figura de gerente, sem participação societária, no caso concreto ora em debate, não pode sofrer a responsabilidade tributária atribuída pelo AFRFB, vez que não cometeu nenhum ato previsto no art. 135. III, do CTN. Lembrese que a suposta infração que ensejou a lavratura da autuação principal e. por via reflexa, a imputação de responsabilidade solidária ao Requerente (gerente não sócio), decorreu da redução de capital praticada pela N F Motta,mediante a entrega da participação societária da Holding G 4 para seus sócios, com o suposto objetivo de se obter indevida economia tributária a título de IRPJ incidente sobre o ganho de capital (fls, 1.064). "Após a análise dos elementos colhidos durante o procedimento fiscal instaurado e devidamente explicitada anteriormente, chegase à conclusão de que a transferência da participação societária da NF Motta na Holding G4 para seus sócios. Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva, faz parte de um planejamento tributário abusivo que almejava, como único objetivo, reduzir a tributação sobre o ganho de capital, significando uma economia tributária indevida na ordem de 19%. Esta economia tributária se dá pela aplicação da alíquota de 15%, pelo qual é tributado o ganho de capital auferido por pessoa física (IRPF), em detrimento das alíquotas de IRPJ e da CSLL a que estão sujeitas as pessoas jurídicas e que totalizam 34%. ” O cerne da infração principal decorre da cogitada prática de "planejamento tributário abusivo", resultante redução de capital da NF MOTTA efetivada em favor de seus sócios que, nessas condições, puderam alienar, na pessoa física, a participação societária da empresa Holding G4. O AFFRB não indicou atos específicos sobre a responsabilidade tributária. Nessa parte, o TVF é extremamente genérico, pois não individualiza nem as hipóteses e nem as ações pessoais dos indivíduos envolvidos. Apesar desse grave defeito, que, por si, já abala o lançamento fiscal, se a presunção fiscal recai sobre a redução de capital, não há como se imputar responsabilidade solidária ao Requerente, que, apesar de ser titulado como gerente administrativo, não teve nenhuma participação decisiva nesse ato. Ora, o Requerente, na figura de gerente, sem participação de cotas, nem que quisesse, poderia decidir pela redução ou não do capital da N F Motta. Essa é uma decisão particular dos sócios, sendo completamente descabida a imputação de responsabilidade tributária. Aliás, o AFRFB cita o Requerente no TVF, mas deixa de ressalvar que ele não possuía participação societária na N F Motta. A fiscalização, incorretamente, o Fl. 3214DF CARF MF 60 coloca como sendo parte comum na redução de capital, mas evidentemente, não foi. Vejase o que diz a fiscalização: "83. Conforme art. 8º do Contrato Social consolidado em 01/05/2008. Nelson Floduardo da Motta é identificado como Diretor Administrativo da NF Motta e como Diretores Gerente. Ivan Lopes da Silva e José Pinheiro Baracho. Até a data em que foi encerrada a presente ação fiscal, os três nomes citados compuseram a Diretoria e assinaram os atos que visaram a redução da incidência tributária." (grifouse). Considerando que, segundo a presunção fiscal, os atos societários praticados para a redução de capital da NF MOTTA teriam por objetivo ocultar a real beneficiária do ganho de capital apurado na alienação da Holding G4, não há como imputar qualquer responsabilidade solidária prevista no art. 135. III. do CTN ao Requerente. Com efeito, o art. 135, III, do CTN elenca como pessoalmente responsáveis, em caso de prática de atos com excesso de poder ou infração de lei, contrato social ou estatuto, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas. Notase que o dispositivo legal em comento vincula a responsabilidade tributária à prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei e atos societários. Nenhum desses atos foi praticado pelo Requerente na condição de gerente administrativo não sócio, repisese. sem participação societária na N F Motta. Para melhor elucidar essa questão. Maria Rita Ferragut esclarece que "(...) a infração não diz respeito ao fato jurídico tributário, que é sempre lícito, mas à decisão de sua prática, contrária aos objetivos sociais contemplados no contrato social ou no estatuto, à competência pessoal para a tomada de decisões e, ainda, aos limites fixados em lei. ” Verificase que o importante para qualificação, ainda que rasa da responsabilidade do art. 135. II. do CTN. seria a decisão sobre a prática da redução de capital. É óbvio, sob esse enfoque, que o Requerente em nada participou dessa decisão. Nesse passo, convém reafirmar que, nos termos do contrato de redução de capital (doc. 6 da impugnação da PJ) da N F Motta, que o Requerente foi eleito como diretor gerente não sócio da empresa, responsável por sua administração, somente com aprovação de algum sócio. Isso significa, à evidência, que o Requerente não detinha nenhum poder para realizar a redução de capital, alvo da crítica fiscal. Ele, como diretor gerente, apenas administrava o cotidiano da empresa, sem, contudo, participar desse tipo de decisão, que, evidentemente, é afeita aos sócios. E bom grafar, outrossim, que administração feita por terceiro não sócio é prevista no art. 1.061, do Código Civil, sendo, pois, legal essa previsão, mas, a toda vista, diferente da posição e envergadura de um sócio administrador: "Art. 1.061. Se o contrato permitir administradores não sócios, a designação deles dependerá de aprovação da unanimidade dos sócios, enquanto o capital não estiver integralizado, e de dois terços, no mínimo, após a integralização." Fl. 3215DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.186 61 Vêse que a administração exercida pelo Requerente estava vinculada aos estritos poderes que lhe foram conferidos no contrato social, sem exercer, no entanto, qualquer atividade inerente ao sócio da empresa E, por sua vez, a redução de capital da N F Motta, que foi justamente o ato que deu fundamentou à lavratura das autuações fiscais em tela, apenas pode ser praticada por ato de vontade de seus sócios, o que excluiu, por completo, qualquer atribuição de responsabilidade ao Requerente sob esta motivação. Tal ocorre, pois, a deliberação para aumento ou redução de capital de sociedade limitada está vinculada à aprovação dos sócios da empresa, que são os detentores dos valores investidos na empresa. Os poderes de gerência atribuídos ao administrador não sócio estão adstritos, repitase, a questões gerenciais e administrativas, que nada se confundem com as tomadas de decisão relacionadas à modificação do capital social da empresa, que são atos exclusivos e personalíssimos de seus sócios. E mais, a redução do capital social de empresa limitada, praticada por seu sócio, deve seguir uma série de regramentos e normas que não vinculam o mero administrador, em razão de sua função meramente gerencial. Como se vê, diante da constatação de que o Requerente ocupava cargo de diretor gerente não sócio, este ficava alheio a qualquer decisão relacionada à modificação do capital social da N F Motta. E sem a demonstração do nexo causal entre a infração descrita, de forma genérica e superficial, pelo AFRFB redução de capital da NF Motta visando indevida economia tributária — e os atos praticados pelo Requerente, não é possível vislumbrar a ocorrência de qualquer uma das hipóteses de responsabilidade solidária. A jurisprudência do CARF destaca a importância da demonstração do elo existente entre a infração descrita no lançamento fiscal e o ato efetivamente praticado por seu administrador: "(...) RESPONSABILIDADE DE TERCEIRO POR ATO ILÍCITO. PRESSUPOSTOS, LIMITES E REQUISITOS. A responsabilidade tributária de terceiro pela prática de ato ilícito não decorre do simples inadimplemento do tributo, mas sim de conduta ilícita que deve ser devidamente descrita, com identificação de seu agente e do nexo causai entre a conduta ilícita e o não pagamento do tributo pelo contribuinte direto. Não subsiste a responsabilidade tributária imputada a terceiro, por ato ilícito, sem que seja descrita a infração praticada, identificado o seu agente e o nexo da conduta com o não adimplemento dos tributos. (Acórdão n° 1402001.430 – 2ª Turma Ordinária, da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. 07/08/2013 grifouse). Denotase que a responsabilidade prevista no art. 135, do CTN está vinculada à efetiva prática e competência para a tomada de decisões, em nome da pessoa jurídica, que constituam infrações tributárias. Fl. 3216DF CARF MF 62 No caso presente, repitase. o Requerente, na qualidade de gerente não sócio, não possuía capacidade decisória ou gerencial para determinar a redução de capital da NF MOTTA e. assim, incorrer na "infração", superficial, genérica e não individualizada descrita pelo AFRFB. O fato de o Requerente, em conjunto com os demais sócios administradores, ter participado da reunião em que se deliberou a redução de capital da N F Motta, tal como mencionado pelo AFRFB (fl. 1.073) não lhe atribui competência para a prática desse ato. Ora, ele só assinou porque o contrato foi consolidado e ele nomeado gerente administrador. Nada mais. A assinatura do Requerente nos atos societários que resultaram na redução do capital da NF MOTTA não constitui prova de que este, verdadeiramente, decidiu, deliberou e efetivou tal ato. Ele, querendo ou não, por óbvio, não poderia interferir no ato de redução de capital, que depende da vontade do sócio. Ao revés, os poderes que lhe foram atribuídos na condição de diretor gerente não abarcavam deliberações sobre a modificação do capital da NF MOTTA que, como é de notório conhecimento, são exclusivos de seus sócios. Tanto é assim que, no decorrer de todo o procedimento administrativo em tela, há pouquíssimas citações do Requerente pelo AFRFB. Com exceção à indicação de que ele teria assinado ata de reunião de sócios na qual houve a deliberação da redução de capital da NF MOTTA (fls. 1.073), não existem alegações adicionais de que o Requerente teria arquitetado o "planejamento tributário abusivo" mencionado pelo AFRFB, recebido qualquer vantagem econômica em razão da alienação das quotas da Holding G4 ou efetuado posteriores aportes na N F Motta. Não há prova de nada. E nem poderia ser, pois, os poderes de gerência atribuídos ao Requerente, não sócio, não lhe autorizam a tomar decisões/providências dessa natureza. Enfim, inexistiu qualquer ato do Requerente que justificasse a atribuição de responsabilidade solidário pelos atos desconsiderados pelo AFRFB, que resultaram no lançamento tributário. Desse modo, a responsabilidade tributária atribuída ao Requerente nos moldes do art. 135, do CTN. além de ser geral e superficial, como será demonstrado abaixo, não se sustenta, diante da constatação de que ele não possuía poderes para determinar a redução de capital da N F Motta, tida como estopim da infração tributária descrita pelo AFRFB. • Falta de prova de infração de lei ou contrato social, excesso de poderes e de atitude dolosa Art. 135, III, e art. 142 do CTN Os lançamentos de ofício por responsabilidade tributária também devem ser cancelados porque o AFRF não indicou e muito menos comprovou que o Requerente teria praticado ato doloso com (i) excesso de poderes ou (ii) infração de lei, (iii) contrato social ou estatutos, como determina o art. 135, III, do CTN. Extraise do TVF, na parte referente à imputação de responsabilidade solidária (fls. 1.072/1.703), que os lançamentos fiscais nesse aspecto são extremamente superficiais e genéricos, o que agride o disposto no art. 135. III, do CPC. A situação de generalidade nesse caso é, com todo respeito, tamanha, que o art. 135. III, do CTN indica 3 (três) possibilidades possíveis de responsabilidade tributária e o AFRFB nem sequer especificou e provou cm qual delas o Requerente se encaixaria. Fl. 3217DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.187 63 De fato, o AFRFB não indicou e nem provou qual teria sido o "excesso de poderes" praticado pelos sócios e muito menos ao Requerente (fls. 1.072/1.073), que, repisese, era apenas gerente não sócio. É ler o TVF para notar que a atribuição da responsabilidade solidária foi feita de forma geral, sem especificação, justificação e prova algumas de qualquer tipo de ato com "excesso de poderes" do Requerente. Do mesmo modo, inexistiu registro e lastro probatório de que o Requerente teria praticado "ato com infração de lei". Tanto é assim que, afora o art. 135. III. do CTN. o AFRFB não cita nenhuma norma de conduta, exteriorizada por Lei, que caracterizasse e justificasse a imposição da responsabilidade solidária. Nenhuma! Consoante prevê o CTN, aliás, a regra de infração de lei se refere à norma de caráter societário, haja vista cuidar dos detalhes e atos de administração. Não se trata, a toda evidência, de qualquer norma jurídica. E nesse diapasão, como o AFRFB não contestou os atos praticados pelas pessoas físicas, sócias da NF MOTTA que culminaram na redução de capital e transferência de participação das pessoas físicas que, ao revés, obedeceram todas as normas e regramentos sobre o assunto, não existe infração de lei. Se inexiste aos sócios, muito menos ao Requerente, que não possuía qualquer participação e interesse no ato societário. Nesse aspecto, o Requerente consigna que a redução de capital foi efetuada, em função do excesso de capital da N F Motta, e preservação de ativos, nos termos do art. 1082 do Código Civil, e do art. 173 da Lei n° 6.404/76, este último aplicado subsidiariamente, atendendo aos requisitos legais. Mais do que isso, a redução de capital com a transferência da participação aos sócios pelo valor de custo, encontra guarida no art. 22 da Lei n° 9.249/95, cuja hipótese foi devidamente obedecida pelas pessoas físicas. Tudo isso, apesar de legal, não teve a participação decisiva do Requerente, mas somente formal pela assinatura do contrato social. Não só houve omissão e falta de prova com relação à hipótese de "excesso de poderes" e "infração de lei". O AFRB também não consignou e nem comprovou qual ”ato contra o contrato social" da NF MOTTA teria sido praticado pelo Requerente (fls.1.072/ 1.073). Depreendese do TVF que a fiscalização apenas indica cláusula de administração do contrato social para, ainda indicar os administradores da N F Motta, inclusive o Requerente como gerente não sócio. Não fez mais nada, além disso. Para que haja a mínima chance de imputar a responsabilidade tributária nessa referida hipótese ao administrador, é mister, evidentemente, indicar a cláusula ultrajada c comprovar a execução do ato ilícito. O AFRFB, repitase. de maneira genérica e evasiva, em momento algum registrou ou fez prova de que o Requerente, de fato, teria agido em desrespeito a qualquer cláusula do contrato social da N F Motta, o que, uma vez mais, denota à impropriedade da imputação da responsabilidade solidária. Fl. 3218DF CARF MF 64 E sob essa perspectiva é preciso dizer que, não só definição da hipótese, a indicação da prática e sua comprovação são necessárias à imposição da responsabilidade solidária do art. 135, do CTN. é indispensável a demonstração inconteste do dolo, da vontade de executar o excesso de poderes, a infração de lei ou do contrato social. Essa é a posição da doutrina: '"A existência de uma infração é condição necessária ao desencadeamento da responsabilidade do administrador, mas não suficiente. Para que identifiquemos o fato típico e antijurídico previsto no art. 135, a conduta do agente deve ser necessariamente dolosa. (...) É a partir desse prisma que a responsabilidade prevista no artigo 135 deve ser interpretada. Caso contrário, a intervenção no patrimônio particular e na liberdade do administrador será injurídica e totalmente incompatível com as garantias que a Constituição defere a todos, a título de direitos fundamentais. Assim, para que reconheçamos a recepção do artigo 135 pela ordem constitucional de 1988, é indispensável a aplicação de seu preceito em fiel harmonia com a necessidade da presença da conduta dolosa, de modo que a responsabilidade pessoal não atinja senão aqueles que cometeram dolosamente o ilícito típico." Se o AFRFB nem sequer indicou qual das hipóteses do art. 135. III. do CTN a situação do Requerente se enquadra, então fica óbvio e desnecessário tecer maiores delongas quanto à falta de prova em relação ao dolo, que ficou longe de ser construída pela acusação. De qualquer maneira, em relação ao Requerente, que só era gerente sem participação, fica mais nítida, ainda, a inexistência de conduta dolosa, já que, de forma alguma, ele participou de ato decisivo no tocante à redução de capital. Toda essa omissão, superficialidade, falta de qualquer prova quanto a ocorrência, dolosa e efetiva, de ato praticado ato com (i) excesso de poderes, (ii) infração de lei, ou (iii) contrato social, fere de morte o art. 142 e também o próprio art. 135, ambos do CTN, pela fatal de demonstração cabal das hipóteses de responsabilidade tributária. Cita jurisprudência do CARF. Logo, pela generalidade da imposição da responsabilidade solidária prevista no art. 135. III. do CTN. e a inexistência de qualquer prova e demonstração de dolo excesso de poderes, infração de lei, ou contrato social, essa imputação ilegal deve ser cancelada totalmente. • Ofensa à legalidade e à tipicidade Tipificação: falta de subsunção do fato à norma do art. 135, III, e art. 142 do CTN Decorrência basilar da superficialidade da imputação de responsabilidade solidária e da falta de prova de ato doloso do Requerente (i) excesso de poderes, (ii) infração de lei, ou (iii) contrato social, nos termos do art. 135. III. do CTN. é a mácula ao princípio da legalidade e da tipicidade, que impedem à imposição de obrigação tributária sem a correspondência perfeita do fato à norma. Tal como pisado e repisado linhas atrás, o AFRFB, em resumo, não indicou qual. especificamente, das hipóteses legais do art. 135, III, do CTN (norma) seria aplicável ao Requerente e concomitantemente, deixou de provar a ocorrência, efetiva e dolosa, dos atos supostamente praticados por ela (fato) em correspondência à previsão da conduta legal (subsunção). Fl. 3219DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.188 65 A AFRFB infringiu, sob esse ângulo, a legalidade e a tipicidade tributária, uma vez que não indicou objetivamente a norma de aplicação cabível e, por outro lado, a tipificação, haja vista que não comprovou o fato que se adequaria à hipótese legal e nem fez essa correspondência necessária. Inexistiu, pois, a imperiosa subsunção do fato à norma. Lembrese, nesse pormenor, que a norma tributária, como qualquer outra, tem sua incidência condicionada ao acontecimento de um fato (fato jurídico tributário) previsto na hipótese legal (hipótese de incidência); fato este que, comprovado no contexto social, acarreta a incidência do mandamento. Incidência, portanto, é o fenômeno, especificamente jurídico, da subsunção de um fato a uma hipótese legal que, quando se dá, por meio de linguagem jurídica competente (prova), imputa a este fato as consequências jurídicas previstas na norma ao qual ele se subsumiu. Para que houvesse, no caso concreto, a responsabilidade tributária, indispensável era (i) a indicação de uma das hipóteses do art. 135, III, do CTN e. ao mesmo tempo, a comprovação da realização dolosa pelo Requerente de ato com excesso de poderes, contrário à Lei ou ao contrato social. Nada disso aconteceu no TVF! Por falta de indicação específica da hipótese legal houve ofensa à legalidade e à tipicidade, pois, sem saber qual é a hipótese normativa específica a ser aplicada, se torna impossível, consequentemente, a tipificação, com a adequação perfeita de qualquer conduta no mundo fenomênico ao desenho legal. Deveras, não houve tipificação, dado que inexistiu a aderência, a incidência, a adequação do suposto fato às hipóteses legais do art. 135. III. do CTN. Assim como no Direito Penal, que também é um ramo do Direito Público, fato típico, para o Direito Tributário, é aquele que se contém perfeitamente na descrição legal, que se subsume inteiramente ao desenho normativo, sem faltar nem sobrar, nem fato nem norma. Ou seja, é sempre preciso que haja uma "perfeita adequação do fato concreto ao tipo" descrito na norma. Por mais essa falha do AFRFB, não há como sustentar a manutenção da imposição da responsabilidade ao Requerente por falha na aplicação da Lei ao suposto fato e também porque essa omissão nem dá espaço para uma defesa ampla e específica. A jurisprudência do CARF confirma o entendimento da Requerente: Cita jurisprudência desse Conselho e também do STJ. II.4 Argui sobre a necessidade de abatimento do IRPF já pago com o suposto IRPJ devido. II. 5) A multa qualificada Pena com teor personalíssimo impossibilidade de responsabilidade solidária (acréscimo de argumento em relação à defesa da NF Motta) II. 6) A impugnação apresentada pela NF MOTTA Serviços Gerais Ltda Ratificação Economia Processual Quando do julgamento na DRJ/RPO, a decisão restou assim ementada: Fl. 3220DF CARF MF 66 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 PRECARIEDADE DO TRABALHO FISCAL. OFENSA AO ART. 142. Não há ofensa ao art. 142 do CTN, quando a Autoridade Fiscal, em face de atos simulados, aponta todos os elementos previstos no citado artigo, quando da realização do lançamento de oficio com fulcro no art. 149. ERRO NA DETERMINAÇÃO DO PERÍODO DE APURAÇÃO. Quando optante pelo Lucro Presumido, sob o regime de caixa, há de se computar as receitas auferidas no período de apuração em que houver o efetivo recebimento. Caso, durante o ano calendário, passar a ser obrigada à apuração do lucro real, deverá oferecer à tributação as receitas auferidas e ainda não recebidas no período de apuração anterior àquele em que ocorrer a mudança do regime de tributação. ERRO NA DELIMITAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. O contrato de compra e venda tornase perfeito e válido quando as partes acordam acerca da coisa e do preço. Sendo possível determinar o preço na data da assinatura, é este valor que deve ser considerado pela fiscalização como o preço de venda, independentemente do efetivo pagamento. Caso as partes acordem em aplicar um índice financeiro sobre o preço de venda, incidindo entre a celebração do contrato e o efetivo pagamento, a diferença dos valores configura receita financeira. Quando optante pelo Lucro Presumido, sob o regime de caixa, os valores referentes ao ganho de capital e receita financeira devem ser acrescidos à base do cálculo, quando do efetivo pagamento, para consequente aplicação da alíquota dos tributos. A ILEGALIDADE DO LANÇAMENTO POR SUPOSTO PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. Para produzir efeitos tributários, é necessário que os eventos sejam apresentados de acordo com a substância dos atos e não meramente com forma lícita. Não se deve aceitar como lícito um planejamento tributário que envolva contratos “vazios”, desprovidos de causa geradora, porquanto visam retratar negociação que existe apenas para economizar tributos que são devidos. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RECEITA. Nos termos do art. 521 do RIR que “Os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo art. 519, serão Fl. 3221DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.189 67 acrescidos à base de cálculo” para efeito de incidência do imposto. Haverá o lançamento de ofício quando o sujeito passivo não oferecer à tributação as receitas provenientes de ganhos de capital e de ganhos financeiros. DESCABIMENTO DA DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS JURÍDICOS PERFEITOS E ACABADOS. O Princípio da BoaFé e o da Função Social devem ser considerados não apenas entre as partes do negócio jurídico, mas também perante a sociedade, visto que há interesse público em obter receitas tributárias para consecução do bem comum. Inarredável, portanto, a observância desses princípios norteadores, que limitam o excesso do exercício da autonomia privada em face de interesses maiores, como o interesse público em auferir receita tributária quando ocorre o fato gerador previsto na lei. Não pode simplesmente as partes inovar no exercício da autonomia privada quando há prejuízo à sociedade. LICITUDE DOS ATOS. LIVRE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE. ECONOMIA FISCAL. Sob a égide da livre iniciativa, não pode o interessado praticar atos unicamente para eximirse das obrigações tributárias, devendo a Autoridade Fazendária, em face dessa circunstância, obrigatoriamente, identificar o real fato gerador e efetuar o lançamento dos tributos devidos. ABATIMENTO DO VALOR DO IRPF RECOLHIDO PELAS PESSOAS FÍSICAS. Para que haja a compensação, os débitos devem ser próprios, ou seja, pertencer ao mesmo sujeito passivo que apurou o crédito que se deseja compensar. A INEXIGIBILIDADE DO PIS E COFINS SOBRE RECEITAS FINANCEIRAS. É incabível a cobrança da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre receita financeira, quando não decorrente do objeto social da pessoa jurídica optante pelo Lucro Presumido, sujeita ao regime de apuração cumulativa. DESCABIMENTO DA MULTA QUALIFICADA. Não há como afastar a imputação fiscal de planejamento tributário abusivo e fraudulento e a consequente aplicação da multa qualificada se comprovadas pela Fiscalização circunstâncias que demonstram a ocorrência de negócios jurídicos simulados, os quais foram celebrados com o único objetivo de esquivarse da tributação que, de qualquer outra forma escolhida, seria incidente. JUROS SOBRE MULTA. POSSIBILIDADE. Fl. 3222DF CARF MF 68 O Código Tributário Nacional, em seu art. 113, § 1º, estabelece que a obrigação principal tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária (multa) e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. O art. 161, por sua vez, prescreve que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis. Destarte, o conceito de crédito utilizado pelo CTN alcança não apenas o tributo, mas também a penalidade pecuniária. INEXISTÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. A ampla defesa, que assegura aos responsáveis solidários o direito de contestar a exigência contra eles formulada, é exercida por meio das impugnações apresentadas. DESCABIMENTO DA APLICAÇÃO DO ART. 121 DO CTN. Nos termos do art. 121 do CTN, a responsabilidade tributária só pode decorrer de Lei. O Código Tributário Nacional (art. 135) determina imputar a responsabilidade àquele que praticar ato ilícito. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Os atos da pessoa jurídica são manifestados por meio dos representantes legais. Simular negócio jurídico para eximirse de pagamento de tributo, configura ato ilícito, justificando a responsabilização dos que concorreram para a prática de tais atos. MULTA QUALIFICADA PENA COM TEOR PERSONALÍSSIMO IMPOSSIBILIDADE DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Praticar atos ilícitos, na qualidade de administrador, decorrentes de planejamento tributário ilícito, abusivo, inevitavelmente haverá a responsabilização tributária (art. 135 do CTN). Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Cientificados da decisão, e inconformados com o resultado do julgamentos, apresentaram os responsáveis os respectivos recursos: 01)NF Motta: 1a) A Inovação da DRJ/RPO – Ilegalidade do Lançamento de Ofício Citação da DRJ ao art. 149 do CTN conforme abaixo: Vejase, neste peculiar aspecto, a conclusão da DRJ/RPO de que a motivação para o lançamento fiscal seria a aplicação do art. 149, do CTN em clara inovação à fundamentação jurídica contida no TVF: Fl. 3223DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.190 69 “Essa desconsideração dos atos praticados pelo contribuinte foi feita com fulcro no art. 149, VII, do CTN, o qual determina que o lançamento deve ser efetuado de ofício quando houver dolo, fraude ou simulação.” (fls. 2.422). Apesar da assertiva fiscal, observase do TVF (fls. 1.054.1.074) que o AFRFB em nenhum momento motivou o lançamento de ofício em tal dispositivo legal e nem sequer o citou. 1b) A precariedade do trabalho fiscal – Ofensa ao art. 142 do Código Tributário Nacional CTN repetição das mesmas razões da impugnação e acrescenta: No caso em apreço, o AFRFB não apresentou nenhum documento probatório de que a venda teria sido feita pela Recorrente e também que inexistiria substância na operação. São palavras e mais palavras fundamentadas numa montanha de conjecturas. Sem qualquer prova. A DRJ/RPO, por sua vez, deixou de analisar todo o histórico da operação e os documentos trazidos na impugnação, que claramente comprovam a motivação de todo o negócio, com influência de terceiros e de órgãos estatais, como a ARTESP, CVM e o CADE. E, com todo o acatamento, o Colegiado a quo fez apenas só negações, sem resposta efetiva sobre os fatos e as arguições da Requerente. (...) 1c) O Erro na determinação do período de apuração Ofensa aos art. 13, §2º Da Lei 9.718 (art.516 do RIR/99) e 142 do CTN • O Regime de Competência Adotado pelo AFRFB Erro 1d) O erro na delimitação da base de cálculo – Ofensa ao art. 142 do CTN e art. 2º, da Lei 9.430/96 1e) A ilegalidade do lançamento por suposto “planejamento tributário abusivo” – Ofensa ao art. 37 e 150 da CF/88, art. 97 e 197 do CTN e art. 2º da Lei 9.784/99 1f) A inexistência de previsão legal de “falta de contabilização de ganho de capital” e “apuração incorreta resultado” 1g) O descabimento da desconsideração da alienação feita pelas pessoas físicas (motivação, substância e realidade) – Ofensa à Legalidade e à Tipicidade 1h) O equívoco da presunção fiscal Venda efetiva pelas Pessoas Físicas, sócias da Requerente — Inexistência de retorno de investimento 1i) A licitude dos atos O livre exercício de atividade A economia fiscal 1j) A necessidade de abatimento do IRPF recolhido pelas pessoas físicas e do IRRF 1k) O descabimento da imposição da multa qualificada 1l) A não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício Os responsáveis, por sua vez, argumentaram o seguinte: 2a) A inexistência de fiscalização em relação à Recorrente – Lançamento Precário – Cerceamento de Defesa Fl. 3224DF CARF MF 70 2b) inexistência de responsabilidade solidária – Inaplicação do art. 124, I e 135 do Código Tributário Nacional CTN 2c) necessidade de abatimento do IRPF já recolhido (acréscimo de argumento em relação à defesa da CCI Concessão) 2d) A multa qualificada – Pena com teor personalíssimo impossibilidade de responsabilidade solidária 2e) A impugnação apresentada pela NF MOTTA – Ratificação – Economia Processual Este é o relatório do essencial Voto Conselheiro Letícia Domingues Costa Braga Relatora I Recursos Voluntários Os recursos voluntários são tempestivos e preenchem os requisitos de admissibilidade, portanto deles conheço. A acusação da autoridade autuante é de que a Recorrente não teria contabilizado o ganho de capital apurado na venda do investimento na NF Motta Comércio e Construções Ltda. Que houve uma sequência de operação simuladas e que na verdade a transferência das ações para a holding G4 não teria ocorrido e, tampouco a devolução de capital da holding para as pessoas físicas também não teria acontecido. Nesse sentido, considerouse que a operação foi efetivamente realizada pela recorrente, NF Motta Construções, empresa acionista de Rodovias desde 2000 e que há responsabilidade pessoal tanto dos acionistas da NF Motta, qual seja os Srs. Nelson Floduardo da Motta e Ivan Lopes da Silva e os administradores: Ivan Lopes da Silva e José Pinheiro Baracho Com relação à parte exonerada pela DRF, qual seja, o PIS e a COFINS sobre as receitas financeiras, verificase que o valor não atinge o mínimo para a interposição de recurso de ofício. II Da nulidade da decisão da DRJ Não se pode qualificar a conclusão da DRJ como modificação no critério jurídico adotado pelos autuantes no exercício do lançamento. E a nulidade de uma decisão como o caso da DRJ, só se justifica se ocorrer a preterição do direito de defesa, conforme estatuem os arts. 59 e 60 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. A preterição do direito de defesa não ocorreu, pois a impugnação que apresentou foi apreciada e o recurso voluntário ao CARF foi apresentado e acolhido para julgamento. Fl. 3225DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.191 71 Ou seja, identificou a ausência de propósito negocial, pois tratavase de operação simulada, arquitetada apenas para economia de tributos, visto que não existiria de outro modo, senão para eximirse de pagamento dos tributos que são devidos. Essa desconsideração dos atos praticados pelo contribuinte foi feita com fulcro no art. 149, VII, o qual determina que o lançamento deve ser efetuado de ofício quando houver dolo, fraude ou simulação. Tratase de “norma geral”, a qual deve ser atendida em harmonia com os requisitos traçados pelo art. 142, quando da realização do lançamento. E a autoridade lançou corretamente, demonstrando tanto no Termo de Verificação Fiscal (fl. 1066 e ss.) quanto nos Autos de Infração o respectivo enquadramento legal que ampara a constituição do crédito tributário, conforme dispõe o art. 10 do Decreto 70.235/72. Nesse sentido, tais razões apenas complementam as razões da autuação, não havendo qualquer nova fundamentação capaz de macular o direito de defesa da recorrente. III No mérito Das Razões extratributárias Como já defendido em inúmeras decisões deste Conselho, na análise de reorganizações societárias complexas compostas por etapas diversas deve ser afastada a análise isolada de cada uma das etapas como se fossem fotos estáticas sem relação entre sim, pelo contrário, a análise deve ser conjunta e levar em conta o encadeamento das etapas como se fossem cenas contínuas de um filme. Pois bem, o histórico da operação, pode ser assim resumido, conforme descrito no TVF: Fl. 3226DF CARF MF 72 Fl. 3227DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.192 73 Fl. 3228DF CARF MF 74 Não vejo como extrair dos fatos acima citados que a operação tenha sido simulada. Muito embora a autoridade autuante tenha realizado um minucioso trabalho de investigação, não há nos autos sequer início de prova de que, na prática, a venda da participação societária da Rodovias tenha sido realizada ou mesmo negociada pela Recorrente. Até porque a participação da recorrente era minoritária e a citada participação de um de seus acionista no Conselho de Administração da rodovias não conferia a esse o poder de decisão sobre venda ou não de qualquer participação societária. A fiscalização prefere ignorar que as reduções de capital e transferências de participações societárias na Holding G4 foram negociadas e instrumentalizadas em 12 de novembro de 2008, e que apenas a efetivação de tal operação é que ocorreu em 2010, após a autorização dos credores e da agência reguladora. Assim, é verdade que, perante terceiros (isto é, conforme os registros na Junta Comercial) a Recorrente foi proprietária da participação na Holding G4 até 2010. Todavia, a transferência de tal participação já tinha ocorrido desde novembro de 2008, apenas a efetiva entrega e registro dos respectivos atos societários é que aguardava o cumprimento de condições suspensivas, quais sejam, as autorizações dos credores e da agência reguladora, fatos estes que dependiam exclusivamente de terceiros e que portanto ocorreriam independentemente de manifestação da Recorrente ou dos adquirentes. Explicado isso, fica fácil compreender o porque de a participação societária na Holding G4 ter sido negociada por quem ainda não era, perante os registros societários, detentor de tais cotas. Lado outro, justifica a fiscalização que restou demonstrado que houve retorno do capital social para a recorrente, tendo em vista que os acionistas aportaram capital na empresa no ano seguinte. Não se pode entender, portanto, que há sequer início de prova de que tenha havido simulação na operação em questão. Por economia processual e por se tratar de fatos quase idênticos ao tratado nesses autos, reproduzo voto da brilhante conselheira integrante dessa Turma, Lívia De Carli Germano que em 10 de abril do corrente ano, relatou o recurso voluntário da CCI em que essa turma, por unanimidade, julgou procedente o recurso voluntário da recorrente: Considerando todo o contexto acima não vejo como se possa considerar a Recorrente como a real alienante da participação societária. No máximo, o que houve foi planejamento, no sentido de que foram estudadas alternativas para a alienação da participação na Holding G4 e houve atuação preventiva de forma a minimizar os impactos tributários. Mas isso é, inclusive, o dever de um bom administrador, já que os tributos são, em última análise, custos como quaisquer outros, os quais devem ser, na medida do possível e desde que licitamente, reduzidos em prol da saúde financeira de qualquer pessoa, física ou jurídica. Assim, não se pode tratar o planejamento de forma pejorativa, como se todo empresário que planejasse praticasse um ilícito. Repitase: qualquer administrador probo deve planejar, ou seja, buscar antecipar os efeitos dos negócios a serem praticados e estudar alternativas que tragam menor custo ou maior benefício. Fl. 3229DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.193 75 Tal planejamento será lícito desde que cada ato analisado individualmente e também no conjunto com outros atos tenha uma função, ou seja, produza as consequências jurídicas que se espera daquele ato. É o que muitos chamam de "causa" do negócio. Assim, não se pode pretender tributar uma operação tal como a fiscalização entendia que ela devesse ter sido feita. O fato de uma operação não ter tido o "desfecho previsível" que a fiscalização esperava não significa que ela não tenha tido "propósito negocial". De fato, já observei em outros votos que temos presenciado com preocupante frequência a utilização, pelas autoridades fiscais, de uma versão extrema e literal da suposta "teoria do propósito negocial" por meio do qual se defende que a simples ausência sob a ótica do fisco de outros "motivos" para a operação que não o alcance do benefício fiscal já seria elemento suficiente para invalidar as operações ou, ao menos, as vantagens fiscais daí resultantes. Tal racional, além de carecer de suporte jurídico, guarda certa contradição com diversas regras e estruturas criadas há muito tempo pelo legislador pátrio, por meio das quais são oferecidas vantagens fiscais a contribuintes que cumpram determinados requisitos expressos na legislação. Daí é que o que se vê, frequentemente, é a criação de requisitos adicionais àqueles previstos na legislação, sem qualquer amparo jurídico, e fundado exclusivamente em uma premissa falsa, e quase preconceituosa de que uma operação que vise a atingir vantagem fiscal legalmente prevista "não vale para fins fiscais". Dizemos que não é preciso ir tão longe já que a questão é bem mais simples: em uma redução de capital motivada por excesso de capital social, o que se espera é que tal ato efetivamente gere a descapitalização da empresa e devolução de recursos aos sócios. Se, mantidas as mesmas circunstâncias, houver uma subsequente recapitalização desta mesma pessoa jurídica, seja mediante aumento de capital, AFAC ou mesmo empréstimo dos sócios, podese dizer que a redução de capital foi simulada, eis que o instituto redução de capital não produziu os efeitos que lhe são próprios e necessários (significa dizer, em termos jurídicos, que não teve "causa"). Vamos a um exemplo um pouco mais extremo, apenas no intuito de ilustrar o que se diz acima: nossa legislação garante determinadas reduções de tributos a contribuintes que se estabeleçam na Zona Franca de Manaus. Pois bem. Quando as autoridades fiscais investigam os contribuintes que se beneficiam de tais incentivos, não questionam qual foi o motivo extratributário que levou à decisão de se estabelecer em tal área. Pelo contrário, muitas vezes tais contribuintes realmente não têm outra justificativa, eis que se distanciam de seu mercado consumidor e não raro não encontram lá uma melhor infraestrutura ou maior oferta de mão de obra qualificada. O objetivo é, portanto, o gozo do incentivo fiscal, e isso é garantido às empresas que cumpram todos os requisitos da legislação independentemente do "propósito negocial" da decisão de se estabelecer na Zona Franca de Manaus. Mas o que se espera de tais pessoas jurídicas? Que elas realmente se estabeleçam na região da Zona Franca de Manaus e lá produzam seus produtos. Assim, uma pessoa jurídica que o faça apenas formalmente, "no papel", não terá direito ao gozo dos benefícios não porque a operação não tenha "propósito Fl. 3230DF CARF MF 76 negocial", mas simplesmente porque a pessoa jurídica não existe como "sociedade empresária", ou seja, por não haver "empresa"1 naquele local. O mesmo se pode dizer da redução de capital. A legislação traz condições para que o capital social de uma pessoa jurídica possa ser reduzido e, uma vez que estas são preenchidas e efetivamente se atinge o resultado pretendido, a consequência da operação (que no caso foi a entrega da participação na Holding G4 aos sócios) deve ser considerada legítima independentemente dos "motivos não fiscais" que levaram à decisão por tal forma de transferir a participação. Daí porque alguns talvez de maneira não técnica qualificam alguns negócios como "abusivos". Tal "abuso" é a qualificação dada à utilização de um instituto jurídico (no caso, o da redução de capital) sem se atingir seu fim próprio ou sua "causa" (e que, no caso, é a descapitalização da empresa e entrega de recursos aos sócios/acionistas). Em resumo, por entender que, de um lado, não houve simulação já que a negociação da participação societária não foi nem de fato nem de direito realizada pela Recorrente, e, de outro, que o planejamento não pode ser considerado ilegítimo eis que a redução de capital e entrega da participação na Holding G4 a seus sócios foi um ato dotado de "causa" (entendida como função econômicosocial ou, como alguns preferem, "propósito negocial"), não vejo como manter a autuação. Não pode ser mantida a autuação no caso em que não há indícios convergentes de prática de simulação ou de "abuso" (este último entendido como resultado ilégítimo dos atos praticados, a despeito de todos serem individualmente lícitos, conforme detalhado acima). Pelo acima exposto, tendo em vista as razões brilhantemente expostas, não há como olvidar que foi feita a operação da forma como descrita pela recorrente sendo que não logrou êxito a fiscalização em demonstrar a suposta simulação da operação. Conclusão: Ante o exposto, oriento meu voto para negar provimento às nulidade e dar provimento ao recurso voluntário da Recorrente, ficando prejudicados os recursos voluntários dos responsáveis. Letícia Domingues Costa Braga Relatora 1 O conceito de empresa pode ser extraído da definição de empresário constante do Código Civil, interpretandose empresário como aquele que exerce empresa: "Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços." Fl. 3231DF CARF MF Processo nº 16561.720117/201582 Acórdão n.º 1401003.012 S1C4T1 Fl. 3.194 77 Fl. 3232DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.906271/2009-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2004
CSLL. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS.
A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei, sob pena de não homologação do pleito. A mera apresentação de DIPJ e DCTF Retificadoras, desacompanhadas dos documentos contábeis e fiscais de suporte, não constituem provas hábeis do indébito.
Numero da decisão: 1201-002.709
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em negar provimento ao recurso voluntário, por unanimidade de votos.
(assinado digitalmente)
Neudson Cavalcante Albuquerque - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Allan Marcel Warwar Teixeira, Luis Henrique Marotti Toselli, Sérgio Abelson (Suplente convocado), Rafael Gasparello Lima, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gisele Barra Bossa, Breno do Carmo Moreira Vieira (Suplente convocado) e Neudson Cavalcante Albuquerque (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei, sob pena de não homologação do pleito. A mera apresentação de DIPJ e DCTF Retificadoras, desacompanhadas dos documentos contábeis e fiscais de suporte, não constituem provas hábeis do indébito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em negar provimento ao recurso voluntário, por unanimidade de votos. (assinado digitalmente) Neudson Cavalcante Albuquerque Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Allan Marcel Warwar Teixeira, Luis Henrique Marotti Toselli, Sérgio Abelson (Suplente convocado), Rafael Gasparello Lima, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente convocado), Gisele Barra Bossa, Breno do Carmo Moreira Vieira (Suplente convocado) e Neudson Cavalcante Albuquerque (Presidente em exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 90 62 71 /2 00 9- 71 Fl. 932DF CARF MF 2 A Recorrente transmitiu DCOMP (fls. 1/5), por meio do qual busca compensar parte do alegado crédito de Saldo Negativo de CSLL relativo ao anocalendário de 2004 com débito próprio. O Despacho Decisório (fls. 6/7) não homologou o pleito do contribuinte, sob a alegação de insuficiência de crédito, uma vez que o pagamento tido por maior já teria sido utilizado para liquidar outros débitos do contribuinte. A empresa, então, apresentou Manifestação de Inconformidade (fls. 12/16). Sustenta, em resumo, que o crédito tributário é oriundo de pagamento a maior de CSLL no anocalendário de 2004, no montante de R$ 2.612.217,12, tributo este que, consoante legislação atinente ao assunto, é administrado pela Secretaria da Receita Federal e é passível de restituição ou compensação, com atualização pela Selic a partir do primeiro dia do ano seguinte, nos termos da lei. Em Sessão de 31 de maio de 2012, a 3ª Turma da DRJ/BEL, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade por meio do Acórdão nº 0125.095 (fls. 64/67), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo: DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ÔNUS DA PROVA. Considerase não homologada a declaração de compensação quando não reste comprovada a existência do crédito apontado como compensável. Em sede de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito. DIREITO CREDITÓRIO. PROVA. DIPJ. INSUFICIÊNCIA. A DIPJ, na condição de documento confeccionado pelo próprio interessado, não exprime nem materializa, por si só, o indébito fiscal. Intimada da decisão de primeira instância em 08/06/2012 (fl. 70), a Recorrente interpôs recurso voluntário (fls. 72/91), por meio do qual repisa as alegações de defesa e reitera a legitimidade do Saldo Negativo informado em DIPJ Retificadora. Encaminhados os autos ao E. CARF, o julgamento do recurso voluntário foi convertido em diligência por meio da Resolução nº 1201000.152 (fls. 204/207), nos seguintes termos: No caso em tela, o contribuinte demonstrou em sua DIPJ um saldo negativo de CSLL, visto que no ano de 2004, foi pago o total de estimativa de R$ 37.690.247,12, contudo, o valor devido era de R$ 35.078.029.99, gerando desta forma o saldo negativo de R$ 2.612.217,13. Ocorre que no momento da formalização do referido crédito através da declaração de compensação, o contribuinte selecionou a opção de “pagamento indevido ou a maior”, Fl. 933DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 3 3 contudo, para essa situação o correto seria “ saldo negativo de CSLL”. Por se tratar desta modalidade de compensação, o primeiro procedimento realizado foi a checagem na DCTF do período, porém tal valor não foi identificado em DCTF como pago a maior, por se tratar de saldo negativo da CSLL. O contribuinte deveria ter assinalado a opção de saldo negativo no momento inicial da confecção da declaração de compensação. Pela utilização indevida do instrumento de restituição/compensação, o crédito ficou disposto apenas na DIPJ do anocalendário de 2004. No entanto, essa obrigação acessória não é suficiente para formalizar a utilização do referido crédito. Em documento de fls. 121, encontrase um demonstrativo da existência do crédito tributário, contudo, o mesmo não é suficiente para efetivar o crédito em questão. Por este motivo, entendo ser necessária a diligência para confirmação e autenticação do possível saldo negativo da CSLL no ano calendário de 2004. Diante do exposto, voto por CONVERTER o julgamento em DILIGÊNCIA para que a Delegacia de origem verifique junto ao Contribuinte a existência e respectivo valor do saldo negativo de CSLL no anocalendário de 2004, bem como, confirme se tal crédito já foi objeto de outras compensações. Após a emissão de intimação e resposta do contribuinte, a autoridade responsável pela diligência elaborou o Relatório de fls. 888/895, do qual o contribuinte se manifestou às fls. 905/919. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais pressupostos de admissibilidade. Dele, portanto, conheço e passo a apreciálo. De acordo com o despacho decisório, o crédito pleiteado pela Recorrente não existiria, uma vez que teria sido utilizado para quitar outro débito, não havendo, com isso, pagamento a maior ou indevido passível de compensação. Fl. 934DF CARF MF 4 Ocorre, porém, que o contribuinte alega erro e demonstra que o Saldo Negativo foi declarado em DIPJ Retificadora, o que levou a realização de diligência tendente a analisar a origem da apuração. Para tanto, foi emitido Termo de Intimação (fl. 219), por meio do qual foram solicitados as apurações mensais e respectivos balancetes contábeis dos meses de janeiro a dezembro de 2004. Após dois pedidos de prorrogação de prazo (fls. 226 e 252), a Recorrente atendeu parcialmente o termo, apresentando, além da DIPJ Retificadora e DCTF, os documentos contábeis (fls. 262/784) apenas do período de janeiro a novembro, mas não de dezembro de 2004. Em face da omissão da apresentação da escrituração e movimentos de dezembro/2004 documentos essenciais para verificar a procedência ou não do direito creditório postulado , assim concluiu a diligência: 14. Do exame das declarações apresentadas pela empresa, verificouse que as parcelas de antecipação da CSLL, referentes aos meses de janeiro a novembro do anocalendário 2004, foram quitadas por meio de pagamento (DARF) ou mediante apresentação de declaração de compensação, conforme se demonstra no Quadro 2, a seguir. 15. Constatouse, ainda, que o total dos valores pagos/compensados a título de CSLL, sob o código 6773, (ajuste anual) coincide com a CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2004 informada na DIPJ original (nº 0735726), no montante de R$5.983.063,30. Essa equivalência de valores, associada ao fato de que, na DIPJ, o ajuste anual não resultou em CSLL a pagar, permitiria, a princípio, considerar plausível a alegação da contribuinte de que teria se equivocado ao utilizar o código 6773, quando o correto seria 2484 (CSLL – estimativa mensal), e que tal equívoco teria se repetido no preenchimento da DCTF, do DARF e das duas declarações de compensação utilizadas para quitar as parcelas desse débito. [...] 16. Ocorre que a DIPJ foi posteriormente retificada, tendo o valor da estimativa mensal da CSLL referente ao mês de dezembro/2004 sido alterada de R$ 5.983.063,30 para R$ 3.370.846,18. Mantidas as demais antecipações da CSLL inalteradas, tal ajuste gerou um saldo negativo no montante de R$ 2.612.217,12, conforme se demonstra a seguir: Fl. 935DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 4 5 17. Somente o exame direto dos registros contábeis e fiscais permitiria atestar o exato montante da CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2005 (R$5.983.063,30 ou R$ 3.370.846,18) e, na sequência, esclarecer se o ajuste anual resultou ou não na apuração de saldo negativo e em que montante. Contudo, conforme mencionado anteriormente, a documentação apresentada pela contribuinte é insuficiente para que se comprove, de forma inequívoca, qualquer um desses pontos. CONCLUSÃO 18. Com base nos fatos acima descritos, podese concluir que: i. O fato de que o ajuste anual da CSLL referente ao ano calendário 2004 não resultou em saldo a pagar, nem na DIPJ original, nem na DIPJ retificadora, permite inferir que a contribuinte pode, de fato, terse equivocado, utilizando o código 6773 no lugar de 2484 ao informar a CSLL estimada para o mês de dezembro/2004 na DCTF e, também, ao preencher o DARF e as declarações de compensação com o intuito de quitar esse débito, cujo valor inicialmente declarado totalizava R$5.983.063,30. [...] iii. O conhecimento do montante exato da CSLL apurada por estimativa para o mês de dezembro/2004 é determinante para que se faça a correta valoração do resultado apurado no ano calendário 2004. Caso a estimativa da CSLL de dezembro/2004 tenha alcançado o valor de R$5.983.063,30, o ajuste anual produziria resultado igual a zero. Se, de outra forma, a CSLL apurada em dezembro/2004 tiver totalizado R$3.370.846,18, o ajuste resultaria em saldo negativo de R$ 2.612.217,12, conforme procurouse demonstrar no Quadro 3, acima. Considerandose que na compensação tributária a contribuinte é autora do pedido de aproveitamento de crédito contra a Fazenda Nacional, temse que à luz do artigo 373, I, do CPC (Lei nº 13.105, de 2015), de aplicação subsidiária no processo Fl. 936DF CARF MF 6 administrativo tributário federal, compete à contribuinte o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito de crédito alegado, mediante apresentação de elementos de prova hábeis e idôneos da existência do crédito contra a Fazenda Nacional para que seja aferida a liquidez e certeza, nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional. Temse, ainda, que o crédito é certo quando não há dúvida relativa à sua existência e é líquido quando é conhecido seu exato valor, ou seja, certeza diz respeito à existência do crédito e liquidez diz respeito ao seu montante. Sendo líquido e certo o crédito (premissa básica à compensação), procedese ao encontro das contas devedora e credora. Nesse contexto, o crédito de saldo negativo de CSLL referente ao anocalendário 2004 informado nas declarações de compensação nºs 31026.57854.090206.1.3.046782, 26635.46220.130306.1.3.047411, 38785.45868.100406.1.3.04 3128, 33506.95295.130406.1.3.042193, 21802.02124.120506.1.3.047107, 34137.15569.140606.1.7.04 9950, 31975.75722.130706.1.3.046619 e 32667.62949.150708.1.3.047806 não atendem aos requisitos de certeza e de liquidez, visto que a documentação juntada ao processo pela contribuinte não é suficiente para comprovar os fatos por ela informados na DIPJ e na DCTF, tanto no que se refere ao valor das estimativas mensais quanto ao resultado do ajuste anual da CSLL do anocalendário 2004. [...] Observase, assim, que após minucioso trabalho investigativo, a autoridade fiscal demonstrou que o alegado direito creditório não é líquido e certo, uma vez que o valor exato da estimativa de dezembro não restou demonstrado e não pôde ser aferido tendo em vista que a documentação relativa a competência de dezembro nunca foi apresentada. Já a contribuinte, embora tenha apresentado os documentos referentes ao período de janeiro a novembro/2004, e já ciente da referida omissão, novamente não apresenta a documentação pertinente para aferir o valor exato da estimativa de dezembro. Mais precisamente, o contribuinte parece ignorar a razão da negativa da autoridade diligenciante, justificando o alegado direito ao crédito exatamente na mesma linha do que já havia dito em sua Manifestação e recurso voluntário, qual seja: Fl. 937DF CARF MF Processo nº 10280.906271/200971 Acórdão n.º 1201002.709 S1C2T1 Fl. 5 7 Isso significa dizer que, muito embora o fisco tenha noticiado a Recorrente de que seu crédito estaria condicionado a comprovação do valor da estimativa de dezembro, ela nunca sanou esse vício quanto a instrução probatória, optanto apenas por reiterar as razões já expostas e não aceitas. De qualquer forma, o fato é que, para fazer jus ao Saldo Negativo que diz ter direito, realmente deveria o contribuinte ter comprovado que a referida estimativa monta R$ 3.370.846,18 (e não R$5.983.063,30), o que se faria por meio da apresentação de documentação hábil e idônea, e não somente com a DIPJ retificada e DCTF, declarações estas cuja validade e confiabilidade das informações dependem justamente dos documentos contábeis e fiscais de suporte. Como bem observou a autoridade fiscal, ainda que a ocorrência do equívoco seja admissível, a simples consulta às DIPJ original e retificadora não permite quantificar de forma definitiva o exato montante da CSLL apurada no mês de dezembro/2004 – se R$ 5.983.063,30 ou R$ 3.370.846,18. O que se tem no caso, contudo, é uma compensação cujo crédito não restou efetivamente comprovado, prejudicando o direito correlato. Em se tratando de compensação, a comprovação da liquidez e certeza do crédito constitui ônus da contribuinte, conforme interpretase do 170 do CTN, in verbis: “Artigo 170 A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública.” Grifei. Vale assinalar, nesse contexto, que a jurisprudência do CARF, conforme atestam as ementas dos julgados abaixo, admite a possibilidade de compensação de indébito, mas desde que haja comprovação cabal quanto à liquidez e certeza do crédito pleiteado, o que não ocorreu. “RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO TRIBUTÁRIO. PROVA. ÔNUS. O ônus da prova do crédito tributário pleiteado no Per/Dcomp Pedido de Restituição é da contribuinte (artigo 333, I, do CPC). Não sendo produzida nos autos, indeferese o pedido e não homologase a compensação pretendida entre crédito e débito tributários.” (Ac. 1102000.890. Sessão de 14/08/2013). “DESPACHO DECISÓRIO E DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. São válidos o despacho decisório e a decisão que apresentam todas as informações necessárias para o entendimento do contribuinte quanto aos motivos da nãohomologação da compensação Fl. 938DF CARF MF 8 declarada. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROVA DO INDÉBITO. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. A DCTF (retificadora ou original) não faz prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas apresentadas pelo contribuinte”. (Ac. 3302 002.383.. Sessão de 02/11/2013). “PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF. PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. AUSÊNCIA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da Dctf, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da liquidez e da certeza do direito de crédito. A simples retificação, desacompanhada de qualquer prova, não autoriza a homologação da compensação” (Ac. 3802002.076. Sessão de 14/08/2013). À falta, então, da demonstração cabal e comprovação de que a estimativa de dezembro/2004 apurada e devida seria de R$ 3.370.846,18, e não de R$5.983.063,30, o direito do indébito pleiteado milita contra a Recorrente. Nesse sentido, e em face do que foi exposto, NEGO PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 939DF CARF MF
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